—Tu m'as pagarás, ou eu não seja quem sou!{145}

VI

Correspondiam-se, diariamente Maria Henriqueta e Filippe. Bafejava-os a fortuna na pessoa de Eugenia, que a certa hora da noite dava e recebia as cartas pelo muro do jardim. Eram felizes porque amavam, esperavam, e confiavam nos milagres da sua constancia.

O pae de Filippe era pessoa de grandes relações com a fidalguia transmontana. Os mais superciliosos cavalheiros prezavam-se de o chamarem primo. Todos se lhe prestavam a cooperar para persuadir a Gonçalo Malafaya o acerto do casamento com um moço tão bem prosperado em sua carreira militar, e de nascimento assaz illustre para emparelhar, sem desaire, com os mais qualificados no reino.

A fidalguia empenhada acertou de chamar a si os parentes de D. Maria das Dôres, que eram tambem os de Gonçalo; mas preponderavam n'ella mais. Confluiram á mãe de Henriqueta cartas de muitas senhoras suas amigas da mocidade, e das suas mais intimas no mosteiro de Arouca. Uma açafata de D. Carlota Joaquina escreveu-lhe{146} em nome de sua ama. É onde podia chegar a influencia do fidalgo de Mirandella, mais por amor do filho que da riqueza da noiva.

Maria das Dôres inclinou-se a favor de Filippe, e mostrou ao marido a petição da açafata. Gonçalo Malafaya, quando tal viu, soffreu um accesso de vertigem furiosa, e rasgou a carta entre os dentes. D. Maria teve medo dos arremessos do marido, e deixou-o bravejar e urrar contra a conjuração dos seus matadores.

Maria Henriqueta, amoravel com seu pae por que tinha a trasbordar o amor do peito, affrontou-se com o medo, e foi supplicante aquietar-lhe os impetos. O velho repelliu-a com arrebatada virulencia.

Velho lhe chamei eu pela primeira vez: estava-o deveras; sem um cabello negro, e não tinha ainda quarenta e oito annos! Fibra no rosto uma só não tinha lisa do arar do fogo interior. Abaixo do rebordo das orbitas parece que o absyntho das lagrimas lhe calcinára a pelle. Inclinava-se já para o chão, como a pedir á terra que o acolhesse e escondesse do seu mau anjo! Nas horas de solidão, poderiam ouvi'-lo exclamar muitas vezes: «Ó Beatriz de Noronha! tira-me este calix dos labios, ou verte-m'o de uma vez no coração, para que eu morra de uma só agonia!»

Que flagello de vida no seio da riqueza! que inferno n'aquelle palacio, arreado de sedas, de librés, de equipagens, de tudo que morde a inveja, e conjura a pobreza contra a caprichosa partilha de Deus!

Ergueu-se um dia Gonçalo Malafaya, ao cabo de uma{147} noite infinita de calculos dilacerantes. Alumiava-lhe o rosto o clarão sinistro da demencia. Viram-n'o esposa e filha, e gelaram de medo. Era a horas de almoço, ao qual desde muito o fidalgo não assistia. Entrou inesperado, cruzou os braços, e exclamou com energica vehemencia:

—É ámanhã!

—Ámanhã o quê, primo Gonçalo?

—Que a má filha ha de entrar no convento de Arouca, senão hei de dar-te um punhal para que m'o enterres no peito.

—Irei, meu pae, irei hoje mesmo, se v. ex.ª o determina.

—É ámanhã—bradou elle.—Eu morrerei depois de ámanhã. Quando eu estiver sobre terra, sáe do convento, cospe na minha cara, e levanta-te com a herança da casa de teus avós e com a minha maldição.

Maria Henriqueta encostou o peito ao bordo da mesa, e cobriu o rosto com as mãos. Chorava; e o pae sentiu-se mais desopprimido com as lagrimas da filha. Deu alguns passos até defrontar com ella, e disse:

—Essas são as menos amargas que tu choras. Outras virão... tenho aqui na alma o presagio de outras, que has de verter sobre o cadaver do homem que me aponta ao peito o ferro, com o braço guiado pela mão de minha mulher.

—Penso que enlouqueceste, primo!—disse Maria das Dôres.

—Emmudece, serpente!—exclamou em furia o transfigurado{148} velho.—Enroscaste-te á minha mocidade, mataste aquella creatura divina, mataste a minha alegria, empeçonhaste o coração de tua filha, e estás agora minando-me a sepultura para esconderes de ti este phantasma de remorsos!...

A syncope, em que desfechou a desarrazoada apostrophe, delatava que os receios da loucura não eram de todo panicos. N'aquellas accusações era manifesta a injustiça.

Bem viram que Maria das Dôres foi de todo alheia ás desventuras de Beatriz de Noronha, sobre ser obrigada a acceitar o marido, proposto desde a sua infancia. O leitor póde negar sua sympathia ao caracter de Maria das Dôres; mas, se a punir com o seu odio, é injusto. Pender, em bem da filha, contra a imposição do casamento, é virtude para muitos louvores. Se o fez por animo contradictorio, feliz culpa a sua; se por experiencia de sua desgraça, abençoada defesa da pobre menina, e abençoada sempre, embora estes infelizes todos se venham a abismar guiados por suas estrellas funestas.

—Vae para o convento, Maria—disse a fidalga á filha.—Fia de mim que pouco tempo lá estarás. Eu hei de vencer teu pae, com habilidade e paciencia. Vou fazer, por teu amor, o sacrificio da humildade. Mas agora é preciso que vás. Se teu pae morre, tens de soffrer remorsos, e remorsos que hão de assaltar-te os dias todos da vida, embora os goses com o homem que amas. Com tempo, serás esposa d'elle; mas faz muito pelo seres com a consciencia tranquilla.{149}

Maria Henriqueta rompeu em choro nos braços de sua mãe, e foi d'alli escrever a Filippe, contando-lhe o seu destino, e as promessas da mãe. O tão apaixonado como generoso moço incitou-lhe a coragem do sacrificio, pedindo-lhe que o offerecesse a Deus como merecimento para ambos lhe merecerem mais tarde a sua benção.

Ao outro día, Maria entrou n'uma liteira com sua mãe, seguidas do simples prestito do capellão, a ama, creadas e lacaios.

Maria das Dôres, a antiga aia da Santa rainha Mafalda, entrou no seu quarto de infancia, e no de suas defuntas tias; e os dias de então, e só esses do seu passado, lhe vieram á memoria e amolleceram o coração até ás lagrimas.

A reclusa menina, ao ver-se alli, no calado dos claustros, debaixo dos profundos firmamentos, n'um dia em que os sinos dobravam á agonia de uma religiosa, e quando outra recebia as ultimas honras da sepultura, Maria Henriqueta pensou que ia morrer, e assim o disse na primeira carta, enviada a Filippe.

Demorou-se a mãe alguns dias no mosteiro, e apressou a saída, quando receou pelos dias de Maria Henriqueta. Foi o seu proposito, ao retirar-se, mover o pae a consentir no casamento, ou romper abertamente com elle e com o mundo, protegendo a fuga da filha, se outro expediente não viesse em redempção d'ella.

Ausente a mãe, augmentaram os terrores de Maria, e as lastimas nas cartas escriptas a Filippe. Em algumas,{150} pedia-lhe ella que a salvasse, pelo muito que ella o amára, e pelas muitas dôres com que quizera merecel'-o. Salval'-a era arrebata'-la do convento, fugir com ella, cumprir o juramento que lhe tinha feito, quando a chamou ao quarto da ama. Ao mesmo tempo, contava-lhe as nenhumas esperanças que a mãe lhe dava, e as diligencias que o pae fazia, para o remover para o ultramar, e tirar-lhes a possibilidade de se cartearem. D'isto lhe déra aviso a mãe, assegurando-lhe que as cartas de Filippe, apesar do suborno tentado no correio, haviam de chegar-lhe sempre á mão.

