—‘Portas do castello, abri-vos,
Correi, pagens e donzellas,
Que é chegado meu senhor,
Meu espôso e meu amor!’
Auzenda bradava e corre.
Portas se abrem, soam vivas,
E o echo da antiga tôrre
Com o som festivo acordou.
—‘Viva, viva Dom Sisnando!’
E o tropel que dobra e cresce,
E ás portas que chega o bando
Dos guerreiros triumphantes.
Do corcel suberbo desce
E aos braços anhelantes
Da cara espôsa voou.
Doce amor que os apertou
Não lhes deixou mais sentidos
Que para se ver unidos,
Ajuntar-se peito a peito,
E em laço tam brando e estreito
Longa saudade afogar.
A Auzenda gotteja o pranto,
Pranto que é todo alegria;
E o rosto que nunca infia
Do esforçado lidador
Tambem sentiu—mais que a dor
Póde o gôso!—descuidada
Uma lagryma sensivel
De seus olhos escapada.
X
Mas as lagrymas de gôsto,
Como as de mágoa, teem fim;
Dom Sisnando inchuga o rosto,
E tomando a mão á espôsa:
—‘D’onde vem, lhe diz, senhora,
Que a joia mais preciosa
Não vejo d’estes meus paços,
D’onde vem que aos meus abraços
Minha filha?..’ A filha bella,
Pasmada, trémula, a um lado,
O rosto ao chão inclinado,
Parecia humilde estrella
Que ao primeiro raio vivo
Do sol que no alvor reluz
Não fica, não, menos bella,
Porêm pállida e sem luz.
XI
Tres annos ja são passados
Que Dom Sisnando a não via,
N’essa joven, linda dama
Sua filha não conhecia.
—‘Ei-la aqui, senhor,’ dizia
A mãe, que d’um braço a trava,
‘Ei-la aqui.’—Os olhos crava
O pae na formosa filha,
E de assombro e maravilha
Mudo, estatico ficou.
Cora Adozinda, suspira,
E—‘Pae!’ disse em voz tremente
Submissa...—; languidamente
Ajoelha, osculo frio
Na paterna mão imprime:
Pranto que atelli reprime,
Corre agora em sôlto rio.
—‘Que tens tu, filha querida,
Que assim choras tam carpida?
É teu pae, que hade querer-te,
Que hade amar-te como eu te amo.’
E tomou-a nos seus braços,
E a levanta Auzenda bella.
Pasma o pae, suspira ella;
E a custo os doces abraços
De pae, de filha se deram.
XII
Pouco alegre a companhia
Entrou nos paços brilhantes;
E os atabales soantes
Pregoaram festa e alegria
No castello de Landim.

CANTIGA SEGUNDA

But yet thou art my flesh, my blood, my daughter!
Shakspeare.
I
Oh! que alegrias que vão
Pelos paços de Landim!
Que magnificos banquetes,
Que sumptuoso festim!
Juncto ao valente campeão,
Á cabeceira da mesa
Ficou a bella Adozinda.
A tam celeste belleza
Estão todos admirando;
E o imbevecido Sisnando
Não se farta de abraçá-la,
De beijar filha tam linda.
Auzenda de gôsto chora,
E abençoa a feliz hora
Em que tanto amor nasceu.
—‘Inda bem’ diz ‘que a rudeza
De tanto lidar com armas
Á innocencia, á belleza
Da amada filha cedeu!’
Ella as caricias paternas
Ja não ousa de esquivar-se;
Cora, mas deixa abraçar-se;
Ve-se que tantos affagos
A repugnancia venceram
Da timidez natural,
—Ou, se outra causa fatal,
Mais incuberta ella tinha...
Ao menos lh’a adormeceram.
II
Ja de exquisitos manjares
Os convivas saciados,
De folias e cantares
Pagens, donzellas cançados,
E dos brindes amiudados
Finda a primeira alegria,
Doce repoiso pedía
Quanto ésta noite em Landim
Velou em baile e festim.
