POESIAS








POESIAS

POR

A. A. SOARES DE PASSOS




QUINTA EDIÇÃO







PORTO

EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR
Caldeireiros, 18 e 20

1870








TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
Rua Ferreira Borges, 31






A CAMÕES



Ai do que a sorte assignalou no berço
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus ás gerações envia
Dizendo: vae, padece, é teu fadario,
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas não vê que essa chamma abrazadora
Que o cerca d'esplendor, tambem devora
Seu peito solitario.


Pairar nos céos em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glorias,
E vêr passar quaes sombras illusorias
Essas imagens de fulgor divino:
Taes são vossos destinos, ó poetas,
Almas de fogo que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra
Teu misero destino.


A cruz levaste desde o berço á campa:
Esgotaste a amargura até ás fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo genio a desventura.
Combateste com ella como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalavel magestade
Lhe resiste segura.


Foste grande na dôr como na lyra!
Quem soube mais soffrer, quem soffreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos pés cahiste da visão querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flôr de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
Jámais colheste em vida.


Sob a couraça que cingiste ao peito
Do peito ancioso suffocaste a chamma,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o naufrago arremessa
Sobre inhospita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou á vida,
E ás injurias da sorte.


De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, té o mar profundo
Conspirados achavas em teu damno.
Ave canora em solidão gemendo,
Tiveste o genio por algoz ferino:
Teu alento immortal era divino,
Perdeste em ser humano:


Indicos valles, solidões do Ganges,
E tu, ó gruta de Macau, sombria,
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
D'esses hymnos que o tempo não consome.
Foi lá, n'essa rocha solitaria,
Que o vate desterrado e perseguido,
Á patria ingrata, que lhe dera o olvido,
Deu eterno renome.


«Cantemos!» disse, e triumphou da sorte.
«Cantemos!» disse, e recordando glorias,
Sobre o mesmo theatro das victorias,
Bardo guerreiro, levantou seus hymnos.
Os desastres da patria, a sua quéda
Temendo já no meditar profundo,
Quiz dar-lhe a voz do cysne moribundo
Em seus cantos divinos.


E que sentidos cantos! d'Ignez triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que póde o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta;
No brado heroico da guerreira tuba
O valor portuguez sôa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo
Inda hoje o mundo espanta!


Mas ai! a patria não lhe ouvia o canto!
Da patria e do cantor findava a sorte:
Aos dous juraram perdição e morte,
E os dous juntaram na mansão funerea...
Ingratos! ao que alçando a voz do genio
Além dos astros nos erguera um solio,
Decretaram por louro e capitolio
O leito da miseria!


Ninguem o pranto lhe enxugou piedoso...
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:
«Dae esmola a Camões, dae-lhe um abrigo!»
Dizia o triste a mendigar confuso!
Homero, Ovidio, Tasso, estranhos cysnes,
Vós que sorvestes do infortunio a taça,
Vinde depôr as c'rôas da desgraça
Aos pés do cysne luso!


Mas não tardava o derradeiro instante...
O raio ardente que fulmina a rocha,
Tambem a flôr que n'ella desabrocha,
Cresta, passando, co'as ethereas lavas:
Que scena! em quanto ao longe a patria exangue
Aos alfanges mouriscos dava o peito,
De misero hospital n'um pobre leito,
Camões, tu expiravas!


Oh! quem me dera d'esse leito á beira
Sondar teu grande espirito n'essa hora,
Por saber, quando a mágoa nos devora,
Que dôr póde conter um peito humano;
Palpar teu seio, e n'esse estreito espaço
Sentir a immensidade do tormento,
Combatendo-te n'alma, como o vento
Nas ondas do oceano!


O amor da patria, a ingratidão dos homens,
Natercia, a gloria, as illusões passadas,
Entre as sombras da morte debuxadas,
Em teu pallido rosto já pendido;
E a patria, oh! e a patria que exaltáras
N'essas canções d'inspiração profunda,
Exhalando comtigo moribunda
Seu ultimo gemido!


