85 Os oleiros molhaõ as maõs naõ só por se naõ pegar o barro a ellas, mas tambem para alizar a obra, que começaõ entre as maõs ambas, tendo huma dentro do vaso, e a outra fóra: outras vezes apertaõ o barro entre o dedo pollegar e o index de ambas as maõs. He impossivel relatar todas as differentes posições que o oleiro dá as maõs; muitas vezes variaõ a posiçaõ em huma mesma obra. Para aperfeiçoarem a obra, ou diminuir-lhe a grossura, se servem do calibre, que elles chamaõ atelli; elles tem muitos de differentes figuras, conforme requer a obra que elles fazem: alguns destes calibres tem molduras, e a maior parte saõ de ferro; mas tambem alguns saõ de páo.
86 Quando se vê trabalhar hum habil oleiro de roda parece que o seu trabalho he muito facil de executar; todavia requer muita destreza: porque naõ he facil dar igualdade de grossura a hum vaso de barro tendo huma maõ dentro delle, e outra fóra. Tambem se augmenta a difficuldade, e se faz conhecer mais a habilidade do obreiro, quando he preciso dar mais grossura ao vaso em humas partes, do que em outras: seria, por exemplo, mais facil fazer o fundo de hum alguidar mais grosso, do que os lados; com tudo he melhor que o fundo seja mais delgado, que os lados. Outras obras precisaõ maior grossura na barriga ou bojo; e hum habil obreiro chega a executar todas estas cousas com bastante exactidaõ, sem se servir de compaço, ou outra alguma medida. Naõ se limita só nisto; porque estende, ou aperta o barro, á sua vontade, de sorte que tendo feito hum vaso grande, o torna pequeno, querendo, e de largo o faz estreito, se he alto o reduz a baixo; e, aproveitando-se da ductilidade do barro, faz delle o que quer; com tudo nota-se, que os pratos razos e fundos, etc. que foraõ feitos na roda, se quebraõ quasi sempre pellas linhas circulares, o que naõ acontece aos vasos feitos em moldes; parece, que trabalhando-se o barro na roda algumas camadas se naõ unem perfeitamente.
87 Adiante representarei muitas obras, que se fazem na roda; mas para dar hum exemplo do que podem fazer os oleiros de obra grossa, escolherei hum mealheiro Est. I, fig. 19. Vou explicar como se faz esta pequena peça taõ commum, que he de hum só pedaço, fechado de todas as partes, e feito inteiramente sobre a roda, sem ser soldada, nem feita de tiras, ou pedaços: o que parece difficil de executar.
88 O oleiro torneia na roda a parte baixa, ou fundo do mealheiro, como se quizesse fazer hum pote ou vaso pequeno; depois recalca o barro, e aperta a abertura; formando como hum pequeno zimborio, e isto faz huma especie de aperto para isto aperta o barro da parte de fóra com o dedo pollegar, e por dentro o sustenta com o index, e isto continúa em quanto póde ter o dedo index dentro do mealheiro. Quando já naõ póde ter o dedo comprime com o pollegar, e index huma porçaõ maior de barro, que fica reservada em roda do buraco, e neste lugar fórma hum botaõ, que tapa inteiramente o mealheiro, depois com a folha de huma faca abre a fenda por onde se introduz o dinheiro, e por dentro nas margens desta fenda se formaõ rebarbas, que naõ deixaõ sahir o dinheiro, quando se sacode o mealheiro; finalmente com hum fio de lataõ, ou arame, a que os oleiros chamaõ serra, despega o mealheiro da roda pequena sobre a qual se fórma a louça.
89 Havendo-se de fazer na roda hum grande alguidar para ensaboar; como as bordas saõ grossas, e elle he muito mais largo na boca do que no fundo, he preciso usar de hum barro mais duro, porque sendo molle, naõ se poderá suster. Como nestes alguidares se costuma fazer lugar de escorrer ou vazadouro a modo de goteira isto se faz antes de os despegar da roda; para este fim se dobra com os dedos o lugar aonde se quer fazer a goteira em quanto o barro ainda está molle. Em fim, estando feito o alguidar, ou outra qualquer obra, se despega da roda com huma folha de faca, se a obra he pequena, ou com hum arame se he grande.
90 Há alguidares grandes, em que se põe orelhas; porém estas naõ se fazem na roda; adiante fallaremos delles, assim como de outras muitas obras, nas quaes he preciso pôr péz, e azas, etc.
91 Os vasos communs de flores n, fig. 17, est. I, se fazem inteiramente sobre a roda; devem ser hum pouco mais largos para cima do que para baixo, para se poder tirar o torraõ direito, e levar as plantas com o torraõ em que se criáraõ: em cima e na boca se lhe fórma hum cordaõ que os fortifica, e os torna mais faceis de mudar de hum lugar para outro. As gamelas tambem se fazem na roda, e acabaõ em cima com huma borda grossa, ou cordaõ, como inteiramente os vasos de flores. Os pratos se fazem do mesmo modo; mas para as bordas acabarem com regularidade se servem do calibre.
92 Os vasos de despejos A, B, D, fig. 20, est. I, se fazem por duas vezes. Sabe-se que elles saõ mais largos por huma ponta, do que pela outra b, que fórmaõ huma cinta, ou anel de barro, que se lhe põe quatro dedos distante da sua borda, alguns oleiros chamaõ anel, e outros viret. Com huma só operaçaõ se acaba todo o vaso, e na ponta b, fica mais estreito, e ahi se fórma hum anel: e depois se despega de cima da roda pequena ou prato, onde está pegado por hum bocado de barro, que ahi se deixou; acaba-se a ponta a, mais larga, que deve receber em si a ponta b, que he mais estreita, e tem o anel de que acima falamos; estes vasos se fazem inteiramente na roda; porém por duas vezes. Naõ he o mesmo a respeito dos vasos em dous E, C, fig. 20, ou que se dividem em dous para corresponder á dous assentos. A este respeito se deve notar, que há tubos de despejo que saõ mais largos, que outros; e por isso se fazem tubos, que tem hum pé de diametro, e outros só tem oito, ou nove pollegadas. Ora, quando se faz hum tubo de barro, que se deve dividir em dous como E, C, a parte A, B, que corresponde a huma serie de tubos, que se estende desde a cava, até a divisaõ, ordinariamente se faz com tubos de maior diametro, e as divisões E, C, se fazem com tubos de menor diametro. Para fazer o vaso ou tubo que se divide em dous, saõ precisos tres tubos hum grande, e dous pequenos; põe-se a seccar hum pouco est. II, fig. 7. o que explicarei com brevidade; e tendo posto o grande pote sobre a mesa em que se ha de preparar est. II, fig. 8, com a ponta rebaixada para baixo, chanfra-se a ponta larga que está para cima, chanfraõ-se tambem as pontas mais estreitas dos dous tubos do molde pequeno, para as soldar com o grande, como se dirá. Desta sorte os tubos, que se dividem em dous se fazem parte na roda, e parte á maõ; mas por naõ separar daqui cousa alguma, das que pertencem aos vasos de despejo, por isso julguei dever fallar de tudo. Farei ver sómente, que se póde fazer a separaçaõ dos tubos, sendo taõ grandes huns, como outros, como se representou em A, B, C, D, fig. 20, est. I. Começo outra vés a fallar nas obras que se fazem inteiramente na roda.
93 Para fazer testos de potes, marmitas, escalfadores, fogareiros etc. como I, Est. I, fig. 12, põe se sobre, a roda pequena, ou prato hum bôlo de barro; do qual se querem fazer varios testos, começa-se primeiro a formar a parte de baixo do testo, que he hum pouco convexa no meio; depois apertando-se com os dedos da outra maõ o barro, que está por baixo do testo, se forma a parte de cima, que he concava; faz-se no meio hum botaõ, e se acaba despegando-o do barro com o dedo, ou folha de faca. Depois querendo se se põe o testo sobre o barro que está na roda, e se aperfeiçoa entaõ pela parte de cima; mas de ordinario se naõ pratica isto: successivamente se tiraõ tantos testos, quantos póde dar o barro que está na roda.
