ACTO II

A mesma salla do acto anterior e com a mesma disposição. Dentro do biombo que continua a encobrir a vista dos personagens de scena, encontra-se ainda dormindo a criança. Ao subir o panno, entram pelo fundo Henrique e Margarida.

SCENA PRIMEIRA

HENRIQUE E MARGARIDA

Henrique

Ora aqui tem os novos aposentos
Que servirão de galla aos meus intentos.
Repare? Veja o luxo d'esta salla,
Que a nada, mesmo a nada mais se eguala.
Hein! Hein! Que lhe parece?!

Margarida

(Admirada)

                            Realmente,
É soberbo! ideal! Mas, francamente,
Acho bello de mais: bello de mais
P'ra quem se entrega a gosos tão vestaes!...

Henrique

Engano, Margarida, puro engano;
Tudo isto é impostura e só profano!
Apenas a mudança de scenario,
Com quanto lhe pareça um relicario
O que está vendo, creia. Tão sómente{32}
D'aspecto a mutação, mas apparente
E falso, no que indica, pois de facto,
Quanto vê, é traidor e bem ingrato;
Senão vejâmos: Ha n'este conjuncto
O mais completo, o mais perfeito assumpto,
Para que se analyse e fundamente
Toda, toda a ironia d'este ambiente;
E descrever, eu vou, essa ironia,
Sem lhe oppôr a mais leve phantasia.
Queira ouvir:

Margarida

             Ouvirei...

Henrique

                       Repare então:
O que se nota n'esta perfeição,
Unicamente serve p'ra esconder
A cynica existencia da mulher!

Margarida

(Interrompendo)

Minha rival? Talvez!?

Henrique

                     Nem mais, diz bem!
Sua rival, que arrojo mostra e tem
Para se apresentar envaidecida
No luxo de que a salla é guarnecida.
Conhece-a?...

Margarida

             Talvez não... eu nunca a vi...

Henrique

Pois para isso a conduzo eu hoje aqui:
Mas antes, extasie-se no espavento
D'estas decorações, cujo elemento
Só pretende encobrir o que lá fóra
Se chama a todo o instante e a toda a hora
Miseria, corrupção e tudo o mais
Que tanto affronta e insulta bons mortaes!
Admire-se perante as bambinellas{33}
Que, pendentes das portas e janellas,
Servem para vedar todo este centro
A bachanaes, passadas aqui dentro!
Reveja-se em vestaes tapeçarias
Soffucando o ruido das orgias;
Nos estofos que abafam enthusiasmos,
Os gritos de volupia, os espasmos
D'uma lubricidade illimitada...

Margarida

(Interrompendo)

Mas diga? Não será exagerada
A affirmativa?

Henrique

              Como assim? Duvida?

Margarida

(Admirada)

É que, em verdade, nunca em minha vida
Soube como se possa conjugar
Toda a revolução do lupanar
Com esta ordem e acceio que estou vendo;
E com effeito, Henrique, não entendo,
Não percebo a harmonia que se avista,
Sómente discordante e antagonista
Ao meio onde se espalha a corrupção.

Henrique

É o que lhe parece...

Margarida

                     Qual? Não; não
Posso acreditar, não, no que me diz,
Pois que a nossa existencia jámais quiz
Acceitar os cuidados d'este apuro.

Henrique

(Interrompendo)

E comtudo, affirmo, é um lar prejuro...

Margarida

(Em duvida)

Será, mas... mas para isso não se admitte{34}
A apparencia do arranjo, que transmitte
Não sei que, de completa opposição
Á anarchia da nossa profissão;
E eu sinto que d'instante para instante
O esp'rito se consulta, inquietante,
Na atmosphera que aqui dentro respiro...
Diga? Diga? Onde estou eu?!...

Henrique

                               N'um retiro
Cuja devassidão bem se proclama,
Repito, muito embora tenha a fama
D'honesto, muito embora elle se incense
D'um perfume que nunca lhe pertence.
Duvida ainda?

Margarida

             Sim! eu... eu duvido!
Porque não póde ter aqui vivido
A mulher que appelida de devassa;
E affirmarei, senhor, que a nossa raça
Foge a toda e qualquer preoccupação,
Que não seja gosar devassidão!

