—Pois não quero, filha? Que maior prova posso dar-te que esta? Cuidar em fazer-te condessa de Monção!...
—Não posso acceitar tal marido, meu pae...
—Não pódes?!—atalhou, em tom menos suave.
—Não posso ama'-lo... e não amar um esposo deve ser a maior das desgraças...
Maria das Dôres entrou n'este momento, e ouviu as ultimas palavras da filha, que tremeu ao ve'-la.
—E como sabes tu que não hasde amar o conde, se o não viste ainda?!—replicou o pae.
—Sei que me é impossivel ama'-lo... Póde ser um anjo do céo, que eu não o amarei... Casar sem affecto, meu pae, sacrificar-me por toda a minha vida, estando eu tão nova, deve ser muito triste. Antes um mosteiro; eu de boa vontade professo, e me irei esconder{100} e penar como filha desobediente; mas não me obriguem a casar, que eu tenho animo para me matar no dia seguinte.
—Tens razão, filha!—exclamou Maria das Dôres—Tens razão! Casamentos á força, em quanto eu fôr viva, não os tolero na minha casa. O homem vem ahi ámanhã. Se gostares d'elle, e elle gostar de ti, casem-se; se não, passe por lá muito bem o snr. conde, e tu deixa-te estar, que estás bem na tua casa.
—Que conselhos maternaes são esses, prima Maria das Dôres!—interrompeu Gonçalo.
—São conselhos, que minha mãe me não deu, primo Gonçalo. Repito: Maria Henriqueta não hade casar obrigada. Minha mãe, á hora da morte, pediu-me perdão de me ter obrigado a casar; e eu não quero nem heide pedir o mesmo perdão a minha filha.
—Temos uma grande lucta, Maria das Dôres!—exclamou o marido.
—Pois luctaremos—respondeu ella, esgrimindo com os braços e com a cabeça.—Maria Henriqueta! tu tens por ti a razão, e tua mãe... Veremos de quem é a victoria.
—Eu não queria que meus paes se indispozessem por minha causa—atalhou a menina—O que peço a ambos é que me queiram na sua companhia, e me deixem gosar o resto da minha mocidade. Sinto-me aqui feliz; para que heide eu ir procurar a felicidade onde eu sei que ella não está?
—Maria!—tornou severamente Gonçalo—Eu sei que{101} saíste de Lisboa apaixonada. Calei-me, cuidando que o teu brinquedo ficaria por lá esquecido com os devaneios da mocidade; e calei-me porque um pae deve fingir-se extranho a creancices sem resultado. Agora vejo que é grave o teu desvario, e aceito a obrigação de t'o corrigir. Vamos a perguntas, que te devia ter feito. Quem é o militar, que levantou da calçada uma carta lançada por ti?
Respondeu Maria passando da pallidez ao escarlate, e vibrando toda n'uma convulsão afflictiva.
—Responda, senhora!—repetiu o pae com o aspecto mal assombrado.
—Responde, Maria Henriqueta, diz a verdade—ajuntou a mãe, em tom de mansidão, e modos protectores.
Maria murmurou:
—Era um tenente de cavallaria... Chama-se Filippe Osorio Guedes da Fonseca... É de Mirandella, e é fidalgo...
Gonçalo expediu uma casquinada de riso, e disse:
—Fidalgo!... tenente de cavallaria!... fidalgo de Mirandella!—quem são n'este mundo os Fonsecas de Mirandella?... Hei de perguntar por isso ao meu mordomo de Lamego, que é de Mirandella, e chama-se Melchior Fonseca. Precisamente é tio do sr. Filippe, tenente de cavallaria!...
E deu segunda casquinada, com uns tregeitos mal cabidos nos seus nobres ademanes.
Maria das Dôres não ria; nem via com bons olhos os sarcasmos do marido. Por espirito de contradicção, ou{102} por pena da filha, tomou-a pelo braço, e disse-lhe:
—Vem d'ahi, Maria Henriqueta.
—Onde a leva? disse irritado o marido.
—Onde hei de eu leval'-a?—redarguiu a esposa na mesma entonação.
—Quero que ella me responda!
—Pois faça-lhe as perguntas com geito e modos. Que quer perguntar-lhe? Vamos, ella aqui está para responder. Diga lá.
—Tudo que tenho a dizer—retorquiu Gonçalo Malafaya exasperado contra mãe e filha—é que eu defendo a honra dos meus, e deixo de ser pae, quando é necessario ser juiz.
—Não quer mais nada?—concluiu D. Maria das Dôres.—Anda d'ahi, menina!
E saíram. Maria Henriqueta, com os olhos turvos de lagrimas, mal via o chão que pisava.
Gonçalo atirou-se sobre um canapé, e exclamou:
—Castigado até ao fim! Nem a submissão d'esta filha que eu amo tanto!... É de mais, ó meu Deus!
Entraram os creados a pedir ordens para a localisação das alfayas vindas da capital. Gonçalo saltou enfurecido do canapé com as mãos enclavinhadas nos cabellos, e exclamou:
—Peguem incendio a esta casa, e morra eu dentro della!
Os servos fizeram pé atraz e encontraram, ao saírem espavoridos, o capellão, que se estava persignando, com os olhos postos no tecto, á mingua de céo.{103}
Era aquelle o dia em que devia entrar no Porto o conde de Monção. As carruagens da fidalguia, convidada por Malafaya a esperar o seu illustre hospede, estacionaram á porta do palacio, condemnado ás chammas, esperando que o dono descesse. Gonçalo, quando a parentella ia entrando, compoz o semblante, vestiu-se a primor, e saíu a entrar na sua melhor equipagem. Era tarde para sacudir a carga, que tão vaidosa e jubilosamente tomára.
O conde vinha pela estrada de Coimbra, onde passára alguns dias, visitando quintas suas nos arrabaldes d'aquella cidade. A comitiva chegou aos Carvalhos e esperou.
Era o conde de Monção um fidalgo creado em côrtes, e conhecido nas extrangeiras; mas, em todas, o mais graduado titulo de sua recommendação era a tolice, o dom de engranzar parvoiçadas, que relevavam de chiste por serem ditas n'uma algaravia de linguas, só perceptiveis por alguns vocabulos irrisoriamente pronunciados. Fôra menos exacto, ou nimiamente credulo Gonçalo{104} Malafaya, dizendo que o conde de Monção sabia falar francez, por ter estado em França. O conde era refractario aos idiomas, e com o seu, propriamente, andava tão desavindo, que os fidalgos de Lisboa não o entendiam melhor que os de Pariz. A visinhança de Galliza, que defronta com Monção, introduzira na linguagem familiar do conde muitos termos espurios, cuja versão fiel só os aguadeiros de Lisboa podiam faze'-la competentemente. Galhofavam d'elle muito na côrte as damas e os moços intolerantes. A mim me quer parecer que a pecha de agallegados, que os de Lisboa gratuitamente nos põem, data das visitas do conde áquella cultivissima terra, que tem lá tambem os seus dizeres ridiculos, mas no proferi'-los vae tanta graça e tal affectação que não ha ahi cousa que mais diga!
Saía o conde de Coimbra em direitura ao Porto, quando ouviu tropel de cavallos que o seguiam. Olhou, e viu um cavalheiro com insignias militares, acompanhado de seu lacaio. Ao perpassar por elle o açodado cavalleiro, perguntou-lhe o conde:
—Vae para o Porto?
—Sim, senhor.
—Então podemos ir de camaradas.
—Com o maior prazer, se o cavalheiro esporear o seu bello alazão.
—Se não é mais do que isso, ahi vamos—disse o conde, atirando o acicate aos ilhaes do cavallo.
