IV

Poude muito comsigo Maria das Dôres, enfreando o genio; mas desmedrou a olhos vistos. Ao cabo de tres semanas estava magra, secca e quebrada de espirito, que era um pasmar das creadas. Sustentou Gonçalo dois mezes a sua palavra. Saía por portas remotas do repartimento em que sua prima vivia. Jantava raras vezes em casa, e sempre em separado. Seroava por salas de amigos e parentes até noite alta. Recolhia a tempo que sua mulher dormia; e, finalmente, recebia as visitas em salas distinctas das frequentadas pelas senhoras.

Este divorcio domestico teve longe soada, e deu ansa a muitas calumnias, umas gravosas para a fama da senhora, outras a taxarem de cru e barbaro o marido. O velho Azinheiro commentava o facto em abono da filha; o velho Malafaya andava solicitando a canonisação de seu filho martyr. Deu-se a feliz conjuncção de se encontrarem os dois velhos em casa de uma familia, empenhada na reconciliação dos casados. Deram ambos amigavelmente as causas da desordem, cederam-se mutuamente{54} as sem-razões de parte a parte, e vieram ás boas, pactuando o afervorarem a harmonia, na vespera do Natal, á mesa do amigo e parente commum, que lhes proporcionára o encontro.

Assim se fez.

Gonçalo acceitou o convite, sem presumir o fim; Maria das Dôres, instada pelo pae, accedeu tambem. A surpreza foi de ambos, quando se viram na mesma sala da ceia. Achava-se presente o deão da Sé, sujeito de grandes lettras, e abalisada prenda de bom-falador. Foi elle o encarregado do discurso, quinze dias antes. Não foi discurso o que saíu da uberrima e caudal veia do prebendado: foi uma homilia, como os santos padres a quereriam ter feito. Se lhe mondarmos a exhuberancia dos textos latinos, á mixtura com os versos gentilicos, era uma peça litteraria com que eu faria os meus creditos, se a podesse reproduzir, e o leitor m'a attribuisse ao meu corcovado engenho. Corcova-se o engenho, como a espinha dorsal, leitor amigo, quando frigidas e geadas de infortunio regelam e abatem as altivezas do genio. Não assim ao conspicuo deão da Sé portuense, que vivera cincoenta annos de vida folgada e de côro, rindo com os vivos, cantando pelos mortos, e compondo, nas horas feriadas, discursos attinentes a restabelecer a ordem perturbada nas familias, em cujas casas jantava, uma vez por dia, ou duas, se caía a talho de fouce.

Ia em meio o discurso, quando as senhoras edosas, lavadas em lagrimas como punhos, começavam a perder o appetite das rabanadas e dos ovos de fio. Os velhos{55} fidalgos, para em tudo attingirem o sublime dos conceitos, até com acenos de cabeça confirmavam o bem cabido e apropositado dos textos latinos, cousa de todo o ponto indigesta ás capacidades d'elles. Rematou o discurso por este memorando periodo:

«... Finalmente, é chegada a hora, a propicia hora de dois corações se approximarem, quaes carinhosos e gemebundos rolos, que nos esgalhos de longiquas arvores, se estão suspirosos namorando! Abra o mais forte os doces braços, e cinja em meigo amplexo a fragil e quebradiça creatura, que senão fôra toda amor, seria toda divindade. Toto Dea, tota pulchra, tota vel amor. (Entre parenthesis: supponho que o latim era arranjo do imaginoso deão: não me occorre ter lido cousa tão delambida na antiguidade). Finalmente, tornou elle—se dois são os culpados, o reciproco perdão abra-se já em perfumes de reciproco amor. Para enxugar as lagrimas, beijos; para delir injurias, sorrisos; para cicatrizar chagas do peito, abraços. Vamos, felizes esposos; renasça a paixão, o ardor da chamma antiga, veteris flammæ, n'esta hora em que renasce para o amor e para a fé da humanidade o redemptor da culpa, o redemptor das paixões más, aquelle que disse: a carne da minha carne, o osso do meu osso: caro ex carne mea, os ex ossibus meis.» Disse.

Heytor Azinheiro tomou a filha pela mão; Christovão Malafaya abarcou pela cintura o filho, e deram alguns passos a encontrarem-se.

Gonçalo beijou a esposa na fronte; Maria das Dôres{56} cingiu o braço ao collo do esposo, e ficou em duvida se devia desmaiar.

Não teve tempo. Moviam-se e vozeavam todos a um tempo. O deão conservava ainda a face escarlate do rescaldo da inspiração. Houve ahi fidalgo enthusiasta da facundia, que beijou a face do orador, a face em que, uma hora depois, cuidaria Sileno achar o espelho.

Foi noite cheia, noite que vae contando, na chronica das familias, ás provindouras proles, delicias nunca mais repetidas.

Mas nos labios de Gonçalo não avoejára um riso em toda a noitada, que prendeu com o dia; nem os de Maria das Dôres se abriram com palavra carinhosa ao esposo.

Voltaram de braço dado a casa; almoçaram juntos, e falaram de Maria Henriqueta, elle choroso, e ella melancolica. Ao jantar falaram ainda da menina, e combinaram em irem proximamente visita'-la a Lisboa.

Decorreram dias serenos, se não felizes em comparação dos passados. Maria queixava-se, mas com brandura: Gonçalo ia confessando suas demasias de impaciencia; mas sem vontade nem consciencia de as ter dito. O padre capellão continuava a benzer-se, mas já era de pasmado da mudança que o Senhor fizera nos casados, mediante as orações d'elle. Modesta piedade!

Foram a Lisboa, e fizeram contentes a jornada. Tiveram comsigo a filha em Cintra, e visitaram os arrabaldes pittorescos da formosa Lisboa.

Maria Henriqueta estava adiantada em cravo, dançava{57} com muito garbo e limpeza o minuete, arrastava com gracioso despejo a cauda do vestido, e levava o toucado a maravilhosa altura, sem desluzir a graça. No tocante a linguagem, em poucos mezes, todos a julgariam pura lisboeta. Um dizer morbido, preguiçoso e indolente, como cortado de gemidos, cousa mais de enfeitiçar ouvidos nunca Maria das Dôres imaginou que pudesse ouvir dos mellicos labios de sua filha.

No ponto de belleza, não ha ahi cousa que mais diga. Alteára-se, desempenára-se, alargára de espádoas, mingoára de cintura, pisava tão geitosa de mimo e movimentos, que parecia librar-se toda em cadencioso bater de translucidas azas. Facil era divisar assomos de vaidade no olhar da mãe. Já ella entre si dizia que mais amavel e perfeita fôra, se seus paes a tivessem mandado educar á côrte, em vez de a soterrarem n'um brutificador convento, onde as mulheres eram todas umas, e ridiculissimas as gaifonas monasticas, sem graça nem calor. Cohibia-se Maria de communicar ao primo estes seus pensares, com medo de relembrar-lhe cousas em que elle muitas vezes cogitaria, com desfalque dos taes quaes merecimentos d'ella.

Detiveram-se em Lisboa quatro mezes. Raras palavras enfadosas se trocaram, e essas mesmas eram contendas por amor da menina, que a mãe quizera levar comsigo para o Porto, desejo inepto que o marido impugnava, dizendo que a educação da filha estava em principio.

Na ante-vespera da partida, senhoreou-se do espirito de Maria o entojo de vêr o mosteiro de Odivellas. Sabia{58} ella que farte da profissão da filha do conde, e anciava por ve'-la, curiosidade por vezes mui fatal a mulheres, que não sabem o que fazem nem o que desejam. Recusou-se, primeiro, Gonçalo; meditando, porém, que só uma casualidade traria ás janellas gradeadas do mosteiro Beatriz dos Anjos, condescendeu. Fôra, porém, tão prompta a condescendencia, que D. Maria fez pé atraz, e demudou do intento, resmuneando palavras ciosas, que fizeram lembrar a esposa, antes de regenerada pelo discurso do deão, que santa gloria haja.

