V
O CHAPIM D’ELREI OU PARRAS VERDES
Foi verdadeiramente reconstruida ésta xácara
dos fragmentos soltos da composição popular
antiga, como hoje se reconstruiria das
pedras cahidas de uma tôrre velha,—não exactamente
o mesmo edificio, porque o cimento,
e algum inchume novo aqui ou alli, seria mister
impregar—mas quasi a mesma coisa; na
fórma e nos materiaes a mesmissima.
Vieram-me de Evora os fragmentos por
intervenção do Sr. Rivara, o habil e zeloso
bibliothecario d’aquella cidade: são parte em
prosa, parte em verso, estado em que alguns
d’estes fósseis se desinterram ás vezes. Verifiquei
depois que pelas vizinhanças de Lisboa
se incontravam na mesma fórma e quasi os
mesmos.
Deixei-lhe com mais seguridade o titulo
de xácara que trazem muitos outros de nossos
romances populares, porque effectivamente
creio que quadra mais aos d’esta especie de
narrativa que é feita dramaticamente pelos
dizeres de um e outro dos seus personagens,
emquanto o poeta pouco ou nada diz epicamente
elle mesmo.
Nós temos, se me não ingano, no genero
narrativo popular as tres especies, romance,
xácara, soláo: no romance predomina a fórma
epica, conta e canta principalmente o poeta;
na xácara prevalece a fórma dramatica, diz o
poeta pouco, ás vezes nada—fallam os seus
personagens muito: o soláo é mais plangente
e mais lyrico, lamenta mais do que reconta o
facto, tem menos dialogo e mais carpir: ás
vezes, como no soláo da Ama em Bernardim-Ribeiro,
não ha senão o lamento de uma só
pessoa que vai alludindo a certos successos,
mas que os não conta.
Apezar do que levo ditto no princípio d’estas
linhas, como não posso negar que ha bastante
do meu cimento no ligar e assentar das
pedras velhas, e ellas eram tam poucas e tam
sôltas, escrupulisei de pôr ésta peça no II livro
do ROMANCEIRO paraque me não accusassem
de macaquear as imposturas de Macpherson
ou de Fr. Bernardo de Brito.
A anecdota, que eu deixei religiosamente
como a refere o povo, parece dever ter sido
algum facto que realmente acontecesse:—como,
quando e aonde? Não pude encontrar vestigio.
É o que diz o pobre do conde, scismando:
O chapim aqui o tenho,
O chapim bem n’o topei:
mas cujo é, e a que pé serve, só se voltar do
outro mundo o dito rei para no-lo dizer.
Lisboa, 27 de Março de 1843.
No appendice ao II livro do ROMANCEIRO
achará o leitor a versão ingleza d’esta xácara,
publicada pelo Sr. Adamson na sua LUSITANIA
ILLUSTRADA, part. II.
Abril, 17—1853.
OS EDITORES.
O CHAPIM D’ELREI
OU
PARRAS VERDES
I
Verdes parras tem a vinha,
Riccas uvas n’ella achei,
Tam maduras, tão coradas...
Estão dizendo ‘comei!’
—‘Quero saber quem n’as guarda;
Ide, mordomo, e sabei:’
Disse o rei ao seu mordomo.
Mas porque o dizia o rei?
Porque viu n’aquelle monte
—E como elle o viu não sei’—
Essa donna imparedada,
Não se sabe por que lei,
Que por seu mal é condessa,
Condessa de Valderey:
Antes ser pobre e villan,
Antes pela minha fei
[17]!
Verdes parras tem a vinha:
Uvas que lhe víra el-rei
Tam maduras, tão coradas,
Estão dizendo ‘comei!’
II
Veio o mordomo do monte:
—‘Boas novas, senhor rei!
A vinha anda bem guardada,
Mas eu sempre lá entrei.
‘O dono foi-se a outras terras,
Quando volverá não sei;
A porta é velha, e a porteira
Com chave de ouro a tentei.
‘Serve a chave á maravilha,
Tudo porfim ajustei:
Ésta noite á meia-noite
Comvosco á vendima irei.’
—‘Valeis um reino, mordomo,
Grandes mercês vos farei:
Ésta noite á meia-noite
Riccas uvas comerei.’
A vinha tem parras verdes,
Madura a uva lhe achei;
E tam madura, tam bella,
Que está dizendo ‘comei!’
III
Ao pino da meia-noite
Foi mordomo e foi o rei:
Doblas que deram á velha,
Um conto que nem eu sei.
—‘Mordomo ficae á porta,
Á porta que eu entrarei;
Não me saltem cães na vinha
Em quanto eu vendimarei.’
A porteira o que lhe importa
É a dá-me que te darei...
No camarim da condessa
Veis agora entrar o rei.
Levava um candil acceso;
Era de prata, sabei:
Não ha senão prata e oiro
Na casa de Valderey.
Da vinha as parras são verdes
As uvas maduras sei,
São tão coradas, tão bellas...
D’ellas—quando comerei!
IV
No camarim da condessa
Tudo andava á mesma lei,
Era o ceo d’aquelle anjo:
Que mais vos diga não sei.
Riccas sedas de Millão,
Toalhas de Courteney...
Tremia o rei—se era susto,
Se era de gôsto não sei.
Cortinas de seda verde
Vai ergo não erguerei...
Tal clarão lhe deu na vista,
Como não cahiu não sei.