94 Os testos de fogareiros, e escalfadores fig. 13, Est. I, se fazem pouco mais, ou menos da mesma fórma, ainda que sejaõ hum pouco mais compostos, porque devem ter hum circulo, ou anel que encaixa dentro da bocca do escalfador.
95 Para calibrar as obras, se usa de hum torno pouco mais ou menos, como o da fig. 18. Elle tem huma roda a, hum eixo b, que tem a roda pequena, ou prato c, sobre o qual está a obra d. Está claro que ajustando-se por cima da mesa hum calibre, que se possa chegar para diante, ou retirallo da obra d, á vontade do obreiro certamente formará com exactidaõ as voltas, ou molduras, que se quizerem na obra, tirando-lhe por fóra o barro, que se pôs de mais; porém este calibre só póde formar o exterior, e naõ se póde usar delle nos vasos, que devem ser trabalhados tambem por dentro; serve só para os pés destinados a sustentar vasos, ou outras cousas de ornatos, que á maõ se alimpaõ por dentro, por naõ ser o interior de alguma consequencia; mas póde-se fazer uso de hum torno quasi semilhante para os vasos de jardim, como vou explicar.
96 Quasi todos os vasos grandes de jardim se fazem por moldes; com tudo elles se podem tambem fazer no torno, com hum calibre grande ee, entalhado nos lugares, que devem sobresahir no vaso, e formar os salientes nas partes onde os contornos do mesmo vaso devem ser ocas, ou cavadas. Supponhamos, que se quer fazer, o vaso Est. I, fig. 21; faz-se de tres pedaços; hum faz o pé, outro o corpo l, e outro o testo m, ao qual se ajuntaõ alguns ornatos, como hum globo, huma pinha, pomo, etc. Vou agora explicar como se faz o corpo L, sobre a mesa B, Est. I, fig. 21. O calibre, que anda em roda se forma de hum páo vertical hh, cuja ponta debaixo ou piaõ, se introdus em hum buraco, feito no meio da mesa aa, que deve ser forte, e por cima he sustida por hum cachimbo de páo g, que fica preza a huma peça tambem de páo, quadrada bb, assim he preciso conhecer que o páo vertical hh, vira livremente sobre si mesmo. Este páo deve ser bem forte para poder sustentar com firmeza a potencia ii, que deve puxar o calibre ee, que algumas vezes forceja muito pela impressaõ que faz no barro, que excede do corpo do vaso. Tambem se ajuda a fazer firme o calibre segurando-o por baixo com a maõ, que vai sobre a mesa em o, e com a outra maõ tirando o barro, quando se vê que o calibre tem muito barro para levar. Percebe-se, que as peças de páo quadradas bb, assim como a mesa aa, devem estar bem firmes; mas como se fará por differentes modos, segundo o lugar, em que se levantar o torno, eu me contento só em mostrallo. O oleiro põe o seu barro sobre a mesa aa, e tendo huma maõ dentro do vaso, e outra fóra lhe fará tomar pouco mais, ou menos a figura, que elle projecta dar ao vaso; digo, pouco mais, ou menos; porque o calibre ee, he o que deve aperfeiçoar a figura do vaso. Este calibre ee, he huma taboa pouco grossa, cujas bordas terminaõ em chanfro, e saõ talhadas de modo, que o contorno das bordas faz, por assim dizer, a contra prova do vaso que se quer fazer. Deve-se segurar bem com parafusos em huma peça de páo quadrada ii, que fórma huma potencia; para se adiantar, ou recuar este calibre, segundo a grossura, que se quer dar ao vaso, a potencia ii, he fendida, e tem hum grande encaixe; de sorte que afroxando o parafuso, o calibre ee, se pode chegar-se para diante, ou recuar, e se segura apertando o parafuso. Estando tudo assim disposto, se faz virar á maõ o calibre ee, que leva diante de si o barro, que há de mais, e o oleiro o accrescenta nos lugares aonde falta; ao mesmo tempo põe o vaso, quasi igual na grossura com hum calibre por dentro, tirando o barro, que ha de mais aonde he muito grosso. Finalmente, quando o corpo do vaso está bem formado, se deixa hum par de dias sobre a mesa, para que o barro se faça mais duro; depois se despega da mesa, com hum arame; tira-se o pedaço de páo g, e tendo tirado o páo hh; como tambem o calibre ee, pega-se no vaso com ambas as maõs, depois de tirado o páo hh, que o atravessa em seu eixo; e se põe o vaso a seccar. Entaõ se faz o testo com outro calibre, e o pé tambem com hum calibre proprio a figura que se lhe deve dar. Depois de terem estado as peças algum tempo a seccar, viraõ-se sobre a mesa, em que se aperfeiçoaõ, para se alimparem por dentro com hum instrumento proprio para isso Y, Est. II, fig. 1, e formar-lhe aneis para se ajustarem differentes peças. Parecendo conveniente ao oleiro ajuntar azas ao corpo do vaso, e adiante se explicará o modo de o fazer: algumas vezes se segura fixo, e immovel, o calibre e o vaso he que vira sobre huma rodela, que se move á maõ. Tudo isto pouco mais ou menos he o mesmo.
97 Todo o mundo conhece os vasos grandes de hum barro esbranquiçado, vidrados por dentro, que chamaõ talhas, A, fig. 20, Est. II, elles se fazem em Provença. Muitas pessoas attentas á sua saude, para evitar os inconvenientes que poderiaõ resultar do cobre, mandaõ vir estas talhas para conservar a agua de que usaõ. Ha algumas muito grandes, que saõ grossas, e sólidas; com tudo cobrem-se tambem de esteiras de palha, e com esta precauçaõ duraõ muito tempo sem se quebrarem; havendo cuidado no Inverno de as ter em parte, onde naõ gele a agua, que tem dentro. Quasi todos os Navios as levaõ para conservar a agua destinada para a meza do Capitaõ; e em Provença se conserva o azeite nestas talhas.
98 O gosto, que tem todos de conservar a agua em talhas, tem obrigado aos oleiros, que trabalhaõ em greda, a fazer potes taõ grandes, quasi como os vasos de que se acaba de fallar. Ha alguns, que levaõ a quarta parte de hum almude. Eu os conservo no meu laboratorio de Chymica em Campagne feitos, em Saint Fargeau, vidrados por dentro; os que se vendem em París, e os que tem torneira, ou esguicho, vem de Picardía.
99 Porém vi em muitos lugares, e igualmente tenho á muito tempo vasos grandes de barro vermelho, entre os quaes há alguns, que levaõ mais de meio almude: os que saõ bem feitos a agua os naõ penetra, inda que naõ sejaõ vidrados. Servem para muitos usos; para guardar lexivias; para fazer salmouras em lugar de celhas de salgar carne; e vi em jardins algumas, que, estando rodeadas de obras de pedra calcaria, serviaõ de conservar a agua, para se regarem, ou aguarem as plantas. Eu naõ sabia de donde vinhaõ estes vasos, e talvez se façaõ em muitos lugares; mas Mr Desmarais me fez ver no calendario Limousin do anno de 1770 hum artigo, que julguei dever introduzir aqui.
100 Hum quarto de legoa distante de Montmoreau que fica seis legoas ao Sul, de Angoulème se acha a Cidade Saint Eutrope, e quasi todos os habitantes desta Cidade fazem louça. Contaõ-se ahi trinta familias todas empregadas neste trabalho: vinte e cinco fornos estaõ sempre occupados em cozer louça miuda, pratos pequenos, grandes, e panellas para o fogo de differentes tamanhos; porém ha tres, que estaõ destinados para cozer differentes obras, e principalmente vasos grandes para fazer Lixivia, e salgar toucinho, etc. Todos os oleiros, que tem de cozer destes vasos grandes, os levaõ a hum destes tres fornos.
