Tu vergas decadente:
Oh! não, de tanto sol que te circumda
Teu sol inda é fulgente.
Tu és joven ainda: a cada passo
Tu assistes d'um mundo ás agonias,
E rolas entretanto n'esse espaço
Coberta de perfumes e harmonias.
Mas ai! tu findarás! além scintilla
Hoje um astro brilhante;
Ámanhã eil-o treme, eil-o vacilla,
E fenece arquejante:
Que foi? quem o apagou? foi seu alento
Que extinguiu essa luz já fatigada;
Foram seculos mil, foi um momento
Que a eternidade fez volver ao nada.
Um dia, quem o sabe? um dia, ao pêso
Dos annos e ruinas,
Tu cahirás n'esse vulcão accêso
Que teu sol denominas;
E teus irmãos tambem, esses planetas
Que a mesma vida, a mesma luz inflamma,
Attrahidos emfim, quaes borboletas,
Cahirão como tu na mesma chamma.
Então, ó sol, então n'esse aureo throno
Que farás tu ainda,
Monarcha solitario, e em abandono,
Com tua gloria finda?
Tu findarás tambem, a fria morte
Alcançará teu carro chammejante:
Ella te segue, e prophetiza a sorte
N'essas manchas que toldam teu semblante.
Que são ellas? talvez os restos frios
D'algum antigo mundo,
Que inda referve em borbotões sombrios
No teu seio profundo.
Talvez, envôlta pouco a pouco a frente
Nas cinzas sepulchraes de cada filho,
Debaixo d'elles todos de repente
Apagarás teu vacillante brilho.
E as sombras poisarão no vasto imperio
Que teu facho alumia;
Mas que vale de menos um psalterio
Dos orbes na harmonia?
Outro sol como tu, outras espheras
Virão no espaço descantar seu hymno,
Renovando nos sitios onde imperas
Do sol dos soes o resplendor divino.
Gloria a seu nome! um dia meditando
Outro céo mais perfeito,
O céo d'agora a seu altivo mando
Talvez caia desfeito.
Então, mundos, estrellas, soes brilhantes,
Qual bando d'aguias na amplidão disperso,
Chocando-se em destroços fumegantes,
Desabarão no fundo do universo.
Então a vida, refluindo ao seio
Do fóco soberano,
Parará concentrando-se no meio
D'esse infinito oceano;
E, acabado por fim quanto fulgura,
Apenas restarão na immensidade--
O silencio aguardando a voz futura,
O throno de Jehovah, e a eternidade!
TRISTEZA
Extingue-se o anno, são findos os dias
Que os valles encheram de próvida luz;
O inverno c'roado de nevoas sombrias,
Seus pallidos gêlos á terra conduz.
O rio em torrentes inunda as campinas,
As veigas perderam seu floreo matiz,
Pesada tristeza reveste as collinas,
E as selvas que ha pouco sorriram gentis.
Em tudo a meus olhos avulta uma imagem
De triste abandono, de mystica dôr:
Apraz-me este luto que veste a paizagem,
Apraz-me esta scena d'extincto verdor.
Como estas campinas outr'ora florentes,
Meus dias formosos floriram tambem;
Como ellas agora, meus dias cadentes,
Despidos de encantos, já viço não tem.
Quão rico de gôsos o tempo corria!
Quão triste o presente, quão pobre ficou!
Só resta a saudade, qual vaga harmonia
Que uma harpa nocturna de longe soltou.
Mas essa que vale perdida a esperança?
Que vale um passado que já não é meu?
Á flôr desbotada que importa a lembrança
Da aurora suave que aroma lhe deu?
Um dia outra quadra mais bella e mais pura
Virá de boninas ornar os vergeis;
Mas vós, ó meus tempos d'amor e ventura,
Sois findos p'ra sempre, jámais voltareis.
Sondando o futuro, minha alma conhece
Que os ermos do mundo já rosas não tem:
Já tudo succumbe, já tudo fenece,
O sol da ventura, e a esp'rança tambem.
Té mesmo em meu peito vacilla agitada
A chamma da vida perdendo o calor;
Meus dias declinam qual luz desmaiada
Que doira as montanhas com tibio fulgor.
