É incontestavel que um certo movimento altruista se propaga pelo paiz—secundando, ainda que frouxamente, o que nos outros se faz—em favôr dos pobres, principalmente da mulher e da criança.
Uma grande revolução se está preparando, e, como todas as grandes revoluções que têm transformado as sociedades, começa por revolucionar almas, formando um núcleo de espiritos que pelo bem dos outros se sacrificam sem esperar pagas nem incentivos de grosseiros interesses.
O mundo antigo, cheio de preconceitos e de injustiças, sente-se derruir, sem bases seguras onde se apoiar—esfacela-se lentamente até uma derrocada ingloria e completa.
A pouco e pouco, aqui e ali, algumas bôas obras de solidariedade humana têm surgido da iniciativa particular, sem que os governos tenham sequer suspeitado da sua existencia.
E bom é que assim seja, porque só a iniciativa particular, persistente, honesta nos seus processos, sem charlatanismos oficiaes nem interesses politicos a desprestigiá-la, póde fazer mais em poucos mezes do que cincoenta annos dos embaraçantes processos de todos os governos.
É della que tudo ha a esperar, é da acção especial dos governados que confiâmos, pois que dos governantes pouco ou nada póde vir neste sentido, nem é justo, verdade seja, que delles se espere tudo, como se um povo não fosse mais do que ingenuo e eterno bébé sugando a mamadeira que lhe apresenta a criadora.
Tudo esperar do poder central é mostrar que nada podemos individualmente, ou que estamos satisfeitos com o pouco que nos concedem.
Ora a verdade é que ninguem está satisfeito, porque nunca se viu situação mais desoladora, vida mais atropelada e miseravel.
É o nosso paiz aquelle em que mais caro se come, se veste, se viaja, e se tem morada; e aquelle em que menos se ganha, salvo pequenas excepções, que é facil apontar. De dia para dia os generos de primeira necessidade duplicam e triplicam de custo.
Não ha nada, desde o pão até á luz, que se não compre por alto preço; nada que não custe ao pobre incomportaveis amarguras e suores.
É por isso que não ha paiz nenhum em que a tisica, a anemia e a escrofulose tenham mais lauto banquete.
Fez-se, é certo, uma liga contra a tuberculose, patrocinada pelos governos, auxiliada por contribuições obrigatorias na capital, reclamada pelas mil tubas sonoras do jornalismo palaciano.
Não houve penna de escriptor, consagrado pelas gazetas, que se não puzesse ao serviço da bôa causa; não houve paladino que não quizesse descer á liça a romper lanças pelo triumfo da ideia que, partindo modesta e util de baixo, serviu depois muito interesse, deu aso a muita turiferação.
E no fim de tanto afan, tanto barulho, tanto elogio, o que ganhou de positivo e imediato o povo português, na sua grande massa?!
—Come porventura mais barato?
—Tem casas higienicas, onde se abrigue por módicos preços?
—Tem hospitais para todos os seus doentes?
—Asilos para todos os seus velhos?
—Sanatorios para todos os seus escrofulosos e tisicos?
—Escolas para todos os seus filhos?
Nada disso tem, nada disso lhe deram ainda, apesar de tanto que se tem apregoado os beneficios duma liga, que póde ser simpatica como esmola particular e arbitraria duma ou mais pessoas, fazendo pouco porque mesquinhos são os seus recursos, mas que se não deve querer fazer passar por medida de salvação publica...
Todos reconhecem ser pouco o que se tem feito, tão pouco que se torna inutil, para debelar um mal que vem da ruina dum povo e duma sociedade sem orientação; dum mal que está no sangue e no espirito e que ameaça assoberbar tudo e todos.
São incontaveis os escrofulosos, tisicos, anémicos e depauperados na classe pobre. As mulheres definham e morrem como flôres criadas em terra magra, sem ar nem luz; as crianças arqueiam os pobres arcaboiços, onde mal se desenvolvem pulmões predispostos á receptividade do microbio hostil; os homens avelhentam-se e enlividecem, numa aparente senilidade aos vinte ou trinta annos. E tudo porquê?!
Porque a vida é terrivelmente cara em Portugal, e a maior parte da gente não come o que necessita, vive em verdadeiras possilgas, não é preservada devidamente do contagio das molestias que a rodeia, não é iniciada nas mais rudimentares regras de higiene, não é educada de modo a preferir a alimentação e o conforto das casas ao luxo do trajar e demais exteriorisações vistosas.
