III
NOITE DE SAN’JOÃO

Este romance é e não é da minha simples composição. Estavam-me na saudosa memoria as vagas reminiscencias d’aquelles cantares tam graciosos com que, na minha infancia, ouvia o povo do Minho festejar a abençoada noite de San’João; estavam-me as fogueiras e as alcachofas de Lisboa a arder tambem na imaginação; e eu era muito longe de Portugal, e muito esperançado de me ver n’elle cedo: aqui está como e quando fiz ésta cantiga.

Foi em San’Miguel, as antenas dos nossos navios ja levantadas para sahir a expedição;—soltámo-las ao vento d’ahi a horas... Isto escrevia-se na quinta do meu velho amigo, o Sr. José Leite, cavalheiro dos mais distinctos, e velho o mais amavel que produziu o archipelago dos Açores.

Tambem alli estavam, para inspirar o poeta, uns olhos pretos de quinze annos, que promettiam arder ainda tanta noite de San’João, fazer queimar tanta alcachofa por sua conta!... Ja os cubriu a terra.

Faz hoje dez annos que aquillo foi; e ainda não invelheci bastante para o esquecer.

O romance é tam feito dos ditos e cantares do povo, que nem uma idea nem talvez um verso inteiro tenha que seja bem e todo meu. Por este motivo, principalmente, lhe dei logar aqui.

Lisboa, 23 de Junho 1842.


Na collecção ja citada, a LUSITANIA ILLUSTRATA, part. II, pelo Sr. J. Adamson appareceu a traducção ingleza d’este romance, que vai transcripta no appendice ao LIVRO II do presente ROMANCEIRO.

Sabe-se tambem de uma versão em Italiano, e de outra em Allemão, que não chegámos a ver ainda.

Abril, 16—1853.

OS EDITORES.

NOITE DE SAN’JOÃO

Té os moiros da Moirama
Festejam a San’João:
San’João, San’João, San’João!
Dae-me peras do vosso balcão.
CANTIG. POPUL.

I

—‘Meia noite já é dada,
San’João, meu San’João,
N’esta noite abençoada
Ouvi a minha oração!
‘Ouvi-me, sancto bemditto,
Ouvi a minha oração,
Com ser eu moira nascida
E vós um sancto christão:
‘Que eu ja deixei a Mafoma
E a sua lei do alkorão,
E só quero a vós, meu sancto,
Sancto do meu Dom João.

II

‘Como eu queimo ésta alcachofa
Em vossa fogueira benta,
Amor queime a saudade
Que no peito me rebenta.
‘Como arde esta alcachofa
Na vossa fogueira benta,
Assim arda a negra barba
Do moiro que me atormenta.
‘Como ésta fogueira abrasa
A minha alcachofa benta,
Ao meu cavalleiro abrase
A chamma de amor violenta.

III

‘Sacudi do alto do ceo
Vossa capella de flores,
Que n’este ramo queimado
Renasçam por meus amores.
Orvalhadas milagrosas
Que saram de tantas dores,
N’este coração, meu sancto,
Acalmem os meus ardores.
San’João, meu San’João,
Sancto de tantos primores,
N’esta noite abençoada,
Oh! trazei-me os meus amores!’

IV

Ja se apagava a fogueira,
Ja se acabava a oração,
Ainda está de joelhos
A moira no seu balcão.
Os olhos tinha alongados,
Batia-lhe o coração:
Muita fe tem aquella alma,
Grande é sua devoção!
Ouviu-a o sancto bemditto:
Que, por sua intercessão,
D’aquelle extasi acordava
Nos braços de Dom João.