Se tudo, ah! se tudo findou no passado,
Se as trevas se estendem nos céos do porvir,
Que esperas, minha alma? do livro do fado
São negras as folhas: só resta partir.
Ao longe, quem sabe? sulcando as alturas,
Jardins mais formosos verás na amplidão,
De flôres eternas, d'eternas verduras
Que os gêlos da terra jámais seccarão.
Temendo os rigores do outomno visinho,
As aves adejam buscando outros céos:
Tu és, ó minh'alma, qual ave sem ninho,--
Procura outros climas, rasgando os teus véos!
A MÃE E A FILHA
--Filha, filha, que linda alvorada!
Anda vêr este sol a nascer:
Ha tres dias que gemes deitada,
Mas já hoje sorris de prazer.
--Oh! que sonhos d'encantos divinos!
Tudo em roda luzia em fulgor,
E mil anjos cantavam seus hymnos
Em jardins d'açucenas em flôr.
Era longe dos olhos humanos,
N'uma terra mui longe d'aqui...
Oh! que mundo tão livre d'enganos!
Oh! que vida que n'elle vivi!
*
--Olha o sol que tão bello se esconde
Nas montanhas sombrias d'além...
Tão calada, tão triste! responde,
Que tens tu, minha filha, meu bem?
Vou na patria d'eternos amores,
Vou ao longe ditosa viver,
Mas, no seio de mundos melhores,
Ai! não te hei de a meu lado já vêr!
Eis um anjo que desce os espaços...
Que harmonias! que brilho sem fim!
Mãe, oh mãe, dá-me ainda os teus braços...
Já não soffro, não chores por mim.
O MOSTEIRO DA BATALHA
Pulsemos a lyra, que além se levanta
Padrão de victoria que immenso reluz!
Um templo e altares á Mãe sacrosancta;
Um templo, um poema que altivo descanta
Grandezas da patria nos atrios da cruz.
Grandezas da patria quem traz á memoria
Que o peito não sinta d'orgulho bater?
Pulsemos a lyra! do livro da historia
Volvamos as folhas, que a musa da gloria
Em nuvens ethereas sentimos descer!
*
Eis já d'Aljubarrota nas campinas
Se encontraram as hostes contendoras.
D'aqui tremulam portuguezas quinas:
D'além as castelhanas invasoras.
D'aqui é João primeiro, cuja lança
A corôa defende e a patria cara:
D'além o estranho rei, pedindo a herança
Da princeza Beatriz que desposára.
Refulge o sol nas armas, os cavallos
Rincham fogosos escarvando a terra;
D'um lado e d'outro os chefes a intervallos
Correm as alas animando á guerra.
Pouco avultam as hostes portuguezas:
Tremendo é de Castella o poderío;
Mas quem á patria negará proezas
D'alto valor, e generoso brio!
A vespera é do dia consagrado
Á Assumpção gloriosa de Maria;
Os olhos levantando, o rei soldado:
«Senhora, exclama, nosso esforço guia!
«Se vencermos, um templo magestoso
«Te erguerei sobre o campo da batalha!»
Diz, e esporeando seu corcel fogoso
Brios em todos com a voz espalha.
Soam trombetas; o signal é dado;
Fluctuam soltos os pendões na frente:
--Sam Tiago!--brada o castelhano ousado;
--Sam Jorge e ávante!--a portugueza gente.
Rédeas soltando os esquadrões galopam,
E dão em cheio com furor insano,
Como torrentes que no val se topam,
Ou como as ondas no revolto oceano.
Retine o ferro, a multidão se agita;
As hachas d'armas, os broqueis lampejam;
Piões, ginetes, com medonha grita,
N'um mar de sangue em turbilhão pelejam.
O sol já desce a mergulhar no oceano,
E inda referve a encarniçada lida;
Eis redobra d'esforço o lusitano,
E o estrangeiro leva de vencida.
Foge o rei castelhano espavorido;
Fogem os seus em debandada solta;
Persegue-os João primeiro, e destemido
A gosar do triumpho ao campo volta.
Já se erigem trophéos, já resplandece
O céo da patria c'o fulgor da gloria;
Faltava o monumento que dissesse:
--Foi aqui! eis o campo da victoria!