Filippe Osorio riu-se d'aquelle verbo—vamos, se é que Filippe Osorio podia rir.{105}
Praticaram largamente n'aquelle dia de jornada, sobre diversos assumptos. As damas tiveram grande parte, como de direito deviam ter, nas palestras dos cavalleiros. Dizia o conde que as francezas tinham grande pancada na mola, e as inglezas costumavam cheirar os homens de longe, antes de lhes apertarem a mão. O tenente de cavallaria aventou logo que falava com um inepto, e cavou solicitamente na materia em que elle mais necedades dizia. Se alguma vez o conde revelou intervallo lucido de sensatez, foi quando disse que as senhoras do Porto eram muito formosas. Mencionou as que conhecia, e ajuntou que ia hospedar-se em casa de uma, cujo retrato possuia em marfim, e que era a mais linda mulher que seus olhos enxergaram na Europa. Proseguiu no mesmo theor esperando que o seu companheiro lhe perguntasse quem era a mulher mais linda da Europa; mas Filippe tão abstraído ia que nem a curiosidade o espertou.
—O meu nobre amigo, disse o conde arrebentando por dizer o nome da dama, talvez tenha ouvido falar na familia dos Malafayas...
—Tenho...—disse Filippe, empertigando-se na sella, como se uma barra de ferro lhe batesse no peito.
—Tem? pois a menina de que lhe falo é d'esta familia.
—Conheço um fidalgo chamado Gonçalo Malafaya.
—Sem tirar nem pôr. É o pae d'ella.
—Pae d'ella!... Como veio ás suas mãos o retrato de...{106}
Susteve-se Filippe tão bruscamente, que só o conde de Monção deixaria de notar as perturbadas perguntas de companheiro.
—O retrato d'ella mostrou-m'o o pae, aqui ha um anno, quando veio de Lisboa, onde a mandou pintar. De mais a mais, a menina foi lá ensinada n'um collegio, e fala o francez perfeitamente.
Filippe, com quanto alvoroçado, estava longe de presentir o desfecho de taes revelações, e proseguia no inquirimento d'ellas para se recrear falando de Maria, quando mais não fosse.
—Mas,—insistiu elle—com que fim o sr. Gonçalo Malafaya mostrou ao meu amigo o retrato d'essa menina?
—Isso são contos largos; mas lá vae a historia. Em primeiro logar, o senhor não me conhece?
—Não tenho a honra...
—Eu sou o conde de Monção.
Filippe, d'esta feita, devia de sentir duas barras de ferro, uma ao peito, e outra nas costas, porque ficou hirto e rijo sobre o selim.
—Nunca ouviu falar de mim?—tornou o conde, notando a nenhuma reverencia com que o militar ouvira o seu nome.
—Ouvi, sim, senhor.
—Agora, se lhe não custa, diga-me o senhor quem é.
—Sou um official de patente; mas os meus appellidos são populares, e escuso de os dizer a v. ex.ª como recommendação.{107}
—Isso que tem? Se não é fidalgo ainda o póde ser, que d'essa massa se fazem. Armas ou lettras, diz lá o ditado dos velhos. De cá se vae a lá. Meus avós tambem foram da militança, e eu ainda conheci na minha casa tres generaes velhos como a Sé de Braga.
—Mas vamos á historia, se lhe não custa—disse Filippe com simulado e affectuoso sorriso.
—Vamos á historia... Vinha-lhe eu dizendo que sou conde; mas, a falar-lhe a verdade, com as viagens estraguei um pouquito a minha casa, porque lá por fóra era umas mãos rotas. Aquellas francezas foram os meus peccados, meu caro senhor! Dei lá jantares a duquezas que era um pasmar! E olhe que em Pariz um jantar, que faz pasmo, já ha de ser de um tal tamanho!... Como lhe vinha contando, quando voltei a Portugal, e vi o empenho em que estava a minha casa, resolvi tomar estado com menina rica, ainda que me ficasse a perder de vista em fidalguia. Não póde ser tudo, meu amigo! Aquelle maldito pombal deu-nos cresta ás regalias, e fez com que o dinheiro se espalhasse por todas as mãos. No inferno esteja elle, e mais as suas leis!... Andava eu a cogitar n'isto, quando o negocio me saíu mesmo ao pintar, ainda melhor do que eu queria! Botei as minhas vistas ás ricas herdeiras da provincia, e soube que o melhor morgadio era o de Gonçalo Malafaya, por ter só uma filha. Fui até ao Porto, ha tres annos, assim como quem não quer a cousa, e fiz por me encontrar com o Malafaya. Comecei a tirar nabos do pucaro, como o outro que diz, e deixei-me dizer que me{108} não desconviria ligar á minha casa uma menina que fosse tão nobre e tão boa herdeira como a filha d'elle. Não arranjei bem o palavreado?
—Perfeitamente—disse Filippe ancioso pelo remate, como se o não tivesse adivinhado, desde que soube que falava com um conde, que tantas lagrimas custára a Maria Henriqueta:
Continuou o conde:
—O Malafaya esteve a conversar muito tempo comigo, levou-me a casa, deu-me um bom jantar, e disse-me ao outro dia:—Deixemos completar a educação de minha filha, e depois falaremos.—Passados quasi dois annos, recebi em Monsão uma carta do Malafaya com o retrato da menina. Ó meu amigo! confesso-lhe que fiquei de bocca aberta! Era a cousa mais perfeita que cobre a roda do sol! Sabe o senhor o que é apaixonar-se um homem, não atinar mais com a cabeça? Foi o que me aconteceu a mim! Vim logo ao Porto, e disse a meu futuro sogro! «Eu quero a sua filha, mesmo sem nada, se é possivel!» Elle entrou a rir, e disse-me: «A minha filha, além da riqueza e da formosura, tem o melhor coração que Deus formou em peito de mulher.» Nunca me esqueceram estas palavras!...
Andei com o negocio de afogadilho para que o casamento se fizesse logo: mas metteram-se umas desordens tamanhas entre elle e a mulher—que é o diabo de saias segundo ouço—de modo que foram para Lisboa um por cada vez, e por lá se deixaram estar até ha pouco, que vieram para o Porto. Ha de haver quinze dias que o{109} Gonçalo me escreveu, dizendo-me que era chegado o tempo de eu ser apresentado á minha noiva, e effectuar-se o casamento. Ora aqui tem a historia com todos os pontos e virgulas. Vou casar-me. Acabam-se as rapaziadas e as viagens; mas fico senhor de uma grande casa e da mulher mais bonita da Europa... Que diz o senhor a isto?
—Digo que faz muito bem; mas se me dá licença—continuou Felippe com a mais destra e bem fingida serenidade—farei uma advertencia.
—Diga lá sem cerimonia.
—Tem o senhor conde a certeza de ser amado pela sr.ª D... Chama-se ella?
—É Maria.
—Pela sr.ª D. Maria?
—Se tenho certeza de ser amado? Eu sei cá! Ella ainda me não viu.
—Pois por isso mesmo. Que certeza tem v. ex.ª de que ella o ame, vendo-o?
—O senhor está muito enganado comigo. Saiba que todas as mulheres gostam de mim. Ponto é que eu as metta á bulha! Diziam lá os meus caseiros, quando eu fazia em rapaz muitas travessuras, que eu tinha o besouro diabolico. Em França, onde eu estivesse, conhecia-se logo. Olhe que estive para me bater muitas vezes por causa de namoros muito serios com as açafatas da côrte.
—Tudo creio, porque reconheço em v. ex.ª meritos para tudo; mas supponha por um momento que D. Maria o não ama?{110}
—Porque não ha de amar-me? Essa é fina!
