—‘Ouvi-me, senhor: culpada
Sou eu só...’ a triste espôsa
Lhe diz; mas não ouve nada
Aquella alma furiosa,
Ja n’este mundo rallada
De quanta pena horrorosa
No inferno está guardada
Para crimes como o seu.
XVI
Parte, corre;—o brado horrivel
Por todo o castello soa
Tam medonho como troa
Medonho trovão d’outomno.
Despertos do brando somno
Todos são:—ordens que deu
São taes, que de horror tremeu
A gente absorta e pasmada.
Tristemente obedecendo,
Co’a face ao chão inclinada
Se vão a medo, e mal crendo
Que não seja sonho vão
O que ouvindo e vendo estão.
XVII
Do castello para um lado
Uma antiga tôrre havia
Cercada de largos fossos,
Que é memoria haver fundado
Um rei mouro que vivia
Ha muito, de quando os nossos
Mourisca gente regia.
Alli uma espôsa sua,
Que elle achou ser-lhe infiel,
Sette annos e mais um dia
Fechada a teve o cruel,
Sozinha, a grilhões e nua;
E só pão sêcco lhe dava,
Mas agua não consentia
Que nunca ninguem lh’a desse
Para que á sêde morresse.
Valeu-lhe quem tudo póde,
Que ao infeliz sempre accode:
Vinha-lhe orvalho do ceo,
De que os sette annos bebeu.
E emfim o septimo anno
De tal milagre vencido
Foi o proprio rei tyranno,
Que a liberdade lhe deu,
E do crime commettido,
Se o havia, se esqueceu.
XVIII
Para ésta tôrre deserta,
No verão ao sol exposta,
Que abrasado a queima e tosta,
No rigor do hinverno aberta
A chuvas, á ventania,
Sisnando—quem tal diria!
Mandou a filhinha linda,
Que alli fechada gemesse,
A virtuosa Adozinda!...
E ai de quem agua lhe desse,
Lhe desse vestido ou cama,
Que da sêde á morte crua
—Qual o mouro a sua dama—
Alli quer que morra nua,
De todos desemparada,
De seu pae amaldiçoada,
Só da triste mãe chorada!
XIX
Sem dar somente um gemido,
Sem se carpir nem queixar,
Como a ovelhinha tremente
Que sem dar nem um balido
Se deixa á morte levar,
Vai Adozinda innocente
Para aquella feia tôrre.
Pranto que furtivo corre
De quantos olhos a viam
A acompanha tristemente.
E o pae!... Ancias que o remordem
Ninguem as sabe nem vê.
N’um aposento incerrado,
Onde nem ao mais privado
Concedido é metter pé,
Só ficou, só permanece:
Só!—antes acompanhado
De quem os seus não esquece,
Do remorso,—do peccado.

CANTIGA QUARTA

You do me wrong, to take me out o’the grave:—
Thou art a soul of bliss: but I am bound
Upon a wheel of fire, that mine own tears
Do scald like molten lead.
Shakspeare.
I
Sette annos e um dia
Foi a sentença cruel
Que Adozinda cumpriria
N’aquella tôrre fechada.
E o tyranno bem sabia
Que nem tres dias somente
Viver podia a innocente
Com a sêde, a denudez.
Uma semana é passada
Passado é um mez e outro mez,
Anno e annos decorreram;
E os sette annos feneceram
Sem que Adozinda formosa
Em tal mingua perecesse,
Sem que ao menos desmer’cesse
Em seu rosto uma só rosa.
II
Veio um dia—n’esse dia
O captiveiro acabava—
No mais alto o sol ardia
E a terra toda abrasava,
Na tôrre uma voz se ouvia,
(E é ésta a primeira vez)
Era uma voz que pedia,
Que supplicava piedade:
—‘Uma sêde, uma só d’agua,
Uma só por compaixão,
Que me abraso n’esta fragua,
Que me estalla o coração.’
III
A voz de Adozinda bella
Todos clara conheceram;
C’os olhos na alta janella
De toda a parte correram:
—‘Vive, inda vive!’ bradavam,
‘A innocente! vinde ve-la.’
E uns aos outros recontavam
Das virtudes, da paciencia
D’aquelle anjo d’innocencia
Que, ha muito, morta julgavam.
—Outra vez se torna a ouvir
O mesmo clamor sahir
Da torreada prisão:
—‘Uma sêde, uma só d’agua,
Uma só por compaixão,
Que me abraso n’esta fragua,
Que me estalla o coração!’
IV
A todos se commoveu
O mais intimo do peito,
Mas não ousam a affrontar
Do pae o sevo despeito.
—‘Tem paciencia, anjo do ceo!’
