SUMMARIO
Duas obras recentes—De Ruy Chianca, no Theatro. De Edgar Prestage, em livro—Valor da obra do erudito lusophilo—Trabalho exhaustivo sobre o escriptor seiscentista. A vida do D. Francisco, suas viagens, suas aventuras, sua prisão. Lenda romantica—O duello nas sombras—A sua divisa: Quare?
Estabeleceu certa academia um premio valioso para ser conferido ao sabio zoologo, que escrevesse a mais completa e notavel memoria sobre o Leão.
Trez candidatos concorreram ao certamen: um Francez, um Inglez, um Allemão.
O Francez, espirito vivo, intelligencia captadora, facetada, assimiladora, que lêra Buffon, e admirára a elegancia de estylo com que o nobre Conde escrevia historia natural, empunhando uma penna de ouro, com mão bem tratada e esguia emergindo das preciosas rendas, sobraçou um volume d’essa historia, encadernado em marroquim, or sur tranches, e tomou um carro que o conduziu ao Jardin des Plantes.
Alli, em frente da jaula d’um formoso specimen do rei dos animaes, emquanto as amas e creadas da visinhança ouviam dengosas os requebros dos soldados, e as borboletas se perseguiam amorosas entre a folhagem, estudou os movimentos do soberbo animal, idealizou-lhe a existencia, e, em seguida, n’uma barraca da feira Neuilly, assistiu attento ás coleras d’um bando de leôas, excitadas pelo chicote de uma domadora que, vestida com maillot, dava tiros de polvora secca, em frente das fauces escancaradas dos bichos truculentos.
Poucas semanas depois tinha escripto um volume faiscante, pulverizado de anecdotas, livro de leitura interessante e facil, que foi devorado por milhares de leitores.
O Inglez comprou um fato de linho, um capacete de cortiça, uma boa carabina de caça, varias obras de viagens, um livro em branco para tirar notas e tomou um bilhete a bordo d’um transatlantico que o levou a um porto da Africa.
D’alli penetrou na Libya, procurando a região onde melhor pudesse observar a vida, os usos, os costumes das soberbas féras em plena natureza. Passou noites no embrenhado das florestas, e nas quebradas dos montes, onde echoam os rugidos dos magestosos animaes, e ouviu os bramidos das fulvas leôas amorosas nas clareiras alumiadas pelo luar africano.
Surprehendeu nos antros o ciume das mães; as luctas sanguinolentas entre os machos com o cio; o esphacelar das victimas colhidas nas caçadas. Elle proprio matou valorosamente, para se defender, medonhos leões, e trouxe exemplares preciosos para o estudo da raça. Ao fim de dez annos, tinha escripto um livro bem documentado, vivido, verdadeiro. Um livro de consulta, um livro de sciencia, um livro de bibliotheca.
O Allemão, esse, limpou os cristaes dos seus oculos de ouro, penetrou na bibliotheca imperial de Berlim, requisitou todas as obras de historia natural escriptas nas seis mil linguas que se fallam no mundo, abancou n’um dos mais reservados cantos da sala de leitura, e começou a ler, tomando apontamentos sobre tudo quanto se tem escripto ácerca do Leão, desde as obras fundamentaes de sabios até ás dissertações phantasistas a respeito do leão alado de S. Marcos nos monumentos de Veneza, não esquecendo as referencias á fabula do immortal Phedro. Ego nominor leo... O Allemão tem lido, lido, lido. Já lá vão vinte annos e juntou notas para outros tantos volumes de uma futura obra colossal!
Occorreu-me ao espirito a anecdota que precede ao ler as duas obras recentes (emquanto não apparece a terceira) inspiradas na personalidade de D. Francisco Manoel. O polygrapho seiscentista não é positivamente um leão. Mas o facto de ter sido agora assumpto de um drama de Ruy Chianca, e de um estudo biographico de Edgar Prestage, trouxe-me a confirmação do caso, que tão bem caracteriza as tres raças.
Francisco Manoel de Mello! A todos os que estudam, ainda que superficialmente, litteratura portugueza, este nome recorda o auctor da «Carta de Guia de Casados», dos «Apologos dialogaes», das «Epanaphoras», o diplomata da Restauração, o prisioneiro da Torre de Belem, e mais ainda o heroe do romanesco duello nas sombras, o supposto rival de D. João IV, e a victima da sua paixão pela Condessa de Villa Nova.
Dados estes elementos tentadores, o espirito meridional do sr. Ruy Chianca, todo vibrante ainda do seu triumpho com o exito de «Aljubarrota», toma o auctor do «Fidalgo Aprendiz», colloca-o em scena, apresentando-o entre personagens, mais de imaginação que de historia, e, dando-o como typo da nobreza de sentimentos da raça portugueza, exalta-o e celebra-o.