Enganára-se Maria das Dôres com as promessas do empregado na transmissão das cartas. Maria Henriqueta, ao fim de tres afflictivas semanas, enviou um proprio a Filippe, perguntando-lhe a razão porque a desamparára.

O tenente de cavallaria tinha de marchar n'aquelle dia com o regimento para Lisboa, onde se estava resenhando o exercito para começar a lucta com a França, cujos generaes se avisinhavam das fronteiras.

Pediu licença o tenente por dois dias: foi-lhe negada. Empenhou por si os seus amigos, senhores do segredo da sua vida; baldaram-se as solicitações. Filippe Osorio, á ultima hora, quando os clarins já tocavam a reunir á porta do quartel, viu a imagem de Maria Henriqueta, e ouviu um como gemido de moribunda, e um falar assim de quem se despede: «Vae, e volta alguma vez á minha sepultura!»

O tenente tomou as redeas do cavallo que o auxiliar{151} lhe offerecia, passou por diante dos clarins que o chamavam, viu ao longe, no occidente das esperanças da gloria, sumir-se a sua estrella, e fitou os olhos n'outra, que o chamava sobre um leito de agonia.

Desertou.

A mancha era negra; mas o disco resplendoroso, que lhe alumiava o coração e o ar em que ia aspirando a liberdade louca de amante, não lhe deixava ver a negridão da deshonra militar.

Na primeira terra em que pôde escrever liberalisou estipendio a um portador que levasse uma carta a Mirandella. Era um aviso a seu pae. Noticiava-lhe a deserção e o intento de roubar Maria ao convento e á morte. Pedia-lhe que estivesse um clerigo prestes a recebe'-los, logo que alli chegassem, e o dinheiro necessario para se refugiarem em Hespanha ás penas militares, e á perseguição de Gonçalo Malafaya.

Apeou em Arouca, e procurou Maria. Nenhum impedimento lhe estorvou falar-lhe. Acolheram-no na aposentadoria monacal, como primo da fidalga, que as religiosas amavam pelo muito que a viam padecer. Deu ella o plano da fuga, não facil, nem talvez exequivel. Maria devia transpor um muro, que seria morte certa, se o pé lhe resvalasse de um galho de arvore, em que fiava o apoio para segundo salto á estrada. Impugnou-lhe o plano o susto de Filippe; e ella, para aquieta'-lo, prometteu pensar em menos perigosa evasiva; mas pediu-lhe que tivesse os cavallos arreados na seguinte noite.

A lua banhava de livido alvor as paredes do templo.{152} O derradeiro nocturno tinha soado no campanario, alteroso vigia, como posto alli em guarda das esposas do Senhor. As paixões e as virtudes dormiam ou pareciam dormir lá dentro do mesmo somno. Cá fóra ramalhavam os arvoredos, e o norte assobiava nos agulheiros das torres.

Maria Henriqueta occupava um quarto sem rexas nem rotulos, logar privilegiado das reclusas, que inspiravam á prelada inteira confiança. O salto á cerca era facil e seguro, com o poderoso auxilio de um telhado de ermida contigua á parede. D'este ao jardim, só mulher que não amasse acharia perigoso o descer. Maria nem de leve sentiu o baque. Ficou sentada na relva, e ergueu-se logo, correndo para o muro, e procurando, entre as gabellas de varas podadas das videiras, uma escada de mão, que encostou á parede. Escalando o muro, tremeu da altura exterior, e viu que se enganára na distancia da arvore, que devia ajuda'-la na descida. Fincou os joelhos ao cume da parede, e foi-se arrastando até ao ponto da arvore, que o vento sacudia. Este inesperado incidente desalentou-a; só estando queda a arvore ella poderia aferrar-se aos ramos mais robustos, e verga'-los até tomar pé no galho chapotado. Estava ella assim aterrada e immovel com a vista desarmada a um e outro lado, quando, d'entre as arvores da outra orla do caminho, surgiu um vulto, que a gelára de medo, se a voz o não denunciasse ao mesmo tempo.

—Eu esperava isto...—disse Filippe.

—Já tenho animo!—exclamou ella.{153}

—Espera!

Filippe, tirando o manto e a farda, que lhe empeciam os movimentos, marinhou pelo tronco da arvore até fincar o pé no rebento que dava sobejo e seguro apoio a maior peso. Depois cingiu com o braço esquerdo o tronco, e disse a Maria que se pendurasse no ramo mais forte, e eminente á cabeça d'elle. Maria correu as mãos mimosas por sobre as asperezas da ramagem, e recurvou os dedos no mais afastado e grosso ramo que poude. Deixou o corpo ao seu natural pendor, impellindo-se com o pé fóra do muro. O despenho seria infallivel, se Filippe a não repuxasse a si, apertando-a ao peito com o braço direito.

Maria Henriqueta ria n'esta situação, e dizia:

—E se caímos abraçados?!

—Firma-te!—disse serenamente Filippe.—Apega-te ao tronco da arvore, que eu vou descer. Passa os teus pés devagar para o logar dos meus... Assim... Agora, larga-me, e segura-te... Bem... espera um pouco.

Disse, e saltou ao caminho; mas não se susteve em pé porque era grande o salto. Maria sobresaltou-se, e quiz resvalar agarrada ao tronco; mas Filippe já estava erguido, rindo da sua queda para serenar Maria.

Encostou-se á arvore, e disse:

—Desce, até encontrares os meus hombros com os pés. Depois, sem largar o tronco, deixa-te descer conforme eu me fôr abaixando, e salta quando eu te disser.

A execução da facil manobra foi feliz. Elles ahi vão,{154} embrulhados no mesmo manto. Maria está vestida de branco, e Filippe receia que o ar picante da noite a moleste. Coração em labaredas levam elles; mas o fogo intimo não basta a retemperar a temperatura da atmosphera. Os catarrhos são pensão de amadores nocturnos.

Estão os cavallos arreados na aldeia proxima, á mão do velho e leal creado de Filippe. Maria vê o velho, e chora pela sua ama, a quem não deu o ultimo abraço para a não ver morrer. Filippe quer consola'-la, mas não sabe. O creado velho sabe a razão das lagrimas, e diz:

—Quando chegarmos a terra segura, eu volto a buscar a velha. Arranja-se tudo; a morte é que não tem remedio.

Maria consolou-se.

Cavalgaram, e partiram. Ao dobrarem o primeiro outeirinho, Maria apontou para a torre do mosteiro, e disse:

—Que medo me faz aquillo! parece um phantasma! Que horriveis horas aquelle sino marcou na minha vida, ó Filippe!

—Deixa-o agora marcar annos de felicidade, minha esposa.

—Quantos marcará, ó Filippe?!!...

Soaram tres badaladas.

—Só?!—exclamou ella com supersticioso terror.

—Não sejas creança, Maria! disse Filippe.—Aquillo quer dizer que são tres horas.

Caminharam.{155}

O frio da manhã golpeava o rosto de Maria, e as redeas caíam-lhe dos dedos entrezilhados.

Filippe sentou-a sobre as capas dos coldres, apertou-a ao seio, e aqueceu-lhe as mãos no acolchoado da farda. E assim caminharam, até que o sol dourou o melhor dia d'aquellas duas existencias.{156}

{157}

VII

Entraram ao romper d'alva em Mirandella, a hora em que os irmãos de Filippe, desconfiados da demora do irmão, saíam a procura'-lo no caminho de Arouca. Ás dez horas da manhã d'esse dia, celebrou-se o casamento na capella da casa, por ministerio de um abbade parente do noivo, homem que não lera no Evangelho o preceito do consentimento paterno para a validade do sacramento. Foram testemunhas os irmãos do esposado, e padrinhos os paes.

