I
ADOZINDA

AO SR. DUARTE LESSA[3]

Eis-ahi vai, meu amigo, o romance em que lhe fallei n’uma das minhas últimas cartas de Portugal. Estava quasi todo copiado; e aqui nem paciencia nem tempo me chegavam para as muitas correcções e alterações que elle precisava; por limar lhe vai, e por limar irá para a imprensa: tanto melhor para quem gostar de dizer mal, que não lhe faltará de quê.

Creio que é ésta a primeira tentativa que ha dous seculos se faz em Portuguez de escrever poema ou romance, ou coisa assim de maior extenção, n’este genero de versos pequenos, octosyllabos, ou de redondilha como lhe chamavam d’antes os nossos. No meu resummo da historia da lingua e da poesia portugueza, que vem no primeiro volume do Parnaso-Lusitano impresso ultimamente em París,—a so coisa minha que ha n’aquella collecção, porque assim na escolha das peças, como na ordem e systema da obra me transtornaram e me inxovalharam tudo com notas pueris, ridiculas, e até malcreadas algumas,—n’esse resummo toquei de leve, e em tudo o mais, sôbre a belleza d’estes nossos versos octosyllabos, que nos são proprios a nós hespanhoes, tanto portuguezes como castelhanos, e, para certos assumptos e certos generos de poesia, mais adequados do que nenhuma outra especie de rhythmo. Boscan gaba-se de haver introduzido na Peninsula os metros toscanos: hoje está averiguado com certeza que não foi comeffeito elle o primeiro que nas duas linguas cultas das Hespanhas compoz dos taes versos hendecasyllabos; mas é certo e alêm de toda a dúvida que do tempo de Boscan e de Garcilasso em Castella, e logo de Sá-de-Miranda e Ferreira em Portugal, começaram aquelles nossos metros primitivos a cahir em mais desuso, a não se impregarem senão em certo genero de poesia ligeira ou, segundo lhe os Francezes chamam, fugitiva. Francisco Rodrigues-Lobo e muito depois D. Francisco Manuel-de-Mello ainda n’elles fizeram romances historicos; Violante do Ceo muitas das suas lindas e agora tam mal appreciadas poesias; ainda se fizeram posteriormente eglogas, e o que os poetas da Phenix-renascida e os campanudos vates das mil e uma academias do seculo XVII e XVIII chamavam romances—que certamente não eram o que hoje strictamente se intende por este nome. Em tempos mui posteriores felicissimamente os reviveu o nosso grande e incomparavel Tolentino na satyra, e no tam faceto e delicadissimo seu proprio e privativo genero da poesia de sociedade.

A nossa poesia primitiva e eminentemente nacional, a que do principio e, para assim dizer, do primeiro balbuciar da nossa lingua, nos foi commum com todos os outros povos que mais ou menos tiveram communhão com a lingua provençal, primeira culta da Europa depois da invasão septentrional, foi seguramente o romance historico e cavalheresco, ingenua e ruda expressão do enthusiasmo de um povo guerreiro. Logo vieram esses trovadores de Provença e nos insinaram modos mais cultos porêm menos originaes e menos cunhados do sêllo popular: era coisa mais de côrte. E como tal não pôde absorver, senão modificar, o que brotára spontaneamente do natural da terra. Mas as duas feições ficaram ambas, e deram assim á poesia portugueza um character talvez unico no mundo,—nas Hespanhas decerto.

Em geral a poesia da meia-edade, singela, romanesca, apaixonada, de uma especie lyrica-romantica que não tem typo nos poetas antigos, comquanto deixou seu cunho impresso no caracter das linguas e poesias modernas de todo o sul e occidente da Europa, não teve comtudo imitadores nem se cultivou e apperfeiçoou nunca mais, quasi desde o completo triumpho dos classicos, senão agora recentemente depois que as balladas de Bürger, os romances poeticos de Sir W. Scott e alguns outros ensaios inglezes e allemães, mas principalmente os do famoso escocez, introduziram este gôsto e o fizeram da moda. Fatigados do grego e romano em architecturas e pinturas, começámos a olhar para as bellezas de Westminster e da Batalha; e o appetite imbotado da regular formosura dos Pantheons e Acropolis, começou, por variar, a inclinar-se para as menos classicas porêm não menos lindas nem menos elegantes fórmas da architectura e da sculptura gothica.

