The Project Gutenberg eBook of A Nuvem: Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo

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Title: A Nuvem: Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo

Author: Luís Couceiro


Release date: January 15, 2011 [eBook #34964]
Most recently updated: January 7, 2021

Language: Portuguese

Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/34964

Credits: Produced by Pedro Saborano

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A NUVEM: PEÇA DRAMATICA, EM VERSO, COM PROLOGO, DOIS ACTOS E EPILOGO ***

 

LUIZ COUCEIRO


 

 

 

 

A NUVEM

 

 

 

 

Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo

 

 

 

 

 

 

AVEIRO
Typ. "Minerva Central"
1910

 

 

 

 

 

 

 

 

LUIZ COUCEIRO


 

 

A NUVEM

 

 

Peça dramatica, em verso, com prologo, dois actos e epilogo

 

 

 

 

AVEIRO
Typ. "Minerva Central"
1910

 

PERSONAGENS

Henrique

Fernando

Arminda

Margarida

Maria, creada

Uma creança de 6 mezes

 

PROLOGO

Casa de Margarida, em completo desalinho. Uma meza ao centro, á qual Henrique se encontra sentado, lendo alto a carta que acaba de escrever.

SCENA PRIMEIRA

HENRIQUE, DEPOIS MARGARIDA E MARIA

Henrique (só)

«Corre um anno de vida desgarrada
Que sempre tem levado o teu amante,
E outra vida, decerto, attribulada,
Suavisar, se procura, n'este instante.
Vou partir, Margarida, e sê feliz;
Porque emfim, cêdo apenas a um esforço
De sentimento são; e ás almas vis
Cabe-lhe sempre o premio do remorso!
Adeus! E vae fazendo o que poderes
Para esquecer este homem transviado
Do trilho, da conducta, e dos deveres!
Adeus! A nada mais sou obrigado!»

(Fechando a carta, pousando-a na meza, e em momento resoluto)

Sim! sim! jámais podéra ser possivel
Combater contra a minha reflexão!
E depois, que diabo! não é crivel
Mudar-se o santuario da união
Pelo louco viver do mundanismo;
Não, não é crivel ter a vida assim,{6}
E salvar-me, procuro, d'este abysmo,
Quando, demais, alguem soffre por mim!

 

(Pausa e reflectindo depois)

De facto, Margarida tem encantos,
Tem sim, mas quaes? Aquelles tão sómente
Que a tornam fascinada só de quantos
A pretendam gosar satyramente!
Goso estupido, goso só brutal,
Que nos converte em féras, ou ainda
N'um ente desprezivel e anormal!

 

(Pausa, exclamando depois com sentimento)

E abandonar-te, eu, minha bôa Arminda,
Levado na corrente d'esse imperio!

(Tirando um retrato do bolso e admirando-o)

Oh! rosto tão suave de mulher!
Perfil tão nobre, tão grande, tão sério,
Como não será muito o teu soffrer!
Semblante de bondade, a contrastar
Com falsos attractivos de mundanas!
Aqui, traços de paz bem salutar,

(Em meditação)

N'aquellas... linhas torpes e profanas!
Rosto meigo que outr'ora me prendeu,
A elle regresso, a elle vão meus passos,
E crê que vou guiado pelo ceu,
Buscando, d'amizade, os santos laços.

 

(Beijando o retrato e levantando-se de subito)

Ah! É verdade! Tenho d'ella um filho!
Nem me lembrava d'esse poderio!...
Foi a fatalidade do meu trilho,
E complemento do meu desvario...
Comtudo, não importa, porque em suma,

(Conformando-se)

É producto de falsas relações
Que se dissolvem, qual tenue espuma...
Existe uma creança; mas razões
Me forçam a esquece-la já tambem.

(Tirando do bolso uma carteira)

Concedendo dinheiro em abundancia
Para que Margarida, como mãe,
Provenha ao alimento dessa infancia.

(Pousando a carteira na meza e espreitando em silencio a uma porta lateral){7}

Coitadita da pobre creancinha!...
A dormir!... Tem nos labios um sorriso...

(Atirando-lhe um beijo)

Recebe um beijo, o ultimo, filhinha!...

(Retirando-se a custo)

 

Custa-me... mas então? Se me é preciso!
E depois, meu bom Deus, crê, eu vos juro,
Que farei tudo quanto fôr humano
Para vellar por ella no futuro!

(Pausa, depois da qual, com coragem)

 

Vamos!

(Parando e com desalento)

       É bem profundo o desengano!