Ao outro dia chegou a Mirandella a ditosa Eugenia, que o fiel creado fôra buscar, deixando em Amarante os amos. Contou ella que na tarde d'aquelle dia da fuga chegaram a Arouca alguns soldados de cavallaria, com um commandante, pedindo novas de um tenente, que desertára; e que n'essa mesma tarde tinham saído para outros sitios.

Comprehendeu Filippe o perigo da sua situação, e quiz fugir, antes que a Bragança, quartel do seu regimento, chegassem ordens para a sua captura. A parentella{158} votou unanime pela resistencia, confiada no poderio que exercia sobre o povo. Filippe combateu o denodo inopportuno, por amor de sua esposa, a quem tristes festas de nupcias seria uma briga sanguinaria do povo com a tropa.

Muniu-se o desertor de basto dinheiro para dois annos de desterro, e internou-se em Hespanha, com os dois velhos creados, que entre si se queriam por terem sido, em seis annos, os confidentes dos infelizes amores de seus amos, já agora unidos sagradamente para sempre.

Deixemo'-los em Hespanha procurar o remançoso eden de seus anhelos. Irão a Sevilha? a Granada? a Cordova? Irão a toda a parte, hão de encontrar as delicias reflectidas do céo que levam na alma.

Deixa'-los, que é delicadeza não irmos de pós elles. A suprema felicidade de dois noivos tem o seu pudor, que se quer resguardado de olhos alheios.

Vamos ao Porto, e entremos em casa de Gonçalo Malafaya.

Ao amanhecer do dia immediato ao da fuga, chegou de Arouca o enviado da má nova. O fidalgo, que já sabia da deserção do tenente, e incitára a saída do destacamento para captura'-lo em Arouca, nem por isso ficou menos surprehendido. Correu ao quarto de Maria das Dôres, e exclamou:

—Maria Henriqueta fugiu do convento!

—Estás a sonhar, ou sou eu que sonho?!—disse a esposa.

—Alli está o portador de Arouca! Fugiu sua filha,{159} senhora! Ahi tem a sua obra! Faltava-me esta deshonra: devo-lh'a, senhora, devo-lh'a, como ultimo golpe, que me ha de matar!

Disse, e refugiu para o seu quarto, tropeçando nos corredores, não aclarados ainda pela luz da manhã. Pouco depois, voltou á camara da esposa, e bradou:

—A senhora está na cama?! Levante-se que é preciso protestar contra a ignominia que pesa sobre nós! Levante-se, que d'aqui a pouco seremos insultados pela canalha! Vista-se de lucto, e quero que todos os meus brazões de armas, em todas as minhas casas e quintas, sejam cobertos de negro! Maldita seja a mãe que perdeu sua filha!

D. Maria agitou com força a campainha, e disse ao marido:

—Queira retirar-se, que vem as creadas vestir-me.

Entraram as creadas de baldão, quantas havia na casa, e a senhora disse a uma d'ellas:

—Vae dizer ao capellão que procure os primos Mellos e os primos Peixotos, e lhes diga que venham cá ter mão no sr. Gonçalo que foi atacado de um accesso de demencia.

Foi a creada dar o recado. O capellão ouviu-o, e benzeu-se com a mão direita; saíu do quarto e benzeu-se com a esquerda; e ao transmittir a infausta noticia a Mellos e Peixotos, benzia-se com ambas as mãos.

Acudiram os primos e Gonçalo recusou-se a recebe'-los, cuidando que vinham ao cêvo do escandalo para ultraja'-lo com fingidas caramunhas. Ouviram a prima{160} Maria, e convieram em que a fuga de Maria Henriqueta para casar com Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, tão fidalgo como ella, não merecia tamanhos alvorotos, nem a loucura do primo Gonçalo, por tal motivo, captivaria a compaixão publica.

Repellidos do quarto do velho, segunda e terceira vez, os fidalgos saíram a divulgar o caso sem o classificarem de deshonra, imputando, porém, a culpa d'ella, se culpa havia, ao pyrronismo de Gonçalo Malafaya, que sonhava com enxertar um conde na familia, ainda que o conde fosse um tolo e um perdulario.

Ao meio dia estava Gonçalo vestido de rigoroso lucto, e os lacaios de lucto tambem.

D. Maria das Dôres vestia de azul claro e ordenava ás suas creadas que se escusassem de completar a irrisão da casa.

Entrou o fidalgo na sua carruagem, e foi a casa de todos os magistrados do crime pedir justiça. Acolheram-n'o com respeitosa compaixão, e prometteram precatorias para os fugitivos serem presos, onde quer que a policia os descobrisse. Gonçalo a todos disse que dava os seus haveres pela captura de Filippe, e a si proprio se venderia para pagar os ultimos ceitis aos esbirros.

As cartas precatorias saíram desde logo para differentes pontos do reino, e algumas para Hespanha. E, ao mesmo tempo, as justiças militares tiravam summario despacho para a captura do desertor.

Maria das Dôres, sciente dos mandados judiciarios, enviou pessoa de sua confiança a Mirandella, avisando{161} o pae de Filippe Osorio, e escrevendo a sua filha uma carta mais de indulgencia que de recriminação. «O mal está feito,—dizia-lhe ella—mas em parte considero-o sanado pelo casamento. Escondei-vos cautellosamente, em quanto a tempestade ameaça fulminar-vos com a vergonha de uma prisão. Não entreis em Portugal sem que eu vo'-lo diga; nem vos mostreis em Hespanha, porque as ordens hão de lá chegar, em mãos de quem primeiro as encheu de ouro nos cofres de teu pae, etc.»

A carta foi dar ás mãos de Maria Henriqueta, que a essa hora trajava de homem, e se chamava em Hespanha D. Luiz de Castro, irmão de D. Pedro de Castro, nomes inscriptos no passaporte de Filippe Osorio.

Estavam então em Sevilha, e tão descuidados, tão ebrios de seu amor, que nem a carta os alvoroçou. «N'esse tempo (dizem os apontamentos que tenho á vista) figurando ella de lindissimo moço, deu-lhe que fazer o amor das hespanholas, que morriam por elle; e D. Luiz de Castro sustentava os namoros, para rir com o marido, mas sem saber que saída a final lhes daria.»

Pernoitavam os ditosos esposos em Segovia, onde os anteciparam cartas da capital da provincia, recommendando os dois Castros, cavalheiros portuguezes. Convidou-os o alcaide para uma tertulia, e banqueteou-os no dia seguinte, a pedido das filhas, que eram duas, e cada qual se apaixonára do seu Castro. Praticaram-se cousas de Portugal, e caíu a proposito perguntar o alcaide aos{162} seus hospedes se conheciam um Filippe Osorio Vaz Guedes da Fonseca, desertor de cavallaria 6, que havia roubado de um mosteiro a filha de um fidalgo de linhagem, solarengo no Porto.

Disse D. Pedro de Castro que sobejamente conhecia o desertor. Contou miudamente a historia triste dos seus amores com a filha do fidalgo, e tão a enternecer o disse que as sensiveis hespanholas choraram de ouvi'-la, e o alcaide jurou que rasgaria a ordem, que tinha, de prende'-los se alguma vez reconhecesse os sympathicos fugitivos no seu districto. A intimidade cresceu tanto entre a auctoridade e os hospedes, que, decorridos alguns dias, Luiz de Castro appareceu vestido de Maria Henriqueta ao alcaide e ás filhas, que ouviram d'ella a historia, repetida com mais graça e affectuosa tristeza, dos seus amores com Filippe Osorio.

Desde essa hora, o magistrado hespanhol não velaria com mais zelo a segurança de seus filhos. Onde quer que iam, lá os antecipava a influencia do alcaide, de modo que se viam em toda a parte festejados os dois cavalheiros portuguezes, e requestados de quantas damas os abrasavam com os olhos e com o chocolate.

Segovia era o logar onde iam a desfadigar-se das excursões ás provincias, e onde as cartas do reino iam dar com elles.