Succedeu exactamente o mesmo com a poesia: infastiados dos Olympos e Gnidos, saciados das Venus e Apollos de nossos paes e avós, lembrámo’-nos de ver com que maravilhoso infeitavam suas ficções e seus quadros poeticos nossos bis e tres-avós; achámos fadas e genios, incantos e duendes,—um stylo differente, outra face de coisas, outro modo de ver, de sentir, de pintar, mais livre, mais excentrico, mais de phantasia, mais irregular, porêm em muitas coisas mais natural. O antiquado agradou por novo, o obsoleto entrou em moda: arte mais fina, gôsto mais delicado e de ingenhos mais cultos o soube impregar habilmente, ‘decalcar n’outra civilização.’ A poesia romantica, a poesia primitiva, a nossa propria, que não herdámos de Gregos nem Romanos nem imitámos de ninguem, mas que nós modernos creámos, a abandonada poesia nacional das nações vivas resuscitou bella e remoçada, com suas antigas galas porêm melhor talhadas, com suas feições primeiras porêm mais compostas. É a mesma selvatica, ingenua, caprichosa e aeria virgem das montanhas que se appraz nas solidões incultas, que vai pelos campos allumiados do pallido reflexo da lua, involta em veos de transparente alvura, folga no vago e na incerteza das côres indistinctas que nem occulta nem patenteia o astro da noite;—a mesma beldade mysteriosa que frequenta as ruinas do castello abandonado, da tôrre deserta, do claustro coberto de hera e musgo, e folga de cantar suas endeixas desgarradas á bôcca de cavernas fadadas—por noite morta e horas aziagas. É a mesma sem dúvida: porêm o gôsto mais puro e fino de seus adoradores, sem alterar a lithurgia, modificou os ritos e os accommodou para espiritos e ouvidos costumados aos hymnos, menos variados porêm mais cadentes, da antiguidade classica. Não ficou menos natural nem menos nacional, porêm muito mais amavel e incantadora a nossa poesia primitiva assim resuscitada agora.

Muito antes do nomeado escocez ja tinha havido tentativas para nacionalizar a poesia moderna e a libertar do jugo da theogonia d’Hesiodo:—mas a propria e verdadeira restauração da poesia dos trovadores e menestreis, sem questão nem disputa, só W. Scott a fez popular e geral na Europa.—Com ella se restauraram tambem os metros simples e curtos que mais naturaes são ao stylo cantavel, essencial ás composições d’aquelle genero.

Depois de muitas tentativas, de exame longo e reflectido, eu por mim convenci-me de que o metro proprio e natural de nossa lingua para este genero de poesia, e para todos os generos populares, não era o hendecasyllabo, o que dizemos vulgarmente heroico. Os portuguezes são uma nação poetica, a sua lingua naturalmente se presta e spontanea se offerece ás fórmas e cadencias metricas; os nossos mais rudos camponezes improvisam em seus serões e festas com uma facilidade que deve de espantar os extrangeiros: mas observe-se que o metro d’estes improvisos é sempre sem excepção alguma o de redondilha de oito syllabas, rara vez o da endexa; acaso farão os versos compostos visivelmente de dois metros, isto é, os alexandrinos ou dittos de arte-maior. A causa é óbvia; aquella é a medição mais natural que lhes offerece a musica da lingua.

Entre as canções antiquissimas conservadas nos dois cancioneiros, o do Collegio dos Nobres (impresso por Sir Charles Stuart em París) e o de Rezende, ha muita variedade de metros; mas outras poesias mais antigas, os romances populares ou xácaras, que por tradição immemorial se conservam entre o povo, principalmente nas aldeias, todos são no metro octosyllabo ou em endexas. Logo direi aqui alguma coisa mais de vagar sôbre éstas curiosissimas, e tam desprezadas mas tam interessantes, reliquias da nossa archeologia.