«Porque é poeta e nobre audaz e ciumento»
e tambem ainda porque, segundo elle põe na propria bocca do seu heroe:
«Poeta e bom fidalgo á moda portugueza
Bato-me onde é precizo em lidima defeza.
Por que? Pela divisa escripta em minha espada.
Por quem? Por meu amor. Por quem? Por minha amada.»
Não sei se quem não conhecer a individualidade de D. Francisco Manoel, tão complexa, e tão cheia de incertezas e de penumbras na vida do coração; quem não tiver perfeito conhecimento das suas obras litterarias, nas quaes o culteranismo, triumphante n’esse tempo, é tão elegantemente subjugado por um bom gosto artistico, raro nos seus contemporaneos; se quem não tiver lido os cem volumes de que se compõe a opulenta lista das suas obras; se quem não tiver saboreado nos «Apologos dialogaes» a «Visita das Fontes» e os «Relogios fallantes» tão ricos de conceitos, noticias, e bom sal attico; se quem não conhecer as discussões ora eruditas, ora piegas da «Academia dos Generosos»; se quem não tiver compulsado os diccionarios bibliographicos de Barbosa Machado e de Innocencio, e os estudos de Costa e Silva, Alexandre Herculano, e Camillo Castello Branco; não sei, repito, se o espectador que assistir desprevenido ao drama intitulado: «Dom Francisco Manoel» ficará com uma ideia approximada do homem notavel, que se chamou assim. É incontestavel, porém, que a sua attenção será sollicitada com sympathia para as qualidades reaes d’esse attrahente vulto, que o auctor do drama phantaziou galhardamente, e para a nobreza de sentimentos, que caracterizam a sua classe, predicados que são postos em formosos versos, n’um peito genuinamente portuguez. E porventura essa obra de arte, concebida e executada com a impetuosidade de um quasi improviso, n’um jacto de lyrismo, induzirá muitos a irem buscar nas fontes noticias acerca da individualidade do heroe, e a lerem nas obras de investigação o que se tem escripto com relação a esse personagem tão rodeado de interrogações, a esse soldado, diplomata, philosopho e poeta, sobre cuja acção politica a historia falla alto; sobre cujo valor intellectual os seus livros são eloquentes attestados, que perpetuam a sua fama; e cuja existencia sentimental a lenda envolve n’uma atmosphera de mysterio propicia ás hypotheses romanescas.
Em todo o caso é obra digna de ouvir-se agradabilissimamente.
O mais recente estudo, o mais notavel, e o que mais noticias encerra ácerca da vida e obras de D. Francisco Manoel de Mello é o «Ensaio biographico», grosso volume in-8.º, que se deve ao trabalho exegetico do escriptor inglez Edgar Prestage.
Espirito namorado das coisas portuguezas, alma lusitanisada até ao amago, a força de seducção que o levára a trasladar para o seu idioma Azurara na «Chronica do descobrimento e conquista da Guiné»; as «Cartas da Freira portugueza»; e o «Suave Milagre» de Eça de Queiroz, attrahia-o, desde alguns annos, para o vulto que no seculo XVII tão caracteristicamente representa a gente lusa, e que melhor cultiva a sonora e doce lingua de Portugal.
Conservando as qualidades fundamentaes da sua raça, e a segurança dos processos na investigação, o critico inglez entendeu que devia usar o idioma portuguez, tratando de um escriptor cuja linguagem Herculano aponta como modelo de estylo «pelo qual se vê quão rica e bella é esta nossa lingua, que para exprimir affectos não carece de neologismos, nem de enredar-se em archaismos». Prestage resolveu pois fallar d’esse portuguez na lingua portugueza.
O esforço enorme assim realizado pelo critico bilingue não se compara á alternativa facil com que os nossos quinhentistas e seiscentistas empregavam indifferentemente a lingua patria e a castelhana, de que é exemplo o proprio D. Francisco Manoel reputado classico, aqui com os seus «Apologos» e «Carta de Guia de Casados»; lá em Hespanha com o seu «Movimento de Cataluña».
Por isso mesmo é mais para admirar a temeridade do escriptor inglez que, habituado a formular a ideia na simples e regular syntaxe de sua lingua, se aventurou a tratar da vida e obras de um requintado cultista, ligeiramente eivado de gongorismo, e tão avesso na redacção complicada do pensamento á simplicidade ingleza quanto a glotte de um saxonio é rebelde á harmonica e suave musica da dicção portugaleza.
O esforçado escriptor sahiu-se da sua empreza com muita honra, e o seu livro que modestamente baptisou com o nome de «Esboço biographico» é trabalho de grande valor, e está destinado a figurar em todas as bibliothecas de estudiosos de Portugal, do Brazil, da Hespanha e da America latina.
