Eis surge a quadra flórida,
A quadra dos amores,
Vertendo almos fulgores
De seio juvenil.
Tudo revive ao hálito
Que a natureza aquece;
Tudo rejuvenesce
Á luz do ameno abril.


Os bosques odoriferos
Se cobrem de verduras:
Nos montes e planuras
Renasce a tenra flôr;
Dos perfumados zephyros
Ás musicas suaves
Se juntam das mil aves
Os canticos d'amor.


Salvè, estação esplendida,
Ó luz appetecida,
Que á terra dando vida,
A tudo dás prazer!
Minha alma em doces extasis
Festeja a tua vinda,
E se ergue á luz infinda,
Manancial do ser.


D'onde, ó calor benefico,
Derivas teu alento?
E d'onde o movimento
Que dás á creação?
Do fóco sempre vívido
Que anima a natureza
Por toda a redondeza
Da terra, e da amplidão.


Como nos campos fulgidos
Espalha essas estrellas,
Assim as flôres bellas
Nos campos terreaes:
Quão bello, ó Providencia,
É teu poder fecundo,
Enchendo o vasto mundo
D'alentos immortaes!


Debalde o immenso vortice
Retoma quanto gera:
Tudo se regenera
No perennal crisol,
E tudo canta harmonico
O Ser que, das alturas,
Aos gêlos dá verduras,
Ás sombras novo sol.


Cantae, ó aves módulas,
Cantae em côro ledo!
Murmurios do arvoredo,
Cantae a Jehovah!
Campinas aromaticas,
Erguei-lhe os mil perfumes
Das flôres em cardumes
Que a primavera dá!


Abriu-se o tabernaculo
Da terra florescente;
Todo sorri fulgente,
Todo respira amor:
Resoem n'elle os canticos
De mystica harmonia,
Dizendo noite e dia:
--Hosanna ao Creador!




CATÃO



Como em tarde anuviada,
Em tarde de negros véos,
Para a terra contristada
Sorri o iris nos céos;
Mas quando o sol esmorece,
O iris desapparece,
Tudo é negra escuridão;
O mar ruge e se encapella,
E nas azas da procella
Corre bramindo o trovão:


Tal ao sol da liberdade
Que sobre Roma luziu,
Qual iris em tempestade,
Catão á patria sorriu.
Mas esse astro que fulgente
Das aguias brilhára á frente,
Do Capitolio baixou;
E elle, o iris de bonança,
Elle, de Roma a esperança,
Com seu fulgor expirou.


Contra as iras da tormenta,
Ó forte, luctaste em vão:
Que póde a virtude isenta
Contra a geral corrupção?
Já não luziam virtudes
Como nos seculos rudes
D'essa Roma consular;
O templo da tyrannia
A seus ministros abria
As portas de par em par.


Inda infante, viste Mario
De Roma o sangue beber;
E envolvida n'um sudario
A pobre Italia gemer.
Viste Sylla, o monstro infando,
Entre as cabeças folgando,
Qual tigre no seu festim;
E, infante, bradaste ufano:
--Dae-me um ferro, e do tyranno
Livremos a patria emfim!--


Não t'o deram: que lucrava
O teu valor juvenil?
D'um tyranno outro brotava,
Nascia a guerra civil.
Enxuto de Roma o pranto,
Eis que envolto em negro manto
Lá surge um conspirador:
Scintilla a morte, a ruina
No punhal de Catilina,
De Catilina, o traidor.


Surge, vibora gerada
Dos vicios no lodaçal!
Sobre Roma descuidada
Lança o veneno fatal!
Eia, empunha o facho ardente!
Entrega a patria innocente
Aos punhaes da tua grei!
E entre o sangue, á luz do incendio,
N'um throno de vilipendio
Vem sentar-te como rei!


Mas treme! lá sôa o brado
De Marco Tullio, orador.
Treme! Catão no senado
Já dos teus vence o furor.
Succumbiste, algoz ferino!
Oh! mas vinga-te o destino
Que Roma jurou perder.
Catão, cobre-te de luto,
Que da Gallia já escuto
A guerra civil descer!


Gerou-a o triumvirato,
Esse monstro d'ambição;
Que as eras de Cincinnato,
Essas eras já lá vão.
D'olhos fitos sobre a Italia
Eis desce o leão de Gallia,
E Arimino já tomou.
É Cezar! eil-o que assoma:
Abre-lhe as portas, ó Roma,
Que ás tuas portas chegou!