O caminho a seguir por quem quizesse e pudesse remediar tanto mal, não se limitaria a fundar sanatorios onde se gastam muitos contos de reis e se abrigam, por empenhos, umas desenas de crianças—umas predispostas apenas.
Para essas, mesmo, o bem não é grande e, principalmente, não é duradoiro. Melhoradas pela higiene, pela alimentação e pelos simples remedios reconstituintes, voltam desse conforto e abundancia para a antiga e triste miseria das suas casas, tendo por destino a fatal renovação da doença, logo que deixe de ser combatida, e será agravada com o desespero de se vêrem privadas do bem a que já se haviam gostosamente e metodicamente habituado.
O primeiro passo a dar, para melhorar esta situação angustiosa, seria:—fazer baratear os generos alimenticios de primeira necessidade; estabelecer e auxiliar cooperativas; reduzir os impostos de consumo, que incidem principalmente sobre o pobre que compra a retalho, de modo a que todos pudessem comer quanto é necessario para alimentar uma vida saudavel.
Seria iniciar o sistema de cooperativas edificadoras, tão usado lá fóra; auxiliar grandes companhias que se propozessem dar casas higienicas e espaçosas por módico preço, aos pobres que não podem continuar a viver como hôje vivem em antros infectos e caros.
É mais do que tudo urgente acabar com a exploração dos senhorios que exigem por casas pessimas, loucas exorbitancias extorquidas asperamente á economia da familia pobre.
Ter o seu lar, a sua casa, onde cada prego representa um esforço de vontade e uma consolação de posse; a casa para onde entram os noivos com a alma florida de esperanças, onde nascem os filhos e se podem abrigar os velhos pais doentes; a casa onde põe todo o seu amôr o operario laborioso, que nas horas vagas cultiva no jardim os cravos e as rosas singelas, planta as hortaliças e levanta a parreira amiga que lhe dá a sombra e o vinho; a casa que a mulher limpa e adorna com esmero, porque é a sua, a companheira e amiga de todas as horas; a casa familiar, que deixa de ser uma coisa inanimada e indiferente para se tornar no grande sonho abençoado dos que vão para longe, e dos que ficam abrigados á sua dôce sombra; é para o trabalhador português uma ambição tão desmedida, que poucos a chegam a realisar.
É desta indiferença do povo que não vive comsigo nem se sabe recolher ao interior da sua habitação, ao seu lar, tornado o seu pequeno e querido universo, que não se identifica com as suas coisas e não lhes toma amôr, é deste viver disperso de povo meridional, que vive do ar e do sol, e num dia de passeata alegre pelos campos encontra compensação para todas as suas miserias; que o senhorio tem abusado elevando disfarçadamente, cada semestre um pouco, as rendas—que são hôje um verdadeiro crime social.
Se fossem precisos exemplos para afirmar uma coisa que toda a gente sabe, Setubal seria, para tudo quanto dizemos, um dos mais flagrantes.
Dotada com um luxuoso sanatorio, nem por isso a doença e a miseria a poupam mais.
A grande miseria da população (de vinte e três mil habitantes) é composta por operarios, dum e doutro sexo, que trabalham nas fabricas de conservas de peixe, de pescadores, e de gente de medianos recursos.
Com a afluencia de trabalhadores de fóra, as moradias têm subido a tal preço que uma só familia não tem recursos para as pagar, acumulando-se duas e três em antigos predios insalubres, dentro de ruas estreitas e nauseabundas, onde mal entram o ar e o sol—os grandes purificadores. Ha casas, se tal nome merecem, onde se não póde andar de cabeça erguida, sob pena de a partir no tecto, e onde a escuridão é quasi absoluta. Casinhotos terreos, ahi pelos suburbios, em que as divisorias são feitas com cortinas de chita, e pelos quais um mísero cavador paga por mês, dois mil réis, isto ganhando—quando ganha—quatrocentos réis diarios.
Ha miseraveis velhinhas pedindo pelas portas para pagarem dez tostões mensais pelo abrigo duma barraca forrada de folha de flandres ferrugenta, despresada pelo fabrico de conservas.
Não ha muitos invernos que numa barraca alugada pelo mesmo preço exorbitante a uma familia de pescadores, choveu tanto, em noite de temporal, que o marido e a mulher tiveram de abrigar-se sob um chapéo de chuva, metendo os filhos debaixo da cama para não ficarem completamente encharcados.