101 Para esta qualidade de louças servem-se de huma argilla muito ductil, que se acha junto da aldêa. A occupaçaõ das mulheres, e dos meninos, he humedecer, e amassar, esta argilla com huma massa de ferro sobre hum pilaõ, tambem daõ os ultimos talhes á louça, o que se chama aperfeiçoar: porém naõ he isto só o que elles fazem, ainda vaõ cortar arbustos, e páos miudos para aquentar os fornos de cozer as louças.
102 Os homens fazem vasos grandes em huma roda muito simples D, Est II. fig. 3. ella se fórma de duas rodellas E, , semelhantes ás de hum zimborio de moinho. Estas rodellas estaõ juntas huma á outra por seis furos G: a rodella F, tem hum buraco em H, para receber a espiga ou eixo I, que está bem segura por baixo na terra; de sorte, que este zimborio em sua espiga, ou eixo, vem a formar como huma dobadoura. O obreiro põe o barro sobre a rodella E, e com o pé que põe sobre a outra roda F, a faz andar lentamente. Logo que está feita a primeira base do vaso, elle trabalha os lados, accrescentando successivamente rolos de barro, que liga huns sobre os outros, unindo as superficies interiores, e exteriores com as maõs: deste modo chega a acabar vasos grandes, os quaes torna redondos por meio do torno; e elle tem cuidado de dar pequenas pancadas com a palma da maõ no barro para o comprimir. Depois de seccos estes vasos se fazem cozer nos fornos grandes, quasi semilhantes aos que se representaraõ na Est. I, fig. 7, 8, e 9. Estas louças se vendem principalmente em Angouleme, Perigueux, Saintonge, Bordeaux. Os oleiros naõ podem dar vasaõ ás encommendas que tem dellas.
103 Quando os vasos, de que se tem tratado, saõ muito grandes, se fazem de muitas peças: huma fórma o fundo, outra o corpo, e outra a parte mais alta; e todas estas peças se unem com aneis de barro, que se cozem com o vaso, e ficaõ taõ sólidas, como se fossem de huma só peça.
104 Vê-se em alguns vasos, feitos em Normandia, partes sahidas para fóra e saõ adornos; algumas vezes estas partes postas circularmente, servem de encobrir, e fortificar os lugares, em que foraõ as soldaduras.
105 A fig. 2, M, he hum grande vaso de barro, no qual se põe algumas vezes huma torneira, para fazer delle huma fonte, ou lavatorio, e substituir os de cobre: há alguns que tem por dentro pratos desenhados por linhas pontuadas; estes pratos estaõ cheios de buracos, e se lhe põe arêa grossa para filtrar a agua, e fazer fontes areentas.
106 Saõ bem conhecidos os potes cylindricos de Normandia, em que vem as manteigas de Isignes. Depois de vazios, as familias pequenas se servem delles para conservar agua. A fig. 6, P, est. II, he huma botelha de barro de Normandia. Quando se faz no torno a barriga QQ, e o gargallo R, se solda na barriga no lugar T.
107 Naõ faço huma maior relaçaõ das differentes obras, que se fazem inteiramente no torno; pois o que se acaba de dizer bastará para fazer perceber o modo porque se fazem aquelles, de que se naõ falla: agora vou fallar das obras, que se fazem, parte no torno, e parte na mesa para lhes pôr azas, e pés.
108 Depois de começadas estas obras no torno, e se lhes ter dado a figura, que devem ter, se despega da rodella com o fio ou arame de latam, e se põe sobre humas taboas, a que chamaõ armaçaõ de ripas, D Est. III, fig. 4, porque estaõ ao tempo, e se fórma de ripas; deixaõ-se seccar as obras hum pouco, ou endurecer á sombra, mesmo defendidas de huma grande corrente de ar, porque he preciso, que sequem lentamente.
109 Depois das obras estarem alguma cousa duras sobre as ripas, se transportaõ para huma mesa pondo humas ao pé das outras para as aperfeiçoar.
110 Esta operaçaõ consiste em remediar a maõ os defeitos, que se lhe percebem; se ha barro pegado em huma parte, se tira com huma faca de páo muito estreita que se molha; se as bordas de algum vaso se inclinaraõ para alguma parte, indireitaõ-se; se na barriga se fez alguma cova, passa-se a maõ por dentro do vaso para o endireitar fazendo vir para fóra; se as boccas, que devem ser redondas, apparecem ovaes, se indireitaõ apertando-as entre as maõs. Algumas vezes he preciso cortar por baixo os vasos para ficarem com o assento mais firme; isto se faz pondo a bocca do vaso sobre a mesa, e o fundo para cima; depois se tira o barro com hum instrumento de ferro Y, fig. 1, Est. II, que tem córte. Daõ-se de differentes formas huns saõ, direitos, outros curvos, chamaõ-se tournassin.
111 Sobre a mesa tambem he, que se põe os pés, os cabos, e azas nas peças, que os devem ter.
112 Todas estas cousas saõ peças relativas que se soldaõ nos lugares, em que se devem pôr, tendo-se feito á maõ sobre huma mesa. O modo de soldar os cabos, as azas, e os pés he o mesmo; porém devem haver certas precauções por se naõ despegarem estas peças. Alguns exemplos bastaraõ para se perceber esta pequena manobra.
113 Tomo por exemplo huma marmita; fórma-se no torno a barriga, o gargallo e a borda, e deixando-se sobre as ripas este corpo de marmita, se põe sobre a mesa para o aperfeiçoar, e ajuntar-lhe as azas. Os oleiros se portaõ nisto de dous modos differentes: huns formaõ a aza sobre a mesa; daõ-lhe o contorno, que lhe convem; depois para apegar ao corpo da marmita, raspaõ hum pouco os dous lugares, onde se deve pegar a aza ao corpo da marmita; esfregaõ estes lugares com hum bocado de barro novo, soldaõ a aza apertando-a fortemente com o dedo pollegar contra o corpo da marmita, ou do fogareiro, etc. Outros, depois de ter raspado o corpo da marmita, põe sobre o mesmo lugar hum pedaço de barro novo, que trabalhaõ á maõ para o fazer tomar a figura de aza; e depois de o terem preparado raspaõ o lugar aonde ella deve chegar, e pondo hum pouco de barro novo, e apertando bem com os dedos a aza se pega de modo, que naõ despega mais. Este methodo se tem por mais sólido, do que o precedente.
114 As orelhas aa, dos potes Est. I, fig. 12 se soldaõ do mesmo modo, que as azas das marmitas.
115 Em geral para que duas peças se ajuntem bem, he preciso que os dous barros estejaõ no mesmo gráo de seccura; naõ sendo assim, huma peça encolheria mais do que outra, e se despegaria, ou quebraria. Com tudo se o corpo da marmita seccasse muito se tornaria a humedecer no lugar, em que se quizesse soldar, pondo-lhe por cima hum panno molhado, que dentro em huma noite humedece quanto basta.
116 O corpo dos potes de tres pés fig. 15, Est. II, se faz no torno, depois se trazem para ahi os pés, e azas, como disse da marmita, e para se soldarem se poem na mesa com a bocca para baixo; e testo C, naõ deve ter borda com encaixe.
117 O corpo dos escalfadores fig. 13, Est. I, se faz ao torno; fórma-se a barriga a, redonda, depois aperta-se o barro para formar a parte cylindrica b, fortifica-se o bordo com hum rôlo ou anel de barro, faz-se-lhe hum pequeno bico, e quando estaõ já alguma cousa duros; levaõ-se para a mesa de aperfeiçoar para se acabarem, e pôr-lhe a aza C, como se disse da marmita.
118 O corpo b. das cassarolas, etc. Est. I, fig. 14, se faz no torno, ha oleiros que fazem no mesmo torno o cabo, outros o fazem á maõ sobre huma taboa. Todos o soldaõ a cassarola, como já se explicou.