*
E eil-o ahi que se levanta
Com magestosa grandeza,
D'aquella gentil proeza
Sublime recordação;
Eil-o ahi aos céos erguido,
Como um colosso gigante
Apontando ao caminhante
O sitio da grande acção.
Altos porticos, lavores
D'ostentosa architectura,
Corucheus d'immensa altura
Roçando a fronte nos céos;
Dentro, a nobre magestade
Do sanctuario profundo,
Onde, extincta a voz do mundo,
Só lembra o passado, e Deus.
Sobre os gothicos pilares
Brilham tremulos fulgores,
Que das vidraças de côres
Entorna a mystica luz.
Tudo cala, mas, se o orgão
Por entre as naves resôa,
Tudo se anima, e apregôa
O sancto Verbo da cruz.
Então a mente se enleva
Nas torrentes de harmonia
Que da abobada vasia
Retumbam pela amplidão;
E, abrazada nos fulgores
Dos vivos, sagrados lumes,
Sobre as azas dos perfumes
Revôa á etherea mansão.
Se tudo cahe em silencio,
Cahe em si mesma, e medita,
Recordando a data escripta
N'esses gothicos umbraes.
Pensa então nos heroismos,
E crenças da meia idade,
Combatendo a escuridade
D'aquelles tempos feudaes.
Pensa nos vultos heroicos
Dos antigos cavalleiros,
E em nossos feitos guerreiros
Pela patria e pela cruz;
Pensa na grande victoria
Que nos fez independentes,
E que aos olhos dos presentes
N'esse moimento reluz;
Pensa n'um povo pequeno,
Mas esforçado e guerreiro,
Triumphando do estrangeiro
Á voz do rei popular;
Pensa no Mestre valente;
E sua sombra gigante
Parece ás vezes distante
Entre as columnas vagar.
E pensa tambem no artista,
N'esse architecto inspirado
Que um poema sublimado
Alli traçou a cinzel;
Que cego da luz dos olhos
Accendeu a luz do engenho,
E consummou seu empenho,
Ao grande assumpto fiel.
E Affonso Domingues surge
N'esse padrão sobranceiro
Ao lado de João primeiro,
Seu immortal fundador;
Reis ambos: um pelo berço
Que lhe deu sua nobreza;
Outro, rei pela grandeza
Do seu genio creador.
Lá dormem! um rodeado
Dos brazões da sua gloria,
Como depois da victoria,
Sob a tenda a descançar;
Outro á sombra d'esses tectos
Em campa singela e nua,
Como querendo a obra sua
D'além da tumba guardar.
*
E lá dormem tambem outros que a morte
Juntou á sombra do logar sagrado,
D'infantes e de reis alta cohorte,
Servindo de cortejo ao rei soldado.
Reunidos emfim no chão funereo,
Fernando, Pedro, e Henrique, os tres infantes;
Henrique, o sabio audaz que outro hemispherio
Primeiro abriu aos lusos navegantes.
Duarte e João segundo descançando
D'altas victorias na mansão tranquilla;
Affonso quinto c'os laureis sonhando
D'Alcacer, Tanger, e da forte Arzilla.
E no sôpro do vento que perpassa,
E lhes roça nas frias sepulturas,
Parecem murmurar em voz escassa,
E agitar suas ferreas armaduras.
E lá quando o luar pelas janellas
Lhes escôa nas lapidas marmoreas,
Talvez erguidos se recostam n'ellas
A fallar entre si de nossas glorias.
Dormi em paz, ó chefes do passado,
Heroico fundador, prole valente;
Dormi em paz no tumulo calado
Recordando os laureis da vossa gente.
Enchei em roda os penetraes divinos
De vossos gloriosos esplendores;
E se tendes poder sobre os destinos,
Defendei-os do tempo e seus furores.
Que as gerações passando reverentes
Possam, volvendo as paginas da historia,
Largas eras saudar, curvando as frentes,
Esse padrão d'immoredoura gloria!
DESALENTO
Cançado, ai! já cançado quando a vida
Em flôr nascente desabrocha ao mundo!
Quando a esperança, d'illusões vestida,
Sorri a todos n'um porvir jucundo!
Alma que gemes em lethal quebranto,
Desprende as azas nos vergeis celestes!