Era uma tal formosura...
Ora que mais vos direi?
Outro primor como aquelle
Não vistes nem eu verei.
Verdes parras tem a vinha,
Riccas uvas lhe avistei,
Tam formosas, tam maduras,
Estão dizendo ‘comei!’
V
Dormia tam descançada
Como eu no ceo dormirei
Quando for tam innocente...
Jesus! se eu lá chegarei!
De joelhos toda a noite
Alli fica o bom do rei,
Pasmado a olhar para ella
Sem bulir nem mão nem pei
[18].
E dizia:—‘Senhor Deus!
Perdoae-me o que já pequei,
Mas este anjo de innocencia
Não sou eu que offenderei.
Tem verdes parras a vinha;
Lindas uvas que eu lhe achei,
Tenho medo que me travem...
D’ellas, ai! não comerei.
VI
Ja vinha arraiando o dia,
E elle, como vos contei,
Ouve apitar o mordomo...
—‘Jesus, senhor, me valei!’
Era o signal ajustado
—Vindo o conde, apitarei—
Deixou cahir as cortinas
Dizendo:—‘Não vendimei!’
Lindas parras tem a vinha,
Bellas uvas n’ella achei;
Mas doeu-me a consciencia,
Das uvas não comerei.
VII
Deita a correr com tal pressa
Que voava o bom do rei:
—‘Ai que perdi um chapim...’
—‘Tomae, que um meu vos darei:
‘Mas nem um instante mais,
Que o conde ja avistei
Descendo d’aquella altura;
Se nos colherá não sei...’
Era o medo do mordomo:
Outro era o medo do rei.
Qual d’elles tinha razão
Agora vo-lo direi.
Parras verdes viu na vinha,
Uvas maduras de lei;
Foi travo da consciencia,
Diz:—‘D’ellas não comerei.’
VIII
Chega o conde á sua tôrre,
O conde de Valderey,
Topou n’um chapim bordado...
Como ficou não direi.
Vai-se ao quarto da condessa:
—‘Morrerá, mattá-la-hei.’
Viu-a dormir tão serena:
—‘Jesus! não sei que farei!’
Corre a casa ao derredor:
—‘Deus me tenha em sua lei,
Que ou ésta mulher é bruxa
Ou eu c’o chapim sonhei!
‘O chapim aqui o tenho,
O chapim bem n’o topei...
Mas que durma assim tão manso
Quem tal fez, não n’o crerei.’
Entrou a scismar n’aquillo:
—‘Valha-me Deus! que farei?
Por menos fica homem doudo;
E eu como o não ficarei?’
Minha vinha tão guardada!
Uvas que n’ella deixei
Não é fructa que se conte...
Da que me falta não sei.’
IX
Foi-se fechar no mais alto
Da tôrre de Valderey:
—‘Não quero comer do pão,
Nem do vinho beberei;
‘Minhas barbas e cabellos
Tambem mais os não farei,
Que ésta verdade não saiba
D’aqui me não tirarei.’
Verdes parras d’essa vinha,
Uvas que eu não comerei,
Ficae-vos sêccas embora,
Que eu já’gora—morrerei.
X
Por tres dias e tres noites
Que se guarda aquella lei;
Clama a triste da condessa:
—‘Ao seu mal que lhe farei!’
De quem foi ella valer-se?
Agora vo-lo direi.
Foi lastimar-se a innocente...
Onde iria?—ao proprio rei.
—‘Ide, condessa, ide embora,
Que eu remedio lhe darei;
O segredo do seu mal
Sei-o eu... Se o saberei?
‘Palavra de cavalleiro
Em lealdade vos darei,
Que ou elle hade ser quem era,
Ou eu, quem sou, não serei.’
As verdes parras da vinha,
As uvas que eu cubicei,
Ellas a travar-me n’alma...
E mais d’ellas não provei!
XI
Fôra d’alli a condessa,
Não tardou em ir o rei:
—‘Quero ouvir o que elles dizem,
A ésta porta escutarei.’
Ouviu uma voz celeste
Como tal nunca ouvirei,
Cantando em doce toada
Este triste vireley:
—‘Já fui vinha bem cuidada,
Bem querida, bem trattada:
Como eu medrei!
Ora não sou nem serei:
O porquê não sei
Nem n’o saberei!’
Com as lagrimas nos olhos
Foi d’alli o bom do rei:
—‘Oiçamos agora o outro,
E o que sabe, saberei!’
—‘Minha vinha tam guardada!
Quando n’ella entrei
Rastos do ladrão achei;
Se me elle roubou não sei:
Como o saberei?’
Era o conde a lastimar-se.
Surrindo dizia o rei
(Se era de si ou do conde
Que elle se ria não sei):
—‘Eu fui que na vinha entrei,
Rastos de ladrão deixei,
Parras verdes levantei,
Uvas bellas
N’ellas—vi:
E assim Deus me salve a mi
Como d’ellas
Não comi!’
XII
A porta tinha uma fresta:
Tirou o chapim do pei
[19],
Atirou-lh’o para dentro,
Disse-lhe:—‘Vêde e sabei.’
Do mais que alli succedeu
Para que vos contarei?
O conde soube a verdade,
E o rei soube—ser rei.
Verdes parras tem a vinha,
Riccas uvas lá deixei:
Quem m’a guardou foi o medo...
De Deus e da sua lei.