119 Os cabos que se fazem no torno saõ muito mais proprios, do que os feitos á maõ sobre a taboa; porém bom he explicar como se faz no torno hum tubo ôco pelo qual apenas se póde introduzir hum dedo. Começa-se por baixo, com sufficiente largura, para formar o tubo entre o pollegar, e os outros dedos. Este tubo tem pouca altura, e deve ser grosso, porque será preciso estendello no comprimento; para isto comprimindo brandamente o tubo entre as maõs, se estende, levantando as maõs, e elle diminue de grossura á proporçaõ que se estende em comprimento; acaba-se fazendo-lhe huma pequena orla na borda c. Em fim se despega da rodella; e depois de ter comprimido hum pouco a ponta, que ha-de pegar no corpo da cassarola, como as azas dos fogareiros etc.
120 Os coadores se fazem como as cassarolas, etc. só sim demais se lhe abrem buracos com huma especie de buril, quando elles estaõ meios seccos.
121 Tambem se fazem fogareiros pequenos, em que se põe brazas para os esquentadores de madeira; fazem-se no torno, e antes de os tirar da rodella, se faz chato hum dos lados que he formado em parte do fundo; tira-se o barro, que excede o resto das bordas do fogareiro: forma-se á maõ o outro lado, e ajusta-se no meio desta face hum botaõ; assim esta pequena peça he quasi de todo feita a maõ, ainda que ella se começa, e se aperfeiçoa sobre a rodella, sem a tirar para a mesa de aperfeiçõar.
122 R, Est. II, fig. 10, he hum candeeiro quasi todo feito no torno, ajunta-se sómente hum bocado de barro em a, e em b, com huma aza em c.
123 Tambem se fazem regadores de barro: o corpo se faz inteiramente sobre o torno, assim como o tubo, que se faz como o cabo das cassarollas; vaza-se hum pouco na ponta, que se tapa com huma placa de barro cheio de buracos, põe-se por cima hum bucado de barro para tapar a metade da embocadura; solda-se o tubo ao corpo do regador: sustem-se por aquella parte, que naõ está ôca; solda-se a aza e rega admiravelmente.
124 Ja se disse que alguns oleiros faziaõ todas as suas obras á maõ. Para dar huma idéa deste trabalho vou explicar como se fazem os esquentadores quadrados F, Est. I, fig. 10.
125 Os esquentadores, e fogareiros, que devem ter dentro em si o fogo, se fazem com o mesmo barro de que se fazem os ladrilhos, excepto que, em lugar de ajuntar arêa á argilla, os oleiros emmagrecem o barro com a escoria de ferro moida; e passada por huma peneira de cabello, ajuntando hum demiqueve de barro a dez boisseaux do pó de escumalha. Amaça-se esta mistura como já disse, fallando os ladrilhos. Para fazer hum esquentador, se molda sobre hum caixilho de madeira, se formaõ duas como telhas, ou pastas de barro direitas, se põe nas varas a enxugar, e se batem huma vez do mesmo modo, que os ladrilhos: depois em quanto está ainda branda, se tomaõ estas duas telhas, que chegaõ para fazer hum esquentador. Põe-se huma destas telhas na mesa de aperfeiçoar, raspaõ-se-lhe as bordas sobre hum calibre de páo, para o acertar, divide-se a largura em tres partes, das quaes a do meio faz o fundo do esquentador a, e as outras duas fazem os grandes lados bb, bb, levantando-os quasi perpendiculares, mas que fiquem alguma cousa inclinadas para fóra, bem entendido, que com os dedos se fórma em baixo hum angulo, quasi de quina viva; da outra telha, ou pasta de barro se tiraõ os dous pedaços, que haõ-de tapar as pontas do esquentador; soldaõ-se nos grandes lados bb, fazendo o mesmo que já disse a respeito do modo de soldar as azas, e as orelhas dos vasos; finalmente a mesma segunda telha chega para fazer o tampo de cima dd; no meio da qual se faz hum buraco quadrado com a folha de huma faca molhada, que he para o testo. Naõ se faz encaixe para receber este testo; mas quando se tira, corta-se o barro obliquamente, para o chanfro servir de encaixe, para que o testo naõ possa cahir dentro do esquentador; aperfeiçoaõ-se todos os lugares das soldaduras, e se acaba fazendo buracos, tanto por cima, como pelos lados do esquentador, com hum instrumento de ferro, que faz as vezes de hum trado. Sobre a mesa se lhe fazem tambem as azas ff, e o botaõ de testo e.
126 Visto se ter fallado das obras feitas a maõ, parece justo explicar-se como se fazem em moldes; mas, como este trabalho pertence mais ao louceiro de obra fina, do que ao oleiro; por hora darei hum só exemplo, descrevendo, como se póde fazer hum vaso de jardim. Molda-se com o gesso hum vaso ôco, sobre outro, que tenha boa figura, mandado reparar por hum escultor: divide-se em tres partes, segundo o comprimento, o gesso ôco que se moldou sobre aquelle, que se quer imitar, bem entendido, que se faz separadamente, o ôco que deve fazer o corpo do vaso, e o que deve fazer o pé, e o que faz o testo.
127 Reunem-se os tres pedaços, que tem fazer o corpo, põe-se firmes segurando-os com cordas, e, tendo esfregado com alguma gordura o molde por dentro, com a maõ, se põe huma camada grossa de barro dentro do molde, e se aperta para tomar bem a figura do molde, deixa-se endurecer hum pouco o barro no interior do molde: como ao seccar encolhe, elle se despega do molde; mas, antes de estar inteiramente secco, se desataõ as cordas, separaõ-se as tres peças, de que consta todo do molde, e tira-se o vaso de barro, que se põe a enxugar nas ripas, prepara-se, ou aperfeiçoa-se depois com hum pequeno pedaço de páo chamado, bauehoir, especie de tasquinhador, ou goiva, e naõ precisa ser escultor para o fazer.
128 Com o instrumento de alimpar, chamado tournassin, se tira por dentro o barro, que ha de mais, e se forma hum assento, ou encaixe por onde se ajusta o pé, e o testo, depois de moldados, ao corpo do vaso. Alguns fazem moldes particulares, para formarem as azas, e folhagens; mas como já disse, só me propús fallar superficialmente das obras moldadas, porque na arte de louceiro da obra fina se trata disso com individuaçaõ, aonde se ensina a fazer pratos recortados, sopeiras, tigelas, e mais utensis de meza com molduras, e mesmo figuras de homens, e animaes.
129 Quando tratei dos ladrilhos, dei a descripçaõ dos fornos, de que usaõ ordinariamente os oleiros de París, advertindo, que estas obras se poderiaõ cozer nos mesmos fornos de telha, que ficaõ representados na arte de telheiro. Aqui só fallarei dos fornos dos oleiros de París, que saõ muito bem pensados, e de hum uso commodo: trazendo-se á lembrança, o que fica dito no principio desta Memoria a respeito dos ladrilhos; he superfluo dizer, como se arranjaõ as differentes obras nesta sorte de fornos.
130 Da parte da bocca por detraz da Fausse-tire se arranjaõ os vasos, que haõ-de ficar bem cozidos, huns sobre outros, os quaes correm menos risco de se quebrarem: taes saõ os vasos de flores, e os tubos para despejo etc. Tambem se põe junto ao fundo do forno LM, fig. 8, est. I, que chamaõ lingueta, onde ha muito calor, porque o ar quente deve descer a este lugar, para sahir pelas aberturas, por onde se descarrega a fumaça, que ficaõ inteiramente por baixo.
