Title: Arte de louceiro: Tratado sobre o modo de fazer as louças de barro mais grossas
Author: comte de Nicolas-Christiern de Thy Milly
Translator: active 1801-1804 José Ferreira da Silva
Release date: May 13, 2020 [eBook #62115]
Most recently updated: October 18, 2024
Language: Portuguese
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ARTE DE LOUCEIRO
OU
TRATADO SOBRE O MODO DE FAZER
AS LOUÇAS DE BARRO MAIS
GROSSAS,
TRADUZIDO DO FRANCEZ
POR ORDEM
DE
SUA ALTEZA REAL,
O PRINCIPE REGENTE,
NOSSO SENHOR,
POR
JOSE FERREIRA DA SILVA
LISBOA
NA IMPRESSAÕ REGIA.
ANNO DE 1804.
Por Ordem Superior.
1 A Arte do Louceiro consiste em fazer vasilhas, e outras obras de barro, que se embebe em agua para o amolecer, e se amassa e se dá depois differentes figuras; e se fazem cozer para lhe dar solidez, conforme esta definiçaõ, o que faz pitos, o louceiro, e os que fazem porcelana saõ oleiros; porém fazem obras mais perfeitas do que estes de que vamos a fallar. Assim entende-se por oleiros, os que fazem obras communs, e que por isso se podem dar baratas.
2 A argilla[1], que se chama tambem terra barrenta, faz a base das terras de que usaõ os oleiros, e he a proposito dar os caracteres que a fazem particular destinguindo das outras terras. Para isto a vou considerar em seu estado de pureza, ainda que he difficil, ou talvez impossivel obtella sem mistura de differentes substancias estranhas, que mudando sua natureza; humas vezes a tornaõ mais propria para as obras de oleiro, e outras obrigaraõ os oleiros a trabalhos consideraveis para purificar o barro, sem o que seria inutil.[2]
3 A argilla[3] ou barro puro he formada de partes muito finas, que se unem muito humas ás outras; porque estando amontuadas em massa, e unidas humas ás outras, cheguando a hum grande gráo de secura, endurecem, de sorte que hum torraõ de argilla exactamente amassado, e bem secco, contrahe huma dureza de pedras: por causa das suas partes serem muito finas, neste estado he susceptivel de tomar certo polimento: he macia, e saponacea ao toque; e por isso he que se chama a esta terra gorda. Ella atrahe a humidade, o que a faz pegar a lingua se acaso a toca; tambem se une bem ás substancias gordas; e por isso serve para tirar certas nodoas.[4]
4 Depois de ter cortado, ou quebrado em molleculas de mediocre tamanho, se deixaõ ficar na agua, de que ella se carrega em abundancia; ella se incha á proporçaõ que se carrega da agua e se póde desfazer huma pequena quantidade em muita agua. Mas quando se lhe naõ lança bastante para a reduzir a huma especie de lama, e que se amassa como adiante explicaremos, he o que se chama argamassar, ella se faz glutinosa, e fórma huma massa muito ductivel, que se póde estender sem a quebrar; de sorte, que hum habil oleiro chega a fazella tomar differentes figuras; e quando se usa della em massa alguma cousa mais dura, se póde fazer hum grande vaso, com pouca grossura sem este se desfazer pelo pezo. Quando a argilla está assim bem amassada, ou argamassada, de sorte que faça huma massa firme, naõ he penetravel á agua, em quanto naõ sécca, por isso se usa della nas argamaças dos tanques, ou pias de conservar agua. Por isto he que os bancos de argilla que estaõ debaixo da terra formaõ muitas vezes tanques sobterraneos, dos quaes nascem fontes de agua, algumas vezes assás boa: porque a argilla, que naõ está exposta ao ar, ao sol, ou ao vento, conserva sua humidade, ductibilidade, e a propriedade de naõ ser penetravel a agua.
5 Os oleiros se aproveitaõ da ductibilidade da argilla para a trabalharem na roda, e moldes; mas as argillas em seccando, quanto mais puras saõ, mais encolhem, isto he diminuem muito do seu volume, á medida que a agua se evapora: e neste estado estaõ sujeitas a rachar-se e seriaõ inuteis aos oleiros, se elles naõ tivessem meios de lhe empedir o encolher tanto, como adiante diremos.
6 A argilla, pura tal, como nós ao presente a consideramos ou detodo, naõ he atacada pelos acidos, ou muito pouco: digo muito pouco porque em muitas argillas se pode descobrir o acido vitriolico. Esta argilla resiste muito á acçaõ do fogo sem se derreter, e por conseguinte cozendo se adquire huma dureza igual á dos seixos, a ponto de que certas argillas bem cozidas chegaõ a deitar fogo sendo feridas com aço. Esta propriedade parece indicar, que hum fogo muito activo as faz tomar hum principio de defusaõ pois ainda que ella seccando indurece, com tudo naõ chega ao gráo que lhe dá o fogo; a argilla, ou barro, nunca muda de natureza por mais secca que fique; conserva a propriedade de ser penetrada pela agua, e tornar-se em huma massa ductivel; pelo contrario cozendo-se muda totalmente de natureza: já entaõ naõ he argilla, he huma argamassa muito dura, ou huma especie de area impenetravel, á agua e que naõ póde adquirir alguma ductibilidade com este fluido.
7 Nisto a argilla differe muito das boas argamassas de cal, e arêa, que endurecem, seccando, mas expondo-se a huma grande calcinaçaõ a perdem. A dureza da argilla cozida he muito differente, das pedras calcares, ainda as mais duras, como o marmore, porque estas pedras sendo expostas a hum grande fogo, e reduzidas a cal perdem sua dureza, que parece depender em parte da humidade, pois que ellas perdem a sua firmeza, logo que pela calcinaçaõ, se lhe dissipou toda a humidade, que parece ser a que fórma a uniaõ das partes; e quando fazendo a argamassa de cal e arêa se lhe lança a humidade, ella pelo tempo toma huma dureza bem consideravel: pelo contrario a dureza da boa argilla se augmenta á medida, que se faz passar por hum grande fogo. A grande violencia do fogo a racha, defórma, e a reduz a huma especie de vidro imperfeito, mas que conserva sua dureza. Eis aqui o que me faz pensar, que a dureza da argilla cozida consiste, em que suas partes adquirem hum principio da fusaõ ou brandura pela grande acçaõ do fogo, e isto as une humas ás outras, brandura, que se póde dizer, que as argillas saõ refractarias pella vitrificaçaõ, ou fusaõ perfeita.
8 Estas observações por mais sucintas, que sejaõ bastaõ para caracterizar a argilla pura; mas como se naõ encontra sem estar unida ás substancias estranhas, he mais importante para a arte de que tratamos, fallar das argillas alliadas ou com mistura, e taes como ellas se achaõ na terra, pois desta especie he que se usa nas olarias. As obras desta se vendem muito baratas, e por isso se naõ póde ir buscar longe de casa, como se faz para as obras preciosas, e porcelanas; he preciso que para ellas se use de argillas que estejaõ perto de casa. Felizmente a argilla se acha em muitos lugares em maior, ou menor profundeza da terra, se acaso se dá attençaõ ás substancias com que se combina. Ha della muitas especies differentes: acha-se humas vezes em grandes montes, e outras em bancos que tem pouca espessura relativamente á sua extensaõ; em fim ella se destribue algumas vezes pela terra por veias, que se devem seguir; a especie de argilla naõ he sempre a mesma na continuaçaõ da mesma veia, ou quando se tira da terra mais superficial, ou mais profunda.
9 A respeito de suas côres ao sahir da terra, he branca, cinzenta, asulada, tirando a côr da pedra asul Ardosia, verde, amarella, vermelha, e de côr de marmore.