Expirou! como o nauta destemido,
Vendo a procella que o navio alaga,
E ouvindo em roda no bramir da vaga
D'horrenda morte o funeral presagio,
Aos entes corre que adorou na vida,
Em seguro baixel os põe a nado,
E esquecido de si morre abraçado
Aos restos do naufragio:


Assim, da patria que baixava á tumba,
Em cantos immortaes salvando a gloria,
E entregando-a dos tempos á memoria,
Como em gigante pedestal segura:
«Patria querida, morreremos juntos!»
Murmurou em accento funerario,
E envolvido da patria no sudario
Baixou á sepultura.


Quebrando a louza do feral jazigo,
Portugal resurgiu, vingando a affronta,
E inda hoje ao mundo sua gloria aponta
Dos cantos de Camões no eterno brado;
Mas do vate immortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa em vão procura
Seu tumulo ignorado.


Nenhuma pedra ou inscripção ligeira
Recorda o gran cantor... porém calemos!
Silencio! do immortal não profanemos
Com tributos mortaes a alta memoria.
Camões, grande Camões, foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perdôa:
Que valem mausoléus ante a corôa
De tua eterna gloria?




O OUTOMNO



Eis já do livido outomno
Pesa o manto nas florestas;
Cessaram as brandas festas
Da natureza louçã.
Tudo aguarda o frio inverno;
Já não ha cantos suaves
Do montanhez, e das aves,
Saudando a luz da manhã.


Tudo é triste! os verdes montes
Vão perdendo os seus matizes,
As veigas os dons felizes,
Thesoiro dos seus casaes;
Dos crestados arvoredos
A folha sêcca e myrrhada,
Cahe ao sôpro da rajada,
Que annuncia os vendavaes.


Tudo é triste! e o seio triste
Comprime-se a este aspecto;
Não sei que pezar secreto
Nos enluta o coração.
É que nos lembra o passado
Cheio de viço e frescura,
E o presente sem verdura
Como a folhagem do chão.


Lembra-nos cada esperança
Pelo tempo emmurchecida,
Mil aureos sonhos da vida
Desfeitos, murchos tambem;
Lembram-nos crenças fagueiras
Da innocencia d'outra idade,
Mortas á luz da verdade,
Creadas por nossa mãe.


Lembram-nos doces thesoiros
Que tivemos, e não temos;
Os amigos que perdemos,
A alegria que passou;
Lembram-nos dias da infancia,
Lembram-nos ternos amores,
Lembram-nos todas as flôres
Que o tempo á vida arrancou.


E depois assoma o inverno,
Que lembra o gêlo da morte,
Das amarguras da sorte
Ultima gota fatal...
É por isso que estes dias
Da natureza cadente,
Brilham n'alma tristemente
Como um cyrio funeral.


Mas animo! após a quadra
De nuvens e de tristeza,
Despe o luto a natureza,
Revive cheia de luz:
Após o inverno sombrio,
Vem a florea primavera,
Que novos encantos gera,
Nova alegria produz.


Os arvoredos despidos
Se revestem de folhagem;
Ao sôpro da branda aragem
Rebenta no campo a flôr;
Tudo ao vêl-a se engrinalda,
Tudo se cobre de relva,
E as avesinhas na selva
Lhe cantam hymnos d'amor.


Animo pois! como á terra,
Tambem á nua existencia,
Vem, após a decadencia,
Ás vezes tempo feliz;
E a vida gelada, esteril,
Que o sôpro da morte abala,
Desperta cheia de gala,
Cheia de novo matiz.


Animo pois! e se acaso
Nosso destino inclemente,
Em vez de jardim florente,
Nos aponta o mausoléo;
Se a primavera do mundo
Já morreu, já não se alcança,
Tenhamos inda esperança
Na primavera do céo!




O NOIVADO DO SEPULCHRO

BALLADA


Vae alta a lua! na mansão da morte
Já meia noite com vagar soou;
Que paz tranquilla! dos vaivens da sorte
Só tem descanço quem alli baixou.


Que paz tranquilla!... mas eis longe, ao longe
Funerea campa com fragor rangeu;
Branco phantasma, semelhando um monge,
D'entre os sepulchros a cabeça ergueu.


Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cypreste,
O mocho pia na marmorea cruz.


Ergueu-se, ergueu-se! com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguem...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.


Chegando perto d'uma cruz alçada,
Que entre os cyprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se, e com a voz magoada
Os eccos tristes acordou assim:


«Mulher formosa que adorei na vida,
«E que na tumba não cessei d'amar,
«Porque atraiçôas desleal, mentida,
«O amor eterno que te ouvi jurar?