131 A primeira camada de baixo se faz com tijolos ou ladrilhos grosseiros de assoalhar, ou vasos grandes de despejo, que se põe em lugar destes ladrilhos. Como os vasos grandes tem bastante força para supportarem a louça, que se lhe põe por cima, com elles se póde fazer a primeira camada. Deve haver cuidado de se pôrem na mesma fileira os vasos de hum tamanho, observando, como nos tijolos, que a ordem de cima leva no meio vasos, que formaõ a ordem de baixo, como se vê fig. 9, est. I; mas, como huma das principaes attenções, he exactamente encher o forno, e de lhe meter a mais louça, que lhe he possivel, para tirar melhor partido da lenha, que gastaõ; põe-se as peças pequenas dentro das grandes; os testos dos esquentadores se põe nos mesmos esquentadores, em que haõ de servir, os vasos pequenos tambem se põe entre os grandes, para encher os vaõs o mais exactamente que fôr possivel. Põe-se páos, como para os tijolos, ou ladrilhos, pelos lados, e se distribuem pelo forno de distancia, em distancia por entre a obra. Cortaõ-se as rachas de páo, com que se forra a louça, metendo-as entre a abobada de forno, e a mesma louça, e se acaba fazendo hum muro de tijolo na porta falsa. Por fim esquenta a louça com mais cuidado, de que com o tijolo, e o fogo se continúa pouco mais ou menos o mesmo tempo, se saõ louças ordinarias, e continua-se por mais tempo, se se trata de cozer louça de greda.
132 Quasi todos os oleiros dos suburbios de S. Marçal, se servem do forno, já descripto no tratado dos ladrilhos, e que está representado na est. I, fig. 7, 8, e 9, tanto para cozer os ladrilhos como as louças; e estes fornos, que occupaõ muito pouco lugar, se imaginaraõ mui engenhosamente, e saõ muito bons para a economia de lenha. Com tudo a maior parte dos oleiros dos suburbios de S. Antonio só usaõ destes fornos para os ladrilhos, e para cozer as outras louças, se servem de hum forno, que se assemelha muito aos de oleiro de obra fina, cuja descripçaõ vou agora dar.
133 A fig. 1, est. III, representa a altura do forno, visto por fóra da parte da boca da fornalha, ou a altura sobre a linha, C D, do plano fig. 2. que he tomada rente ao nivel do forno. A, he o fogaõ ou fornalha que está em terra em hum buraco; vê-se apontado pelas mesmas letras nas figuras 1, 2, 3, e 14. O que conduz o fogo, desce dentro desta cova, e forra de lenha pela boca da fornalha, debaixo do corpo do forno, onde se metem as obras, que se querem cozer. Logo em principio para temperar, faz hum pequeno fogo na entrada da fornalha em A, fig. 3, que representa toda a extensaõ da fornalha, e fundaçaõ do forno; depois para fazer o fogo grande, chega o fogo até E, e o distribue por dentro de toda a extensaõ da fornalha; porém entaõ accommoda a lenha em pé na boca da fornalha, para diminuir a corrente do ár, que levaria o calôr para o fundo do forno, e ao mesmo tempo a parte de diante receberia pouco calor. Com tudo he preciso, que elle se distribua com a igualdade possivel por toda a extensaõ do forno: e esta he huma attençaõ que deve ter o atiçador.[19]
134 A abobada F fig. 4. que cobre a parte superior da fornalha tem os buracos aaa, etc. Por estes buracos, que tambem se pódem vêr em F fig. 2. se representa o fundo, ou pavimento do forno, que está por cima de abobada, que cobre a fornalha; por estes buracos aaa, he que passa o ar quente da fornalha, A, fig. 4. para o corpo do forno G, que está por cima, e no qual se arruma a obra que se quer cozer vidrada. Este corpo do forno he fechado por cima, com huma abobada H, fig. 4. a qual tem os buracos bbb, do mesmo modo que a abobada F; e isto mesmo se vê tambem na fig. 5. em H; e por estes buracos he, que o ar quente passa do corpo G, fig. 4. ao corpo I, aonde se põe as louças, que se querem cozer em branco. Como o ar quente sempre sobe, logo que o forno se esquente, no corpo I, he maior o calor do que no corpo G, que ao principio tinha mais calor, do que o outro, que fica mais alto.
135 Na parte mais alta de abobada, que cobre este corpo superior, ha hum buraco K, fig. 4. de seis ou oito pollegadas em quadra, e de mais quatro buracos K, fig. 1. e 5. Estes cinco buracos servem para dar sahida ao ar que entra pela boca da fornalha, para obrigar ao calor a sobir até ao alto do forno.
136 Enche-se a camera G, fig. 4. por huma porta L, fig. 1, e 4. que se fecha com huma parede de tijolos, ou pedaços de louça, logo que se acabou de encher o forno, antes de accender o fogo: deixa se só huma pequena abertura em M, fig. 1. para dar sahida a huma parte da fumaça, que poderia enfraquecer a marcha do ar quente necessario para cozer a obra. Por cima desta pequena abertura M, ha huma parede como de huma chaminé de cozinha, e hum tubo N N, fig. 1, e 4. para conduzir a fumaça por senaõ espalhar na officina.
137 A camera ou o corpo superior I, fig. 4. se enche de louça, que se quer cozer em branco, por huma porta que está em O, e que se fecha, quando o corpo está cheio, fazendo no alto desta porta huma abertura semilhante á que fica notada em M, fig. 1, e, como se naõ receia incommodo de fumaça por ser esta abertura muito alta, se lhe naõ faz cuberta, nem tubo de chaminé: sobe-se ao corpo do forno I, por huma escada P. fig. 1.
138 Por fim se gradua o fogo como acima fica dito; começando por hum fogo pequeno para esquentar a obra, e acabando por hum fogo muito activo de lenha rachada.
139 A maior parte das obras de barro ordinarias deixaõ transpirar a agua por seus poros, maiormente quando se mistura muita area no barro: misturando-se pouca area, os vasos conservaõ bem a agua; mas naõ pódem sofrer o fogo: ora, como a maior parte da louça, para os utensilios de huma casa deve ir ao fogo, os louceiros naõ lhe poupaõ a area; porém dando-lhe esta faculdade de rezistir ao fogo, se tornaõ penetraveis a agua, como se acaba de dizer. Quasi todos estes utensis com tudo a devem conter; para lhe dar esta propriedade, se cobrem de huma camada de verniz, que, vitrificando-se, naõ deixa a agua passar. E assim para os alguidares, e vasos do uso das leiterias, os oleiros se servem de hum barro puro, que toma corpo, e naõ deixa transpirar a agua; porém estes vasos se quebrariaõ, se os puzessem ao fogo: por isso lançaõ muita area no barro, de que haõ-de fazer os vasos, que servem para o fogo; e depois os vidraõ, para poderem reter a agua.
140 Aqui só se fallará em resumo do verniz das louças, que he muito grosseiro; porque o verdadeiro lugar de tratar disto a fundo, he quando se tratar da louça fina.
141 Os oleiros para vidrarem as suas obras, se servem da mina do chumbo; e a isto he que se chama pedra de chumbo no commercio, e os oleiros chamaõ verniz: ou se servem do zarcaõ, ou chumbo vermelho, que impropriamente chamaõ mina de chumbo; que he huma cal de chumbo com huma côr vermelha bem viva. O falecido Mr. Jars, nas memorias da Academia, deo o modo de o fazer tomar esta côr vermelha pela calcinaçaõ. Tambem se servem ainda do lithargirio, isto he, do chumbo calcinado, que perdeo huma parte do seu phlogistico pela acçaõ do fogo, e que está em hum estado de vitrificaçaõ imperfeita. Elles se servem destas substancias por dous modos, como agora vou a explicar.
142 Quebra-se a pedra de chumbo sobre huma peça de cobre para senaõ perder cousa alguma; passa-se por huma peneira de cabello, e o resto se piza em gral de ferro, e se torna a passar, até que tudo se passe pela peneira.