10 Estas differentes côres de argillas só nos podem dar indicios pouco certos da qualidade das louças que della se fará: com tudo naõ se devem desprezar; porque estes indicios nos podem guiar a fazer experiencias para certificar-nos da sua boa, ou má qualidade. Disso fallaremos nós adiante.
11 Em geral se preferem as argillas brancas, ou escuras ás amarellas, vermelhas ou verdes, e algumas vezes ás que tem mistura de differentes côres. Estas côres dependem de huma tintura metálica, sulfurea, ou bituminosa; por que, como dissemos, no modo de fazer pitos, ha argillas que augmentaõ á alvura quando se cozem, porque a substancia apparente que alterava a sua côr era destructivel pelo fogo, e as outras cozendo-se ficaõ vermelhas, amarellas, escuras, ou quasi negras. Parece que estas côres fixas saõ causadas pelas differentes substancias metálicas, que se dissolvem com os acidos especialmente o vitriolico: porque he preciso que estas substancias colorantes se reduzaõ em particulas muito subtis, pois estas argillas de differentes côres parecem muito macias, e impalpaveis entre os dedos, e homogenias quando as cortaõ. As substancias tenues de que acabamos de fallar, raras vezes alteraõ os barros communs, de que ao presente fallamos. Digo raras vezes, porque algumas vezes as podem tornar fussiveis: o que em alguns casos he grande defeito. Outras vezes lançaõ vapores que fazem mal ao verniz, ou vidrado com que se cobrem: disto fallarei em outra occasiaõ.
12 Segundo a qualidade dos barros, e uso que delles se faz chamaõ-se barro de tijollos, de ladrilhos, de panellas, de cadinhos, e pitos.
13 Muitas vezes os oleiros se servem de argillas, que tem substancias heterogeneas mais sensiveis, como a mica,[5] pyrites[6] terras calcareas[7] arêas de differentes naturezas, e fragmentos de diversas qualidades da mina.
14 Naõ fallo aqui destas substancias, que se achaõ em grandes pedaços, e que os oleiros apanhando-as, quando amassaõ o barro, as lançaõ fóra; mas das que se achaõ em molleculas assás grossas, e que se persente nos dedos, e se vê quando se corta hum pedaço de barro, com tudo insufficientes para se tirar a maõ todas estas materias de qualquer natureza, que sejaõ, prejudicaõ mais, ou menos a louça, quando seu volume he hum um pouco consideravel, porque naõ se podem fazer obras asseadas, e nem a superficie fica lisa. He verdade que desfazendo esta argilla em muita agua, e passando-a para outro vazo depois de precipitadas as substancias mais pezadas, se tiraõ argillas quasi isentas de partes heterogeneas, e que serveriaõ para obras mais delicadas; mas esta preparaçaõ do barro que se póde empregar em obras de louça fina requer muitas manobras, quando se está fazendo louça grossa; e assim dos barros areentos só se usa para fazer tijollos ou telha; para a louça se escolhem veias de barro mais puro, e isento de huma mistura grosseira, ou de natureza, que altere a bondade da louça. Vem a proposito entrar em algumas individuações a este respeito, porque principalmente da natureza destas misturas resulta a differente qualidade dos barros; e o oleiro que se estabelece em hum lugar, deve procurar todos os meios de conhecer a natureza do barro, de que se deve servir, sem se arriscar a perder muitas fornadas, e arruinar-se.
15 Deve-se esfregar entre os dedos para ver se he macio ao toque, e se he ligado, e ductivel. E encontrando-se corpos estranhos, se devem alimpar, e pôr de parte para conhecer de que natureza saõ. Naõ nos devemos contentar só com isto; por que se a lavage, de que acima fallamos, para as obras communs precisa muita despeza, deve-se sempre desfazer em agua hum bocado de argilla, ao menos, para conhecer-lhe precisamente a natureza, e a quantidade de substancias pouco mais ou menos, que estaõ misturadas com ella: porque como as substancias de differentes generos tem pezos especificos, que lhe saõ particulares, vasando muitas vezes a agua em que se diluio a argilla v. g. passados cinco minutos, depois passados dez, e depois quinze se chegaráõ a separar as substancias, que segundo o seu pezo, se precipitarem mais depressa, ou mais de vagar, e assim se poderáõ examinar separadamente estes differentes precipitados para se poderem conhecer melhor por experiencias particulares; porque destas differentes ligas dependem, em grande parte as qualidades das argillas, e das louças, que dellas se fazem. He verdade, que apezar da lavagem ellas conservaõ partes muito finas, e muito divididas, que lhe daõ côr, como acima dissemos; porém estas partes heterogeneas muito finas saõ pouco nocivas as louças communs. Por exemplo, se segundo diz Mr. Pott, a argilla sendo misturada com substancias de gesso se torna muito dura no fogo; diz tambem que os barros vitrificaveis, misturando-se com a argilla firme ficaõ muito duros cozendo-se; mas he hum grande defeito nas argillas o terem liga de pedras calcareas em molleculas de maior tamanho, que se calcinaõ ao cozer; e depois quando sentem humidade, inchaõ, e quebraõ a obra, se estaõ no meio do barro, e se ficaõ na superficie, a agua as dissolve, e fica hum buraco em seu lugar: todavia eu digo quando ellas saõ maiores; porque em certos casos as substancias calcareas reduzidas a pó subtil, e misturadas em pequena quantidade com substancias vitrificaveis, podem contribuir para a bondade da louça. He de experiencia que algumas vezes duas substancias, que separadas naõ saõ vitrificaveis, unidas se vitrificaõ; e com razaõ mais forte se vitrificaráõ as particulas da cal combinando-se com substancias vitrificaveis.
16 As pyrites tambem saõ huma qualidade de liga muito má; queimaõ-se ao cozer, e se dissipaõ inteiramente, e fica hum buraco em seu lugar, ou quando menos, faz huma mancha negra, similhante a escorea de ferro, e com difficuldade pega o verniz, ou vidrado sobre ella. Os oleiros dizem que o mesmo vapor sulphureo, que della, se exhalla a queimar, offende ao verniz das louças que estaõ visinhas.
17 A arêa he necessaria para impedir ás argillas muito puras o encolherem, e fazellas seccar e coser sem se quebrarem, para isto saõ proprias as arêas refractarias, que com difficuldade derretem. Os vasos que dellas se fazem, soffrem hum grande fogo, e naõ saõ sujeitos a quebrarem pelas alternativas de frio, e calor: mas he preciso hum grande fogo para as cozer, sem isto naõ fica o barro muito duravel. Póde-se com tudo fazer dellas boa louça, e mesmo cadinhos; porém saõ permeaveis a todas as substancias, que se tornaõ muito fluidas pela fusaõ, como os saes, o chumbo; porque ficando com o tecido pouco tapado, naõ as póde conter. Podia-se fazer o seu tecido mais tapado ajuntando lhe hum bocado de barro vitrificavel. Com tudo se estas arêas fossem em muito grande quantidade, diminuiriaõ totalmente a ductibilidade da argilla, e seria muito difficil o trabalhalla particularmente na roda. He verdade, que pella lavagem, se poderia tirar huma parte da arêa, que se achasse em muita abundancia no barro; mas os oleiros naõ recorrem a este meio, que precisa muita manobra: elles preferem misturar as argillas, que chamaõ muito magras, com outras, que sendo muito gordas, fazem encolher muito a louça, e quebra-se ao seccar. Deste modo com a mistura pouco dispendiosa corrigem os defeitos dos dous barros, hum por muito gordo, e outro por muito magro.