(Pegando no chapeu)

De resto, casa, orgia... tudo ahi fica...
E volto, emfim, ao lar santo e bemdicto,
Onde, só de virtude, a vida é rica,
E onde chego humilhado e bem contricto!

(Sae rapidamente).

SCENA SEGUNDA

Margarida (só)

(Entrando por uma porta lateral e esfregando os
olhos)

Safa! Que dormir tão pesado o meu!
Nem que fosse uma noite d'hymeneu,
A prolongar um somno de fadiga!
E então, que curiosa lucta e briga
Com os sonhos, os mais extravagantes...
A vêr-me rodeada só d'amantes,
Que disputavam a honra e primazia
Da posse luxuriante d'uma Lia!
Safa! Que pezadello interminavel...

 

(Pausa, depois da qual, repara na carta)

Olá! Temos missiva? D'um amavel
D. Juan, talvez?

(Vendo a letra)

                 Mas não, porque esta letra
Pertence ao cavalheiro que penetra
No aposento. É do meu nobre senhor!
Não ha duvida! Ou antes, e melhor:{8}
É d'um obediente e humilde escravo!

(Lendo a carta e cynicamente admirada)

An?! O quê?! Que diz elle?! Bravo! Bravo!
Muito bem! Apoiado! É admiravel!

(Largando gargalhada sarcastica)

Eis uma acção esplendida, louvavel!

(Sentando-se)

Coitado! Que desgraça! Pobresito,
Que diz voltar em tudo bem contricto
Aos braços da mulher! (rindo) sim, sim, coitado
Do triste e pobre errante, transviado
Do bem!... Mas que pateta! Mas que tolo!
Vae-te menino, vae-te, que o consôlo
Não me falta, acredita; pódes crêr!
E lança-te nos braços da mulher,
Pois que duvida? Ora essa? Porque não?

 

(Com sarcasmo)

Mas que parvo, irrisorio e toleirão,
Não veem!? Que ridiculo ignorante,
Que nem ao menos sabe ser amante!
E deixa carta, sem ter a coragem
De dizer que se acolhe na frondagem
Da virtude!

(Reconsiderando)

            Virtude! Mas que é isso?!
Um nome que se torna ôco e omisso
Entre nós. A virtude é ter dinheiro
Que bem nos sustente o orgico viveiro,
Porque amantes, se atiram para o lixo,
Vindo outros que sustentem o capricho!

(Indo para sentar-se e reparando na carteira)

Ah! espera! deixou uma carteira!
E tem notas! Lembrança bem certeira,
Porque... emfim... é só isto o essencial
P'ra presidir á nossa bachanal...

(Depois de fechar a carteira e como que tomando uma rapida resolução, senta-se a escrever uma carta, tocando a campainha).

SCENA TERCEIRA

MARGARIDA E UMA CREADA

Maria

(Entrando de fundo)

Que deseja?{9}

Margarida

            Recado algo importante
Que desempenharás já, n'este instante.

(Levantando-se)

Levarás esta carta ao outro andar,
Mas não te deves nada demorar
Porque inda outro negocio bem urgente
Teremos que cumprir, presentemente.

(Entregando a carta á creada, que sáe)

Vae...

SCENA QUARTA

Margarida (só)

       Ora pois... sou livre por minutos
Dos élos deshonestos e corruptos!
Mas não tão livre, não tão livre ainda,
Que Henrique não levasse á D. Arminda
O fructo do transvio de seu marido.
Coitado! Mas que triste arrependido!

(Rindo)

E talvez concebesse que o seu filho,
De futuro, me sirva d'impecilho.
Ná, ná! Quem se desliga a compromissos,
Não o faz com intuitos só postiços.
Pois que!? Foge da vida deshonesta,
E deixa aqui o pomo de tal festa?!
Ná! que o leve; que o leve para o lar,
Onde a contricção vae representar.
E depois, almas vis, más e preversas,
Pódem ás vezes ser nobres e adversas
Ao crime.

(Entrando rapidamente na alcova e voltando á scena com uma creança de seis mezes)

 

          Vaes gosar creação casta,
Que te infiltra dignissima Madrasta:
Vaes sahir d'este reles ambiente,
Onde se perde muita e muita gente!

(N'um momento de subita reflexão e levando a mão á testa)

An?! Que digo? Que disse eu inda agora?!
Não seria um lampejo, ou uma aurora
De verdade, que acaso illuminou{10}
A minha alma, e p'la mente me passou...

(Com resolução)

Sim, minha filha, quero que vás. Vae;
Vae acolher-te á sombra de teu pae;
Vae abrigar-te n'essas consciencias
Que salvam e redimem existencias!