Azedou-se o marido da versatilidade da mulher e então iam pegando em permutação de remoques, mui dispostos a despregarem em formal descompostura. Espalharam-se as nuvens da imminente borrasca, e o azul sereno do provisorio céo cobriu mais alguns dias de bonança.

Ficou Maria Henriqueta em delicias, por se vêr livre do suborno da mãe, que a induzia a pedir ao pae a saída do collegio. Se alguma vez por temor ou respeito o fez, de tal geito relanceava os olhos ao pae, que o mesmo era implorar-lhe piedade. Por de sobejo lhe adivinhava Gonçalo a vontade; e, dilatando a resposta, foi ganhando tempo, e dispondo a saída, com promessas de lá voltarem.

Quando chegaram ao Porto, tangiam a finados os sinos da Sé. Estava sobre a terra o sapientissimo deão. Ruim agouro!

Aquelle dobre funeral, annunciando o trespasse do eloquente conciliador, era o presagio de futuras discordias.{59}

V

A educação seria alguma cousa no genio de D. Maria; mas o temperamento era tudo. Derrancava-se-lhe o sangue, se não girava desempedido, e resfolegava pelas valvulas da altercação, da teima e do conflicto. Renhir era o principio vital da sua compleição. Carecia de contrariar-se, quando não topava estorvos a desafia'-la á disputa. Uma sua intima dizia que Maria das Dôres, em dias mal humorados, chegava a beliscar-se para se irritar contra si propria. Isto será de mais; cumpre, porém, duvidar em cousas mais disparatadas. A mulher, em geral, é um complexo de bons e maus prodigios. Releva que tenhamos sempre apontada a admiração ás multiplices fórmas de espirito, em que a mulher se transfigura, segundo os varios incidentes de seu modo de ver e julgar.

Gonçalo, capacitado da milagrosa reforma de sua consorte, ia relaxando o proposito de emenda, que fizera, no tocante a certas culpas, de que D. Maria estava mais que muito sabedora, para nunca as esquecer.{60}

Durante o largo espaço do divorcio, represára ella enchentes de fel, que ameaçavam com seu natural pendor romper os diques, logo que mão extranha desconjunctasse uma pedrinha da levada, ou uma nova gotta cogulasse e desbordasse a represa insoffrida.

O indiscreto galã occasionou o desmancho da ordem, que se tinha, para o assim dizer, em frageis arames. Constou a D. Maria que seu marido andava enviscado de uma cantarina italiana, mulher de perigosas manhas e infernal seducção, que trazia na sua carteira inscriptos em catalogo os homens que á sua chamma fatidica se tinham abrazado, pagando com o ouro e com a honra, e alguns com o futuro bem de suas familias, a gloria de morrerem á ponta de um florete extranho, ou á bocca da propria pistola.

A denuncia fôra vestida com o maravilhoso costumado por quem relata historias d'esta natureza. A actriz era uma vulgar mulher, carecida mesmo da singularidade da belleza, que, a meu ver, é singularidade de pouco momento, quando alguma tragedia lhe não dá o relevo. Tragedias na vida da cantora havia apenas as do libreto, em que ella mesmo assim figurava na parte inoffensiva dos comparsas, e tinha sempre a cargo lamentar a prima-dona, que morria ás mãos do tyranno, ou o galã que lhe pedia por grande mercê um pouco de verdete para se matar, como traído ou desamado pela ama d'ella.

Pobre Persini! (chamava-se ella Persini) se Deus te julgasse pelo depoimento dos homens, em que caldeiras de bitume iriam ferver teus ossos!{61}

Ossos é que ella tinha muito acotovellados por aquelle corpo acima, se havemos de acreditar os oculos de alguns coevos. Concordam, porém, todos em ter sido Gonçalo Malafaya um apaixonado idolatra de Persini, e um dos poucos amadores que saíram vivos dos paços encantados d'aquella Armida.

Como quer que fosse, D. Maria das Dôres estourou, conflagrou-se, reaccendeu o antigo inferno, e constituiu-se o natural dragão da sua obra. Extranhou Gonçalo as arremettidas, que o descostume tornára novas. Desaffeito de soffre'-las, rebateu-as com virulencia, como corrido d'aquella docilidade com que n'outr'ora ia aparando as frechas no escudo da paciencia, e fugindo. Agora, adargou-se com uns modos despejados de impudor; e, no que dizia, dava a pensar que a sua vontade era soberana, e os seus caprichos inviolaveis.

D. Maria, bemfadada de acrisolada virtude conjugal, dado que os annos orçassem já pelos trinta e dois, houve pejo de redarguir com indecorosas ameaças, e até cuspiu a tentação de as dizer á cara do demonio tentador, que está sempre de espia em conflictos d'esta especie.

Gonçalo recalcitrou no vicioso amor á artista, e D. Maria na explosão dos ciumes, se eram ciumes, que eu não me atino bem a dar-lhe o nome. Ciosas temos nós visto esposas desamoraveis, e teimamos em denominar ciume o que é, em boa definição, vaidade. Vaidade seja, ou, se quizerem, ciume a indomavel raiva de D. Maria, o saír deshonrada em busca d'elle, o aldrabar á porta da cantora, se lá farejava o marido, o alliciar{62} lacaios para a espancarem á saída do theatro, o induzir-lhe a creada a ministrar-lhe uns pós de ratos, que, de fracos e revelhos, já as ratazanas do palacete os digeriam sem o menor symptoma de dyspepsia.

A guerra caseira chegou a termos de se ameaçarem no calor da refrega. Até alli nunca o marido exorbitára das leis da delicadeza prescriptas a homem que se estima em si e em sua esposa; mas, tanto ella lhe acrisolára a impaciencia, que o desvariado Gonçalo chegou a abrir e vibrar a mão em direitura ás faces intactas da mulher. Maria das Dôres correu a tirar pela gaveta de um toucador de ebano, e saíu de lá com um punhal luzente, temeroso pela afouteza com que a mão viril o brandia.

Gonçalo riu; mas, a falar a verdade, o riso era fingido. Sobejava-lhe colera, e medo tambem. Como quem pede treguas, o cavalheiro, pasmado do arrojo, cruzou os braços, e disse:

—Mulher de faca! pasmosa cousa!

—Um cavalheiro de mão erguida para sua mulher! vergonhosa cousa!—replicou D. Maria, imitando-lhe o sorriso, com vantagem de graça para ella, e de mofa para elle.

—Está, pois, demonstrado—redarguiu o pallido Malafaya—que estou aqui á mercê do punhal da prima Maria das Dôres!... Extranho destino o meu! Não basta matarem-me o coração, e o futuro?... estará escripto que o meu corpo morra ás mãos mimosas da minha esposa?{63}

—Não!—bradou ella—não em quanto o senhor, me respeitar como senhora, se me não quizer respeitar como esposa. Convença-se porém de que as affrontas de mãos hão de ser repellidas como as affrontas de palavras.

—Que quer de mim, prima Maria das Dôres?

—Quero que me respeite para que o mundo me respeite.

—A senhora é que se enxovalha, dando indecorosas scenas em publico.

—Forçada pelas suas devassidões, sr. Gonçalo! Basta de vexames! Temos cada qual seu caminho a seguir.

—Que quer dizer?

—Que o abomino, que o desprezo, que acceito hoje o divorcio, proposto ha dois annos; mas um divorcio de casal, de familia, de futuro e de tudo. Maria Henriqueta... quero-a comigo.

—A lei não lh'a concede.