 

(Olhando para tudo)

Tudo isto que a meus olhos se depara,
É coisa que se torna muito rara
A nossos olhos! Coisa vaga, inutil,
Sem valôr, pueril, impropria, futil,
Para quem como nós, p'ra quem como eu,
Se ceva nos instinctos que me deu
A sorte, e se refaz insaciada
Na sêde d'uma vida depravada!

Henrique

(Approximando-se de uma chaise-longue, e fazendo signal a Margarida para se sentar)

Está bem Margarida, venha cá;
Sentemo-nos, que mui não tardará
Que momento opportuno e bom ensejo
Apresente mil provas de sobejo,
Destrahindo, negando e desmentindo
Tão errada impressão que está sentindo.{35}

Margarida

(Sentando-se)

Impressão tal, senhor, que, na verdade,
Se apossa de mim com necessidade
De profundar o fim deste recanto,
Receosa de crêr que seja o manto
Da deshonra que o cobre. Pois! Pois quê!
Aonde e em que parte é que ella se vê
Vegetando assim? Diga-me: em que parte
Ella pode adorar a belleza e arte
Do conjuncto tão bem disposto aqui?
Não, Henrique! A deshonra folga e ri
No turbilhão d'immenso desalinho,
Não lhe sobrando tempo p'ra o carinho
E trato da vivenda que se habita;
A deshonra sómente tem escripta
Na mansarda a legivel taboleta
Que annuncia onde pára, onde vegeta.
E as nossas mãos, que apenas tem o dom
De sentir, do dinheiro, o timbre e o som,
Não sabem como tudo isto se faz
Dentro da ordem e d'esta santa paz.
As nossas mãos têm o unico mister
De procurar os gosos e o prazer
Do ouro, que só se emprega na razão
Do luxo, necessario á attracção
Da vista indagadora das orgias,
E indispensavel para a concorrencia
Da prostituidora residencia!...
As nossas mãos sómente se utilisam
Nos postiços que tanto symbolisam
O antro por onde sempre rezidi,
E já n'elle então, uma vez ali,
Quando na ausencia, quando no despojo
Das seducções, só tudo logo é nojo
No labyrintho d'horas viciosas,
Na balburdia de noites amorosas!
Uma vez ali, tudo vem dizer
Do estado social d'uma mulher!

 

E quer, senhor, fazer-me convencer,
Que possa n'esta casa só viver
Alguem que a minha classe represente?

Henrique

Quero sim; quero, e muito facilmente...{36}

Margarida

Porém, como? No luxo do aposento
Não, porque n'elle ha todo o sentimento
Que eu ignoro. Na graça e harmonia
Muito menos, por quanto a apostasia
De virtudes se não traduz assim,
E nem ella se adquire com tal fim!

Henrique

Porque o sabe?

Margarida

              No exemplo d'esta vida,
Que uma outra aniquilou e fez perdida!
Nas provas da existencia que atravesso,
Demonstrando que tudo isto é avesso
Á desorganisada habitação
De quem só s'expõe á prostituição!

 

(Levantando-se e puxando Henrique pelo braço)

Ouça: se, como diz e me affiança,
Estamos sob um tecto d'aliança
Deshonesta; se, como bem proclama
A devassidão n'este lar se inflama
Por impudica e má camaradagem...

 

(Apontando para um Christo que está na parede e para a imagem da Virgem, n'um quadro)

Que faz, senhor, além, aquella imagem?
E inda est'outra aqui? tanto a destoar
Do cortejo que envolve o lupanar?

Henrique

São os taes attributos da mentira,
Ante os quaes se revê e mui se admira!

Margarida

Mentira?! Mas onde, onde apparece ella?
E como e de que fórma se revella,
Se, por muito que faça, inda a não vi...{37}

SCENA SEGUNDA

OS MESMOS E ARMINDA

Arminda

(Entrando pela porta lateral á D. e exclamando dolorosamente surprehendida)

Ah!...

Henrique

(Reparando em Arminda e dirigindo-se a Margarida)

Quer ver a mentira? Olhe... Eil-a ahi!

Arminda

(Altivamente)

Mas que significa este atrevimento?!

Henrique

Coisa de mero e simples argumento,
Não se assuste!

(Pegando n'uma das mãos de Margarida)

               Apresento a minha amante...

Margarida

(Timida)

Senhor! a que se atreve!?...

Arminda

(Cruzando os braços)

                            Que farçante!