A seus nobres aposentos
Adozinda retirada,
Com permissão outorgada
—A custo—do pae, se foi.
Auzenda, em grave cortêjo
De suas damas rodeada
Deixou ha muito o festêjo,
E em seu camarim deitada
Espera o momento anciosa
Em que a sós a amante e a espôsa
Nos braços de Dom Sisnando
Se hãode em breve confundir.
III
Como um tapete mimoso,
Juncto ao paço de Landim
Se estende jardim formoso,
De boninas arrelvado
Da verde gramma e de flores:
Remata em bosque frondoso
Cujos opacos verdores
Eternas sombras acoitam.
—De pesados sentimentos
Oppresso o peito fremente,
A respirar livremente
O ar puro da noite fria
Entrou insensivelmente
Dom Sisnando em seu vergel
Jamais tam rico docel
De azul bordado d’estrellas
Se estendeu por sôbre a terra
Do estio nas noites bellas.
IV
Alta a lua vai no ceo,
E as sombras leves e raras
Não impedem ás florinhas,
Não tolhem ás aguas claras
De brilhar co’a luz nocturna,
Menos resplendente e fúlgida,
Porêm mais suave e placida,
Mais amavel que a diurna.
Manso o vento, que murmura
Entre as folhas brandamente,
Convida suavemente
A respirar, a bebê-la,
Essa fresca viração,
Das flores exhalação,
Tam doce como o bafejo
De dous amantes queridos
Quando por amor unidos
Se dão mútuo e doce bejo.
V
Na feiticeira belleza
Da noite, do ceo, das flores
Várias d’aroma e de côres,
Sisnando todo imbebido,
No seio da natureza
Do resto do orbe esquecido,
Pouco a pouco a agitação
D’alma lhe foi abrandando,
E o pesado coração
Do affôgo desappertando:
Ja póde gemer,—suspira,
E como que se lhe tira
Um pêso de sôbre o peito,
Que a suspirar foi desfeito.
VI
Porque geme, porque anceia
Dom Sisnando, o lidador?
Sisnando, o triumphador,
Cujo alto pendão campeia
Victorioso e senhor
Por tanta suberba ameia
De nunca entrado castello,
De jamais vencida tôrre!
—Dor que lhe nasce no peito
É dor que no peito morre;
Ancia que lhe ralla a vida
Não é para ser sabida.
—E desde quando? ha tam pouco
Feliz e ditoso ainda,
Com tanta alegria e júbilo
Festejada sua vinda!..
Vassallos, espôsa, filha...
Filha!.. A filha é tam formosa!
Oh! essa Adozinda bella
Nos olhos incantadores
Tem com que matar d’amores
A metade dos humanos!
Não, não é peito sensivel
Peito que lhe resistir:
Mas o pae!.. não é possivel.
VII
Não é, não é.—Mas Sisnando,
Sem saber onde caminha,
Melancholico e pesado,
Insensivel foi entrando
Pelo bosque immaranhado
Que ao jardim avizinha:
E o silencio, que o seguiu,
Que no espesso coito habita,
Nem um verde ramo agita,
Nem uma folha buliu.
—Á toa por entre as árvores
Sem seguir carreiro ou trilho,
Nem guiado d’um só brilho
De froixa estrella que entrasse
Por tam medonha espessura,
Ora lento e vagaroso,
Ora os passos apressura,
Ja por caminho fragoso,
Ja por vereda macia,
Té que n’um claro onde os troncos
Escasseiam de repente,
E onde pallido e tremente
Seu reflexo a lua infia,
Sem o saber, foi parar.
VIII
Agreste, não feio é o sitio,
Medonho, horrivel de ver;
Porêm tem a natureza
Horrores que são belleza,
Tristezas que dão prazer,
Mão d’arte alli não chegou;
A virginal aspereza
Ficou em toda a rudeza
Que a creação lhe deixou.