O genero romantico não é coisa nova para nós. Não fallo em relação aos primeiros seculos da monarchia: restam-nos ainda specimens das canções que não serão talvez de Gonçalo Hermigues, de Egas Moniz, d’elrei D. Pedro Cru, mas são antiquissimos documentos de certo. As trovas dos Figueiredos, apezar do tam suspeito testimunho de Fr. Bernardo de Brito, creio, por convicção intima, que são das mais antigas composições poeticas da lingua que chegaram até nós. Não alludo porêm a epochas tam remotas e incultas. Depois de introduzido o gôsto classico por Sa-Miranda, e Ferreira principalmente, depois de esquecidas as graças singellas de Bernardim Ribeiro pelos mais ataviados primores de Camões e Bernardes, ainda então houve quem de vez em quando deixasse a lyra de Horacio e a frauta de Theocrito para tocar o alahude romantico dos menestreis. O proprio auctor dos Lusiadas nas canções, que, depois d’aquella, são sua melhor composição, para meu gôsto, n’essas canções tam bellas e tam profundamente sentidas, tam repassadas de melancholia suavissima, em alguns episodios dos mesmos Lusiadas, foi todo romantico, e felicissimamente o foi. Francisco Rodrigues-Lobo, segundo ja observei, em muitas das pequenas peças que se incontram dispersas pelo Pastor-peregrino, pela Primavera, e nos seus romances moiriscos e historicos, é eminentemente romantico. Tal é Jeronymo Cortereal no Naufragio-de-Sepulveda, quando o deixam com a natureza e lhe permittem ter senso commum as loucuras mythologicas com que perdeu tam bem escolhido assumpto, tam bellas scenas.

Deixando outros muitos, dos quaes o menor exame facilmente mostrará o mesmo, citarei aquelle romancesinho de Gaia e do rei Ramiro, que V. descobriu em Londres com o precioso achado dos papeis e livros do nosso infeliz Oliveira.

Depois que, na extincção dos Jesuitas, e pelos esforços da benemerita Arcadia se restauraram as bellas-letras e a lingua, e o verdadeiro gôsto poetico affugentou os acrostichos e os labyrintos seiscentistas, o genero classico resuscitou mais puro e tam bello nas lyras do elegante e puro Garção, do altissonante Diniz, do sublime Filinto, do numeroso Bocage, do classico Ribeiro-dos-Sanctos, do ingenuo Maximiano Tôrres, do galantissimo Tolentino, do philosopho Caldas; mas o genero romantico injustamente involvido na proscripção do seiscentismo, esse desprezado e perseguido, ninguem curou d’elle, julgaram-n’o sem o intender, condemnaram-n’o sem o ouvir.

No meu poemasinho do Camões aventurei alguns toques, alguns longes de stylo e pensamentos, annunciei, para assim dizer, a possibilidade da restauração d’este genero, que tanto tem disputado na Europa litteraria com aquelloutro, e que hoje coroado dos louros de Scott, de Byron e de Lamartine vai de-par com elle, e, não direi vencedor, mas tambem não vencido.

D. Branca, essa mais decididamente entrou na lice, e com o alahude do trovador desafinou a lyra dos vates; outros dirão, não eu, se com feliz ou infeliz successo.

Não é portanto, em nenhum sentido, novo hoje para a litteratura portugueza o genero romantico, nem me appresento agora com este meu romancesinho ao público portuguez a pedir privilegio de invenção ou patente de introducção. Se reclamo aqui prioridade é somente em ter instaurado as antigas e primitivas fórmas metricas da lingua em uma especie de poesia que tambem foi a primitiva sua, e ao menos a mais antiga de que tradição nos chegou.

De pequeno me lembra que tinha um prazer extremo de ouvir uma criada nossa, emtôrno da qual nos reuniamos nós os pequenos todos da casa, nas longas noites de hinverno, recitar-nos meio cantadas, meio rezadas, éstas xácaras e romances populares de maravilhas e incantamentos, de lindas princezas, de galantes e esforçados cavalleiros. A monotonia do canto, a singelleza da phrase, um não-sei-quê de sentimental e terno e mavioso, tudo me fazia tam profunda impressão e me inlevava os sentidos em tal estado de suavidade melancholica, que ainda hoje me lembram como presentes aquellas horas de gôso innocente, com uma saudade que me dá pena e prazer ao mesmo tempo[4].