Henrique

Serei; no entanto, como as bôas farças
Reclamam a presença de comparsas,
Queira representar o seu papel,
Indicando com essa alma de fel
A peçonha do mal que tanto encobre
Nas apparencias d'uma casa nobre!...
Vamos? Queira sahir d'esse mutismo
Que estampa hypocrisia e diz cynismo!
Queira tirar a mascara traidora{38}
E mostrar ante mim e esta senhora
Como a deshonra n'este lar se fez
E abunda por aqui aos pontapés!...

Arminda

(Com repugnancia)

E porque não, indigno cavalheiro!
Porque não hei-de, em modo sobranceiro,
Indicar-lhe o que pede no momento?
Porque não hei-de dar conhecimento
Ao que exige em palavras que só são
Proferidas p'la bocca d'um villão!
Porque não hei-de com toda a altivez,
Mostrar como anda o mal a pontapés?!

 

(Apontando para Margarida)

Mire-se no instrumento de façanhas
E d'outras mil proezas que são ganhas
Na desgraça. O mal, paira por alli,
E tambem d'egual fórma o veja em si,
Como estigma do mais reles exemplo
Da profanação d'um culto e d'um templo!

Margarida

(Interrompendo e dirigindo-se impaciente a Henrique)

Por Deus, senhor! Indique-me onde estou?!

Henrique

Na casa de quem só rivalisou
Com a miseria a outros imputada
E que, insultando mesmo, toda irada,
A presença das nossas entidades,
O faz, creia, nas mesmas igualdades
Do direito com que eu deva insultar,
Da causa, que m'instiga p'ra accusar;
E, se insultos se pagam com insultos,
Veremos então quem profana os cultos
Do bom caminho; quem mancha e arruina
O que a moralidade nos ensina!
Veremos então quem mais enodeia,
E quem com crime e farça mais hombreia!{39}

Arminda

(Indignadissima)

É o homem que, sem brio e pundonor,
Assim falla! É o biltre, cujo horror
Repugna a toda, a toda a consciencia,
E talvez até á d'essa existencia
Que ora aqui trouxe para mais vexame
Meu! É o homem preverso, mau, infame,
Ultrajando o que só é digno e honesto!

Henrique

(Interrompendo)

Mas que ao mais pequenino e simples gesto
Irá destruir essa honestidade
Apregoada com tanta falsidade!

Margarida

(Antepondo-se)

E é já tempo, senhor, para o fazer,
Visto que me pretende convencer
Do que vem affirmando.

Arminda

                      Ouça, senhora:
Creio bem que, ante força vingadora,
Me encontro n'esta salla; e é bem certo
Que, seja p'lo que for, eu já desperto
Mais ou menos da minha inconsciencia,
Para crêr que pratico irreverencia
Encontrando-me n'estes aposentos.
E eu então, que não tenho sentimentos
Senão os que a desdita me deixou,
Sinto que dentro em mim ora soou
Alguma coisa sã, e não sei quê
D'extranho, a confirmar a crença e fé
Que ha pouco me assistia, suspeitando
De que, por aqui, não anda pairando
O mal...

Henrique

(Atalhando)

        Mas... como assim?! Se tal suspeita,
Vae muito brevemente ser desfeita
Ante o espelho fiel, e reflectir...

Arminda

(Interrompendo)

Do grande soffrimento e minha dôr!{40}
Mas como Deus em tudo dá coragem,
Eu propria mostrarei toda a miragem
Do espelho que pretende descobrir.

(Com altivez)

Mas veja bem, que só vae reflectir
A verdade, e ella, saiba, que aniquilla
Os infames, tornando mui tranquilla
A consciencia accusada! E a verdade,
Chamando os villões á realidade,
Vae prostra-los na immensa confusão
De crimes, sem desculpa, nem perdão!
A verdade, esse grande dom do mundo,
No peito dos malvados crava a fundo
O punhal do castigo merecido!
E ai de si, miseravel! se vencido
Ficar na falsa lucta que travou!
Ai de si, se, p'ra mim, Deus evocou
A redempção, á face do mysterio
Que lhe auctorisa tão cynico imperio
D'insidiar, lançando-me labeus
Que apenas tanto o attingem e são seus!

(Com arrogancia)

Pois bem! Perante mim, e n'este instante,
Se defrontam marido e sua amante!

Margarida

(Surprehendida)

Senhora!? Que dizeis?! É seu marido
Este homem que comigo tem vivido
E que, não sei porquê, aqui me trouxe?!...