Amor, gloria, prazer, dae-me inda o encanto
Que nos dias passados já me déstes!
Mas que é o amor da terra? luz divina
Que mal desce do céo logo se apaga;
Candida rosa que o tufão inclina,
Que o tempo e a morte desfolhando esmaga.
Doces imagens que em ditoso enleio
Cerquei outr'ora d'illusão infinda,
O que é feito de vós? ai! n'este seio
Viveis apenas, se viveis ainda.
E tu, que és tu, ó gloria? um som que passa,
E de seculo em seculo retumba,
Mas que a frigida lousa não traspassa
De quem já dorme na calada tumba.
Astro que brilha e queima, espectro ovante
Que a desgraça acompanha, e o genio illude:
Vós o sabeis, Camões, e Tasso, e Dante,
Vós que gemeis ainda no ataúde.
Que é o gôso, o prazer? fumo d'incenso
Que embriaga um momento, e se evapora;
Que é o saber, a sciencia? espaço immenso
Em que a verdade mal reluz na aurora.
Que é este mundo que eu sonhei tão bello?
Profundo abysmo de tormenta escura;
Que é pois a vida? um fadigoso anhelo
Que levamos do berço á sepultura.
A morte! oh! se além d'ella o porto amigo
Nos surgisse a final ledo e formoso!
Se n'esses mundos da esperança abrigo
Despontasse outro sol mais bonançoso!
Mas quem sabe da morte? o ouvido attento
No silencio das campas nada escuta;
E Socrates não diz se um novo alento
Achou, bebendo a gelida cicuta.
Senhor, Senhor, porque vim eu ao mundo,
E qual é sobre a terra o meu destino,
De mim que homem geraste, e que no fundo
D'este valle d'angustia érro sem tino?
Infeliz de quem nasce! a ave que gyra,
A fera, o tronco, o verme que rasteja
Tambem nasceu, mas esse a nada aspira,
Ou se aspirou alcança o que deseja.
E o homem nasce, pensa, e aspira ancioso
Ás illusões que a mente lhe depara,
E a cada passo lhe esmorece o gôso,
E acha só trevas onde luz sonhára.
E caminha, e caminha, e sem alento
Cahe abysmado no seu terreo leito,
Onde apóz a fadiga e o soffrimento
A lousa sepulchral lhe esmaga o peito.
Aqui, de dôr um pélago profundo;
Além, os vermes da feral jazida;
Senhor, Senhor, porque vim eu ao mundo?
Porque do nada me chamaste á vida?
CONSOLAÇÃO
Quando nas trevas de minha alma afflicta
A procella da dôr mais se encapella,
E o desalento, a dúvida, e a descrença
Co'as negras azas me escurece o dia,
A ti, ó Deus, a ti com mais esforço,
Através do infinito onde te escondes
Busco elevar-me, demandando auxilio;
E tu, Senhor, descendo a quem te chama,
Fulguras entre as sombras, e a tormenta
Que dentro d'alma rebramia fera,
Vae pouco e pouco serenando as iras.
*
Bem hajas! quem te procura
Jámais te procura em vão:
Tu desces, e a noite escura
Se volve em doce clarão;
Tu desces, e a luz da esp'rança,
Como estrella de bonança,
Brilha no mar da afflicção.
A vida é triste: no mundo
Soffremos até morrer;
Mas, Senhor, quem sonda a fundo
Mysterios do teu poder?
A vida é triste, mas breve;
E o futuro que se eleve,
Eterno, immenso ha de ser.
Mundos e mundos no espaço
Vão rolando á tua voz,
Prêsos em mystico laço
N'esses jardins sobre nós;
E tudo canta á porfia
Aquella grande harmonia
Que ensinam teus anjos sós.
Tudo folga: só na terra
Ha de o homem padecer?
Acaso tão pouco encerra
Seu fado? não póde ser.
Se o homem foi obra tua,
N'este mar em que fluctua
Ha de um porto emfim haver.
Bem hajas! a dôr e o pranto
Vem de ti, do teu amor;
São crysol augusto e sancto
Que nos apura em fulgor;
São a chamma, o fogo intenso
Que nos ergue como incenso,
E a teus pés nos vae depôr.