—Ha de conceder-m'a! Eu provarei aos juizes que Maria Henriqueta não deve ser entregue a um pae, que não sabe ser marido. Veremos quem triumpha, sr. Gonçalo! Veremos se uma mãe sabe advogar os interesses e a moralidade de sua filha.

Cedeu Gonçalo o campo e saío pensativo, a aconselhar-se. Aquietaram-lhe o alvoroço os letrados, assegurando-lhe que a menina não podia ser disputada ao patrio poder com allegações extranhas á moralisação d'ella.

Quando n'essa noite voltou a casa, achou Gonçalo{64} signaes de grande reboliço, e deparou-se-lhe o capellão benzendo-se, e tartamudeando a nova da saída da fidalga, com os seus bahus para casa de seu pae. Suspeitoso de um attentado maior, tramou Gonçalo vigilante espionagem aos passos e designios da prima. Logo, na tarde do seguinte dia, soube que D. Maria das Dôres ia a Lisboa, com o projecto de tirar a filha do collegio.

N'essa mesma noite partiu Gonçalo para a côrte, petrechado de boas recommendações para debellar quaesquer ardis judiciarios da consorte, favorecida pelos valiosos amigos de Heytor Azinheiro.

Então se viu quanto sobreleva amor de pae a todas as affeições mesquinhas, que muitas vezes armam ciladas e quedas mortaes, d'onde não ha ahi erguer-se um homem para a honra.

Esqueceu-lhe, n'um momento, a Persini, que o esperava com a ceia, lardeada de convivas de sua estofa, e cavalheiros da tempera de Gonçalo. Nem chispa de saudade lhe vislumbrou na longa e fadigosa jornada. Anceava-se em Lisboa, e ante si não via senão a angelical figura de Maria Henriqueta extendendo-lhe os braços, como a pedir-lhe resgate do captiveiro que a mãe lhe queria infligir. Mal apeou do tressuado cavallo, que devorára leguas ao sabor do amo, foi Gonçalo cuidar de requerer intimação judicial á directora do collegio para não entregar a menina a sua mãe, sob qualquer pretexto, e com qualquer auctorisação. Conseguido isto, em que cifrava tudo, o carinhoso pae desfadigou-se em aturadas conversações com Maria Henriqueta, a qual viçava{65} em formosura á competencia com os dons do espirito.

N'um d'aquelles dias, Gonçalo Malafaya, passando diante do palacio do conde de Miranda, recordou as noites venturosas que alli passára, e recolheu-se triste. Tristezas de coração, aos quarenta annos, se procedem de saudades da bemaventurança dos vinte, são golpes que rasgam fundo, e curam em falso, por não fecharem, digamo'-lo assim, cauterisados pelo ardor das lagrimas.

Ao outro dia, Gonçalo acordava com a imagem de Beatriz dos Anjos a esvaecer-se nos vapores de um sonho. Moribunda a tinha elle visto, e vozes de perdão lhe colhera dos labios balbuciantes em crispações da agonia; mas agonia de santa fôra a sua.

Deu-se pressa no caminho de Odivellas, e parou indeciso no pateo do convento, remirando as janellas onde entreviu rostos mimosos de buliçosas noviças, enquadrados na touca do habito. A madre porteira chamou o estarrecido cavalheiro, e perguntou-lhe se procurava alguem.

—Alguem desejava ver, minha senhora.

—Quem?

—Uma religiosa... Beatriz dos Anjos.

—Com os anjos está—disse a porteira.

—Morta?!—exclamou Gonçalo.

—Viva, eternamente viva para Deus... Era sua parenta, senhor?

Gonçalo apoiára-se no rebordo da parede, contiguo á roda, e, encostando a testa á pedra, chorou.{66}

A freira compadecida aventurou-se a espreitar por uma fresta da meia-porta, e disse-lhe:

—Se quer descançar, eu peço ao sr. capellão que lhe dê um quarto na residencia.

—Agradecido, minha senhora. Eu vou-me já embora. Queira dizer-me: Beatriz morreu ha muitos mezes?

—Ha dezoito.

—Eu vi-a ha dois annos, e pareceu-me saudavel.

—Seria o senhor um cavalheiro que aqui veio ha dois annos?

—Fui, minha senhora.

—É do Porto?

—Sou do Porto.

—Pois vá com a Virgem; e peça a Deus que lhe perdôe o mal que veiu fazer á nossa desgraçada menina. Com sua licença.

A madre fechou hermeticamente as portadas, e Gonçalo, a passo incerto e vagaroso, saíu da alameda.

A dor era sincera, porque necessitava confessar-se, e carpir-se.

Lembrou-se da filha. Ai d'aquelles que soffrem e dizem: «Não ha quem me veja as lagrimas!»

Esporeou o cavallo, e descavalgou no collegio. Ia subindo as escadas, e ouviu grande alarido de vozes. Parou no primeiro patamar, encostado ao mainel. A mais aspera e aguda d'aquellas vozes era a de D. Maria das Dôres.

—Em que momento, meu Deus!—exclamou Gonçalo,{67} com tamanha dor, como se o peito se abrisse para romper fóra o brado.

Em que momento! digamos nós. Ei'-lo a buscar um coração que lhe entenda as lagrimas vertidas por outro coração que a dor matára. E a mão terrivel da mysteriosa Providencia, conduz-lhe aos olhos, tumidos de lagrimas, a mulher que, n'aquelle instante, mais odiosa devia ser-lhe!{68}

{69}

VI

Se bem que desalentado para a lucta, Gonçalo Malafaya subiu ao terceiro andar do predio, em que altercavam as vozes. Assomando á porta de uma sala, onde estavam muitas meninas e algumas senhoras, fez-se um subito silencio. Do grupo das senhoras apartou-se Maria Henriqueta, em transporte de jubilo, aos braços do pae. Maria das Dôres tremia de ira como de frio, e mudou de côres até permanecer n'um amarello de greda, que era a sua usual expressão de extremo phrenesi.

—Que vem a ser isto?—disse Gonçalo serenamente.

A directora respondeu:

—Vem a ser que a sr.ª D. Maria das Dôres quer levar a menina, e a menina recusa ir. Eu disse á senhora que v. ex.ª estava em Lisboa e me não prevenira da saída da sr.ª D. Maria Henriqueta, razão porque me opporia, ainda mesmo que a menina quizesse saír. A senhora irritou-se contra mim, dizendo-me insultos, que eu nunca ouvi, nem cuidei que fidalgas os soubessem dizer. Estava agora s. ex.ª dizendo que ia buscar uma{70} ordem regia, para levar a menina; e eu respondi-lhe que sem aqui vir o pae, não dava por ordens regias, nem queria saber de mais nada. Felizmente que v. ex.ª veio a tempo: agora resolvam o que quizerem.

—Tenho resolvido—disse Gonçalo.—Minha filha continúa a estar aqui. A prima Maria das Dôres é uma creatura sem alma, nem sombra de juizo. Envergonhe-me e envergonhe-se á sua vontade; mas saiba que Maria Henriqueta ha de ficar no collegio, apesar das suas imaginarias ordens regias.

—Visto isto, eu nada valho?—disse Maria das Dôres em tom commovente.—Cuidei que perdendo o marido, podia ao menos ser mãe; mas, a final, perdi mocidade, ventura, dignidade, marido, filha e tudo, não é verdade? Muito bem. Ir-me-hei embora. Adeus, Maria Henriqueta, sê feliz. Primo Gonçalo, folgue de me ter esmagado o coração até me lá não deixar nem sequer a imagem de minha filha. É forçoso que eu viva em odio de todo o mundo, e que todo o mundo me seja odioso. Faça-se a vontade de Deus. Eu verei se posso odiar-te, Maria Henriqueta: ha de custar-me muitas lagrimas; mas n'este mundo miseravel tudo que é mau e infame se consegue com a força de vontade. Adeus, minha filha. Deixa-me olhar bem para ti; que é esta a ultima vez que te vejo. Tu amarás a minha memoria, quando souberes que tua mãe podia ser boa, se alguem houvesse misericordia das dores que lhe causa.