De um lado, choupos anciãos
Seus ramos lobregos pendem,
E o vivo seixo fendem
Crespas raizes nodosas
Das sovereiras annosas
Que as cortiças remendadas
Têem dos estios lascadas
A pedaços a cahir.
—Do outro, altivos rochedos,
Como do ceo pendurados,
Diffundem pallidos medos
Que em funda gruta acoitados
De espectros a povoaram.
—Di-lo toda a vizinhança,
Que ou são sombras de finados,
Ou de negras bruxas más
Alli ha nocturna dança.
—Redobra ao sítio o pavor
Um jôrro alto que despenha
Saltando de penha em penha,
E os echos em deredor
Vai temeroso acordando.
Este unico som d’horror
Á callada solidão
Da mudez quebra o condão.
—Sisnando, o ardido Sisnando,
O do forte coração,
Sentiu soçobrar-lhe o ânimo:
Uma voz dentro do peito
Lhe diz que não passe ávante;
Mas outra voz mais possante,
Outra voz que é voz do fado,
Voz que ao mortal desgraçado
Não deixa fôrça ou razão,
Lhe brada: Persiste, segue...
—Ai do que a ella se intregue,
Que se intrega á perdição!

IX
No seixo cavada grutta
Tem escassa entrada aberta,
Quasi de todo cuberta
De festões d’hera lustrosa
Que cingindo a rocha bruta
Pende em grinalda ramosa.
Entre as folhas, que meneia
Ligeiro sôpro de vento,
Viu Sisnando—e alma lhe anceia—
Um lampejar vago, incerto
De luz fraca,—ouve um accento
De voz doce mas gemente,
Voz que se ouve que está perto,
Que intoa suavemente
Uma angelica harmonia,
Tam triste que faz chorar!
E ésta voz assim dizia
Em seu languido cantar:
—‘Anjos do ceo, acudi-me,
Valei-me, sanctos do ceo,
Que me rouba mais que a vida
Quem só a vida me deu.
‘Sancto ermitão, que me deste
Aquella esperança ainda
Que a desgraçada Adozinda
Viria a ser venturosa
Apóz de longo penar...
Sorte que vieste
Sôbre mim deitar,
Sorte desastrosa
Vem ver começar.
‘Anjos do ceo, acudi-me,
Valei-me, sanctos do ceo,
Que me rouba mais que a vida
Quem só a vida me deu.
Mas ah! tam negro crime,
Tam horrida paixão
D’um pae no coração...
D’um pae...—Como é possivel!
Não, não, não hade entrar.’
X
—‘Pois treme, infeliz, e sabe
Que essa horrorosa paixão
Aqui n’este coração...’
Sisnando, a quem ja não cabe
No peito a angústia, o tormento
De tam criminoso amor,
N’estas vozes de terror
Rompendo, a caverna entrou.

XI
Oh que pavoroso instante!
Os anjos todos cubriram
Seus rostos co’a aza brilhante;
Sem vento os troncos d’emtôrno
A ramagem sacudiram;
A lua no ceo mais pallida
Como de susto infiou
E para traz da montanha
Foi correndo, e se eclipsou.
XII
Quem hade a filha chorar
Que está nos braços paternos!
Oh! quem se hade horrorizar
Dos beijos doces e ternos
Que o amor...—Que amor é esse
De ouvir tam medonho horror
O proprio inferno estremece,
E só lá... ha tal amor!
XIII
Oh! como heide eu cantar
Se no peito a voz me treme!
Historia que é de chorar,
Quem a diz não canta, geme.
—Só não gemia Adozinda,
Que toda morta, gelada,
Sancto Deus!—mais bella ainda,
Na viva rocha, estirada
Como um cadaver ficou.
XIV
E o pae ousou levantá-la,
E apertar juncto a seu peito
Aquella morta belleza!