Tu sabes porque sombria
Vaga a noite na amplidão,
Porque a terra se anuvia,
E ruge irado o tufão:
É que o dia segue a noite,
E das procellas no açoite
Se esconde a florea estação.
Bem hajas, Senhor, bem hajas!
O teu poder nos conduz;
Se de luto um dia trajas,
Outro dia além reluz.
N'este gyro sempiterno,
Vem o estio apóz o inverno,
E apóz as sombras a luz.
Bem hajas! feliz no mundo
Quem tua face entrevê,
E d'este abysmo profundo
Se ergue nas azas da fé!
Feliz quem sorrindo ás vagas,
De olhos fitos sobre as plagas,
Espera, confia, e crê!
O BUSSACO
Oh! salve irmão do Libano,
Que altivo ergues a fronte,
Monarcha d'estas serras,
Senhor da solidão!
Salve, gigante cupula,
Que ostentas no horisonte,
Erguida sobre as terras,
A cruz da redempção!
Em teus agrestes pincaros
O homem vive e sente
Mais longe d'este mundo,
Mais proximo dos céos:
Por isso, nos seus extasis,
O monge penitente
Aqui meditabundo
Se erguia aos pés de Deus.
Por largo tempo o cantico
Do pobre cenobita
Soou na ermida rude
Da tua solidão:
Hoje o silencio lugubre
Sómente n'ella habita,
Silencio d'ataúde
Em funebre mansão.
Porém se os coros mysticos
Findaram sua reza,
Se a voz do sancto hosanna
Em ti já feneceu;
Tu vives, e inda incolume
Ao Deus da natureza,
Calada a voz humana,
Descantas o hymno teu.
Oh! como és bello erguendo-te
Á luz do novo dia,
Que os mantos de verdura
Te banha de fulgor!
Quando o gemer dos zephyros,
Das aves a harmonia,
Acordam na espessura
Louvando o Creador!
Mas quanto mais esplendido
Serás quando a tormenta,
Sublime, rugidora,
Eu teu regaço cahe!
Quando de mil relampagos
Teu cume se apresenta
C'roado, como outr'ora
O fulgido Sinai!
Quando os tufões indomitos,
Rugindo nas escarpas,
Se abraçam ás torrentes
Com horrido fragor!
Depois, em negro vortice,
Desferem nas mil harpas
De teus cedros ingentes
Um cantico ao Senhor!
Tu és grandioso; o animo
Que a sós aqui medita
Recolhe altas imagens
De sancta inspiração.
Oh! porque veio turbida
A guerra atroz, maldita,
Soltar n'estas paragens
As vozes do canhão?
D'um lado eram as bellicas
Hostes de Bonaparte;
Do outro heroico e ufano
O povo portuguez:
A liberdade e a patria
Ergueu seu estandarte,
E a historia do tyranno
Contou mais um revez.
Tudo passou: sumiram-se
Vencidos, vencedores;
Té mesmo do gigante
Soou a hora fatal:
Só tu, sorrindo impavido
Do tempo e seus furores,
Inda ergues arrogante
Teu vulto colossal.
E cada vez que fulgido
Renasce o novo dia,
De nova luz te banhas,
Despindo os negros véos;
E dizes, em teu jubilo,
Ao sol que te alumia:
--O rei d'estas montanhas
Saúda o rei dos céos.
Depois, ao vêl-o pallido
Nas vagas do horisonte,
Pareces ao mar vasto
Dizer com altivez:
--Em teu regaço, ó pelago,
Tu lhe sumiste a fronte:
Avança, que de rasto
Virás beijar-me os pés!
A FONTE DOS AMORES
Eis os sitios formosos onde a triste
Nos dias d'illusão viveu ditosa;
Eis a fonte serena, e os altos cedros
Que os segredos d'amor inda lhe guardam.
Oh! quantas vezes, solitaria fonte,
Apóz longo vagar por esses campos
Do placido Mondego, n'estas margens
A namorada Ignez veio assentar-se,
E ausente de seu bem carpir saudosa,
Aos montes e ás hervinhas ensinando
O nome que no peito escripto tinha!
E quantas, quantas vezes no silencio
D'esta grata soidão viste os amantes,
Esquecidos do mundo e a sós felizes,
Nos extasis da terra os céos gosando!