Maria Henriqueta foi espontaneamente ao pé de sua mãe, e beijou-lhe a mão, commovida. Apertou-a ao ceio{71} com insolito estremecimento a mãe, e teve-a assim, até que as lagrimas saíram aos olhos de ambas. Quebraram-se os animos das senhoras hostis a Maria das Dôres. Movia o trance d'aquelle adeus. Era mãe e filha; e o só titulo de mãe quer-se respeitado, que é santo, salvo se o cunho sacratissimo d'elle foi delido com execrandas torpezas, que só de pensa'-las se doe e peja o coração. Que ha ahi lances nas familias que seriam vilipendio do Creador, se a creatura, despojada de religião, descaída de dignidade, atolada em abominações, que desconhecem feras, não fosse a ultima, a espantosa hediondez da materia, desaçamada em sua estupida fereza! Oh! quão triste é então o dizer-se «aquella mulher é mãe! Aquella innocente menina foi levada ao eterno desdouro, e eterno perdimento por aquell'outra mulher, que se diz sua mãe!» Ó leôa da Hyrcania, que emancipas tua filha, quando lhe sondaste a força das garras, e da tua prêa já lhe fortaleceste as unhas frageis, quão mais benigna tu és!...

Maria Henriqueta, do seio materno, voltou o rosto ao semblante commovido do pae. Que dizia ella no mavioso rogar de seus olhos? Pedia-lhe compadecimento para sua mãe. Dizia mais que o discurso do defunto deão. Tirava por elle com impulso celestial; como se Deus o estivesse mandando á beira da mãe a esposa consternada, com mansas palavras, com perdões e amor.

Gonçalo obedeceu ao impulso e acercou-se de sua mulher, a passo lento, mas resoluto. Compreendeu-o{72} Maria Henriqueta, e chegou das d'elle a mão submissa de sua mãe. Foi silenciosa a scena, menos de suspiros e soluços, que durez de alma seria se os circumstantes não se enternecessem.

—Prima Maria das Dôres—disse Gonçalo—seja este anjo que nos reconcilie. Queres tu a minha amizade? Queres a filha e o pae? Podes tu amar-me por amor d'ella, e dar-nos a ambos a felicidade que só de nós pódes gosar?

Maria apertou a mão do esposo, e estreitou-se mais com o seio da filha.

Radiou por todas as meninas e mestras um fulgor subitaneo de alegria. Aos olhos de todas já Maria era esposa e mãe respeitavel. A reconciliação rehabilitou-a, e o marido como que se prezou mais na dignidade de sua mulher.

Saíu Gonçalo Malafaya a procurar hospedagem condigna para mulher, filha, e estado de servos e carruagens. De commum accordo com a esposa, resolveu residir na corte. Estimou ella o alvitre; para desviar o marido da Persini, que, áquella hora, se estaria lembrando de Gonçalo como de um amante, cujos traços physionomicos, a custo, distinguia das feições dos successores. Chamava-lhe tragica a opinião publica; e a pobre Persini não era senão a comedia humana real e pessoalissima.

Pelo que respeita a Maria das Dôres, o seu esquivo anjo de condição benigna voltára a visita'-la, em quanto o demonio da travessura se ia em passeio ás suas inflammadas{73} cavernas a pedir conselho ao chefe das legiões, infernaes, que enxameavam d'antes nas varas dos cevados da Judéa, e que nos nossos tempos fazem seu atascadeiro no seio das familias.

Correram dois annos de serena paz, arrevezada por dissabores de pouca monta. Maria entrou na roda das fidalgas de Lisboa, e modelou-se, quanto seu natural lhe permittiu, aos geitos agradaveis das senhoras estremadas em educação. Muito lhe valeu isto para passatempo, e diversão de cuidados. O grande mal da sua condição estava no scismar sósinha, e devanear por desconfianças e zelos, quasi nunca injustos, diga-se a verdade secca e breve.

Gonçalo, tambem por este lado, fatal quebra de seus bons costumes, estava melhorado pela edade, e talvez por influxo do golpe que recebeu em Odivellas. Sangrára pelas lagrimas o orgão que lhe era um aleijão sensivel, e a causa efficiente dos seus maiores desgostos domesticos. Quero pensar que Malafaya teria sido menos trabalhado de angustias, se fosse mais fiel marido, e menos insoffrido nos acommettimentos da ciosa esposa.

Ao fim de dois annos, imprevista borrasca lhe ia sossobrando a fragil taboa da sua felicidade. É um caso que podia sobejar a um romance especial, que eu vou dar pela summa.

Beatriz de Noronha, acceitando o namoramento de Malafaya, regeitou os galanteios de um fidalgo, que presumia ter-lhe merecido preferencias. O fidalgo ferido da imaginada perfidia, quiz provocar a desafio o portuense;{74} lembrou-se, porém, d'este galhardo despique, a tempo que Malafaya vinha em jornada para o Porto.

Desembaraçado do rival, o cavalheiro que tinha appellido Athayde, cuidou em merecer de novo o affecto de Beatriz, contentando-se já com um coração alanceado pelo despeito, embora contaminado pela saudade.

Beatriz esquivou-se mais que nunca. Impunha-lh'o a paixão, a saude, e por ventura a esperança. A pertinacia de Athayde era digna de premio; mas, em geral, as mulheres, quando não ganham asco a quem as solicita importunamente, são umas voluntarias doudas que se gosam no aviltamento dos logrados, e se lastimam do assedio que soffrem.

A filha do conde de Miranda nem se queixava da teima de Athayde, nem o repellia da sua estima. Antes quiz a santa simplicidade!—attrahi'-lo a confidenciosas relações. Contou-lhe o quilate de seu amor, e o plano de professar, se Gonçalo não voltasse.

E Gonçalo não voltou, nem o tempo desfez o que a paixão allucinada n'uma hora designára.

Decorridos dois annos, e publicada a nova do casamento de Malafaya, Beatriz entrou em Odivellas; e, treze annos depois, como sabem, morreu.

Athayde, perdidas as esperanças, exulara no extrangeiro, onde, muitas vezes resolveu vestir o habito, e morrer ignorado. Passados vinte annos, e quasi extinctos os fogos sob o gêlo dos quarenta e dois annos, voltou á patria o fidalgo, e concentrou-se no seu quarto, golpeando{75} sempre a chaga de saudade como quem não queria morrer de outra.

Acaso soubera elle que residia em Lisboa Gonçalo Malafaya, ao qual as freiras de Odivellas arguiam de causa principal da breve morte de Beatriz dos Anjos. Quer fosse effeito de um desvario, procedente da concentração, quer de velho odio, Athayde phantasiou que Beatriz o encarregava de vinga'-la. N'este presupposto, saíu á luz do dia o encanecido homem, que raros amigos tinham visto. Indagou da residencia do fidalgo provinciano, e subiu afoutamente as escadas em busca do inimigo para immola'-lo aos manes de Beatriz. Arrojo digno da edade média! Relance de melodrama, que seria muito de vêr no palco! Em 1799 era ja um desconcerto de juizo a tragica façanha!

Gonçalo recebeu o incognito. Conhecera um gentil cavalheiro, chamado D. Francisco de Athayde; mas aquelle que se dera tal nome era um velho de barbas brancas, posto que nos meneios denunciava virilidade robusta.

—Francisco de Athayde, justamente—replicou o vingador ás delicadas duvidas do portuense.—Sou o Francisco de Athayde que tinha em 1778 vinte e tres annos.

—Muito folgo de encontrar um amigo da mocidade—redarguiu Gonçalo.