—Supponha que ella ama outro homem?
—Se ama outro homem, faz de conta que nunca o viu.
—E v. ex.ª tambem faz de conta que o não sabe.
—Está claro.
—E se ella dér a esse homem a preferencia para casar com elle? Queira desculpar esta pergunta.
—Diz o senhor que ella póde rejeitar-me para casar com outro?
—É uma supposição...
—Ora deixe-se d'isso!... Nem o pae a deixava, nem eu era homem para essas brincadeiras. Ou eu ou elle.
—Iria v. ex.ª disputar a vida ao sujeito que D. Maria amasse?
—Se elle fosse fidalgo ia; senão, mandava-o varrer do meu caminho pelos meus lacaios.
Filippe, se outro fosse o interlocutor, tinha-se denunciado, quando soltou uma franca e estridula risada. O conde, afeito a provocar o riso, entendeu que a sua ameaça afidalgada dos lacaios tivera muito chiste. E riu tambem, em prova de que sabia avaliar o quilate do seu espirito.
Nunca mais o tenente de cavallaria pôde encarar no seu companheiro de jornada. Respondia-lhe sem fita'-lo; e de proposito se retardava ou adiantava para não emparelhar com elle.
Pernoitaram em Albergaria. Cada qual recolheu ao seu quarto depois da ceia, durante a qual o conde esteve em ferias de palavreado. Filippe chamou á meia{111} noite o seu lacaio, e mandou arrear os cavallos. Cavalgou, e partiu para o Porto, deixando o conde no seu primeiro somno, o somno da felicidade estupida que lhe derramára nas palpebras as suas narcoticas urnas, e lhe instillava, talvez, na alma as dulcissimas visões de um noivo da mais formosa mulher da Europa.
Quando, pois, as carruagens dos fidalgos subiam a encosta de Gaya, descia a trote Filippe Osorio. De longe, conheceu que a primeira carruagem era de Malafaya, por ser das mais luxuosas que se ostentavam em Lisboa. Conheceu-lhe os creados da libré, tudo reconheceu, porque em tudo se atavam recordações de Maria Henriqueta. Desviou-se da estrada larga para uma travessa marginal, e deixou passar o prestito. Desempedida a estrada, ganhou o Porto em poucos minutos, apeou, e subiu a procurar o palacio de Malafaya. Parou diante do portão indicado, e ousou entra'-lo, e perguntar ao guarda, revestido de rica libré, se podia falar a uma mulher chamada Eugenia.
Eugenia era a ama de Maria Henriqueta. Nenhuma duvida lhe estorvou falar com a creada no seu proprio aposento, que distava muito das camaras das senhoras. A ama fez apavoradas visagens de espanto; mas ouviu-o. Urgia elle, lançando-lhe dinheiro em ouro ao regaço, que Maria alli viesse. Da negativa passou Eugenia á hesitação e d'ahi, movida pela angustia do moço—angustia com liga de ouro—foi disfarçadamente procurar a menina.
E a menina entrou no quarto da ama, e a ama com ella.{112}
{113}
Maria Henriqueta ouvira a confidencia sobresaltada de sua ama, e ficou como estupida de alegria. Eugenia, temendo que D. Maria das Dôres a encontrasse n'aquelle extranho transporte, accelerou a ida, recommendando-lhe curta demora.
Á entrada do quarto, a menina, encarando em Filippe, soltou um grito, como se fosse inadvertida, e por surpresa, a apparição. O melhor recosto para um vágado era certamente o dos braços, que se abriram a recebe'-la: mas o accidente foi instantaneo: o coração predominou o espasmo nervoso.
Estava Eugenia, a um lado, contemplando com aguados olhos a scena pathetica; porém, o medo tinha-a tolhida. Apenas o prefacio de suspiros e lagrimas iria em meio, quando a ama acudiu pedindo que dissessem depressa o que tinham a dizer, antes que a senhora perguntasse pela menina.
—Não tenhas medo, disse Maria Henriqueta, que a mãe está dirigindo o arranjo dos aposentos do conde—E,{114} voltando-se a Filippe, continuou:—Já podes imaginar quem é este infernal conde, que se espera...
Em breves termos contou o tenente as passagens que o leitor já teve a complacencia de ouvir; mas eu contei-lh'as a sorrir, e elle disse-as com tormenta desfeita de lagrimas a Maria Henriqueta.
Respondeu ella, relatando a lucta, que tivera com o pae, suavisada por ter captado em seu favor a mãe, cuja vontade era mais efficaz e prestante que a d'elle.
Passaram a combinações de futuro, prevendo hypotheses desgraçadas, como violencias de convento, maus tratos, divorcio de familia, que tudo era de antever, arvoradas as bandeiras hostis na casa.
Disse Maria que fiava muito de sua mãe, mas muito mais de si propria.
«Se a perseguição fôr tal, que me não deixem respirar—disse a menina—em tal extremo, fujo para ti, e depois... Deus se compadeça de nós, e da grandeza do nosso amor. Iremos ajoelhar a um padre para que abençoe a nossa eterna união, e assim unidos, sem vergonha do mundo, arrostaremos com todos os revéses.»
Filippe ouviu de joelhos esta celestial musica dos labios de Maria, e julgou-se superior a homem na felicidade que o embriagava. Para cumular o contentamento do coração da amada, contou-lhe que seu pae o protegia declaradamente com todo o dinheiro preciso para affectuar o seu casamento; e ajuntou que, sendo mister fugirem para o estrangeiro, em toda a parte encontrariam a abundancia para que a sua ventura fosse perfeita.{115}
Maria Henriqueta deu insignificante valor a esta ninharia da abundancia no extrangeiro. Amor, amor, é que ella anhelava, como as aves do céo que avoejavam de horisonte a horisonte, e dobram as serras, e cortam a cupula dos mares, sem cuidarem de pedir á terra ou ás aguas um poucochinho de alimento.
Estas cousas, de si tão simples, ditas por amantes, embeberam duas rapidas horas, que pareceram annos á timorata Eugenia. Já D. Maria procurava a filha, quando Filippe Osorio descia ao pateo, seguido da ama, que lhe chamou sobrinho, ao despedir-se, na presença do guarda-portão.
Reparou a mãe no rubor febril da menina, e inquietou-se na supposição de que ella adoecesse, por effeito do susto em que a deixára o pae.
—Maria Henriqueta—disse D. Maria das Dôres—eu quero-te mais animada. Já te disse que á força não te casa teu pae. Conta commigo, e verás que tudo ha de ir por onde deve ir. Com isto não te quero dizer que cases com o militar; mas, mal por mal, antes d'elle que de um marido detestado.
Maria abraçou a mãe com tanta effusão de reconhecimento, que, para assim dizer, foi esta a primeira vez que Maria das Dôres sentiu arfar o coração de sua filha, e tão estranha e dôce lhe fôra a sensação, que poude n'esse instante ajuizar da ternura maternal.
Noite fechada, ouviu-se o estrepito das carruagens, passando sob o arco de Nossa Senhora de Vandoma. Maria tremeu e fugiu para o seu quarto, pedindo á{116} mãe que a desculpasse de ir á sala por estar doente.
—Quero que vás á sala;—disse Maria das Dôres—Escusam-se fingimentos, quando as contas estão lançadas, eu sou por ti com a minha vontade de ferro.
Gonçalo Malafaya entrára carrancudo. Já elle presumia que o tenente de cavallos estivesse no Porto, ouvindo a relação que o pasmado conde fizera do militar, que o deixára a dormir em Albergaria despedindo-se em latim. Instou Malafaya em meudas averiguações, ás quaes o conde respondera sinceramente, dizendo mesmo as duvidas, que elle puzera, no tocante ao amor de Maria Henriqueta.