Embora por vezes a construcção da phrase deixe no paladar um resaibo, ou ligeiro travo que indica a sua proveniencia britanica, a redacção sempre clara leva-nos arrastados pelo interesse, atravez dos nove capitulos do livro, confiando plenamente na honestidade da factura, e na segurança dos processos empregados.
Para muitos se afigurará exagero de segurança, tanta é a minuciosidade com que se procura uma data: se discute um facto; se verifica uma lacuna; se averigua a existencia de indicios até agora desprezados; e com que se cata as obras do escriptor para n’ellas ir encontrar elementos biographicos.
Mas nunca é demasiada a investigação em livros d’esta indole, ainda mesmo quando as conclusões sejam de natureza negativa.
É portanto bem para apreciar a paciencia com que o auctor da biographia lê attentamente as obras do escriptor; com que interroga todos os que lhe possam fornecer elementos uteis, com que se corresponde com os directores dos archivos nacionaes e extrangeiros; com que entra nos cartorios das antigas familias que ainda os teem; com que examina os registos de nascimento, casamentos e obitos das parochias de Lisboa; com que percorre as ruas, praças e beccos estreitos, e com que estuda antigas plantas da velha Lisboa do seculo XVII.
Procedendo assim, e a exemplo de Herculano que do «Memorial» dirigido a D. João IV tira dados biographicos, consegue, cotejando textos e analysando documentos, alguns até hoje inéditos, e estudando as «Cartas Familiares», as «Tres Musas del Melodino», as «Epanáphoras», etc., reconstituir a vida do escriptor e, o que é mais difficil, sondar por vezes o seu intimo pensar.
No proseguimento d’esta tarefa apresenta Prestage o problema, ainda hoje insoluvel, dos motivos da paixão de D. Francisco Manoel, e da supposta connexão entre a sua desgraça e a aventura amorosa que, segundo alguns, deu causa ao desagrado regio, e á vingança de um marido.
Esse problema desperta a curiosidade, com a attracção irresistivel do mysterio.
O escrupuloso biographo apresenta-o tal como foi posto pelos seus predecessores, e indica as soluções alvitradas. Deixa ao leitor o decidir-se pela solução, que melhor convenha ao seu espirito. E, se não omitte a sua opinião, tambem não a impõe como dogma.
Ora como o caso é interessante; como os enredos que motivaram a prisão do moço militar formam uma trama emmaranhada, que nunca se desfiou bem, nem durante os doze annos de encarceramento, nem quando regressou do exilio, nem depois da sua morte; e, como nos depoimentos da historia apparece, trazido por mexericos, o echo do testemunho d’um avô meu, (echo, note-se bem, mas não voz propria), redobrei a attenção com que li o livro, e especialmente quando dá conta das versões, com que se tem querido explicar o drama.
No livro de Edgar Prestage são apontadas todas essas versões, desde as notas sisudas e graves de Alexandre Herculano, no «Panorama», até ás phantasiosas noticias publicadas por Camillo Castello Branco, na ancia, com que algum tempo enfermou, de deprimir a Casa de Bragança, e com as quaes pretende desatar todas as duvidas, e alumiar todos os pontos obscuros.
É sabido que D. Francisco Manoel de Mello, descendente por sua mãe do Duque de Bragança, degolado em Evora, e portanto ainda parente de D. João IV, depois de estudar humanidades no Collegio de Santo Antão, com o Padre Balthazar Telles, o historiador da Ethiopia, embarcou aos 16 annos, como aventureiro, na armada commandada por D. Manoel de Menezes, o chronista de D. Sebastião.
Batalhou nos Paizes Baixos; e foi como mestre de campo na armada de Antonio Oquendo contra os Hollandezes do canal da Mancha; militou no exercito do Marquez de los Veles, contra a Catalunha revoltada; e já antes da Restauração de 1640 foi diplomata habil por parte do Duque de Bragança, explicando com astucia em Madrid os tumultos de Evora, que inquietavam o Governo hespanhol.
A sua passagem, na Côrte de Madrid, pelas rodas elegantes, deixou fama. E foi festejada a sua assistencia nos celebradissimos saraus e festins, onde soube usar a arte subtil do cortezanismo, e as amaveis manhas de requintada galanteria.