Arminda

É! Mas melhor seria que o não fosse!
Vamos : Perante mim e n'este instante,
Se defrontam marido e sua amante.
Procurando em vilissima baixeza
O mal que tão sómente a elles lhe peza!
E se era meu dever escorraçar
Quem se arroja e atreve a enxovalhar
Com descáro, a virtude d'esta casa,
Só muito antes a minha alma se empraza
A repudiar bem altivamente
Os instinctos de tão ignobil gente,
Ordenando que fiquem, por minutos,
Na expiação de feitos e seus fructos.{41}

Henrique

(Interrompendo)

Mas essa altivez, é demais, senhora,
Para quem se transforma em peccadora!
Essa altivez repugna por excesso,
Na mulher que adoptou egual processo
D'ilegitimidade em relações?!...

Arminda

(Com desprezo)

Basta! Basta d'infames allusões!

Margarida

(Antepondo-se)

Sim! Sim! Basta senhor! Não diga mais,
Porque as suas palavras são fataes,
Fataes p'ra o nosso crime, e redemptoras
Para quem se dirigem, salvadoras
P'ra quem lançadas vão! Basta, senhor,

(Apontando para Arminda)

Em nome da verdade occulta em dôr!

Arminda

(Surprehendida)

Mas... o que falla ahi, n'essa existencia!

Margarida

(Com pezar)

Qualquer coisa da minha consciencia!

(Ouvem-se uns gemidos de criança).

Henrique

(Perturbado e levando as mãos á cabeça)

E agora falla a vós d'alta vingança
Nos gemidos que solta essa criança!...

Margarida

(Subitamente e apontando para o biombo)

Senhora! Quem... quem é que chora além?!...

Arminda

É um pedaço d'alma que vil mãe
Despresou!{42}

Margarida

(Cahindo de joelhos)

          Ah! Meu Deus! perdão! perdão!...
Porque falla agora este coração!...

Henrique

(Admirado perante a posição de Margarida)

Surprehende-me esse humilde movimento?!...

Arminda

Falla o remorso em forte sentimento!

Margarida

(Levantando-se e dirigindo-se a Henrique)

Bem dizia eu, senhor! bem dizia eu,
Duvidando de que isto fosse reu
Do cynismo que tanto apregoava!...

Henrique

(Surprezo)

Como assim?! Se inda ha pouco ahi chorava
O producto do crime e da traição?!

Margarida

Era a voz da verdade e da razão,
Illuminando as trevas da mentira!

Arminda

(Interrompendo)

É a prova do mal que tanto aspira.
Para me confundir n'essa torpeza
Que inventou, e que sempre se despreza
Com orgulho e altivez, porque, orgulhosa,
Bem se torna a mulher crente, e ciosa
Dos seus deveres, mesmo, mesmo quando
Isolada p'lo pessimo desmando
Do marido, mesmo inda que atirada
Para o jus da vingança provocada.
Orgulhosa se torna esta mulher
Que, no direito d'um mau proceder,{43}
Em desforço do seu procedimento,
Só antes se acoberta ao sentimento
Que a sã moralidade nos indica,
E ao bem que tudo, tudo dignifica!

 

E é então o senhor, que, sem nobreza
D'aquilo onde se lê, estuda e reza
A melhor oração da nossa vida,
Vem hoje, perante esta alma esquecida,
Interrogar na mais dura exigencia
Quaes as razões porque tenra existencia
Se acalenta no leito de innocentes,
Com meus affagos ternos e dolentes!

 

E é então o senhor, é o senhor,
Que, aggravando inda mais a minha dôr,
Vem hoje aqui no intuito de saber
Porque se encontra ao lado da mulher
Desposada, a criança que acalenta?
E sabe porque? Sabe porque dentro
D'este lar se aconchega esse vivente?
Porque, sem duvida, é seu descendente!

Henrique

(Surprehendido de subito)

Meu filho?!... Que irrisoria affirmativa
Para suas desculpas e evasiva!
Meu filho, an? Com que então, meu filho? E esta?!
Só se a este lar se dá, faculta e presta
O mysierio da tal santa doutrina!
Talvez! Talvez que a Graça, a obra Divina,
Por aqui estendesse o puro manto,
E que depois, p'lo dom do Esp'rito Santo,
Eu tambem seja pae?! Talvez, talvez
O mysterio julgasse pôr-me aos pés
O filho que me indica, não é assim?...

