Em seu pequeno jazigo
Dous dias chorou tambem;
Ao terceiro o sino triste
Dobrou á morte d'alguem.


E á noite no cemiterio
Outro jazigo se via:
Era a mãe que ao pé do filho
Na sepultura dormia.




SOCRATES



Já proximo do occaso vae descendo
O sol ao mar inquieto,
Os moribundos raios estendendo
Nas alturas do Hymeto;
E Socrates, sentado sobre o leito,
Inda aos alumnos falla,
No silencio geral notando o effeito
Da razão que os abala.
A verdade sublime lhes revela
Em palavras ignotas,
Suaves como a voz de Philomela,
Ou do cysne do Eurotas.
Cebes, o proprio Cebes emmudece,
Simmias já não duvida:
Nos olhos do inspirado resplandece
Um Deus e a eterna vida!


Mas o sol expirava: era o momento
Que Athenas decretára:
Cumpre os deuses vingar: o sabio attento
Á morte se prepara.
Os discipulos tremem contemplando
O dia já no resto;
Eis o servo dos onze entra chorando
No carcere funesto.
O circulo cruzando, a bronzea taça
A Socrates estende;
O philosopho a empunha com a graça
Que nos festins resplende.
«Ergamos, disse, nossa prece Áquelle
«Que ao longe nos convida,
«Por que seja feliz por meio d'Elle
«A viagem temida.»
E aproximando intrepido e sereno
A liquida cicuta,
Como nectar a esgota, e do veneno
Entrega a taça enxuta.


Um lamento geral, um só transporte
Percorre em torno o bando
Dos alumnos fieis, chorando a sorte
Do mestre venerando.
Apollodoro geme; succumbindo,
Criton lhe corresponde;
Phédon abaixa os olhos, e carpindo
No manto o rosto esconde.


Elle sem vacillar, elle sómente,
Sorrindo á turba anciada;
«Amigos, que fazeis? um sol fulgente
«Me luz em nova estrada.
«De presagios felizes rodeemos
«Os ultimos instantes!
«Chore quem não tem fé: nós que já crêmos,
«Nós sejamos constantes!»
Disse, e deixando o leito em que jazia
Sereno move o passo,
Que o veneno lethargico devia
Obrar pelo cansaço.
Das grades se aproxima, olha o Parthénon,
Olha os muros d'Athenas,
O Phaléro, o Pireu e as que lhe acenam
Regiões são serenas;
Olha os céos, olha a terra, a luz do dia
Expirando nas vagas,
E de harmonias taes se ergue á harmonia
De mais ditosas plagas.
Depois, volvendo ao leito, diz a tudo
O adeus da déspedida;
Cobre o rosto c'o manto, e aguarda mudo
O instante da partida.


O veneno progride, e já do effeito
Redobra a intensidade;
Dos membros se apodera, sobe ao peito,
E o coração lhe invade.


Estremeceu! do gelido trespasse
Era emfim a agonia...
O executor lhe descobriu a face:
Socrates não vivia!


Triumpha, cega Athenas, ao martyrio
O sabio condemnaste,
E d'olympicos deuses no delirio
A razão engeitaste;
Á voz do Areopágo, á voz de ferro
Suffocaste a doutrina:
A verdade succumbe, a sombra do erro
No mundo predomina.


Mas que estrella futura se levanta
Rasgando a escuridade?
Que palavra resôa, e o mundo espanta
Prégando a alta verdade?
É elle, é elle, o promettido ás gentes
Na voz das prophecias!
Curvae, ó gerações, curvae as frentes
Ao verbo do Messias!




A***



Acaso és tu a imagem vaporosa
Que me sorriu nos sonhos d'outra idade,
Como a luz da manhã sorri formosa
Nos espaços azues da immensidade?
És tu esse astro que minha alma anhela,
Que debalde busquei no mar da vida,
Qual busca o nauta bonançosa estrella
No meio da procella enfurecida?
Ah! se és esse ente que meu ser domina,
Se és essa estrella que meu fado encerra,
Se és algum anjo da mansão divina
Pairando sobre a terra;
Já que baixaste a mim, já que a meu lado
Me apontaste sorrindo o ethereo véo,
Não me deixes na terra abandonado,
Transporta-me ao teu céo!