«Amor! engano que na campa finda,
«Que a morte despe da illusão fallaz:
«Quem d'entre os vivos se lembrára ainda
«Do pobre morto que na terra jaz?


«Abandonado n'este chão repousa
«Ha já tres dias, e não vens aqui...
«Ai quão pesada me tem sido a lousa
«Sobre este peito que bateu por ti!


«Ai quão pesada me tem sido!» e em meio,
A fronte exhausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.


«Talvez que rindo dos protestos nossos,
«Goses com outro d'infernal prazer;
«E o olvido, o olvido cobrirá meus ossos
«Na fria terra, sem vingança ter!


--«Oh nunca, nunca!» de saudade infinda
Responde um ecco suspirando além...
«Oh nunca, nunca!» repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.


Cobrem-lhe as fórmas divinaes, airosas,
Longas roupagens de nevada côr;
Singela c'rôa de virgineas rosas
Lhe cerca a fronte d'um mortal pallor.


«Não, não perdeste meu amor jurado:
«Vês este peito? reina a morte aqui...
«É já sem forças, ai de mim, gelado,
«Mas inda pulsa com amor por ti.


«Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
«Da sepultura, succumbindo á dôr:
«Deixei a vida... que importava o mundo,
«O mundo em trevas sem a luz do amor?


«Saudosa ao longe vês no céo a lua?
--«Oh vejo, sim... recordação fatal!
--«Foi á luz d'ella que jurei ser tua,
«Durante a vida, e na mansão final.


«Oh vem! se nunca te cingi ao peito,
«Hoje o sepulchro nos reune emfim...
«Quero o repouso do teu frio leito,
«Quero-te unido para sempre a mim!»


E ao som dos pios do cantor funereo,
E á luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulchral mysterio
Foi celebrado, d'infeliz amor.


Quando risonho despontava o dia,
Já d'esse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.


Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dous esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados n'um sepulchro só.




DESEJO



Oh! quem nos teus braços podéra ditoso
No mundo viver,
Do mundo esquecido no languido goso
D'infindo prazer.


Sentir os teus olhos serenos, em calma,
Fallando d'além,
D'além! d'uma vida que sonha minha alma
Que a terra não tem.


Eu dera este mundo, com tudo o que encerra,
Por tal galardão:
Thesouros, e glorias, os thronos da terra,
Que valem, que são?


A sêde que eu tenho não morre apagada
Com tal aridez:
Podésse eu ganhal-os, e iria seu nada
Depôr a teus pés.


E só desejando mais doce victoria,
Dizer-te: eis-aqui
Meu sceptro e sciencia, thesouros e gloria:
Ganhei-os por ti.


A vida, essa mesma daria contente,
Sem pena, sem dôr,
Se um dia embalasses, um dia sómente,
Meu sonho d'amor.


Isenta do laço que ao mundo nos prende,
A vida que val?
A vida é só vida se o amor n'ella accende
Seu doce fanal.


Aos mundos que eu sonho podésse eu comtigo,
Voando, subir;
Depois, que importava? depois no jazigo
Sorrira ao cahir.




BOABDIL

ULTIMO REI MOURO DE GRANADA


De Granada nas torres já se ergue
O pendão de Castella temido;
Boabdil, o rei mouro vencido,
Deixa a terra em que ha pouco reinou.
Do Padul ás alturas chegado,
Fez parar o seu timido bando,
E o corcel andaluz volteando
Taes adeuses á patria mandou:


«Ai Granada, lá ficas entregue
«Para sempre aos guerreiros de Christo!
«Quem teus fados houvera previsto,
«Ó sultana de tanto poder?
«Acabou-se o dominio dos crentes
«N'este solo tão bello de Hespanha;
«Não ha força de heroica façanha
«Que nos possa das ruinas erguer.


«De Toledo, de Cordova, e Murcia,
«De Jaên, de Baêza, e Sevilha,
«Eras tu, ó gentil maravilha,
«Que inda as glorias fazias lembrar.
«E perdemos-te, ó flôr do occidente,
«Do Xenil ó princeza formosa!
«E curvamos a fronte orgulhosa
«Nós, os filhos valentes d'Agar!