Eil-o parte, e já na Hespanha,
Os tres legados venceu!
Só em Dyrrachio lhe ganha
A espada do grão Pompeu.
Os mortos jazem aos centos:
Sobre os seus restos sangrentos
Um homem chora: é Catão.
É elle que alli deplora
Essa guerra assoladora,
Guerra d'irmão contra irmão.


A liberdade expirava:
O coração lh'o prediz.
Roma, a livre, Roma escrava
Ia dobrar a cerviz.
Não se enganou: lá troveja
O fragor d'alta peleja
Em Pharsalia inda uma vez;
Pompeu vacilla e fraqueia;
A liberdade baqueia
De Julio Cezar aos pés.


Eil-a que expira, eil-a morta...
Oh que não! resurge além!
Catão é vivo: que importa
Quanto Cezar ganho tem?
De Pharsalia aos naufragantes
Sobre as areias distantes
Da Lybia surge um fanal:
São d'elle, d'elle as bandeiras
Juntando as rotas fileiras
Para um combate final.


Mas Cezar lá corre ovante,
Vence Juba e Scipião;
Tudo ante elle vacillante
Se prostra emfim: maldição!
Não tarda a hora funesta:
De liberdade só resta
Dentro d'Utica um fulgor.
Inda Catão lá impera:
É lá que o vencido espera
As iras do vencedor.


Que venha, que ao seu aceno
Curvado não ha de vêr
Aquelle rosto sereno,
Que nunca soube tremer.
Caminha, Cezar altivo,
E acharás em teu captivo,
Em vez de preito, o desdem!
Sabes vencer, porém corre,
Vem saber como se morre,
Aprende a morrer tambem!


Catão, Catão, eis chegado
O momento de partir!
Com que rosto socegado
Te vejo á morte sorrir!
Antes do golpe supremo
Tu paras inda no extremo
A meditar com Platão:
Assim a aguia alterosa
D'alta penha cavernosa
Mede sublime a amplidão.


E depois assim como ella,
Das nuvens rompendo o véo,
Adeja sobre a procella,
Deixa a terra, e busca o céo:
Tal co'a dextra sempre ousada
Cravando no seio a espada,
Partiste d'alma os grilhões;
E d'entre os vaivens da sorte
Voaste, calcando a morte,
Ás ethereas regiões.


Cezar vence, e ao Capitolio
Lá sobe triumphador;
Roma cahe do altivo solio,
Rojando aos pés d'um senhor.
Catão, o livre, expirára...
No suspiro que exhalára
A liberdade voou.
Começava o negro imperio
Que um Caligula, um Tiberio,
Um Nero, monstro, gerou.


Elle entanto, sepultado
Nas praias junto do mar,
Lá dormia descançado
Sob a lagea tumular.
Alli a queixosa vaga
Vinha, rolando na plaga,
Beijar do livre a mansão;
E inda fallar com saudade,
Da patria, da liberdade,
Á estatua de Catão.




IMITAÇÃO DO ISLANDEZ



Um dia eu te dizia:--se roubada
Me fôres, vem buscar-me--e tu não crias
Que eu podésse abraçar-te inanimada,
Beijar teus olhos, tuas mãos já frias.


Mas eu não te amaria, se inconstante
Te podésse esquecer na sepultura;
Desbotou-se o frescor de teu semblante,
Mas inda adoro tua imagem pura.


Apagou-se em teus labios o ar da vida,
Mas um sôpro immortal veio animar-te;
E tu inda és formosa, inda és querida
Ao que na terra começou a amar-te.


Não me deixes em misero abandono;
Escuta ao longe, escuta a minha prece:
Quando uma noite a viração do outomno
Gemer em nossas rochas, apparece!


E se a lua brilhar, se de passagem
Me estenderes a mão d'etherea alvura,
Eu surgirei por vêr a tua imagem,
Por ouvir tua voz serena e pura.


Depois, anjo celeste, no meu seio
Repousa a fronte, aperta-me em teus braços;
Deixa que eu te acompanhe sem receio,
D'esta existencia desatando os laços.


Sobre a aurora do polo arrebatados
Vamos, no seio d'immortaes venturas,
Em nuvens d'ouro e purpura embalados,
Cantar, sonhar, dormir n'essas alturas.




Á MORTE

DO MEU AMIGO LICINIO F. C. DE CARVALHO


Morreste, amigo, partiste
D'esta mansão passageira!
Bem depressa da carreira
Tocaste a méta fatal!
Com a folhagem dos bosques
Gelou-te o vento do outomno,
E dormes o longo somno
Do teu leito sepulchral!