18 As areias fusiveis, vitrificaveis, e metállicas tornaõ a argilla fusivel, e a louça naõ póde supportar entaõ hum fogo consideravel sem ficar com defeito; por isso quasi todas as obras destas argillas fusiveis, saõ cozidas ligeiramente, seu interior he grosseiro, taõ poroso, que a agua trespassa os vasos sobre tudo, quando para impedir o encolher, se lhe ajunta muita arêa; e neste estado do barro só se podem fazer delle vasos de Jardins, alguidares, e fogareiros, e para os utensis communs do uso se precisa cubrillos de hum esmalte, que se chama verniz.
19 A economia obriga a fazer estas louças que se trabalhaõ com facilidade, encolhem pouco, e com hum fogo mediocre se cozem, e tem a vantagem de se poderem expôr ao fogo sem se quebrarem. Estas louças muito communs se fazem em grande quantidade, porque se daõ baratas; mas tem pouca solidez, a menor queda as quebra, e por isso saõ pouco duraveis.
20 Quando se misturaõ estas areias vitrificaveis com as argillas, ellas se chegaõ a cozer bem, sem as obras ficarem com defeitos, o seu tecido muitas vezes fica bem fechado; ellas se naõ dissolvem pelos acidos, e conservaõ os metaes, e saes derretidos; porém, como se chegaõ muito á natureza do vidro, os vasos naõ podem soffrer a alternativa do frio, e do calor; e para que se naõ quebrem he preciso esquentallos com muito cuidado.
21 Os barros, de que se usa, para fazer as louças, que chamaõ de grêda, commumente tem este defeito; sendo de hum tecido muito fechado, resistem á fusaõ dos saes, e do vidro de chumbo: porém he preciso muito cuidado, quando se passaõ do frio para o calor. Para ellas naõ terem este defeito, he preciso que naõ fiquem taõ chegadas ao estado de vidro. Ha algumas que saõ desta natureza, e que se poderiaõ ter por huma porcelana grosseira. Eu supponho os barros de que se fazem tem a liga de areia refractaria, e de arêa vitrificavel de donde resulta a vitrificaçaõ. Naõ tenho tido commodo de examinar estes barros com bem cuidado para dar por certo, o que acabo de dizer: o que posso certificar he que tendo dissolvido em muita agua o barro de Gournay, de que se fazem os potes para a manteiga de Isigny, e tendo-a vasado depois de se ter precipitado huma parte da arêa, e pyrites, que elle continha, desta argilla privada de huma parte da sua areia, mandei fazer cadinhos, que se podiaõ pôr vermelhos ao fogo, e depois lançallos em agua fria sem se quebrarem. Se eu tivesse á maõ estes barros, estou persuadido, que chegaria a fazer vasos, que naõ teriaõ algum mericimento pela belleza, mas seriaõ taõ bons como a porcelana, e teriaõ todas as perfeições, que podem haver nas louças communs.
22 Os oleiros naõ entraõ em exames taõ circunstanciados: se achaõ argilla macia ao tacto julgaõ bem della amassaõ-na, e trabalhaõ: se a achaõ muito magra, e pouco ductil, ajuntaõ-lhe argilla muito gorda: se vem que argilla diminue muito de volume em secando, e que se fende, emmagrecem-na ajuntando-lhe barro areento, ou mesmo arêa em proporçaõ que lhe permitta conservar sua ductibilidade, e a fazem cozer; se ellas derretem, ou ficaõ com defeito as peças no forno, diminuem a actividade do fogo, e só as empregaõ nos utensis communs do uso, que cobrem de verniz. Se hum fogo ordinario naõ basta para as cozer, ou dar-lhes toda a dureza, de que saõ susceptiveis, ou vem que podem supportar grande fogo sem defeito, cozem-nas como greda. Se com este grande fogo, alcançaõ que vaõ tomando a natureza de vidro para poder resistir ao fogo, fazem utensis, que naõ devem servir no fogo; como botelhas, potes para manteiga, saleiros, alguidares, quartas, e potes para leiterias. Para torna-las menos frageis ao fogo, ligaõ as argillas muito fortes com barros já cozidos, como potes de greda reduzidos a pó; entaõ, sendo bem cozidos, podem ir ao fogo os vasos ou peças, ainda que naõ haja o cuidado de as esquentar primeiro; mas os cadinhos para ensaios de metaes, ou para saes derretidos, he preciso que o barro naõ tenha substancia metálica, que se derretesse e deixasse escapar o que estivesse derretido no cadinho.
23 Algumas vezes estas ligas vem feitas por natureza, e os oleiros se servem da argilla tal, qual a natureza lhas apresenta: da qui vem a differença da louça de diversas Provincias, como as gredas escuras de Normandia, as da Bretanha, que tiraõ sobre o azul, as de Beauvais, que saõ amarelladas, tirando hum pouco a roxo, as de S. Fargeau que saõ brancas, e finalmente nas de Flandres, que mais que todas, se chegaõ á natureza da porcelana.
24 Do que acabamos de dizer, se vê que hum oleiro, quando julga ter adquirido os conhecimentos necessarios sobre a natureza do barro, de que se deve servir, naõ está ainda no ponto de poder fazer indagações; porque há barros, que, só podem admittir hum mediocre cozimento: outros, que saõ os melhores, requerem ser cosidos em hum grande fogo. Para adquirir estes conhecimentos, o oleiro deve fazer as primeiras fornadas com muita attençaõ, e examinar o estado das obras, para se conduzirem melhor nas fornadas seguintes. Mas quando o oleiro se estabelece em hum lugar, aonde se costuma trabalhar em certos barros, está dispensado de fazer as experiencias de que acabamos de fallar, aproveitando-se das que tem feito, os que usaõ de trabalhar nelles.
25 Nas bordas do bosque de Orleans, ha hum lugar, que se chama Nibelle, onde ha muitos oleiros, que fazem vasos de huma argilla bem pura, que cozendo-se fica preta, e naõ podem ir ao fogo. Esta louça he de hum tecido muito fechado: e assim para os utensis de cozinha misturaõ hum barro branco, e magro com esta argilla; mas a agua trespassaria estas louças se naõ fossem envernizadas.
26 O trabalho dos oleiros he pouco mais, ou menos, o mesmo em todas as Provincias, onde se trabalha em barro. E assim vou explicar com individuaçaõ a pratica dos oleiros de París, e quando houver occasiaõ farei notar em que elles differem de outras partes.
27 Os oleiros de París tiraõ o seu barro, de Gentillis, ou Areueil os que o cavaõ, seguindo as veias do barro bom, o tiraõ em pedaços quasi cubicos, e vai para casa dos oleiros em carros, como vem o cascalho, ou pedras.
28 Quando os oleiros o recebem, lançaõ-no em covas, onde fica mais, ou menos tempo para invernar ou apodrecer, como se diz em outros lugares; de sorte, que o barro, que foi cavado no Outono, fica na cova todo o Inverno, e he tanto mais facil de trabalhar, quanto mais tempo está na cova. Em alguns lugares, os oleiros deixaõ ao ar o seu barro, e o movem com enxadas todo o Inverno, por este meio o fazem mais ductivel.
29 Este he o mesmo barro que serve para fazer ladrilhos, e obras de louça. Com tudo elle he mais preto, ou mais branco, conforme a profundeza, de que foi tirado: há alguns, que vem misturados com estas duas côres, e este se julga hum pouco melhor que os outros, porém todos se gastaõ sem distincçaõ em louça, e em ladrilhos. Começo agora a explicar o que respeita aos ladrilhos.