«Deus o quiz! nossa raça punindo
«Fez baixar o seu anjo da morte,
«E das iras d'Allah no transporte
«Baqueou nossa altiva nação!
«Nossos odios civis nos perderam,
«N'este abysmo fatal nos lançaram,
«E nem mesmo o valor nos deixaram
«De morrermos com nosso pendão.


«Ó guerreiros das eras passadas,
«Vencedores da Hespanha descrida,
«Lá n'esse eden feliz da outra vida,
«Vossas faces cobri de rubor!
«Este braço que ousou vossos louros
«Arrastar ante os pés de Fernando,
«Não ousou n'este peito nefando
«Embeber um punhal vingador!


«Deshonrado, do throno banido,
«Que me resta por sorte futura?
«Uma vida cobarde e obscura
«No paiz em que outr'ora fui rei...
«Nunca, nunca! o destino contrario
«D'além-mar nosso berço me aponta:
«Lá irei resgatar-me da affronta,
«Lá dos bravos a morte haverei.


«Para sempre adeus pois, ó Granada!
«Adeus, muros, e torres vermelhas
«Que brilhaes como vivas centelhas
«Nas verduras de tanto jardim!
«Adeus, paços e fontes d'Alhambra!
«Adeus, altas, soberbas mesquitas!
«E vós, thronos das luas proscriptas,
«Ó Comares, ó forte Albaicim!


«Para sempre, ai, adeus! té á morte
«Viverás n'este peito, ó Granada!
«Mas debalde, ó mansão adorada,
«Que estes olhos jámais te hão de vêr...
«Acabou-se o dominio dos crentes
«N'este solo tão bello de Hespanha;
«Não ha força de heroica façanha
«Que nos possa das ruinas erguer.»


Disse, e o pranto nas faces corria
Do rei mouro, dos seus que restavam.
Longe ao longe as trombetas soavam
Em Granada já feita christã:
Era o canto d'alegre triumpho
Em redor dos pendões de Fernando;
Era o grito d'Allah desterrando
Das Hespanhas os crentes do Islám.




CANÇÃO



Que noite d'encanto!
Que lucido manto!
Que noite! amo tanto
Seu mudo fulgor!
Oh! vem, ó donzella;
Não temas, ó bella,
Que á noite só vela
Quem sonha d'amor.


A luz infinita
Dos astros, crepita,
Arqueja e palpita,
Serena a brilhar:
Assim o teu seio,
De casto receio,
De timido enleio,
Costuma pulsar.


A lua, qual chamma,
Que os seios inflamma,
Fanal de quem ama,
Desponta no céo;
E a nitida fronte
Retrata na fonte,
E estende no monte
Seu candido véo.


E a fonte murmura
Por entre a verdura,
E ao longe d'altura
Lá desce a gemer:
Que sons, que folguedos!
Parece aos rochedos
Dizer mil segredos
D'infindo prazer.


Silencio! o trinado
Lá solta enlevado,
Das noites o amado,
Da selva o cantor;
E o hymno que entôa
No bosque resôa,
E ao longe revôa
Gemendo d'amor.


O facho da lua
Co'a sombra fluctua,
Avança e recua
No chão do jardim;
Nas azas da aragem,
Que agita a folhagem,
Recende a bafagem
Da rosa e jasmin.


Que noite d'encanto!
Que lucido manto!
Que noite! amo tanto
Seu mudo fulgor!
Oh! vem, ó donzella;
Não temas, ó bella,
Que á noite só vela
Quem sonha d'amor.




Á PATRIA

AO MEU AMIGO A. C. LOUSADA

(1852)



Esta é a ditosa patria minha amada.
Camões--Lus.


«Esta é a ditosa patria minha amada!»
Este o jardim de matizadas flôres,
Onde os céos com a terra abençoada
Rivalisam nas galas e primores.


Este o paiz das tradições brilhantes,
Onde cresceu a palma da victoria,
Onde o mar conta ás praias sussurrantes
Longinquos feitos d'extremada gloria.


Esta a nação de laureada frente,
Esta a ditosa patria minha amada!
Ditosa e grande quando foi potente,
Hoje abatida, sem poder, sem nada.


Patria minha, que tens, que em desalento
Vergas a fronte que alterosa erguias?
Porque fitas o gélido moimento,
Perdida a força dos antigos dias?


Que fizeste do genio destemido
Com que domavas esse mar profundo,
E sorrias das vagas ao rugido,
Ignotas praias descobrindo ao mundo?