Veio outra edade, outros pensamentos, occupações, estudos, livros, prazeres, desgostos, afflicções—tudo o que compõe a variada tea da vida,—e da minha tam trabalhosa e trabalhada vida!—tudo isso passou; e no meio de tudo isso, lá vinha de vez em quando uma hora de solidão e de repouso,—e as noites da minha infancia e os romances incultos e populares da minha terra a lembrarem-me, a lembrarem-me sempre.

Lendo depois os poemas de Walter Scott, ou, mais exactamente, suas novellas poeticas, as ballads allemans de Bürger, as inglezas de Burns, comecei a pensar que aquellas rudes e antiquissimas rhapsodias nossas continham um fundo de excellente e lindissima poesia nacional, e que podiam e deviam ser aproveitadas.

Em París fui ver o cancioneiro do Collegio dos Nobres na defeituosa edição de Sir Charles Stuart; depois voltando a Portugal tornei a percorrer o de Rezende: no primeiro nada, no segundo pouco achei do romance historico ou narrativo. D’ésta última especie não ha impresso mais que esses duvidosos fragmentos conservados por Fr. Bernardo de Brito e por Miguel Leitão.

Recorri á tradição: estava então eu fóra de Portugal; stimulava-me a leitura dos muitos ensaios extrangeiros que n’esse genero íam apparecendo todos os dias em Inglaterra e França, mas principalmente em Allemanha. Uma estimavel e joven senhora de minha particular amizade—a quem por agradecida retribuição é dirigida a introducção do presente romance—foi quem se incumbiu de me procurar em Portugal algumas cópias das xácaras e lendas populares.

Depois de muitos trabalhos e indagações, de conferir e estudar muita cópia barbara, que a grande custo se arrancou á ignorancia e acanhamento de amas-sêccas e lavadeiras e saloias velhas, hoje principaes depositarias d’esta archeologia nacional,—galantes cofres, em que para descobrir pouco que seja é necessario esgravatar como o pullus gallinaceus de Phedro,—alguma coisa se pôde obter, informe e mutilada pela rudeza das mãos e memorias por onde passou; mas emfim era alguma coisa, e forçoso foi contentar-me com o pouco que me davam e que tanto custou.

Assim consegui umas quinze rhapsodias ou, mais propriamente, fragmentos de romances e xácaras que em geral são visivelmente do mesmo stylo, mas de conhecida differença em antiguidade, todavia remotissima em todos. Comecei a arranjar e a vestir alguns com que ingracei mais; e para lhe dar amostra do modo por que o fiz, adeante copio um dos mais curiosos[5], ainda que não dos menos estropiados, e com elle o restaurado ou recomposto por mim, o melhor que pude e soube sem alterar o fundo da historia e conservando, quanto era possivel, o tom e stylo de melancholia e sensibilidade que faz o principal e peculiar character d’estas peças.

A minha primeira idea foi fazer uma collecção dos romances assim reconstruidos e ornados com os infeites singelos porêm mais symetricos da moderna poesia romantica, e publicá-la com o titulo de Romanceiro-portuguez, ou outro que tal, para conservar um monumento de antiguidade litteraria tam interessante, e de que talvez só a lingua portugueza, entre as cultas da Europa, careça ainda; porque de quasi todas sei, e de todas creio, que se não pode dizer tal[6].

Mas sobreveio tanta interrupção, tanta distracção de tam variado genero, mortificações, cuidados, trabalhos mais serios; emfim desisti da impreza.

Ja tinha decorrido muito tempo, e voltado eu a Portugal, lembrando-me sempre de vez em quando este impenho tam antigo e tam fixo; e a occasião a fugir-me. Uma circumstância fatal e terrivel me fez voltar ás minhas queridas antigualhas. Lançado n’uma prisão pela maior e mais patente injustiça que jamais se ouviu[7], voltei-me, para occupar minha solidão e distrahir as amarguras do espirito, aos meus romances populares, que sempre commigo têem andado, como uma preciosidade, que bem sei não avalia ninguem mais, de que muita gente rirá, mas que eu apprecio, e me ponho ás vezes a contemplar, e a estudar como um antiquario fanatico a quem se vão as horas e os dias deante d’um tronco de estatua, d’um capitel de columna, d’um pedaço de vaso etrusco, d’um bronze ja carcomido e informe, desinterrado das ruinas de Pompeia ou de Herculano. Mas quantos Davids e Canovas não faz, quantos Raphaeis e Miguel-Angelos não fez o estudo d’esses fragmentos que despreza porque mais não intende o vulgo ignorante!