—Repugnou a natureza;
E, da paixão a despeito,
De si a affasta, vacilla...
O anjo da sua guarda
Inda um momento o resguarda...
Mas ha na terra ou no ceo
Fôrça maior que a paixão,
Que subjugue um coração
Que d’amor indoudeceu?
Se a ha, não lhe acudiu Deus,
Venceram peccados seus.
Lembrou-lhe fugir... ficou:
Sim, lembrou-lhe a salvação...
E á sua condemnação
O infeliz se votou.
XV
Geme, chora; altos soluços
Do peito lhe véem bradando;
Porêm fugir de Adozinda
Não póde o triste Sisnando.
Ella acorda, e em voz sumida:
—‘Piedade, senhor, piedade!...’
Só pôde dizer: perdida
Nos echos da soledade
Vai soando e murmurando
A voz triste e condoida.
Ouve-a elle; e o coração
No peito lhe estremeceu;
Na execranda pretenção
Recúa,—mas não cedeu.
XVI
Palavras que lh’elle disse,
Respostas que lh’ella deu,
Oh! não as contarei eu,
Não as contará ninguem....
Quiz que lh’ella promettesse
(E a terra alli não se abriu
Quando tal a um pae ouviu!)
Que para a noite seguinte,
Quando tudo em paz jazesse
Em seu leito o recebesse....
XVII
Chora a infeliz, chora, geme,
De horror e de pasmo treme:
Insta o perigo imminente,
A esperança na demora....
Com voz cortada e gemente:
—‘Senhor, não insteis agora,
Deixae-me cobrar alento,
E ámanhan responderei.’
—‘Pois solemne juramento
Farás de que...’—‘Sim, farei...’
—‘Que ámanhan, antes que o dia
Do horisonte despareça,
Darás resposta final
E ai de ti, ai do mortal
A quem ousasses!...—Pereça
O infeliz n’esse momento:
Só a morte, só o inferno
De meu cru resentimento
O poderiam salvar.’

CANTIGA TERCEIRA

I must a tale unfold whose lightest word
Will harrow up thy soul; freeze thy blood;
Make thy two eyes, like stars, start from their spheres.
Shakespeare.
I
Que mau fado, que hora má,
Oh! qual agoirada estrella
Levou Adozinda bella
Á fadada grutta escura?
Que foi ella fazer lá?
No mais denso da espessura,
A tão aziagas horas,
Só, alta noite, a deshoras,
Sem donzella ou escudeiro,
Como o pedia a decencia,
Sem levar mais companheiro
Que sua debil innocencia,
Que seu joven coração!
II
Quem o sabe?—No castello
Nem a propria mãe, que a adora,
Que pela filha querida
Dera tudo, dera a vida...
Nem a propria mãe sabê-lo!
E como é que Auzenda ignora,
Por que incanto ou maravilha,
Que ao pino da meia noite
Todos os dias a filha
O escuro parque atravessa,
E tenteando a treva espessa
Vai sosinha áquella grutta
Que no mais claro do dia
Ninguem a entrar ousaria?
—Mas vai; não o sabe Auzenda:
N’este segredo fatal
Coisa sobrenatural,
Coisa medonha, tremenda
Ha por certo... oh! que inda mal!
III
Desde aquella madrugada
Que Adozinda em seu balcão
Fallou c’o velho ermitão,
De noite á grutta fadada
Sempre vai. Sibille o vento
No bosque medonho e feio,
Ás nuvens o pardo seio
Rasgue horrisono trovão,
Nada teme; a passo lento,
Só, para alli se incaminha
E em rezas, em penitencia
Horas longas jaz sosinha.