Chega a dar vontade de rir, mas do riso que é de lagrimas e de amarguradas censuras tecido; o mesmo riso que se nos esboça numa lástima vendo uma criança deslocar-se em acrobatices de circo.
Quantas gerações de miseria e servidão produziram a indiferença resignada com que se sofre uma existencia de tais alegrias entrétecida?!
Depois, se numa destas habitações se dá um caso de doença contagiosa, vem a policia, a pretexto de desinfeção, rouba aos pobres a sua unica cobertura, queima-lhe a unica enxerga, despedaça-lhe a pouca loiça, borrifando paredes, sobrados e moveis com sublimado corrosivo!...
Urgente seria organisar a fiscalisação sanitaria, de modo que a desinfeção fosse uma coisa séria e prática e não um vexame ou um ridiculo como é,—méra providencia policial quando se tóca a rebate numa ameaça de epidemia.
O que faz então o pobre, victima destas providencias policiaes? Para não ficar mais desnudado do que dantes, arrecada, esconde tudo quanto serviu aos doentes, não sabendo—na sua extrema ignorancia e desoladora miseria—que arrecada sôfregamente a morte, que não pára nem descança de trabalhar nesse fertil campo.
Não seria prático, simples, justo, e até quasi nada dispendioso, que nos proprios hospitaes se montassem estufas de desinfeção para as roupas de todos os doentes e de todos os que morrem de molestias contagiosas; e que a policia se encarregaria de fazer conduzir ali, para essas roupas serem reentregues quando já não constituissem um perigo para os seus possuidores?!
E se ainda os males fossem só estes! Mas a juntar a tantas desgraças que podemos chamar materiaes, ha outras e outras que se prendem de perto com as obrigações moraes dos dirigentes e dos educadores.
Ha, por exemplo, quem fiscalise as condições em que se realisa o trabalho das mulheres e dos menores? A lei que o regularisa é letra morta, e uns e outros trabalham nas peores condições higienicas e em todos os tempos e horas, inferiorisando-se fisicamente, deformando e afeando cada vez mais a nossa raça, que foi bella e fórte.
A mulher não tem quem a eduque e oriente, quem a ensine a respeitar-se e a respeitar em si mesma o futuro dos filhos; e ou não trabalha nada, porque o homem a sustenta e veste, ou se sujeita a tudo, desempenha os mais penosos serviços, quer livre quer em vesperas de ser mãe.
Filhos nascidos, quem pensou em lhes abrir as créches, as escolas-infantis ou maternaes, os asilos-oficinas?... Quem pensou em juntar essas mulheres, irmãs na desgraça, para lhes ensinar como, agremiadas, se poderiam socorrer e fugir á extrema miseria, á doença sem conforto, á fóme dos dias sem-trabalho?
Quem fez sentir aos operarios, a muitos que ganham bastante, mais do que qualquer empregado publico, que a sua grande força estaria na modestia do viver, no cuidado que puzessem em criar higienicamente e em educar os seus filhos?
Quem lhes faz sentir, sem azedume, o ridiculo do luxo que ostentam, nas mulheres e nos filhos, imitando as burguêsas que dizem despresar? Quem lhes incutiu, com as preocupações mais altas do espirito, o horror a essas festas em que a saúde e o dinheiro por igual sofrem um forte abalo?
Como quasi todos os portuguêses, não pensam quanto melhor seria possuirem a casa onde habitam e nasceram os filhos, que os viu sorrir e crescer, que lhes conhece as lagrimas e as alegrias. Quanto seria preferivel, á taverna que os envenena e fére toda a sua geração, o theatro que educa e diverte, criando uma atmosfera mais pura para o espirito. Quanto mais proveitoso lhes seria fundar e frequentar bibliothecas, serem emfim os iguais ou superiores aos que hôje imitam, não pelo trajar que é vaidade de pouca monta, mas pela educação e pela consciencia dos seus direitos e deveres!?
Cigarras imprevidentes e tagarelas, nos dias quentes de bôa féria, quem entre nós os póde criticar?
Defeito de educação, defeito endemico na nossa terra, que vem descendo do alto, num turbilhão de vaidades insatisfeitas, numa aspiração desenfreada de ser mais do que efectivamente se póde ser, pelas exteriorisações da vida faustosa, com vestidos ricos, numa inveja que faz imitar sempre os que julgam acima, na escala social...