Isto bastou á desconfiança e penetração de um pae precavido.
O conde foi apresentado a D. Maria das Dôres, e teve o infortunio de acarear desde logo a mais formal das antipathias. A fidalga tinha odio a homens ruivos e baixos: e o conde era baixo e ruivo. Não detestava menos os pés grandes e o simonte; e o conde, sobre ter pés grandes, aspirava com desgraciosa pretenção o aroma do simonte de uma caixa de ouro com um relevo de cupido, a desfechar dardos, de dentro de uma mouta de flôres, sobre umas pastorinhas que teciam grinaldas de rosas. Foi a caixa muito admirada da numerosa turba dos convidados, e passou ás mãos de D. Maria.
—Essa caixa, minha senhora—disse o conde—esteve já nas mãos mais lindas de França. Madame la duchesse de Choiseul honrou-me muitas vezes tomando pitadas da minha caixa.{117}
—Quem?—disse D. Maria.
—A senhora duqueza de Choiseul.
—Tem as mãos muitos lindas?—replicou a fidalga.
—Lindissimas, minha senhora.
—Mas o nariz, se toma tabaco, não póde ser muito lindo... Aqui tem a sua caixinha, com o seu Cupido e as suas pastorinhas, sr. conde. É um traste muito bonito; mas o tabaco dá-lhe ares de um deposito de immundicie com paredes de ouro.
—Que grosseria!—murmurou Gonçalo ao ouvido da senhora.
D. Maria das Dôres olhou de través o marido e disse:
—Temos historia....
Gonçalo, inimigo das historias de sua mulher, voltou-lhe as costas, e prendeu a attenção ás variadas conversações dos fidalgos. D. Maria pediu licença, saíu da sala, e foi ajudar a vestir a filha com o mais roçagante e pomposo vestido de veludo escarlate, que trouxera de Lisboa.
—Quero que te admirem!—dizia ella pregando-lhe as suas melhores joias, e estrellando-lhe o toucado de pedras, e coalhando-lhe o seio de scintillantes colares.
Fez-se um silencio de egreja em festa de paixão, quando Henriqueta assomou ao limiar da sala. Era da etiqueta que os cavalheiros se adiantassem, em meia-lua, a recebe'-la ao centro do recinto; mas o espasmo collára aos tapetes os velhos e os novos fidalgos. O conde, a quem maior obrigação de cumprimento impunha o seu especial logar entre todos, deu alguns passos, como quem rompe um minuete, e acurvou-se com o braço direito{118} afastado do tronco e a mão esquerda sobre o coração, que lhe dava corcovos no peito. Maria baixou ao chão os olhos, inclinou-se um pouco, e esperou que seu pae a conduzisse aos coxins do canapé. A garbosidade com que ella sacudiu a cauda para sentar-se de golpe, fez que muitos velhos puzessem os olhos no céo e os mancebos relanceassem olhares rancorosos sobre o conde. Offereceu Gonçalo ao hospede a cadeira mais nobre das quatro que ladeavam o canapé, e o fidalgo, que tratára duquezas de mano a mano, viu-se em apertos de acanhamento, antes de sentar-se milagrosamente no rebordo, da cadeira baixa, em que a seda do calção, que vestira nos Carvalhos, parecia rebentar pelas costuras repuxadas.
—Tive dois dias de boa jornada, minha senhora,—disse o conde gaguejando.
—Sim?—respondeu Maria—muito estimo que não tivesse incommodo.
—E falei muito a respeito de v. ex.ª com um companheiro de jornada...
—A meu respeito?... Agradecida ao sr. conde por se lembrar de uma pessoa que não conhecia.
—Ora se conhecia!
—A mim? Pensei que nunca me vira...
—Mas vi o retrato que é o mesmo; só não é tão lindo.
Ficou satisfeito de si: cuidou que nos salões de Versailles nunca se dissera fineza mais acrisolada no bom gosto.{119}
—O meu retrato!—redarguiu Maria—Não cuidei que lhe fosse conhecido...
—Aqui o tenho sobre o coração em caixilho de ouro e perolas. Foi seu excellentissimo pae que m'o deu, e não podia dar-me melhor cousa senão o objecto amado de que me deu a copia.
Outra fineza subtil que o poz em admiração de si proprio! No semblante de Maria relampagueou um rubor de ira, que passou, deixando, como vestigio, uma visagem de tedio, que não mais se desfez nas tres horas que durou seu supplicio.
Da sala passaram á casa da ceia.
Maria das Dôres que, por acinte, se assentára ao pé da filha, durante o colloquio da sala, ouviu o conde e condoeu-se entranhadamente d'ella, protestando resgata'-la da continuação do seu inferno n'aquella noite. Estavam os cavalheiros em pé ao redor da mesa, esperando que as senhoras viessem tomar logar, quando D. Maria das Dôres entrou, dizendo que sua filha, além de estar habituada a não cear, sentia um leve incommodo que a privava de vir á mesa, e fazia por isso os seus cumprimentos respeitosos ao sr. conde e mais cavalheiros, recolhendo-se á sua camara.
Gonçalo reclinou a vista á esposa, como quem diz:
—Bem vos percebo, a ti e mais a ella... Quem diria?
O conde de Monção não provou bocado. Vinham-lhe á garganta uns suspiros tão dos seios d'alma, que, reduzidos a verso endecassyllabo, dariam mais sonetos que{120} os de Petrarcha. Desvelava-se em servi'-lo Gonçalo Malafaya, e nem com a mais loura aza de perdiz lhe aguçou o appetite! Os brindes eram todos em honra d'elle, e elle agradecia humedecendo os labios no rebordo do calix, e suspirando como quem dá o que póde na muda eloquencia do coração.
E Maria das Dôres levava o lenço branco aos labios para sorrir; e o padre capellão benzia-se da abstinencia do conde, e benzia-se tambem mentalmente da gulodice de alguns commensaes.
Entrou o conde no seu aposento, e passou a noite em claro, em mudas exclamações ao retrato de Maria. Ergueu-se ao romper d'alva, e correu uma de suas janellas, que se abriam de face com o ridentissimo panorama de Gaya, S. Christovão e Candal, posto que o templo da Sé lhe cortasse um retalho das bellezas. Estava elle de pouco encostado ao peitoril da janella, quando viu assomar na extrema da rua um sujeito de mui boa presença, e logo reconheceu n'elle o companheiro de meia jornada. Esperou que se avisinhasse para lhe falar; mas o tenente que, de longe o vira, cortou para a primeira travessa, contente de a ter topado na má conjunctura de ser conhecido.
Visitou Gonçalo Malafaya o conde na ante-camara, e este, trocadas as saudações do estylo, disse:
—Ora, dou-lhe parte que vi o sujeito, que me deixou em Albergaria!
—Viu?! Está bem certo d'isso? Onde o viu?
—Vinha na direitura d'esta casa; mas metteu alli{121} por outra rua, e não me deu tempo de perguntar-lhe por que diabo me deixou. Em quanto a mim o homem ia para o quartel!
—Aqui, atraz da Sé, não ha quarteis...—disse Gonçalo com meditativa anciedade.
—Em que está v. ex.ª a cogitar? Parece que ficou assim a modo de pensativo!
—Não, sr. conde. Eu tenho estes modos distraídos; mas nada significam.