—Amigo, não. Esse titulo affronta-me. Inimigo implacavel, hade dizer.

—Duvidarei te'-lo em tão extranha conta, emquanto{76} v. ex.ª me não disser que fiz eu para merecer-lhe tamanho odio.

—Matou Beatriz dos Anjos.

Gonçalo empallideceu, e como á luz de um sinistro relampago, viu aquelle homem enxugando as lagrimas, ao lado de Beatriz de Noronha, debaixo de uma arvore de Cintra.

—O seu silencio quer dizer que se preza e gloria de ter assassinado a mais formosa e digna creatura da nossa mocidade, sr. Malafaya?

Gonçalo balbuciou:

—Eu era indigno d'aquelle anjo. Deus a desviou de mim, porque a escolhera para sua esposa, e a chamou ao céo, quando já bastava como conforto a desgraçadas, o exemplo que ella dera.

—Palavras, senhor! Não vim a ouvir palavras. Que tem v. ex.ª padecido por expiação d'aquella morte?

—Muito, sr. D. Francisco de Athayde.

—Não o parece. Vejo-o vigoroso, o seu olhar ainda tem a luz da mocidade, o timbre da sua voz é sonoro como nos tempos em que jurava paixões que cavavam sepulturas. Tudo me diz que v. ex.ª vive para si, para sua esposa, para sua filha, para as glorias do tempo e para uma velhice agradavel e tranquilla.

—Erra v. ex.ª o seu juizo. Tenho sido muito desgraçado, sou, e se'-lo-hei sempre. A minha expiação é a vida. Mas quer-me parecer extranha a intenção com que v. ex.ª me procura. Posso, em breves termos, saber a sua missão?{77}

—Simples. Beatriz de Noronha não tem um irmão que lhe vingue a morte. Resta-lhe no mundo um amigo, com pouca vida, mas com uma vaga recordação das suas armas, e um braço, que póde com ellas.

—Vem portanto, v. ex.ª desafiar-me?

—Sim, senhor.

—É uma pendencia melindrosa. Peço a v. ex.ª que medite tres dias.

—Medito-a ha vinte e dois annos.

—E crê que o derramamento do nosso sangue será agradavel á doce alma de Beatriz dos Anjos?

—É.

—V. ex.ª está influenciado por uma visão. Beatriz dos Anjos perdoou-me.

—Eu não perdôo. A mim me vingo, se ella não quer vingar-se.

—Isso é outro ponto. Muda de rosto a questão. V. ex.ª vem desafiar o seu antigo rival. Esqueçamos, pois, o nome da senhora morta. O nosso duello serve para mostrar que o ferido ou o morto era o mais digno ou indigno d'ella?

—Mostrará o que fôr de sua vontade.

—Pois bem: queira nomear-me os cavalheiros de seu lado, para eu lhe enviar os meus juizes e testemunhas.

—Formalidades vans! Testemunhas, a honra. Juizes, a espada, o faim, a arma de sua escolha.

—Rejeito as condições e a escolha da arma. Duvido da regularidade do seu juizo.

—Ultraja-me?—bradou o Athayde em tremuras.{78}

—Não quero ultraja'-lo, senhor. Propõe-me v. ex.ª um homicidio a occultas de quem possa dar conta ao mundo da nossa carniceira inimisade. Preciso de duas pessoas que me assegurem o bom juizo de v. ex.ª, na causa do desafio, e nas condições propostas.

—Em summa, não quer bater-se.

—Entenda-o assim, se lhe apraz.

—E sabe que desforra me fica?

—A do insulto publico.

—Estamos entendidos. Ver-nos-emos.

—Quando v. ex.ª queira.

Saíu D. Francisco de Athayde, e afadigou-se pouco em busca de Gonçalo Malafaya. Encontraram-se, e tiraram dos fains em presença de um numeroso publico, que saía da egreja dos Martyres. A pontada de Athayde vinha certeira ao coração de Malafaya, e resvalou ao longo da lamina do seu florete. Repetidos tiros de enfurecido ataque a sua mesma desordem os inutilisou. Athayde foi segurado por pessoas que o julgaram furioso no ataque. Gonçalo Malafaya, conhecido de alguns transeuntes, foi rodeado de povo, que se acotovellava para escutar as razões da extranha briga de dois fidalgos, como em seu exterior se mostravam. O portuense, ás reiteradas perguntas de conhecidos e desconhecidos, respondia com inuteis esforços para desentalar-se da multidão. Prosperou-lhe a ventura passar o corregedor do bairro do Rocio, seu amigo, de quem tomou o braço, e por amor de quem o povoléo lhe deu passagem.

Este successo turvou profundamente a paz que o pae{79} de Maria Henriqueta se estava saboreando entre a indulgente emenda da esposa e as caricias da filha.

Fôra grande na capital a soada do acontecimento, e explicada pelos coevos dos amores que levaram Beatriz á campa, e D. Francisco de Athayde á enfermaria dos loucos.

Este final e logico desastre do amador infeliz succedeu poucos dias depois. Athayde saíu da sua modorra em accessos de furia pedindo uma victima para a sepultura de Beatriz de Noronha.

Racionalmente, sua familia inferiu dos precedentes a demencia do lastimavel cavalheiro. Quizeram medica'-lo em casa; mas a sciencia rehabilitadora das razões degeneradas estava no hospital de S. José, onde foi recolhido D. Francisco, d'onde saíu seis mezes adiante, para o jazigo de seus maiores.

Se aquella apaixonada e perdida alma se recobrou pela morte, quererá Deus que ella contemple no paraizo a bemaventurada Beatriz? Sublimes arcanos que os sublimes poetas, em seus malogrados arrobos, ousam descortinar! Permittisse o grande do céo e da terra que alguma vez a poesia d'este baixo lodo se elevasse á verdade eterna pelo raio da inspiração de cima!{80}

{81}

VII

Alquebrado de espirito, e suspeitoso da malquerença da sociedade,—a quem apiedaram as desventuras de Athayde, e erritára o proceder do amante ditoso de D. Beatriz—saíu de Lisboa Gonçalo Malafaya e sua mulher, com destino ao Porto.

Ficou no collegio Maria Henriqueta, estudando a lingua franceza, rara prenda na educação das senhoras d'aquelle tempo. Prometteu o mestre dá'-la prompta no prazo de um anno; fiado na forte vontade e talento da discipula. Maria das Dôres combateu a cedencia do marido, allegando a inutilidade de falar francez n'uma terra onde ninguem sabia semelhante lingua. Gonçalo, porém, que se prezava de a saber, contradictou a esposa com victoriosas razões.

São pouco dignas de chronica as tempestades conjugaes decorridas no anno seguinte. O fidalgo tinha envelhecido nos ultimos seis mezes da capital. Velleidades de coração, antigo pomo de discordia, essas não voltaram mais. Da triste sombra do amargurado homem, até{82} os convidativos prazeres do vicio iam fugindo. Os abysmos só se cavam aos pés de quem os anda palpando. Amores de alta sociedade, amores de capricho, apavoram-se das cans, e querem pugnar com robustos corações, e atrevidos emprehendedores, capazes de abrilhantarem o escandalo. Ora, Gonçalo era a viva expiação do passado, a sombra baça do palaciano, que vencia os rivaes com o só desprezo das praças em conquista. Viam aquelle homem extenuado passar abstraído hombro a hombro das suas glorias de outro tempo, e não as conhecer. O pasmo d'estas metamorphoses dura um dia; segue-o a indifferença, e bem póde ser que a derradeira phase seja a irrisão. Esqueceu, pois, Gonçalo Malafaya, o querido das damas, o mestre dos mancebos, o «perfeito-fidalgo», epitheto antonomastico, e geralmente aceite, que lhe deram as fidalgas edosas, que tinham visto a côrte de D. João V.