SCENA QUINTA

MARGARIDA E MARIA

Maria (entrando)

Satisfeito foi já o seu recado...

Margarida

Pois outro tem de ser executado
E deligentemente. Espera um pouco,
Emquanto escrevo á Dona d'esse louco
Que hoje me abandonou. E na pequena
Segura já.

(Entregando-lh'a e sentando-se a escrever)

           Alguns traços de pena,
E prompto. Nada mais ha a fazer
Na consciencia de tão reles mulher!

(Dictando o que escreve)

«Senhora!
          Deposito essa creança,
Filha de seu marido, e esperança
Tenho que irá ser muito mais feliz,
Do que no antro que apenas só se diz
Do vicio, da vergonha!»

(Entregando a carta á creada)

                        Ora aqui tens...

(Á parte)

E inda dizem que são más estas mães!

(Á creada)

Desejo que sem perda de momento
Ás minhas ordens tragas cumprimento.
Procuras indagar qual a morada
Do fugitivo Henrique, e lá, na escada,
A pequenita deves collocar,
Bem como a carta junta ahi deixar.
Depois, tens que affastar-te de repente,
Percebes?{11}

Maria

          Muito bem, e fico sciente.

(Estupefacta)

Porém, senhora! nem sequer um beijo
Na creancinha?!

Margarida (imperiosa)

                Basta-me o desejo
Da sua vida. Vae! Assim t'o ordeno,
Muito embora com alma de veneno!

Maria

(Indo a sahir e parando ao fundo)

Mas... mas de que é feito esse coração?!

Margarida (indicando-se)

É coisa que não ha na habitação!
Vae...

Maria (repentina)

       Irei. (sáe).

SCENA SEXTA

MARGARIDA E FERNANDO

Fernando (entrando)

                    Margarida! A que dever
A honra e o distinctissimo prazer
Da sua carta?

Margarida

(Approximando-se de Fernando)

              Irá sabel-o já,
Meu caro e bom Fernando! Venha cá?

(Levando-o junto á porta que deita para o quarto)

Julgo que conquistou ardente feito!

(Apontando para o quarto)

Ora diga? O que vê d'aqui?{12}

Fernando (olhando)

                           Um leito!

Margarida

Em que ha pouco vagou certo logar...

Fernando (interrogando)

... E então?!

Margarida

              Querendo... Venha-o occupar.

 

 

Cae o panno

FIM DO PROLOGO{13}

 

ACTO I

Casa de Arminda ricamente mobilada. Portas lateraes e ao fundo. Á direita alta um biombo cuja frente dá para os espectadores e encobre de fundo o que dentro se passa. Uma creança repousa n'um pequeno berço. Ao centro da salla uma meza sobre que pousa um cesto de costura e onde se encontram algumas peças de enxoval para creança. Arminda, junto á meza, vae contando uma a uma e com sentimento aquellas pequeninas peças de roupa.

SCENA PRIMEIRA

Arminda (só)

... E vinte!...
               O indispensavel enxoval
P'ra essa creança, que é filha do mal!
Apenas o preciso p'ra o conchego
Do ente, que, desvario tolo e cego,
Arrumou para o mundo, e que o destino
Trouxe ao lar do infortunio! Meu Divino
Deus! A vossa vontade seja feita!
E a mulher, que a desdita sempre espreita,
Curva-se ante o poder d'essa grandeza,
Que a ella me ligou e me traz preza!

 

(Com dôr)

Um pequeno enxoval, mas sufficiente
Para poder cuidar d'esse innocente
Que a vil libertinagem engeitou!
Que a infamia, por onde só errou{14}
A vida impura, incasta e illegitima,
Trouxe aos portaes da sua triste victima!

(Affastando-se da meza)

E que havia a fazer?... Repudiar
O fructo da loucura?... Regeitar
A offerenda, que, quem sabe? foi Deus
A salva-la do mar, dos escarceus
Da ignominia?! Quem sabe? foi alguem
A doa-la aos carinhos d'outra mãe!
Que havia de fazer? Tornar-me ré
Da deshonra, e com simples pontapé
Exclamar:--Vae, vae para a sociedade
Em que se mancha e perde a honestidade!
Vae tambem corromper-te em sacrificio
D'essa libertinagem, e do vicio!
Não! Não! Ninguem me dá esse direito,
Que apenas crearia mais um leito
Na impudica mansarda da baixeza!
Não! ninguem me auctorisa essa fraqueza.
Ninguem, mesmo ninguem, tal me concede,
Nem jámais a minha alma diz e pede
Que lance p'ra mizeria e para o crime
Uma outra alma que d'elle se redime!...