—Vamos a falar—tornou o conde—a respeito do casamento. Pela minha parte, meu prezado amigo, está o negocio feito. Veja v. ex.ª se quer que eu trate d'isso, para se abreviar, quanto antes. Sua filha é uma deusa. Acredite que ella ha de ser feliz a não poder ser mais. Hei de adora'-la toda a minha vida, e morrer por ella, sendo necessario. O grande caso é saber se ella gosta de mim; mas achei-a que me ouvia com muito agradaveis olhos, e que estava contente ao pé de mim. Depois lá me affligiu que ella não fosse á ceia! Olhe que tinha aqui na garganta um talo, sr. Malafaya! Bem viu que estive sempre a pensar n'ella!
Era sincero o conde. Por onde quer que andou, as mulheres que viu, e a quem deu horas de folgada farça, nenhuma o impressionou. A sua primeira paixão era Maria Henriqueta, paixão que rompeu violenta e inopinada como as irrupções das crateras, como o corisco das calmas de agosto. Desde que a vira, perdeu a consciencia de seus meritos, o que elle denominava o seu besouro diabolico para fascinar mulheres. O suspirar á{122} ceia, e o velar no leito era a duvida, a excruciante duvida, unico besouro infernal e roedor, que se apascenta em coração humano, semelhante ao ciume na peçonha. Tinha trinta e cinco annos o conde de Monção, edade critica, em que os fructos do amor ou vingam, ou apodrecem. Se vingam, a vida futura do homem está definida para sempre; se apodrecem, as particulas corrompidas giram no sangue, gangrenam o coração, segregam rios de lagrimas, e ahi é então o morrerem afogadas todas as esperanças, e o caminhar do homem ao seu fim com o peso, o enormissimo peso de um cadaver moral. E as compleições sem o sexto sentido do ideal, desmelindradas, rusticas, e avessas a toda a poesia, são por igual sujeitas á lei commum do amor, que levanta á gloria, e engolfa nos tremedaes do crime. Terrivel é esta raia que nivella o talento com a estolidez! Parece que está na materia a faisca universal, que pega os grandes incendios: e os poetas—bem hajam elles!—tão aporfiados andam em nos persuadirem da espiritualidade do amor! Deus sabe o que é. O conde de Monsão é que não sabia dizer ao certo que tenazes candentes lhe apertavam no seio os pulmões suspirosos e que unhas de abutre lhe arregaçaram as palpebras veladoras! Então lhe acudiu á memoria, para flagela'-lo, o dialogo com o militar; e vieram apprehensões, e os retraços dos menores gestos do companheiro, e a significação mysteriosa de palavras, então ouvidas desattentamente. Estas combinações cresceram de ponto, quando viu no rosto de Gonçalo signaes de assustadora suspeita, com referencia{123} á apparição do militar. Recolhido em si, engrandeceu o vulto das desconfianças, e enterrando no seio o estilete das peores conjecturas achou lá o pensamento sanguinario de matar seu rival, fosse elle quem fosse.
Quando os nossos rivaes acham isto no peito, é prudente teme'-los.{124}
{125}
Gonçalo disse a Maria das Dôres:
—Tenho quasi a certeza de que está no Porto o tal bigorrilhas de Mirandella.
—Deixá-lo estar. Cada qual póde estar onde quizer.
—Assim é; mas eu receio que elle viesse chamado por Maria Henriqueta. Acompanhou até meio caminho o conde, e já hoje esteve perto d'esta casa.
—Póde muito bem ser. E d'ahi? que queres tu que se lhe faça?
—Quero que se realise com a maior brevidade o casamento de Maria com o conde.
—Pergunta-lh'o a ella, e vamos a isso. Casar é muito simples. Temos aqui o abbade á porta, e a egreja defronte.
—Isso não é responder. Tu já sabes que Maria não quer o conde.
—Pois se o não quer, tambem eu não. Diz ao conde que trate de sua vida.
—Mas a minha palavra está dada.{126}
—Déste o que não podias. Deixa-me a mim o encargo de responder pela tua palavra. Eu falarei com elle.
—É melhor que fales com tua filha, e a convenças.
—Deus me livre d'isso... Eu é que estou convencida de que minha filha iria ser desgraçadissima com o conde, a mais embirrenta creatura que eu tenho visto! Como descobriste tu aquelle palerma? Tens dedo, realmente! Faz vontade de lhe offerecer a cabeça de um macho para enfeitar a corôa de conde!... Cousa assim!... E, sobre tudo, ruivo, pés grandes, anão dos assobios, e tabaqueiro! Deus me defenda de tal genro!
—Tenho entendido...—disse Gonçalo com resignada amargura—Estragaste-me Maria Henriqueta!
—Estraguei-t'a?... Estragado tens tu o juizo!... Eu logo vi que os frades e as freirinhas te davam cabo da razão! Se fosses rapaz, e visses um homem da laia do conde, escarnecia'-lo; como estás a envelhecer, entendes que está alli um marido pintado para a tua filha!... Deixa a menina, deixa-a viver, não lhe tolhas o seu futuro com os teus calculos de a engrandeceres! Dá-lhe alegria, não lhe dês titulos... N'uma palavra, diz tu, ou deixa-me dizer ao homem que Maria Henriqueta não o ama.
—Diz muito embora; mas fica sabendo que ha de entrar n'um convento tua filha.
—Pois sim; o que tu quizeres, que ella tudo acceita menos semelhante marido. Irá para um convento, e póde ser que eu vá com ella. Vês-te assim livre de ambas: e{127} depois vae para as grades entreter-te com as delambidas santinhas, que nós havemos de louvar a Deus o favor de uma cella onde não chegam figurões da laia do teu conde.
E terminou, por esta vez, o ternissimo colloquio.
Maria Henriqueta faltou ao almoço, e foi desculpada por sua mãe, sendo por falta de saude que faltava. O conde, industriado pelo coração, que é um grande mestre de cerimonias, pediu a Gonçalo Malafaya licença para mandar saber directamente da menina, pela creada grave d'ella. Tomou o comprimento D. Maria das Dôres, e voltou, em nome de sua filha, muito penhorada das attenções do illustre hospede. Tinham que vêr e de que rir estas etiquetas pausadas, pautadas e mesuradas como um ritual de officio de defuntos.
Em quanto D. Maria das Dôres, depois do almoço, ficou á mesa conversando com o conde, Gonçalo aproveitou o azo de entrar ao quarto da filha, que por um cabello não foi surprehendida a escrever a oitava pagina de uma carta a Filippe Osorio. Compuzera-se o pae de boa sombra, e proposito de melhores palavras. Simulou acreditar nas queixas que a privaram de ir á mesa, e d'ahi derivou a mostrar que as inquietações do espirito eram muito nas molestias do corpo. Fez o elogio da paz, e da voluntaria deixação das velleidades do animo as quaes vinham a ser liberalmente compensadas com os doces cuidados domesticos, sob os olhos carinhosos de um marido, que, ao mesmo tempo, abrange a ternura de pae, e a profunda estima de irmão. D'aqui saltou,{128} pouco methodico, para os gabos enthusiastas, que o bondoso conde lhe estivera fazendo da formosura d'ella. Deteve-se n'este assumpto, sem adivinhar a duplicante nausea com que a filha o estava ouvindo. Era logico o repisar de novo na materia odiosa do casamento. Vestiu com quantos enfeites soube de sentenças e moralidades as suas intenções. Realçou os brilhos de uma alta posição na sociedade, e de uma corôa de condessa. Matizou-lhe as delicias da côrte, para onde o conde resolvia mudar sua residencia, e assumir no paço as brilhantes occupações de seu pae e avós, podendo sua esposa considerar-se desde logo primeira dama da rainha, afóra a vantagem e gloria de educar e elevar seus filhos á sombra de reaes telhas.