Na casa do alcaide deu á luz Maria Henriqueta uma menina, findo o primeiro anno de casada. E então acabaram as excursões, e retiraram-se a uma quinta dos arrabaldes para, a salvo de suspeitas, se despirem das{163} ficções, e viverem em toda a ingenuidade de esposos e paes. Lá lhes eram assidua companhia as duas filhas do generoso hespanhol, proprietario da quinta. Alli vieram os irmãos de Mirandella visitar o irmão, e dar-lhe a boa nova de quasi esquecimento em que estava sua deserção. N'este ensejo foram elles portadores de carta de D. Maria das Dôres, que, em resumo, dizia: estarem mais benignos os ares; mais brando o coração do pae, tendo já dito que antes queria ver a filha e perdoar-lhe, que receber a noticia da morte d'ella. Accrescentava que este dizer não a auctorisava a chamar a filha; porque o pae tinha intercadencias de prostração, quando perdoava, e de cólera quando pedia vingança aos céos, e insultava os magistrados como inertes. Terminava, recommendando-lhe que se tivesse sempre em guarda, e se fiasse só de sua mãe, quando a chamasse.

Decorreram seis mezes. Sempre o céo claro sem nevoa; sempre a ventura candida e pura como o sorriso da creancinha, que dissereis vinda do céo a completar o grupo da suprema bemaventurança na terra. Para cumulo de felicidade, chegou a Segovia uma carta de D. Maria das Dôres, dizendo á filha:

«Vem, agora sem receio. Venci teu pae, com as armas da humildade. Só por amor de ti as empregaria. Perdoa-te, recebe-vos, quer-vos para filhos. Sabe que tem uma neta. Disse-lh'o eu, quando o vi tão bom! Perguntou-me estupefacto como eu o sabia. Occultei-lhe os promenores; disse-lhe em suma, que eu fôra sempre mãe. Fitou-me de um certo modo, que me incutiu{164} receios de me ter enganado: mas, em seguida, voltou á sua segunda natureza compadecida. O peor, filha, será o crime de teu marido, que o força a livrar-se, e agora as leis militares inglezas creio que são severas para desertores. Se vês que teu marido tem grandes trabalhos a vencer, antes o desterro com a liberdade; e mais ao diante valeremos mais com as leis se teu pae quizer protege'-lo etc.»

Ao mesmo tempo, o fidalgo de Mirandella dizia a seu filho que andava dispondo as cousas para elle ser julgado e absolvido. Que alcançára promessas favoraveis, e esperava em breve manda'-lo recolher á patria, com a certeza da absolvição.

Que luz tão formosa as estrellas funestas irradiam ás vezes! Como a desgraça negaceia com as suas victimas dilectas! Que pena me faz ir d'aqui através cincoenta annos, e por entre o pó de uma geração dispersa no ar, áquella quinta suburbana de Segovia, e contemplar aquelles dois esposos com a filhinha entre os peitos de ambos, arrobados de alegria, dando-se os parabens da sua final victoria, e saudando as alegrias da patria, só inferiores ás alegrias de dois corações triumphantes sem infamia, felizes sem remorsos! Com que vontade eu quebraria aqui a penna, se tenho de tirar d'ella paginas negras da vida dos dois tão dignos, tão abençoados, tão bemquistos da leitora que amou ou ama, do pae que perdoou ou tem de perdoar um dia, do mundo que sentenceia, ou já sentenciou paixões, que exorbitam do estadio commum! Ai! eu antes queria inventar, antes{165} mentir, antes lançar de mim com asco estes apontamentos!

Eu sei como a vida podia ter lances de contentar a phantasia. Quantas vezes, em historias imaginadas, eu levo posto o fito n'uma caverna onde os meus personagens vão caír; e já perto, já com elles á borda do despenhadeiro, sustenho-me, chamo-os, acaricio-os, salvo-os, e dou-lhes a gloria, em vez do inferno que lhes fôra talhado! Como eu fico então contente de mim, e o leitor contente d'elles! Só n'estes conflictos é que eu avalio os thesouros da imaginação, e o segundo fiat de mundos moraes que a magnanimidade divina concede aos romancistas.

N'esta historia queria, e não posso. Estou coacto e maniatado ás gramalheiras da noticia, que me foi ministrada por pessoa, que me obrigou o juramento de não falsear a verdade.

E, de mais, se eu conseguir levar ao tumulo dos meus infelizes uma lagrima da leitora; se alguma hora, subir da terra um pensamento ao céo dos martyres, não será esse favor da piedade um bem tão consolativo para elles? A quem hão de elles agradecer o pensamento e a lagrima se não a mim, que lhes contei os infortunios, e, em vez de um epitaphio, lhes colloquei uma urna para os que lá quizessem chorar, e a mais triste pagina d'este livro para quem quizer consolar-se das suas nas desventuras alheias?

FIM DA SEGUNDA PARTE

{166}

{167}

TERCEIRA PARTE

I

Vieram os esposos acompanhados até á fronteira pelo alcaide e suas filhas. Ahi se despediram com muitas saudades e esperanças de se encontrarem, passados dois annos, no Porto. O cavalheiroso hespanhol disse a Filippe Osorio e á consorte: «Se alguma vez fordes desgraçados na patria, lembrae-vos do céo de Hespanha, e do vosso segundo pae, e de vossas irmãs. Em nossa casa sois familia nossa; e já sabeis que em toda a Castella sois como bons filhos da nossa boa terra. Seja a nossa amizade um modelo do que deviam ser os irmãos da peninsula, os que se apartaram eternamente odientos em Aljubarrota e Montes-Claros. Se fordes felizes, nem por isso nos esqueçaes.»

Chegaram a Mirandella. D'ahi escreveu Maria Henriqueta a sua mãe perguntando-lhe se podia ir para o Porto confiada no perdão do pae. A resposta carecia de{168} inteira affirmativa; mas accedia ao desejo da filha. «Teu pae, ponderava D. Maria—diz e desdiz; ora condemna, ora perdôa; todavia, eu conto comigo e tu com a tua filhinha. Por mais mal que te faça, serão só palavras: e palavras o vento as leva, e outras te dirá depois que te compensem algum dissabor. Em todo o caso, vem, que eu vou dar o ultimo assalto, e segurar o lanço.

Escripta esta carta, D. Maria das Dôres convidou o marido a passar duas horas em seu quarto, antes de recolher-se. Gonçalo accedeu ao geito blandicioso da esquiva prima, raras vezes meiga. A soledade, a tristeza, a velhice, e o quasi desamparo em que o deixaram amigos e parentes, crearam n'elle a precisão dos carinhos.

Foi Gonçalo ao quarto de sua mulher, e encontrou-a lendo a carta de sua filha.

—Quem te escreveu, prima?—disse elle.

—Foi a nossa pobre Maria Henriqueta.

—Tem fome por lá? O amante abandonou-a?

—Não digas «amante», primo. Marido é o nome que tem.

—Marido, sem o meu consentimento! As leis não me dispensam de ser ouvido.

—Dispensa-te a lei de Deus, meu Gonçalo. Estão casados, e eternamente casados.

—Pois que sejam felizes.

—A nossa filha só póde ser feliz com o teu perdão.

—Tu ahi tornas!...

—E tornarei sempre; quer Deus que eu seja a sua voz ao teu bom coração. Perdoa-lhe, primo!{169}

—Foi para isto que me chamaste?! Eu logo vi que era demencia esperar allivios... Se ella tem fome, manda-lhe dinheiro; se está abandonada, diz-lhe que torne para o convento, e lá terá abundancia.

—Nem fome, nem abandono, Gonçalo! Parece que dás mui baixo preço a tua filha! Aquella menina tão linda e prendada, haveria homem que a abandonasse?

—Linda era a outra que...

—A outra qual?

—Nada...—disse Gonçalo, sacudindo a visão de Beatriz de Noronha.

