VI
ROSALINDA

É verdadeiramente sublime, tem toda a frescura viçosa das imagens da poesia primitiva, a com que termina este romance. Tudo o que ha de asqueroso n’uma sepultura desapparece do tumulo em que amor desfolhou os seus goivos: alli não ha corrupção nem vermes: uma bella árvore, um rosal florido reproduzem em ‘novas e mudadas fórmas’ os corpos de dois amantes. A vida não acabou, mudou só; e nem mudou tanto, que a vegetal seiva d’esses ramos não ferva ainda do mesmo ardor que ja animou aquelle sangue. Tendem umas para as outras as apaixonadas vergonteas; cortam-n’as e ellas recrescem, e vão-se abraçar como duas palmeiras namoradas.

Sente-se aqui o BELLO, sente-o qualquer porque é bello devéras. Assim se popularizou ésta imagem e fez a volta da Europa, que a achâmos nos romances e soláos de quantos povos entraram na grande communhão romano-celtica, romano-theutonica, ou celto-theutonica:—talvez seja o modo mais exacto de dizer, este último.

O romance Prence Robert, publicado por Sir Walter Scott, da tradição oral das raias d’Escocia[20], remata com éstas coplas:

The tane was buried in Marie’s kirk
The tother in Marie’s quair;
And out o’the tane there spring a birk,
And out o’the tother a brier.
And thae twa met, and thae twa plat,
The birk but and the brier;
And by that ye may very weel ken
They were twa lovers dear.

Cito éstas coplas escocezas por serem as que mais se parecem com as do nosso romance: ha muitos outros parallelismos, mais ou menos approximados, nos romanceiros e cancioneiros de quasi todas as linguas. Não é possivel descubrir hoje onde nasceu a idea original; no portuguez é onde ella está mais lindamente expressada e com mais ‘sentimento.’ Na famosa historia de Dom Tristam, apontada a este proposito por Sir W. Scott, occorre a mesma imagem.

Ores veitil que de la tumbe de Tristam yssait une belle ronce verte et feuilleuse, qui aleoit par la chapelle, et dêscendoit le bout de la ronce sur la tumbe d’Isseult, et entroit dedans.’ Tres vezes cortaram a milagrosa planta, mas, continúa o bom do historiador, Rusticien de Puise, ‘le lendemain estoit aussi belle comme elle avoit cydevant été, et ce miracle estoit sur Tristam et sur Ysseult à tout jamais advenir.’

É um ponto luminoso para as indagações philologicas na historia das linguas modernas—ou da sua poesia, que é a mesma coisa. É para mais ainda; porque a historia do homem, por aqui a hade começar a estudar quem verdadeiramente a quizer saber.

Eu fiz este romance de tres fragmentos diversos, tam fragmentos que nenhum d’elles per si se intendia bem. O primeiro appareceu-me inserido no de Eginaldo, Reginaldo—ou Girinaldo, como diz em muitas partes o povo. O segundo e terceiro involtos com o de Claralinda ou Clara-lindes, que os castelhanos chamam Clara-niña, e ao romance o do conde Claros.

No logar competente do cancioneiro darei esses romances que hoje tenho restituidos pela collação de outros fragmentos e de melhores cópias que depois me vieram[21].

Campolide, 8 de Setembro 1843.


Tambem na LUSITANIA ILLUSTRATA vem a traducção ingleza d’este romance que vai copiada no appendice á II parte do LIVRO II do nosso ROMANCEIRO.

Aqui damos agora o bello estudo e versão franceza de M. Edouard Fournier sôbre a Rosalinda, que se publicou em Paris em 1852.

Abril, 16-1853.

OS EDITORES.