 

(Entrando no biombo, e junto ao berço, com resolução)

Fica, pobre creança! Assim o quero
Fica, porque eu respeito e mui venero
O que o destino dá.

(Com pausa e sentimento)

                   Elle predisse,
Em leis, que essa cruel libertinice
D'um marido não tinha o grave jús
De arrumar-te, impiedosa, para o púz
Virulento d'infame corrupção!

(Curvando-se sobre o berço)

Fica sim! Tens aqui um coração
Repleto de carinho e sentimento!
Fica no lar, que, como deserta ilha,
Escolhos cerca! Fica, és minha filha!...
E tudo, pelo meu Deus, eu perdôo.
Fica creança, fica... Eu te abençôo!

(Sentando-se junto do berço)

 

E aqui 'stou sendo mãe, mãe adoptiva,
Do gérmen d'essa orgia productiva!

(Pausa){15}

Não quiz Deus dar-me um filho que pedia,
E que n'este deserto tanto urgia,
Para que n'um momento, n'um instante.
Tenha d'acalentar o que é da amante!
Não quiz Deus conceder-me tal mercê!...

 

(Pausa)

Marido... foge ao lar por onde a fé
Do amor pode ser a unica sincera...
E lá vae, lá vae elle como a féra
Viciada, em procura do covil,
Onde recebe o goso d'essas mil
Desgraçadas sem alma, sem consciencia!
Lá vae elle, deixando esta innocencia
Do altar que a pura Egreja solidou,
Em troca do que nunca, nunca amou;
Porque amar, nunca e nunca sabe, quem
Se ausenta de tão santo amor de mãe!
Lá vae, lá anda n'essa podridão
Que rouba o sentimento e a razão!
Que destroe, injuría e enxovalha,
Que infecta, que corrompe, prende e emalha
A noção do respeito p'lo dever!
Lá anda n'esse impudico prazer,
Cujas garras tão vis, cynicamente
Arrebatam do puro e casto ambiente
Todo esse bem, que n'elle se creara;
Cujas garras, de força bruta, avára.
Arrebatam do lar santificado
O descanço e o bem que lhes é dado!
Lá anda, lá vegeta no monturo
Mais ignobil, mais baixo, mais impuro,
Que a desgraça creou, sustenta e nutre;
Filando com intuitos só de abutre,
E attributos de farça e d'ironia,
As prezas de tão grande vilania!
Vilania,--que em seu lubrico espasmo,
Chasqueia da virtude, com sarcasmo,
Ri da fé, desvirtua a honestidade,
Deprava o sentimento e a dignidade.
Insulta, zomba e rasga sem respeito
O véu do precioso preconceito!
Suja, quebra, dissolve e inutilisa,
Macúla, estraga e já esterilisa
A pureza e o brilho do que é são!
Abala, derrue, prosta em confusão,{16}
Det'riora, desfaz, calca e elimina
A graça do bom lar, graça Divina!...

 

(Pausa, deixando tombar a cabeça sobre as mãos e exclamando dolorosamente)

E foi... foi assim que essa vilania
Me roubou o socego e a alegria!
Foi assim, assim, que ella aqui entrou,
E que de mim se riu e só zombou!

(Encosta-se sentidamente ao berço)

SCENA SEGUNDA

ARMINDA E HENRIQUE

Henrique

(Abrindo cautelosamente a porta de fundo, entrando a medo e penetrando a pouco e pouco no aposento, falla a meia voz).

Ninguem!... Sómente a paz religiosa
Da verdade!... Só graça harmoniosa
Da virtude!... Sómente o ar suavissimo
Do bem!... O perfumado e o dulcissimo
Aroma a castidade.. que trahi!...

(Respirando desafogadamente)

Ah! Como se respira bem aqui!...
Deixai-me que, aspirando a longos tragos
O balsamo do amor e dos affagos,
Eu bem me purifique no sacrario
Que envolve o precioso relicario
Do natural, do justo, do acceitavel!

(Suspirando de novo)

Ah! Sim! mas que atmosphera respiravel
A realidade!

(Começa o dialogo natural entre os dois, que se não vêem e se não ouvem um ao outro)

Arminda

(Parecendo despertar dum sonho)

            E tudo, só tudo isto,
Se me afigura um sonho!...{17}

Henrique

(Olhando para o ambiente)

                          Além, um Christo,
Em expressão suavissima, a espargir
Bondade, a abençoar, a redimir!

Arminda

(Olhando para a creança)

Coitada! Que destino o teu seria!?

Henrique

(Continuando a reparar em tudo)

Ali, a Virgem Mãe! Virgem Maria,
Recebendo o amor em seus ternos braços.