Fechára-se, portanto, um respiradouro da contenciosa indole da sr.ª D. Maria das Dôres. Os outros eram menos turbulentos, ou a tolerante apathia do marido os supprimira temporariamente.

Começou Gonçalo a frequentar conventos, e a palestrear com frades. O guardião dos franciscanos era um sabio: os oratorianos eram-n'o todos; a erudição do padre Theodoro de Almeida ficára largo tempo disseminada nos espiritos dos congregados. Por estas casas, e pela benedictina das freiras e dos monges, é que o transfigurado fidalgo matava o tempo, e armazenava pharmacopêa religiosa para, no inverno da vida, se medicar em{83} enfermidades geradas nos desvarios da primavera. Com freiras era menos assiduo, mas muito estimado e desejado. Denominavam-n'o as mysticas benedictinas «o fidalgo do milagre». Vinha a ser o milagre a mudança que faz o tempo e a desgraça no homem, que em si mesmo abrange mais milagres que todos os sabidos e contados nos credulos mosteiros d'aquella época.

N'aquelle redil do Senhor tinha o patriarcha S. Bento mui formosas filhas ao começo d'este seculo. Vinham ellas algumas vezes á grade cumprimentar o fidalgo do milagre, e ouvi'-lo discorrer em cousas do céo e da terra, ditas com tanta unção e graça que nenhuma noviça ou freira nova as ouviu, que se não sentisse mais conformada com a religião. E, tanto era assim, que já soltava a intriga suas rasteiras serpes por entre as florinhas d'aquelles innocentes affectos. Se o fidalgo chamava umas religiosas e esquecia outras, glosava-se o successo com extranhos inventos, mas perdoaveis todos como desvios de espiritos frivolos dentro dos limites da candura monastica.

Recebia Gonçalo amiudados presentes de S. Bento, gulosinas fabricadas ou enfeitadas por mãos de anjos.

D. Maria das Dôres, quando esta novidade freiratica lhe entrou por casa em bandejas de prata, não fez d'ella grande cabedal para altercar; mas, com a repetição dos mimos, e a certeza de que seu marido, em vez de entrar no convento dos congregados, torcia para o pateo das freiras bentas, bafejou-lhe o seu demonio meridiano, e ahi começou ella a averiguar quem fosse a freira perturbadora{84} da sua paz. Deram em resultado as averiguações que eram todas, excepto as entrevadas, as religiosas bemquistas de seu marido, desde a garrula noviça até á gottosa abbadessa.

Soou a temerosa trombeta da discordia, assoprada innocentemente pela communidade benedictina.

—Que andas tu a fazer por S. Bento, Gonçalo?! Deste agora em freiratico?—perguntou entre grave e ironica a sr.ª D. Maria das Dôres.

—Vou por alli espairecer algumas horas. Como sabes tenho alli parentas e velhas amigas. Na mocidade não as visitava, senão de longe a longe; agora que somos velhos todos, bom é que nos vamos despedindo na ante-camara da sepultura.

—E só procuras as velhas, primo?

—Não, prima Maria das Dôres. Ha por lá umas senhoras novas filhas de amigos velhos, que me fazem a honra de me visitar na grade.

—Coitadinhas! e são umas santas: não é verdade?

—Deus sabe se ellas são santas: eu sei apenas que são excellentes creaturas.

—Tu gostaste sempre muito das excellentes creaturas!...

E n'este ponto, a sr.ª D. Maria das Dôres fez uma longa resenha de senhoras que seu marido achára excellentes creaturas; depois, fechado o catalogo não breve nem de todo imaginativo, espirrou uma risada aspera, que feriu desagradavelmente o tympano do marido.{85}

Ergueu-se Gonçalo e saíu murmurando:—Amplius, amplius, domine! que em linguagem quer dizer: Ainda mais, ainda mais, Senhor! como quem dizia que viesse do céo mais fel para o seu calix, pequeno para tamanhas culpas.

N'aquella tarde foi o fidalgo conversar com o guardião dos franciscanos, politico de vasto alcance, e propheta da proxima invasão franceza. Tinha o santo varão a gazeta de Lisboa que, em suas apreciações, era a epigraphe de sumarentos discursos ácerca da liberdade, da politica europêa e de Napoleão. Escutava-o Gonçalo aprazivelmente e maravilhava-se de tanta sciencia sob tão humilde habito.

Recolhendo a casa, alheado em combinações de politica fradesca, encontrou sua mulher amuada e colorida de certa amarellidão, presagio infallivel de tormenta. Uma palavra azada bastou para se conflagrar em relampagos e coriscos de colera, espectaculo em que a paciencia do pobre homem se empedrou de susto. Fugiu para o seu quarto, e de lá fitava o ouvido á trovoada que reboava fóra.

Deixou de ir a S. Bento o «fidalgo do milagre». As senhoras escreviam-lhe a miudo, ou mandavam os capellães cumprimenta'-lo. Em uma das cartas de saudação assignavam-se cinco freiras exemplarissimas. Foi Maria das Dôres, quem, ausente o marido, abriu, por acinte, a carta. Leu-a, e escreveu debaixo das assignaturas:

«Não sejam tolas. Vão rezar. Tenham juizo. E, se{86} não teem que fazer, façam camisas para os pobres, que é isso o que faziam as antigas congregações de monjas benedictinas.»

E devolveu a carta.

As santas senhoras, quando tal viram, choraram muitas lagrimas; mas não me consta que fizessem camisas aos pobres, cousa que me parece desnecessaria á salvação.

Alguma das cinco signatarias, menos paciente, ou amiga de deslindar meadas em que andava embelinhada a sua fama, escreveu a Gonçalo contando o succedido. Foi-lhe a carta entregue na rua por uma servente do mosteiro.

Ficou tranzido o fidalgo; mas, reparando com mais tento na escripta de sua prima, mal pôde suster o riso provocado pelo conselho de fazerem camisas para os pobres. É muito bom ter graça ás vezes. Gonçalo perdoou a imprudencia á mulher pelo pico de sal que achou. E, continuando a meditar no successo, quiz-lhe parecer que andára menos evangelicamente a freira denunciante da indiscrição de sua mulher.

Certa a esposa de que seu primo deixára de frequentar grades, e vendo que lhe faltava pedra onde mordessem os arpéos da sua indole, deixou-se ir em mar de leite, afagando, a seu modo, as tristezas do marido e ralhando com os servos para entreter o vicio, e com o capellão que continuava a benzer-se.

Passou o anno aprazado para a vinda de Maria Henriqueta. Alvoroçou-se o pae em preparativos de jornada,{87} e D. Maria quiz acompanhá-lo, e foi, vencida curta resistencia.

Já a menina traduzia correntemente o idioma francez, e o pronunciava mais correcto que o pae. Pediu ella com muito encarecimento que a deixasse ficar mais um anno para estudar o inglez. Foi este o primeiro caso em que as opiniões dos paes se harmonisaram, negando a licença. Chorou a menina como quem fazia consistir a sua felicidade na lingua ingleza; Gonçalo, porém, tão caprichosas achou as lagrimas, que nem sequer curou de enxuga'-las com caricias.

Maria das Dôres, de si pouco fagueira, consolou-lh'as com estas e outras asperezas:

—Não se envergonha de chorar uma senhora de dezenove annos! Estás bem aviada comigo, se tens assim as lagrimas á bica para qualquer contrariedade! Ahi está o que vem a ser educação de collegio! Muito mimo, um pouco de cravo, a lingua franceza, bordar a matiz, e chorar por dá cá aquella palha! Bonita educação, não tem duvida!

—Está bom!—disse Gonçalo com mansidão.—Excedes-te nas grandes e nas pequenas cousas. Não queremos que Maria Henriqueta estude inglez: está dito tudo.