30 Quando se tiraõ da cova pedaços grandes de barro, he preciso cortallos em pedaços, mais pequenos possiveis. Para isso se põe huma taboa A fig. 1, est. I, sobre huma celha: os oleiros chamaõ assim huma pequena celha B sem fundo em huma ponta: lança-se nesta pequena celha seis baldes de agua com pouca differença, depois se põe hum bôlo de barro sobre a taboa A, que dissemos se punha sobre a ponta sem fundo da celha B. O oleiro corta em pequenos pedaços este bôlo de barro com huma faca de dous cabos D fig. 2; e logo que vai cortando o barro o vai lançando na agua da celha; o barro, que se pôs de tarde a humedecer, na manhã seguinte está bem brando, para se poder trabalhar; porque bastaõ oito horas para ficar sufficiente para o trabalho, sendo pequenos os pedaços.
31 As aparas das obras, que ainda naõ foraõ cozidas, se misturaõ com o barro novo; este barro das aparas, que já tem a liga da arêa, e já foi posto em camada amassado, e trabalhado, ajuda a trabalhar melhor o barro novo.
32 O barro, de que usaõ os oleiros de París, ou venha de Areueil, ou Gentillis he muito gordo, e por isso naõ póde servir sem liga: he preciso ligallo com arêa para diminuir-lhe a força, e fazello assim encolher menos. Talvez seria mais expediente, e mais economico trabalhar o barro com a máquina representada na arte de fazer os pitos; mas segundo o uso dos oleiros, se faz esta mistura amassando o barro com os pés. Para isto, os oleiros de París, costumaõ misturar duas celhas de barro novo, huma de aparas, se as há, e cinco cestos de arêa: diminuindo-se a arêa, ficaõ mais duros os ladrilhos; porém custaõ mais a trabalhar. Seja como for, os barros de Belleville e Areueil ambos saõ bons, e finos, tem poucos seixos; sua côr tira a amarella.[8]
33 Para fazer huma amassadura, se começa estendendo arêa sobre toda aquella porçaõ do pavimento, que occupará a camada; reserva-se só hum cesto para o que adiante diremos; esta arêa, que se precisa misturar com a argilla, tambem embaraça ao barro apegar-se. Tira-se das celhas o barro das aparas, que estava humedecendo, como o novo; estende-se sobre arêa em camada; porque como este barro he mais facil de amassar, que o novo, põe-se no lugar, em que o barro se naõ amassa tambem. As duas celhas de barro novo saõ distribuidas pela circunferencia, e por cima se lança hum bocado de arêa, da qual se reserva só meio cesto para o uso, que adiante se dirá.
34 Tres celhas de barro bem pisado, bastaõ para fazer quinhentas telhas, e viriaõ a fazer dous mil ladrilhos pequenos. Estando o barro disposto, como já dissemos, o amassador descalço se chega ao monte de barro; a sua postura he, com a maõ esquerda firmada sobre o joelho esquerdo, e porque o barro escorrega, para naõ cahir, tem na maõ direita hum páo, em que se firma. Separando entaõ das bordas hum pouco de barro com o pé esquerdo o despega, e lança fóra do monte, dá hum pequeno passo adiante, e faz o mesmo; de sorte que andando em roda de todo o monte, e separando em cada passo quatro, ou cinco pollegadas de barro, ganha pouco a pouco o centro; onde fica pouco barro, porque elle tem separado para as bordas a maior parte. Como o do meio fica mais mal amassado, elle acaba de amassar, e separar o barro, que ahi fica; com hum ferro proprio corta em pedaços este barro, e o tira com as maõs com facilidade, porque se despega por causa da arêa, que estava por baixo, e o distribue por todo o monte. Depois de se ter tirado o barro, que está no meio da camada fica huma coroa de dous circulos concentricos; mas com a mesma peça de ferro corta as bordas da camada, e as lança no meio, depois amassa deste barro, como fez a primeira vez, e depois de acabar esta manobra, naõ tira mais o do meio: porêm depois de ter cortado o barro com a peça de ferro, elle o ajunta com a maõ, e o põe no meio; depois o amassa de novo terceira, e ultima vez, estendendo o barro mais do que nas camadas precedentes, para assim ficar mais delgado na camada. Feito isto, está amassado, e em termos de servir, como vamos explicar.
35 Para apromptar assim tres pequenas celhas de barro, hum homem vigoroso precisa ao menos quatro horas: depois amontoa o barro; e entaõ está em termos de servir.
36 Como he de muita importancia para a louça o distribuir-se igualmente por toda a massa, o barro, que se mistura hum com o outro, ou a argilla com a arêa, e que as differentes misturas façaõ hum todo uniforme, os oleiros, para se certificarem disto, cortaõ o barro com hum arame de lataõ, e examinaõ se a côr está uniforme em toda a extensaõ do golpe, e se ha lugares mais brilhantes, que outros. A uniformidade próva que os differentes barros estaõ bem misturados, e que o todo está bem amassado: nos lugares brilhantes está a argilla mais pura.
37 Os ladrilhos se poderiaõ moldar, como dissemos na arte de fazer tijollos, do mesmo modo que a telha, e o tijollo. Os telheiros naõ fazem de outro modo os tijollos, ou chamados ladrilhos de telha, para os distinguir dos ladrilhos de louça, que saõ muito melhores, e trabalhados mais propriamente do que os de telha, ou tijollos. Os oleiros daõ a figura quadrada em hum molde de páo aos tijollos, ou ladrilhos que chamaõ de fornalha. Elles tambem fazem em hum molde inferior fig. 3, os ladrilhos para os celleiros, ou quartos, que requerem pouca attençaõ; elles naõ os aperfeiçoaõ, nem aparaõ como aquelles, que se destinaõ para sallas, e quartos acceados; mas por este methodo a superficie dos ladrilhos, naõ he bem dirigida, os angulos muitas vezes ficaõ rombos, e o barro naõ fica suficientemente comprimido: por isto he que nos ladrilhos de salla, os oleiros se aperfeiçoaõ mais.
38 He verdade, que elles começaõ mettendo o barro em hum molde, segundo o tamanho, que devem ter os ladrilhos para as peças de barro, que chamaõ de culumnas: mas depois que o barro está meio secco, elles o batem, e comprimem muito. Deste modo perdem os ladrilhos a figura regular, que o molde lhe tinha dado, e isto os obriga a cortar por hum calibre de ferro, que os oleiros chamaõ molde: este calibre, ou padraõ de ferro he cortado regularmente, segundo o tamanho, e figura, que se quer dar aos ladrilhos. Tudo isto se fará claro pelas indagações, em que vamos entrar; mas convém fazer antes notar, que supposto se possaõ fazer ladrilhos triangulares, quadrangulares com dous cantos obtusos, quadrados, longos, etc. Naõ se fazem senaõ quadrados, ou de seis panos fig. 3, e tambem alguns meios tijollos para os socalcos das fornalhas, dos muros, ou outras cousas. Estas duas qualidades tem a vantagem, que os ladrilhos de hum mesmo tamanho se unem exactamente huns aos outros sem deixar vacuo entre elles; se fossem de cinco faces ficaria entre elles vacuo, que seria preciso encher; e aliás sendo os angulos, agudos, com facilidade se quebrariaõ.
39 Sendo outogonos, ou de oito faces, necessariamente entre quatro ladrilhos, fica hum espaço quadrado, que he preciso encher com hum ladrilho pequeno. Só se fazem estes ladrilhos de oito faces, quando o ladrilho pequeno he de côr differente dos grandes; taes saõ os ladrilhos pretos, e brancos, que fazem os que trabalhaõ em marmore. Tambem vi em algumas Provincias ladrilhos, que sendo cobertos de verniz de differentes côres, formavaõ huma boa vista. Variando a figura dos ladrilhos, e a côr pelo verniz, e tambem a sua posiçaõ, se podem fazer muitos repartimentos simetricos: disto fallarei adiante; porém, como os ladrilhos de qualquer figura se fazem do mesmo modo, vou explicar com individuaçaõ, como os oleiros fazem os ladrilhos hexagonos ou de seis faces.