 

(Irado)

Ora vamos senhora! Ponha fim
Á comedia tão mal representada,
E diga como essa alma envenenada
Concebeu a pequena creatura{44}

Arminda

(Apontando para Henrique e Margarida)

No desvario do pae e na loucura
Da mãe!...

Margarida

(Levantando-se e avançando para Henrique)

          Que sou eu! Sim! Sou eu, senhor,
Que na ancia de vingança e de rancôr,
Me desfiz da creança que me deu.
A mãe maldita, está aqui, sou eu,
Que em cegueira da minha profissão
Atirei com a nossa creação
Ao sabôr dos instinctos d'esta vida.
A mãe, que tem por nome Margarida,
E por mister o vicio infamante,
Sou eu! Esta que foi a sua amante,
E de cuja união sahe oriundo
Esse fructo que vê a luz do mundo.
A mãe, sou eu, que na brutalidade
Do meu sentir e tão baixa maldade,
Apunhalou por fórma audaciosa
O socego do lar, e o bem da esposa!
A mãe senhor, sou eu, esta mulher,
Que um pedaço de carne faz viver
P'ra orgia, palpitando em sangue vil!
A mãe sou eu, eu, uma d'essas mil
Clientes de tão indigna alla mundana,
E que, vivendo sob a fórma humana,
Só renegam os dons da Natureza
Por bem degeneradas em baixeza!
A mãe sou eu, que tal nome invocando,
Se affronta um predicado venerando.
Alma não a tenho; odios ha alguns;
Nada d'amor e meritos nenhuns.
A mãe? a mãe, sou eu, eu, este horror!...

Henrique

(Mal comprehendendo a situação)

Margarida! Que diz?!...

Margarida

                       Digo, senhor,{45}
A primeira verdade em minha vida;
Digo que essa criança foi nascida
Das nossas relações, e existe aqui,
Em virtude do mal com que eu agi.
É minha filha! e sua o é tambem,
Mas nunca, nunca em mim, teve ella mãe!

Henrique

(Attonito)

É minha filha?! Mas então... então...
O que se fez da minha sã razão?!...

Arminda

(Approximando-se do biombo e abrindo meia porta de fórma a ficar visivel o interior aos personagens)

De ha muito anda perdida.

(Apontando para a criança)

                         E aqui tem
Os espinhos da estrada d'onde vem!

Henrique

(Approximando-se um pouco)

Meu Deus! O que vejo?! Ella? A pequenita?
Sim! é ella! Mas, como se acredita
Tudo isto?!

Margarida

           Pela fórma com que obrei
Em face d'esta nossa infame grei.

Henrique

(Encolerisado e avançando para Margarida)

Porém, com que direito me levou
A proclamar um crime que tramou?

Margarida

(Humilde e avançando um pouco)

Não sei! Olhe? não sei!... Bem vê, bem vê,
Que nós obramos sem alma nem fé.
Pois eu sei lá senhor! sim, eu sei lá
O que fiz? Foi apenas o que dá
Esta vil creatura! Foi sómente
A pratica d'um acto inconsciente!...{46}

Arminda

(Interrompendo)

E que, talvez, por essa inconsciencia,
Um porvir se consiga da innocencia...

(Apontando para o berço)

Descança ella no leito que lhe dei,
Embalada p'la dôr que alimentei.
E nas minhas canções, mesmo chorando,
A pouco e pouco irei sempre insuflando
A redempção. Depois, quando mais tarde,
Ao bom Deus eu imploro que m'a guarde
E d'esta virgindade faça alguem,
Já que o mesmo Deus d'ella me fez mãe.

 

(Approximando-se do berço)

Vejam? Sonha decerto na ventura
Que o acaso lhe trouxe, e na candura
Do berço onde dormita! Berço pobre
De brocados, mas rico, rico e nobre
Do bem! Sonha decerto na esperança
Com que se entrega á minha confiança:
Sonha, quem sabe? na libertação
Da cadeia que traz humilhação!...

Margarida

(Avançando e exclamando)

Minha filha! Meu Deus! Grande verdade!
É a isto que se chama honestidade?

Arminda

(Continuando, emquanto Henrique fita a creança succumbida)

Vejam?! E era, era então este senhor,
O grande, o grande espelho reflector
Do meu crime?!

(Vendo que Henrique emudece)

              Ande? Diga? accuse e insulte,
Para que todo o mundo veja e ausculte
A farça attribuida! Vamos, falle?
Porque emudece?

(Apontando para a creança)

               Tem aqui o mal,
E é ante elle que deve demonstrar
O cynismo, a baixeza d'este lar,
E tudo o mais que omitto, occulto e callo!{47}

Henrique

(Timido e a custo)

Fallar? Eu... eu... senhora?

(Com pausa)

                            Sim, eu fallo...
Eu vou fallar, consente?...

Arminda

(Altiva)

                           Porque não?!

Henrique

(Curvando-se humilde)

Pois fallarei! (pausa) Perdão!

Margarida

(Cahindo de novo aos pés de Arminda)

                       Perdão! Perdão!

Arminda

Mas, em nome de quê?... sim?... e porquê?!

Henrique

Do remorso que assiste, e se antevê!

Margarida

P'la crença, de que abjuro e reneguei
P'ra sempre o caminho em que me abysmei.

Arminda

(Levantando os olhos para o ceu)

Senhor! Senhor! p'ra os pomos da discordia,
Venha a vossa infinita miser'cordia!

 

 

 

 

CAHE O PANO

 

Fim do segundo acto

{48}
{49}

 

 

 

 

 

 

EPILOGO

A mesma scena do prologo. Margarida, ao subir o panno, encontra-se sentada junto d'uma pequena meza, com a cabeça apoiada nas mãos e completamente succumbida.

SCENA PRIMEIRA

Margarida (só)

Eu a chorar! e lagrimas ardentes
Deslisando nas faces reviventes
De vergonha! Deus na alma! e ao coração
Amor! Ao meu espir'to a reflexão!
Na consciencia a revolta e o remorso
Em que já me debato e me contorso!

 

O que é? que póde ser? A reacção
Convulsionando o corpo, e a razão
Subjugando-me, por demais vencida!
O que é? (Pausa)
                É a verdade, Margarida!

 

Verdade?! E quem responde? Quem me falla?
É Deus! Mas Deus compara, Deus eguala
Esta mulher aos dons da Natureza?
Sim. Porque se nasceu para a baixeza,
Redime-se p'ra o bem! Ah! mas eu minto
E pequei, pois agora mesmo eu sinto
Que para o mal o mundo me não doou.
Nem Deus para a baixeza me creou!
Deus, amando, só cria para amar,
E eu amei... oh! amei, mas a sonhar,{50}
Apenas a sonhar, sim, porque alguem
Sepultou do meu sonho todo o bem!
Eu nasci para amar, e amei; amei
Quanto pude ante a bôa e pura lei
Do amor, mas, mas depois, quem tanto amava,
Disse-me um dia que isso não passava
De um mytho, e foi-se andando na procura
D'aquillo que á pobreza salva a agrura;
Foi-se andando na busca de riqueza,
Porque eu era pobre, e isso se despreza!
E é então, é então que o meu amor
Se arrebata nas garras do impudor;
É então, que me afundo nas camadas
Que alimentam as tristes depravadas!
Sim! Eu amei! E amei tanto, amei tanto,
Que por causa de amor tão puro e santo.
Busquei embriagar-me n'esta orgia,
Para que o grande Deus a ninguem cria!

 

(Pausa)

Eu a chorar!... e lagrimas ardentes
Deslisando nas faces reviventes
De vergonha! Porque? E que fiz eu?
Fiz tudo e nada! Fiz crime e labeu;
Tudo, tudo p'lo mal d'uma existencia,
E nada, nada pela inconsciencia.
E porque alguem, alguem me aniquilou,
Fiz tudo, e nada. Fiz... fiz o que sou!

 

(Pausa)

Eu a chorar! e lagrimas ardentes,
Velando os olhos bem reminiscentes
Do que vi!...

 

             E que vi eu?... A mulher,
A mulher como ella é e deve ser.
Vi-a altiva e com toda a magestade
Destruindo o insulto á sombra da verdade!
Vi-a repudiando com nobreza
Os feitos da maldade e da torpeza!
Vi-a... vi-a tomando nos seus braços
O fructo que proveio de devassos!
Vi-a, evocando graças divinaes
N'uma orchestra de sons tão maternaes
P'rá criança que a minha embriaguez
Ousou depositar, lançar-lhe aos pés!{51}
E como tudo ainda fosse pouco,
Em paga d'um agir mau, vil e louco,
Eu vi-a, meu Deus! eu vi-a, meu Deus!
Pedir que me enviasses lá dos céus
O perdão!

 

         Mas que fiz eu?!... Tudo... e nada...
Fiz... o que faz mulher desnaturada!

(Tomba a cabeça sobre as mãos em posição dolorosa)

SCENA SEGUNDA

MARGARIDA E FERNANDO

Fernando

(Entrando pelo fundo)

Ora até que emfim, linda Margarida!?
Por onde tem andado tão perdida?

Margarida

(Interrompendo n'um estremecimento subito de surpresa e quasi de indignação)

Ah!...

Fernando

(Avançando e continuando)

      Por onde se tem tornado preza
E errante a sua graça e gentileza?!

Margarida

(Dissimulando a tristeza)

Em parte alguma, creia...

Fernando

                         Não parece...
E olhe que o promettido não se esquece.
Mas que tem? Que tem? Vejo que chorou?!

Margarida

Chorar? Eu?! Eu?!

(Á parte, limpando os olhos)

                 Oh! sim! não se enganou!
(alto) Chorar? Eu?! Não!{52}

Fernando

                        Mas, seus olhos vermelhos,
São de tal flagrantissimos espelhos!

Margarida

(Dissimulando)

Nada isso diz, embora lhe pareça;
Effeitos só de dôres de cabeça
Que ha dias me apoquentam...

Fernando

                            E que, espero,
Melhorem ante o meu voto sincero,
E não impeçam minha estada aqui,
Já que de novo me honra, e me sorri
O convite, tornando-se occupado
O logar que me disse ter vagado.

Margarida

(N'um rapido estremecimento)

O que?! Fui eu que o disse?! Eu é que o disse?!

Fernando

(Com estranheza)

Duvída? Mas que grande exquisitice
Representa essa duvida!...

Margarida

Porque?!...

Fernando

(Tirando do bolso um cartão)

Em face do bilhete onde se lê
O seu pedido, e ainda mesmo, quando
Claramente dizendo e bem frizando

(Approximando-se de uma porta latteral)

Certas palavras, junto d'esta porta;
A não ser que, que seja letra morta
O que me affirmou!{53}

Margarida

(Com repulsão)

                  Não! Não me recorda?!

Fernando

Veremos, n'esse caso, se, se aborda
A phrase muito nitida ao ouvido,
Para que ella jámais tenha esquecido.

 

Foi aqui, veja, foi n'este logar
Que, apontando-me altiva e sem pezar,

(Olhando para o interior d'um quarto)

Certa vaga que ali dentro existia,
Perguntou o que lá se achava e via.

 

Respondi... o que ainda vejo:
                             Um leito.

(Malicioso)

E por signal que estava bem desfeito,
Em contraste com toda a compostura
Que ora se nota. Então, é n'esta altura
Que assim exclama:
                  «Está ao seu dispôr».

Margarida

Lembra-me com effeito! (Á parte)

                                Mas que horror!

(Alto e approximando-se de Fernando)

É verdade! E a verdade diz, Fernando!
Mas foi um dito mau, dito execrando!
Dito que não devia proclamar

(Com desespero)

E que fez mal, só mal, em m'o lembrar.

Fernando

(Surprehendido)

Porém, nada percebo, e muito menos
Com taes palavras, cujo modo e acenos
São expostos em termo áspero e rude.

Margarida

(Apontando o leito)

Aquella vaga, occupa-a hoje a Virtude.{54}

Fernando

(Estupefacto)

Como assim?! Isso é dito com ironia?!...

Margarida

Fallo com consciencia e ufania
De a possuir!

Fernando

             Verdade?! Isso é verdade?!...

Margarida

Digo-lh'o com a mor sinceridade.
O leito que em orgias se desfez,
Hoje... sómente cobre a honradez!

Fernando

(Approximando-se da meza, sentando-se e com ironia)

Bravo!... Sim senhor! Muito bem! Comtudo,
Espero que me explique por miudo
O que em vida de gran desfaçatez
Se entende por virtude ou honradez.

Margarida

(Approximando-se tambem da meza e sentando-se)

Será um sacrifício, mas, emfim,
Cumprirei seu desejo.

Fernando

(Rindo)

                     E quanto a mim,
Agradeço a irrisoria explicação,
Que ouvirei com a maxima attenção.

 

Vamos. Comece. O que é honra e virtude?...

Margarida

(Com amargura)

Sabel-o no passado, eu nunca pude,
Mas no presente, d'ella tenho a fé!
Virtude e honra, meu caro, eu lhe digo... É...{55}

(Com certo desprezo)

É... o que o senhor nunca comprehendeu!...

Fernando

(Cada vez mais surprehendido)

Que nunca comprehendi? Que disse?! Eu?! Eu?!

Margarida

Sim, meu caro senhor! Que nunca, nunca
Comprehendeu; pois quem lança p'ra espelunca
Do vicio a mulher que disse amar,
A virtude não sabe interpretar.

Fernando

Allude então...

Margarida

(Atalhando)

               Á minha triste historia
Muito bem reflectida na memoria!

Fernando

Mas isso... já lá vae ha tanto, ha tanto...

Margarida

Ah! Lembra-se? Pois bem! E embora o pranto
Volte a offuscar-me as faces de vergonha,
Rememoro o que em epocha risonha
D'uma vida serviu para o transporte
Da reles existencia e fraca sorte.

 

Creança, inda bem nova, inexp'riente,
Senti n'alma o que sente toda a gente.
Despertando p'ra quadra d'um amor:
E a pouco extasiada n'esse alvôr,
Deixei que me prendessem sympathias
Que vibravam n'um canto de harmonia:
Tudo então me sorria e tudo amava!
A graciosa manhã que despontava
No melodico trio de avesinhas,
O sol que vivifica as floresinhas,
O declinar da tarde, as noites bellas,
Da lua o brilho, a graça das estrellas,{56}
O conchego, a familia, o trabalho,
A paz, tranquilidade e o agasalho,
A invocação, a biblia e a reza;
Eu amava, emfim, toda a natureza,
Pelo proprio amor da juventude,
A vibrar como cordas de alaúde
N'um peito que se alava para o bem!
Mas de subito, meu Deus! esse alguem
Que me elevara aos paramos do amor;
Quem me ajudara a crel-o no primôr
Da verdade, e guiava o norte meu,
Que devia subir até ao ceu...
Corta, derruba, as azas d'este alar,
E obriga-me a cahir, faz-me tombar
No grande turbilhão da tempestade,
Na hecatombe e na mór fatalidade!
E tudo, tudo então quanto eu amava,
Breve se convertia e se trocava
Pela renegação, pela baixeza,
Deixando já d'amar a Natureza,
Para me filiar em quê? Em quê?
Nas hostes dos que nunca teem fé!

 

E tombei! E cahi! (chorando).
                             Sim, sim, tombei!
Á custa de quê? Deus meu! Nem eu sei?!

(A Fernando)

Sei! Sei, senhor! Á custa do abandono
Que me precipitou n'aquelle somno,
Cuja lethargia obra o desvario
N'um corpo molestado e doentio,
Em proveito de todo o esquecimento
Do que de bem havia em sentimento!

 

Pois se eu amava tanto, e d'esse amor
Em si depositei e puz, senhor,
A esperança ditosa de meus dias,
Sem que se me opposessem phantasias;
Se tudo lhe entreguei: alma, honra e vida,
Para que tornar tão desvanecida
A fraqueza da minha confiança?...

Fernando

(Pretendendo desculpar-se)

Porque eu... porque eu tambem era creança...

(Levanta-se){57}

Margarida

Não! Não! Diga que foi a sêde e fome
De usufruir, e após, pensar que o nome
Humilhava, e jámais lhe serviria
P'ra linda sugestão que me incutia;
Diga: foi o que muita gente faz,
Captivando, prendendo em fórma audaz
O debil ser, a fragil creatura,
Que ora subjugada ante a noite escura
Do vosso infame e vil, e vil narcotico,
Obedece depois ao espasmodico
Furôr de saciar as intenções
Com que se roubam fracos corações.
Não é isto?

Fernando

(Perturbado)

           Mas...

Margarida

(Levantando-se)

                 Mas... senhor Fernando
Queira explicar-me agora quando, quando
Foi por si concebida a qualidade
Virtuosa, por entre a sociedade?!

Fernando

(Succumbido)

Actualmente á face da razão...
Que decerto ditou a reacção
Do mal, d'esse mal que m'inclue nos réus
Do mundo!

(Pausa e estendendo a mão a Margarida)

         Margarida... adeus!...

Margarida

(Apertando a mão de Fernando)

                               Adeus...

(Fernando sae){58}