Ouviu Maria a estirada parlenda em silencio, silencio agro de represadas lagrimas, ancias de lançar-se de joelhos aos pés do pae e abrir-lhe a alma, e deixar lá ver a imagem do homem, que para todo sempre a maniatara ao seu destino.
—Que respondes, Maria Henriqueta? Não conseguiu teu pae mover-te? Resistes aos rogos que te faz o teu bom e sempre extremoso amigo?
Maria respirou em pranto, e exclamou quanto os soluços lhe permittiam:
—Não posso, meu pae, não posso... Deus sabe que eu lhe tenho pedido desde hontem a morte!...
—Basta;—disse severamente o pae. Sabes o teu destino? Sabes que has de entrar no mosteiro de Arouca?{129}
—Entrarei, meu pae.
—E que has de lá estar emquanto eu for vivo?
—Estou prompta, se é sua vontade que eu vá.
—Não é vontade: é violencia que fazes ao meu coração. Pensas que eu poderia ver em redor de minha casa o homem de Mirandella? Cuidas que o rosto de um pae é insensivel ás ignominias do coração de sua filha? Não coras de tal namoro; mas coro eu por ti, coram em ti meus avós, uma série de senhoras soberbas de seu nascimento, que casaram com eguaes por não poderem elevar-se mais alto. Sei que está no Porto esse aventureiro. Toda a minha prudencia será necessaria para o não mandar chibatar pelos meus creados. Não o farei, porque eu arrisco muito no escandalo, arrisco a tua dignidade, que é a minha.
E, baixando a voz, continuou com resguardo:
—Contas com a protecção de tua mãe? Estás bem aviada! Verás por que estradas ella te conduz á desgraça. Ia a aborrecer-te, com pejo o digo, e fugiste d'ella para o meu coração, que te acceitou. Agora foges de mim para ella. Deixa-te ir. Cavae ambas o abysmo da minha vida e da tua felicidade.
Saindo em direitura á sala do almoço, onde a fidalga ficára conversando com o hospede, parou Gonçalo para ouvir o que diziam, temendo que sua mulher estivesse aniquilando as esperanças do noivo. Desconfiou com acerto. Eis aqui a parte do dialogo que elle ouviu:
—São cousas muito melindrosas, sr. conde—Dizia D. Maria das Dôres respondendo ao titular.—O amor não{130} vem depois, se não tem já vindo antes do casamento. Está v. ex.ª enganado pela inexperiencia. Os experimentados é que sabem o que é casar na esperança de alcançarem do tempo o milagre, que não fez o coração. Tão infeliz seria v. ex.ª como a minha filha. O desagrado de uma situação contra vontade, é que faz as impaciencias do genio, as irritações que são o fel de quem o dá aos outros. Meu marido casou violentado comigo; e eu fui violentada a casar com elle. O resultado poderia elle dizer-lh'o, sr. conde, se não houvessem uns certos infortunios, que os maridos se pejam de confessar, ao mesmo tempo que se mostram de todo despreoccupados de outros infortunios, que são as verdadeiras vergonhas. Se sou infeliz porque fui casada á força, ou por obediencia, que culpa tenho eu de o ser? Porque não hei de eu dizer bem alto que o sou, a fim de ser exemplo aos paes, e torna'-los brandos, se as filhas, n'este ponto do casamento, lhes não obedecerem cegamente? A desgraça ha de ser util a alguem, penso eu, sr. conde; e por isso bom é que a minha desgraça seja util a minha filha, e a v. ex.ª. Renuncie á idéa de casar com Maria Henriqueta. O conde de Monção ha de achar uma digna mulher onde a desejar, formosa, rica, e nobilissima.
Esteve o conde pensativo alguns segundos, e respondeu desempenadamente:
—Não póde ser.
—Não póde ser o quê?!—redarguiu D. Maria, com a fronte avincada.{131}
—Hei de casar com a menina, porque a vontade do sr. Gonçalo Malafaya é que ella case comigo.
Era muito affrontosa para Maria das Dôres esta brutal saída. Levantou-se ella de um salto e exclamou:
—Não casará, sr. conde, porque é vontade minha que Maria Henriqueta faça a sua vontade.
—V. ex.ª tem um genio dos meus peccados!—atalhou o conde com um comedimento que, em outro individuo, parecera zombaria.—Ora queira sentar-se, minha senhora... Isto não vae a ralhar.
—Sr. conde, eu tenho ordens a dar no governo da minha casa. Vou mandar-lhe meu marido, e peço desculpa.
Gonçalo estava como a querer esconder-se de si proprio, no escuro de um corredor, onde as palavras sonoras da prima lhe iam apertar a alma. O homem tinha pejo de mostrar-se ao conde, e repugnancia em confirmar o que sua prima tinha asseverado. Era, porém, improrogavel a demora, desde que o hospede ficou sósinho, sentado á mesa, a contar os palitos de rama, que crivavam um javali de prata, imagem do coração d'elle, na analogia dos espinhos, e talvez na brava natureza da alimaria.
Entrou Gonçalo com aspecto de réo, se não era antes o exterior de grande amargura.
—Pelo que vejo—disse o conde—sua senhora oppõe-se ao casamento! V. ex.ª fez mal em m'o propôr antes de saber, se era vontade...
—Minha prima—respondeu urbanamente o fidalgo—verdadeiramente{132} não se oppõe; é que sentiu, melhor que eu, a indisposição de Maria Henriqueta para o casamento, e...
—Então é a menina que me rejeita?
—Não o rejeita, sr. conde; recusa casar por emquanto.
—E v. ex.ª porque m'o não disse ha mais tempo?! Eu fui chamado para isso; e só agora é que sua filha acha cedo para casar?! Entre homens da nossa qualidade, estas cousas tratam-se mais pontualmente.
—Recebo com humildade as censuras, que v. ex.ª me fez—tornou Gonçalo, ferido nos seus brios; mas soffrendo a offensa, em castigo da leveza com que decidira do destino da filha—Pensei que Maria Henriqueta via o mundo pelos meus olhos e sentia pelo meu coração. Enganou-me o amor de pae, e o desejo de lhe dar esposo superior aos seus merecimentos d'ella. Minha filha vae entrar n'um mosteiro; é a satisfação que eu posso unicamente dar a v. ex.ª.
—Deixe-se d'isso!—atalhou o conde—Nada de mosteiros! Se a duvida do casamento está na vontade da menina, deixe-a ao tempo, que ella mudará de idéas a meu respeito. Ponto é que fale com ella, e lhe vá ganhando o coração pouco e pouco. Pois se a menina só me viu uma vez, hontem á noite, como ha-de ella já gostar de mim?! Deixe-me conversar com sua filha mais algumas vezes, sr. Malafaya, e o resto cá fica por minha conta.
—Da melhor vontade, sr. conde. Agora mesmo eu{133} dou ordem a minha filha para ir á sala. Queira v. ex.ª vir lá espera'-la.
Quando Gonçalo voltava de acompanhar o conde á sala, saíu-lhe a esposa ao encontro, e disse-lhe:
—És tolo, meu querido primo! Desconheço o teu antigo entendimento e desembaraço!
—Que queres dizer n'isso?
—Quero dizer que reduzes tua filha a achar-se a si mesma ridicula! Que vae ella a fazer á sala? Que tem ella que dizer a esse homem, que eu não lhe dissesse já?
—Que o despersuada ella mesma.
—Se ella o não persuadiu de cousa nenhuma, com que razão a forças a ir despersuadil'-o? Tu desces da tua posição, e obrigas a descer tua filha!...