Onde está esse vasto capitolio
De tuas glorias, o soberbo oriente,
Lá onde erguida em triumphante solio
Empunhavas teu sceptro refulgente?


Então eras tu grande! os reis da terra
Derramavam-te aos pés os seus thesouros;
O mar saudando teus pendões de guerra,
Gemia ao pêso de teus verdes louros.


Então de lanças e d'heroes cercada,
Avassallando a India e a Africa ardente,
A cada golpe da valente espada
Mais uma palma te adornava a frente.


Então prostradas mil hostis phalanges,
Retumbava o fragor de teus combates
Desde as praias de Ceuta além do Ganges,
Fazendo estremecer o Nilo e Euphrates.


Então eras tu grande! hoje esquecida,
Um ecco apenas de teu nome sôa;
Nos braços da victoria adormecida,
Perdeste o sceptro e a magestosa c'rôa.


Os fortes pulsos entregaste aos laços
Da tyrannia e rude fanatismo,
E descahidos os potentes braços,
Caminhaste sem forças ao abysmo.


Um livro apenas te ficou, ó triste,
Por epitaphio da passada gloria;
Tudo o mais acabou, já nada existe
De tanto resplendor, mais que a memoria.


Das quinas os pendões já não revoam,
Aguias altivas, sujeitando os mares;
Teus gritos de victoria, ai! já não soam
Na Lybia e nos gangeticos palmares.


Nações obscuras quando o mundo inteiro
Já tuas glorias aprendido tinha,
Vendo apagado teu ardor guerreiro,
Arrancaram teu manto de rainha.


E repartindo entre ellas seus pedaços,
E soltando depois feroz risada,
Disseram ao passar, cruzando os braços:
«Oh! como essa nação jaz aviltada!»


E teus heroes nas tumbas inquietos,
Vendo insultadas tuas altas glorias,
Agitaram seus frios esqueletos,
Despedaçando as lapides marmoreas.


E cada qual das pregas do sudario,
Erguendo a dextra que empunhára a lança,
De pé sobre o jazigo funerario,
Com torva indignação bradou: vingança!


Debalde! ao vêrem sem valor as quinas,
Elles murmuram nas geladas campas:
Tu, quem sabe? ditosa te imaginas,
E em tua historia mil baldões estampas.


Nação que dormes do sepulchro á borda,
Ergue-te, surge como outr'ora ovante!
Teu genio antigo, teu valor recorda,
E aprende n'elle a caminhar ávante!


Se longos annos d'oppressão funesta
Te pesaram na fronte hoje abatida,
No seio de teus filhos inda resta
Fogo bastante para dar-te vida.


Longe da senda que gerou teu damno,
Desata o vôo por espaços novos;
E o ardor que te levou além do oceano,
Além te levará dos outros povos.


Ah! possa, possa ainda a meiga aurora
D'esse dia feliz brilhar-me pura!
Possa esta lyra, que teus males chora,
Dar-te cantos de gloria e de ventura!


Mas ah! se negra pagina sombria
Tens de volver em teus crueis fadarios,
Se o archanjo das ruinas ha de um dia
Pairar sobre os teus restos solitarios:


Terra da minha patria, ouve o meu brado,
Se inda da vida me restar o alento,
Tu que foste meu berço idolatrado,
Sê minha tumba em teu final momento!




ROSA BRANCA



Eu amo a rosa branca das campinas,
A branca rosa que ao soprar do vento
Languida verga para o chão pendida.


Como a rosa dos valles, pura e bella
Nos campos da existencia ella floria,
Como a rosa dos valles que inda envolta
No orvalho da manhã, desdobra o calix
Ao sol nascente, perfumando as auras.
A idade das paixões mal despontava
Em seu meigo horisonte. Estava ainda
No declinar da melindrosa infancia,
D'essa quadra feliz em que a existencia
É sonho encantador, em que os momentos
Se deslizam na vida como as aguas
De brando arroio, humedecendo os prados.
Mas quão formosas já, quão seductoras,
Por entre as graças da mimosa infancia,
As graças juvenis lhe transluziam!