40 O oleiro começa fazendo no molde hum grande ladrilho quadrado. Este molde he hum caixilho de páo que faz os ladrilhos mais grossos do que devem ser; naõ só por que diminuem, quando seccaõ, mas tambem, porque ficaõ mais delgados quando se batem.
41 Para moldar os tijollos, tem o oleiro huma taboa grossa a b, est. I, fig. 4, que está posta sobre cavalletes fortes, e põe no meio desta taboa huma pedra dura e unida, ou hum pedaço de páo g, de tres ou quatro pollegadas de grosso, que tem differentes nomes; em alguns lugares se chama urquain na ponta deste pedaço de páo dd está posto hum vaso cheio de agua ee, e sobre o vaso hum instrumento de páo que chamaõ plaina ff e por diante está o caixilho, ou molde gg. Alguns põe da parte esquerda do moldador hum bôlo de barro h, destinado para encher o molde: tambem se põe ahi o barro, que se tira com a plaina ff. Outros tiraõ só a quantidade, que caressem, de hum monte de barro H, que está sobre o soalho, perto delles. Á direita do moldador está hum monte de arêa i, e se deve ter sobre a meza hum lugar k, para se porem as obras já moldadas.
42 O moldador posto adiante da mesa, toma com a maõ esquerda hum bocado de arêa, e a espalha sobre a mesa, ou sobre o pedaço de páo g fig. 4, põe por cima o molde tambem esfregado na arêa; depois o enche de barro comprimindo o com as maõs o mais que póde; porque este barro deve ser mais duro, do que se servem os telheiros. Depois de estar o molde bem cheio por todas as partes, o moldador toma a plaina ff fig. 4; molha-a na agua, e pegando nella com ambas as maõs, a passa fortemente por cima do molde, para tirar todo o barro, que excede á grossura, que deve ter; depois pegando no molde por hum dos cantos o puxa para si, e mette a maõ esquerda por baixo da peça, para a soster a põe sobre as outras k fig. 4, e como este barro he amassado duro, se póde passar de hum lugar para outro em as maõs sem ficar com defeito. A pouca arêa, que fica por baixo da peça, basta para naõ a deixar pegar na outra sobre que se põe.
43 Depois de terem endurecido alguma cousa as peças, ou ladrilhos, que se tem tirado do molde se lançaõ em huma especie de taboletas feitas de varas á maneira de caniços, para o ar lhe dar de todas as partes; e seccallas por cima se põe huma coberta de taboas para a chuva os naõ molhar.
44 Quando estaõ já meios seccos se viraõ debaixo para cima para seccar a parte, que fica por baixo a polla no mesmo gráo de seccura, que a de cima.
45 Em quanto estes ladrilhos estaõ ainda flexiveis se põe sobre hum banco forte huns sobre os outros, e se batem com a parte chata do masso. Depois de batidos assim os ladrilhos, se tornaõ a pôr sobre as varas, aonde ficaõ mais ou menos tempo, conforme o calor do ar. Logo que o oleiro os julga sufficientemente seccos, os tira das varas, mas como o exterior sempre está mais secco que o interior, quebrar-se-hiaõ, se acaso se tornassem a bater neste estado. Previne-se este accidente pondo-os em pilha, huns sobre outros cinco ou seis dias, para amolecer as superficies, que estavaõ seccas; estas pilhas se fazem em hum quarto baixo, e alguma cousa humido. Além de que o ar humido deste lugar abranda a superficie das obras feitas, e a humidade do seu interior se communica á superficie, que já estava bem secca. Quando se achaõ já bem flexiveis se tiraõ da pilha, e se tornaõ a bater com mais força do que antes no mesmo banco, e logo se cortaõ por medida certa em quatro partes; depois se põe em pilhas de vinte cada huma junto a huma parede, defendidos da chuva por huma coberta: quando o barro está já hum pouco secco, se põe na ponta de hum banco pilhas destes ladrilhos, hum obreiro posto a cavallo no banco, pega em hum molde de ferro est. I, fig. 5, da grossura de cinco linhas, que está talhado em faces precisamente do tamanho e da figura, que os ladrilhos devem ter, e com hum cutello curvo fig. 6, corta tudo o que excede a peça de ferro, que os oleiros chamaõ molde.[9] Hum bom obreiro póde aparar 1800 ladrilhos por dia. As aparas cahem em hum peneiro, onde se conservaõ para as misturar com o barro novo, quando se fizer nova amassadura. Quando sahem os ladrilhos da maõ do aparador, vaõ já em figura de ir para o forno, logo que estiverem bem seccos.
46 Seria impossivel fazer o primeiro molde tamanho, que depois désse quatro ladrilhos grandes; estes assim se moldaõ em huma fôrma maior cada hum separado, como se fazem os tijollos de fornalhas; com a differença porém de que os tijollos de fornalha, naõ se batem, nem se aparaõ; e os ladrilhos grandes, que se fazem com aceio saõ batidos, e aparados por moldes, como os pequenos.
47 Os ladrilhos feitos como acabamos de explicar, carecem estar bem seccos para irem para o forno: porém naõ se expõe ao Sol, mas sim em parte onde lhe dê o vento, ou em lugar aonde chegue o calor do forno.
48 Quando os ladrilhos estaõ de todo seccos, resta cozellos, o que se faz como vamos a explicar.
49 Na arte de telheiro, e de fazer tijollos se vem os fornos, de que se servem alguns oleiros para cozer os ladrilhos: onde se póde consultar o que nos dissemos a este respeito, aqui trataremos só, de duas qualidades de fornos, de que se serve a maior parte dos oleiros de París naõ sómente para coser seus ladrilhos, mas tambem toda a qualidade de louças: depois fallarei dos fornos, de que se servem os oleiros dos arrebaldes de Saint Antoine para cozer suas obras: e por hora fallarei só dos fornos, que estaõ mais em uso nos arrabaldes de S. Marceau; elles vem representados na est. I, fig. 7, 8, 9. A fig. 7 representa o plano do forno; a fig. 8 he a divisaõ deste mesmo forno no comprimento pela linha A, C; e a fig. 9 he huma divisaõ transversal pela linha G, H, da fig. 7: A he a boca do forno, ou entrada da fornalha; na qual se põe madeira para esquentar o forno, como se vê de A, até B, fig. 7, e 8; de B, até C, he a capacidade interior do forno, aonde se arranjaõ os ladrilhos, ou a louça, que se quer cozer; C, D, fig. 8, he hum tubo da chaminé por onde sahe a fumaça. Como a communicaçaõ do interior do forno com este tubo, para descarga da fumaça, he por baixo perto do pavimento do forno em C, he preciso, que a corrente de ar, que entra pela boca A, passe ao tubo D, pelos buracos C. Deste modo, tendo seguido a curvatura da abobada, até perto de M, fig. 8; o ar quente desce ao longo das paredes do tubo da chaminé, que se chama Lingueta,[11] para ganhar os buracos, que estaõ em C, e tornar ao tubo C, D. Por esta construcçaõ, que he bem entendida, o calor se distribue muito bem por todo o comprimento do forno: mas, como he mais estreito na sua entrada K, I, fig. 7, do que no fundo, os lados em G, H naõ recebem tanto calor, como no meio; mas isto se remedeia; arrumando lenha nos dous lados, como se vê na fig. 7, e como adiante explicaremos. F, fig. 7, he huma porta, por onde se entra no forno para o encher; depois do forno cheio, se tapa com hum muro de tijollos, e se accende o fogo.