Já tua mão extremosa
Não aperta a mão do amigo
Que tantas vezes comtigo
Em sonhos vãos delirou.
No seio da fria terra
Já não me escutas nem fallas,
Contando lutos ou galas
Do teu viver que passou.


Oh! quantas vezes, immersos
N'esses intimos enleios,
Que fazem um de dous seios,
Sentimos horas fugir!
Quantas, sonhando horisontes
De poesia, amor, ou gloria,
N'uma expansão transitoria
Creamos longo porvir!


E morto jazes, ai! morto,
Sem poder de teus anhelos
Realisar os sonhos bellos,
Cruzar a vasta amplidão?!
Morto sem ter dito ao mundo
A palavra augusta e sancta
Que a turba anciosa espanta,
E que é do genio o condão?!


Morto á luz da tua aurora
Sem que á luz da tua sesta
Podésses, na hora funesta,
Sorrir ao passado teu?!
Morto, ai, morto sem ter ganho
Mais lagrimas de saudade,
Tão doces á soledade
D'aquelle que já morreu?!


Deus! se a vida é campo ameno
Onde se vem colher flôres,
Porque, do sol aos fulgores,
Não se hão de as flôres colher?
Se é deserto ingrato e rude,
Onde não brota uma fonte,
Porque ha de em nosso horisonte
A luz do dia nascer?


Mas dorme, descança, amigo,
Que a vida é o deserto ás vezes...
Estrada de mil revezes,
E de voragens fataes...
E que é o poeta? o viajante
Que fere os pés nos abrolhos,
Em quanto levanta os olhos
Ás regiões divinaes.


Ave estrangeira que passa
N'este clima procelloso,
Com seu canto mavioso
Levando as turbas d'apóz;
Mas que chora de saudade
Por sua patria querida,
Té que a final abatida
Cahe sem alento, e sem voz.


Descança! no frio leito
De teu eterno repouso,
Não te irá o sol formoso
Cada manhã despertar;
Mas tambem, da aurora á noite,
Não calcarás os espinhos
Que em teus agrestes caminhos
Verias da flôr a par.


Lá não irão festejar-te
Ruidosos echos do mundo,
Que dizem, no som profundo,
Qual é do genio o poder;
Mas tambem tuas corôas
Não regarás com teu pranto,
Nem a inveja em negro manto
Tua estrella ha de envolver.


Descança! que digo! surge!
Ergue-te á luz, ó poeta,
E revôa aonde inquieta
Te levava a inspiração!
Sonhaste mundos brilhantes,
Sonhaste amor e poesia:
No paiz do eterno dia
Vae colher teu galardão!


Vae! das plagas do desterro
Eis-te a final resgatado:
Procura regenerado
A patria que te sorri!
Lá terás as harmonias
Que soltam milhões d'espheras,
E florentes primaveras
Quaes não terias aqui.


Lá gosa! lá, sacudido
Sobre a terra o terreo manto,
Desprende teu novo canto
De novos soes ao fulgor!
E, se lá póde chegar-te
Esta nota de saudade,
Escuta a voz da amizade
Entre os mil hymnos do amor!




O MENDIGO



Nas torres soberbas da grande cidade
O sol desmaiado não tarda a morrer;
Recrescem as sombras: que importa? a vaidade
No manto das sombras envolve o prazer.


E o velho entretanto lá sóbe a montanha,
Caminha, caminha, no cimo parou:
Em frigidas gottas o rosto lhe banha
Suor copioso, que á terra baixou.


Quiz, antes da morte, nas serras distantes
Fitar inda os olhos cançados da luz;
A aldeia da infancia saudar por instantes,
Depois satisfeito depôr sua cruz.


Olhou, e um suspiro de vaga saudade
Juntou a seus prantos em funda mudez;
Depois, ao volver-se, topando a cidade,
Que em ebrio tumulto folgava a seus pés:


«Mal hajas, cidade, que ao pobre faminto
«O pão da desgraça negaste cruel!
«Mal hajas, mal hajas, que a terra do extincto
«Talvez lhe negáras, á tumba infiel!»


E exhausto, e sem forças, cahiu de joelhos;
E a fronte cançada firmou no bordão:
Passados instantes, os olhos vermelhos
Ao céo levantava, dizendo: perdão!


Cahiam-lhe soltas no collo vergado
As longas madeixas em brancos anneis:
Que nobre semblante de rugas sulcado,
Sulcado dos annos, e mágoas crueis!


«Perdão para as vozes que solta a desgraça!
«Perdão para o triste, perdão, ó meu Deus!
«Bem hajas, que aos labios lhe roubas a taça
«De fel e amarguras, abrindo-lhe os céos.