Mais do que uma liga contra a tuberculose, tal como se tem manifestado, seria proveitosa á nossa raça devastada pela doença, uma liga contra a fóme e contra a ignorancia que tudo obscurece e preverte.
A IGNORANCIA DO POVO
Não ha ninguem que não tenha ouvido, pensado, ou dito centenas de vezes—que o maior mal do nosso paiz é a ignorancia, que o analfabetismo é a causa mais flagrante da nossa decadencia moral.
É realmente a verdade, a triste verdade que nos envergonha e inferiorisa aos nossos proprios olhos.
Mas são sómente os governos os grandes responsaveis d'este atraso vexatorio do nosso paiz?
Não corresponde o desleixo em que os governantes têm deixado cahir a instrução publica, á criminosa indiferença individual dos governados por essa instrução geral, que é o orgulho dos paizes cultos?!
Não são os governos que fazem os povos, mas os povos que fazem os governos; e estes, forçosamente, hão de promulgar e cumprir as leis que a consciencia colectiva e fórte duma sociedade reclama, porque correspondem a uma necessidade ou a uma aspiração nitida da alma popular.
Assim o prova o pouco mais de interesse que a instrução do povo vae despertando entre nós, mercê das reclamações e lamentações que de ha poucos annos a esta parte se vem ouvindo, numa propaganda lenta, mas fructuosa, de alguns espiritos dedicados.
O governo deve auxiliar a iniciativa individual, deve, por assim dizer, sancioná-la e impulsioná-la; mas ser elle sómente o encarregado de nos dar todos os progressos e todos os melhoramentos, é inadmissivel para espiritos que aspiram a ser livres e desejam uma patria livre.
Nos paizes cultos, sob os governos mais inteligentes e progressivos, o que vêmos? A iniciativa particular realisar tudo ou quasi tudo, e os governos adoptarem os melhoramentos, auxiliarem-nos, serem como que o vigia dos actos individuaes, não o tutôr, a Providencia, que nós pretendemos que seja, por preguiça de pensar e trabalhar.
Depois duma senhora fundar em Paris a Maternidade, a instituição que mais eleva o espirito altruista do nosso tempo, é que a municipalidade resolveu imitá-la, criando por seu turno outra casa similar.
Foi depois de miss Nightingale educar e apresentar as suas enfermeiras modelos, livres de todo o espirito de sectarismo e instruidas segundo todas as regras da higiene moderna, que o governo inglês as enviou á Crimeia, onde déram as suas primeiras e brilhantissimas provas, e as adoptou nos seus magnificos hospitaes, onde são exemplo para todo o mundo.
Por toda a parte se fundam institutos, se realisam obras de solidariedade, protectoras e pedagogicas, que os governos sancionam depois, que ajudam a manter e a espalhar, se o resultado corresponde aos sacrificios exigidos.
Decretar no papel sem que a prática mostre que a inovação está de harmonia com o caracter etnico do povo, corresponde a uma necessidade colectiva ou foi precedida duma propaganda inteligente e conscienciosa, dá o triste resultado que produzem no nosso paiz as reformas, em geral, e a da instrução em particular.
Senão, vejâmos. Como todos sabemos, estão criadas escolas e decretada a instrução obrigatoria ha tempo bastante para que a actual geração fosse filha, e até neta, de gente sabendo lêr.
E o que sucede?
O numero de analfabetos é enorme, e os que sabem alguma coisa é tão pouco, e tão mal aprendido, que mais se póde dizer que igualmente nada sabem.
Isto porque o professor é, em geral, uma pessoa que arranja esse oficio como podia arranjar outro qualquer, sem vocação, sem comprehensão do que seja o ensino e da responsabilidade com que vai arcar, tomando sobre si o encargo de iniciar pequenos cerebros obscuros no luminoso cultivo intelectual.
É muito grave e delicado o oficio, e não sei de quem o possa tomar de ânimo leve, só com mira nos magros proventos.
O verdadeiro professor é o sacerdote das ideias, que levantam e comovem hôje a humanidade.
Por elle, a criança deveria ter do estudo a ideia prática e util que é a base de toda a educação moderna, mórmente se é dada a pobres, sem tempo para perderem em inutilidades e bonitos. Por elle, a criança deverá receber uma noção simples, mas geral, de tantissimas descobertas com que dia a dia se augmentam os conhecimentos humanos, e saberem a maneira de utilisarem pràticamente o que aprenderam.