Arminda

(Descobrindo o rosto da creança)

E em verdade, verdade, muitos traços
D'esse teu pae, na fronte, tens escriptos...

(com ternura)

Aos d'elle, se assemelham teus olhitos!

Henrique

(Voltando-se para a meza)

Aqui, vejo uma cesta com roupinha...

Arminda

(Continuando a examinar a creança)

E também se parece esta boquinha
Bem rosada...

Henrique

(Analysando a roupa)

             Enxoval d'uma creança,
Posto em disposição cuidada e mansa.

Arminda

O narisito não. Destôa um pouco
Do perfil d'esse mau e d'esse louco...{18}

Henrique

(Pegando em algumas peças de roupa)

Chambrinhos e babeíros; camisinhas...

Arminda

(Descobrindo a creança)

São perfeitos os braços e as perninhas...

Henrique

(Continuando a analysar a roupita)

E outra tanta roupinha de petiz,

(Admirado)

Decerto, para algum ente feliz,
A quem Arminda serve de madrinha.

Arminda

(Cobrindo a creança)

Pobresita! Afinal és isentinha
Do peccado...

Henrique

(Deixando a roupa e affastando-se um pouco da meza)

             Ella é meiga e caridosa...
É tão 'smoler, é tão affectuosa
Para os pobres...

Arminda

(Levantando-se, dá um beijo na creança, vae lentamente sahindo do biombo para entrar na salla e exclama)

                 Meu Deus! Meu bom Senhor!
P'la Infinita vontade e grande amor,

(Sahindo do biombo)

Ahi fica, ahi fica essa creança,
Que n'este triste abrigo a sorte lança...

Henrique

(Avançando, surprehendido, para Arminda)

Senhora!...{19}

Arminda

(Recuando atonita)

           Ah!... Mas... Que vem fazer aqui?

Henrique

(Suffocado)

Buscar essa amizade que perdi...

Arminda

(Surprehendida e admirada)

An?! Buscar amizade?! Onde está ella?!

Henrique

(Avançando um pouco)

No saudoso ambiente d'esta cella!

Arminda

(Cada vez mais surprehendida)

O quê?! Aqui?! Decerto se enganou,
E sem duvida, creio, a porta errou.
Diga? Diga? Que veio aqui fazer?!...

Henrique

Abrigar-me ás caricias da mulher...

Arminda

(Profundamente admirada)

Hein! Que diz?! Da mulher?! Bem affirmo eu
Que o senhor se enganou, e qual judeu
Errante, anda passando em falsa estrada,
Illudindo-se ao certo na morada!

Henrique

(Avançando mais)

Arminda!...

Arminda

           Ah! sim, sim! É esse o meu nome;
Porém, tal coincidencia não assome{20}
O direito de crer-me quem procura;
E revella sómente muita uzura,
Imaginar, que cá, por este mundo,
Esse nome de mim seja oriundo!...
Sim! Armindas ha muitas, acredite,
E tantas, tantas, que bem me permitte
Repetir quanto falham seus caminhos!...

Henrique

(Com sentimento)

Que têm sido d'abrolhos e d'espinhos.
Senhora!...

Arminda

(Impaciente)

           Vamos! Vamos! Que deseja?

Henrique

(Contricto)

Confessar uma culpa que me peja.
E se ha muito, se ha muito ando perdido,
Bem penitente aqui tem seu marido!...

Arminda

(Com repugnancia)

Que diz o senhor?! Meu marido?!...

Henrique

(Corajoso)

                                   Sim,
E n'essa qualidade eu aqui vim...

Arminda

(Com serenidade)

E como tal pretende apresentar-se?!...

Henrique

Se dá licença?...

Arminda

(Apparentando tranquilidade e indicando-lhe uma cadeira)

                 Então! Queira sentar-se.

(Ambos se sentam em vís-á-vis junto á meza. Depois de pausa){21}

Com effeito... e em verdade, ideia tenho
De que alguem, com astucia e muito engenho,
Um dia conseguiu vêr-me no altar
Dos esponsaes. E ali, p'ra consagrar
Tal acto ou sacramento d'evangelhos,
Ante um homem dobrei os meus joelhos!
Então... padre d'aspecto venerando,
As orações do rito foi rezando,
Emquanto duas almas se fundiam
Á lei de Deus, e dois peitos se uniam
Ao regimen da mais pratica escola!
Deram-se as mãos; depois, a branca estóla
As cobriu, invocando o juramento
Que firmaria o Santo Sacramento!