Corria fama da sua maneira de cortejar as senhoras quando, subindo aos estribos dos côches em que passeavam no Prado, elle as entretinha com motes, que provocavam riso e galhofa; e celebrava-se a sua sciencia de bem dizer e engenho em contar casos, ora narrando as proezas de D. Simão da Silveira, em frente do balcão das damas da Rainha, quando lhes fazia terreiro, ora alludindo á naturalidade com que a Condessa de Lalaim, jantando á mesa de Margarida de Valois, se desabotoára, mostrando o seio, para dar de mamar a um filho que creava. A sua conversação salpicada de dictos, de annexins, de anecdotas, de epigrammas picantes, era saboreada com prazer nas tertulias e seroadas, onde por este conjunto de qualidades mundanas, D. Francisco era apreciado como modelo de verdadeiro cortezão: ao mesmo tempo diplomata habil, militar arrojado e poeta galanteador.
Foi, por isso mesmo, bem acceito das mulheres, debicando com ellas se eram «leves e gloriosas, prezadas do seu parecer» (euphemismo com que se referia ás coquettes, a quem comparava a loureiros, por indicar que a qualquer bafo leve de vento se moviam), e sabendo lisonjeal-as, se eram interessantes, com o aguçar-lhes as qualidades femenis, cultivando assim com pericia «toda a casta de damarias e matronerias». E ao passo que desafiava com malicia o riso das que tinham bons dentes, e aquelle feitio a que chamava «graça na boca e cova na face», requestava as que «traziam castanhetas na algibeira, sabiam jacaras, e entendiam de mudanças de sarambeque, com indicios de desenvolturas.» Tinha além d’isso receitas seguras para lidar com ellas, como revela na «Visita das Fontes» com o aphorismo que diz: «A mulher é como a laranja. Se muito apertada logo amarga. Quer-se levada por bem, mas não pelos cabellos.»
Não lhe perjudicava o exito, e o prestigio, a sua fealdade, se realmente era feio, como parece indicar aquella anecdota, que vem referida n’um codice da Bibliotheca Nacíonal de Lisboa, e que é attribuida ao Conde de S. Lourenço. Diz assim:
«A Senhora Rainha D. Luiza tinha um quarto aonde ella só entrava e muito occultamente ia pôr seu alvaiade e seu carmin de cara. Este quarto tinha por cima da porta ou de uma janella, uma bandeira, á qual muitas vezes, estando a Rainha dentro subia um macaco, por lhe permittir o comprimento da sua cadeia e d’alli observava as operações da mascara.
Quebrou o macaco hum dia a sua cadeia e, pela bandeira da janella ou porta, entrou no gabinete; foi-se logo aos unguentos e appareceu no Paço feito muito galante Dama.
A Rainha, desesperada, mandou matar o macaco, na mesma occasião infelizmente que uma Dama do Paço, prima de D. Francisco Manoel, n’aquella occasião preso de pouco, se foi lançar aos pés da Rainha, banhando-se em lagrimas, a pedir a Real intercessão por seu primo que era assaz homem de um semblante muito feio, talvez tanto como era bello espirito.
A Rainha, em colera, persuadida que a Dama lhe ia pedir pelo macaco, deu-lhe logo a exclusão, prevenindo o peditorio, dizendo-lhe: «Não, não. Não me peças por elle que ha de morrer, porque é muito feio.»
Cahiu a pobre Dama com um accidente, fulminada da injusta sentença da Rainha, que condemnou o innocente animal pelo mesmo delicto em que ella era comprehendida e em que tinha sido a mestra do macaco, que por isso mesmo que era feio, queria fazer-se bonito.»
A anecdota é engraçada, mas não nos assegura a fealdade de D. Francisco.
Este Conde de S. Lourenço, meu avô, a quem, diga-se de passagem, são attribuidas com mais ou menos authenticidade muitas anecdotas, nasceu muito depois da morte de D. Francisco Manoel a quem só conheceu por tradição, e pela leitura das obras d’aquelle a que chamava bello espïrito.
Emquanto á prima que desmaiou aos pés da Rainha, quando foi do mofino equivoco, o seu testemunho é suspeito.
Pois que emquanto com os labios o alcunhava de feio, com o indiscreto desmaio trahia o sentimento que a dominava.
Chamava-se ella D. Maria de Portugal, e foi depois Condessa de Penalva.
Era irmã do Conde da Ponte, Marquez de Sande, e acômpanhou como Dama a Rainha D. Catharina a Inglaterra. Quem sabe se nas vigilias da brumosa ilha, não lhe pairava na imaginação a figura do encarcerado primo, menos disforme que a imagem que apresentára á Rainha D. Luiza.
Camillo Castello Branco, não sei com que fundamento, assegura que elle era «gentil, moço de trinta annos, corajoso e poeta, o primeiro e mais galan de quantos então abrilhantavam os saraus da primeira fidalguia».
Não existem retratos para averiguar. Mas o que é tradição é que nas suas peregrinações pela Europa, teve triumphos, e que sejam quaes forem os lances do drama que causou a sua prisão, parece ter captivado alguns corações. Entre elles um, que ficou na lenda.