Mas não sucede assim. Os professores, miseravelmente remunerados como são, sem coragem nem iniciativa para luctar, alguns educados por processos archaicos, sem uma feição prática e utilitaria no seu método; como hão-de ensinar o que não lhes foi ensinado e não podem aprender por si, pela carestia da vida, e até pela falta de pequenas bibliotécas de vulgarisação e ensino? Por isso elles se não interessam senão por um ou outro dos seus discipulos mais inteligentes, que irá a exame e lhe dará honra e lucro, se a familia é abastada.
Os outros, a turba-multa, quando o trabalho os reclama para fóra da escola, mal sabem soletrar, escrevem a custo os seus pobres nomes obscuros, e não chegam a comprehender que vantagem lhes pode advir d'esse favôr da sociedade.
E estes são ainda os que vão á escola, que a grande maioria, principalmente nos campos, nem sequer se incomoda a frequentá-la.
É verdade que ha leis que obrigam os pais a mandar os filhos á escola; mas que monta se essa mesma lei exige dos pequenos estudantes o uso de sapatos, e os pais, não tendo para comer, dispensam muito bem essa exigencia da civilisação?
Fazem-se leis obrigando os pais a mandar os filhos para as escolas; mas que importa isso se para aprenderem precisam de comprar livros, que são carissimos, e elles não têm que lhes sóbre para pão?
Fazem-se leis obrigando os pais a mandar os filhos á escola; mas como poderão estar as crianças umas poucas de horas sem comer, visto que os pais lhes não podem dar merenda e cá por fóra sempre vão apanhando dez reisitos em troca de pequenos serviços, rebuscando, farejando, pedindo como cães vadios, mas comendo afinal?!
Fazem-se leis obrigando os pais a mandar os filhos á escola; mas de que serve isso se a escola é de dia como a oficina e a fabrica, e os pobres não podem dispensar o trabalho das crianças, já ganhando o seu pequeno salario, já ficando em casa com os irmãositos, emquanto as mães vão moirejar por fóra?!
Segue-se pois que a criança do povo está condemnada a uma eterna penitenciaria de ignorancia, se antes da escola não houver a créche, não houver o hospital para parturientes, e, antes do hospital, não houver a maternidade, que é a casa onde a mulher pobre passa com descanço salutar os ultimos mêses da gravidez; se, ao lado da escola, não houver a oficina escolar, o asilo modelo donde a criança, rapaz ou rapariga, sáia preparada para entrar desassombradamente na vida, sabendo ganhar a sua subsistencia pelo oficio que escolheu. Da escola, assim acompanhada, deverá a criança sahir sabendo lêr, escrever e contar, sabendo sobretudo trabalhar metodicamente e com nobre orgulho da sua profissão.
Ora é isto o que os governos, só por si, não pódem fazer se os não auxiliar a bôa vontade e iniciativa particular, já fazendo propaganda entre o povo, já distribuindo livros gratuitamente, fundando escolas e bibliotécas, dando premios ás crianças aplicadas, contribuindo para tornar a casa de estudo artistica e agradavel, ensinando mesmo os professores e fornecendo-lhes maneira de se educarem nobilitando o ensino, por assim dizer.
É da iniciativa particular que devem partir as bôas ideias exequiveis, que o governo será obrigado a auxiliar e adoptar, quando a opinião pública as impônha.
É isto o que é preciso fazer e é isto o que esperâmos vêr realisado em breve no nosso paiz. Porque, ao lado de muitos que usam a caridade mirabolante como orchidea de fantasticas fórmas para espanto das gentes rastejantes, ha lucidos espiritos que fazem o bem pelo bem, como um dever, como um simples acto de justiça.
Porque dever, porque justiça, é pensar nos que têm fóme, nós que nunca lhe sentimos os tormentos; é pensar nos que são ignorantes porque não têm maneira de se educar, nós que nascemos num meio em que nos instruimos sem querer; é pensar nos que sofrem vendo os filhos fenecer e morrer por falta de alimentação e higiene, nós que podemos criar os nossos em melhores condições.
É pensar em todos os que sofrem, sem razão para sofrer,—só porque o acaso os faz nascer num pobre albergue em vez de casa rica ou remediada—mas não para lhes dar a esmola que deprime e desmoralisa, que habitúa o espirito aos favôres do acaso, e que é injusta porque obedece ao arbitrio individual, mas para dar sem distinção nem favôr, a todos, porque todos o merecem, a educação que enobrece, a luz que vivifica, o alimento, o ar, a agua, a casa, a saúde e a alegria emfim, a que todo o ser humano tem direito.