Assim passei muitas horas de minha longa e amofinada prisão, suavizando mágoas e distrahindo pensamentos.—Tinha eu começado a ageitar outro romance que originalmente se intitula A Silvana, cujo assumpto notavel e horroroso exigia summa delicadeza para se tornar capaz de ser lido sem repugnancia ou indecencia. Era nada menos que uma nova Myrrha, ou antes o inverso da tragica, interessante, mas abominosa historia da mythologia grega; é um pae namorado de sua propria filha!—A filha joven, bella, virtuosa, sancta emfim.—A difficuldade do assumpto irritou o desejo de luctar com ella e vencê-la se possivel fosse. Dava larga o tempo, pedia extenção a natureza dos obstaculos; o que fôra começado para uma xácara, para uma cantiga, ou, como lhe chamam Allemães e Inglezes, para uma ballada, sahiu um poemeto de quatro cantos, pequenos sim, porêm muito maiores do que eu pensei que fossem, e do que geralmente são taes coisas. Mudei-lhe o titulo e chamei-lhe Adozinda, que soa melhor e é portuguez mais antigo. O fundo da historia, as circumstâncias do desfecho d’ella são conservadas do original; o ornato, o mechanismo do maravilhoso é outro mas accommodado, creio eu, ao genero e á indole do assumpto.

Mando-lhe aqui tambem uma cópia do romance original para ver e combinar. É dos mais mutilados e desfigurados, mas certamente dos que têem mais visiveis signaes de vetustade quasi immemorial[8].

Ora eis-aqui, meu amigo, a historia e origem da minha Adozinda, gerada no exilio, nascida entre sustos, criada na miseria e padecimentos de uma prisão. Entre tudo o que tenha rabiscado de prosas e versos este romancesinho é a composição minha a que tenho mais amor pelas memorias que me lembra, pelas affecções que me desperta.—Que de coisas passaram por mim durante o tempo que o compuz, os intervallos tam longos em que o deixei!—até o nascimento e a morte de uma filha unica, tam querida e para sempre chorada!...

Adeus, meu amigo: não sei o que ahi vai escripto, nem como. São ideas sem nexo, pensamentos desatados, coisas á toa como o espirito de quem as escreve. Lea-as assim, e assim se imprimam se porventura estão em termos d’isso,—do que muito duvido, porque eu por mim, nem que me dessem os louros de Camões, ou me fizessem apotheoses como a Homero, me punha a corrigir, nem siquer a rever o que ahi vai escripto, quer prosa quer versos[9].

Londres, 14 d’Agosto de 1828.

A ELYSA

Campolide, 11 d’Agosto 1827.