—Então achas bonita aquella choradeira!

—É uma creancice que não merece discussão. D'aqui a dias já ella se não lembra de inglez, nem mesmo sabe para que aprendeu o francez. Em summa, Maria Henriqueta, precisamos de ti, e tu hoje precisas mais de nós{88} que de mestres. Se tua mãe quizer iremos no anno que vem, se as guerras tiverem acabado, visitar as capitaes de França e de Hespanha. Estudaste nos livros; agora é bom que estudes nas magnificencias da arte e do engenho humano. Gostas do meu plano?

—Gosto do que quizerem que eu goste—respondeu carrancuda Maria Henriqueta.

O pae encarou n'ella com tristeza, e disse no mais recondito de sua alma: «Vê-se que foi creada sem mãe, mãe pelo carinho, e pelo castigo. Emquanto a teve, observou os conflictos das desordens de todas as horas, e ganhou o contagio das asperezas de genio. Depois, seguiu-se o apartamento dos naturaes afagos e das censuras mesmo doces quando castigam. Tem gosado sempre louvores mercenarios, e extranha que a contrariem seus paes...»

Em quanto Gonçalo cogitava n'estas e n'outras razões, Maria das Dôres discorria pelo theor das suas iracundas apostrophes. A filha fugiu de encara'-la, e torcia os alamares do roupão, com simulada impaciencia. Interveio, segunda vez, o pae nas desmedidas invectivas da mulher, e ficou Maria Henriqueta como vexada de se baldarem suas lagrimas, e como aterrada do seu futuro.

Do seu futuro! Mal sabia ella que infinito de lances se encerra na palavra futuro!

Gonçalo Malafaya, a sós, com as suas previsões sinistras, dizia assim no esconderijo do seu quarto e de sua consciencia:{89}

—A minha desgraça está em meio caminho. Envelheci a soffrer quando minha filha começa a viver para me prolongar o martyrio até á decrepidez! Alli está uma filha de Maria das Dôres! Deixei-a sósinha com a natureza, não pude corrigir-lhe as propensões: hei-de agora luctar com o genio de ambas, azedado pela discordia em que vão viver. Como hei-de ser justo, se forem ambas injustas? O que fará a raiva e o desespero no coração insoffrido de minha filha? Porque é, meu Deus, que eu fiava o bem-estar da minha velhice dos carinhos de Maria Henriqueta?

Proseguiam as meditações de Gonçalo, quando sua mulher lhe entrou de golpe no quarto, e disse com sobresalto:

—Não sabes, primo Gonçalo?

—O quê?

—Estou espantada!

—Que é? Fala...

—Cheguei casualmente a uma janella, e vi... Santo Deus!

—Que viste?!—exclamou Gonçalo, erguendo-se.

—Vi Maria Henriqueta na janella do seu quarto...

—Isso que tem de extraordinario?!

—Tem muito! Não me interrompas! Vi-a lançar á rua uma carta, e vi um militar apanha'-la.

Gonçalo sentou-se como desfallecido. Levou as mãos á fronte, que previa suor de afflicção. Ouviu longo tempo os commentarios de sua mulher, e com grande esforço, disse:{90}

—Peço-te encarecidamente que te cales, Maria! Nem uma palavra a tal respeito. Faz de conta que não viste nada. Sê prudente, se me desejas vida a mim, e honestidade a tua filha...

Maria das Dôres murmurou apenas:

—Entendam lá o que diz elle na sua!... Boa maneira de velar a honestidade de uma filha!...

FIM DA PRIMEIRA PARTE

{91}

SEGUNDA PARTE

I

Não fôra o anhelo de saber linguas que ensinára a Maria Henriqueta a fagueira eloquencia com que venceu o pae, e conseguiu estudar francez. Deus sabe com que repugnancia ella decorava as declinações e os verbos, e com que enfados velava as noites para dar lições diarias, com applauso do mestre. Cuidava a educanda que, fazendo prodigios no conhecimento do francez conseguiria do pae licença para deter-se mais um anno em Lisboa, com o ensino de outro idioma.

Vamos á explicação natural d'estas maravilhas de estudo e sede de saber.

Desde os seus quinze annos que Maria se inclinára aos sorrisos de um cadete de cavallaria, galhardo mancebo de cabellos louros, cintura fabulosa, e maneiras de summa elegancia.{92}

Era o cadete da provincia de Traz-os-Montes, filho segundo de uma nobre casa de Mirandella, aparentado com illustes familias de Entre-Douro e Minho e chamava-se elle Filippe Osorio Guedes da Fonseca. Abundavam ao moço as sobras de sua mezada, e converteu-as todas ao seu noviciado de amor. Primeiro alliciou a creada do collegio para receber as cartas da mão do creado, alliciado tambem. A educanda correspondeu á fogosa e sincera declaração do amante, com os mais apaixonados termos, que lhe ensinou uma companheira mais velha e já experimentada nas excellencias do estylo epistolar.

O cadete, não satisfeito plenamente com as cartas, alugou, na visinhança do collegio, um andar de casas, que tinham saguão commum e janellas fronteiras. Maria, sabedora do expediente amoroso do moço querido, classificou o feito de suprema prova de amor, e deliciou-se em embriaguez de ternura n'aquelles vagos anceios dos dezeseis annos, que tanto levantam a mulher a foros de anjo, como dão com ella em razo, desenfeitada de todos os prestigios.

Não era para isso o amor de Filippe Osorio. Amavam-se como duas creanças pela innocencia do seu amor, e como dois noivos pelo alcance de suas esperanças. Era o enlevo a subi'-los ao céo, e o instincto a baixa'-los á terra. Mas que instinctos tão humanos, tão legaes, tão christãos! Casarem-se! Companheiros de uma longa vida, começada em duas formosas e explendidissimas primaveras! Que bonitos amores, e quem nos dera a todos nós amar assim vinte vezes na vida!{93}

Deu fé a directora do collegio do namoro. Admoestou suavemente Maria Henriqueta, e a candida menina respondeu-lhe;

—Olhe, minha senhora, leia as cartas de Filippe; eu lh'as leio todas, se quer!...

A directora montou os oculos, e leu, com admiravel pronuncia e conhecimento de toada dramatica, um massete de cartas, que era um coração em prosa!

Em uma das primeiras dizia elle quem era, o seu nome, o nome de seus avós, os seus parentes, o seu destino, os seus anhelos á gloria, a sua gloria de ser amado. Vinha portanto Filippe Osorio a ser um dos primeiros nobres de uma provincia, e um dos mais finos amantes do globo.

A directora dobrou as fartas hastes dos oculos, embocetou-os, escutou o oraculo de uma pitada de esturrinho, e disse;

—Mas seu pae não a mandou para aqui com o intento de a menina arranjar marido. Concordo nas boas intenções do seu joven namorado; mas é necessario que seu pae concorde n'ellas.

—Mas que precisão tem meu pae de ser chamado já para isto, que é um brinquedo? Se algum dia eu me resolver a ser esposa de Filippe, então consultaremos meu pae, e eu farei o que elle ordenar.

Ouviu a directora um amigo antigo da casa, homem maduro e previdente. O consultado respondeu:

—Deixe divertir-se a pequena, minha senhora. Namorar n'aquella edade é como abrirem-se as flores em{94} abril. (Sobre ser amigo da casa, era o sujeito o poeta dos annos da familia). Se avisam o pae, sabe o que acontece? É elle tira'-la de cá, e a senhora perde trezentos mil réis annuaes que recebe, afora os presentes dos presuntos, dos chouriços, dos paios e das murcellas de Arouca: Minha senhora! tome o meu conselho. Emquanto a janella do visinho não atravessar o saguão, e se lhe metter em casa, deixe-os conversar, deixe-os perfumar os ares com a recendencia dos seus innocentes amores.