—Ignoras tu—proseguiu D. Maria—que o pae de Filippe é rico, e extremoso pelo filho? Eu sei que os esposos viveram em Hespanha com todas as commodidades, e nunca Maria me pediu a menor cousa, nem as suas joias, nem os seus vestidos. O que ella pede é a estima de seu pae, e quer pedir-te perdão pela bocca de sua filhinha, que tem sete mezes. Não se te alegra o coração com a esperança de teres nos braços uma creancinha, filha de nossa filha?

—Que fatalidade!... Mais uma mulher!...—exclamou elle com entonação pouco abonatoria do seu bom siso.—Então isto é uma cadeia de desgraças? Melhor lhe fôra á mãe desobediente esmagar a filha no berço, para não crear ao seio a vibora que me ha de vingar!

—Cala-te, meu primo, meu querido Gonçalo! Que sombrios vaticinios os teus! Quando te alumiará a Providencia Divina essa escuridade em que vives?

—Ha de alumiar-m'a a lampada da sepultura. Isto{170} em mim é o horror das trevas eternas, sem mais luz nem esperança!

—Ora, vem cá, filho!—tornou com extrema maviosidade a esposa, tomando-lhe as mãos, e aconchegando-as do peito—Não desprezes a luz que o céo te manda nos olhos carinhosos da tua netinha. Verás que vida nova se nos faz na velhice. Has de sentir o que é consolar-se a alma perdoando. Sabes tu quantas penas terá curtido nossa filha, desterrada, por terras extranhas, mudando de nome para não sacrificar o marido...

—O marido! atalhou em voz soturna Gonçalo—O marido! Se ella podesse convencer-me de que não casou... perdoava-lhe!

—Não digas tal, primo, por dignidade nossa e d'ella! Pois tu negas perdão á esposa, e da'-lo-ias á concubina?! Cala-te, que desvarias; a tua razão e coração devem contradizer esse desatino, que é uma doença do teu espirito. Eu sou mulher, e mãe, e não perdoaria á filha, que, contra nossos conselhos, se tivesse sacrificado a um infame seductor. Torna em ti, meu primo, e convence-me de que estás bem com a tua consciencia, perdoando o mal, que te fez a desgraçada, que só por amor invencivel poude desobedecer-te. Aqui tens a carta que me ella escreve de Mirandella; olha estas expressões: Ás vezes penso que meu pae ha de amar muito esta creancinha, que tem já no rosto signaes de vir a ser muito parecida com elle. Se eu podesse mandar este anjo adiante de mim, seria elle quem me abrisse as portas do paraizo de minha familia: Vês tu? É a tua Maria{171} Henriqueta que fala assim ao teu coração. Tu já lhe perdoaste, não é verdade?—continuou a esposa com transporte, beijando-lhe as mãos e o rosto—Posso dizer-lhe que venha afouta beijar estas mãos, que eu beijo tão reconhecida como ella?

Gonçalo caíu sobre a cadeira d'onde, momentos antes, se levantára na tenção de fugir do quarto. Escondeu o rosto no seio, e passados anciosos instantes, murmurou:

—Que venha; mas que eu a não veja.

Saiu Maria das Dôres vaidosa do seu triumpho. As ultimas palavras do marido equivaliam ao perdão. Não querer ve'-la seria a transição para ve'-la, e ama'-la. N'este presupposto, deu como rehabilitada a filha e participou ufana aos seus parentes e visitas o ter ella congraçado Gonçalo com seu genro. Os parentes, alegres com a nova, iam da sala ao quarto do fidalgo felicita'-lo, com grandes louvores de seu juizo e nobreza d'alma, censurando ao mesmo tempo, que tardiamente o fizesse. Estes emboras irritaram o velho, por partirem de pessoas, que elle tinha em odio á conta de lhe molestarem os brios, chasqueando-o agramente por ter querido, á fina força, casar a filha com o conde de Monção.

—Eu não disse ainda que perdoava!—redarguia o fidalgo irado—A prima Maria das Dôres está brincando com a minha decrepitude. Não me arrependo do que fiz; hei-de ter brios até ao fim da vida, e muito desprezo para quem duvidar se eu os tenho.

Isto era pungentemente allusivo.

Os primos iam ter com a fidalga, e diziam-lhe que{172} acautelasse a filha dos primeiros impetos do pae, cuja alma estava ainda muito crúa, e a soberba muito inflamada.

Debaixo da má impressão dos parabens, que elle imaginou ironicos e offensivos, saíu Gonçalo Malafaya a prevenir o chanceller, o regedor das justiças, e o juiz do crime de que sua filha estava em Mirandella com direcção ao Porto, e que vinha com ella o desertor. Os magistrados responderam-lhe que os crimes militares não entendiam com elles, executores da justiça civil. No que tocava a Maria Henriqueta, ajuntaram que, estando ella legitimamente casada, a lei lhes vedava aceitarem a intempestiva querella de pae.

—Mas eu hei de provar a nullidade do casamento—redarguia Gonçalo.

—É possivel—replicavam os magistrados—mas a prisão não póde antecipar-se á prova que v. ex.ª quer dar.

Mallogrado o mau intento voltou-se aquelle espirito enfermo para melhor paragem. Foi ao governador militar e denunciou estar no reino o desertor tenente de cavallaria Filippe Osorio. Disse-lhe o governador militar que já sabia da sua vinda com o proposito de responder e ser julgado; mas—accrescentou—admiro que a denuncia me seja feita pelo pae da esposa de Filippe Osorio! Que outrem o delatasse!... mas v. ex.ª denunciante de seu genro, que perdeu a carreira por amor de sua filha, que hoje é mulher d'elle e já mãe de uma menina!... É espantosa aberração!{173}

—Eu hei de provar a nullidade do casamento de minha filha!—redarguiu Gonçalo Malafaya.

—Prove v. ex.ª tudo; mas abstenha-se de provar que todas as vinganças desairosas lhe servem. Eu conheci Filippe cadete do regimento em que eu era major, ha sete annos. Tive-o sempre no preço mais avantajado da intelligencia e decoro militar. Se eu fosse principe, dera-lhe a minha unica filha; e, sendo Gonçalo Malafaya, dera-lhe a filha, o coração, e o sangue todo de meus avós por um abraço.

Gonçalo abafava de raiva, e saíu convulsivo de ameaças de furia. Entrou em casa, e rompeu em alaridos descompostos contra Maria das Dôres, contra a filha, contra a justiça, e contra Deus. A mulher, fallecida de paciencia, perguntou ao capellão se seria prudente segurar o marido no seu quarto, antes que elle passasse a espancar a gente da casa.

Benzeu-se tres vezes o padre e disse:

—Seria bom segura'-lo antes que elle espancasse a gente da casa; mas eu não me metto n'isso, porque diz lá o ditado, com doudos nem para o céo, senhora fidalga!

Passados dois dias, chegaram ao Porto Filippe Osorio, Maria Henriqueta, a filhinha nos braços da ama, e os dois velhos creados.

Maria Henriqueta escreveu da hospedaria a sua mãe, noticiando-lhe a chegada. «Em que má hora!—dizia a mãe na resposta.—Está mais furioso que nunca teu pae. Ha dois dias que sae a mover contra teu marido os{174} poucos amigos, que se condoem d'elle. Esteve tudo muito bem disposto; mas agora me consta que teu marido tem de responder da prisão pelo crime; e teu pae, aconselhado por vis letrados, que o exploram, vae intentar uma acção de nullidade de casamento. A tua vinda para aqui é imprudentissima.

Temos que combater um mentecapto em furias. Parecia-me que o melhor seria entrares no recolhimento de S. Lazaro, em quanto se não decide o julgamento de teu marido. A outra demanda póde levar tempo a decidir; mas o resultado ha de ser o que nós desejamos, se com effeito o teu casamento está legal, como cuido. Pensa n'isto, e dá-me resposta para meu governo. Se convieres em te recolheres a S. Lazaro, desarmarás d'esse modo a colera de teu pae, e terás meio caminho andado para a reconciliação.»