50 Antes de metter no forno alguma louça se levanta, com tijollos em I, H, até a abobada, huma separaçaõ que tem aberturas, pois se deixa entervallos entre os tijollos, ou como dizem os obreiros crenaux[12], para que o calor do fornete A B. se communique o forno. Esta separaçaõ, recebendo a mais viva acçaõ do fogo, chama-se la fausse-tire, a qual se naõ desmancha em cáda huma fornada, pelo contrario se repara para que dure o mais que for possivel.
51 Como a parte de diante do forno está tapada em I, K, pela fausse-tire[13] he preciso carregallo pela abertura F, e começa-se, formando as tres primeiras ordens da parte da fausse-tire, para isto se desmancha huma ordem de tijollos de fornalha, que se põe de parte, como se vê em a fig. 8, entre as quaes se deixa huma aberta de quatro pollegadas e meia, e se dispõe estas abertas para estabellecer debaixo da fornalha huma corrente de ar quente, de modo, que pela subtileza do ar esquentado, suba sempre melhor á abobada. Sobre estes tijollos se arranjaõ as pilhas de ladrilhos, que se põe deitados, como se vê na fig. 7, de modo, que hajaõ dous dedos de distancia de hum ao outro ladrilho, e que o meio do ladrilho da ordem superior corresponda ao vácuo dos ladrilhos da ordem inferior.
52 Depois de se terem levantado até á abobeda quatro pilhas de tijollos ordinarios, se põe achas de lenha entre as paredes do forno, e as pilhas de tijollos: depois se arranjaõ sobre o pavimento do forno, os tijollos de fornalha, e por cima as pilhas de ladrilhos de Sala; acamaõ-se nos lados as achas de lenha, como se vê fig. 7, e além de huma ordem de achas em pé, que atravessaõ o forno, como se vê fig. 7, segundo a linha de G, e H, e se continua a encher o forno pondo por baixo os tijollos de fornalha, e por cima os ladrilhos. Depois de se terem formado duas, ou tres pilhas, se põe achas de lenha entre as pilhas de tijollo, e as paredes do forno, além disto se põe huma ordem de achas sobre a parede do fundo do forno, que se chama Lingueta. Quando as achas de lenha, que se põe de pé naõ tem o comprimento sufficiente para tocar na abobeda do forno por naõ perder lugar, se põe por cima ladrilhos de sala dos maiores. Continua-se, como temos explicado, até chegar á abertura F, fig. 10; para formar as ultimas ordens se põe sempre tijollos de fornalha: as pilhas de ladrilho ordinario, e as achas, como já dissemos; porém por naõ fechar a entrada F, se começa, enchendo primeiro o lado opposto á abertura, e se acaba por esta mesma abertura L, que se fecha por huma parede de tijollos, como já dissemos.
53 Em hum forno semelhante ao que se representa, que tem dez pés de K, a L, e sete de K, a I, para cozer os ladrilhos se gasta carga, e meia de madeira tanto para arranjar entre os ladrilhos como para a tempêra[14], e huma camada de lenha rachada para queimar na fornalha A, B, e fazer o cozimento da louça; a isto chamaõ os oleiros la chasse.[15]
54 Os que se lembrarem, do que dissemos na arte de telheiro, veraõ que he preciso primeiro esquentar o forno com hum pequeno fogo de páos grossos, que façaõ mais fumo, do que chamma. Por mais secco que pareça o barro, he preciso lançar fóra ainda muita humidade no forno: se esta dissipaçaõ se apressar, o barro se quebrará, indo porém de vagar, dissipa-se a humidade sem fazer estrago. Este pequeno fogo, he que os oleiros chamaõ humedecer, talvez porque a louça com este pequeno calor se faz humida.
55 Accende-se hum pequeno fogo de páos grossos na boca da fornalha entre A, e B, fig. 7, e 8; isto se continúa trinta e seis horas, para que as obras se esquentem pouco a pouco, e percaõ a humidade, que lhe resta, ainda que os tijollos pareçaõ bem seccos quando se mettem no forno. Nas doze ultimas horas augmenta-se hum pouco o fogo, e depois se faz no mesmo lugar hum grande fogo de lavareda com lenha secca, e se continúa por sete, ou oito horas, os páos que se metteraõ pelos lados, e entre as pilhas dos ladrilhos, se queimaõ tambem e contribuem para ficarem perfeitamente cozidos. Finalmente naõ se põe mais lenha na fornalha, e se lhe tapa a boca com huma chapa de ferro, para ir esfriando pouco a pouco, passados 7 ou 8 dias, se tira a louça do forno.
56 Como em París as obras de ladrilhos fazem parte do officio de Oleiro, he preciso fallar aqui dellas.
57 Nos lugares aonde ha gesso, todas as obras de ladrilho se fazem com elle; mas aonde o naõ ha, se ladrilha com argamaça de cal, e arêa, betume, ou algumas vezes com huma mistura de argamaça, e gesso; naõ fallo aqui de hum máo modo de ladrilhar, de que usaõ os paisanos, assentando os ladrilhos sobre a argilla bem amassados com bastante arêa, para naõ encolher tanto o barro.
58 Quando se tem de ladrilhar com argamassa, he preciso embeber bem de agua o ladrilho logo ao sahir do forno: sem esta precauçaõ o ladrilho atrahe a agua da argamaça, e em lugar de tomar corpo se descompõe, e se torna quasi em arêa pura.
59 Como a argamaça se pega menos ao barro do que o gesso, alguns mandaõ fazer por baixo do ladrilho, regos, ou buracos com hum pedaço de páo, que se mette por baixo do ladrilho depois de o bater, porém isto naõ está em uso.
60 Em París todas as obras de ladrilho se fazem com gesso; mas, como o gesso vivo incha muito, quando se usa delle puro, por isso vem estas obras a ficar com defeito. Póde-se prevenir este inconveniente, ou misturando o gesso hum pouco molle com cal, ou ladrilhando por camadas, e naõ pôr outra em quanto naõ séca a primeira; ao menos se deve evitar pôr o ladrilho encostado á parede de encontro, e se deverá deixar alguns pés em roda sem ladrilhar até o gesso dos ladrilhos do meio, ter acabado de inchar; há bons ladrilhadores, que tendo precauçaõ, chegaõ a ladrilhar com gesso só, e a sua obra he melhor; mas pela a maior parte os ladrilhadores misturaõ o pó de carvaõ peneirado com o gesso, para elle naõ inchar tanto; quanto mais pó lhe ajuntaõ, menos temem, que lhe inche o gesso; e assim ladrilhaõ com mais facilidade; porque o gesso assim naõ pega com tanta promptidaõ, e elles naõ gastaõ tanto; e isto he utilidade sua, porque elles mesmos daõ o gesso. Por todos estes motivos ajuntaõ elles tanto pó de carvaõ ao gesso, que elle naõ toma corpo, e quasi naõ se péga ao ladrilho; ao contrario porém o gesso puro se péga tanto ao barro cozido, que se naõ podem separar dous ladrilhos, estando unidos hum ao outro com gesso. Seria melhor em lugar do pó de carvaõ misturar arêa boa, que faz corpo com o gesso, e tambem o naõ deixa inchar tanto, como se fôra o gesso vivo.
61 Eu vi hum bom ladrilhador, que em lugar do pó de carvaõ ajuntava ao gesso ferrugem de chaminé; esta mistura naõ deixa o gesso prender com tanta promptidaõ, e assim tinha elle tempo de assentar melhor os ladrilhos. Disse-me elle que este gesso assim naõ inchava tanto, e me pareceo, que estes ficava muito duro, e muito adherente aos ladrilhos; e por isso penso, que se deve adoptar este methodo, aonde ha gesso, e ferrugem com facilidade.