Seria essa aventura que occasionou a sua desgraça?
Vejamos.
O crime de que foi accusado, e pelo qual foi preso e condemnado, caréce de fundamento.
Um certo Francisco Cardoso, creado do Conde de Villa Nova, D. Gregorio, andava de amores com uma tal Catharina, mulher de um antigo creado de D. Francisco Manoel chamado João Vicente, que fôra despedido por seu amo.
O marido mandou matar por trez homens o Cardoso, sendo o cadaver d’este encontrado em uma viella, que subia para o Limoeiro.
Foi aberta devassa, e os assassinos postos a tormentos declararam que fôra D. Francisco que os incumbira do crime. Os trez sicarios foram justiçados: João Vicente, o marido de Catharina, e antigo creado de D. Francisco, foi condemnado ás galés; e este enclausurado, victima ao que parece de vingança de inimigos publicos e encobertos.
Quem eram elles? É sobre isso que paira o mysterio.
Attribuem uns essa prisão á vingança de D. João IV; outros ao odio do Conde de Villa Nova, porque o moço escriptor era bem querido da Condessa; outros ainda a inimigos politicos que depois de perderem o desgraçado Secretario de Estado, Francisco de Lucena, aproveitaram o assassinato do Cardoso, e o resentimento de um creado despedido, para armarem o tenebroso enredo que perdeu o infeliz D. Francisco.
E todas estas versões se entrelaçam nas sombras, formando um d’estes enygmas historicos, que tentam dramaturgos e romancistas.
A mais romantica das versões é a que se encontra n’um livro de Linhagens attribuido a Joseph Cabedo de Vasconcellos e Manoel Moniz Castello Branco, versão explorada por Camillo com toda a veia de arte e azedume, que caracteriza o seu modo de escrever.
Segundo elle, D. Francisco, apaixonado pela formosa Condessa de Villa Nova, esperava uma noite, cioso e desconfiado, n’um canto escuro do pateo de um palacio, espaçoso vestibulo, que se chamava o Pateo das Columnas, perto do Limoeiro, quando um vulto se approximou embuçado. D. Francisco perguntou quem era. Não recebendo resposta, desafiou o desconhecido, e cruzaram as espadas.
Ao tilintar do ferro accudiu sobresaltada a Condessa, com uma luz na mão. Os duelistas separaram-se.
Mas o embuçado, que era D. João IV, tambem enfeitiçado pela Condessa, conhecera a voz do rival, que lhe era familiar, e d’ahi a vingança attribuida ao Rei.
Esta versão, que é deprimente para todos os personagens, pois faz da Condessa, além de leviana, dobre e refalsada, de D. Francisco um ciumento ridiculo, do Conde D. Gregorio um inverosimil barba-azul envenenador de trez consortes, que successivamente o enganaram, e de D. João IV um rufião de congostas escusas e um algoz coroado, esta versão, repito, não resiste á critica. Embora houvesse no caso um fermento de amores e ciumes que sempre fazem levedar o folhado dos corações, não foi assim baixo o papel de D. João IV, e o proprio Camillo o confessa n’uma nota correctiva publicada, annos depois da primeira afirmativa, na «Bohemia do Espirito» isentando o Rei da responsabilidade dos infortunios de D. Francisco.
O sisudo e taciturno Costa e Silva no seu «Ensaio bigraphico-critico sobre os melhores poetas portuguezes», dá a esta versão um aspecto mais réles e burguez, pois diz que D. Francisco «era victima da vingança de uma alta personagem a quem offendera sem o saber, e sem intenção; pois encontrando-se os dois ás escuras em casa de certa moça, passaram ambos a vias de facto e houve entre elles alguns bofetões».
Por esta fórma o enfadonho Costa e Silva conserva o odioso da historia, tirando o perfume romantico á pittoresca aventura de capa e espada.
Por outra maneira se quer explicar o caso n’uma advertencia, que se encontra no codice da Bibliotheca Publica, a que já nos referimos. Diz assim: «D. João José Ansberto de Noronha, Conde de S. Lourenço, homem de prodigiosa memoria e muito grande instrucção em toda a litteratura e historia, me disse hoje, 4 de Maio de 1790, que não ouvira jámais fallar nesta briga, mas sim que sendo D. Francisco Manoel suspeitoso ao Rei por algumas informações de Castella, ou verdadeiras ou falsas, fizera propor a D. Francisco Manoel, pela Condessa de Villa Nova, o plano de uma conspiração contra o Rei, ferindo pelos mesmos pontos das noticias ou suspeitas que tivera. Á conversação desta nova Dalila assistio o Rei, occulto com hum panno de raz, e o infeliz amante tendo a fraqueza de condescender na proposição, e a fineza de não a denunciar, cahio na desgraça do Rei para não incorrer na de traidor».