Lida esta desconsoladora carta, Filippe bebeu as lagrimas da esposa, e empenhou as mais seductoras ficções de seu espirito em persuadi'-la a recolher-se a S. Lazaro, em quanto elle respondia ao conselho de guerra.

—Apartar-me de ti!—exclamava ella.

—Por alguns dias, dias derradeiros da nossa tormenta de oito annos, sacrificio necessario para ganharmos a quietação, que virá mais cedo do que podemos espera'-la com a nossa desconfiança de infelizes. Escreve a tua mãe, que eu vou apresentar-me ao governo militar.

Filippe deixou sua mulher estupefacta, e escondeu-se a chorar. Se elle succumbisse, quem daria alentos á pobre{175} esposa e mãe? Se o coração fosse sincero n'aquella hora, quantas torturas inuteis para ambos!

E Maria Henriqueta, como se voluptuosamente se estivesse dilacerando os seis d'alma, dizia entre si:

—A serenidade com que Filippe se aparta de mim! A frieza dos seus conselhos! Ó meu Deus! serei eu já aborrecida! Estará elle arrependido de se ter lançado na carreira da desgraça por minha causa, deixando a outra que tantas venturas lhe promettia! Mas, se me não ama, poderá despedir-se d'este anjinho com os olhos seccos?!

E abraçava com arrebatada ternura a menina.

Filippe apresentou-se ao governador militar. Foi esta a branda e animadora linguagem da auctoridade:

—É forçoso que se recolha ao castello da Foz. Escuso dizer-lhe que será absolvido, porque a Regencia quer que o seja. Espero que em menos de tres mezes esteja livre. Sua esposa tem licença para viver comsigo no castello.

—Não póde ser.

—Porque não póde ser?

—Meu sogro vae litigar a validade do meu casamento, as leis mandam que minha mulher seja judicialmente depositada, até á decisão. Por conselho de minha sogra, e meu, vae minha mulher entrar no recolhimento de S. Lazaro. Ámanhã vou entregar-me á prisão.

Voltou com risonho vulto o preso a casa, e disse a Maria que estavam unidos, passados tres mezes.

D. Maria das Dôres saltou de sua carruagem á porta{176} da hospedaria, abraçou a filha e o genro, chorou de ternura beijando a neta, emprestou da sua instantanea alegria á contristada familia, e disse que o marido era contente com a resolução da filha, e fôra elle pessoalmente falar ao provedor da Misericordia para se mobilarem os melhores aposentos do recolhimento para ella. De tudo, inferia Maria das Dôres que as pazes se fariam brevemente, os desgostos a passar seriam curtos, em comparação dos futuros contentamentos.

Maria Henriqueta reanimou-se, e mais ainda quando encontrou o marido, em secreto, enxugando as lagrimas. A mulher que ama precisa ver chorar, para crear alentos. A coragem do homem que se despede parece uma offensa, ainda que o não seja; simula desamor, ainda mesmo que as lagrimas saiam do coração como gottas de ferro candente, e se derramem nas chagas do peito antes de chegarem aos olhos. A mulher amante quer, ao separar-se, levar a certeza de que deixa uma saudade, bastante a matar o coração que a ama. Isso é que lhe dá força para luctar e soffrer. A suprema desgraça é o desalento da duvida, quando a infeliz já por si não tem, contra o mundo e contra a desgraça, senão a certeza de ser amada. Por isso, Maria Henriqueta achou em si a antiga força, quando surprehendeu Filippe a chorar.

Na seguinte manhã, o preso ajoelhou aos pés de sua mulher, e disse-lhe:

—Não te peço amor, minha esposa; peço-te coragem, mulher. Aqui te deixo minha filha: fala-lhe de mim, e ella será o anjo mensageiro das minhas atribulações.{177} Quanta mais força tiveres, mais digna serás do teu esposo. Mulher que tanto soffreu, e a tanto se arrostou, não póde fraquear agora em tres mezes de ausencia. Maria, eu não me engano com a tua alma, não? Has de viver e luctar com os desgostos por amor do teu Filippe, que ainda se não julga desgraçado?

Não lhe respondeu Maria. Lançou-se-lhe soluçante aos braços, e arquejou em convulsões sobre o peito em que lavrava um fogo occulto de morte, ao qual parece que as lagrimas da mulher amada se reseccam.

Tomou Filippe a filhinha dos braços da ama. Contemplou-a, e deteve-se até que a mãe lh'a tirou dos braços. É que da face d'elle se esvaíra lentamente a côr; o brilho dos olhos apagára-se subito; um tremor lhe correra os braços; o corpo ia inclinando, e a menina resvalava-lhe das mãos.

—Filippe! exclamou Maria—essa é a tua força, Filippe! Por Deus, reanima-te, que me tiras a coragem!

Sorriu-se o marido, beijou-a na face, e murmurou:

—Parecia-me que era a ultima vez que via nossa filha... O amor de pae tem estas visões passageiras. Deus me defenda de as ter a teu respeito semelhantes, minha esposa!{178}

{179}

II

Maria Henriqueta, aceitando o recolhimento de S. Lazaro, mal sabia a grandeza e o travor do calix que punha aos labios! Tantos mosteiros havia ahi no Porto, com tanta liberdade e regalias, e senhoras boas para amigas, e preladas menos austeras com as dores do coração, e mais contrictas, por isso mesmo, das suas!

Era o recolhimento de S. Lazaro um vasto recinto sem ar nem luz, um congresso de meninas pobres, que reflectiam a sua miseria, e castigos, e forçadas penitencias, nas pensionistas abastadas, e alli reclusas pela violencia paternal. Não se abria um sorriso nos labios de nenhuma. As pobres anhelavam a sua indigencia ao ar livre, as ricas estorciam-se nos phrenesis da sua irremediavel reclusão. As de boa indole que para alli entravam, espicaçadas pela severidade rude das regentes, tornavam-se iracundas, e umas contra outras se enraiveciam, a ponto de ser rara a convivencia de duas pensionistas ricas. Era o desespero que as fazia de condição bravia e intractavel. Maria, apenas teria uma hora de convento, que maldisse a sua cedencia á vontade da{180} mãe, e aos conselhos do esposo. Perguntou logo indiscretamente se podia mudar-se para outro deposito, e a regente respondeu que ella não era senhora sua, em quanto se não provasse que estava legitimamente casada; que a seu pae incumbia romove'-la, por que fôra elle quem apresentára ao senhor provedor o mandado do deposito.

Esta resposta, seccamente dada, foi motivo a que Maria Henriqueta ganhasse profunda aversão á regente.

Era-lhe licito escrever a seu marido. N'esse respiro gastava ella as horas do dia e muitas da noite; mas pequena consolação é essa, quando as cartas são como cauterio á chaga, sem o beneficio da cura. Respondia-lhe Filippe, fingindo animo, e inventando lenitivos de paciencia, sendo unicamente sincero nos da esperança. Baldado intento! A saudade e a desesperação recrudesciam. Tomava a filhinha nos braços, como taboa de naufragado, e nem assim, nem á luz dos olhos d'ella via ao longe a redempção.

Uma só menina das orphãs pobres ella chamára á sua intimidade: era Rita de Cassia, illustre de nascimento, mas desamparada de pae e mãe, que a lançaram de si como vergonhoso testemunho de a trazerem á vida n'uma epoca de desdourados amores. Affrontaram o escandalo, e fugiram affrontados ao dever!

O pae, que escondia o titulo, para livrar-se d'ella, e salvar o nome de sua mãe, calou a consciencia entregando-a á caridade da Santa Casa, e para isso declarou que a menina não tinha pae nem mãe. Antes elle falasse{181} a verdade, e o genero humano teria de menos um estygma.