ROSALINDA

Era por manhã de maio,
Quando as aves a piar,
As árvores e as flores,
Tudo se anda a namorar;
Era por manhã de maio,
Á fresca riba de mar,
Quando a infanta Rosalinda
Alli se estava a toucar.
Trazem das flores vermelhas,
Das brancas para a infeitar;
Tam lindas flores como ella
Não n’as poderam achar:
Que é Rosalinda mais linda
Que a rosa, que o nenuphar,
Mais pura que a açucena
Que a manhan abre a chorar.
Passava o conde almirante
Na sua galé do mar;
Tantos remos tem por banda
Que se não podem contar;
Captivos que a vão remando
A Moirama os foi tomar;
D’elles são grandes senhores,
D’elles de sangue real:
Que não ha moiro seguro
Entre Ceuta e Gibraltar
Mal sai o conde almirante
Na sua galé do mar.
Oh que tam linda galera,
Que tam certo é seu remar!
Mais lindo capitão leva,
Mais certo no marear.
—‘Dizei-me, o conde almirante
Da vossa galé do mar,
Se os captivos que tomais
Todos los fazeis remar?’
—‘Dizei-me, a bella infanta,
Linda rosa sem egual,
Se os escravos que lá tendes
Todos vos sabem toucar?’
—‘Cortez sois, Dom Almirante:
Sem responder, perguntar!’
—‘Responder, responderei,
Mas não vos heisde infadar:
‘Captivos tenho de todos,
Mais bastos que um aduar;
Uns que mareiam as velas,
Outros no banco a remar:
‘As captivas que são lindas
Na poppa vão a dançar,
Tecendo alfombras de flores
Para o senhor se deitar.’
—‘Respondeis, respondo eu,
Que é boa lei de pagar:
Tenho escravos para tudo,
Que fazem o meu mandar;
‘D’elles para me vestir,
D’elles para me toucar...
Para um só tenho outro imprêgo,
Mas está por captivar...
—‘Captivo está, tam captivo
Que se não quer resgatar.
Rema, a terra a terra, moiros,
Voga certo, e a varar!’
Ja se foi a Rosalinda
Com o almirante a folgar:
Fazem sombra as larangeiras,
Goivos lhe dão cabeçal.
Mas fortuna, que não deixa
A nenhum bem sem dezar,
Faz que um monteiro d’elrei
Por alli venha a passar.
—‘Oh monteiro, do que viste,
Monteiro, não vás contar:
Dou-te tantas bolsas de oiro
Quantas tu possas levar.’
Tudo o que viu o monteiro
A elrei o foi contar,
A casa da estudaria
Onde elrei stava a estudar.
—‘Se á puridade o disseras,
Tença te havia de dar:
Quem taes novas dá tam alto,
Alto hade ir... a inforcar.
‘Arma, arma, meus archeiros
Sem charamellas tocar!
Cavalleiros e piões,
Tudo á tapada a cercar.’
Inda não é meio dia,
Começa a campa a dobrar;
Inda não é meia noite,
Vão ambos a degollar.
Ao toque de ave-marias
Foram ambos a interrar:
A infanta no altar mor,
Elle á porta principal.
Na cova da Rosalinda
Nasce uma árvore real,
E na cova do almirante
Nasceu um lindo rosal.
Elrei, assim que tal soube,
Mandou-os logo cortar,
E que os fizessem em lenha
Para no lume queimar.
Cortados e recortados,
Tornavam a rebentar:
E o vento que os incostava,
E elles iam-se abraçar.
Elrei, quando tal ouviu,
Nunca mais pôde fallar;
A rainha, que tal soube,
Cahia logo mortal.
—‘Não me chamem mais rainha,
Rainha de Portugal...
Apartei dous innocentes
Que Deus queria juntar!’

ÉTUDES SUR LA ROSALINDA

Les rapports entre la littérature française et la littérature portugaise, au moyen-âge, furent plus grands et plus directs que l’éloignement des deux pays ne le donnerait à penser. M. Raynouard a été des premiers à le remarquer; il ne s’est même pas borné à une simple constatation du fait, il l’a appuyé de toutes sortes de preuves. Afin même de montrer complètement combien la langue portugaise se rapprochait de la langue romane, il a été jusqu’à traduire dans la langue des troubadours, une petite pièce du Camoëns[22]. Épreuve triomphante! car à quelques syllabes près, les deux pièces, l’original et la traduction, se sont trouvés les mêmes. Il n’y a pas plus complète identité contre les Noei en patois bourguignon et la très facile traduction française que tout le monde peut en faire. Qu’on en juge par la seconde des deux strophes:

PORTUGAIS LANGUE DES TROUBADOURS
Melhor deve ser Melhor deu esser
N’este aventurar En est aventurar
Ver e não guardar Vezer e no guardar
Que guardar e ver. Que guardar e vezer.
Ver e defender Vezer e defender
Muito bom seria, Molt bon seria,
Mas quem poderia? Mas qui poiria?

Dans tout cela, je le répète, il n’y a pas une syllabe qui ne soit sœur de celle qui la traduit.