Thus, while I ape the measure wild,
Of tales that charmed me yet a child,
Rude though they be, still with the chime
Return the thoughts of early time;
And feelings, roused in life’s first day
Glow in the line, and prompt the lay.
Walter Scott.
Campo da lide é este; aqui lidaram,
Elysa, os nossos quando os nossos eram
Lidadores por glória,—aqui prostraram
Suberbas castelhanas, e—venceram;
Que pelo rei e patria combatendo
Nunca foram vencidos Portuguezes.
—Este terreno é sancto: inda estás vendo
Alli aquelles restos mal poupados[10]
Do tempo esquecedor,
Dos homens deslembrados;
Nobres reliquias são d’altas muralhas
Forradas ja de lucidos arnezes,
De tresdobradas malhas.
Talvez fluctuava alli n’aquelle canto,
Suberbo e vencedor
Das Quinas o pendão victorioso;
E junctos ao redor
D’esse paladio augusto e sacrosancto,
Invencivel trincheira lhe faziam
Toda a flor dos mais nobres e esforçados;
Que á voz da patria (voz que nunca ouviam
Sem sentir redobrados
Do nobre coração os movimentos)
Heroes são todos, facil a victoria,
Faceis as palmas que lh’infeixa a glória.
Ah!—paremos aqui:—ve quaes na frente
As arterias violentas me rebatem:
Febril, descompassado corre e ardente
E me angustia o sangue...—Ah! sim paremos
Aqui... Não, aqui não; esse outeirinho
Depressa o desceremos.
Faz-me bem ésta vista:—essas arcadas[11]
Suberbas, elevadas,
Que uniram monte a monte e serra a serra,
Acaso não serão
Tam illustres talvez,—não lembram guerra,
Glória não lembram; nem com sangue livido
A morte da victoria companheira
Para o erguido padrão
O cimento amassou.
Um rei que amou as artes, rei pacífico,
A quem amor fadou
Que seu fôsse e das musas,—que fugidas
Da pátria ha tanto, á patria as volveria;
Do povo á utilidade
Este sublime monumento erguia.
Para a posteridade
Isto só lhe appurou o nome e a glória,
E lhe ganhou as paginas da historia.
Inda é muita oppressão; inda me acanha
Tanta arte humana o coração no peito.
Tam grandes massas, fábrica tammanha
Absorto deixarão—mas satisfeito
O ânimo, os sentidos?.. Não, Elysa,
Não satisfaz ao homem a arte humana:
Por mais que ella se uffana,
Que aos abysmos o centro opprime e pisa
C’os fundamentos de eternaes pyramides,
Ou c’os erguidos vertices
Ás nuvens rasga o seio tempestuoso.
Nem assim:—á tristeza ou á alegria,
E áquelle estado de innefavel gôso
Que entre a dor e o prazer a alma suspende
Brandamente e se diz melancholia,
Oh! nada d’isso o excita.
Oh! nada d’isso o coração intende!
Oh! nada d’isso o espirito nos move
Se a natureza, a pura natureza
Por sua ingenua attracção nos não commove.
Posso admirar o homem e a grandeza
De suas nobres feituras,
Mas somente admirar;
Mais não póde excitar
Mesquinha creação de creaturas.
Vamos por essa incosta
Subindo.—Eu gósto do alto das montanhas,
Dos picos das erguidas serranias,
O avaro á terra mãe abra as intranhas,
Cave oiro e crimes, com que incurte os dias
Seus e dos seus, e a sombra da virtude
Acabe de varrer da face d’ella.
Mas o que, em paz commigo e co’a existencia,
Ainda ama a innocencia,
Inda se apraz co’a natureza bella,
A seus quadros surri, com seus dons gosa,
Oh! esse venha ao cume do alto monte,
Venha estender a vista saudosa
Pelo valle que á falda lhe verdeja,
A messe que loureja,
E a despenhada fonte
Que vai garrula e trepida saltando
Té que se junta em cava pederneira.
D’onde sai, o arco d’Iris imitando
Na espadana da férvida cachoeira.
Venha na solidão—e o só dos montes
É mais só que nenhum,—o silencioso
Mais augusto, solemne e magestoso!
Venha na solidão
Comsigo conversar, fallar um’hora