Silvou uma pitada a matrona, e disse:

—Tambem me parece... a janella cá não entra, sem ser por arte magica.

—Tambem me parece—redarguio o amigo da casa—e a magia é uma mentira...

—Isso é conforme, meu caro amigo! A gente tem visto cousas!...

E ficaram n'isto, porque um e outro tinham visto cousas admiraveis em magia no theatro do Bairro Alto, no da rua dos Condes, e mesmo fóra do theatro.

Continuaram os doces colloquios. Nunca tão immaculada paixão se nutriu de puros desejos através de dois, tres, quatro, cinco annos.

Filippe, no decurso d'este tempo, foi promovido a alferes e já ostentava as divisas de tenente de cavallaria, quando D. Maria das Dôres o viu levantar a carta.

Tudo o mais que eu dissesse para esclarecer o mysterioso desejo de linguas, que Maria Henriqueta exprimia com lagrimas, seria uma impertinencia.{95}

Agora sabem o porquê d'aquelles prantos, e digam-me se ella não tinha rasão, amante cinco annos, cinco annos embalada pela esperança de cada noite, ditosa pela realidade querida de cada dia, afeita áquelles olhos negros, áquelles cabellos louros, áquella melodia de palavras, que pareciam cantadas a um arpejo de anjos! Nunca ninguem chorou com mais amargura intima, penso eu!

Se ella dissesse ao pae que amava Filippe!... Porque lh'o não disse? Porque se não confessou em tão innocente culpa?

Não o saberei eu bem dizer. Um instincto adivinhador do animo paterno? Não. Foi uma razão menos nebulosa. É que o pae lhe havia dito um anno antes: «Eu medito em te casar com um dos primeiros titulares da provincia; é um conde, minha filha, não mais nobre que nós, mas egualmente antigo, e... conde! Com que legitima soberba te verei condessa, minha filha!...

Maria Henriqueta ouviu em alvoroço, e disfarçava a dôr da lançada com um sorriso. Notou o pae que ella se purpureava; e disse entre si: «como o pudor é lindo!»

A carta expedida pela janella, devia ser um partir-se o coração de lê'-la. Despedia-se Maria de Filippe Osorio, emprazando-o para encontrar-se com ella no céo, a não querer elle commetter algum desesperado arrojo que a salvasse.

Houve-se com ella de modo o pae, que nem uma só palavra equivoca lhe disse. D. Maria das Dôres, incapaz de reprimir-se, alguns remoques aventurou, provocando-a{96} a revelações que ella não fez. Como a casual chegada da mãe á janella lhe foi despercebida, Maria Henriqueta deu pouco valor a umas ironias, que de leve lhe apalpavam o seu segredo.

Triste como a saudade sem desafogo, entrou Maria no sombrio palacio de seu pae. Em redor de si eram tudo cortezãos enjoativos, fidalgos de muita edade, perguntando-lhe se vira D. Carlota Joaquina, e meninas de sua edade, que se agrupavam a um lado ciciando segredinhos, allusivos ao ar enfatuado de Maria, com o que, de puro respeito, se estavam sorrindo.

Concorria tudo, pois, a exasperar a tristeza da morgadinha. As mesmas caricias do pae a enfastiavam; o semblante aspero da mãe recordava-lhe os repellões que soffrera em menina, e os annos dourados que deixára no collegio. Saltavam-lhe involuntarias as lagrimas dos olhos, em presença das familias que a visitaram, em todas as noites da primeira semana. Fugia das salas, encerrava-se no seu quarto, e rompia em gritos, em que a irritabilidade nervosa tinha maior acção. As noites desvelava-as a lêr as cartas de Filippe, escriptas em cinco annos. Estas leituras, longe de socegar-lhe o animo, aguilhoavam-n'a a impetuosos transportes do leito para as janellas, sorvendo a anciados haustos o ar da noite. Sentava-se constrangida á mesa, e raro alimento aceitava da mão carinhosa do pae. Pedia frequentes licenças para levantar-se, e buscava, em secreto, o seio de sua ama, para chorar com desafogo, falando em Filippe.

Em nome da ama vinham as cartas d'elle. Digno de{97} tanto amor nenhum outro homem o seria mais. Atrevia-se de frente com as difficuldades, e promettia-lhe a redempção, se ella permanecesse constante. O seu primeiro triumpho consistia em conseguir passagem do seu regimento para a guarnição do Porto. Era concessão difficil, n'aquelle tempo em que o prospecto de proxima guerra punha em sobresalto conselheiros da corôa, que só curavam de organisar o exercito. Venceu o moço, com o patrocinio de poderosos amigos de seu pae, os obstaculos da transferencia, e avisou Maria Henriqueta, marcando-lhe o dia de sua chegada ao Porto.

Cobrou animo a menina, já enferma, e apostada a morrer. A vida do coração radiou a todos os órgãos exanimes e desconcertados. Nem mesmo o estomago foi extranho áquella festa das visceras.

Maravilhou-se da mudança o pae; e Maria das Dôres ficou de sobreaviso para espionar o motivo de tão breve como extranha conformidade.

Gonçalo, menos atilado ou malicioso que sua mulher, attribuiu a mutação á ordem natural das cousas e das pessoas. «Maria Henriqueta esqueceu-se—dizia elle á consorte suspeitosa e incredula.—São assim as mulheres em geral e o coração gasta-se como tudo que é susceptivel de consumpção.» O philosophico entono com que o aphorismo foi atirado á circulação das idéas, não impressionou vivamente D. Maria, que era uma senhora de mean habilidade para digerir a sciencia occulta dos aphorismos.

No dia anterior ao da chegada de Filippe Osorio, annunciou{98} Gonçalo a sua filha a visita do conde de Monção, inquerindo ella a causa do grande reboliço que ia em casa com a innovação de tapetes, de cortinados, e de moveis, chegados da capital.

—Vem ser nosso hospede alguns dias;—accrescentou o pae—Cuida tu, minha filha, em tirar dos bahús os teus melhores vestidos e enfeites para que elle, n'um relance de olhos, conheça em ti uma senhora educada na côrte. Pódes falar-lhe em francez, que elle viveu em Pariz. Verás que homem de côrte, que ar de quem tratou face a face com Luiz XVI e com Maria Antoinette! Feliz serias se, como creio que ha-de succeder, lhe tocasses o coração!

—Eu!... disse Maria com tregeito de espantada.

—Tu, sim, minha filha!—respondeu o pae, cuidando que o espanto era a natural expressão de quem se julgava indigna de tão egregio esposo—Não te disse eu, ha um anno, que projectava casar-te com um conde?

—Disse, meu pae.

—Então, já vês que me não esqueci da promessa. Favor, em ligar-se á nossa estirpe, não me faz nenhum. A sua origem foi a nossa. Todos viemos da Cantabria; procedemos todos dos heroes de Covadonga, capitaneados por Pelagio. Alli se ajuntaram as reliquias dos reis godos, e d'essas são oriundas as nossas familias, posto que seus avós fossem meros fidalgos acantoados em seus solares quando de Hespanha veio a infeliz rainha Ignez de Castro, de um ramo da commum arvore que bracejou mui honradas e nobilissimas frondes por Castella.{99}

Maria Henriqueta não ouvia nada d'estas maravilhas. Estava como morta nos sentidos exteriores.

Gonçalo exclamou com affectuosa vehemencia:

—Tu descóras, Maria!? Que tens? Desagrada-te o meu plano!? Responde...

Não respondeu, nem desmaiou.

Sacudiu-a com brandura o pae, tomando-a para o seio, e osculando-a na fronte.

—Fala, minha filha! Que sentes tu?

Maria pôde falar, quando os soluços lhe desembargaram a voz, e disse:

—Lembre-se, meu pae, do seu casamento. Queira a minha felicidade...