Talvez d’aquelle romeiro,
Por salutar providencia,
Seu fado lhe foi preditto;
Talvez lhe fôsse prescritto
Por tam sancto conselheiro
Que passasse em oração
N’aquellas medonhas fragas
Certas horas aziagas
Em que a fatal conjuncção
D’um astro seu inimigo
Maior fizesse o perigo
Da terrivel maldicção
Que a persegue,—ella inocente!—
Que tam injusta cahiu
N’aquella votada frente...
Mas diz que não ha condão
Peior que o da maldicção!
E quantas não attrahiu
Sôbre a familia inculpada
A suberba despiedada
D’esse orgulhoso Sisnando?
Quantas vezes o infeliz,
C’os filhinhos expirando,
Á porta do seu castello
Se viu gemendo e chorando,
E o desalmado senhor
Essa gentalha atrevida
Escorrassar a mandou!
Taes peccados não guardou
Para os punir na outra vida
O supremo Arbitrador.
IV
Mas ja despontava o dia,
Que tam alegre hoje vem,
Tam risonho parecia,
Que não dissera ninguem
Senão que traz alegria:
—E tantas, tam negras mágoas,
Nunca as trouxe o sol nascente
Desde que assoma no oriente
E se sepulta nas aguas.
Toda a noite longa, immensa,
Auzenda velou chorando,
De suas lagrymas regando
O leito viuvo e só;
A ninguem sua dor intensa
A desgraçada confia:
Ninguem da triste houve dó,
Que do espôso em companhia
Todo o castello a julgou.
Porêm a noite passou,
E porfim, do novo dia
Ja o alvor vinha raiando,
Sem apparecer Sisnando.
V
É manhan;—tenue inda a luz,
Mas ve-se que é madrugada.
Auzenda ainda acordada
Sente abrirem-lhe com tento
A porta do aposento,
E entrar...—‘Será elle?... Oh vem!
És tu, suspirado espôso?!
Disse ella em timida voz:
Não lhe responde ninguem.
Um suspiro doloroso
Lhe dissipou a illusão.
Oh! quem se hade inganar
Com aquelle suspirar!
É Adozinda,—voaram
Do maternal coração
Toda a mágoa e dissabores;
E os sentidos que ficaram
Foi para amargar as dores
Que n’aquelle ai a assaltaram.

VI
—‘Filha, filha... a ésta hora!
Que succedeu?... que tens tu?’
Callada Adozinda chora.
—‘Ai, não, não me chameis filha!’
Rompe em fim, a soluçar,
Nadando n’um mar de pranto.
Pasmo, terror, maravilha,
Susto, medo, horror, espanto
No peito da triste Auzenda
Em confusão estupenda
De tropel foram quebrar.
—Que será?—E esse tyranno
De todo o socêgo humano,
Dúvida, o monstro fatal,
Que até nos deixa a esperança
Paraque do incerto mal
Seja maior a pujança,
Venha mais fino o punhal
Quando n’alma se nos crava,
Esse do peito lhe trava,
E ao cruel padecimento
Dobra angústias e tormento.
VII
Adozinda, ajoelhada
Juncto ao leito onde convulsa
Jaz a mãe attribulada,
Do coração, que lhe pulsa
Como se fôra quebrar,
Traz d’amargo pranto um rio,
Que dos olhos vem a fio
As maternas mãos banhar;
As mãos que ella aperta e beja,
E que o pranto que gotteja
Ja não sentem derramar.
VIII
Volve a ti, mãe desgraçada,
Volve, que o morrer agora
Tammanha ventura fôra
Que da sorte despiedada
Concedido não será.
Vem ouvir tua sentença
De morte... peior que morte,
Vergonha horrorosa, offensa...
E de quem!... de teu consorte,
Do pae monstro, monstro espôso...
Ai! para o tormento odioso,
Para tammanha afflicção
Não tem fôrça o coração.
IX
Tudo lhe conta Adozinda,
Tudo... tudo,—interrompendo
A horrorosa narração
Ora as lagrymas fervendo,
Ora os soluços rompendo
Do rasgado coração,
Ora os labios descorados
De pejo e terror gelados,
Sem podêr nem balbuciar
O que é fôrça revelar.