(Descançando)

 

E jurámos, jurámos n'esse exemplo,
Que nos manda crear o bello templo
Do amor! Mas, amor, não é ter por tecto
Sómente a guarda e abrigo d'um affecto!
É mais, que de sublime, tem o vulto!
É n'elle edificar paz, honra e culto!

 

E assim, bem se jurou mais egualmente
Que, obreiros de castissimo ambiente,
Erigissem alli, em devoção,
O respeito, dever, religião!

 

(Pausa, depois proseguindo)

Realmente, senhor, lembra-me que um dia,
Quando sã madrugada alvorescia
Toda em perfumes, canticos e flôres,
Alguem, que de mim tinha por amores,
O symbolo d'aliança me entregava,
E em meu peito dizia que se achava!
Lembra-me!... Se me lembra, meu senhor,
Tão lindo despertar, tão lindo alvôr
Da pura realidade dos meus sonhos,
Feitos de beijos castos e risonhos,
De melodias suaves e plangentes!

(Com mais vida, erguendo-se)

Se me lembra a manhã em que dois entes,
Deleitados na força da paixão,
Se uniam em solemne sagração
D'um tributo!...

(Pausa, depois com magua){22}

                Recorda-me... Entoava
O orgão religiosos sons! Resava
Por assim dizer preces ao Bom Deus
Pelo bem de sagrados hymineus.
E que sons! E que sons tão inspirados
Na graciosidade d'uns noivados!
Que harmonia e conjunctos fervorosos,
Embalando a união de dois esposos!
Que accordes, que hymnos tão sentimentaes,
Incensando d'amor uns esponsaes!...
Sim!... Recordo em verdade o sorridente
Dia, e conservo ainda bem presente
Toda a felicidade que senti!...

 

(Pausa e apontando a porta de fundo)

Olhe... repare... foi... foi por ali
Que eu entrei com soberba magestade,
Envolta no meu véu de virgindade!
Foi por ali que entrei; e junto a mim
Vinha um noivo exclamando: «Emfim! Emfim!»

Henrique

(Levantando-se e interrompendo-a)

E esse noivo, senhora, era...

Arminda

(Atalhando)

                             Era alguem,
Que na ambição de posse que se tem,
N'essa grande ambição a que se aspira,
Julgou depois que tudo era mentira,
Falsidade, illusão, tolice e asneira!
Era alguem, que fitando em pasmaceira
A vitrine d'objecto precioso,
Pensou e reflectiu que ao usar-lhe o goso,
Exagerára as suas qualidades,
E se precipitara nas vontades!

Henrique

(Pretendendo interrompel-a)

Mas, senhora...

Arminda

(Atalhando-o)

               Não queira ter o arrojo
De desmentir-me, pois qual, qual estojo,{23}
A guardar um brilhante lapidado,
Assim foi e era o meu véu de noivado;
Assim foi o meu véu, que descoberto,
Lhe mostrou, afinal, o que de incerto
Era o seu pensamento em ideal...

Henrique

(Interrompendo)

Mas hoje, o positivo e o real...

Arminda

(Impondo silencio)

Nada d'interrupções! Estou fallando,
E desejo ir a pouco demonstrando
O meu sentir. Dizia eu ha bocado
Que, tal como brilhante lapidado,
Era a mulher sahida da innocencia
Para o mundo da prova e exp'riencia.
E... e senão, vejamos! Em geral,
Tem a mulher encanto natural,
E attracções de que muito foi dotada;
Mas quando pretendida, quando amada,
Eil-a que se transforma em maravilha,
E qual estrella, attrahe, encanta e brilha!...
Anjo do ceu, que assim tanto seduz,
Astro de fé, de vida, d'alma e luz;
A guia, o norte, a briza perfumada.
A lyra d'amor, Virgem, Deusa e fada,
Tudo, emfim, de tal modo concebida,
De tal maneira olhada e percebida,
Que um Velasques, Murillo ou Raphael
Jámais produziriam do pincel
Inspiração egual! Mas, como as flôres
Que em jardim vão brotando de mil côres,
A ellas bem se assemelham as mulheres.

 

Cravos, jasmins, tulipas e outros seres
Que da especie Deus pôz em geração,
Um ha que nos merece distincção,
E para elle vae vista attenciosa.

 

D'entre as flôres, destaca-se uma, a rosa,
Pela côr e finura de formato;
Aroma que daria suave extracto,
E viço tal, que lagrimas d'orvalho{24}
Pousando-lhe com arte e lindo talho,
De perolas, imita, collar fino,
A guarnecer um collo alabastrino!