Com o seu coração.
—Quantos ha que annos longos hão vivido
C’os outros sempre, sempre c’os de fóra
Sem viverem comsigo nem um dia,
Nem um momento só!
Tenhamos d’elles dó;
Viver não... têem apenas existido.
Tua meiga companhia
É doce, Elysa; e sempre na minha alma
Foi teu brando fallar—e quantas vezes!—
Celeste orvalho que abrandou a calma
De paixões, que adoçou o agro a revezes:
Porêm a minha solidão querida,
De vez em quando, lá quando a alma o pede,
Oh! não m’a tirem que é tirar-me a vida.
Agora conversemos: eu ignoro
A arte das vans palavras que bem soam;
Oiço-as, e não demoro
No ouvido os sons que de per si se escoam.
O sol declina;—temos largamente
Hoje philosophado.
Na viva flor da edade e da saude
Nem de todos sería accreditado
Que tam suavemente
Em austeras conversas de virtude
Nos fôsse o tempo.—Crê-me, Elysa amavel,
Tem muito mais prazeres a amizade
E mais doces que amor:
Para todos os sexos, toda a edade,
Em todo o tempo a mesma, sempre affavel,
Sem o cancro roedor
Do ciume voraz que no mais puro
D’amor, no mais seguro
Suas raizes venenosas lança,
E co’a mais branda flor
Seus mordentes espinhos lhes intrança.
Detestemos, Elysa, essa funesta
Paixão brutal que a tudo e em tudo damna,
Da virtude a tyranna:
Não nos illuda a tam commum cegueira;
Detesta o crime quem amor detesta.
Crimes!—vê a amizade prazenteira,
Que nenhuns tem;—e amor, ai! quantos, quantos!
Honras perdidas, thalamos violados,
Os vinculos mais sanctos
Dos homens e de Deus, da natureza,
Da propria natureza—espedaçados
Por esse amor, que sua tocha accesa
Do vivo fogo traz do averno immundo
Para de crimes abrazar o mundo.
Honesto, justo, sancto, consagrado,
Nada respeita:—o sangue, o altar em meio
De seus desejos não é termo ou freio;
Não ha pomo vedado
No Eden da virtude
Que a mão perversa e rude
Tocar não ouse,—árvore da vida
Que dos gryphos mordida,
Em peçonha de morte não converta,
E a seiva salutar já corrompida
Em lethal beneficio não perverta.
Lembra-te aquella historia
Que ingenuo o povo em seus trabalhos canta,
E de longa memoria
Entre elles perpetuada,
É singella legenda de uma sancta,
Que por brutal amor sacrificada,
Desvalida virtude,
Só do crime escapou no seio á morte?
Eu a canção magoada
Em verso menos rude,
Mais moldado verti, dei novo córte
Ao vestido antiquissimo, á simpleza
Que ha seculos lhe deu
De nossos bons maiores a rudeza.
—Sereno está o ceo,
Tranquillo o vento, a calma descahida;
E, pois que não te infada
A singella toada
Do bardo alahude que sem arte soa
E a rhyma desgarrada
Da popular canção rustico intoa,—
Aqui t’a cantarei, ouve: e se ao pranto
Te commover a saudosa endeixa,
Na selvagem bonina,
Na campainha agreste d’esse mato
Arrociá-lo deixa;
São lagrymas sinceras, propria fonte
Para regar as innocentes flores
Que arte não sabem, nem conhecem arte;
Flores como os meus versos não variados
De refinadas côres,
Em que alma só e coração tem parte,
Não por classica musica modulados
Ao graduado som de grega lyra,
De cithara romana.
A minha é melodia que só mana
Dos intimos accordes só do peito;
Nem ha corda que fira
Em meu alahude rustico
Tom menos natural, mais contrafeito.
Em suberbos canaes, alto impedrados
Por ingenhoso hydraulico,
Vão d’arte subjugados
Os caudaes da torrente conduzindo
Riquezas de preciosa mercancia:
E o arroio, que serpeia entre pedrinhas
Pela relva macia,
Bordado em-tôrno sinuosamente,
Que póde elle levar
Em sua doce e trépida corrente?
—Alguma folha de silvestre rosa
Que, ingenua divagando,
Pastorinha formosa
Lhe foi acaso á margem desfolhando.