143 Alguns oleiros compraõ o chumbo em chapa, e elles mesmos o reduzem a cal; julgo que seria melhor usar do lithargirio, ou chumbo vermelho.[20]
144 Prepara-se o lithargirio como a pedra de chumbo; elle se reduz a pó muito facilmente, e o zarcaõ ainda mais; ajunta-se a hum, ou a outro destes pós por medida outra tanta quantidade de area como ha dos pós de lithargirio, zarcaõ ou da pedra de chumbo; deve-se notar, que todas as preparações de chumbo, se vitrificaõ, e facilitaõ muito a vitrificaçaõ das substancias terreas; A area faz huma parte consideravel do verniz, por meio de chumbo, que serve de fundente: como o chumbo he caro, e a area naõ custa dinheiro, os oleiros poupaõ muito, misturando a area com o chumbo e eu creio, que esta liga da area naõ altera a bondade do vidrado. O chumbo só sobre o barro faz huma côr amarella, querendo-se que este esmalte, ou verniz seja verde, em duzentas libras de lithargirio, ou cal de chumbo se lançaõ sete, ou oito libras de limalha de cobre.[21] Querendo-se, que tenha huma côr escura, mistura-se-lhe manganesia, que he huma mina de ferro pobre e refractaria; ella he de hum azul denegrido granulado. Della se servem os vidraceiros; mas quando lançaõ muita, faz o vidro roxo. Acha-se em Piemonte, em Toscana, Bohemia, e Inglaterra. A pedra, que se vende com o nome de marcassita differe della pouco, ou nada. Estas materias, sendo pulverisadas, formaõ verdadeiramente o verniz dos oleiros, que só falta applica-lo sobre os vasos, que naõ foraõ ainda cozidos, porém que estaõ já seccos, e promptos para se cozerem. Para o pó se pegar aos vasos se humedecem na agua chamada gorda, que he a agua, em que se dissolveo a argilla; depois antes que esta agua se seque, se espalha por cima os pós de que acabamos de fallar, virando a peça por todos os lados, a fim de ficarem cobertos todos os lugares, que se querem envernizar; e como ha muitas peças, que só se querem esmaltar por dentro, nestas se naõ põe os pós pela parte de fóra.
145 Deixaõ-se as peças suar hum pouco, depois se arrumaõ no forno do modo, que já expliquei; de sorte que com huma só operaçaõ se coze o barro, e se derrete o verniz, que vitrifica na superficie. Por este methodo economiza-se a lenha; porém gasta muito chumbo: e tambem porque o pó senaõ póde espalhar igualmente, em alguns lugares fica muito, e quando se derrete, espalha se pelos outros vasos. Naõ he só este o inconveniente: como he preciso meter muita lenha para cozer as obras com grande fogo, ha tambem o inconveniente, de que, queimando-se esta, levanta muita cinza, que vem a offender o esmalte, quando se está derretendo.
146 O outro methodo consiste em pôr o verniz nos vasos, que já estaõ cozidos; gasta se mais lenha; porque as obras vaõ duas vezes a cozer ao forno; porém evitaõ-se entaõ os inconvenientes de que acabo de fallar; além do que, como os oleiros só depois das obras cozidas he que conhecem a perfeiçaõ dellas, ha huma grande vantagem em pôr o verniz nas peças depois de cozidas; pois em todas as fornadas, se quebraõ, e se desfiguraõ algumas peças, e assim só se põe o verniz ou esmalte nas que sahem do forno perfeitas. Daqui resulta ser menos o gasto do chumbo, naõ levando verniz, as peças que quebraraõ; este methodo tambem contribue muito a economisar o chumbo; porque os que o seguem livigaõ o lithargirio, e a pedra de chumbo com agua em huma mó representada separadamente est. II, fig. 11, e 12. Elles livigaõ estas differentes substancias separadas, e com agua de sorte, que correm á maneira de caldo, pelos vasos, que lhe ficaõ por baixo, e põe o verniz liquido na louça, cozida, lançando esta especie de caldo sobre os vasos, ou mettendo dentro nelle as peças, que se querem envernizar por dentro, e por fóra; e isto he melhor, e de mais economia. Applica-se o verniz com hum pincel, que o põe mais lizo, e só se põe nos lugares onde se julga conveniente. Finalmente estas substancias bem livigadas se applicaõ aos vasos em corpo o mais delgado, que he possivel e se julga conveniente.
147 Deixaõ-se seccar as peças, o que se faz em pouco tempo, porque a louça que vem do forno atrahe promptamente a humidade.
148 Põe-se no forno, onde se lhe dá hum fogo pouco mais ou menos igual áquelle com que se coziaõ; mas naõ se deve meter lenha entre as peças, e sobre a obra; por evitar, que a cinza senaõ espalhe sobre o verniz, quando está derretido pelo fogo. Naõ ha inconveniente, em pôr lenha dos lados, principalmente quando ha a precauçaõ de se pôr perto alguns vasos, que naõ sejaõ envernizados, ou que se cozem a primeira vez; e he melhor conservar o fogo por mais tempo no forno, do que meter lenha entre a louça. Huma das vantagens do forno, que imita o dos louceiros de obra fina, he naõ estar exposto ao inconveniente das cinzas.
149 Os oleiros naõ concordaõ em dar a preferencia a hum destes methodos; cada hum se encosta áquelle que pratíca. Os que applicaõ o verniz em pó sobre o barro crú confessaõ, que gastaõ mais chumbo; porém dizem, que o seu verniz ou esmalte penetra melhor o barro, e se pega mais intimamente. Os outros sustentaõ que o verniz pega muito bem no barro cozido, e allegaõ a favor do seu methodo o menor consummo do chumbo, e o aceio da sua obra, sendo o verniz distribuido em huma grossura mais uniforme; mas os que seguem este methodo, naõ estaõ ainda do mesmo parecer sobre hum ponto, que me parece bem importante. Huns dizem que só basta cozer medianamente a obra, antes de a meter no verniz, para que o verniz se possa introduzir pelos poros do barro, e que ao depois he preciso dar hum grande fogo para cozer as obras cubertas de verniz.
150 Outros dizem, que da primeira vez, que se cozem, he preciso fazer hum grande fogo, e da segunda quanto baste para derreter bem o verniz: a favor desta pratica podem dizer, que, como o chumbo vitrifica a area, produz este effeito naquella, que está na superficie dos vasos cozidos, o que o faz muito adherente a estas qualidades de obras; em segundo lugar; que naõ sendo preciso hum grande fogo para o cozimento, se evita o meter lenha entre a louça, e por cima della, e isto a izenta dos maõs effeitos da cinza.
151 Eu me inclino á primeira pratica, porque se precisa hum fogo violento, para fundir bem o esmalte, e este mesmo fogo acaba de cozer o barro: preciza o verniz estar bem derretido, para o chumbo poder vitrificar a area, que está na superficie da louça. Este sentimento he conforme ao uso de quasi todos os oleiros; com tudo naõ me proponho a decidir qual seja o methodo; porque naõ tive occaziaõ de fazer sobre isto experiencias decisivas.
152 Parece-me que o artigo do verniz se poderia aperfeiçoar, sem obrigar os oleiros ás despezas consideraveis; julgo por exemplo, que elles deveriaõ, misturar com o seu chumbo huma area, ou hum quartz fusivel[22] que se vitrifica facilmente com o chumbo, e deste modo poderia economisar este metal; talvez mesmo, que achassem elles huma vantajem em frittar[23] sua area antes de a misturar com o chumbo; e o moido poderia ser melhor que a area. Por hora, saõ idéas, que se devem olhar como simples conjecturas, até que se experimentem, e conbinem por differentes modos.
153 Todas as vezes, que se coze, se fecha exactamente o forno, logo que cessa o fogo; para que conserve o calor, e as peças, esfriem pouco a pouco: porque huma parte da louça quebraria se ao sahir quente do forno, se expozessem ao ar frio. Quando o forno está já bem frio, e se quer tirar a louça, se abre a parede, ou porta falsa, para por ella se tirarem as obras que estaõ cozidas; porém muitas vezes succede, que, o verniz derretendo-se, corre de hum vaso para outro, e se achaõ muitos vasos pegados. Quando a adherencia he pouco consideravel, se separa facilmente; mas algumas vezes se quebraõ os vasos, indo-se a separar, e este inconveniente succede mais vezes áquelles que põe o verniz em pó, do que os que usaõ delle diluido em agua, porque a camada do verniz he mais delgada, e por isso menos sujeita a correr.