Não é o luxo, não é o superfluo, que é forçoso dar, é apenas o necessario, apenas o que é justo.
E se todos, principalmente as mulheres, puserem nesta campanha a energia do seu querer, a nobrêsa da sua dedicação, temos o direito de esperar uma hora breve de mais justiça e de mais alacridade para este miseravel povo português, amortecido pela ignorancia e pelo sofrimento.
MULHERES DESNATURADAS, MÃES DESNATURADAS
É vulgar encontrar-se na leitura diaria dos jornaes titulos assim alarmantes, sob os quais os reporters juntam á pressa meia dusia de adjectivos ferozes, na narração detalhada de qualquer crime, ou simples tentativa, de infanticidio.
Não ha muito ainda que dois jornaes dos que se dizem mais livres encimavam umas vulgares noticias do genero com os titulos que reproduzimos.
Numa, era a criada de servir que voltava da terra com o filho recem-nascido dentro duma canastra e que o atirára pela janela do vagon em que viajava, se um empregado não evitasse o medonho crime.
A outra era um simples caso de engeitamento, por miseria, tambem por parte duma criada de servir.
Ora quando jornaes avançados, que se dizem desprendidos da rotina e do preconceito, usam para tais casos de tão violentos epítetos, o que não dirão os outros, os arbitros triumfantes do convencionalismo burguês, os fartos interpretes duma sociedade hipocrita, que nas prégas do seu manto de pudicicia abriga crimes mais revoltantes do que os cometidos por esses monstros moraes descriptos com tanto asco!?
Mães desnaturadas, essas miseraveis, decerto! Mas com quanta desculpa a atenuar-lhes a brutalidade do delicto!
E a justiça a que aspirâmos, a justiça nobre e alta que é o objectivo supremo do nosso ideal de nova sociedade melhorada e feliz—quanto é licito ao homem sê-lo, sem cuidados de sobre-posse nem exigencias loucas—a justiça que não se cobre com leis, nem venda os olhos para não discernir, não póde castigar todos os casos pela mesma rigorosa interpretação dos codigos, não deve julgar sem atender ás determinantes e, sobretudo, ao gráu de responsabilidade do delinquente.
Poderemos, acaso, esperar do ignaro e rude trabalhador—que de sol a sol tira dos musculos o esforço que produz o pão do seu alimento e o dos filhos, e á noite, extenuado e brutificado, adormece pesadamente, até que novo sol lhe traga novas canceiras, e alegrias tambem, mas rudes e vulgares como a sua alma deseducada—poderemos, repito, exigir a esse a mesma visão clara, a mesma responsabilidade moral que deve existir no homem culto que no recesso da sua alma pesa e mede os seus actos, conhecendo leis, conhecendo direitos e deveres?!
Poderemos chamar a essas mulheres mães desnaturadas, porque abandonam um filho, que já fôra abandonado pelo pai? Um filho que não seria mais do que um tropeço para a sua vida de trabalho; que hôje lhes custaria a sustentar com a escassa soldada de criadas de servir e ámanhã lhes custaria mais, infinitamente mais, a vestir, a alimentar e a educar?!...
—Queria matá-lo, sinistramente, arremessando-o á linha a toda a velocidade do comboio, por uma noite escura e tragica, como quem alija demasiado pêso na lucta de um naufragio, como quem num esforço se alevanta e sacode dos hombros um fardo com que não póde...
E não era esta exactamente a verdade? Quem ensinou a essas mulheres de vinte annos, abandonadas á propria sorte, pontapeadas pela sociedade, enganadas pelos homens, servindo quem as despresa e maldiz, só toleradas porque são uteis—bestas de carga para criarem e servirem os filhos alheios—quem lhes ensinou a ser mães?
Quem lhes ensinou sequer a ser mulheres, na acepção nobre e alta da palavra, e não tão sómente a femea brutalisada e despresada pelo homem, quando o saciamento matou o desejo carnal?
Quem lhes disse que o fructo que de seus efémeros amôres lhes ficou nas entranhas é um ente crédor a todo o seu respeito—já não digo ao seu afecto, que se não póde obrigar—de que são apenas as depositarias e sobre o qual não têm direito de vida ou de morte, embora da sua propria vida se alimente?!
Quem lho terá ensinado?
A lei, mandando-as depois do crime feito para um presidio ou para uma penitenciaria? Não, porque a lei não ensina os ignorantes, vinga nos culpados os sentimentos conservadores da sociedade que a fabricou.