«Já filhos não tenho, levou-m'os a guerra;
«Esposa não tenho, finou-se de dôr;
«Amigos não vejo na face da terra:
«Que faço eu no mundo? bem hajas, Senhor!


«Ás portas do rico bati sem alento,
«Eu rico n'outr'ora, mendigo por fim:
«O rico sem alma negou-me o sustento,
«Aquelles que amava fugiram de mim.


«Vaguei pelo mundo, nas faces myrrhadas
«Colhendo os insultos que ao pobre se dão;
«Sem pão, sem abrigo, por noites geladas
«Poisei minha fronte nas lageas do chão.


«Que vezes a morte chamei sem alento,
«Cançado dos annos, e fomes, e dôr!
«A morte não veio: soffri meu tormento...
«Só hoje me ouviste: bem hajas, Senhor!


«Os homens e o mundo negaram-me os braços,
«Mas tu me recolhes, tu me abres os teus...
«Minha alma te busca, desprende-a dos laços...
«Perdão para todos, perdão, ó meu Deus!»


E um ai derradeiro soltou d'anciedade,
Cahindo por terra nas urzes do chão;
Ao longe, no seio da grande cidade,
Brilhava das festas nocturno clarão.




A VIDA

A MEU IRMÃO


Que! luctar sempre em afanosa guerra
Contra os rigores d'um feroz destino!
A cada passo lacerar as plantas
N'esta agra senda que nomeiam vida!
Correr apóz um sonho, uma esperança
Que leda nos sorria, e vêl-a ao cabo
Sumir-se, desfazer-se como o fumo!
Ou, se tocamos o vedado pomo,
Arrojal-o de nós, murcho e vasio!
Alcançar por um bem, mil dissabores!
Por uma hora de gôso, mil de prantos!
Soffrer, sempre soffrer, não vir um dia
Em que possamos exclamar: ventura!
E é este o calix de aprazivel nectar
Que ao banquete do mundo nos convida?
É este o eden que nos prende os olhos,
E nos faz recuar ante o sepulchro?


Nascemos: com que pena á luz do dia
Surgimos logo do materno seio!
Filhos da dôr, obedecendo á origem,
Nos vagidos da infancia a annunciamos;
E ainda assim, no deslizar sereno
Dos dias infantis, a vida encanta;
A taça da existencia tem doçura,
Como se o mel lhe coroasse a borda
Para mais facil nos tentar os labios.
O horisonte dos annos se dilata;
Vem a idade do amor. Que bellos sonhos
Em magico painel a vista illudem!
Um ser, que a mente em chammas divinisa,
Nosso oásis feliz anima todo,
Bem como o sol anima a natureza,
Ou a rosa do valle os floreos prados.
Mas quantos podem na manhã da vida
Colher a rosa de seu mago enlevo?
Quantos a estrella que adoraram crentes
Sentem passar, e desfazer-se em breve,
Não luzeiro do céo, porém da terra,
Meteóro fugaz que baixa ao solo,
E se dissipa redobrando a noite!


As illusões do amor se desvanecem:
D'esse mundo feliz o homem baqueia
E devorando a mágoa segue ávante.
Prometheu afanoso, eil-o procura
Dar alma e vida ás creações que inventa,
Ai! já não bellas, mas de impura argilla.
Honras, gloria, poder, bens de fortuna,
Sciencia austera, festivaes prazeres,
A tudo se abalança, aspira a tudo,
E em tudo encontra desenganos sempre.
Ao ponto que fitára jámais chega,
Ou, se o alcança, não lhe dura o gôso.


Ai do que envolto em miserandas faxas,
Embalada sentiu a pobre infancia
C'os gemidos da fome! Esse á ventura
Quasi nem ousa levantar os olhos:
Perpetuo desalento lh'os abate
Á triste condição em que nascêra.
Planta gerada n'um terreno esteril,
Não se ergue altiva, não estende os ramos,
Vive entre espinhos, e entre espinhos morre.
Em vão se cança o triste: raras vezes
A dura terra lhe concede o premio
Do suor e das lagrimas que verte
No seio ingrato d'essa mãe ferina.
Um pão acerbo que amassou com pranto,
É o alimento que reparte aos filhos;
E o marco do caminho a cabeceira
Onde desprende o moribundo alento.
Ai d'elle! mas não menos desditoso
O que em purpuras e ouro vendo o dia,
Ou conduzido pela mão da sorte,
Chegou aos cumes que a fortuna habita;


E, na posse dos bens que o mundo anceia,
Palpou tremendo seu medonho nada.
Este, empunhando o sceptro, empallidece
Sentindo ás plantas vacillar-lhe o solio;
No fastigio da gloria aquelle geme,
Ao vêr o louro que lhe cinge a frente
Pelo bafo da inveja emmurchecido.
Um as honras consegue, e as vê sem preço;
Outro as riquezas, e lamenta os dias
Que mais bellos perdeu em seu alcance.
Qual, a sciencia devassando ousado,
Apóz longas vigilias estremece
Da dúvida ante o espectro; qual ardente
Das festas no rumor despende a vida,
E a taça do prazer lhe deixa o enfado.


Feliz aquelle que em modesta lida,
Isento da ambição e da miseria,
No regaço do amor e da virtude
A vida passa. Mais feliz ainda
Se, das turbas ruidosas afastado,
Á sombra do carvalho, entre os que adora,
Sente a existencia deslizar tranquilla,
Como as aguas serenas do ribeiro
Que as herdades pacificas lhe banha.
Mas, que digo! nem esse. Infindos males,
Communs a todos, seu viver não poupam.
D'um lado a crua guerra lhe sacode
O facho assolador ás brandas messes;


A pallida doença, d'outro lado,
Dos entes que mais ama o vae privando;
E elle mesmo talvez, infausta prêsa
D'essa serpente que nos liga á morte,
Nos eculeos da dôr a vida exhaure.
E, como se estes males não bastaram,
Sua mesma virtude lhe é supplicio.
Compassivo co'a dôr que os outros soffrem,
A dôr alheia o atormenta ainda.
Justo, adora a justiça; e, olhando em torno,
A injustiça e oppressão verá reinando;
Verá a innocencia victima do crime,
A virtude humilhada, o vicio altivo,
Os prantos da miseria escarnecidos,
Por toda a parte o mal, a dôr, e as queixas.
Ai d'elle, ai d'elle, se um momento pára
Na atroz contemplação de tantos males!
Ai d'elle, que turbado e confundido,
Em maldições blasphemará terrivel
Da virtude, de si, de Deus, de tudo!


Não! da vida no pélago agitado
Um abrigo não ha, não ha um porto
Onde possamos descançar tranquillos.
Em nós, dentro em nós mesmos, ruge irada
A tempestade que evitar queremos.
Como a serpente no crystal da lympha,
Na alma serena o soffrimento mora;
Não póde o gôso dos mais bellos dias
Encher o abysmo que no seio temos.
Em vão, em vão anciamos a ventura:
Somos na terra qual viajante exhausto
Que ouve o sussurro d'escondida fonte,
E morre á sêde, sem poder tocal-a.


Vida, tremenda herança d'amarguras,
Eu te hei sondado nos meus proprios males,
E em meus irmãos na dôr, nos homens todos:
Grilhão pesado que nos dá o berço,
E que depômos nos umbraes da tumba.
A lucta, a mágoa, eis os teus dons funestos.
Mas d'onde a causa do soffrer eterno
Que as gerações ás gerações transmittem?
Que um seculo, tombando de cansaço,
Como um pêso importuno lega ao outro?
D'onde o crime feroz que um tal castigo
Sobre nós attrahiu? Se um deus é justo,
Que deus, que lei, sem escutar-nos, pôde
A sentença lavrar? Silencio é tudo!
Em vão, para sabêl-o, em vão mil vezes
Interroguei confuso o céo e a terra:
O céo de bronze não me ouviu a prece,
A terra obscura não me soube o enigma.
Dos prophetas na voz, na voz dos sabios,
A dúvida cruel achei sómente.
Pedindo á morte a solução da vida,
Desci ás tumbas, apalpei as cinzas;
Quiz vêr se um echo da gelada campa
Surgia á minha voz; mas foi debalde.
Frias ossadas, carcomidos restos
De quem soffreu tambem, só me disseram
Que tudo acaba alli. A terra, a terra,
O seio impuro dos famintos vermes:
Eis o refugio, a habitação amiga
Que apóz a lucta nos espera ao cabo!


Morte, morte, bem vinda sejas sempre!
Em nome da existencia eu te saúdo!
Tu reinas pela dôr na especie humana,
E, quem sabe? talvez n'esse universo;
O sol, o mesmo sol envolto em sombras,
Parece reflectir-te as negras azas;
E acaso á tua voz, a cada instante,
Um comêta voraz fulmina um globo.
Porque inda tardas a empunhar o sceptro
Que n'este ao menos te pertence ha muito?
Ao desterrado do eden porque deixas
O resto de poder que inda te usurpa?
Eia, desprende sobre a terra as azas,
Sobre esta creação que abandonada
Talvez por seu author como imperfeita,
Qual nau perdida em tormentosos mares,
Vaga sem rumo n'esse espaço ethereo!


Mas que sinistra voz! Silencio, ó lyra!
Não mais prosigas teu cantar blasphemo!
Fanal de salvamento, luz d'esp'rança
Que na altura do Golgotha brilhaste,
Desce á minha alma que a tristeza inunda!
Desce! de todos resumindo as dôres
O calix d'Elle foi o mais acerbo.
Elle soffreu! Sofframos, e esperemos!
Depois da noite escura vem o dia:
Depois d'este desterro, a eterna patria!




DESENGANO



Vejo-a ainda! resurge a meus olhos
Como em tempos ditosos surgia,
E, qual anjo de casta poesia,
Desce ás vezes n'um sonho d'amor;
Vejo-a ainda nos céos e na terra,
Nos encantos e risos da aurora,
E, se o dia nas ondas descora,
Das estrellas no meigo fulgor.


Era a luz que brilhava em minha alma,
Era o astro que em sombras luzira,
Era o fogo sagrado que a lyra
Ás doçuras d'amor acordou...
Tudo é findo; debalde nas trevas
Busco ainda seu facho luzente:
Foi apenas um astro cadente,
Meteóro fugaz que passou.


Pobre seio que ardente pulsaste
Embalado por falsas venturas,
O fanal que na terra procuras
Sobre a terra jámais acharás.
Não ha seio que entenda no mundo
Esse ardor de teus vagos anhelos;
Não ha luz que em seus raios mais bellos
Não te esconda uma sombra fallaz.


Que te resta? um futuro vasio
D'illusões que nutriu a esperança,
E um passado de triste lembrança
Como é triste a verdade sem véo...
Olvidar! olvidar! que ao presente,
Ai! só cabe o repouso do olvido.
Olvidar! e que em gêlo sumido
Seja o fogo que em chammas ardeu!


Sonho bello que esta alma illudiste,
Chamma ardente nos céos ateada,
Vôa, vôa á celeste morada!
Lá nasceste, do mundo não és.
E tu, lyra de languidas cordas
Que d'amor suspiraste em desleixo,
Vae, oh, vae! em silencio te deixo...
Vae, oh, vae para sempre talvez!




AGAR



De Bersabé nos areaes ardentes
O desmaiado sol ia esconder-se,
E Agar, a expulsa Agar, gemendo afflicta,
Unia ao peito o moribundo filho.
O vaso d'agua que lhe dera o esposo
Esgotára-se em breve, e no deserto
Com seu pobre Ismael não descobrira,
Desde o romper do dia, a anciada fonte.
O dia declinava: eis que o infante,
Que pela mão a acompanhava exhausto,
Ardendo em sêde lhe succumbe ás plantas.
Ella vê-o cahir, ella estremece,
E, os olhos turvos em redor lançando,
Aqui e alli correndo, busca ainda,
Mas debalde, um frescor. Emfim cançada,
Ella mesma tambem, eis volve ao filho,
Prostra-se, abraça-o, com maternos beijos
Tenta anciosa prolongar-lhe a vida.


«Filho, meu filho--murmurava a triste--
«Á sêde vaes morrer! Oh! se o podésse
«Adivinhar teu pae, cruel não fôra;
«E Sara, a propria Sara, enternecida
«Emmudecêra seus fataes ciumes.
«Oh! não gemas, não gemas, que debalde
«Invocas tua mãe. Ella te escuta,
«Mas não póde salvar-te: dentro em pouco
«Em seu regaço exhalarás a vida.
«E hei de eu vêr-te expirar? vêr n'esses olhos
«Sumir-se a luz do dia? e n'essas faces,
«Que tantas vezes me sorriram ledas,
«Vêr as ancias da morte? Oh! não, não posso
«Vêr morrer o meu filho.» Disse, e ao tronco
D'uma arvore visinha o recostava;
Depois, com tristes, vagarosos passos,
Foi n'outros sitios aguardar a morte.
Alli, ao vêr o sol que esmorecia,
Desatou a chorar, e estes queixumes
Em voz convulsa murmurou ainda:


«Sol do deserto, que o meu pobre filho
«Vês expirando na soidão além,
«Com teu suave derradeiro brilho
«Beijar-lhe a face carinhoso vem!
«Oh! vem, que eu triste n'essa face pura
«Materno beijo nunca mais darei.
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meus prantos, sem cessar correi!