Rita era commensal de Maria Henriqueta, e consolação de muitas agonias, se o chorar com quem chora é consolar. Que provas a orphã deu, passados mezes, do seu reconhecimento e cega amisade á fidalga e infeliz!

Depois de um mez de reclusão, Rosalinda, a filhinha de Maria Henriqueta, adoeceu de garrotilho, e expirou no termo de quarenta e oito horas. Durante o curto prazo da doença e da agonia, era geral no recolhimento o receio de que a mãe enlouquecesse, morrendo a creancinha. Nos braços d'ella passou a menina os paroxismos, aquella estortorosa respiração, que é uma lenta asphyxia, e acaba por agudissimo arranco. Tiraram dos braços de Maria o inanimado corpo, o envoltorio macerado do anjo. A mãe correu ao longo dos corredores, soltando gritos, sem destino, sem paragem, fechando os ouvidos, quando lhe falavam, arrancando-se enfurecida dos braços, que a detinham. Poderam Eugenia e Ritta de Cassia leva'-la ao seu quarto, e excita'-la a chorar, como remedio unico. Uma e outra lhe falavam de Filippe; e, como lhe dissessem que o marido morreria, sabendo a morte da filha, já Maria Henriqueta, aterrada de dôr maior, pediu forças a Deus para mitigar com rogos de conformidade a consternação do esposo.

Lembrou-se então do desmaio do marido ao abraçar a menina, e das palavras com que explicou o seu desalento: «Parecia-me que era a ultima vez que via a nossa filha.»{182}

Os apontamentos de uma senhora, que foi coeva de Maria Henriqueta no recolhimento[1], dizem singelamente:

«A sua consolação unica lhe foi roubada; morreu-lhe a adorada filhinha. Andava Maria Henriqueta de noite em gritos pelos dormitorios. Todas choravam com ella, e eu tambem, com quanto então tivesse nove annos.—Falta-me um pedaço de minha alma!—gritava a pobre mãe. Que formosa era a menina! Teria um anno. Foi enterrada em Santo Ildefonso. Veiu alli busca'-la o abbade n'uma locomotiva que era como os carrinhos de agora, pouco mais ou menos. Dizia-se que ella ajoelhára ao pé da filhinha, quando lh'a tiraram ultimamente, já amortalhada, e dissera:—Vae pedir ao Senhor a liberdade de teu pae, meu anjinho!»

Ao outro dia, tinha ella de responder á carta do marido, que parecia esquecer-se de sua situação, para falar da menina. «Dá-me cuidado—dizia elle—a doença de nossa filha; mas espero que Deus nos poupe ao golpe de a perder. Não merecemos tamanha dor, Maria; a bondade divina, a querer levar para si o anjo, esperaria que estivessemos unidos para valermos um ao outro.»

E havia de responder a esta carta a pobre mãe, quando a filha já estava sepultada! Qual outro coração{183} se abriria a recolher-lhe as lagrimas? Como havia de fingir ella uma linguagem socegada? Como abafar sua paixão, em quanto escrevia a resposta? Que dôres a vida tem!

E respondeu; mas, sem determinar a nova causa de sua afflicção, obedeceu ao impulso do desespero, amaldiçoando o pae, o destino, e Deus. As blasphemias era a carta do marido que lh'as incitava, no periodo trasladado. Deus lhe levára a filha, no momento em que o carcere, a separação do marido, e a solidão, alguma vez teriam desafogo, nos afagos da creança. A misericordia do céo lhe descontaria na balança das impiedades o punhal agudissimo, que lh'as faria resaltar do coração, e jámais da consciencia. Na carta, falando da filha, apenas disse: «Se ella hoje fosse do céo, pediria ao Senhor a tua liberdade.»

Porém, o silencio de Maria Henriqueta conseguiu apenas retardar algumas horas a infausta nova.

Estavam no Porto os irmãos de Filippe Osorio, e esses lh'a levaram.

Succumbiu aquella forte alma, e pensou em aniquilar-se. A sinistra idéa cedeu ao primeiro accesso de febre.

Faltaram a Maria Henriqueta as cartas em dois dias. Mandou ella directamente ao castello da Foz, e soube que o marido estava perigosamente enfermo. Fez-se uma terrivel explosão no animo varonil de Maria. Tremeu a regente da investida vertiginosa, que ella lhe fez no quarto, exigindo que lhe abrissem as portas. Diz a minudenciosa{184} noticia d'estes successos, dada pela indicada senhora, que mais alguma vez citarei: «Nas crises de maior exasperação Maria Henriqueta parecia possessa. Com todas se travava de razões, e trazia na mão uma chibata de junco, que vergava, e sacudia, em ar ameaçador, principalmente entrando na cella da regente; e a regente tremia d'ella, e da chibata, por amor á sua pelle, que já tinha então oitenta e um annos, e era estimavel pelle por ser de dura.» No final d'este faceto periodo se denota a má vontade que a minha illustre informadora ainda conserva á sua regente de ha cincoenta annos!

Estava pois, a octogenaria regente alapada no seu cubiculo, quando Maria Henriqueta lhe surgiu de sobresalto no limiar da porta, com a chibata em punho, ordenando que se lhe facultasse a saída, para visitar seu marido, que estava doente. Cuidou morrer de pasmo a velhinha; mas recobrou animo, quando viu a sub-regente, a sachristã, e outras funccionarias da casa deliberadas a defende'-la. Com suaves maneiras, conseguiram todas que Maria Henriqueta espaçasse até ao dia seguinte a saída, para se legalisar o facto com a licença do provedor da Santa Casa.

A fidalga não insistia muito tempo n'uma mesma idéa. Andava a baldões de sua afflicção, ora abraçada a Eugenia, ora a Rita de Cassia, ora repellindo-as ambas desabridamente.

Foi aquella noite de tormenta no recolhimento. Maria declamou, chorou, delirou em corridas de uma a outra extrema{185} da casa. Na seguinte madrugada, mandou a regente informar o provedor, e este á frente da mesa da Santa Casa, foi a S. Lazaro, e chamou ao locutorio Maria Henriqueta, com o intento de reprehender-lhe as impaciencias, e conforta'-la com palavras esperançosas de breve saída. Veiu a enclausurada, cuidando que ia receber a licença; mas, ouvidas as primeiras palavras, azedou-se-lhe tanto a dôr e a colera que o provedor suava de ouvi'-la, e os da mesa estavam como que passados de tamanha ousadia, affronta original n'aquella casa de humillimas victimas.

Fatigada de exprobrar a tyrannia do pae e a impiedade dos verdugos, que lhe mataram a filha e queriam matar o marido, Maria Henriqueta deixou-os na grade, entrou na cella esbofada e arquejante, chegou ao ouvido de Rita, e disse-lhe com a seriedade de um proposito de demente:

—Havemos de fugir hoje d'aqui: tu vaes comigo, Rita, se tiveres coragem.

A orphã temeu que a sua infeliz amiga estivesse louca; mas, para se confirmar em suas suspeitas, ainda lhe disse:

—Por onde fugiremos nós, minha senhora?!

—Cala-te, que eu sei por onde se póde fugir. Queres ir?

—Vou, vou, mas diga-me por onde, que me parece um sonho podermos fugir d'estas paredes, que nem janellas teem.

Dito isto, Maria recebeu uma carta de Filippe, escripta{186} por extranho pulso, e assignada por elle. Era animadora; a razão estava normal; a filhinha pedira por seu pae a Deus; elle mesmo se deleitava n'esta doce persuasão; e os irmãos, que o rodeavam, queriam salva'-lo com ella.

Aquietou-se algum tempo o espirito da esposa; e ao voltar a intermittencia do desespero vinha já menos descomposta. O plano da fuga prevaleceu ás melhoradas novas.