Com lagrymas responderam,
‘Que ja não póde tardar
O pae que te vem soltar.
Os sette annos decorreram,
O dia está a acabar;
Soffre mais este momento,
Que hoje acaba o teu tormento.’
V
—‘Oh! como heide eu supportar,
Amigos meus da minha alma,
Se a vida sinto acabar,
Sinto abrasar-me da calma?
Sette annos me accudiu Deus,
Que por milagre vivi,
Dava-me orvalho dos ceos,
De que sette annos bebi.
Do estio ardentes queimores
No meu corpo os não senti,
Do hinverno os frios rigores
Tambem esses não tremi.
Mas ha tres dias que a mão
Do Senhor me abandonou.
Tudo, tudo me faltou...
Oh! tende de mim piedade!
Uma sêde, uma só d’agua,
Uma só por compaixão,
Que me abraso n’esta fragua,
Que me estalla o coração!’
—De novo alto chôro ergueram,
Lastimado pranto gemem;
Mas de seu tyranno tremem,
Só a chorar se atreveram.
VI
Soa a nova no castello,
Vai correndo em derredor,
De que porfim fôra ouvido
Aquelle anjo soffredor
Soltar queixoso gemido,
Piedade emfim suppllicar.
Só a Auzenda, que expirando
No leito da morte jaz,
Para que morresse em paz
Vão a noticia occultando.
Mas soube tudo Sisnando,
E no duro coração
Ja vacilla a crueldade,
Ja vislumbra a compaixão:
Dos seccos olhos covados,
Que inspiravam medo e espanto,
Como que da mão tocados
D’algum anjo punidor,
Salta repentino o pranto,
Qual onda que estalla em flor
Sôbre o penedo ourissado.
Todo em lagrymas sanguineas
O infeliz debulhado,
Para aquella infausta tôrre
Com incerto passo corre
Em altos gritos bradando:
—‘Agua! trazei agua, vinde,
Accudi á desgraçada,
A uma filha malfadada
Que por mãos de seu pae morre!’
VII
Assim correndo e gritando
Chegava á horrivel prisão
Em que gemia Adozinda:
—‘Filha, filha, é tempo ainda;
Perdão, ó filha, perdão
Para este algoz...’—Cortou-lhe
O excesso da paixão
Lingua e fôrça; a voz quebrou-lhe,
E por morto cai no chão.
VIII
Oh! que povo se ajuntava
No castello de Landim!
E com que horror que elle olhava
Para aquelle triste fim
De tammanho cavalleiro,
Tam ricco e grande senhor,
Tam esforçado guerreiro!
A Auzenda chega o rumor
Do successo inesperado,
Dá-lhe fôrça e vida amor;
O fio meio cortado
Da existencia lhe atou.
Ei-la se ergue, e em mal-firmado
Passo corre—e lá chegou.
IX
E ja por ordem de Auzenda
Co’a porta negra e tremenda
Investem da tôrre erguida:
Range o ferro, os gonzos gemem,
Parece que ja rendida
Vai de todo;—á roda tremem,
Do fundamento aluida
A tôrre, os solidos muros.
Mas em vão de centenares
Dos mais rijos braços duros
Se movem os instrumentos
Que em muralhas mais valentes
De castellos regulares,
De mais solidos cimentos
Têem a miudo triumphado.
X
Parece incanto:—será?
O povo maravilhado
Ja por tal, tremendo, o dá.
Cessam todos, incantado
É o negro portão ferrado...
E o povo desanimado
Da impreza desiste ja.
XI
Arreda, arreda, infançoes,
Cavalleiros, dae logar,
Com licença, nobre dama,
Que ahi vem um sancto ermitão:
Com as suas orações
Este incanto hade quebrar,
Ou, se do demonio é trama,
Com o seu bento condão
Elle o hade desmanchar.
—Ei-lo chega:—este semblante
Não é aqui desconhecido...
Ésta barba, este vestido...
É elle, o mesmo ermitão
Que a noite de San’João
(Não ha dez annos ainda)
No castello pernoitou,
—Que Sisnando o maltrattou.
Mas, por a bella Adozinda
Pedir muito, lá ficou.
XII
Com a cabeça cuberta
Do seu agudo capuz,
Os olhos de côr incerta,
Pasmados, fixos... e a luz
Que d’elles sai é tam viva
Que a espaços da vista priva
Quem de perto os quer fitar!
As mãos cruzadas no peito,
Vagaroso seu andar,
Tam pesado e de tal geito
Que faz um echo tremendo
Quando os passos vai movendo,
E como que a terra e o ar,
Com o pêso vão gemendo...