O Bispo do Gram Pará nas suas memorias conta a mesma historia pela fórma seguinte: «A Condessa de Villa Nova e Figueiró foi objecto da affeicção de D. Francisco Manoel de Mello. Allude a ella quando diz: Nuevo la vi. D. João IV querendo provar a fidelidade de D. Francisco persuadiu a Condessa que o tentasse.
D. Francisco para lisonjeal-a disse que seguiria o partido de Castella. Foi preso.
Assim m’o revelou o Conde de S. Lourenço».
Essa historia deixa assim collocados, ainda mais desastradamente que a outra, os que n’ella entram.
D. João IV passa a ser um esbirro, um aguazil; a Condessa uma sereia perfida e desprezivel; D. Francisco um patetinha lamecha e pueril; e o Conde de S. Lourenço um bisbilhoteiro indiscreto.
Sem pretender arvorar-me em paladino d’este meu avô, querendo desvanecer defeitos ligeiros que, se porventura os tivesse, eram bem compensados pelas qualidades brilhantes, que dão tão grande interesse á sua personalidade, devo dizer que é muito duvidosa a authenticidade de qualquer d’aquellas affirmativas, e sobretudo das insinuações malevolas que encerram.
A Advertencia, onde são colhidas, é uma nota anonyma lançada n’um codice e não merece grande confiança. A segunda variante é tirada das Memorias do Bispo do Gram Pará, manuscripto publicado por Camillo, de cuja authenticidade alguns duvidam.
Mas se effectivamente o Conde de S. Lourenço tivesse referido o caso a Frei João de S. Joseph, não o affirmava como testemunho (pois a scena se passára havia mais de um seculo), mas apenas como echo dos zum-zuns maliciosos trazidos na tradição, e ainda não registrado na chronica escandalosa.
Este Conde de S. Lourenço foi, com mais trinta e tantos companheiros, preso á ordem do Marquez de Pombal no Forte da Junqueira, onde esteve dezoito annos.
Era tão excepcional a sua memoria que se conta ter escripto nas paredes do carcere o «Velho e Novo Testamento», sem auxilio de livro. Parece que tambem escreveu um «Tratado para a educação do Principe», que nunca chegou a publicar-se.
Os dissabores passados na masmorra, que um companheiro de prisão—o Marquez de Alorna—descreve no livro intitulado «Prisões da Junqueira», deram ao seu espirito uma ampliação morbida na visão das cousas, um poder maravilhoso de evocar personagens e factos que a sua imaginação ideava. Quando sahiu da cadeia, e recolheu á casa da Congregação do Oratorio, onde foi companheiro do poeta Bocage, a originalidade da sua conversação dava a muitos, que não possuiam a facilidade de comprehender os cambiantes da palavra, a impressão de que a sua razão desvairava. Outros, tomando á lettra as divagações da fecunda phantasia, registravam-n’as como assertos. Assim o Bispo do Gram-Pará e o anonymo da Advertencia terão recolhido como affirmações, simples boatos, que o Conde referia, se é certo que os referiu, pois não estava isso na indole intellectual do auctor da «Carta ao Marquez de Ponte de Lima sobre a Regencia do Reino».
Voltando agora ás causas da prisão de D. Francisco Manoel, e pondo de parte as explicações romanescas, (posto que pareça certo que o infortunado poeta teve effectivamente uma paixão pela formosa Condessa) inclinamo-nos a que a perseguição, que soffreu, tivesse sido motivada por odios politicos. Entre os seus perseguidores parece na verdade ter figurado D. Gregorio, o marido da Condessa. Mas não ha indicios de ter sido o ciume que o aguilhoou na sua furia contra o amoroso D. Francisco.
Rancor é certo que existia, como prova uma carta do Embaixador de Hespanha em Roma ao Rei D. Filippe, em que dá noticia de o Conde reclamar contra a presença de D. Francisco na capital, depois de ter sido solto.
Prestage, no seu livro, onde o leitor póde encontrar «tudo o que se tem escripto sobre esta questão tão complexa», aponta de passagem uma circumstancia, que abre um horizonte á critica e um incentivo a novas investigações. Refiro-me á condemnação de D. Agostinho Manoel, parente de D. Francisco. Tudo leva realmente a crer que a causa da accusação fosse semelhante á que tornou suspeitos e acarretou ao patibulo este D. Agostinho, o Duque de Caminha, o Marquez de Villa Real e o Conde de Armamar.
A atmosphera de desconfiança e suspeição, creada na sociedade portugueza pela conspiração dos Grandes contra D. João IV, e o estado de espirito do monarcha, ameaçado de perder a corôa, são motivos sufficientes para explicarem a perseguição que D. Francisco soffreu.