154 Já disse, que o verniz naõ pegava sobre as manchas negras semilhantes a escoria do ferro, que fazem os pyrites, que se queimaõ ao cozer. Quando as peças valem o trabalho, os oleiros reparaõ em parte estes defeitos, pondo muito verniz sobre as manchas negras; porém estas obras precizaõ tornar outra vez ao forno, e causaõ grande incómmodo ao oleiro. Quando se tiraõ do forno as peças, as mulheres com facas grossas tiraõ os pedaços de barro, que se prendem aos vasos.
155 Como sobre as louças de Lyones vi obras, e louças fabricadas nas provincias vizinhas de Liaõ, tenho gosto de dizer tambem alguma cousa a respeito dellas; e para isto procurei a Mr. de la Tourrette da Academia de Liaõ, e correspondente da Academia das Sciencias de Pariz, que tem hum zelo admiravel em ajudar com suas luzes todos, que emprendem indagações uteis.
156 As memorias, que me procurou Mr. de la Tourrette, dizem respeito a tres qualidades de louças; que saõ a de Prá em Forez, a de Franche ville em Liones, e a de S. Valerio no Delphinado. Agora só me servirei das excellentes memorias, que recebi sobre a louça de S. Valerio, porque, como as obras, que ahi se fazem, saõ de louça fina, he justo fallar dellas, quando se tratar da arte de louça fina, que ao depois se publicará.
157 Prá he huma aldea junto á freguezia, e termo de S. Bonnet-Les-Oules em Forez distante duas boas legoas de S. Estevaõ, e huma de S. Galmier.
158 Dizem, que o estabelecimento desta fabrica de louças tem perto de quatrocentos annos: em outro tempo haviaõ neste lugar quarenta olarias, e cada huma tinha seu forno; agora só tem cinco, por causa das muitas olarias, que se tem estabelecido na mesma provincia.
159 Nestas louças se empregaõ duas qualidades de barro, que se misturaõ, hum vermelho, e outro escuro, ambas se achaõ em abundancia perto de Prá nos confins da freguezia de S. Bonnet, e nos das freguezias de Bauthcon, e Vanche.
160 Achaõ-se na terra em bancos mais, ou menos extensos, os do barro escuro tem quasi dez pollegadas de alto, e os de barro vermelho saõ mais grossos; o barro escuro he mais gordo que o vermelho.
161 As louças de Prá soffrem melhor o fogo, do que outras muitas.
162 Amassaõ-se estes barros com hum masso de ferro sobre huma prancha, ou mesa forte, e depois se trabalhaõ na roda.
163 Os fornos saõ redondos, tem cinco, ou seis pés de diametro, e sete, ou oito de alto, sem cuberta; saõ feitos de tijolos grossos juntos com barro gordo, e levaõ huma contra parede, feita de pedra de edificios com argamassa de cal, e area.
164 Estes fornos, que se assemelhaõ bem aos de telheiros se esquentaõ com lenha por tempo de dez, ou doze horas, e mais segundo a estaçaõ: nas primeiras quatro, ou cinco horas só se faz hum pequeno fogo; depois se augmenta, e se faz muito activo.
165 O verniz se faz da pedra de chumbo, ou do mesmo chumbo que se tira em pedra das minas vizinhas: pizaõ se, e passaõ se por huma peneira, e se livigaõ com pedras muito duras Est. II, fig. 11, e 12. G, H.
166 Tendo-se preparado assim o verniz se usa delle liquido; lança-se nos vasos, e se voltaõ para todos os lados, como se os lavassem. Estando o corpo da peça cuberto de verniz, se lança o resto em huma celha, para servir para outros vasos.
167 Applica-se o verniz sobre vasos côr de cinza, mas muito seccos; e quando o verniz está secco, se põe as louças no forno.
168 Querendo-se, que o verniz seja verde, mistura-se limalha de cobre com o chumbo, como acima se disse.
169 Os vasos desta qualidade de louça rezistem muito ao fogo, como tambem os cadinhos para a fundiçaõ dos metaes; tem se feito muitas experiencias em S. Estevaõ: elles se fazem dos dous barros misturados, e amassados juntos, como já fica dito.
170 Fazem-se nestas olarias, tijellas, pratos grandes, e pequenos.
171 Julga-se em Lyones que esta olaria já existia no tempo dos Romanos.
172 Usaõ ahi de duas sortes de barros, hum amarello, e outro côr de cinza, e ha alguns, que tem mistura destas duas côres. O amarello se acha ordinariamente em hum terreno magro, e areento, em lugares muitos elevados; o côr de cinza em valles por bancos maiores, ou menores, e mais, ou menos espessos; mas estes barros saõ muito abundantes, porque neste lugar se fabríca muita louça, desde hum tempo immemoravel.
173 O barro amarello he mais aspero ao toque, e mais grosseiro, do que o côr de cinza, que he muito macio, e nelle senaõ encontraõ area.
174 O amarello soffre melhor o fogo, do que o côr de cinza.
175 Em Franche ville se fazem duas qualidades de louça; e isto depende da especie de barro de que a fazem.
176 O amarello resiste perfeitamente o fogo; o cinzento, que se chama gaubino, como he hum barro mais puro faz huma louça mais compacta, que naõ póde aturar o fogo; mas a louça feita com o barro amarello, se descasca ao ar, isto he, cahe-lhe o verniz ou a superficie; o côr de cinza supporta muito melhor as suas influencias.
177 Dizem, que as plantas postas em vasos deste barro naõ produzem. Misturaõ-se estes dous barros para hum corrigir as faltas do outro.
178 Nas olarias se fazem vasos na roda, e outros em molde conforme requer a sua figura. Finalmente amassaõ-se estes barros batendo-os com huma massa de ferro como se faz em Prá.
179 Os fornos, semelhantes aos dos telheiros, humas vezes saõ redondos, e outras vezes quadrados. Faz-se o fogo debaixo de huma abobada, em que ha buracos quadrados de tres, até quatro pollegadas de diametro, separadas humas das outras seis, ou sete pollegadas; para que o ar quente se communique ao interior do forno, onde se arrumaõ as obras, ellas devem estar bem seccas antes de se expôr ao fogo, precisaõ-se quasi cento e quarenta feixes pequenos de lenha para huma fornada.
180 Para envernizar estas louças, querendo-se que o esmalte seja verde, se usa do chumbo hermetico, ou mina de chumbo, que se liviga debaixo da mó com agua, como fica dito, e a limalha de cobre. Querendo-se fazer o verniz branco, naõ se lhe ajunta a limalha de cobre; e quando se usa do chumbo só em huma louça de barro amarello, fica o esmalte avermelhado: este verniz se emprega no barro crú. Limito-me a estas indicações geraes, porque já se tratáraõ com individuaçaõ em outro lugar.
181 A vista do que disse no principio deste pequeno tratado a argilla he a baze dos barros, que servem para fazer as louças; porém segundo as substancias, que se achaõ misturadas com a argilla, ha humas, que fazem obras muito mais solidas do que outras. Quando estas substancias tornaõ a argilla fusivel, se cozem com pouco fogo, e por isso se póde dar a louça mais barata; destas he que acabei agora de tratar. A argilla pura, sendo de natureza a encolher muito, se racha ao seccar, ou ao cozer; mas quando a argilla se mistura com huma area refractaria, ou muito difficil de derreter, resulta daqui hum barro, que póde seccar, e cozer-se sem rachar, e que faz louças muito duras, quando experimentaõ hum grande fogo. Em geral este he o motivo porque se chama louça de greda. Ha qualidades dellas muito differentes; os vasos de greda côr de castanha, em que vem as manteigas de Isigny, saõ muito duras, e sonoras; elles rezistem muito bem a hum fogo grande, e naõ saõ atacaveis pelos acidos: esta he huma excellente louça; he quasi taõ sonora como a porcelana, quando se quebra a sua grã he muito fina, e hum pouco brilhante: e por isso he muito chegada á natureza do vidro; tambem tem o defeito de se quebrar, quando se faz passar subitamente do quente para o frio, ou ao contrario. E porque suspeitei, que este defeito vinha, de estar a argilla ligada com muita area que se tinha vitrificado pelo muito fogo, eu a fiz lavar; e depois de se ter precipitado huma pouca de area mais pezada, e mais grosseira, e pequenas pyrites, que tinha em grande quantidade, mandei fazer cadinhos com o barro fino, que depois se precipitou. Estes cadinhos vindo vermelhos do fogo, e depois mettendo-se em agua fria senaõ quebráraõ. Se eu estivesse vizinho destas olarias, persuado-me que poderia fazer vasos, naõ taõ formosos, como os de louça fina, a mais commum, porém que seriaõ taõ bons para o uso como a melhor porcelana. Fiz vir este barro de Gournai, a Normandia; mas como naõ me podia vir, senaõ em pequena quantidade, só fiz muito poucas experiencias em obras pequenas, porque se acabou logo o barro. Convido os phisicos, que tiverem a maõ as olarias de greda, a fazerem experiencias mais decisivas do que estas, que acabo de referir; porque esta especie de barro me parece digna de sua attençaõ.