Pobre infeliz Ignez! breves passaram
Os teus dias d'amor e de ventura.
Ao regio moço o coração rendêras,
E o que em todos é lei, em ti foi crime.
Eis do barbaro pae, do rei severo,
Se arma a dextra feroz, eil-o que aos sitios
Onde habitava amor conduz a morte.
Distante de teu bem, ao desamparo,
Ai! não podéste conjurar-lhe as iras.
Debalde aos pés d'Affonso lacrimosa
Pediste compaixão; debalde em ancias
Abraçando os filhinhos innocentes,
Os filhos de seu filho, a natureza
Invocaste e a piedade: a voz dos impios,
Dos vis algozes, te abafou as queixas,
E o cego rei te abandonou aos monstros.
Eil-os a ti correndo, eil-os que surdos
Aos ais, aos rogos que tremendo soltas,
No palpitante seio crystallino,
Que tanto amou, oh barbaros! os ferros,
Os duros ferros com furor embebem.
Prostrada, agonisante, os doces filhos
Por derradeira vez unes ao peito,
E de teu Pedro murmurando o nome,
Aos innocentes abraçada expiras.
Inda, infeliz Ignez, inda saudosos
Estes sitios que amavas te pranteiam.
As aves do arvoredo, os echos, brizas,
Parecem murmurar a infanda historia;
Teu sangue tinge as pedras, e esta fonte,
A fonte dos amores, dos teus amores,
Como que em som queixoso inda repete
Ás margens, e aos rochedos commovidos,
Teu derradeiro, moribundo alento.
A UM THEATRO ACADEMICO
Abrindo sepulchros, rasgando mysterios,
Quem mortos gelados levanta de pé?
Quem varre co'as azas as cinzas d'imperios,
E os vultos heroicos anima, quem é?
Quem tira do nada uma fórma divina?
Quem finge uma imagem de negro terror?
Quem ergue virtudes, e o crime fulmina?
Quem risos excita, quem prantos de dôr?
--O genio do drama e o genio da scena!--
São elles que traçam, em véo d'illusões,
D'amor, de ciume, de riso, e de pena
O jogo travado, fallando ás paixões.
São elles unidos que em chamma inquieta
Sentiu Gil Vicente na fronte escaldar?
São elles que o bardo da terna Julieta,
E a fronte de Talma vieram c'roar.
São elles, mancebos, que em nuvens de flôres
A senda apontaram que afoitos seguis,
De palmas e c'rôas, de magos fulgores,
Mas senda d'espinhos; c'o genio condiz.
Em nobre fadiga, que os ocios despreza,
D'acerbos estudos assim descançaes!
Foi bello o designio, difficil a empreza:
Quem logra nas artes repouso jámais?
Que importa? na lucta se provam alentos,
Sómente na lucta se colhem laureis;
Aos peitos ardentes, de gloria sedentos,
Reluz a bonança por entre os parceis.
Ávante! e que o genio das artes potente
O fogo das artes vos possa trazer!
Que em scenas de prantos o pranto rebente,
Que em scenas alegres se gose o prazer!
As artes e as letras nasceram amigas:
Ás aras das duas incensos levae,
E aos louros colhidos em sabias fadigas,
Os louros do palco viçosos juntae!
N'UM ALBUM
Do soffrimento o archanjo lamentoso
Sobre a face do mundo estende o braço:
Um diadema offertava, e pavoroso:
«Para o que mais soffreu!» gritou no espaço.
Eis logo immensa turba se atropella,
Todos querem ganhar a prenda infausta;
Mas nenhum dos que chegam por obtêl-a
Mostrava a taça da amargura exhausta.
«Afastae-vos!» lhes brada o genio esquivo,
«Nenhum tocou do soffrimento a meta:
«Tu, só tu mereceste o premio altivo;
«Ergue a fronte, corôa-te, poeta!»
VISÃO DO RESGATE
AO MEU AMIGO ALEXANDRE BRAGA
E eu achei-me assentado solitario
Junto d'um grande mar triste e sombrio,
Cujas ondas d'aspecto funerario,
Se agitavam, qual trémulo sudario
Sobre um cadaver macilento e frio.