62 Quando o gesso he raro, e a ferrugem difficil, se póde segurar bem o ladrilho com huma mistura de gesso, e argamaça de cal, e arêa, ou betume. Esta especie de argamaça bastarda, que os nossos obreiros chamaõ gâchis,[16] incha pouco; com o tempo se torna muito dura; e como se demora em inchar, póde o ladrilhador com facilidade assentar os seus ladrilhos.
63 Em París os pedreiros saõ os que fazem o lugar em que se devem assentar os ladrilhos; mas nas Provincias os ladrilhadores, põe ao nivel, e apromptaõ o pavimento, e lugar em que haõ-de assentar os ladrilhos, ou tijollos, elles o fazem ordinariamente espalhando carvaõ moido na parte, e depois assentaõ em cima huma regua com hum nivel. Logo que o lugar está prompto lançaõ por cima do pó huma agua de gesso muito clara, para lhe dar alguma consistencia.
64 Os ladrilhos ficaõ mais seguros, quando se assentaõ sobre o gesso puro, ou simplesmente misturado com huma pouca de arêa boa; mas deve-se assentar o ladrilho depois do lugar estar secco, e o gesso ter acabado o seu effeito, hum assento da argamaça de cal, e arêa tambem he bom; e o peior modo, he o de assentar o ladrilho sobre o pó de carvaõ puro, que sendo comprimido, se abate, e se desordena com facilidade; por naõ poder dar hum assento sólido ao ladrilho, ou tijollo.
65 Em algumas Provincias se prepara o pavimento com tufo branco, que se passa por grades, ou canissos, humedece-se hum pouco; para que sendo batido tome alguma firmeza.
66 Em outro tempo se carregavaõ muito os pavimentos; porém agora, como os carpinteiros põe a madeira bem desempenada, e igual na grossura; recommenda-se aos ladrilhadores, que naõ ponhaõ muita carga por naõ pezar sobre as vigas.
67 Quando os quartos ou celleiros, que se querem ladrilhar tem o assento preparado, o ladrilhador estende huma corda por todo o comprimento da peça, e põe por cima do gesso, ou argamaça, huma ordem de tijollos, examinando sempre se vai direita, e ao nivel, porque esta primeira ordem he a que regula as outras; pois, sendo todos os ladrilhos, ou tijollos feitos exactamente do mesmo tamanho, formáraõ ordens iguaes, e bem direitas, se o ladrilhador os põe de modo, que naõ haja junta. Com tudo se por defeito do oleiro, ou do ladrilhador ficarem as ordens alguma cousa curvas, se remediará esta falta, deixando huma junta, ou emenda na curvatura. Isto sempre he hum defeito, mas pouco sensivel, quando a curvatura he pouco consideravel, e que se indereita pouco a pouco. Como esta primeira ordem, ou fileira deve dirigir todas as mais, logo que estiver bem assentada, se deve recommendar o naõ andar sobre ella pela naõ desordenar. Põe-se depois as outras fileiras, de sorte que hum dos angulos que falta no tijollo, que se põe se assenta no angulo, que entra dos tijollos, que estaõ postos na fileira, deste modo vem a formar linhas obliquas.
68 Os ladrilhadores conservaõ o nivel em toda a extensaõ do pavimento por hum modo bem simples, e expediente; põe hum bocado de gesso, ou argamaça no lado dos ladrilhos, já postos, tendo o cuidado, de que fique a argamassa de huma grossura igual; se usaõ do gesso põe só em huma extensaõ, que occupe oito tijollos ou ladrilhos, para terem tempo de os pôr em seu lugar antes do gesso, indurecer muito: assentaõ, por cima dos ladrilhos postos, huma régua de páo de duas pollegadas de grosso e tres e meia de largo, e lhe batem fortemente. Levantaõ com a maõ esquerda esta régua, e batem sobre os ladrilhos até ella assentar igualmente sobre todos. Fica evidente, que os postos por ultimo estaõ ao nivel depois da régua assentar em todos igualmente; o que se faz com facilidade pelas pancadas fortes, que fazem enterrar os tijollos pelo gesso, ou argamaça. Se alguns fogem da direcçaõ, se abatem muito por falta do gesso, o ladrilhador os levanta com a colher; tira o gesso que estava por baixo, e põe outro tijollo, que fique sem defeito. Finalmente, tendo acertado os ladrilhos, rapa com o corte da colher o gesso, ou argamaça, que sobra por cima delles, e põe outra vez ao lado dos tijollos hum bocado, como acima se disse em extensaõ que occupe só 7, ou 8, tijollos, que põe de novo, e assim segue até acabar. Indo a encontrar na parede, póde entaõ misturar carvaõ em pó com o gesso, para que elle naõ inche; porque aqui naõ estaõ sujeitos a sahirem do seu lugar como no meio.
69 Os ladrilhadores enchem as juntas, que ficaõ entre os ladrilhos, postos algumas vezes com gesso misturado com argamaça de cal bem dura, que lançaõ com força entre as juntas que ficaõ; outros lançaõ sobre os ladrilhos agua com gesso muito liquida. Tira-se o gesso, ou argamaça que se acha por cima dos ladrilhos, esfregando-os com arêa, ou com palhas, e depois de bem limpos se pintaõ com oleo, põe-se-lhe cêra, e esfregaõ. Os tijollos de ladrilhar, como se gastaõ, e ficaõ com covas pelo lugar, por onde se anda, e mesmo ao varrer por serem as vassouras commumente de alamo por evitar estes inconvinientes, untaõ com sangue de boi, que lhe dá huma sólidez muito duravel. Em algumas provincias se envernizaõ os ladrilhos, como a louça, formaõ divisões bem agradaveis, que variaõ por muitos modos.[17]
70 Os oleiros de París para fazerem differentes obras se servem do mesmo barro dos ladrilhos; só daõ a preferencia a certas veias onde a argilla he mais branca tirando hum pouco sobre o vermelho a qual os oleiros chamaõ bom barro; tira-se de Arcueil, e de Vanvres, como para o ladrilho; ligaõ-na com a mesma arêa, e na mesma quantidade, que para os ladrilhos. Como se amassa com mais cuidado, naõ se póde pôr a amassar mais de huma celha, ou quando muito duas de barro por cada vez.
71 Alguns oleiros, depois do barro amassado, lançaõ hum torraõ sobre huma mesa grossa, e o batem com hum maço de ferro, como se faz no barro de pitos, e esta operaçaõ he muito boa; porém ainda que elle tenha sido amassado, e batido, he preciso repassallo pelas maõs para lançar fóra algumas pyrites, e pedras, que possa ter ao que chamaõ voguer.[18] Para este fim amassaõ o barro sobre a mesa de moldar, como fazendo huma pasta; elles ajuntaõ depois hum torraõ grande, e passando alternativamente a palma da maõ sobre este barro, tiraõ de cada vez huma camada bem delgada; e assim com facilidade encontraõ os corpos estranhos, e os lançaõ fóra. Depois de terem assim passado outro tanto, como o volume de huma libra de manteiga, amassaõ este torraõ que daõ a figura de hum cylindro, dividem-no em dous, e tendo huma ametade em cada maõ, as unem batendo com força huma contra a outra; depois o tornaõ a amassar de novo, e repetem esta manobra muitas vezes, e vaõ sempre lançando fóra os corpos estranhos que encontraõ, e acabaõ fazendo torrões de barro maiores, ou menores, segundo o tamanho dos vasos, que elles se propõe fazer. Os oleiros tem differentes modos de vogar o barro: porém todos consistem, em trabalhar muito o barro para o amassar bem, e separar-lhe todos os corpos estranhos, que nelle se acharem; porque para as obras que elles saõ obrigados a dar baratas, naõ podem fazer as despezas de lavar seus barros, e de os passar pela peneira (ou por hum crivo feito de arame de lataõ fino) como fazem os que trabalhaõ em louça fina. A operaçaõ de vogar he trabalhosa; porque para a maior parte dos utensis, que fazem os oleiros, se deve amassar o barro muito mais duro do que para os ladrilhos, principalmente havendo se de fazer vasos grandes, porque naõ se poderiaõ suster; e o barro voga-se com muito mais cuidado para humas obras do que para outras.