Com as socias da infancia ao vêl-a ás tardes
Vagando em seu jardim, vós a dissereis
A açucena viçosa entre as boninas,
Ou, entre os lumes da siderea noite,
A estrella da manhã. E, todavia,
Ignorava o poder de seus encantos:
No mundo que a cercava, outras imagens,
Outros amores não sonhava ainda,
Além de sua mãe que a idolatrava,
De seu pequeno irmão, de suas flôres.


E eu amava aquelle anjo como se amam
Os sonhos d'innocencia d'outra idade,
Ou como essas visões, que nos enlevam,
De mundos d'harmonia a que aspiramos.


Vi-a uma vez, ao descahir da tarde,
No jardim assentada ao pé da fonte,
Olhando o tenro irmão, que em seu regaço
Depozera as boninas que ajuntára.
No regaço tambem, junto das flôres,
Repousava, serena dormitando,
A pomba que ella amava, e que sem medo
Viera procurar tão doce ninho.
Nunca a meus olhos se mostrou tão bella,
Tão cheia d'innocencia. D'alvas roupas
Suas fórmas angelicas cingidas,
Se desenhavam, em gentil contorno,
Nas verdes murtas que o jardim ornavam:


Parecia qual cysne repousando
Entre a verdura, de seu lago á beira.
Uma rosa nevada, como as roupas,
Lhe adornava as madeixas côr da noite,
As formosas madeixas que n'essa hora
Contrastavam mais negras, e mais bellas,
Co'a leve pallidez que reflectia,
Em seu rosto adoravel e sereno,
O clarão melancolico da tarde.
Com terna languidez a face meiga
Recostava na mão, curvado o braço,
Em quanto com a outra ora afagava
Sua pomba querida, ora os cabellos
Compunha ao doce infante, que, sorrindo,
Uma após outra lhe mostrava as flôres.


Ao vêl-a assim formosa, ao vêr o grupo
Que fazia com ella o par mimoso,
A mente arrebatada afigurou-m'a
Celeste archanjo que baixára ao mundo
A recolher as orações da tarde,
E que o infante e a pomba achando juntos,
E a innocencia do céo vendo na terra,
Dos irmãos se esquecêra e alli ficára.


Archanjo d'innocencia, ai foge, foge!
Não te illuda este mundo onde poisaste,
Este mundo fallaz, de ti indigno,
Que tuas azas de brancura estreme


Com seu veneno talvez manche um dia.
Archanjo d'innocencia, ai foge! foge!
Procura teus irmãos, revôa á patria!


E fugiu, e voou. No mesmo sitio,
Uma tarde tambem junto da fonte,
A mãe a foi achar sósinha e triste.
A suas plantas uma rosa branca
Jazia desfolhada: era das flôres
A flôr que mais queria. Ao vêr ao lado
A mãe que idolatrava, estremecêra.
Pobre innocente! receiou acaso
Não poder por mais tempo disfarçar-lhe
Seu cruel padecer. A ardente febre
Lhe devorava o seio, e não gemia.
Mas seu dia chegava... A exhausta fronte
Lhe pendeu sem alento, e immersa em pranto,
No regaço da mãe sumiu a face,
Que já cobria a pallidez da morte.
Tres dias depois d'este a flôr mimosa
Que as grinaldas celestes invejavam,
Cahia desfolhada no sepulchro.


Eu amo a rosa branca das campinas,
A branca rosa que ao soprar do vento
Languida verga para o chão pendida.




ENFADO



Dos homens ai quem me dera
Longe, bem longe viver!
Junto de mim só quizera,
Como eu sonho, um anjo ter.
Que esse anjo surgisse agora,
E o mundo folgasse embora
Em seu nefando prazer.


Que vista! cede a innocencia
Á voz do crime traidor;
Folga a devassa impudencia,
Nas faces não ha rubor.
Traz o vicio a fronte erguida,
E a virtude, sem guarida,
Geme transida de dôr.


Vão ao templo da cubiça,
Vão todos sacrificar:
Consciencia, fé, justiça,
Tudo lhe deixam no altar.
Devora-os a sêde d'ouro;
O seu deus é um thesouro,
Porque o viver é gosar.


E que importa que o infante
Morra á fome, e o ancião?
Que importa que gema errante
O proletario, sem pão?
Oh! que importa que o talento
Esmoreça ao desalento?
Que val do genio o condão?


Proclamou-se a lei do forte:
A lei do fraco é gemer.
Ai do triste a quem a sorte
Fez entre espinhos nascer!
É um dogma a tyrannia,
A liberdade heresia,
A servidão um dever.