É eloquente aquelle periodo do «Memorial» dirigido por elle a El-Rei, a quem diz: «No mesmo dia em que eu estava diante de um esquadrão (no Alemtejo), governando-o contra os inimigos de Vossa Majestade, estava alguma pessoa—que d’esta pratica já haverá dado a Deus contas—n’esse Paço persuadindo a Vossa Majestade me mandasse prender porque eu sem duvida, a juizo da sua bondade, hia com animo de me passar a Castella. Fundava bem essa sua suspeita em me haver eu escusado de testemunhar contra Francisco de Lucena aquillo que eu não sabia».
É emquanto a mim n’estas palavras do proprio D. Francisco Manoel, dirigidas ao Rei, que se deve ir procurar a explicação da sua odysséa. E na excitação dos espiritos, vibrantes ainda com a tragedia do Rocio que pôz um epilogo á conspiração, é que se deve buscar o fermento com que os inimigos do talentoso escriptor, architectaram a sua desgraça.
Ciumes, se os houve por parte de um marido, só podem ter contribuido para que este diligenciasse prolongar o encarceramento.
Da parte do Rei, que se correspondia em cartas com D. Francisco Manoel, depois de preso, e que até o consultava sobre negocios publicos, não se nota vislumbre de azedume ou rivalidade; como tambem não transparece em tudo quanto D. Francisco escreveu.
Então que resta da imaginada vingança de um Rei que ardendo em zelos ferinos se transforma em «algoz coroado»?
Phantazias de novellistas!
Em toda esta emmaranhada questão aguça-nos a curiosidade saber alguma cousa acerca da heroina do romance (se o houve), aquella requestada Condessa de Villa Nova, cuja physionomia esquiva se rebuça n’uma mantilha de mysterio.
O Conde D. Gregorio foi casado trez vezes. E não concordam aquelles que mais acreditam na rivalidade entre o Rei e o escriptor, sobre qual das trez Condessas enfeitiçou a ambos. Uns preferem para causadora da tenebrosa historia a primeira, que foi D. Brazia ou D. Branca de Vilhena, filha do Conde da Sortelha. Outros talvez prefiram como enredadora do drama amoroso D. Guiomar da Silva, segunda mulher do Conde D. Gregorio e filha do Conde de Odemira. Finalmente, Camillo, seguindo os genealogistas que consultou, decide-se pela terceira, D. Marianna de Lencastre «de peregrina formosura e a mais cantada dos poetas fidalgos d’aquelle tempo».
E com a phantazia camilliana decide sem hesitação que o Conde seu marido envenenara esta terceira consorte, como já tinha envenenado as duas primeiras, e apresenta-o como um Borgia, prodigo em ministrar fortes dóses de peçonha ás successivas condessas.
Ora, a «Historia Genealogica» e alguns linhagistas bem informados dão noticia de que D. Marianna, dezoito ou vinte annos depois d’este drama, não só estava com vida, mas casou segunda vez com o Conde de Aveiras, Luiz Telles da Silva, tendo enviuvado do Conde de Villa Nova a 14 de Abril de 1662.
Se é certo que tivesse havido da sua parte qualquer especie de sentimento pelo talentoso fidalgo, encarcerado a 19 de Novembro de 1644, já de ha muito o coração lhe arrefecera, não tendo resistido á ausencia do amoroso poeta, que ia transitando de carcere para carcere, do Castello para a Torre de Belém: da Torre velha para Ribamar...
E elle? Que sentia na prisão onde permaneceu tantos annos?
«Entrei n’esta prisão honrado, sahirei por força abatido; entrei são, sahirei doente; entrei mancebo, sahirei velho; entrei accommodado, sahirei pobre. Tudo o que perco, e já não posso cobrar, dou por bem perdido quando a grandeza de Vossa Majestade não consentir acabem meus inimigos que eu entrando tambem innocente, saia culpado».
Estas palavras dirigidas ao Rei não dão a impressão de um rival despeitado e opprimido, fallando ao seu competidor victorioso. Não falla ahi (nem é natural que fizesse confidencias amorosas n’um memorial ao Rei) nos sentimentos que porventura o atormentavam, como tambem pouco ou nada se fazem sentir os seus infortunios de coração nas obras que escreveu—cartas, apologos, poesias ou tratados.
Quem, porém, esquadrinhar bem os seus escriptos encontra phrases, que abrem frestas reveladoras sobre a alma do captivo sentimental, que sabia fallar de amor. Assim, diz elle: «quando nisso me ponho, sei amar de uma arte nova. Porém, tambem digo que passar ruins dias e peiores noites por gente loureira é cousa trabalhosa».