 

Elegancia suprema, ar donairoso,
A rosa attrahe olhar ganancioso:
E com motivo, pelo mundo inteiro
Lhe chamam a rainha do canteiro!

 

Admira-se, contempla-se a belleza
Que a nossos olhos deu a natureza!
Pasma-se em fascinante adoração
Absorvendo o producto, a creação
Genial! E depois, não resistindo
Ao desejo de ter o fructo lindo,
Corta-se o encanto, o iman attractivo,
Para figurar qual decorativo
N'uma jarra de Sevres, ou crystal!

 

Mas, coitada! eis ahi todo o seu mal!...
A pobresita já dias após
Não escutava nem ouvia a voz
Da admiração! E ha pouco despresada,
Sem carinhos, de todo abandonada,
Curva-se, tomba, murcha, cahe e acaba!
Nem sequer o perfume que exhalava
Vem recordar a sua contextura!
Morreu e foi-se, foi-se a formosura!...

 

(Com desalento)

Assim é a mulher que s'enaltece:
Tambem se apaga, cahe e desfallece...

(Ouvem-se n'esta altura uns vagidos de criança)

Henrique

Por Deus, senhora! attenda... queira ouvir
A voz de quem pretende redimir
Os erros de uma vida attribulada...

(Redobram os vagidos da criança)

Arminda

(Procurando affastar-se)

Não posso! Veja que outra vida brada
Pela minha presença, e bem m'incute{25}
Um dever! Veja! attenda? escute, escute
Os vagidos d'aquelle innocentinho
Pedindo o meu conforto e meu carinho!

Henrique

(Attonito e escutando)

Os vagidos!? Os choros de criança?!...

(Confuso)

Mas, minha senhora!

Arminda

(Interrompendo)

                   É uma herança,
Que chama os meus cuidados!

Henrique

(Inquieto)

                           Mas perdão!
Apenas um minuto d'attenção!

(Em confusão d'ideias)

Aquelle choro!... tão infantil!...
Traduz-me a existencia de um ardil!...
Espere: Espere?

(Avançando)

Arminda

                Diga, mas depressa,
Pois que aquelle lamento jámais cessa
Sem ternuras de mãe!

Henrique

(Atalhando)

                    Senhora!

Arminda

(Cruzando os braços)

                            Que ha?!...

Henrique

(Aparentando soffrimento)

O martyrio em minha alma! Mas... ná... ná...
Não pode ser! Não pode! Diga?! Diga?!
A que data, a que data, sim, se liga
O nascimento d'esse seu vivente?{26}

Arminda

(Impassivel)

Tem seis mezes approximadammte!...

Henrique

(Muito surprehendido)

An!? Seis mezes?! Senhora! o que me diz?!

Arminda

A verdade! Foi Deus que assim o quiz!...

Henrique

(Dolorosamente invocando a memoria)

Deus?! Foi Deus!? Contudo... essa referencia
Não condiz com a minha grande ausencia
Desta casa! Senhora! Por quem e?
Veja o que em meu semblante já se lê,
Sabendo-se que ha mais, ha mais d'um anno
Me ausentei... E esse filho... é...

Arminda

(Interrompendo)

                                   É profano!...

Henrique

(Avançando de punhos cerrados e exclamando)

Ah!...

Arminda

(Imperiosa)

      Suspenda! suspenda, desgraçado!
Que não tremo ante o facto consumado!
Suspenda, porque não me atemorisa
A ira de quem adopta por divisa
A infamia! Pare, pare, não avance,
Que não vacilarei em frente ao lance
Despotico de tão vil caminheiro
Do mal! Sim! pare, pare, cavalheiro,
Suspenda, porque não tremo perante
Affirmar... que esse filho...

Henrique

(Interrompendo)

                             É?...{27}

Arminda

(Altiva)

                                  D'um amante!...

Henrique

(Interrogando)

E a mãe!...

Arminda

           É a mulher que deshonrou
O nome d'um marido, que aviltou
A dignidade dum sêr conjugal,
E se lançou para esse lodaçal
Da miseria humana! É a mulher
Que na loucura d'orgico praser
Se lançou ao enxurro da corrente,
Vestal indecorosa e deprimente!...

Henrique

(Interrompendo, e convencido de ser victima de cilada)

É a mulher, que, sem honra e vergonha,
Buscou a aviltantissima peçonha
Da desforra cruel, não é verdade?
A mulher que, perdendo a dignidade,
Em troco de torpissima vingança,
A mostra, com a prova da creança
Existente no lar, que de novo ora
Procuro. Que se não vexa, nem cora,
Com a pratica d'um crime aviltante;
A mulher que na sêde devorante
De debitar affrontas, só reclama
A moeda emprestada, e a si chama
O direito d'um plano indecoroso,
Pagando-se com acto vergonhoso;
Atirando-me ao rosto grave insulto,
E corrompendo todo, todo o culto
Que deve ter-se pela honestidade!
A mulher que despresa a probidade,
E que na hora da minha reflexão,
Aponta esse signal de corupção,
Como atroz vilipendio e atroz injuria!
É a mulher ardendo em odio e furia
Vingativa, sem alma, sem nobresa,
Sem outro qualquer dom de que se presa
A sociedade, pois não é assim?{28}
É a mulher que jura contra mim
A guerra, de, a façanha, outra façanha,
E que em descaramento me arreganha
Os dentes da villesa e da traição!
A mulher que transforma o coração
Em veneno odioso e repelente,
Para em dado momento, e ardilmente,
O injectar em minha alma, proclamando
Um feito immoralissimo e execrando!
A mulher que s'isenta do civismo
E logo se mascara do cynismo
Que ultraja, sem que ao menos se recorde
Que a raiva que inocula, quando morde,
Encerra sempre o virus e o microbio
Para sua deshonra e seu oprobio!
É a mulher, emfim, que, sem virtude,
A taes proezas tão vilmente allude!
A mulher, que tal nome não merece,
Quando só se desprende e só se esquece
Do fim para que fôra concebida!
É a mulher, em suma, confundida
Na escoria da miseria, que profana,
Que atraiçôa, e que tudo, tudo engana!...

Arminda

(Interrompendo)

Ora nem mais, diz bem! É essa mesma:
É essa tal, o monstro, essa abantesma
Que descreve, acredite? É essa, é essa
Misera que se expõe e que confessa...

Henrique

(Interrompendo)

O proceder infame d'uma esposa!

Arminda

(Interrompendo indignada)

É lá! Suspenda a phrase rancorosa,
E não se atreva, não se atreva a tanto!
Falla-se da mulher, saiba; porquanto,
A esposa, está aqui, embora diga
Que deixou de o ser, para quem se abriga
No mal.{29}

Henrique

(Furioso)

E a senhora? Onde se abrigou?

Arminda

(Correndo para junto do berço onde se encontra a criança, cahindo de bruços sobre ella, chorando, emquanto Henrique lhe vae seguindo todos os movimentos.)

N'esta vida que Deus me destinou!

Henrique

(Crusando os braços)

Mentira! e hypocrisia! Diga-me antes
Que se abriga ao producto d'uns amantes!
Que se abraça á tristissima irrisão
Da mais adulterina concepção!
Diga antes, que se acolhe na sentença
Que me fôra ditada; e que em presença
D'esse escarneo, se prova a hediondez
D'um crime, que a vingança traz e fêz!
Diga-me, antes, senhora, que aconchega
O fructo que a immoral lhe deu e lega
Como espelho constante de traição,
Como sobrio reflexo da illusão
Em que cahi!...

Arminda

(Levantando-se e enchendo-se de coragem)

               Pois seja! Assim o diga!...
Esta creança...

Henrique

(Interrompendo)

               O insulto!...

Arminda

(Interrompendo)

                            É o castigo!

Henrique

(Recuando e disposto a sahir)

Passe Vossa Excellencia muito bem
Minha Senhora!!

(Apontando para a porta){30}

               Aquella porta, tem
O condão de se abrir ante a passagem
D'este tão illudido personagem;
E se aqui vim, buscando honestidade,
Convicto saio e vou, da falsidade
Com que ella se proclama e annuncia!
Tudo, emfim, é a mesma hypocrisia,
Variando sómente em sociedade;
Porquanto; se lá fora a indignidade
Se expõe, aqui se occulta no cynismo
Que rodeia o ambiente! Pasmo e abysmo,
Senhora, do que vejo! Abysmo e pasmo
Ante o revoltantissimo sarcasmo
Que preside á mudança d'este lar
No mais indecoroso lupanar!

Arminda

(Revoltadissima)

E eu então, pasmo e abysmo, meu senhor,
Do biltre que, sem honra e pondonor,
Se arroja a censurar, altivamente,
A esposa que despreza infamemente!

 

(Altiva, apontando-lhe a porta)

Saia! Que jámais tem auctoridade
Para insultar, quem só na indignidade
Vagueia e lá procura o seu viver!

Henrique

(Altivo)

Mas eu sou homem!

Arminda

(Avançando um pouco para o fundo, emquanto Henrique vae recuando para sahir)

                 E eu... eu sou mulher!

(Indica-lhe a porta)

 

Fim do primeiro acto

{31}