X
—‘Irás’ disse Auzenda emfim,
E a voz, que treme, assegura:
‘Irás a teu...’—pae não disse,
E um som rouco lhe murmura
Nos labios onde a meiguice,
Onde a maternal ternura
Procuram em vão surrir:
‘Irás, filha, a Dom Sisnando
E lhe dirás que...’
—‘Senhora!’
Interrompe ella chorando
—‘Que’ torna a mãe ‘quando a hora
Da meia-noite soar,
Em teu quarto o hasde esperar.
Não temas, filha, não tremas,
Não chores, minha Adozinda,
Querida filha, não gemas,
Que hasde ser feliz ainda.
No angustiado seio
Guardemos inda a esperança:
Do ceo mandada me veio
Uma ditosa lembrança
Que nos poderá salvar.
No teu leito d’ouro fino
Sou eu que me heide ir deitar;
Tua camiza de hollanda
A meu corpo heide lançar:
E quando elle nos seus braços
Ter Adozinda julgar...
Ah! que o ceo hade abençoar
Este ingano virtuoso,
E a ser pae, a ser espôso
Dom Sisnando hade voltar.’
XI
O dia em rezas passaram
Em devotas orações;
Mas quando as trevas poisaram
Sôbre as muralhas da tôrre,
Voltaram as afflicções:
E o tempo—que leve corre
Para todos os viventes—
Só áquellas innocentes
Accintoso parecia
Que da ampulheta fadada
Bago por bago espremia
Cada hora minguada.

XII
Emfim meia-noite soa:
Dom Sisnando, aguilhoado
Do torpe amor—do peccado,
Impaciente ao prazo voa
Que elle d’amor julga dado.
Como louco, arrebatado
Corre ao leito de Adozinda,
Cego bêja a face linda,
Que decerto não é d’ella,
Mas que não é menos bella;
Ao convulso peito aperta
Aquelle peito formoso...
—Desgraçado, é tempo ainda,
Do cruel sonho desperta,
Que ao precipicio horroroso
Ja te vai a despenhar!...
XIII
Dom Sisnando é criminoso
Quanto o podia ficar;
Do intento abominoso
Nada resta a consummar.
Ja tristemente acordou
De seu delirio fatal,
E surrindo amargamente,
Á infeliz assim fallou:
—‘E era por isto... innocente!
Que tanto se recatava
Tua virtude fingida?
Ah! essa alma corrompida
Mais do que teu corpo estava.
E tu...’
—Não pôde ouvir mais
A triste mãe; não lhe soffrem
As intranhas maternais
Ouvir a filha adorada
De tal modo calumniada,
E por quem, e em que momento!
C’um suffocado lamento,
Que do peito rebentando
Trouxe aos labios alma e vida,
Quebra o silencio:—‘Ah, Sisnando!
Ah, senhor, mattae-me embora;
A desgraçada sou eu.’
E a terra n’aquella hora
Rasgada não soverteu
O infeliz, que meio morto,
No abysmo do crime absorto,
D’este golpe inesperado
A violencia cedeu!
XIV
Silencio largo, mortal
Foi a unica expressão
Que por longa duração
N’aquelle estado fatal
Entre esses dous foi ouvida.
Porêm no perdido peito
De Sisnando atribulado
Foi a vergonha vencida
Pelo irritado despeito:
Dos remorsos avexado,
Porêm mais pungido ainda
De seu crime mallogrado,
Brada em cholera abrasado:
—‘Pereça a filha descrida
Que deshonrou seu...’
Pae não,
Pae não ousa proferir.
A palavra, suspendida
Por fria, pesada mão
De remorso insubjugado,
Lhe voltou ao coração
A lacerar-lh’o, a vingar-se
Da mal-soffrida oppressão.
XV