«Quando o teu facho resurgir no oriente,
«Tudo na terra sentirá prazer;
«E lá nos campos de Mambré virente
«Mais bella a rosa te verá nascer:
«Só elle em sombras d'uma noite escura
«Adormecido ficará, bem sei.
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meus prantos, sem cessar correi!


«Por mim não choro, que infeliz escrava
«Meus tristes dias findarei aqui:
«Ai! choro aquelle que no mundo amava,
«Choro meu filho que expirando vi.
«Maternos mimos, filial ternura,
«Lembrae-me os tempos que feliz gosei!
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meus prantos, sem cessar correi!


«Oh! quem dissera nos passados dias
«Em que ao meu collo te cerquei d'amor,
«Oh! quem dissera que a morrer virias
«N'este deserto, sem achar frescor?
«Emmurcheceste, já não tens verdura,
«Mimoso arbusto que gentil criei!
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meu prantos, sem cessar correi!


«Tantas esp'ranças, que o Senhor gerára
«Na escrava humilde, findarão assim.
«Foi mais feliz a geração de Sara:
«Cruel destino só me coube a mim.
«Em vão, em vão me prometteu futura
«Longa progenie: sem ninguem fiquei.
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meus prantos, sem cessar correi!


«Quem, ó meu filho, n'este solo ardente,
«Quem no jazigo te virá deitar?
«Dizer-te:--dorme--e, reclinando a frente
«No teu sepulchro, sobre ti chorar?
«Eu não, que em breve n'esta plaga obscura
«Tambem já morta como tu serei.
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meus prantos, sem cessar correi!


«Aves agrestes que me ouvis as queixas,
«Com tristes vozes o seu fim chorae!
«Brizas do ermo, suspirae-lhe endeixas!
«Astros da noite, seu dormir velae!
«Velae-o todos, que a final ventura
«Que vos reservo nem sequer terei.
«Perdi meu filho: sobre a terra dura
«Correi, meus prantos, sem cessar correi!


Mas Deus! que viu ella,
Que um ai desprendeu?
Que pomba tão bella
No manto do céo!
Que pennas de prata,
D'azul, d'escarlata,
O espaço retrata
Sereno, sem véo!


É anjo voando!
Que brilho que tem!
Que véos ondulando
De pura cecem!
Que anneis de cabello
Nos hombros de gêlo,
No collo tão bello
Cahindo ao desdem!


Descendo, descendo,
Já perto chegou;
E a pobre tremendo
Calada ficou;
E o anjo sorria
Com doce magia,
E á terra descia,
Na terra poisou.


E em roda mil lumes
De brilho sem fim
Lançava, e perfumes
De nardo e jasmim;
E a voz argentina,
Suave, divina,
Soltou peregrina,
Fallando-lhe assim:


«O que fazes, Agar, porque choras?
«Nada temas, não tens que temer:
«Se o teu filho perdido deploras,
«Esses prantos converte em prazer.


«Do deserto chegou seu gemido
«Ás alturas que habita o Senhor:
«Surge, surge, e teu filho querido
«Vae ao longe buscar sem temor!


«Surge, surge, recobra a esperança,
«Que as promessas cumpridas serão!
«O teu filho, o Senhor t'o afiança,
«Será pae d'uma grande nação.


«Gloria a Deus que no céo ouve as mágoas
«De quem soffre na terra a carpir!
«Eis um jorro de limpidas aguas:
«Ide n'ellas a sêde extinguir!»


E, assim dizendo, lhe mostrava perto
Uma fonte escondida entre verduras,
Como nunca se vira no deserto,
De tão grato frescor, d'aguas tão puras.


Depois, batendo as esmaltadas pennas,
Deixou na terra um luminoso traço;
E, agitando seu manto d'açucenas,
Sumiu-se ao longe na amplidão do espaço.


Erguendo aos céos a radiosa fronte,
A pobre mãe ao Senhor Deus louvava;
E, enchendo o vaso no crystal da fonte,
Com elle ao filho a salvação levava.




MARIA, A CEIFEIRA

(IMITAÇÃO DE UHLAND)


«Bons dias, Maria: da lida do prado
«Nem mesmo te afastam cuidados d'amor.
«Se ao fim de tres dias m'o deixas ceifado,
«A mão de meu filho te quero propôr.»


Promessa é do rico, soberbo rendeiro:
Maria, oh! quão ledo seu peito bateu!
Seus olhos brilharam, seu braço ligeiro
Mais forte nas messes a foice moveu.


Soou meio dia: que ardente seccura!
Já todos demandam a fonte, o pinhal;
Sómente nos ares a abelha murmura:
Maria não pára, que é sua rival.