Gonçalo sacudia vertiginosamente os braços, de enraivecido contra si proprio, e de angustiado na cinta de ferro, que lhe tolhia todos os expedientes.
Maria das Dôres condoeu-se do marido, e ajuntou:
—Maria irá á sala, se assim o queres; mas hei de eu ordenar-lhe que vá, e tu has de confirmar o que ella disser com o teu silencio. D'esta irrisoria situação só a franqueza nos póde salvar depressa.
Annuiu Gonçalo, indo para o seu quarto, e fechando-se para poder chorar sem testemunhas.
Foi Maria das Dôres ao quarto da filha, onde se deteve alguns minutos. O conde acabava de encanellar os bofes do peitilho ao alteroso espelho do tremó dourado, quando Maria Henriqueta entrou de rosto alto e o afogueamento de uma colera expansiva no rosto.{134}
Sentou-se, e esperou que falasse o conde.
—Está melhor, minha querida senhora?—disse elle titubiando.
—Estou boa, sr. conde, e v. ex.ª parece-me excelentemente saudavel.
—Não dormi cinco minutos, com o cuidado que me deu o seu incommodo de hontem á noite.
—Mal empregado cuidado!... mas muito mais por isso lhe agradeço a prova de estima.
—E de amor apaixonado, minha senhora.
—Esse sentimento é que eu de todo desmereço, por que não lh'o posso retribuir. Devo dizer a v. ex.ª que vou entrar n'um mosteiro, em satisfação á vontade de meu pae. É aprazivel para mim satisfaze'-lo de um modo, quando me é de todo impossivel satisfaze'-lo por outro. Meu pae deve merecer a benevolencia do sr. conde pelos esforços que empregou em convencer-me a ser esposa de v. ex.ª. Resisti, por que não posso. A dignidade de meu pae está salva; e eu salva me considero da responsabilidade de fazer desgraçado o sr. conde, por condescendencia com a vontade de meu pae.
—Ahi ha outra cousa, minha senhora...—atalhou o fidalgo.
—Que póde haver?
—V. ex.ª ama outro homem.
—Amo.
—Ah!... diga-me isso... Provavelmente é mais rico e mais fidalgo que eu?
—É um homem. Que lucra v. ex.ª em saber-lhe as{135} qualidades, que o meu coração não discute? É um homem, que eu amo, ha cinco annos, e que amarei até á morte.
—Isso ha-de passar com a reflexão, minha senhora. Póde ser que elle não seja tão digno de v. ex.ª como eu, nem a ame com tanto fogo.
—Será minha a infelicidade; basta-me, porém, ser amada como sou.
—Pois eu queria ter o gosto de conhecer o meu ditoso rival...
—Com que fim?
—Queria ver-lhe a cara... Desconfio que elle seja um militar que...
—Que o acompanhou algumas leguas? É esse de certo.
—Está bom; fico sciente... Escolheu bem, a senhora, não tem duvida... É um homem sem nascimento, um militar de fortuna pelos modos...
—É um militar que começou por onde começam os generaes mais nobres. Quando eu o conheci e amei era cadete; e os cadetes teem nascimento; não o pódem ser sem justificarem a nobreza de quatro avós. E de mais, sr. conde, são cousas escusadas estas. Eu retiro-me agradecida ao sentimento que lhe causou a minha pouca valia, e desejo que v. ex.ª encontre n'outra esposa a fortuna que eu de certo não posso dar-lhe.
Levantou-se, fez uma mesura de espavento, como era estylo, e saíu magestosa, afastando a cauda com garbosa arrogancia, cujas tradições ainda se vislumbram{136} nas grandes tragicas sobre o tablado, em que a vida, e a mulher, e os ademanes se conservam nos sublimes moldes dos antigos tempos.
Vae agora o mundo tão deslavado e peco, a dignidade senhoril está pautada por esquadria tão arrazada, que, em caso identico, a menina mandada a uma sala entender-se com um conde ácerca da impossibilidade de ser d'elle, ou não ia lá, ou era necessario ir lá busca'-la desmaiada n'um insulto flatulento.{137}
N'essa mesma hora, o conde de Monção, digno de si e de seus avoengos, mandou fechar as malas, e carregar a bagagem; vestiu-se apressadamente de jornada e saíu da camara á sala para despedir-se de Gonçalo Malafaya, e das duas senhoras. Soube o fidalgo, ainda encerrado no quarto, os aprestos de partida do hospede, e nem animo teve de lh'os estorvar: tamanha era sua vergonha que já o consolava a saída do conde, vexado por elle. Tanto, porém, crescia o sentimento do seu despundonor, quanto, augmentava o da aversão á mãe e á filha.
Chamado segunda vez, foi Gonçalo receber as despedidas do hospede de vinte e quatro horas incompletas. Já encontrou na sala a prima, com prazenteiro sorriso, e a filha de tranquilla apparencia, recebendo os agradecimentos do infeliz fidalgo, que movia mais á piedade que á irrisão.
Á piedade!... Quereria o conde, por ventura, a piedade de alguem? Os amores desditosos só acareiam dó{138} para as victimas resignadas. Umas ha que de antemão se desopprimem em traças de vingança, e essas mais são para incutir malquerença que pena.
O adeus de Gonçalo Malafaya foi um aperto de mão convulso. O conde, para mostrar-lhe intelligencia de muda expressão, disse com sombra de riso:
—Não tem duvida, sr. Malafaya... O mundo dá suas voltas; veremos onde isto pára!...
Teria o repudiado noivo caminhado uma legua na direcção do seu solar no Alto-Minho, quando o coração lhe transmittiu ao pulso esquerdo raivoso impeto de sustar as redeas, e revirar a cabeça do cavallo para o Porto. Os dois mochilas deram praça ao galope desapoderado do ginete, e seguiram, notando mais uma das extravagancias do amo.
Foi o conde apear n'uma estalagem, e d'alli avisou um fidalgo, seu primo, que lhe preparasse aposentadoria em sua casa. Este successo, na pequena roda dos fidalgos do pequeno Porto de então, fez grande ruido, e chegou aos ouvidos de Malafaya como se por elles entrasse um dardo a ferí-lo em seu pundonor. Inexgotavel calix o do atormentado fidalgo! Nem esposa, nem filha, nem a sociedade! Todos e tudo conjurado a levá-lo ao apuro da desesperação!
Ao outro dia, contavam umas ás outras as familias nobres que os Malafayas tinham vexado o conde de Monção, despedindo-o na ante-vespera do seu projectado e decidido casamento com Maria Henriqueta. Vingou a geral opinião de que o conde fôra indignamente ultrajado,{139} e Gonçalo um baixo offensor para tão alto personagem. Ninguem inquiria, nem queria saber se Maria Henriqueta rejeitára o marido. Era pormenor, que humilhava e desauctorava os paes diante de suas filhas, uma semelhante causa. Buscaram-se, inventaram-se outras, todas falsas, e em menoscabo de Gonçalo e de D. Maria das Dôres.
Resolveu o fidalgo saír do Porto com sua familia a residir temporariamente em uma quinta do Douro, e de lá enviar a filha ao convento de Arouca.