De tarde, saiu sósinha Maria e foi orar para o côro; depois disse que queria descer á egreja para resar de perto aos altares, e teve a licença, com grande aprazimento da regente, que tirou do devoto acto bons auspicios. Foi á egreja, e quiz estar a sós com Deus. Relanceou os olhos a todos os lados, esperou que saíssem do côro algumas orphãs que a observavam, e deteve-se a reparar n'um postigo chamado a ministra, por onde as recolhidas recebiam a communhão, espaço com dois palmos de largo sobre palmo e meio de altura. Feito o rapido exame, saíu da egreja, e recolheu-se á sua cella com semblante socegado, e um brilho de extranha alegria nos olhos. Contou a Eugenia a sua tenção. Chorava a pobre mulher, ouvindo-a, e contrapunha-lhe muitos obstaculos, aos quaes Maria respondia sempre vencedora.

Vamos ver os prodigios de elasticidade, obrados pelo coração sobre o corpo de Maria Henriqueta.{187}

III

É parte d'este capitulo trasladado dos apontamentos. Quem presenceou o successo mais fielmente lhe dará as côres:

«A porta da egreja era costume deixa'-la fechada por dentro, e a chave ficava na porta, ficando a cargo da escrivã abri'-la de madrugada.

«A porta do commungatorio ficava aberta, porque parecia cousa impraticavel o poder alguem, que não fosse puro espirito, evadir-se pela ministra.

«Escolheram para a fugida a hora em que a communidade, depois do côro, se ajuntava no refeitorio.

«A primeira que saíu foi a fidalga, mas, segundo eu depois soube, passou torturas para enfiar os largos hombros por entre o estreito postigo; e do ultimo e já desesperado repuxão, que fez, foi bater com a face nos degraus do altar-mór, e feriu-se grandemente na testa.

«A orphã, como era muito delgadinha, saíu com menos custo.

«Depois, Maria Henriqueta, limpando o sangue da ferida, abriu a porta da egreja, e saíram.{188}

«Ás dez horas da noite, conforme o costume, foi a sachristã temperar a lampada do Santissimo Sacramento, e viu aberta a porta do commungatorio, e as portinholas da ministra tambem abertas.

«Antes de mais averiguações, começou a gritar a sachritã. Desceram algumas pensionistas á egreja e viram a porta da egreja cerrada.

«Todas, a uma voz, disseram que Maria Henriqueta fugira. Foram ao quarto d'ella procura'-la, e d'ahi passaram ao de Rita de Cassia.

«Deu-se então no recolhimento de S. Lazaro uma amostra do dia de juizo. A regente, com as mais senhoras da governança, ajuntaram-se em consistorio, para deliberarem.

«As meninas já de razão e juizo andavam afflictas: eu, porém, e as outras de minha edade nunca nos divertimos tanto; porque andavamos ás ondas por entre as velhas, fingindo que estavamos assombradas do geral terror.

«Ás onze horas da noite foi chamado meu pae,[2] e reprehendeu severamente as auctoridades da casa, porque deixaram aberta a porta do commungatorio.

«As providencias foram dadas com tão desgraçado acerto que, ao outro dia, seriam onze horas...»

Suspendemos a copia, que nos não dá n'este ponto os promenores da fuga, vencidas as principaes difficuldades, que n'este infausto caso, foram as menores.{189}

Caminharam as fugitivas na direcção das Fontainhas. Maria Henriqueta não sabia um passo da cidade, e Rita de Cassia, reclusa desde menina, era egualmente ignorante. Foram á ventura até encontrarem uma rampa de pedregulho que descia da rua do Sol.

No alto da rampa viram dois vultos quietos; tomaram-lhes medo, e sem se consultarem fugiram. Os dois vultos eram os «nocturnos» que faziam a policia, e obedeciam a apertadas ordens, n'aquelles tempos revoltos de jacobinos, e malfeitores, que os pretextavam para rebuçarem sua malvadez.

Os nocturnos correram sobre as duas fugitivas, e travaram d'ellas como quem aferra duas amazonas das que antigamente espostejavam exercitos de barbados persas. Interrogaram-as com a brandura de nocturnos. Maria Henriqueta declarou ser creada de servir, e a respeito do seu destino disse que ia para a Foz, onde tinha seus patrões. Rita, para não inventar outra profissão e destino, disse que era tambem creada de servir, e que ia para a Foz.

Interrogadas ácerca dos nomes dos amos, e outras miudezas, responderam disparates, que infundiram suspeitas, se não de jacobinas, ao menos de pessoas que se serviam da noite para obras pouco louvaveis, como fuga de casa, ladroeira, ou alguma das mil hypotheses, que cabiam na cabeça dos dois nocturnos.

—Vocemecês—disse um d'elles, amoldando o tratamento aos trajos limpos das presas—hão de vir ao almotacé, e lá dirão quem são, e o destino que levam.{190}

Rita, para confirmar suspeitas, levantou um choro, que valeu muito a prejudica'-las no conceito dos policias. Maria Henriqueta, mandando-a calar, via menos carregado o futuro, que a esperava em casa do almotacé.

Foram, e entraram á presença do funccionario, que fez um tregeito de espantadiço quando viu a formosa cara de Maria. Repetiu as perguntas, e inferiu as mesmas suspeitas dos nocturnos, que eram emanações da alma d'elle, e recebiam todas as mesmas impressões no mesmo orgão sensorio.

Cuidou a incauta Maria Henriqueta que a verdade a podia salvar d'aquelle passo difficil. Disse quem era, proferiu o nome de seu pae, e de seu marido. O almotacé curvou a cabeça inflexivel á illustre dama; disse-lhe, porém, que a obrigação d'elle era rete'-las até dar aviso; e, em obsequio ao sr. Gonçalo Malafaya, as teria em sua casa até ser dia.

Conformou-se Maria, pedindo papel para escrever a sua mãe; e escreveu uma carta de que foi portador o proprio funccionario.

Estava já recolhida D. Maria das Dôres; perguntou o almotacé se lhe era permittido falar para negocio urgentissimo com o fidalgo.

Malafaya não tinha ainda recolhido de casa dos primos Mellos, e para lá se dirigiu o portador da missiva. Contou elle ao velho o acontecimento, dando-lhe a carta, que ia endereçada a D. Maria das Dôres. Gonçalo leu-a com agitado aspecto, e disse colerico:

—Conserve essa desgraçada em sua casa até ámanhã.{191} Eu me encarrego de entregar a carta a minha mulher. Tenha-me todo o cuidado em minha filha.

Voltou o almotacé a dar conta da sua commissão, e produziu em Maria Henriqueta um insulto de nervos.

—Foi entregar a carta ao algoz!—exclamava ella:—Agora é que eu vou ser mais desgraçada! Deixe-me saír, que eu não espero as ordens de meu pae!

—Não tem remedio senão espera'-las—Disse friamente o aguazil-mór.

—Não tenho remedio?!—bradou Maria—Tenho o remedio que dá a desesperação! Conduza-me já á rua, quando não, grito que me querem matar!

O homem, por piedade ou por medo de passar uma noite turbulenta, esgotou os recursos da persuasão para conter a fidalga, promettendo-lhe obstar a que seu pae lhe fizesse alguma violencia. Para ser coadjuvado nos seus ordeiros discursos, fez levantar as senhoras da familia, e trouxe-as á sala, onde estavam as retidas. As senhoras eram ternas, e compadeceram-se da atribulada esposa, que chorava esposo e filha. Uma dellas encarregou-se de fazer pessoalmente entregar de manhã uma carta á fidalga mãe. Confortada com esta esperança, Maria Henriqueta socegou, e conseguiu aplacar as vertigens da pobre Rita, que era fraca e timida como quem, desde a infancia, andou sempre sovada aos pés da desgraça.

De manhã, saiu uma creada do almotacé a entregar a carta, recommendando-se como enviada da sr.ª D. Maria Henriqueta, e bem ensaiada por esta. Quizera o{192} guarda-portão impedir-lhe o accesso, antes das nove horas; mas a destra portadora rompeu escada acima, chamando a fidalga a altas vozes.