Que tempos, que tempos estes!
Quem ha de viver assim
N'um mundo que rasga as vestes
Do justo, no seu festim?
Quem ha de? mas esperança!
Um dia foge, outro avança,
E a redempção vem no fim.


Hoje, porém, quem me dera
Longe dos homens viver!
Junto de mim só quizera,
Como eu sonho, um anjo ter.
Que esse anjo surgisse agora,
E o mundo folgasse embora
Em seu nefando prazer.




ANHELOS



Que immenso vacuo n'este peito sinto!
Que arfar eterno de revolto mar!
Que ardente fogo, que jámais extincto
Sómente afrouxa para mais queimar!
Ai! esta sêde que meu peito rala,
Talvez a apague mundanal prazer:
Alli ao menos poderei fartal-a,
Ou n'um lethargo sem paixões viver.


Mas d'essa taça já provei... não quero!
Quero deleites que inda não senti...
A lucta, os riscos d'um combate fero!
Talvez encantos acharei alli.


A lucta, os riscos, em acção travadas
Guerreiras hostes disputando o chão;
O sangue em jorros, o tinir d'espadas,
O fumo e o fogo do voraz canhão!
Alli os gôsos d'um feroz delirio,
Á luz das armas, sentirei em mim,
Ou n'uma d'ellas o funereo cyrio
Que á paz dos mortos me conduza emfim.


Mas não, não quero sobre a terra escrava
A vis tyrannos immolar o irmão...
O mar, o mar, que em sua furia brava
Ninguem domina com servil grilhão!


O mar, o mar! sobre escarcéos revoltos
Em fragil lenho fluctuar me apraz,
Ao som das vagas e dos ventos soltos,
E das centelhas ao clarão fugaz.
Alli sorrindo da feroz tormenta,
E dos abysmos que me abrir aos pés,
Dentro d'esta alma de prazer sedenta
Sublime gôso sentirei talvez.


Mas o mar livre tem um leito ainda
Que os meus anhelos poderá soster...
O espaço, o espaço! na amplidão infinda
Talvez que possa o coração encher.


O espaço, o espaço! qual ligeiro vento
Irei lançar-me n'esse mar sem fim,
E a longos tragos aspirar o alento,
Sentir a vida que desejo em mim...
Ora aguia altiva, desprezando o solo,
O rei dos astros buscarei então,
Ora entre as neves do gelado polo
Voarei nas azas do veloz tufão.


Mas solitario, sem cessar errante,
De que valêra na amplidão correr?...
A gloria, a gloria, que em painel brilhante
Me off'rece a imagem d'um maior prazer!


A gloria, a gloria! mil trophéos ganhados,
Mil verdes palmas e laureis tambem;
Triumphos, c'rôas e sonoros brados
Da turba--é elle!--repetindo além...
Então em sonhos d'uma vida infinda
Verei a chamma d'immortal pharol,
Que em meu sepulchro resplandeça ainda,
Bem como a lua quando é morto o sol.


Mas não, que a inveja com a voz mentida
A luz em sombras poderá tornar...
O amor, o amor, que redobrando a vida,
A vida n'outrem me fará gosar!


O amor, o amor, celestial perfume
Que a mão dos anjos sobre nós verteu,
Doce mysterio que n'um só resume
Dous pensamentos aspirando ao céo!
O amor, o amor, não mentiroso incenso
Que em frios labios só no mundo achei,
Mas immutavel, mas sublime e immenso
Qual em meus sonhos juvenis sonhei...


O amor! só elle poderá n'esta alma
Risonhas crenças outra vez gerar,
De minha sêde mitigar a calma,
E inda fazer-me reviver, e amar.




O FILHO MORTO



No povo d'além da serra
Vai a noite em mais de meio,
E a pobre da mãe velava
Unindo o filhinho ao seio.


«Acorda, meu filho, acorda,
«Que esse dormir não é teu;
«É como o somno da morte
«O somno que a ti desceu.


«Tarda-me já um sorriso
«Nos teus labios de rubim;
«Acorda, meu filho, acorda,
«Sorri-te ledo p'ra mim.»


Mas o infante moribundo
Em seu regaço expirou;
E a mãe o cobriu de beijos,
E largo tempo chorou.