Empeceu Maria das Dôres o plano, contradizendo-o com a precisão de mostrar aos seus detractores que alli estavam a pé quedo recebendo os tiros da calumnia; ajuntava ella que o mundo, vendo-os fugir, diria que elles tinham ido esconder a sua indignidade na provincia. E rematou d'este theor:
—Se te julgas bem condemnado pela opinião dos nossos amigos e parentes, vae tu para o Douro. Eu e Maria Henriqueta não damos o campo á inveja diffamadora. Ficaremos; e quando elles se calarem, iremos para onde quizeres. Em quanto á ida de tua filha para Arouca, esse é o desejo d'ella; mas é preciso que penses se a honra de Maria Henriqueta será mordida na sombra por estes rafeiros e rafeiras, dando tu a isso occasião, com encerrá-la por castigo n'um convento. Castigá-la, porquê? perguntará o mundo; e, se tu disseres que a encarceras por rejeitar a mão do conde, o mundo fará os seus commentarios de modo que o tal desdouro caia sobre ella como sobre ti. Pensa, Gonçalo, e não precipites{140} uma resolução, em que temos muito a perder; e a ganhar não sei o quê. Um convento é uma casa com umas portas muito grossas; mas as portas abrem-se de par em par quando as pessoas, que não fizeram votos de lá estar, querem sair.
A força moral de Gonçalo estava exhaurida. O homem, desvirtuado ante si mesmo, deixava-se já ir no pendor da fatalidade. Não contrariou a mulher: não quiz mesmo ser ouvido em nada; prohibiu até que ao seu quarto entrasse o som dos boatos affrontosos, que avultava de dia para dia.
O conde de Monção não voltára ao Porto para deshonrar Gonçalo nem assoalhar o seu desdouro.
Procurou de saber em que quartel ou casa encontraria um tenente de cavallos, vindo de Lisboa tres dias antes. As pessoas, empenhadas n'esta averiguação, disseram-lhe que, no troço de cavallaria 6, destacado no Porto, entrára um tenente transferido de Lisboa, moço nobre de Traz-os-Montes. Deram-lhe o nome, a residencia e as miudezas desnecessarias.
Filippe Osorio descia as escadas do seu quartel, e viu o conde em attitude de entrar no pateo.
—O sr. conde!—disse Filippe com amigo sorriso.
—É verdade, meu caro sr. tenente; sou eu mesmo em pessoa que venho contar-lhe o resto da historia, se é que a não sabe.
Peço ao leitor que marque á margem do livro, com uma cruz, este dizer do conde, porque não acha outro, que valha a nota.{141}
—O resto da historia?!... Refere-se v. ex.ª áquelle casamento, que fez favor de me contar ha dias?
—Pois então!
—Ah! agradeço extremamente a confidencia. Queira subir.
—Não subo.
—Como lhe aprouver, meu caro sr. conde de Monção. Não teimo, porque a minha casa é uma barraca de campanha, e tenho cadeira e meia como ornato. Se o não molesta a minha companhia, vamos andando e conversando até ao quartel, que tenho obrigações a cumprir.
O conde encarou-o com arremesso e disse:
—O senhor está certo de eu lhe dizer, quando o senhor me falou n'um amante da filha de Gonçalo Malafaya, que ou eu ou elle?
—Lembra-me d'isso, nem era possivel esquecer-me cousa de tanto porte, dita por v. ex.ª.
—Não esteja a brincar comigo, sr. tenente! Parece-me que zomba!
—Eu!... O sr. conde é exquisito! Zombar eu de cousa que não merece a zombaria!
—O senhor é o homem que D. Maria Henriqueta ama. Não o negue, que, m'o disse ella.
—Mesmo sem lh'o ella dizer, eu não o negaria. Adiante.
—Adiante o que?
—Vamos ao fim da historia, que eu tenho urgencia do tempo.{142}
A historia acabou-se. Agora venho dizer-lhe que não será minha nem sua Maria Henriqueta. Juro-lh'o pelo meu sangue e pelo meu nome. Um de nós ha-de morrer.
—E o que viver póde casar com ella, não é assim? Eu cuidei que v. ex.ª tratava de a matar a ella, o que seria muito mais feio e triste. Em quanto a mim, sr. conde, posto que me sinta um pouco amante da vida, se fôr sua vontade arrisca'-la-hei contra a sua espada, por lhe dar gosto. V. ex.ª já fez favor de me dizer que teve em França muitos duellos, e eu sinceramente lhe digo que não tive ainda nenhum. Todas as vantagens são do meu contedor. Estou ás ordens, depois de cumpridas as do meu regimento. Está satisfeito?
—Os seus fóros?
—Os meus fóros de fidalgo, pergunta?
—Sim.
—Quer v. ex.ª saber se me ha de matar como fidalgo ou como peão?
—Não me meço com peões.
—Isso agora é uma impertinencia, sr. conde! Afflige-me esse seu zelo de gentil-homem, e por lhe conhecer a boa vontade que me tem, usarei a immodestia de lhe dizer que v. ex.ª sabe quem eu sou, nem eu creio que denegue fé á dama, que lhe disse meu nascimento e educação. Agora é minha vez de lhe perguntar pelos seus fóros, sr. conde de Monsão.
—Os meus... fóros? pergunta-me o senhor a mim...
—Pelos seus fóros de honra, os fóros da sua dignidade,{143} os fóros da sua vergonha. Pergunto a um homem vil com que direito me vem pedir contas a mim do desprezo com que foi recebido por Maria Henriqueta. Pergunto ao desprezivel conde de Monção, se é mais estupido que abjecto, vindo provocar a duello um homem, que mal conhece, por que me vê entre si e uma senhora, que lhe repelle a philaucia e as grosseiras tentativas de a fazer perjura. A tal provocador é natural que eu pergunte pelos seus fóros de honra, de dignidade, e de vergonha. Se me elle responder com o espadim, hei de sacudir-lh'o das mãos e deshonrar-lh'o debaixo dos pés. Sr. conde, um miseravel da sua qualidade não péde contas a homens de bem; mata-se, e vae da'-las a Deus, quando a ignominia do mundo lhe pesa no vacuo da cabeça. Agora, meu fidalgo, deixe-me ir trabalhar no meu cargo, porque eu sirvo o rei, sirvo a patria, e poderei dar ámanhã o sangue por ella, em quanto v. ex.ª, cevando na inercia os seus estupidos orgulhos, quer desenfadar-se brincando com o credito e com o socego de uma senhora, que eu prezo como irmã, e v. ex.ª deseja como mulher, para desempenhar a sua casa destruida em dissipações. Nem este supremo desaire lhe falta! Até á vista!
O conde de Monção estava pertencendo ao dominio da farça. Olhos arregalados e queixo pendido é a maxima expressão do espanto. No conde era pavor a ridiculissima compostura ou descompostura de feições. A cada palavra da crescente apostrophe, os brios de duellista europeu derretiam-se em frigido sangue que lhe arripiava{144} as arterias. Tinha razão o homem, que os olhos de Filippe Osorio afuzilavam raios, e os labios tremiam em crispações, que pareciam ascuas de lume. O conde ignorava que as idéas se podessem expressar d'aquelle modo, em bocca de um simples tenente. Ante si nunca elle vira um inimigo, jogando contra elle as armas do escarneo, e amostrando ao mesmo tempo outras, capazes de servirem á ferocidade. «Isto é um assassino!» dizia no fôro da sua consciencia o conde para cohonestar a cobardia do silencio. Cobardia não é o termo proprio. Cobardes são aquelles que sossobram na defeza de sua justiça. Outros, que atacam direitos d'outrem, e fogem aos aggredidos, que lhes fazem rosto, esses são apenas infames na aggressão; e, quando fogem, prestam involuntaria homenagem á justiça. Pode-se jurar que o conde de Monção não meditava n'estas distincções, ao retirar-se do local em que o deixára petrificado Filippe Osorio. Circumvagou os olhos, como a certificar-se de que ninguem presenceára o insulto, e foi seu caminho murmurando por entre os dentes cerrados: