Conduzida ao quarto da senhora, entrou a um tempo com ella Gonçalo Malafaya, querendo arrancar-lhe a carta das mãos. D. Maria saltou assanhada do leito, e levou o marido a empurrões para fóra do quarto.

Leu anciosa a carta, vestiu-se acceleradamente, e saíu com o seu capellão a encontrar-se com a filha.

A primeira victima de sua ira foi o almotacé a quem ella chamou os nomes, que dava aos seus infimos creados. Pensava o inviolavel funccionario em autua'-la; mas pareceu-lhe mais prudente desarmar-lhe a cólera, porque receava ser demittido do officio no dia seguinte. O principal artigo de accusação da fidalga era ter o vil esbirro (amabilidade que muito offendeu o almotacé) era ter elle entregue ao pae a carta, que ia para a mãe. Graças á pacifica eloquencia do capellão, a fidalga desceu-se da sua raiva, e entrou em pensamentos mais moderados, tendentes a salvar a filha das garras, que o pae estava aguçando.

Tardias combinações! Tinham soado dez horas, quando á porta do almotacé, pararam duas cadeirinhas e seis soldados nocturnos, e um alcaide com ordem de reconduzir ao recolhimento de S. Lazaro as fugitivas.

D. Maria das Dôres, quando tal ouviu, teve um vágado, que os impetos de raiva não deixaram durar muito. Ao recobrar-se das convulsões, abraçou-se á filha, exclamando:{193}

—De hoje em diante serei mais que tua mãe, Maria! Serei tua cumplice, se és criminosa! Eu é que te hei de entregar a teu marido. Vae! Soffre mais alguns dias. Eu vou consolar teu esposo; vou trabalhar a favor d'elle, serei mesmo a sua enfermeira; e, de volta da Foz, irei falar-te ao recolhimento. Conta comigo, Maria. Leva a certeza de que os teus tormentos acabam d'aqui a poucos dias, se a minha vida não acabar antes!

Maria reanimou-se, que eram para dar muita alma as promessas da energica e vindicativa senhora.

Agora, prosegue o traslado dos apontamentos:

«Entraram duas cadeirinhas na portaria do recolhimento, escoltadas por seis soldados nocturnos. Vinha em uma a fidalga: e na outra a sua amiga.

«A todos pareceu escandalo a barbaridade que o pae escolhesse tal hora, para reconduzir duas senhoras a uma casa de educação, cercadas de tropa, e rodeadas de populaça!

«Meu pae appareceu logo na portaria, e auctorisou a regente a castigar asperamente a fidalga, como pensionista; e Rita como orphã pobre. Á primeira decretou o tronco de cima, e á segunda o chamado tronco de baixo.

«O tronco de cima era uma cella, sem differença sensivel das outras, a não ser que a luz se coava de uma fresta muito alta, e era fechada com duas portas, cujas chaves tinha a regente, e recebia os alimentos por um postigo. O maior castigo era a privação de falar com outras meninas.{194}

«O tronco de baixo era um subterraneo, sem minima claridade. Continha um leito de ferro, que hoje é moda, e era então ignominia. Fôra construida, alguns annos antes, esta caverna para castigo de uma menina, que havia fugido, e lá esteve em paroxismos, até que a deixaram sair e morrer com a pouca mais luz da sua cella. Eu tal horror lhe tinha, que só de passar sobre o alçapão da masmorra, me sentia tremer. Este era o supplicio destinado a Rita de Cassia.

«Condoeu-se meu pae da fidalga, posto que ella não solicitasse compaixão de ninguem. Dizia ella á regente que o vexame de ser trazida entre soldados lhe era bastante expiação. A pobre Rita, porém, que não tinha pae nem pão, senão o da caridade, foi a victima expiatoria, para exemplo das outras, dizia a senhora regente, que Deus tem. Ainda assim, houveram com ella piedade, mandando-a para o tronco de cima.

«Ao outro dia, quando lhe levaram os primeiros alimentos, acharam-na sem sentidos e banhada em sangue. Pensaram que ella se teria rasgado alguma veia; mas o sangue era lançado pela bocca. Julgaram-na morta, e era geral a consternação na casa. A angustia de D. Henriqueta sobrelevava a de todas; mas á orphã castigada era-lhe prohibido ver a sua amiga, a amiga por quem morria ou estava morta.

«Deu signaes de vida.

«Estavam no recolhimento duas meninas muito ricas e por isso muito respeitadas: eram D. Innocencia Pereira de Castilho, e D. Gertrudes Pereira de Castilho.[3]{195} Foram estas duas irmãs lavadas em lagrimas, pedir á regente, que as deixasse tomar á sua custa o tratamento da orphã, na sua cella. A regente era de cêra aos desejos das ricas pensionistas. Cedeu-lhes a doente moribunda. Tantos foram os carinhos, os medicamentos, e os desvelos, que a menina chegou a restaurar-se. Depois das melhoras, solicitaram as Castilhos o perdão da menina, e conseguiram-o.

«D. Maria esteve tambem doentissima n'esta epoca, mas de muito menor cuidado, e prompto restabelecimento. Para lhe não faltar afflicção alguma, até lhe prohibiram á dedicada Rita ver a fidalga que, apesar dos soffrimentos passados, ella amava com o coração de um anjo.»

Ninguem infira dos successos descriptos, em desabono da caridade e humanidade do recolhimento de S. Lazaro, ha cincoenta annos, o que hoje possa ser aquelle pio estabelecimento. Nenhuma analogia approxima os costumes de então com os de hoje. O raio benefico do facho civilisador lá foi alumiar tambem aquelle recinto; os homens que o fiscalisam, são os filhos d'este seculo, os que sabem irmanar com a doutrina do bem uma prudente severidade. Se alguma vez, em nossos dias, sairam arguições em desfavor do regimen d'aquella casa de caridade para meninas orphãs, e de educação{196} social e religiosa para pensionistas, convém que se descontem n'essas arguições causas deshonestas, e portanto injustas, que a promoveram. Não sabemos que haja outro recolhimento no paiz mais dignamente mantido sobre bases de piedade, morigeração e ensinamento de prendas, com que d'alli sáem adornadas muitas donzellas, que as mostram na sociedade, como esposas e mestras de seus filhos. Sirvam estas linhas de anteparo á censura irreflectida de alguem, que folgue de afiar no auctor os dentes da calumnia.

D. Maria das Dôres cumprira integralmente sua palavra. Foi ao castello da Foz: contou a Filippe Osorio a parte menos pungitiva da aventura de sua filha. Egualou-o na consolação das promessas e das esperanças. Chamou-lhe filho com toda a effusão da sinceridade. Chorou com elle ao falarem de Rosalinda, e d'ali voltou ao recolhimento a aviventar a filha.

N'esse mesmo dia, sobre tarde, recebeu a regente ordem do provedor para impedir que Maria Henriqueta falasse com sua mãe. Quando esta, ao outro dia, apeou no pateo, saiu-lhe á portaria a regente, mostrando lacrimosa a ordem, que recebera. D. Maria das Dôres recolheu-se a casa, esperou que o marido entrasse, lançou-se a elle de insultos e improperios tão novos, que o velho cuidou ganhar a bemaventurança fechando-se no seu quarto. No dia seguinte, o mordomo da casa, creatura particular da fidalga, partia para Lisboa a ganhar horas, com uma carta a um dos membros do governo; e nove dias depois, depunha em mãos de sua{197} ama, uma ordem da regencia, para que as portas do recolhimento de S. Lazaro se abrissem a D. Maria das Dôres, a qualquer hora do dia que ella quizesse visitar sua filha.

Gonçalo Malafaya, quando tal soube, soffreu o primeiro ataque de paralysia n'uma perna.{198}

{199}

IV

A convalescença de Maria foi velada por sua mãe. Passava a fidalga os dias, e grande parte das noites, no recolhimento. Abriam-se e fechavam-se portas com grande escandalo dos mesarios, a horas em que era dos estatutos o silencio obrigatorio.

D. Maria das Dôres levou, a pouco e pouco, o que tinha em casa, pertencente ao guarda-roupa de sua filha. As suas mesmas joias lhe deu, receando morrer a tempo de as não poder confiar do marido como legado á filha. Quando não estava no convento passava grande parte do dia com o genro, pactuando com elle a fuga de ambos, logo que o conselho de guerra o restituisse á liberdade.

Fugir para quê, se estavam legitimamente unidos, se deviam vencer o cerebrino pleito instaurado por Gonçalo Malafaya?

Assim o parece: mas do que é ao que deve ser, corre uma distancia infinita.

Provar a nullidade do casamento era impossivel, mas{200} dilatar a prova com os estorvos, que a justiça faculta aos que a emmascaram e trazem em ludibrio por sentinas douradas, é cousa de todo o ponto facil. Contra a legalidade do matrimonio de sua filha allegava Gonçalo a negação do consentimento, e a falsidade da certidão, em que o ministro do sacramento era tio do contrahente e as testemunhas sobrinhos do abbade, e irmãos de Filippe. Absurdos argumentos que tentavam a rir a justiça, porém, um sacerdote d'ella, em primeira instancia, por odio inveterado á familia de Mirandella, lavrara uma sentença iniquissima, fundada... nos alicerces de ouro, em que levantou poste de vilipendio á sua integridade.

Subiu o processo á relação do Porto. Andou o indecoroso auctor captando a piedade dos desembargadores com lagrimas que o não lavavam das manchas. Os juizes, para honrarem o pae, e a filha, estabeleceram a legalidade canonica e civil do casamento, censurando o ignaro juiz, que inventára a deshonra como remedio aos despeitos de um pae. Faltava o recurso de superiores instancias. Foram para a supplicação os feitos, sem esperanças de bom exito para Malafaya: mas, na delonga da sentença final empenhára o fidalgo os cabedaes e os amigos, para com os amigos dos cabedaes:—desculpem a safada elegancia d'este trocadilho.

Claro é, pois, que o deposito da esposa tinha de ser prorogado até á final sentença, que, sem milagre, podia ser empecida dois annos na supplicação e baixar de lá com alguma nullidade ao tribunal onde principiára. Assim{201} se explica a premeditação de Maria das Dôres na fuga da filha, logo que Filippe Osorio saísse do castello da Foz.

Antes de completo segundo mez de prisão, foi o desertor julgado e absolvido, com grande assombro de Gonçalo Malafaya. Repetiu-se então o ataque de paralysia, ramificando-se ao braço direito. Era a peçonha do rancor que o ia matando, pedaço a pedaço.

Apresentou-se Filippe ao provedor da Misericordia, o doutor João Pedro, velho que vivera, até envelhecer, vida de rapaz, e fizera do seu palacete o berço da civilisação dos costumes, má civilisação, que é o synonymo de extrema liberdade, a qual muito tarde será adulta no Porto. Quem hoje passa no Reimão diante do palacete que pertence ao sr. Joaquim de Sousa Guimarães, póde, se quizer, imaginar que alli, durante os ultimos trinta annos do seu antigo proprietario, se fizeram romances praticos de alta moralidade, os quaes é muito de esperar que eu venha a dar em livro. Uma das scenas lá passadas, a mais simples de todas é a seguinte:

Entrou Filippe Osorio, procurando o doutor Pedro, que saíu a recebe-lo na primeira sala. Disse o visitante quem era, e o doutor sentiu-se incommodado do coração, que parece ser o orgão do amor e do medo.

Feita a apresentação, com militar seccura, ajuntou o apresentante que era marido legitimo de D. Maria Henriqueta.

Tossiu o doutor uma tosse peculiar de susto quando não é de velhacaria. No doutor era susto; e o susto não{202} deshonra ninguem, mórmente quando o assustado se defronta com os trinta annos de um homem de grandes barbas e possante estatura.

Estas declarações eram o proemio a uma outra, sobre todas, inquietadora para o doutor.

—Quero ver minha mulher—disse Filippe.

—Parece-me que a lei se oppõe—disse o doutor—em quanto v. s.ª tiver pendente das decisões juridico-canonicas a validade do seu casamento.

—Não venho perguntar a v. s.ª se a lei faculta, se nega: o que eu lhe digo é que quero ver minha legitima esposa, agora, logo, ámanhã, sempre.

—Então queira requerer a juiz competente.

—Não venho pedir conselhos. Entenda-me, senhor provedor; é ao provedor da Misericordia que eu reclamo auctorisação para ser recebido na grade do recolhimento por minha mulher.

—Isso é impossivel, senhor!

—Que são impossiveis, senhor doutor? Talvez que a v. s.ª pareça impossivel haver um homem que lhe corte uma orelha; e, comtudo, affirmo-lhe que poucas cousas haverá tão faceis!...

Isto fôra dito com um sorriso de cortar a orelha sem auxilio de ferro. O doutor abriu a bocca e regougou:

—Oh!

Mas este oh foi surdo como um rugido intestinal.

Filippe cruzou os braços, e disse:

—No que fica?

O provedor refez-se de animo, e respondeu:{203}

—Com que então v. s.ª vem ameaçar um velho?

—O látego da tyrannia deve ser arrancado das mãos dos velhos como dos novos. Os annos não santificam a prepotencia, senhor doutor. Nada de maximas. Eu não posso demorar-me.

—E v. s.ª é de certo legitimamente casado á face de Deus?

—Veja esta certidão.

João Pedro leu attentamente, e disse:

—Parece-me legal. Como se explica, em tal caso, a guerra que lhe faz o meu nobre amigo Gonçalo Malafaya?

—Não sei, senhor. É um odio injusto: é um pae que diffama sua virtuosa filha.

—Pois bem, sr. Filippe Osorio, eu vou consultar a mesa, e depois lhe darei a resposta.

—Consulte a sua consciencia, e deixe a mesa para mais importantes consultas. Eu quero já d'aqui ir em direitura ao recolhimento. Uma ordem de v. s.ª basta.

Entrou o doutor João Pedro no seu escriptorio; e, mais levado da consciencia que do medo, dado que um pouco de tudo o impellisse á obra meritoria, escreveu a ordem, auctorisando a regente.

Filippe saiu com mudado semblante de affectuosa gratidão, e entrou no portico do recolhimento. Chamou a regente, passou-lhe a ordem pela roda, e esperou impaciente a resposta.

Mandaram-n'o entrar n'uma grade, onde já estavam D. Maria das Dôres e a filha, esperando-o. A esposa{204} enfiou por entre as rêxas os braços, que difficilmente passavam.

—Que mudada estás!—exclamou Filippe.—Que maceração de rosto, minha pobre Maria! O que tens penado n'estes dois mezes!

Era pungente ver chorar aquelle homem, na contemplação da magreza cadaverica de sua mulher!

Nem um riso de contentamento n'aquelle primeiro encontro!

—Falta-me a filhinha!—dizia Filippe—Onde está o nosso anjo, ó Maria! Porque nos privou o céo da nossa filha, que devia n'este momento sorrir-nos a bonança, e accusar estas lagrimas como ingratidão aos beneficios de Deus?

Retirou Maria das Dôres ao anoitecer, e Filippe passeou até altas horas, defronte, e em roda do carcere da esposa.

A fidalga velha, confiada no valimento que tinha com a marqueza de Angêja, senhora que a movera a favor de Filippe Osorio, mandou a Lisboa o seu fiel mordomo a solicitar uma ordem de levantamento de deposito da filha em contravenção das leis. Foi a ordem arrancada de subito ao ministro competente, por engenho da marqueza. Correu com ella o portador; Maria das Dôres nunca se levantou a tão alto na presumpção de sua valia! Mas Gonçalo Malafaya tinha amigos e cabedaes em Lisboa. Horas depois de passada a ordem, fôra revogada, a requerimento do procurador do auctor; e outro emissario vinha ao Porto embargar o effeito da primeira. Copiemos{205} dos apontamentos o facto, presenceado pela educanda a que os devo:

«Logo ao amanhecer vinha Filippe para a grade, e Maria Henriqueta já lá o estava esperando. Por mais que extendessem os braços, era-lhes impossivel apertarem as mãos. Alli almoçavam juntos, e ficavam até ao meio dia. Elle saía, quando as portas se fechavam, e ella ia para a sua cella chorar. Ás duas horas voltava o infeliz, e jantavam. Havia de grade a grade um carrinho com duas roldanas lateraes em que ella lhe passava os pratos.[4]

«Ao anoitecer separavam-se. N'esta mixtura de alegrias e amarguras, viveram algum tempo, até que de Lisboa chegou ordem para ella sair do recolhimento. Já elle a estava esperando com uma sege na portaria; já ella tinha pedido ás mestras para nos darem sueto n'esse dia; despedia-se já de todas. Que formosa ella estava então! Como um instante de felicidade a transfigurara! Vestia de setim branco, e sapato da mesma droga. Nos olhos e no rosto resplandecia-lhe o clarão da alma. Não sei que possa imaginar melhor um anjo! Fomos todos com ella á portaria. Já estava a porta franca, e o marido com os braços abertos para a receber e um sorriso{206} de alegria desvairada nos labios. Eis que todo afadigado entra na portaria um mensageiro do inferno, com uma contra-ordem á regente! O desespero dos dois desgraçados não sei eu palavras que o exprimam! Filippe Osorio rompeu em imprecações. Maria Henriqueta fez-se primeiro escarlate, depois da côr do vestido, marmore na frialdade, e caíu sem sentidos nos braços da regente e da porteira. Choravamos todas; até as mais novas se commoveram áquella scena, cujo alcance mal podiamos compreender. Então é que ella adoeceu perigosamente, e cuidámos que não vencia o ultimo golpe. A mãe era incansavel de amor e de consolações ao lado d'ella. As cartas do marido foram talvez a principal medicina do seu restabelecimento. Passado um mez tornou á grade Maria Henriqueta: parecia desenterrada; e Filippe, que tão galhardo mancebo era, pouco tinha já que o distinguisse de um homem de cincoenta annos.»

Renasceu em toda a força da ira o plano da fuga, maquinada por D. Maria das Dôres. Frequentes vezes se encontrava com Filippe na grade, a fazerem combinações, que concertavam todas n'um arrojo de desespero, cuja responsabilidade a fidalga tomava sobre si.

Vejamo'-lo descripto pela companheira de Maria Henriqueta:

«Um dia de tarde chegou D. Maria das Dôres á grade com o genro, e ahi se demoraram até ás quatro horas. Mandou a fidalga dizer á regente que precisava de ir ao quarto de sua filha. Foi-lhe aberta a porta sem a menor hesitação. Entrou D. Maria das Dôres, e Filippe ficou{207} na portaria, como esperando a sogra. Disse a mãe á filha que precisava de arejar-lhe os vestidos. Começaram a sair taboleiros de riquissimos velludos, setins, e sedas de differentes côres, e debaixo do chale escondeu a fidalga um cofre de joias, em que estavam as da filha, e as suas, que eram muitas e de subido quilate. Afóra isto, passou D. Maria das Dôres para as mãos do genro um outro cofre muito pesado, que continha, segundo disseram, dinheiro em ouro. A regente estava desconfiada, e mais desconfiou, quando a fidalga velha lhe disse: «V. s.ª ha de permittir que minha filha dê um abraço em seu marido.» A regente respondeu: «V. ex.ª não me faça alguma, sr.ª D. Maria das Dôres!...» Tornou a fidalga: «Ha nada mais licito que uma senhora abraçar seu marido?» Disseram-me algumas meninas que a regente cedera ao terror, porque vira nas mãos de Maria Henriqueta, sumidas no chale, luzir o marfim do cabo de um punhal.

«Mandou a regente á porteira que abrisse a porta. Saíu D. Maria das Dôres, e postou-se á porta principal da portaria. Chegou o marido a abraçar a esposa, e tal abraço foi que a levou como arrebatada nos braços, e Eugenia seguiu a ama. Porteira e regente emparveceram a olhar uma para a outra; e a creada, que fôra alumiar, de tal riso se tomou que deixou caír o castiçal.

«Occorreram outras scenas que muito nos alegraram, sobre o geral jubilo de vermos Maria Henriqueta livre de ferros.

«Passados os momentos da estupefacção, quiz a regente{208} ir pessoalmente a casa do provedor contar o succedido.

—Saír eu de oitenta e um annos á rua! exclamava ella.—Que dirá o mundo?—Tinha ella uma creada de dezoito annos, que morria por se ver a passear na rua, e estava contentissima de saír com a ama. Passou acaso um estudante de clerigo, que acudiu ao motim, e mais ainda porque era namoro da porteira, elegante matronaça, que não guardava quanto devia as portas do seu coração. Pensou o estudante que a porteira iria com a regente a casa do provedor, e offereceu-se a acompanha'-las, mas a velhinha, para poupar ás estrellas o escandalo de a verem na atmosphera corrupta do mundo, pediu ao embuçado estudante que fosse elle avisar o provedor, o que elle não fez por commiseração com a fugitiva.»

A curta distancia do recolhimento, estavam tres rijas mulas, e dois creados de cavallo. Maria Henriqueta deu o ultimo abraço em sua mãe, e saltou para as andilhas. Filippe dobrou o joelho beijando a mão da sogra, e cavalgou. Eugenia, a chorar de alegria, nem deu fé de que a encarapitavam os dois creados na terceira cavalgadura. Concertaram-se rapidamente as malas da bagagem, e partiu açodada a cavalgata, caminho de Villa do Conde.

D. Maria das Dôres entrou ovante em sua casa; esperou que o marido recolhesse á meia noite; saíu-lhe ao encontro, com um riso de sarcastica vingança, e disse:{209}

—A regencia não poude vencer o teu ouro; mas uma fraca mulher o venceu. Maria Henriqueta está na companhia de seu marido. Fui eu que lhe abri as portas do carcere, e fiz saír d'alli a pobre victima de tua crueza, que estava sendo tambem um pregão de tua ignominia. Querias que a justiça a infamasse, e eu quero que ella gose os direitos das esposas honradas e virtuosas, porque os tem, e os merece. Diz aos teus amigos de Lisboa, aos canaes de teu dinheiro, que ha um ente que se não corrompe, é uma mãe.

Gonçalo Malafaya caíu prostrado n'um canapé, e bramiu:

—Maldita sejas tu!

—O céo não ouve as vozes do mau amante de Beatriz de Noronha, do mau marido de Maria das Dôres, e do mau pae de Maria Henriqueta! Morre impenitente, homem tres vezes abominavel!{210} {211}

V

Na descripção da desgraça ha engenhos habilissimos. Em pintar a felicidade é grande a penuria de phrases: parece que as linguas são pobres do que é tão pouco e passageiro na humanidade!

Assim é que eu me esquivo a dizer como era a alegria dos fugitivos, com receio de me perder em nevoentas chimeras; ou—di'-lo-hei com quanta sinceridade posso—o descostume de a sentir estragou-me a palheta com cujas tintas, alguma hora, pintei venturas.

Entraram por Hespanha, com destino ao alcaide de Segovia, cujas condolentes cartas Filippe recebera na prisão, e Maria no recolhimento. Da primeira terra de Hespanha escreveram para o amigo, que lhes chamára filhos. Abalaram de Segovia o alcaide e as senhoras a esperarem, em terra muitas leguas distante, os esposos. Em sua casa se hospedaram algumas semanas, e d'alli passaram para a quinta, onde os attraíam saudades do passado, e esperanças de o reviverem mais tranquillo e desassustado.{212}

Encontrou Maria refloridas as flores que plantára, um anno antes. Lá estava a roseira que ella consagrára a sua filha, denominando-a Rosalinda. Ahi orvalharam lagrimas as faces de ambos; mas, seio contra seio, as ancias do coração não podiam ser duradouras.

Queriam-se solitarios os esposos ditosos; porém, seu mesmo infortunio lhes dera uma attrahente celebridade. Concorriam á graciosa vivenda os curiosos de Velha-Castella, e saíam para voltarem amigos dos que outr'ora prenderam corações com os nomes de Luiz e Pedro de Castro. A este proposito, até poemas se escreviam com o chiste das musas castelhanas, e os prelos contaram em commoventes prosas a historia infeliz dos esposos.

Uma noite, caíndo a ponto falar-se na pertinacia boçal do conde de Monção, disse o alcaide o seguinte:

—Traz-me esse nome á memoria um successo, que se deu, depois da vossa ida para Portugal. Fui eu avisado de que dois homens suspeitos tinham chegado a Segovia, e saíam de madrugada a fazer excursões pelos arrabaldes. Mandei-os espionar, e soube que elles estanceavam por estes sitios, indagando dos aldeãos qual terra vós terieis ido habitar. Com esta informação fiz prender os homens. Pedi-lhes os passaportes, e vi que os viandantes eram portuguezes, naturaes de Melgaço, e contractadores de carneiros. Não sei por que instincto, retive-os até me darem abono. Não conheciam ninguem em Segovia; mas deram-se pressa em escrever para Portugal. No entanto, perguntei-lhes o que tinham elles vindo fazer nos arredores d'esta quinta. Responderam{213} que andavam em cata de gado para comprarem. Redobraram as minhas suspeitas. Inquiri que tinham elles com uma familia, que se alojava n'esta quinta. Tartamudearam e confirmaram a certeza de seus máos intentos. Quinze dias depois, recebi ordem do governo madrilense para dar soltura aos presos. Não tinha outro remedio: soltei-os. Escrevi para Madrid, pedindo que se averiguasse na repartição competente quem afiançára aquelles dois presos. Tive em resposta que o ministro recebera directamente uma carta de seu parente, o conde de Monção. De proposito vos occultei este episodio em minhas cartas, cuidando em não vos aggravar as desgraçadas apprehensões. Agora vos digo que isto me fez apprehender muito a mim. Segundo o que Filippe me contou, o aviltado conde, a meu parecer, aprazou a vingança de cobarde. Aquelles homens eram sicarios enviados por elle. Já passou um anno, e naturalmente o conde está esquecido da affronta e da vingança; mas, ainda assim, recommendo-vos toda a cautela, que o mais temivel dos inimigos é aquelle que nos foge. Não me oppuz; porém, não approvo a vossa vinda para logar tão ermo. Antes queria ver-vos na cidade, onde as emboscadas traiçoeiras são menos possiveis, e a minha vigilancia mais apontada.

Filippe Osorio sorriu á prudencia demasiada do alcaide; e Maria Henriqueta estremeceu, e descorou desde que a historia pendeu ao assustador desfecho. Cuidaram damas e cavalheiros em tranquillisa'-la, e, mais que todos, o marido, inventando argumentos falsos a favor{214} de sua segurança. Pediu-lhe a esposa que abandonassem o local, e seguissem sua jornada até aos confins da Hespanha, ou passassem a França ou Italia. Filippe socegou-a com a cedencia á sua vontade, tirando a partido que descançariam mais algum mez entre a sua segunda familia, e velados pela guarda de tantos amigos.

Desde esta noite, eram de instantes os intervallos serenos de Maria Henriqueta. A cada rumor interno ou exterior se alvoroçava; e se ouvia um tiro remoto, não tendo junto de si o marido, soltava um grito, e corria como desatinada a procura'-lo. Então cresciam de fervor os rogos de se afastarem para mais longe; e o marido, que nunca se deixou vergar ao susto, promettia por complacencia abreviar a partida.

As cartas idas de Portugal davam Gonçalo Malafaya a descair rapidamente na formal demencia. D. Maria dizia á filha que se vira obrigada a sair de casa, e estava vivendo com as suas creadas n'um velho palacio de seus paes, com os alimentos, que lhe arbitraram. A razão do divorcio fôra os accessos de furiosa loucura do marido, que, algumas vezes, investira contra ella, armado de um espadim. Passando a miudezas da demencia, dizia que o primo muitas vezes fugia aterrado de uma visão que elle denominava D. Francisco de Athayde, exclamando: Deixa-me, vingador, deixa-me, que Beatriz já me perdoou! N'este estado, dizia a fidalga, o successo da fuga parecia cousa indifferente ao marido; e a julga'-lo, nas horas lucidas, mostrava elle ouvir com dó a vida trabalhosa da filha, e, sem contrariar, a affirmação{215} da legitimidade do casamento. A todos consentia falarem-lhe em Maria Henriqueta, menos á esposa; e contra ella é que mais o acirrava a loucura, a ponto, como disse, de a querer matar.

Esperavam, pois, os Osorios de Mirandella que o infortunio de seu filho e irmão terminasse de todo com a morte de Gonçalo Malafaya.

Um portuense, amigo de Filippe, e seu protector no julgamento, escreveu-lhe para Hespanha. Uma pagina da carta dizia assim:

—Tive occasião de vêr aqui no Porto o conde de Monção, de volta de Lisboa, onde foi procurar uma herdeira rica, e d'onde voltou com a casa mais deteriorada. Falou-se de ti na presença do conde, e elle fez-se roxo. Contaram-se os teus infortunios, e a tua temeridade em arrancar a esposa do convento, e elle mordeu os beiços até espirrarem sangue gothico e suevo. Um dos presentes cavalheiros, sabedor do teu dialogo com elle, porque eu o contei em pleno auditorio, para lhe cravar a garrocha, falou na tua coragem, e de industria derivou o discurso até contar uma historia acontecida entre ti e um dos próceres de Portugal. A historia era exactissimamente a tua com elle. Não tirei os olhos da lorpa faceira do conde, e vi todos os demonios que elle tinha na alma, se tem alma. No estomago juro eu que elle tinha uma legião de espiritos immundos. Palavra não lhe despegou os dentes. Bebeu o calix até ás fezes, e saíu, quando furtivamente poude escapar-se ao imprudente sorriso e ao dos outros. No dia seguinte foi para Monção,{216} d'onde eu sei que elle mandou aqui pessoa de sua confiança averiguar a tua residencia em Hespanha. Eu julgo o conde incapaz de tirar desforra pessoal; vil ia eu jurar que elle a premedita. E, senão, que lhe importa a elle a tua residencia?! Previne-te: confia menos na tua bravura; e veste as armas da prudencia contra os tiros da cobardia insidiosa. Estás em terra onde o sangue salta em espadanas, e ninguem se espanta d'isso. Os assassinos lavam as mãos, quando as lavam, e vão pedir a absolvição aos seus frades. Cautella, meu Filippe. O meu parecer é que vás para Italia, e esperes lá que saia de casa de teu sogro uma tumba, para tu entrares na tua verdadeira paragem dos trabalhos, e dos receios. Só então cuido eu que não chegará a ti o fulgor da tua funesta estrella.

Occultou Filippe esta carta de Maria Henriqueta; mas o que elle mal podia era occultar-lhe a inquietação. Pressurosamente cuidou em retirar-se da quinta, e estabeleceu a sua residencia temporaria em Segovia, com grande aprazimento do alcaide. Queria a presentida esposa que levantassem d'alli a sua barraca de peregrinos, e se avisinhassem da França. Sonhava ella a sua inteira seguridade na Italia; era para lá que a meiga senhora estava sempre impellindo o animo do marido. Tinha elle annuido, quando Maria Henriqueta adoeceu de um movito, procedido dos quotidianos abalos, causados por insignificantes incidentes, que a traziam em permanente sobre-salto.

Reservadamente mostrou Filippe a carta do seu amigo{217} ao alcaide, sem esconder o receio que tal nova, combinada com os precedentes, lhe causava. Providenciou o delicado fidalgo hespanhol as rigorosas vigilancias que a sua amizade e dever lhe impunham. Inuteis foram todas no decurso de dois mezes. Nem uma só pessoa suspeita pernoitou nas estalagens da cidade.

Restaurou-se Maria Henriqueta, e cuidou nos aprestos da jornada; mas metteu-se a rigorosa invernada de 1813, e foi deferida para a seguinte primavera a saida. Além de quê, a assidua espionagem era infructuosa, e as averiguações, destras e insuspeitas do alcaide, deram o conde de Monção no Alem-Tejo tratando de casar-se com uma rica herdeira.

Ao mesmo tempo, o amigo do Porto, dizia o seguinte em resposta a uma carta de Filippe Osorio:

«... Tambem se me vão desvanecendo os receios. O conde passou aqui ha dias com direcção a Estremoz, onde o levam as probabilidades de poder casar com uma opulenta moçoila, cujo bis-avô fazia pucaros do barro da terra, cujo avô foi creado da casa de Bragança em Villa Viçosa, e cujo pae pirateou na Africa, se não mentem as chronicas dos visinhos. Não me parece que caiba odio em coração tão cheio de amor á bis-neta do oleiro. Isto está longe de te dizer que vivas descuidado. Aquella cara do conde é um alçapão do inferno. Lá dentro devem existir

Ferro, veneno, vibora traidora
Cartas da mão de Machivello escriptas,

como diz o Tolentino no soneto.{218}

«Precavém-te sempre, meu Filippe.»

Esta carta achou já banida a desconfiança, e quasi esquecidas as cautelas, afóra as do alcaide, posto que menos solicitas.

Maria, contente das relações que adquirira, e da serenidade do esposo, jámais lhe lembrou o projecto de jornadearem na primavera. Embeberam-se na sua felicidade, e confiaram-se ao seu bom anjo.

No concernente ao estado de Gonçalo, as noticias confirmavam a approximação de sua morte. Acamára por ultimo, e nem já forças tinha para lançar-se fóra do leito.

Maria das Dôres, fiada na inercia do marido, e movida pela compaixão, recolheu á casa conjugal conquistando assim a aura publica, e o bem estar da sua consciencia. Gonçalo acolheu-a com indifferença, e chegou a apertar-lhe a mão, graças aos seraficos esforços de dois franciscanos e um carmelita, que lhe assistiam á doença. Alguma vez, a esposa se aventurou a falar em sua filha na presença dos fradinhos e estes santos varões achavam justo que a menina viesse pedir perdão a seu pae da filial desobediencia. O fidalgo trejeitava negativamente, e os homens evangelicos encolhiam os hombros, e diziam: «Fidalgo, nosso Senhor Jesus Christo perdoou a quem o matou.»

Observava-lhes D. Maria das Dôres que seria mais piedoso, e conforme aos preceitos de Jesus, dizer ao enfermo, que sua filha não praticára crime, comparavel ao dos matadores de Christo, nem a alma do enfermo se{219} salvaria, negando-se a perdoar em desconto dos martyrios, que fizera soffrer a sua filha. Os monges receavam estomagar o fidalgo, e privar os seus conventos da esmola promettida pelo doente.

Na correnteza d'estas lastimaveis miserias da humanidade, as estrellas funestas d'esta familia alumiavam com luz sepulchral a vida dos nossos desditosos de Hespanha.

Já nem o alcaide espreitava que homens pernoitavam ou passeavam em Segovia, quando, a convite de Maria Henriqueta, Filippe Osorio foi passar um dia á quinta dos arrabaldes. A cariciosa esposa tinha sede de solidão com seu marido. Era abril, e queria vêr as Rosas-lindas, o florido monumento de sua filhinha. Vinha-lhe do campo o acre das florestas, e a juvenil Maria, que volvera aos desoito annos, renovado e aquecido o sangue ao calor da felicidade, anceou o campo, as flores, a sombra, os regatos, as paginas de sua vida que em tudo aquillo se liam. Passaram um dia de paraiso terreal. Brincaram como creanças, por entre as murtas e os jasmineiros, e as cilindras. O sol transmontava as serras, quando Maria disse:—Agora, vamos, filho! e agradeçamos a Deus este dia, que foi um dos mais completamente felizes da minha vida.

Filippe sentou-a no selim do cavallo, e beijou-a com o fervor d'aquelle beijo, que lhe dera, n'aquella noite da fugida de Arouca.

Caminharam, conversando. O lacaio seguia-os vagaroso, com discreta distancia.{220}

Recordava Maria os cinco annos de Lisboa, a apparição infernal do conde, as saudades angustiosas de Arouca, as delicias loucas dos seus primeiros mezes de casada, as torturas inexprimiveis do recolhimento, a louca alegria da segunda fuga, o interrogatorio e o desespero em casa do almotacé, a terceira fuga, o delirio com que lhe correu aos braços, as venturas que devia a sua mãe, e os terrores que lhe denegriram a felicidade nos ultimos mezes. Filippe ia com ella ao céo n'estas memorias, e de lá se despenhava no abysmo de outras. Assim lhes voára o tempo, até entrarem n'um carvalhal, que fórma um como anteparo da cidade.

—Este sitio—disse Filippe—tem uma belleza terrivel. Eu gostei sempre muito d'elle; mas nunca passei aqui sem pensar na facilidade com que se póde ser assaltado d'entre estas furnas de arvores.

—Vamos depressa, Filippe, dá de esporas ao cavallo—disse ella vibrando a chibata na anca de ambos os cavallos.

—Assustei-te com as minha apprehensões?—accudiu Filippe—Tolinha, vai devagar, que perdemos esta formosa scena... Olha os rouxinoes como cantam lá em baixo nas margens do rio... São acções de graças Deus. Agradecem comnosco ao Senhor a nossa felicidade!...

Proferidas estas palavras, saíram dois tiros de entre uma moita de arvores. Maria Henriqueta soltou um grito estridulo.

Filippe inclinou o peito sobre o pescoço do cavallo{221} que se ergueu de frente, espavorido pelo estrondo.

—Creio que estou morto!.... disse elle. Maria saltou a terra, deu dois passos para o marido, que fincára os braços no pescoço do cavallo. Extendeu-lhe ella os seus, invocando-o com uma voz que era já um como derradeiro grito. Caíu fulminada a tempo que o cadaver de Filippe resvalava aos braços do lacaio.

Oh! não vos dizia eu, leitores?

Com que vontade eu quebraria a penna, se tenho de tirar d'ella paginas negras da vida dos dois tão dignos, tão abençoados, tão bem quistos da leitora, que amou ou ama, do pae que perdoou, ou tem de perdoar um dia, do mundo que sentenceia ou já sentenceiou paixões, que que exorbitam do estadio commum! Ai! eu antes queria inventar, antes mentir, antes de lançar de mim com asco estes apontamentos.

E os apontamentos dizem com acerba simplicidade:

«Viveram, em Hespanha; mas pouco tempo juntos.

O desgraçado Osorio foi assassinado por um tiro, quando se recolhia de passeio com sua mulher».

Quão pouco sabia dos promenores d'este assassinio a educanda de S. Lazaro! outras informações de mais recordados amigos de Filippe, e papeis que se desfariam nunca lidos na papelleira de um nobre, levaram o meu espirito até á catastrophe sanguinolenta d'esta tragedia.

A catastrophe? Ainda não. A justiça de Deus é uma a justiça do mundo é outra.{222}

{223}

VI

O cadaver de Filippe foi n'uma maca para Segovia. O quasi cadaver de Maria Henriqueta foi transportado em braços.

A viuva não ouviu o dobre dos sinos, nem o psalmear dos clerigos ao levantarem o esquife, nem os responsos na egreja proxima.

Onde estava a alma d'aquella mulher, que não se assignalava nos sentidos externos? Iria acompanhar a do esposo? Ficaria no céo, ou voltaria ao supplicio do corpo?

Quem diria, vendo-a extactica, esgazeados os olhos, ora arrobada, ora risonha, e nunca lagrimosa, quem diria se ella se recordava que tivera um marido, um marido amado, um esteio unico, e para sempre quebrado, na sua vida, alli assassinado ao fechar de um dia que ella dissera o mais completamente feliz da sua vida!

Viram-n'a, ao fim de tres dias, saltar do leito aos braços das senhoras, e exclamar:{224}

—Filippe! Filippe! o seu corpo ao menos, deixem-me ve'-lo uma só vez.

Sabia, pois, que tinha sido morto o seu amado. Agora, se a Providencia lhe não destina alguma missão espantosa, vesti esse cadaver d'uma mortalha, e dae-lhe na campa de seu esposo um logar, dae-lhe as nupcias ditosas do tumulo, piedosas senhoras, que a quereis aviventar com o ardor de vossos beijos e de vossos prantos!

Deixae-a viver, que Deus quer essa vida. Amparae-a nos braços, que ella de per si se erguerá e clamará:

—Estou viva: deixae passar a viuva do assassinado! O sangue que elle derramou, gelou-se em bronze, e pesa-me no coração. Deixae-me e vereis se eu era digna d'elle!

Maria ergueu-se uma noite, e falou de seu marido. As idéas embaralhavam-se desconcertadas; mas eram idéas do passado, do presente e do futuro. Pediu, instantemente, com as mãos erguidas, que a levassem á campa de seu marido.

—Deixem-n'a ir—disse o alcaide—e seja já. Vamos com ella. Quanto mais cedo rebentarem as lagrimas, mais depressa nos voltará a razão da infeliz.

Foi aberta a egreja. Maria ajoelhou sobre a fisga de uma campa, que lhe indicaram. Debruçou-se até collar os labios na lagem. Disse uma palavra, uma só, e nenhuma lagrima verteu.

Palavra tremenda, que o futuro disse depois qual era.

—Mas não chorou!—disseram as consternadas senhoras.{225}

—Ha de chorar—respondeu o pae.

N'essa mesma noite, disse Maria:

—Deixem-me ver a roupa que meu marido vestia quando o mataram.

As senhoras encararam-se indecisas, e o pae murmurou:

—Mostrem-lh'a.

Junto com o casaco de castorina amellada, vinha uma camisa cortada de laivos de sangue. Maria beijou o sangue, e disse:

—É minha: guarda'la-hei.

E enrolou a camisa, e aconchegou-a do seio, sem a menor visagem de demencia.

—Mas não chora!—diziam as meninas, em segredo, a seu pae.

—Se não chora, morre.

No dia seguinte, chegou D. Maria das Dôres, chamada a Segovia por um creado do alcaide, que partira horas depois do assassinio.

A filha deixou-se apertar ao seio arquejante da mãe; viu-a chorar e soluçar; ouviu-lhe as exclamações ora piedosas, ora colericas; tudo viu e ouviu impassivel.

—Iremos ámanhã—disse ella á mãe.

—Se pódes, vamos, minha filha!—respondeu Maria das Dôres, pensando que o afasta'-la d'alli era um passo para salva'-la.

Despediu-se das meninas e do alcaide. A todos, e a cada um disse:

—Até á eternidade!

Entrou n'uma liteira, com sua mãe.{226}

Perguntou-lhe Maria das Dôres que levava ella enrolado debaixo do braço.

—É o sangue de meu marido—respondeu.

Tinha dito o alcaide a D. Maria:

—Excite-lhe as lagrimas, se a quer salvar. Leia-lhe as cartas que um amigo do marido lhe escreveu do Porto. Quer-se um abalo energico, seja qual fôr. Accenda-lhe o furor do odio ao assassino. Para esse eu lhe darei um espectaculo no caminho.

Ao segundo dia de jornada, D. Maria das Dôres ouviu ler as cartas, concludentes para a certeza de ser ordenada a morte pelo conde de Monção.

—Eu já li essas cartas—disse Maria.—Sei tudo.

Entravam na provincia de Valhadolid, quando viram ante si uma escolta de soldados equestres, com dois presos manietados. Parou a escolta n'uma chan, e parou a liteira, embargado o caminho.

Maria via tudo indifferente.

Chegou o alcaide á portinhola da liteira, e disse:

—Sr.ª D. Maria Henriqueta, eu vingo Filippe tanto quanto posso.

Approximou-se do commandante da escolta, e exclamou:

—Póde seguir com os seus soldados. Os presos ficam entregues á minha guarda. Maria olhava e parecia não compreender.

Os cavallarias ladearam a liteira e passaram ávante, dando o passo a soldados de pé, que alinharam em frente da liteira.{227}

—Justiça de Hespanha!—disse o alcaide.—De joelhos, assassinos de Filippe Osorio! Ha-de pesar-vos na consciencia mais o ferro que o ouro do conde de Monção. Depressa, em quanto eu não ponho a tormentos estes infames; depressa, rapazes!

Arderam doze escorvas; o estrondo fez levemente tremer Maria Henriqueta; o vento rijo sacudiu depressa uma nuvem de fumo, e o estertor dos cadaveres passára com o fumo da polvora.

O alcaide avisinhou-se da liteira, e disse com risonho aspecto:

—É incompleta a vingança: mas não está mais em minha mão.

E apertou a de Maria Henriqueta, que respondeu:

—O resto... eu!

Os liteireiros afastaram com o pé os cadaveres do caminho, e o prestito caminhou devagar, esperando que Eugenia recuperasse os sentidos aturdidos pelo incidente.

Ao decimo dia de jornada, chegaram os viajantes ao Porto.

Maria Henriqueta subiu serena as escadas da casa onde nascera. Perguntou por seu pae, e disseram-lhe que estava gravemente enfermo, e sacramentado. Entrou na camara, que já espirava o fetido tábido da morte. Approximou-se do leito, ajoelhou, e disse:

—Venho a tempo de lhe pedir perdão, meu pae.

O velho fez um gesto de indignação.

Maria desenrolou a camisa do marido, e murmurou.{228}

—Em nome d'este sangue lhe peço perdão.

—Sangue!—exclamou o velho.

—Sangue de meu marido, de meu marido assassinado pelo conde. Para nos encontrarmos todos na eternidade, perdoe-me, meu pae. Este sangue era innocente, e pede perdão para o nobre coração que o tinha, e para mim.

Gonçalo quiz sentar-se no leito: esforço vão! Pediu por acenos, que o sentassem. Obedeceram-lhe. Chamou a filha a si, approximou-a do peito, e balbuciou:

—Perdôa-me tu, perdôa-me tu, desgraçada!...

E continuava a querer aperta'-la entre os braços convulsos, quando a face, pendida para o seio, encontrou a cabeça de Maria, e esteve assim instantes. Eram os ultimos. Os braços, ao descaírem, inteiriçaram-se e os dedos recurvaram-se um pouco.

Maria retirou a cabeça humida do sôro que corria dos cantos dos beiços do defunto. Fitou os olhos na face morta de seu pae, e disse:

—Perdôo-lhe, meu Deus! Perdoae-me vós a mim, quando eu fôr á vossa presença!

No dia seguinte, a sociedade illustre do Porto pejava as salas funeraes do palacio de Gonçalo. Ninguem vira Maria Henriqueta. As damas intimas de D. Maria das Dôres poderam apenas saber que a viuva tinha saído á meia noite acompanhada de um lacaio.

Assim fôra; e quizera ella acompanhar-se do lacaio do marido, o fiel creado de vinte annos; mas ninguem dera novas d'elle, desde que entraram no Porto.{229}

D. Maria das Dôres tentou estorvar-lhe o mysterioso designio; mas a filha respondia-lhe:

—Seja piedosa! não me mate! deixe-me, em signal de compaixão das minhas infernaes penas.

Só a violencia podia embargar-lhe a saída. Aconselharam-na á fidalga os familiares e parentes; mas quebrou de animo para tanto.

Maria Henriqueta saíu.

E cinco dias depois anoiteceu-lhe em Lisboa; e no dia seguinte atravessou o Tejo, e foi caminho de Extremoz.

Correm rapidas estas scenas, porque Maria não murmurava mais palavras que as urgentes para o cumprimento de suas ordens ao creado. Os dias eram os mesmos; brida solta em quanto os cavallos podiam; novos cavallos quando caíam de fadiga os outros. Os viandantes que a encontravam entre nuvens de pó, diziam: «Que extravagante mulher! É alguma fidalga, que não sabe como hade consumir o vigor dos annos, espicaçados pela riqueza!»

Outros achavam-lhe um bello rosto alumiado por sinistra auréola, e paravam a comtempla'-la nos curtos intervallos em que pousavam nas estalagens, ou alugavam cavallos nas grandes povoações. Em algumas estalagens, os passageiros curiosos, ao romper do dia, perguntavam ao lacaio: «Que tem sua ama, que soluçou e gemeu no quarto toda a noite?»

A duas leguas áquem de Extremoz, apeou Maria Henriqueta, a esperar que anoitecesse para entrar na cidade.{230}

Ao caír da tarde, entraram na estalagem uns homens vindos da feira de Extremoz, e contaram ao estalajadeiro o seguinte:

«Seriam duas horas da tarde quando saía de se receber n'uma egreja um sr. conde com uma menina, que lá diziam ser a mais rica da provincia. Estava muito povo no adro, e muito fidalgo, que já não cabia na egreja. Saíram os casados já recebidos, e o noivo vinha que parecia um rei, e a noiva era mesmo um palmito, com tantos brilhantes como as estrellas do céo. E vae n'isto, quando o conde ia a dar a mão á noiva para entrar no coche, um homem que eu não cheguei a ver, mas que me disseram que era já avelhado, chega ao pé do conde cara a cara, diz-lhe não sei que, e enterra-lhe tres vezes no peito uma faca!»

Maria Henriqueta expediu um grito que chamou a attenção de todos, para o repartimento do tabique, além do qual estava a saleta, que lhe deram. Movera-se o estalajadeiro a saber o que tinha a fidalga, quando ella abriu a porta, e perguntou:

—E ouviram dizer quem fosse o homem que matou o conde?

—Ninguem lá soube dizer quem era, fidalga!

—Prenderam-no?

—Ora! isso foi como o senhor sol. Lá ficou na cadeia. Eu bem quiz ver-lhe os focinhos; mas era tanto o povo, que ninguem lhe chegava á beira. Uns diziam que era mandado por outro que queria casar com a menina; outros contavam lá a cousa como queriam; o caso é que{231} ao certo ninguem sabe dizer quem é. Ámanhã é que pelas perguntas se ha de saber.

Não se deteve Maria Henriqueta. Chegou a Extremoz, e viu no primeiro palacete as portas cobertas de crepe com franja de prata. Sem perguntar, soube que d'alli havia de sair o cadaver do conde de Monção.

Apeou-se na estalagem, e pediu guia para a cadeia. Como a julgassem curiosa de conhecer o assassino do conde, disseram-lhe que elle estava a perguntas em casa do juiz de fóra. Foi Maria a casa do juiz de fóra, e conseguiu entrar até ao salão de espera. Era prohibido o accesso ao gabinete do ministro, onde estava o interrogado.

Esperou que elle saísse, viu-o, e conheceu o creado de Filippe Osorio, o seu amigo de nove annos. Viu-a tambem elle, e parou, abriu ainda a bocca para exclamar; mas logo viu que a fidalga tinha sobre o nariz o dedo, em gesto de silencio.

Passou o preso, e Maria Henriqueta, escutando os rumores, que vinham do gabinete, ouviu dizer que o assassino do conde confessára quem era, e a causa por que praticára o homicidio, mostrando suprema coragem para morrer, vingado o amo, que ás ordens do conde fôra assassinado.

Decorridos dois dias, Maria Henriqueta vestiu uma velha roupa, alinhavada ao uso do Minho, e pediu ao carcereiro licença para falar com o preso, que era seu irmão. Foi-lhe concedida, como cousa usual. O preso, ao ve'-la, lançou-se-lhe a chorar aos pés, e disse:{232}

—Perdôe-me v. ex.ª...

Maria susteve-o, porque o carcereiro estava ainda perto, e, baixando a voz, disse:

—Entrei aqui como tua irmã, fala baixo... De que me pedes perdão?

—Tirei-lhe a vingança que era de v. ex.ª... mas não pude mais com a minha paixão. Eu adivinhava que a fidalga vinha; e a minha vontade era espera'-la e guia'-la na sua vingança; mas n'aquelle momento em que o maldito saía da egreja, não pude ter mão em mim; cheguei-me ao pé d'elle, e disse-lhe: «Sou o lacaio do sr. Filippe Osorio» e matei-o a facadas. Estou contente, palavra de fiel amigo! Agora, que me enforquem quando tiverem occasião, que eu cá fiz trinta annos á justa ha mais de vinte. Não podia empregar melhor a vida!

—Não has-de ser enforcado, João—disse Maria.

Hei-de salvar-te; irás d'aqui para Hespanha.

—Salvar-me?! Deixe-se d'isso, fidalga; não vale a pena andar a minha ama n'esses arranjos, sem geito nem saída. Vá v. ex.ª para sua casa, e deixe-me cá com a minha consciencia, que estamos de boas avenças, eu e mais ella, assim me Deus salve a minha alma.

—Cala-te, e obedece-me, João. Vê em mim teu amo. Vêr-me-has mais vezes.

Maria voltou ao dia seguinte, e ao outro. O creado que a seguira, já tinha voltado ao Porto, com uma carta a D. Maria das Dôres. Resava assim o periodo final:

 

«Mande-me, pois, quanto possa, quanto v. ex.ª daria{233} para o resgate de sua filha. É a minha vida que salva da forca. As suas joias valiam mil cruzados: dê-m'as, que eu não quero mais nada da herança de meus paes, senão uma mortalha, e um tumulo para os ossos de meu marido e para os meus.»

 

Á quarta visita que Maria Henriqueta fez ao preso, deteve-se a falar com o carcereiro. Era um homem pobrissimo, bondoso, dado com os presos, que o sustentavam. N'um relance da conversação, Maria assumiu o tom natural de senhora, e disse-lhe:

—Dê-me o preso, que matou o conde, e eu dou-lhe por elle quinze mil cruzados. V. mercê recebe os quinze mil cruzados, foge para Hespanha com o preso, e vae viver feliz e na abundancia onde quizer viver fóra de Portugal. Repare que não é a irmã do preso que lhe fala, é uma mulher que lhe dá, passados alguns dias, quinze mil cruzados.

O carcereiro mediu-a de alto a baixo, e murmurou:

—Isso é mangação? Eu não sei com quem falo.

—Que lhe importa saber com quem fala? Resolva-se n'este momento. Aceite a independencia onde a quizer gosar. Que responde?

—Nós falaremos, senhora; mas se me prendem...

—Siga o preso, que elle vae recommendado a pessoa de Hespanha, que dará a ambos completa segurança, e passagem para o exercito francez, se a quizerem.

O carcereiro annuiu, sem grandes oscillações de consciencia. Esperava Maria a resposta de sua mãe com{234} anciedade. Ao fim de sete dias chegou o mordomo, a quem D. Maria das Dôres confiára dinheiro excedente ao valor das joias.

O carcereiro foi chamado á sua presença, e viu o dinheiro.

—Traga por aqui o preso esta noite. Venham de roupas mudadas para não serem conhecidos. Aqui recebe vocemecê o dinheiro, e elle uma carta. Depois, sigam o caminho mais seguro que tiverem.

—Eu sei os atalhos aos palmos até á fronteira—disse o carcereiro.

Ás onze horas da noite d'esse dia, apresentou-se na prisão o carcereiro, dizendo que o juiz de fóra mandava remover da prisão commum o preso matador do conde, e mette'-lo em segredo. Os companheiros lastimaram o destino do infeliz.

Dado este passo, o creado de Filippe Osorio vestiu, na residencia do carcereiro, a roupa que este lhe deu, e passou por deante das sentinellas, que o julgaram amigo ou familiar do carcereiro.

Maria Henriqueta esperava-os no seu quarto da estalagem. Recebeu o creado entre os braços, que se não pejaram de estreitar ao coração o vingador de seu marido. Deu ao homem vendido a quantia estipulada. Deu basto dinheiro ao amigo, e uma carta para o alcaide de Segovia. O servo beijou-lhe as mãos, banhou-lh'as de lagrimas, e partiram.

—Não tenho mais que fazer aqui—disse Maria Henriqueta.{235}

E, n'essa mesma hora, saíram para Lisboa, e seguiram viagem para o Porto.

O sangue da infeliz tinha estuado, arrefecido nas veias. Apagada a flamma da vingança, um leve sopro lhe levaria o espirito vital. No caminho, succumbira muitas vezes ao cançaço, e fizera a jornada de liteira.

Entrou em casa de sua mãe, e disse:

—Agora venho pedir a mortalha.

Rodearam-na as consolações frivolas, e o maravilhoso da vingança que lhe attribuiam os já sabidos na morte tragica do conde.

—O creado fiel—dizia ella á mãe—não me deixou cumprir a promessa que fiz sobre a sepultura de meu marido. VINGAR-TE-HEI, disse eu; mas eram tantos a ama'-lo, que me roubaram a gloria de ver o sangue do algoz! Agora, Deus que me julgue!{236}

{237}