E eu era triste! sepulchraes gemidos
Me vinham d'essas ondas tormentosas;
Seu fragor penetrava em meus ouvidos,
Como o arfar de mil peitos opprimidos
Em duros transes d'afflicções penosas.
E por cima na abobada do mundo
Um véo de nuvens se estendia baço;
Rebramava o trovão rouco e profundo,
E o mar lhe respondia gemebundo,
E a tristeza reinava em todo o espaço.
E um suor frio me escorreu na fronte,
Como o orvalho na cruz d'um cemiterio;
E de meus prantos desatou-se a fonte,
E eu pedi ao Senhor que do horisonte
Me tirasse esta nuvem de mysterio.
E o Senhor deu ouvidos a meu rogo,
Pois vi descer a mim do firmamento
Um facho ardente de celeste fogo,
Que as trevas de meus olhos varreu logo,
Qual varre as nuvens um tufão violento.
E eu vi tudo! esse mar de ondas sombrias
Era um mar de nações que se agitava;
E eu conheci que em leito d'agonias,
Chorando em vão seus miserandos dias,
Aquella multidão gemia escrava.
Alli o fraco de pavor transido
Arrastava grilhões aos pés do forte;
O perverso ostentava o rosto erguido,
E o justo era qual pombo foragido
Que nas garras do açor encontra a morte.
O mendigo nos atrios do opulento
Pedia amparo, e maldições colhia;
O filho do trabalho, sem alento,
Comprava o escasso pão ao avarento
A troco dos andrajos que despia.
E entre as garras da fome devorante
O mancebo luctava enfraquecido,
O velho desmaiava agonisante,
E a mãe sem forças apertava o infante
Ao peito como a urze resequido.
E um espectro medonho e ensanguentado
Por entre aquelles povos divagava,
Brandindo um ferro com medonho brado;
E o chão que elle pisava era abysmado
Como em torrentes d'incendida lava.
É que esses povos, como iradas feras,
Ao seu brado feroz se levantavam;
E a matança era tanta, que disseras
Vêr um circo de hyenas e pantheras
Que entre as garras crueis se espedaçavam.
E no meio de tudo em alto monte
Se erguia um throno de rubins accesos,
No qual um anjo, coroada a fronte,
Dominava soberbo esse horisonte
De povos algemados e indefesos.
E no semblante d'esse archanjo ardente
O dedo do Senhor estava escripto;
E eu pude lêr-lhe na sombria frente,
Gravadas em caracter refulgente,
As sinistras palavras:--sê maldito!
E outro archanjo de negras armaduras
De joelhos aos pés se lhe inclinava;
E, infausto mensageiro d'amarguras,
Na sinistra empunhava algemas duras,
Na dextra ferrea urna sustentava.
E offertando-lhe a urna com respeito,
Lhe dizia com voz assustadora:
«Anjo do mal que o homem tens sujeito,
«N'este vaso de dôr recebe o preito
«Das lagrimas crueis que o mundo chora.
«Eis o penhor fiel que a tyrannia
«Por mim, seu anjo, te conduz ás plantas.
«Os humanos resistem noite e dia,
«Mas o laço do amor não concilia
«As suas turbas, que feroz supplantas.
«Mal haja o Christo que o amor ensina!
«Seu vil reinado succumbiu na terra.
«Triumpha, anjo do mal, reina e domina,
«E mil flagellos ás nações fulmina,
«De crimes, divisões, de luto e guerra!»
E o archanjo brandindo o sceptro ardente
Sorria com feroz perversidade:
E ao longe murmurava um som fremente,
Como o rugido d'um volcão latente,
Ou a voz de longinqua tempestade.
E eu cedi ao vaivem de minhas mágoas,
Como ao sôpro do vento a fragil hera,
Té que uma voz, como a das grandes agoas,
De minhas penas abrandando as frágoas,
Me bradou aos ouvidos:--crê e espera!
*
E subito uma aurora
Serena, refulgente,
Das trevas do oriente
Desfez os negros véos;
Lavrou, como um incendio,
Nas sombras horrorosas,
E alfim cobriu de rosas
A cupula dos céos.
E um astro despontando
Na franja do horisonte,
Alçou a meiga fronte
Coberta d'aurea luz:
Sobre elle campeando
Cercada d'alta gloria,
Promessa de victoria,
Brilhava a eterna cruz.