72 Das obras de oleiro, humas se fazem inteiramente á maõ, como as caldeirinhas quadradas F, fig. 10 est. I, outras só se fazem na roda, como os vasos de flores, as tijellas, e alguidares K, fig. 11, que naõ tem azas, outras se fazem parte na roda, e parte a maõ, como os vasos de tres pés, as marmitas fig. 12, os escalfadores fig. 13, as caçarolas fig. 14, o corpo das quaes se faz na roda, e os pés, azas, e orelhas se põe de fóra á maõ.
73 Agora começo a dizer alguma cousa sobre o trabalho da roda, ou torno; tambem explicarei como se acommodaõ nella differentes peças; depois darei alguns exemplos das obras, que se fazem inteiramente á maõ.
74 Ha duas especies de rodas: huma he de ferro, e esta he verdadeiramente a roda de oleiros; e outra he de páo e se chama o torno. Quasi todos os oleiros de París se servem dellas; porém adoptaraõ a dos oleiros de louça fina vidrada.
75 Descripçaõ da roda de ferro aa Est. I, fig. 5, he o meio da roda, que tem a pequena roda bb, em alguns lugares se chama gimble, sobre o qual está a obra cc, em que se trabalha. No meio aa, se ajuntaõ os raios da roda dd, que saõ de ferro. Nesta figura só se vem dous; porém a roda tem seis, como se vê na figura 16. Estes raios vem dar em hum circulo de ferro, ou ambos, cuja grossura só se vê aqui representada pela linha ee; o meio aa, diminue de grossura em ff, e ainda mais em gg, esta parte, que he cylindrica, e pontuada na figura, he recebida por hum buraco em hum grosso pedaço de páo g, que fica bem seguro por huma cruz de páo hh, e pelas prisões ii. Em primeiro lugar he preciso conceber, que o meio aa, a parte ff, e o cylindro pontuado g, saõ tomadas em hum mesmo pedaço de páo; em segundo lugar que a parte cylindrica pontuada he recebida em hum buraco fundo, que está no centro do pedaço de páo g, no qual póde virar; que este cylindro pontuado, que tem a parte ff assim como este que nos temos chamado o meio aa, por cima do qual está a pequena roda bb, sobre a qual está a obra cc. Aqui se vê, que os raios dd, saõ obliquos, de sorte que por suas revoluções, formaõ hum conico cortado em aa; K saõ as pequenas mesas, que estaõ em roda do obreiro, em que elle põe as bolas de barro, de que vai fazer as obras, e as mesmas obras depois de feitas, huma gamela com agua, hum calibre de ferro ordinariamente, a que chamaõ atelle L, he huma taboa inclinada sobre a qual se assenta o obreiro. Tudo isto se tornará mais claro lançando os olhos sobre o plano perspectivo fig. 17.
76 A he o meio da roda: b a pequena roda, que sustenta em si a obra c, na qual se trabalha: d, os raios da roda ee, cambas da roda: f a parte cylindrica do meio, por baixo do qual fica a que está pontuada na fig. 1, perto de g: h a taboa que esta segura aqui por huma massa de gesso: k as mesas pequenas, sobre que se põe a obra logo depois de feita: l, a taboa inclinada, em que se assenta o obreiro: m, taboas grossas inclinadas, que tem entalhes profundos, em que os obreiros põe os pés como se vê fig. 16, e 17; estas especies de assento para os pés se chamaõ poiaes: n saõ as obras já acabadas: o, bôlos de barro para fazer outras obras: p, os pilares, ou pés direitos, que sustém as mesas k, l.
77 A figura 16 representa a mesma maquina vista em plano, e virada para se poder ver a roda por baixo: g, a parte cylindrica, que entra em hum buraco fundo feito na peça g: f, parte cylindrica mais grossa; aa, o meio da roda aonde se ajuntaõ os raios d: ee, a camba: p saõ os encaixes destinados para receber os pés direitos que sustem as mesas k, e o assento l: m, lugar de pôr os pés.
78 Nos campos muitas vezes he de páo, tudo o que aqui se representa de ferro; neste caso a camba da roda he muito grossa: para que com o seu peso conserve por mais tempo o movimento, que o oleiro lhe imprime. Como ellas saõ menos perfeitas que as de ferro, escuso entrar em individuações a seu respeito.
79 Para se trabalhar sobre esta roda, he preciso imprimir-lhe hum movimento circular rapido, com hum páo a, est. II, fig. 4, que se chama virador. Vê-se nesta fig. 4, hum obreiro disposto para pôr a roda em movimento; está sentado no assento l, os pés estaõ nos entalhes dos lugares de ter os pés m; e com huma ponta do virador a, toca em hum raio de roda para a fazer andar, e imprimir-lhe hum movimento circular, que ella conserva bem tempo para o obreiro, fig. 5, poder formar hum vaso.
80 Esta roda a, fig. 18, est. I, he de páo, e tem de grosso tres ou quatro pollegadas, para que o maior peso lhe faça conservar o movimento mais tempo; ella he atravessada por hum eixo de páo, ou de ferro b, que finda por baixo da roda em hum mancal: este eixo passa ao nivel da mesa por hum colar, e tem na sua extremidade superior huma roda pequena c, sobre a qual está a obra d; o obreiro h, estando assentado hum pouco obliquamente sobre a taboa inclinada i, tem muitas vezes as pernas ambas do mesmo lado de sorte, que o eixo b, lhe passa por detraz da perna esquerda; muitas vezes tem as pernas abertas, e o eixo lhe passa pelo meio, estando os pés apoiados, e o esquerdo fica na travessa g, da mesa: f, he huma gamella com agua: tendo o obreiro o pé esquerdo sobre a travessa g, apoia o pé direito ligeiramente sobre, a roda e empurrando-a para diante lhe imprime hum movimento circular, que se communica a roda pequena c, sobre a qual está a obra d. Como esta roda naõ vira taõ veloz, quanto a de ferro, o obreiro póde formar a sua obra com mais regularidade, e póde accelerar-lhe o movimento, ou retardarllo conforme lhe parecer, e paralla mesmo quando quer: o que se naõ póde fazer com a roda de ferro.
81 Quando o obreiro tem as pernas ambas do mesmo lado, se tem a direita cançada, póde tocar a roda com o pé esquerdo: algumas vezes para tocar a roda mais ligeira se vale de ambos os pés para a tocar.
82 Ha alguns oleiros Alemães, que tendo o eixo b, entre as pernas, se servem de ambos os pés; mas he preciso entaõ, que o pé direito toque a roda para diante, e com o esquerdo a puxe para si: com o uso se vem a facilitar este movimento dos pés em sentidos contrarios.
83 A roda de ferro he commoda para fazer obras, que naõ requerem muita regularidade. Logo que o oleiro lhe imprime o movimento com o virador, ella vira com muita ligeireza, e seu movimento se enfraquece pouco a pouco, e isto he muito vantajoso; porque, quando se começa huma peça a roda naõ póde virar muito ligeira, mas para a acabar, carece mesmo de virar devagar: algumas vezes perde ella o seu movimento antes da peça, estar acabada, e entaõ precisa o oleiro com o virador tornar-lhe a dar novo movimento.
84 Como com a roda de páo está o oleiro senhor de augmentar, ou diminuir o seu movimento, e ainda de interromper, fica esta mais commoda para obras finas, e que requerem mais exacçaõ; e ao presente os oleiros de París já naõ fazem uso da roda de ferro.