A lei, cahindo rígida e inexoravel sobre a cabeça de um condemnado, que lhe não conhece o alcance, não converte um criminoso, cria um hipocrita ou um revoltado.
Quem ensinou essas desgraçadas que hôje choram no segredo do aljube,—não de remorso, que não podem sentir, mas de pavôr—que era um crime menor aos olhos da sociedade, que só cura de aparencias, em vez de abandonar ou matar um filho nascido, tê-lo desfeito misteriosamente, quando ainda mergulhado na noite da sua vida uterina, mas com tanto direito á luz e á existencia consciente como depois de nascido?!
É de presumir que tenham tentado primeiro esse crime como tantas que se vêem a braços com uma situação tão absurda e condemnada, quanto é vulgar e desculpavel.
Alguem lhes incutiu na consciencia essas simples noções de sã moral?
Certamente ninguem em tal pensou.
E se o que ellas praticaram, ou tentaram praticar, é um crime abominavel, o outro não o é menos. A diferença está em que um é conhecido, impõe-se pela brutalidade do facto; o outro é ignorado, não se prova facilmente e é praticado a sangue frio por muitas mulheres que se dizem honestas e para as quais a sociedade não ajunta pedras com que as lapíde, nem escancara aljubes onde as sepulte.
—São peores do que as féras—dizem os moralistas que se não pejarão, talvez, de deixar outras mulheres na mesma situação embaraçosa—porque todas as femeas têm o instincto da maternidade e todas, em geral, se sacrificam pelos filhos.
Opinião já feita e que não representa mais do que uma vulgar figura de rétorica, que a sciencia desmente a cada passo.
O instincto não é igual em todos os seres, pois os mais infimos na escala zoologica como os mais superiores individualisam-se no seu modo de sentir.
Se ha caracteristicos proprios a uma certa raça, entre essa mesmo salientam-se individuos cujas qualidades e defeitos são uma negação de todas as regras.
É certo que o instincto da maternidade é um caracteristico de todas as femeas, e, no emtanto, ha muitas, entre os animaes, que matam e até comem os filhos.
Ha mulheres que fazem pelos filhos os mais inacreditaveis sacrificios, tudo lhes dando, tudo achando pouco para elles; como o pelicano, arrancam de si proprias as pennas com que lhes afôfam a existencia. São as instinctivamente mães aquellas que se deixariam matar antes do que vêr maltratar um filho. A javarda ama tanto as suas crias, que persegue até á morte o caçador atrevido que lhe rouba um bacorinho da ninhada; e, no emtanto, algumas ha que os comem, quando a próvida natureza lhes deu mais do que podem aleitar.
Estas tambem obedecem ao seu instincto, forçando a lei que nos dá, naturalmente, a seleção da especie.
E o que é o homem sem educação mais do que um animal de instinctos baixos, dotado de faculdades imitadoras para simular os gestos e a voz dos outros homens?!
A superioridade do ser humano não consiste em andar com a espinha direita e em poder erguer a cabeça para a luz, não! A sua superioridade está em comprehender a justiça e ter a consciencia do bem, coisas que sómente a educação póde incutir no espirito dos que não têm comsigo a bondade instinctiva dos doceis.
Condemnar sem defêsa nem atenuantes a mulher desprovída de recursos, exposta ao escarneo e ignominia da sociedade, quando abandona ou mata um filho, é impiedoso.
Se fosse uma criatura heroica poderia reparar o que se convencionou chamar falta, tirando do seu trabalho, miseravelmente pago, a sustentação do filho. Mas não é heroi quem o quer ser, e o egoismo individual é por vezes tão imperioso, que a criatura se ergue num desespero bruto de féra que quer viver, despedaçando tudo quanto lhe embaraça os movimentos e lhe pêa a satisfação das suas necessidades materiaes.
Sentimentos, afectos, inteligencia, tudo se obscurece e oblitéra perante as exigencias materiais da vida, que a sociedade, á força de querer melhorar, transformou em lucta sangrenta em que sucumbe a maior parte.
—É preciso castigar—dizem ainda os moralistas, na velha teoria inquisitorial e barbara—é preciso dar o exemplo, atemorisar...
Mas, para quê, perguntâmos?!... Se o acto criminoso depende da tára fisiologica que dispõe determinada criatura á loucura do crime, como tornar um doente responsavel pelo seu mal?