E logo ardente nuvem,
Relampagos soltando,
Baixou do céo voando
No carro dos trovões;
Bem como de trombeta
Soltava estranho accento,
E prestes como o vento
Rolou sobre as nações.
E n'ella a gloria immensa
Do Deus que o mundo adora
Brilhava como outr'ora
No tôpo do Sinai;
E o grito da trombeta
Dizia em som de guerra:
--Surgi, povos da terra,
N'um só vos ajuntae!--
E o throno do mau anjo
Tremeu nos fundamentos,
E eu vi passar nos ventos
O espirito de Deus;
Seu brado erguia os povos,
Bem como a tempestade
Do mar na immensidade
Levanta os escarcéos.
*
E as turbas procellosas remoinharam,
Como as areias que o tufão agita;
E alçando todas pavorosa grita,
Com laços fraternaes se colligaram.
E emquanto erguiam seus pendões de guerra,
Eis que as azas batendo nas alturas,
Cingidos de brilhantes armaduras,
Dous archanjos pairaram sobre a terra.
Cobriam-lhes as fórmas delicadas
Escudos e couraças diamantinas,
Aureos elmos as frontes peregrinas,
Nas dextras empunhando igneas espadas.
E eu vi-os, como soes relampejantes,
Adejarem velozes sobre a terra,
Brandindo irados, em signal de guerra,
As terriveis espadas flammejantes.
Té que chegando o instante do resgate,
Fitando os povos que os olhavam mudos,
Bateram co'as espadas nos escudos,
Bradando ás multidões:--eia ao combate!
*
E os povos ao brado,
Qual mar agitado
Fervendo em cachões,
Erguiam-se fortes
Em densas cohortes,
Em mil turbilhões;
E á guerra corriam,
E feros bramiam
Quaes feros leões.
Corriam, chegaram,
E o throno cercaram
Do anjo do mal;
Mas elle!--maldito!--
Das luctas o grito
Soltára fatal;
Na mão, qual espectro,
Luzia-lhe um sceptro
De lume infernal.
Com furia sombria,
Da vil tyrannia
Ao anjo acenou,
E o prompto ministro
Seu mando sinistro
Fiel acceitou;
E eis rapido logo
As armas de fogo
Medonhas tomou.
E enormes serpentes
Vermelhas, ardentes,
Soltou pelo chão;
Das ferreas escamas
Sahiam-lhes chammas
De torvo clarão;
Cada uma nos povos
Saltava em corcovos
D'horrenda visão.
Os povos, que as viam,
Debalde investiam
Seus gyros mortaes:
Crueis lavaredas
Abriam veredas
Ás serpes fataes;
E a turba d'exangue
Cahia do sangue
Nos rios caudaes.
Mas n'isto ligeiros
Os anjos guerreiros,
No ar inda então,
Baixaram luzentes,
Quaes astros cadentes,
Á terrea mansão;
E aos anjos malvados
Correram irados
Com voz de trovão.
E todos, alçadas
As igneas espadas
Brandiram a par;
Cada uma semelha
Luzente centelha
Cruzando no ar;
Semelha no embate
A onda que bate
Na rocha do mar.
Seus olhos vibravam,
Seus gritos soavam
Em echos d'horror;
As turbas rugiam,
As armas tiniam
Com novo rancor;
O carro da guerra
Rolava na terra
Com torvo fragor.
Até que um rebombo
Soou, como tombo
Ruidoso e fatal
De penha que d'alto
Desaba, e d'um salto
Retumba no val:
Era alto ruido
Do throno abatido
Do genio do mal.
E logo infinitos
Ouvi ledos gritos,
E ouvi maldições;
E soltos aos ventos
Vi centos e centos
D'ovantes pendões;
Vi feitos pedaços
Algemas, e laços,
E ferreos grilhões.
Vi thronos cahidos,
Vi sceptros partidos
Rolarem no pó;
Vi aureos emblemas,
Vi mil diademas
Calcados sem dó;
Vi povos diversos,
Outr'ora dispersos,
Unidos n'um só.
*
Vi a terra já livre d'anciedade
Rasgar altiva seu funereo manto;
Vi os homens á voz da liberdade
Surgirem fortes do lethal quebranto.