O sol esmorece, bateram trindades;
Debalde o visinho lhe grita: bastou!
Zagaes e ceifeiros se vão ás herdades:
Maria, co'a foice, lidando ficou:


O orvalho desliza; desponta a seu turno
A estrella no espaço, na selva o cantor:
Maria, insensivel ao bardo nocturno,
A foice incansavel agita ao redor.


Os dias e as noites assim por taes modos,
Nutrida d'amores, mal sente passar.
Tres dias findaram; oh! vinde vêr todos
Maria ditosa d'esp'rança a chorar.


«Bons dias, Maria: já tudo ceifado!
«Lidaste devéras: a paga has de ter.
«Emquanto a meu filho, foi graça o tratado:
«Quão loucos e simples o amor nos faz ser!»


Tal disse, e passava... no peito constante,
Ai pobre Maria, que transe cruel!
Teu corpo formoso tremeu vacillante,
E exhausta cahiste, ceifeira fiel.


Um anno a coitada, sósinha comsigo,
Vivendo de fructos, vagou sem fallar...
No prado mais verde cavae-lhe o jazigo:
Ceifeira como esta jámais heis de achar.




O FIRMAMENTO

AO MEU AMIGO J. S. DA SILVA FERRAZ


Gloria a Deus! eis aberto o livro immenso,
O livro do infinito,
Onde em mil letras de fulgor intenso
Seu nome adoro escripto.
Eis de seu tabernaculo corrida
Uma ponta do véo mysterioso:
Desprende as azas remontando á vida,
Alma que anceias pelo eterno gôso!


Estrellas que brilhaes n'essas moradas,
Quaes são vossos destinos?
Vós sois, vós sois as lampadas sagradas
De seus umbraes divinos.
Pullulando do seio omnipotente,
E sumidas por fim na eternidade,
Sois as faiscas de seu carro ardente
Ao rolar através da immensidade.


E cada qual de vós um astro encerra,
Um sol que apenas vejo,
Monarcha d'outros mundos como a terra
Que formam seu cortejo.
Ninguem póde contar-vos: quem podéra
Esses mundos contar a que daes vida,
Escuros para nós qual nossa esphera
Vos é nas trevas da amplidão sumida?


Mas vós perto brilhaes, no fundo accêsas
Do throno soberano:
Quem vos ha de seguir nas profundezas
D'esse infinito oceano?
E quem ha de contar-vos n'essas plagas
Que os céos ostentam de brilhante alvura,
Lá onde sua mão sostem as vagas
Dos soes que um dia romperão na altura?


E tudo outr'ora na mudez jazia,
Nos véos do frio nada:
Reinava a noite escura; a luz do dia
Era em Deus concentrada.
Elle fallou! e as sombras n'um momento
Se dissiparam na amplidão distante!
Elle fallou! e o vasto firmamento
Seu véo de mundos desfraldou ovante!


E tudo despertou, e tudo gyra
Immerso em seus fulgores;
E cada mundo é sonorosa lyra
Cantando os seus louvores.
Cantae, ó mundos que seu braço impelle,
Harpas da creação, fachos do dia,
Cantae louvor universal Áquelle
Que vos sustenta, e nos espaços guia!


Terra, globo que geras nas entranhas
Meu ser, o ser humano,
Que és tu com teus vulcões, tuas montanhas,
E com teu vasto oceano?
Tu és um grão d'areia arrebatado
Por esse immenso turbilhão dos mundos
Em volta de seu throno levantado
Do universo nos seios mais profundos.


E tu, homem, que és tu, ente mesquinho
Que soberbo te elevas,
Buscando sem cessar abrir caminho
Por tuas densas trevas?
Que és tu com teus imperios e colossos?
Um átomo subtil, um froixo alento:
Tu vives um instante, e de teus ossos
Só restam cinzas que sacode o vento.


Mas ah! tu pensas, e o gyrar dos orbes
Á razão encadeias;
Tu pensas, e inspirado em Deus te absorbes
Na chamma das ideias:
Alegra-te, immortal, que esse alto lume
Não morre em trevas d'um jazigo escasso!
Gloria a Deus, que n'um átomo resume
O pensamento que transcende o espaço!


Caminha, ó rei da terra! se inda és pobre,
Conquista aureo destino,
E de seculo em seculo mais nobre
Eleva a Deus teu hymno!
E tu, ó terra, nos floridos mantos
Abriga os filhos que em teu seio geras,
E teu canto d'amor reune aos cantos
Que a Deus se elevam de milhões d'espheras!


Dizem que já sem forças, moribunda,