Se o delicto fôr determinado ocasionalmente, pelas condições especiais da existencia, o mal tem remedio, e deve remediar-se, acabando com os factôres que concorrem na sociedade para que tantas desgraçadas sofram o que essas pobres estão sofrendo agora.
Conheci uma criatura que, estando a servir, lançou um filho recemnascido numa cloaca, como quem, enojado, deita fóra um trapo imundo. O que a não impedia de que fosse uma pobre criatura humilde e inofensiva, e de ser para os outros filhos, senão uma bôa mãe no sentido completo da palavra—o que a ignorancia e a pouca inteligencia lhe não permitiam—pelo menos amoravel e dedicada, sacrificando-se para os alimentar e vestir.
O que determinou essa mulher a cometer tão repugnante crime? A circunstancia ocasional de estar bem numa casa donde não queria sahir e da qual seria fatalmente expulsa, conhecido que fosse o seu estado.
O instincto maternal existe, certamente, mas a miseria umas vezes, outras a educação, o egoismo e as exigencias brutais da vida, têm-no obliterado em grande parte das almas femininas. Como se explicaria por outro módo o horror ao filho, que existe, que é flagrante, em quasi todas as mulheres casadas?!
A alegria com que muitas proclamam não terem filhos que lhes dificultem e atropelem a existencia, estarem assim socegadas nos seus lares sem crianças, é uma bem clara próva. A indiferença com que a mulher pobre vê ir para o céo o filho que a sua incuria, quasi sempre, mata, é bem conhecida dos medicos para precisar ser mais frisada.
E isto não é um mal dos nossos dias nem da nossa sociedade, é hôje como hontem, como será sempre.
Á proporção que o individuo se civilisa, isto é: tem a noção mais clara do bem-estar que lhe póde advir não se sobrecarregando com responsabilidades, que nem sempre tem a certeza de cumprir, começa o horror ao casamento e consequentemente aos filhos que o embaraçam.
Isto que nos parece um facto peculiar dos nossos dias, e tanto sobresalta a França, já se deu na Grecia, já se deu em Roma, com maior intensidade ainda, não obstante todas as leis e costumes que compeliam o homem a constituir familia e a dar filhos á republica.
Apesar de tudo, o horror ao casamento manifestava-se, principalmente nas mulheres, que fugiam, pelo celibato, aos encargos da maternidade e ao captiveiro do lar.
Depois, se chamarmos a essas mulheres, que a ignorancia e a miseria desculpam, mães desnaturadas, que palavras achariamos no dicionario para as ricas e ociosas, que ao nascerem os seus filhos os atiram para os braços duma ama, que depois os entregam aos cuidados problematicos das criadas de acaso, e mais tarde os afastam do lar e do conchêgo da familia, como espúrios, para a solidão moral do collegio; não para que estudem e se habituem cedo ao trabalho, mas para que as não incomodem com suas traquinices e turbulencias, nem as envelheçam aos olhos dos estranhos?!
Essas não os matam, porque a carnicería do acto repugnaria aos seus nervos susceptiveis e seria tão repulsivo, para os seus finos dedos scintilantes de joias, como matar uma galinha ou estripar um coelho, coisas no emtanto que as suas cosinheiras fazem com a maior indiferença. Alem disso, não lhes faz mingua o dinheiro para os alimentar e vestir, e mais tarde—passada a idade do garridismo pessoal—é um gosto continuar a figurar por elles e com elles.
Pobres filhos, os destas mães!...
Para as outras reclamariamos, em vez de cadeias, oficinas e casas honestas que as recolhessem com piedade, e as ensinassem com desvelo a amar os filhos que a sociedade tem todo o interesse em recolher e educar para a alegria de viver e de ser util, porque na terra não ha muito quem o seja e menos quem o saiba ser.
E esses pequeninos seres, que tanto pesam hôje ás pobres mães sem marido que lhes ajude a criar e educar, não arrastariam pela vida fóra a vergonha de não ter nome de pai, antes fariam recahir sobre o covarde que fugiu á responsabilidade dos seus actos todo o despreso das almas honestas.
Então, a sociedade, melhor orientada, não terá tanto despreso pela mulher iludida e atraiçoada no seu amôr, que a miseria e ignorancia tanta vez desculpa, como pela calculista maliciosa que procura o casamento como emprego, como posição, que a livre de situações equivocas, legalisando-lhe todos os desvarios.
A PROPOSITO DUMA GRÉVE