ULTIMOS MOMENTOS DE ALBUQUERQUE

AO MEU AMIGO A. AYRES DE GOUVEIA


Companheiros, sinto a morte
Pairando já sobre mim;
Cessaram vaivens da sorte,
Desço á terra, d'onde vim...
Do calix da desventura
Eis esgotada a amargura;
No leito da sepultura
Terei descanço por fim.


Terei: a campa é um asylo
Que ao impio deve aterrar,
Mas eu dormirei tranquillo
Sob a lagea tumular.
Eu... desgraçado, que digo!
Nem lá espero um abrigo,
Que os meus restos no jazigo
Irão talvez insultar.


Murmurando: «aqui repousa
Um desleal portuguez,»
Irão partir minha lousa,
Meu nome calcar aos pés:
E o guerreiro que descança
Não poderá, por vingança,
Brandir na dextra uma lança,
Cingir ao peito um arnez...


Quaes foram, rei, os meus crimes
Para haver tal galardão?
Por que a fronte assim me opprimes
Com a tua ingratidão?
De vis intrigas cercado
Ouviste seu impio brado.
E sobre as cans do soldado
Lançaste negro baldão.


Não merecia tal premio
Quem debaixo d'este céo,
Da roxa aurora no gremio,
Um novo imperio te deu;
Quem á custa d'uma vida
Nas batalhas consumida,
Ante as quinas abatida
A India inteira rendeu.


Por dar-te a c'rôa brilhante
Que em tua fronte reluz,
Fiz a meus pés arquejante
Cahir a opulenta Ormuz;
Malaca sentiu meu raio,
E em Gôa, roto o Sabaio
Entre o sangue, entre o desmaio,
Alcei o pendão da cruz.


Então desde o Nilo ao Ganges
Cem povos armados vi,
Erguendo torvas phalanges
Contra mim e contra ti;
Vi os filhos do deserto
Em ondas rugindo perto;
Mas com ferro em campo aberto
Ás suas iras sorri.


Contra as lanças portuguezas
A India luctou em vão,
Que em troca d'ouro e riquezas
Veio comprar seu grilhão.
Aos golpes de meus soldados
Vi seus thronos abalados,
Vi ante mim ajoelhados
Reis d'Onor e de Sião.


Mas d'Asia não pôde o ouro
Cegar-me com seu fulgor,
Porque a honra é o thesouro
Dos meus passados, senhor.
Eu quiz adornar-te a frente
C'um diadema refulgente:
Ganhei o sceptro do Oriente,
E a teus pés o fui depôr.


N'esses campos de batalha
Onde audaz o conquistei,
Das armas sob a mortalha
Porque exangue não findei?
Entre os louros da victoria
Morrêra ao menos com gloria;
Do teu soldado a memoria
Não a mancháras, ó rei.


Eu desleal?! se meus brados
Podem chegar até vós,
Erguei-vos, restos sagrados
De meus extinctos avós!
Erguei-vos da campa fria,
E com sangue, á luz do dia,
Lavae a nódoa sombria
Que arrojaram sobre nós!


Eu desleal... mas ao mundo
Que vale queixas mandar?
As vozes d'um moribundo
Não vão na terra eccoar...
Surge, ó morte!... e vós, amigos,
Socios de tantos perigos,
Vinde... nem só inimigos
Me restam ao expirar.


No reino vos deixo um filho:
Nossos feitos lhe ensinae;
Dizei-lhe qual foi o trilho
Que em vida seguiu seu pae...
Dizei-lhe qual foi meu norte;
Mas, em quanto á minha sorte,
Oh! não lhe aponteis a morte,
A vida só lhe apontae...


E se fallardes um dia
A dom Manoel, o feliz,
Dizei-lhe que na agonia
Albuquerque o não maldiz;
Que á beira da sepultura,
Para um filho sem ventura,
Invoco sua ternura,
Se alguns serviços lhe fiz.


E vós... e vós, portuguezes,
Nossa patria defendei;
Dae-lhe os peitos por arnezes,
Seja a patria vossa lei.
N'um throno que ella não tinha
Eu vol-a deixo rainha,
Mas não sei o que adivinha
Meu pensamento... não sei.


Entre as sombras do futuro,
Meu Deus! a patria em grilhões!
Pelo mar em vão procuro
Seus orgulhosos pendões...
Coberta d'amargo pranto,
Lá se envolve em negro manto...
Lá roja a face em quebranto...
Ella, a grande entre as nações!


Oh! se este braço podéra
A fria lousa quebrar,
Este braço inda se erguêra
Da tumba, para a salvar;
Apontando-lhe a vingança,
Inda lhe dera esperança,
E empunhando a antiga lança,
Á morte a fôra arrancar.


Mas eis marcado o momento
No livro d'além dos céos...
Eis a morte... o passamento...
São findos os dias meus...
Companheiros de victoria,
De tantos dias de gloria,
Guardae... guardae na memoria,
D'Albuquerque o extremo adeus...


A morte... a morte... que anceio!
Sinto um gêlo sepulchral...
Abre-me, ó terra, o teu seio,
Quero o repouso final...
Desce, guerreiro cançado,
Desce ao tumulo gelado...
Mas a affronta... deshonrado...
India... filho... Portugal!...




A TI



Oh! quão formoso me surge o dia
Lá quando a noite se inclina ao mar,
Quando na aurora, que me extasia,
Teu bello rosto cuido avistar!
Não sei que esp'rança jámais sentida
Então me adeja no peito aqui;
É que na aurora saúdo a vida,
Outr'ora escura, sem luz, sem ti.


Correm as horas, a noite avança,
A lua brilha com meigo alvor;
Então minha alma, que em paz descança,
Divaga em sonhos d'ignoto amor.
No véo d'estrellas, na branca lua
Meus olhos buscam olhos que eu vi,
E o pensamento longe fluctua,
E uma saudade revôa a ti.


Eis que adormeço, e um anjo assoma
Todo cercado d'etherea luz;
De seus cabellos recende o aroma
Das castas rosas que o céo produz.
O céo me aponta, sorri-lhe a face;
Acordo, e o anjo foge d'alli;
Mas em meu peito logo renasce
Doce esperança que vem de ti.


Já pela terra surgem verdores,
Auras serenas baixam do céo,
As aves cantam novos amores,
Tudo se cobre d'um floreo véo;
E céos e terra, montes, paizagem,
Tudo a meus olhos, tudo sorri;
É que alli vejo só tua imagem,
E que hoje vivo mas só por ti.


Talvez que eu sinta meu pobre enleio
Passar qual brilho de luz fugaz:
Que importa? ao menos dentro em meu seio,
Já morta a esp'rança, tu viverás.
Oh! sim, que os dias são mais serenos
Com tua imagem gravada alli;
Té mesmo a morte custará menos,
Junto ao sepulchro pensando em ti.




INFANCIA E MORTE



«Ó mãe, o que fazes? em cama tão fria
«Não durmas a noite... saiamos d'aqui...
«Acorda! não ouves a pobre Maria,
«Pequena, sósinha, chorando por ti?


«Porque é que fugiste da nossa morada,
«Que alveja saudosa no monte d'além?
«Depois que tu dormes na terra gelada,
«Quão só ficou tudo mal sabes, ó mãe.


«A nossa janella não mais foi aberta,
«O fogo apagou-se na cinza do lar,
«As pombas são tristes, a casa deserta,
«E as flores da Virgem se vão a murchar.


«Oh! vamos, não tardes... mas tu não respondes...
«Em vão todo o dia meu pranto correu;
«No fundo da cova teu rosto me escondes,
«Não ouves, não fallas... que mal te fiz eu?


«Escuta! na torre de frestas sombrias
«O sino da ermida começa a tocar...
«Acorda! que o toque das Ave-Marias
«Á imagem da Virgem nos manda rezar.


«A lampada exhausta de Nossa Senhora
«Ficou apagada, precisa de luz:
«Oh! vem accendêl-a, e á Mãe que se adora
«Alli rezaremos, e ao Filho na cruz.


«Depois á costura, sentada a meu lado,
«Tu has de contar-me, bem junto de mim,
«Aquellas historias d'um rei encantado,
«De fadas e moiras, d'algum cherubim.


«A d'hontem foi triste, pois triste fallavas
«De vida e de morte, d'um mundo melhor;
«E o rosto cobrias, e muda choravas,
«Lançando teus braços de mim ao redor.


«Depois em silencio teus olhos fechaste,
«Tão pallida e fria qual nunca te vi;
«Chamei-te era dia, mas não acordaste,
«E em quanto dormias trouxeram-te aqui.


«Oh! vamos, não tardes, que as noites sombrias,
«Sem ti a meu lado, me causam pavor;
«Acorda! que o toque das Ave-Marias
«Nos diz que rezemos á Mãe do Senhor.»


Taes eram as queixas da pobre Maria...
O sino da ermida cessou de tocar...
E a mãe entretanto dormia, dormia;
Do somno da morte não pôde acordar.


Tres dias, tres noites a filha sósinha
No adro da egreja por ella chamou...
Ao fim do terceiro já força não tinha;
Da mãe sobre a campa, gemendo, expirou.




O CANTO DO LIVRE

AO MEU AMIGO ALEXANDRE BRAGA


Gema embora a terra inteira
Acurvada a iniquas leis:
Esta fronte sobranceira
Jámais de rojo a vereis.
Oh! ninguem, ninguem a esmaga,
Que eu sou livre como a vaga,
Que sacode sobre a plaga
O jugo d'altos baixeis.


Liberdade é o mote escripto
No céo, na terra, e no mar!
Dil-o a féra no seu grito,
E as aves cruzando o ar;
Dil-o o vento da procella,
A vaga que se encapella,
E nos espaços a estrella
Em seu continuo gyrar.


Dil-o tudo! mas ainda
Mais livre me creou Deus
Que os astros da altura infinda,
Os ventos, e os escarcéos.
Eu tenho mais liberdade
D'esta alma na immensidade,
Pois tenho n'ella a vontade,
Tenho a razão, luz dos céos.


Eu sou livre! erguendo a fronte
Diz-m'o uma voz na amplidão,
Quando de pé sobre o monte
Me elevo rei da soidão;
Quando além do firmamento
Alçando meu pensamento,
Solto nas azas do vento
Meu canto d'inspiração.


Eu sou livre! eis minha crença,
Nem força contra ella val.
Que um tyranno emfim me vença:
Triumpharei por seu mal.
Triumpharei, que algemado
E diante d'elle arrastado,
Sou livre! será meu brado
Té ao momento final.


E que importa que o tyranno,
Jurando vingança atroz,
Faça erguer, sorrindo ufano,
Um cutelo á sua voz?
Minha fronte sempre erguida
Ha de encaral-o atrevida,
E só cahir abatida
Ao rolar aos pés do algoz.


Mas nunca! pois fôra um preito
Dar os pulsos ao grilhão.
Tenho um ferro, e n'este peito
Tenho um livre coração!
Não! jámais serei captivo!
Se vencido restar vivo,
Cahirei, sorrindo altivo,
Sob o punhal de Catão!




SAUDADE



Assim, pallida lua, assim teu rosto
Fulgurava tranquillo n'essa noite
Em que o adeus lhe murmurei sentido;
Quando, após os momentos preciosos
Em que inda pude vêl-a, inda escutal-a,
Afoitando meu animo indeciso,
Sua trémula voz me disse: parte...
Em tanto que uma lagrima furtiva
Lhe escorria na face melindrosa,
Mais pallida que a tua...


Astro saudoso;
Astro da solidão, quanto me aprazes!
Eu amo o teu silencio, amo o teu brilho,
Mais que do sol os importunos raios.
Que me importa d'esse astro a luz e a vida,
Se a luz e a vida me ficaram longe?
Se em meio do rumor que o dia espalha,
A voz não ouço que responde á minha?


Estes valles, e selvas, estes montes,
Á luz do dia, são talvez formosos;
Mas não é este o ar que ella respira,
Não são estes os sitios que ella encanta
Com seu mago sorriso. O dia é mudo;
Porém tu surges, solitaria amiga,
Tu vens fallar-me d'ella, astro saudoso.


Lua, d'esse aureo throno onde campeias,
Tu vês os sitios caros. Que faz ella?
Acaso, como pomba fatigada,
Repousa adormecida? Verte, ó lua,
Verte-lhe em torno o perfumado alento
Que a noite rouba ás orvalhadas flôres.
Mas não; talvez agora em mim pensando,
Agora mesmo sobre o teu semblante
Ella fixa tambem os olhos tristes,
E nossos pensamentos, nossas vistas
Se confundem em ti. Oh! não podermos,
Adejando como elles n'esse espaço,
Embora por momentos confundir-nos
Em teu regaço, deslembrando a ausencia!
Ao menos, astro amigo, ordena, ordena
Que o anjo da saudade, que em ti mora,
Desça, e lhe diga o que minha alma sente.


Oh! quando solto d'importunos laços,
Demandando outros céos, hei de já livre
Vêl-a, ouvil-a, fallar-lhe? Quem o sabe?


Mas tu entanto, confidente meiga,
Em cada noite vem fallar-me d'ella;
E em meu peito sombrio e solitario
Derrama, envolto no teu doce brilho,
O balsamo suave da esperança.
Assim possas tu ser, benigna deusa,
A invocada dos tristes; e se acaso
Amas tambem, se algum remoto lago
Entre floridas margens escondido
Te prende as affeições, possas tu sempre
No crystallino azul de suas aguas
Sem nuvens espelhar teu rosto ameno!




AMOR E ETERNIDADE



Repara, doce amiga, olha esta lousa,
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura
No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerarias!
E o sol, ao descahir lá no occidente,
Quão bello lhes fulgura
Nas campas solitarias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flôres...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam tambem nossos amores!


Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lirio que ao sol posto
Desmaia nas campinas?
Oh! vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto córte...
Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri á morte.
Vês estas sepulturas?
Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funereo gêlo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contêl-o.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade;
E o amor tem por patria o céo e a terra,
Por vida a eternidade!




O ESCRAVO



Tremes, escravo? baqueias
Entre os muros da prisão?
Vergado sob as cadeias
Rojas a fronte no chão?
Já da turba ao longe o grito
Pede teu sangue maldito:
Sentes, escravo proscripto,
Vacillar teu coração?


Não sinto! nada perturba
Minha alegria feroz:
Nem o bramir d'essa turba,
Nem a lembrança do algoz.
Vinguei-me! nada me aterra.
Curvae-vos, homens da terra!
Contra mim jurastes guerra;
Guerra jurei contra vós.


Eu era livre sem méta
Como as ondas lá no mar;
Era livre como a séta
Quando sibila no ar:
Foi vossa avidez tyranna
Que me algemou deshumana.
Ó minha pobre choupana!
Ó florestas do meu lar!


Além, além nas florestas,
Foi além onde eu nasci;
Onde sem prisões funestas
Já venturoso vivi.
Foi dos bosques na espessura
Que eu tive amor e ternura;
Mas liberdade e ventura,
Patria, amor, tudo perdi.


Perdi tudo! além da morte
Já não me resta ninguem.
Tinha um pae: a negra sorte
Do filho soffreu tambem.
Trouxe da patria distante
O ferreo jugo aviltante,
Inda eu era tenro infante
Nos braços de minha mãe.


Minha mãe!... oh! quantas vezes
Me vinha a triste abraçar,
E carpindo os seus revezes
Fitava os olhos no mar!
Seu pranto cahia ardente,
Em bagas, na minha frente;
E eu, pobre infante innocente,
Chorava de a vêr chorar.


Mais tarde, quando o navio
Me trazia á escravidão,
Nas praias do mar bravio
Eu a vi cahir no chão;
Via-a atravéz dos espaços,
Morrendo, estender-me os braços...
Sacudi meus ferreos laços;
Mas, ai de mim! era em vão.


Perdi-a! só me restava
A virgem do meu amor,
Que a mulher que eu adorava
Quiz partilhar minha dôr.
Mas tinha sua belleza
Só d'um escravo a defeza...
Devia, oh raiva! ser prêza
De meu infame senhor.


E eu, soberbo vezes tantas,
Curvei-me d'aquella vez:
Arrastei ás suas plantas
Minha feroz altivez.
Debalde! que o vil tyranno
Escarneceu do africano;
Maldição! vaidoso, ufano,
Meu amor calcou aos pés.


--É minha, só minha a escrava:
A ti, pertence o grilhão:--
Disse, e o sangue me escaldava
No fundo do coração.
Da vingança a torva imagem
Me sorriu, me deu coragem,
No meu gemido selvagem
Rugiu irado o leão.


Era noite!--negro sonho
Que d'estes olhos não sae!--
Era noite! em céo medonho
Vi tua sombra, ó meu pae...
Rojando um grilhão pesado,
Teu espectro ensanguentado
Se ergueu sombrio a meu lado,
Sem dar um gemido, um ai...


Té que alçando a voz:--meu filho!
Meu filho!--bradaste emfim,
E os olhos turvos, sem brilho,
Tinhas cravados em mim...
Eu quiz lançar-me em teus braços,
Quiz cingir-te em doces laços;
Mas, fugindo aos meus abraços,
Volvias a olhar-me assim.


Foste escravo... teu destino,
Tua morte compr'hendi,
E um nome, o do assassino,
Delirando te pedi;
Mas sem attender a nada,
Erguendo a dextra myrrhada,
--Vingança!--com voz irada
Bradaste, e não mais te vi.


Sim, vingado foi teu sangue
Por este braço a final,
Que um d'elles cahiu exangue
Aos golpes do meu punhal.
Era amargo o fel da taça:
Vinguei a nossa desgraça
N'um dos tigres d'essa raça,
No sangue do meu rival.


Vinguei o meu e teu jugo!
Que importam ferreos grilhões,
O cadafalso e o verdugo,
O supplicio e as maldições?
Entre os gôsos da vingança
Reluz emfim a esperança;
Já não receio a lembrança
De seus cruentos baldões.


Sinto correr-me nas veias
O fogo que lhe ateei...
Quebrai-vos, duras cadeias,
Escravo não mais serei...
Sou livre! a morte o proclama
N'este peito que se inflamma...
Já n'elle circula a chamma
Do veneno que eu tomei!




O ANJO DA HUMANIDADE



Era na estancia crystallina e pura,
Que além do firmamento rutilante
Se ergue longe de nós, e está segura
Em milhões de columnas de diamante;
Jerusalém celeste onde fulgura
Do eterno dia o resplendor constante,
E onde reside a gloria e magestade
D'Aquelle que povôa a immensidade.


Na mansão mais recondita e profunda
A soberana Essencia o throno encerra,
D'onde a fonte de amor brota fecunda,
Os astros animando, os céos e a terra;
Um mar de luz seus penetraes circumda,
Que o proprio archanjo deslumbrado aterra,
Luz que em triangulo ardente se condensa
Quando o Eterno os oraculos dispensa.


Por toda a parte o azul e as pedrarias
Na cidade divina resplandecem;
Mil arcadas de soes, mil galerias
De brilhantes estrellas, a guarnecem;
Os anjos em lustrosas jerarchias
Nas harpas d'ouro melodias tecem,
Outros em córos adejando vôam,
E d'aromas e canto o céo povôam.


Eis de repente nos umbraes divinos,
Sobre as azas pairando, um anjo entrava,
Parecendo de sitios peregrinos
Que ás regiões celestes assomava;
Cruzando o empyreo, as legiões, e os hymnos,
Qual rapido luzeiro perpassava,
Té que chegando ao throno do Increado,
Nos ultimos degraus ficou poisado.


Pelos eburneos hombros o cabello
Em annelladas ondas lhe cahia;
A saphira das azas sobre o gêlo
Das roupagens luzentes refulgia.
Mais brilhante não é, não é mais bello,
Comparado com elle, o astro do dia,
Ou a estrella que brilha quando a aurora
De purpurina luz o céo colora.


Ao throno augusto levantou a frente,
Mas com as azas a toldou ancioso,
Não podendo soster o brilho ardente
Que despedia o fóco luminoso.
A milicia dos anjos resplendente
Fixou attenta seu irmão formoso;
Os concertos pararam, e elle entanto
Assim fallou entre o geral espanto:


«Eterno Ser, que as divinaes moradas
«Enches de gloria em magestoso assento,
«Fonte de vida e creações variadas,
«Que dás ao mundo poderoso alento;
«A cujo acêno tremem abaladas
«As columnas do ethereo firmamento,
«E cujo nome, que o universo entôa,
«No céo, na terra, e nos abysmos sôa!


«Por teu mando supremo destinado
«A conduzir a humana descendencia,
«Desde que a mancha do cruel peccado
«A fez cahir da primitiva essencia:
«Venho a final, Senhor, de teu mandado
«Dar-te conta fiel, apóz a ausencia;
«Fazer-te ouvir da humanidade os prantos,
«E aguardar teus preceitos sacrosanctos.


«Ordenaste-me, ó Deus, que sempre attento,
«Proseguisse na terra a lei sob'rana
«Que rege, na amplidão do firmamento,
«A creação que de teu seio emana:
«Essa lei de progresso e movimento
«Tenho cumprido na familia humana,
«Desde que ao mundo, a combater seu fado,
«O desterrado do eden foi lançado.


«Primeiro, sobre a terra esclarecendo
«Seus duvidosos passos vacillantes;
«Depois, o justo e seu baixel sostendo,
«Nas aguas do diluvio sussurrantes:
«De novo á terra, de pavor tremendo,
«Conduzindo mais puros habitantes;
«Mais tarde, junto ao berço do Messias,
«Annunciando ao mundo novos dias.


«Agora, sobre as ruinas d'um imperio
«Outro imperio de novo edificando;
«Agora, as povoações d'um hemispherio
«Sobre as d'outro hemispherio derramando;
«Já do teu Verbo o divinal mysterio,
«Com as sanctas doutrinas, propagando;
«Já mostrando por fim á humanidade
«Nova luz de justiça, e de verdade.


«Quantos velhos sophismas desterrados!
«Quantos idolos falsos em ruinas!
«Quantos sabios triumphos alcançados!
«Quantas conquistas immortaes, divinas!
«Calcando o pó dos seculos passados,
«O homem corre ao fim que lhe destinas;
«Mas ah! Senhor, no meio da tormenta
«Seu valor esmorece e desalenta.


«Seu valor esmorece! tantas lidas,
«Tanto luctar continuo das idades,
«Tanto sangue e martyrios, tantas vidas,
«Tantas ruinas d'imperios e cidades:
«E o homem soffre, e as gerações perdidas
«Se revolvem n'um mar de tempestades,
«Sem vêr luzir esse fanal jucundo
«Que por teu Filho prometteste ao mundo.


«Quantos males ainda! a lei sublime,
«A lei d'amor que derramou teu Verbo,
«Sobre a face da terra, á voz do crime,
«Succumbe e morre por destino acerbo,
«O ferreo jugo que as nações opprime,
«Os humildes abate, ergue o soberbo,
«E o rei da terra, sobre a terra escravo,
«Soffre mesquinho seu eterno aggravo.


«Por toda a parte, em lastimoso accento,
«Se ouve gemer a humanidade afflicta.
«A terra, a mãe commum, nega alimento
«Dos filhos seus á multidão proscripta:
«Emquanto folga em vicios o opulento
«A indigencia cruel na choça habita,
«E a mãe, a mãe ao peito, em desalinho,
«Aperta morto á fome o seu filhinho.


«Entanto a guerra, que a ambição ateia,
«Ensanguenta as campinas e as cidades;
«A crua peste, que ninguem refreia,
«Converte as povoações em soledades;
«D'estes males crueis a terra cheia,
«Cobre-se inda de mil iniquidades;
«O vicio, o crime, a corrupção devora
«A pobre humanidade, como outr'ora.


«Ao vêr tanta miseria, o bom padece,
«O mau blasphema de teu nome sancto,
«A voz dos inspirados esmorece,
«O futuro se envolve em negro manto...
«Eu mesmo, eu mesmo, recolhendo a prece
«Que a humanidade te dirige em pranto,
«Subi confuso ao eternal assento,
«A depôr a teus pés meu desalento.»


Disse, e um gemido d'afflicção pungente,
Semelhante a dulcisona harmonia,
Soltou do peito, reclinando a frente
Com celeste e ideal melancholia:
Assim pendendo ao longe no occidente,
Se reclina saudoso o astro do dia;
Assim reclina a pallida açucena,
Açoitada do vento, a fronte amena.


Depois continuando: «ó Deus, quem ha de
«Sondar mysterios que teu seio esconde!
«Tuas leis divinaes, tua vontade
«Cumprirei sobre a terra. Eia responde:
«Os passos da mesquinha humanidade
«Aonde os levarei, Senhor, aonde?»
Uma voz retumbou no céo radiante,
Que ao anjo respondeu, dizendo:--ávante!




PARTIDA



Ai, adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado;
Sôa a hora, o momento fadado;
É forçoso deixar-te e partir.
Quão formosos, quão breves que foram
Esses dias d'amor e ventura!
E quão cheios de longa amargura
Os da ausencia vão ser no porvir!


Olha em roda estas margens virentes:
Já o outomno lhes despe os encantos;
Cedo o inverno com gelidos mantos
Baixará das montanhas d'além.
Tudo triste, sombrio, e gelado,
Ficará sem verdura nem flôres:
Tal meu seio, privado d'amores,
Ficará de ti longe tambem.


Não sei mesmo, não sei se o destino
Me dará que eu te abrace na volta...
Ai! quem sabe onde a vaga revolta
Levará meu perdido baixel?
Sobre as ondas, sem norte, e sem rumo,
Açoitado por ventos funestos,
Sumirá por ventura seus restos
Nas voragens d'ignoto parcel.


Mas ah! longe esta ideia sombria!
Longe, longe o cruel desalento!
Apóz dias d'amargo tormento
Virão dias mais bellos talvez.
Dá-me ainda um sorriso em teus labios,
Uma esp'rança que esta alma alimente,
E na volta da quadra florente
Eu co'as flôres virei outra vez.


Mas se as flôres dos campos voltarem
Sem que eu volte co'as flôres da vida,
Chora aquelle que em tumba esquecida
Dorme ao longe seu longo dormir;
E cada anno que o sôpro do outomno
Desfolhar a verdura do olmeiro,
Lembra-te inda do adeus derradeiro,
D'este adeus que te disse ao partir!




CANTO DE PRIMAVERA