182 Como quasi todas as louças de greda, que se vendem em París vem de Beauvais, e que naõ ha lugares em todo o reino, aonde se trabalha nestas qualidades de louças, que passaõ mesmo para os estrangeiros, desejei ter maiores luzes sobre a posiçaõ das veias do barro proprio para estas louças, sobre o modo de o preparar, finalmente sobre tudo, o que respeita a esta qualidade de obras.
183 Dizem, que as olarias se estabeleceraõ em outro tempo em huma freguezia, que ainda agora se chama S. Germano da olaria; porém ellas se tem abandonado: agora neste lugar só se fazem tijolos, telhas, e ladrilhos. Na freguezia de Savignier, onde ha quatorze oleiros, que trabalhaõ em greda, se acha hum barro muito proprio para estas qualidades de obras, e os obreiros saõ peritos no modo de o trabalhar. Em Chapelle-au-Pot, huma legoa distante de Savignier ha seis oleiros; porém elles trabalhaõ por hum modo muito inferior neste barro, do que no de Savignier; ainda que elle he quasi da mesma natureza.
184 Huns, e outros ás vezes tem muito trabalho em achar veias de barro de boa qualidade. Depois de se tirarem dous, ou tres pés da superficie, se começaõ a perceber as veias dos barros, que se procuraõ; mas ellas só saõ boas, de vinte pés de fundo por diante, e se tira barro ainda de mais fundo; e entaõ os obreiros temem o cahir-lhe a terra em cima. Ha veias mais grossas, e mais largas humas do que outras, que se seguem em quanto se acha barro de boa qualidade: distinguem-se duas especies delle; o que se chama greda, muitas vezes he bastantemente duro, e dificil de tirar. Com estas duas qualidades de barros se fazem duas especies de louças, huma com o barro, que se chama greda, e outra com hum barro hum pouco differente; com este se fazem vasos, que pódem ir ao fogo; mas as do outro se quebraõ, se senaõ esquentaõ com muito cuidado, com tudo quebraõ-se menos do que os da greda escura de Normandia. Os cadinhos só se fazem aqui de encomenda: o obreiro, que tem mais fama de os fazer bem, passa o barro por huma peneira, escolhe-o, e amassa-o com mais cuidado do que os outros: a preparaçaõ deste barro he, quasi a mesma, que os oleiros de París daõ ao seu.
185 Interrompo, o que hia a dizer das olarias de Beauvais, para fazer notar, que os melhores cadinhos, que podem haver para os fundidores, saõ os que se fazem de hum barro branco, que se acha em S. Samsaõ, quasi seis legoas distante de Beauvais. Estes cadinhos esbranquiçados, bem cozidos, muito sonoros, resistem ao maior fogo, sem se quebrarem, e sem se penetrarem pelos saes; tem de mais a vantagem, de naõ precizarem tanto cuidado como os cadinhos de greda, quando se metem no fogo, ou quando se tiraõ. Agora torno a fallar do trabalho de Beauvais.
186 Quando se tira a argilla da terra, leva-se para casa do obreiro, põe-se em pequenos pedaços, lança-se em huma cova com agua, para ella se penetrar, e fazer-se ductil; deixa-se até o outro dia, e entaõ se tira em massa; o obreiro a corta, e a torna a pôr em camadas na mesma cova de donde a tirou, para a amassar, e misturalla com huma pouca de area, ligeiramente salpicada de cal: finalmente amassa-se como fazem os oleiros de París; depois de se ter amassado, e tornado a ajuntar por quatro vezes, se fazem bolos, que se levaõ a huma mesa, para o amassar, e trabalhar bem, como fica já explicado a fundo. Trabalha-se depois sobre huma roda de ferro est. II, fig. 4, e 5. ou de páo que se faz mover com o pé fig. 18, est. I; porque os oleiros de Savignier se servem de humas, e outras, segundo as obras, que elles tem de fazer. Em huma palavra o trabalho dos oleiros de Picardia naõ differe essencialmente, do que acima disse tanto para a factura das obras, como para dar-lhe o verniz.
187 As louças de greda se cozem a grande fogo; os fornos estaõ postos em pleno ar sobre huma pequena elevaçaõ de terra; differem pouco dos fornos dos oleiros dos suburbios de S. Marçal est. I, fig. 7, 8, e 9. só com a differença, que, sendo feitos sobre hum pequeno cabeço, se caminha sempre subindo desde a entrada até o fundo do forno, e isto facilita a distribuiçaõ do ar quente. Na parte opposta da fornalha, naõ ha o tubo de chaminé C D, fig. 3. est. I; mas na parte baixa C, se formaõ pequenas arcadas para a dissipaçaõ da fumaça; por este lugar he que se metem as obras no forno, depois se fecha com huma parede de tijolos. Estes fornos ordinariamente tem 45 até 50 pés de comprido, e dez, ou doze de largo no meio, e huma altura igual debaixo da abobada; porém na sua embocadura só tem quasi seis pés de alto.
188 O fogo se faz diante da embocadura do forno em huma fornalha de abobada, que tem quasi quatro pés de largo, e cinco de comprido, e outro tanto de alto. Começa-se com hum pequeno fogo, depois se augmenta, e se acaba com hum fogo de lenha miuda, que se inflama muito, e se continúa oito dias, e oito noutes sem interrupçaõ.
189 As louças, que devem servir no fogo, ou que haõ de ser envernizadas, naõ levaõ hum fogo taõ violento: trabalhaõ-se quasi como as louças de París; mas para cozer as louças de greda se gastaõ 16, ou 18 cordas (cada corda tem 4 pés d’alto, e 8 de comprido) de páos grossos, e quatro centos feixes de lenha mais fina para o ultimo fogo.
190 A manteiga de Prevalais, vem em potes de huma greda azulada, que he muito boa; mas eu naõ sei exactamente o modo de trabalhar esta pequena louça, e por isso naõ entro em grandes individuações a este respeito.
191 Em Zimmeren, quatro legoas de Treveris, e em muitos lugares na provincia de Luxembourg, se faz huma especie de louça que he muito boa, de huma greda muito fina, e branca, cuja superficie he luzente sem se cubrir de verniz; este brilhante he formado pelo mesmo barro, que passou por huma vitrificaçaõ superficial; eu penso que ella se forma pelo vapor do sal marinho, que se lança no forno, como nas obras de barros brancos, que se tem feito em Montereau.
192 Os que vem da provincia de Luxembourg, trazem todos os annos desta louça a París ao Armazem de louça fina, aonde vaõ comprar os que contrataõ neste genero. Naõ pude ter maiores conhecimentos sobre o modo trabalhar nestas louças.
193 Julgo, que os barros, que fazem boas louças de greda, se preparaõ de argilla, de hum bocado de area vitrificavel, e de area muito refractaria; porque em todas as fabricas, onde se fazem boas louças, e ainda mesmo nas de porcelana, se fazem entrar com successo na composiçaõ pedaços de louças quebradas, reduzidas a pó, depois de se conhecer, que saõ de qualidade capaz de resistir a hum grande gráo de fogo.