Les mots qui servaient à designer les diverses sortes de pièces de poésie étaient les mêmes pour les poëtes portugais et pour les poëtes de la langue romane. Ceux-ci, par exemple, avaient le lai qui correspondait directement au leod allemand et au laoi des Irlandais; ceux-là, Portugais et Espagnols, avaient le loa. La même chose sous le même mot. Une autre espèce de poëme s’appelait dict chez les trouvères, et les Portugais le connaissaient aussi sous un nom presque pareil. Dans la Carta del marquès de Santillana, se lit cette phrase par laquelle se trouvent indiqués ces dicts en langue portugaise: ‘Cantigas serranas, e dicires Portugueses e Gallegos.’ Pour exprimer la rime dans toute sa primitivité native, mais mélodieuse, nous avions le mot assonnance qui est resté, et le verbe assonner qui n’a malheureusement pas eu le même sort. Les Espagnols et les Portugais avaient de même le verbe asonar qu’ils étendaient jusqu’au sens de l’expression ‘mettre en musique[23].’ Enfin, il n’est pas jusqu’au mot troubadour qui ne se retrouve à peine modifié dans la langue portugaise. Tantôt c’est trobar, tantôt c’est trobador. Le premier de ces mots se trouve dans ce vers des Fragmentos de hum Cancioneiro inedito[24]:

Et por que m’ora quitey de trobar,

et le second, aux fol. 91 et 101 du même recueil.

Ces similitudes ne se retrouvent pas seulement dans les idiomes, mais encore dans le génie des deux nations. On voit par les œuvres qu’ont laissées leurs poëtes que toutes deux puisent aux mêmes sources et se renvoient mutuellement l’inspiration. Mais elle vient surtout des troubadours, il faut bien le dire; et quand nous avons appris que le roi de Portugal Diniz prit pour maître en l’art des vers le troubadour de Cahors, Aymeric d’Ebrard, qui lui apprit à faire même des vers provençaux, et qui reçut en récompense l’archevêché de Lisbonne où il fonda la fameuse université transportée en 1308 à Coïmbre; nous n’avons pas été surpris. À cette époque déjà, tous les bons maîtres venaient de France.

Pour preuve de la communauté d’inspiration des poëtes portugais et des troubadours, nous citerons deux exemples. Une chanson portugaise que nous lisons au fol. 78 du recueil rarissime cité tout-à-l’heure sera le premier. On la trouva ainsi traduite dans les Prolégomènes de l’Histoire de la Poésie scandinave, par M. Edelestand Du Méril[25].

‘Par Dieu! ô dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour vous.

‘Vous me semblez si belle, ô dame, que jamais je n’en vis d’aussi belle et je vous dis une grande vérité, telle que je n’en sais pas de plus vraie. Par Dieu, ô dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour vous.

‘Et Dieu, qui vous tient en sa puissance, vous combla si généreusement de ses dons, qu’il n’est rien au monde qui puisse ajouter à votre mérite. Par Dieu, ô dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour vous.

‘En vous créant, Madame, sa puissance montra tout ce qu’il était capable de réunir en une dame de mérite, de beauté et d’esprit. Par Dieu, ô dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour vous.

‘Comme brille le bon rubis au milieu des perles, vous brillez entre toutes celles que j’ai jamais vues, et c’est pour moi qui suis épris de tant d’amour que Dieu vous a créée. Par Dieu, dame Léonor, notre Seigneur fut bien prodigue pour vous.’

Notre second exemple será ce chant charmant de la Rosalinda. M. de Almeida-Garrett, avec ce tact exquis et cet haut goût archéologique qui le placent à la tête des poëtes les mieux inspirés et en même temps les plus érudits du Portugal, a retrouvé dans les vieilles traditions du peuple lusitain, et reconstruit d’après trois différents fragments, les meilleures variantes de ce chant depuis si longtemps populaire. Le poëte se trouve à chaque vers de cette chanson telle qu’il l’a rétablie, et l’érudit à chaque ligne de l’introduction historique dont il l’a fait précéder. Jamais en n’a mieux prouvé que dans cette préface savante, les rapports poétiques qui existèrent au moyen-âge entre les races du midi et celles du nort. Où M. Garrett trouve-t-il, en effet, le premier germe de la poétique image qui couronne la ballade portugaise? Dans les chants écossais, dans la romance du Prince Robert, telle que la tradition orale l’avait transmise a Walter-Scott pour son Minstrelsy of the scottish border etc.[26]; ou bien encore dans cette fameuse histoire de Tristam et de la belle Iseult, par Rusticien de Puise, dont il cite, d’après Walter-Scott, de trop courts fragments...

Ces détails miraculeux de l’histoire d’Iseult se retrouvent dans les dernières strophes de la Rosalinda[27]. On le verra, du reste, par la traduction complète que nous en avons tentée. Elle est en vers souvent inélégants et mal rimés, mais exacts, je crois, et serrant du plus près qu’il est possible la strophe portugaise, bien que dans un rhythme différent. Pour nous excuser des rimes insuffisantes et des mots vieillis, nous dirons que s’ils sont de mise quelque part, c’est dans un chant populaire, et nous alléguerons, à qui ne nous le pardonnerait pas, l’enthousiasme du morose Alceste pour cette vieille chanson du roi Henri, qui cependant est pleine de ces mêmes défauts. Ce qu’il dit pour les excuser devra nous justifier nous-même, et c’est l’un des vers que Molière lui prête que nous servira d’épigraphe.