Se quando isto escrevia ainda não estava preso, o que sentiria quando nas longas noites da Torre de Belém, banhada pelo Tejo que o luar chapinhava, ruminasse sobre a fidelidade da leviana e loureira creatura que porventura, á mesma hora nos Paços da Ribeira em festa, escutava galanteios e finezas?
«Encerrado en una torre,
me guardan dentro del mar,
como en el nacar la concha
guarda la perla oriental».
Pobre poeta esquecido! Pobre coração atormentado!
Para suavisar amarguras, trocou angustias sentimentaes em moeda litteraria.
As lettras, que são um grande refugio espiritual, trouxeram-lhe uma occupação, e dos annos passados na inactividade forçada resultaram algumas das obras primas da litteratura portugueza.
«Aos emulos que o perseguiram, escreve Herculano, deve elle a gloria que cerca o seu nome.
Se não fosse a dura e larga prisão, porventura teria gastado os seus dias no meio dos tumultos da guerra e dos enredos cortezãos. Assim, os invejosos que pretendiam deprimil-o, foram aquelles mesmos que contribuiram para que lhe coubesse o que neste mundo mais preço e valor tem—o renome e a immortalidade».
Prestage tambem considera bemaventurados os infortunios de D. Francisco Manoel, «que delle fizeram um grande homem e um grande escriptor».
Será assim? Talvez não! Costumam os amadores do canto de certas aves cegal-as com um ferro em braza afim de as tornarem mais canoras e melodiosas. Quer-me parecer que as volatas do rouxinol nos salgueiros, e que os trillos do pintasilgo nas giestas, tem mais sabor e harmonia que os gorgeios por força dolentes do «ruysenhol captivo que canta de noute e faz saudades», ou que o pintasilgo preso ao poleiro, por cadeia de latão, na loja do barbeiro.
É pois de crer que o talento de D. Francisco Manoel, desabrochando livre nos paços, nas salas nobres, nos campos de batalha, no convivio do seu amigo Quevedo—o pae da graça—e nas tardes de ocio no Rocio, onde os casquilhos da Côrte tinham prazo-dado, teria produzido mais «Apologos dialogaes», mais «Guerras da Catalunha», mais «Epanaphoras» e mais obras poeticas, embora fosse mais reduzido o numero de allegações juridicas e memoriaes.
Mas, metade dos seus cem volumes que escrevesse, já eram de sobejo para immortalizar o classico escriptor que marca uma phase na evolução da nossa lingua.
A obra de Prestage sobre D. Francisco Manoel de Mello é o que os Inglezes chamam an exhaustive work.
Desde a noticia sobre a familia em que nasceu, até ao ultimo capitulo em que faz um apanhado sobre o homem e o escriptor, os seus amores e a sua descendencia, o auctor do ensaio vae seguindo com minuciosa attenção cada um dos trabalhos litterarios do prodigioso polygrapho, tirando d’elles preciosos dados para a sua biographia e para a analyse psychologica da sua interessante individualidade.
Os capitulos sobre o exilio no Brazil; sobre as viagens; sobre a «academia dos generosos», em que ha a curiosa relação dos certamens, e a lista dos socios; sobre as negociações para o casamento de D. Affonso VI e sobre a morte do escriptor, encerram paginas não só de biographia, mas de historia.
E dos documentos que são annexos ao volume, alguns ha bem curiosos, como aquelle que testemunha as relações de D. Francisco Manoel com o Governo hespanhol logo depois da Restauração, e que tanto fazem meditar sobre a concepção de patriotismo n’aquelle turvado periodo. Augmentam esses documentos o valor da obra, e tiram-lhe todo o caracter de panegyrico, pois não poupam o espectaculo de algumas mazellas espirituaes.
O ensaio biographico está destinado a ser não só o breviario de todos aquelles que quizerem conhecer D. Francisco Manoel de Mello, mas a formar a base fundamental do monumento que é devido ao inconfundivel escriptor.
Esta obra faz cahir o véo de sobre alguns pontos escuros e duvidosos da vida de D. Francisco Manoel, e, por engenhosas e rebuscadas conjecturas, encaminha o espirito do leitor a hypotheses provaveis. Mas não tem pretenção a desvendar de vez muitas das circumstancias em que está envolvida a existencia do interessante vulto seiscentista, nem dissipar por completo essa nebulose que nunca se esfarrapará em volta do nome prestigioso do escriptor.
No frontespicio de muitas das suas obras figura a enygmatica palavra: «Quare?»—«Por que?»
A concisão com que é feita essa pergunta encerra um mundo de interrogações, que dão á figura de D. Francisco Manoel de Mello juntamente com a poesia do infortunio, a poesia do mysterio.