ADOZINDA

CANTIGA PRIMEIRA

No, I’ll not weep:
I have full cause of weeping; but this heart
Shall break into an hundred thousand flaws
Or ere I’ll weep.
Shakspeare.
I
Onde vas tam alva e linda,
Mas tam triste e pensativa
Pura, celeste Adozinda,
Da côr da singella rosa
Que nasceu ao-pé do rio?
Tam ingenua, tam formosa
Como a flor, das flores brio
Que em serena madrugada
Abre o seio descuidada
A doce manhan d’Abril!
—Roupas de seda que leva
Alvas de neve que cega
Como os picos do Gerez
Quando em Janeiro lhe neva.
Cinto côr de violeta
Que á sombra desabrochou;
Cintura mais delicada
Nunca outro cinto apertou.
Anneis louros do cabello
Como o sol resplandecentes
Folgam soltos; dá-lh’o vento,
Dá no veo ligeiro e bello,
Veo por suas mãos bordado,
De um sancto ermitão fadado
Que vinha da Palestina;
Passou pelo povoado,
Foi-se direito ao castello
Pediu pousada, e lh’a deram
Porque intercede a menina:
Que o pae suberbo e descrido,
—‘N’essa gente peregrina,
Disse, quem sabe o que vem?’
—Mas pede Adozinda bella,
Tal virtude e formosura,
Quem lh’o hade negar a ella?
Não póde o pae nem ninguem.
II
Mas o outro dia á luz nada
Houve quem visse Adozinda
Debruçada em seu balcão
Haver prática alongada
Co’ aquelle velho ermitão.
Quem sabe o que lhe elle disse?
—Ninguem no castello ouviu:
Mas d’aquella occasião
A alegria lhe fugiu
Dos olhos e do semblante:
Ficou triste, sempre triste;
Mas em seu rosto divino
Fez-se formosa a tristeza.
Como olhos d’amor quebrados
Disseras os olhos d’ella;
Mas não tem d’amor cuidados,
Que a ninguem conhece a bella.
III
Qual semente arrebatada
Da flor de vergel mimoso
Pelos furacões do Outomno,
Vai no incôsto pedregoso
Cahir de serra escalvada;
Vem Abril, e a seu bafejo
Brota e nasce a linda flor,
De ninguem vista ou sabida,
Nem de damas cubiçada
Nem de pastores colhida,
E o vento da solidão
Lhe bebe o perfume em vão.
IV
Quinze annos tem Adozinda;
E desd’a vez que o romeiro
Do saio pardo e grosseiro
Lhe fallou ao seu balcão,
Faz tres para o San-João.
V
E Adozinda sempre triste
Vai sosinha pelo eirado
Pelo jardim, pelo prado;
Nem ja a divertem flores
Em que punha o seu cuidado.
Pelos sombrios verdores
De sua espessa coutada
Vaga á toa e derramada,
Como a novilha perdida,
Como a ovelha desgarrada
A quem o tenro filhinho
Lobo do mato levou:
—Desfaz-se a mãe em balidos,
Que de ninguem são ouvidos,
E o filhinho não tornou!
VI
Que tem Adozinda bella
Que em tal desconsôlo a traz?
Serão saudades do pae
Que anda co’os Mouros á guerra
Por defender sua terra
Mais a sancta lei de Deus?
Tres annos ha que se foi;
E dous filhos que levou,
A cadaqual sua espada
Com juramento intregou
De lh’a tornarem lavada
No sangue mouro descrido:
E assim cada um jurou.
Fizeram gente em suas villas,
(Que preito muitas lhe dão)
E guiaram seu pendão
Para terras de Moirama.
Ja vejo chorar donzellas,
Vejo carpir muita dama,
Que onde chega Dom Sisnando,
Com sua espada portugueza
Não ha lanças nem rodellas
Que sirvam para defesa.
VII
Mas não são do pae saudades,
Que sempre a lidar com armas
Como ellas duro se fez;
Mais lhe importam do que a filha
Seus ginetes, seu arnez.
E até—quem diria tal!—
Quando a mãe, por diverti-la,
Lhe falla do pae ausente
E lhe diz que hade voltar,
Parece que se lhe sente
O coração apertar.
—Suspira em silencio Auzenda,
Auzenda tam bella ainda
Que ao-pé da bella Adozinda
Mais irman que mãe parece
De filha tam môça e linda.
Suspira em silencio a triste,
Porque suspira não diz:
—‘Filha amante de seu pae
Conceder-me o ceo não quiz!’
—Ai! que sem razão se chora!
—Ai! Auzenda malfadada,
Tem de vir minguada hora
Que á filhinha desgraçada
Darás mais razão que agora.

VIII
Que tropel que vai nos paços
De Landim ao-pé dos rios!
Sons de festa e sons de guerra
Em seus muros e alta tôrre?
Geme a ponte, treme a terra
C’o peso d’homens armados.
Cavallos acobertados
Trotam ligeiros;—e corre
O alferes que tremolando
Vai guião de roxa cruz...
Ja chegado é Dom Sisnando.
Entre os cavalleiros todos
Sua armadura reluz:
E o pennacho fluctuante
Das plumas alvas de neve
Sôbre o elmo rutilante
De longe a vista percebe.
IX