ROSALINDA
BALLADE PORTUGAISE

La rime n’est pas riche et le style en est vieux[28]
Molière, Misanthrope.
C’était un matin de mai,
Quand l’oiseau dans la nuée,
L’arbre au bois, la fleur au pré,
Chantent l’amour réveillée.
C’était un matin de mai,
Quand Rosalinda l’infante
Sur le rivage embaumé
Peignait sa tête charmante.
Blanches fleurs on lui portait,
Rouges fleurs avec leur branche:
Mais en grâce elle passait
Et la fleur rouge et la blanche.
Mieux que celle des épis,
Mieux que la rose nouvelle,
Le nénuphar et le lis
La belle infante était belle.
Le comte amiral passait
Avec sa galère sombre
Mainte rame s’y pressait
Tant, qu’on n’en sait pas le nombre.
Les captifs ses noirs rameurs
Il les prit au pays More.
Tous, ils sont de grands seigneurs,
Ou du sang royal encore.
Depois Ceuta, pas un port
Qui ne redoute la guerre
Quand le comte amiral sort
Avec sa noire galère.
Voyez, comme elle fend l’eau,
Comme on y rame em mesure!
Que son capitaine est beau,
Que sa main est forte et sûre!
—‘Dites moi, comte amiral,
Pour ces captifs, votre prise,
Le labeur, est-il égal?
Rament-ils tous, sous la brise?
—‘Vous que je vois se mirer,
Belle infante, fleur d’élite,
Savent-ils, tous vous parer
Ces esclaves, votre suite?’
—‘L’amiral est peu galant,
Pour réponse une demande!
Qu’il parle, il se peut pourtant
Que sa réponse on lui rende.’
—‘Ainsi qu’un chef d’Adouar,
J’ai bien des captifs, madame,
Du travail tous ont leur part,
L’un manœuvre et l’autre rame.
‘Les captives au beau front
Dansent, effeuillant la rose,
Et de fleurs jonchent le pont,
Pour que leur maître y repose.
—‘Vous répondez, je vous dois
Comte, égale politesse:
J’ai, dociles à ma voix,
Esclaves de toute espèce.
‘L’un est là pour m’atourner
Et cet autre me fait brave (belle).
Un emploi reste à donner,
Où manque encor un esclave...
—‘Cet esclave il est trouvé,
Il défend qu’on le libère;
Il ne veut qu’être arrivé,
Ramez vite, allons à terre!
Et Rosalinda partit:
Et le comte est avec elle,
Les fleurs leur prêtent un lit,
L’oranger sa verte ombelle.
Mais le sort,—c’est là sa loi—
Ne veut qu’un bien sans mal vienne:
Là, passe un veneur du roi...
C’est ce destin qui l’amène.
—‘De tout ce qui tu vis là,
Ne conte rien à personne,
Veneur, on te donnera
De l’or à payer un trône.’
Mais ce que le veneur sait,
Près du roi vite il s’en vante,
Qui dans son palais était,
Et qui pensait à l’infante.
—‘En honneur dis chaque mot
Tu recevras récompense
Mais qui dit haut, ira haut,
C’est-à-dire à la potence.’
‘Vite, archers, vite clairons,
Sonnez, comme pour combattre,
Nobles, cavaliers, piétons
Vite, allons la forêt battre.’
Midi n’était pas frappé
Que sonne un glas mortuaire,
Minuit n’avait pas tinté
Que leur tête était par terre.
Quand l’Angelus vint après
Dans leur fosse on les emporte,
Elle au maître-autel, lui près
Des marches de la grand’ porte.
Voilà qu’au premier tombeau
Nait un noble et puissant arbre,
Quand un rosier grand et beau
Pousse auprès du second marbre.
—‘Ça qu’on les lie en fagot
Pour en faire de la cendre,’
Cria le vieux roi, sitôt
Que la chose il put apprendre.
Mais on eut beau les raser,
Chacun à l’envi repousse;
Même, ils semblent se baiser
Sous la bise qui les pousse.
Au roi l’on a révélé
Cette aventure inouie.
Depuis, il n’a plus parlé;
La reine est évanoui.
D’elle on a pu retenir
Ces mots: ‘Je ne suis plus reine!
Dieu voulait les réunir,
Nous avons rompu leur chaîne!’