—Foi seu caminho direito
Da tôrre á porta ferrada;
Sem attender a mais nada,
Sem olhar nem para Auzenda,
Que em lagrymas debulhada
Supplices mãos lh’estendia.
Chega á porta, e em voz horrenda
—‘Abre-te!’—disse. Estallou
O ferro medonhamente,
E a porta se escancarou,
—Mas elle subitamente,
Voltando-se para a turba,
Que alto alarido alevanta
E em derredor se perturba,
Com gesto que aos mais ousados
Todo o ânimo quebranta,
—‘Immudecei!’ lhes bradou.
Ficaram todos callados;
E—immudecei—revibrou
De echos em echos dobrados
Pelo castello e jardim,
Pelos soutos ao redor,
Pelos campos dilatados
Que a Dom Sisnando obedecem
E por senhor reconhecem
Ao ricco-homem de Landim.
—Depois estendendo a mão
Ao logar onde jazia
Por morto no frio chão
O desgraçado Sisnando,
Éstas palavras dizia
Que em ouco som vão soando:
—‘Eu te esconjuro,
Alma perdida,
Volta-te á vida!
‘Que o teu peccado,
Abominado
Do proprio inferno,
Só tem perdão
Com longa vida
De penitencia,
De contrição,
Que a alma perdida
Salve do inferno,
Da maldicção.
‘Eu te esconjuro,
Alma perdida,
Volta-te á vida!
‘O anjo celeste
Na hora última
Te perdoou,
E ao Pae Eterno
A tua victima
Por ti rogou
‘Lazaro immundo,
N’esta grande hora
Volve-te á vida,
Vem, surge fóra!’
XIII
Em pé está Dom Sisnando:
Vivo está, morto parece,
Tam negro veo lh’innoitece
O verde-pallido rosto,
Onde o seu sêllo ja pôsto
Tinha o archanjo da morte.
XIV
De joelhos o ermitão,
Com a cabeça cuberta,
Á porta da tôrre aberta
Faz breve e baixa oração.
Eis violento repellão
A terra, tremendo, deu,
E d’alto abaixo a muralha
Largamente se fendeu.
Viram todos claramente
O interior patente
Em que jazia Adozinda,
D’onde ha poucas horas inda
Sua voz se ouviu clamar,
E por uma sêde d’agua
Ao seu algoz supplicar.
XV
N’um leito de frescas rosas,
Que aromas do ceo recendem,
Morta Adozinda jazia:
Suas feições mais formosas,
Mais angelicas resplendem.
Uma suave harmonia
Tam brandamente soava,
Que ao coração parecia
Que por piedade o affagava
A quem saudoso gemia.
—A alva frente, não tocada
Pela mão da morte livida,
De lirios do ceo coroada
Brilhava com luz tam vivida
Que parecia toucada
De puros raios do sol.
As mãos postas sôbre o peito
Para o ceo se alevantavam,
E como que d’alma justa
Para a morada apontavam.
XVI
Oh! que vista, oh! que momento
Para a triste mãe!—Faltava
Só este último tormento.
A malfadada cuidava
Que nenhum padecimento
Para gemer lhe sobrava!
Era este.—E a dor ignora,
Não sabe o que é padecer
Quem o filhinho que adora
Não viu ainda morrer...
XVII
Levantou-se o ermitão
E bradou:—‘Ajoelhemos,
E a mão de Deus adoremos.’
—Submissa resignação
Póde a voz tolher á dor,
Não tira do coração
Seu espinho pungidor,
Que em silencio é mais cruel,
Rasga mais, e na ferida
Mais acre derrama o fel.
A paciencia soffrida
Da triste Auzenda cedeu;
Não exclamou, não gemeu,
E em tributo de respeito
Sua mágoa fechou no peito.
XVIII
E Sisnando?—O desgraçado
No pó da terra humilhado,
Só se lhe conhece a vida
Na agitação comprimida
Do convulso soluçar.
XIX
Para a ermida do castello
Emfim o corpo levaram
E n’um cofre d’ouro fino
Como reliquia o guardaram.
—Muito a não carpiu Auzenda,
Que a morte compadecida
Cedo a libertou da vida.
Porêm a longa existencia
De remorso e penitencia
Sisnando foi condemnado:
Cuberto de horror e opprobrio
Cumpriu seu mesquinho fado;
Onde?—Ninguem mais o soube.
Do castello aquella noite
Com o ermitão se sumiu;
Nunca mais d’elle se ouviu.
Mas á meia-noite em ponto
Na capella de Landim
Se ficou sempre escutando
Gemer uma voz medonha,
Que pede perdão bradando:
E essa voz diziam todos
Que era a voz de Dom Sisnando.