Á VISTA DA DENUNCIA

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Á VISTA DA DENUNCIA

 

O interior da envidraçada varanda, exornado com ipoméas e glycinias, em cacos, orchidéas e arums nos recantos, não tinha senão a luz pallida, muito pallida, de um luar de inverno, coado preguiçosamente pelos vãos das grinaldas verdes.

Das quatro portas que abriam para o interior, apenas uma commettia a indiscreção de transportar para alem, ao conhecimento da criadagem bisbilhoteira, os amuos graves de CLOVIS e AMARYLLIA.

A denuncia, amarrotada e em frangalhos, estava sobre uma banca de ferro, destorcendo-se, como se nervos tivesse, dos amachucamentos grosseiros perpetrados pelas mãos violentas de CLOVIS, que, distrahindo-se um pouco com as{76} fumaradas de um havana, ouvia, sem intervenções, as queixas de AMARYLLIA...

 


 

—Como eu, tão ladina para outras, comprehendendo tão bem o mal alheio, deixei-me cegar por tanto tempo?! Era um convite amavel hoje, tinha sido um presente valioso hontem, era uma lembrança expressiva amanhan... E o meu filhinho servindo de passe para os maiores engodos!... Toda hora o telephone pedia Arthurzinho. Là se ia o innocente, coitadinho! E raramente voltava. Prendiam-n'o dias seguidos com a ama. Poderia eu desconfiar do embuste? Ha genios capazes de todas as villezas. O filho era o motivo da entrada do pae, os presentes eram as cinzas nos meus olhos, e os convites eram a perfidia da traiçoeira. Mas, agora, ou eu succumbirei, ou estará tudo acabado. Ouve-me bem, Clovis: nesta caza, emquanto eu viva fôr, Carlota jamais tornará, e se tu desceres à indignidade de voltar à caza dessa mulher, ouve bem! Serei eu quem irà buscar o tolo do esposo para te surprehendermos na sordidez. Sempre são os interessados nas{77} causas os que por ultimo se sentem logrados. Il n'y a qu'un mot pour dire les choses. Essa palavra não devo, porem, proferir sem macular os meus labios, sem regosijar o meu enganoso marido, e sem elevar a perdida que me furta a tranquillidade, que me logra no dom legal da fidelidade esponsalicia. Um dia desconfiei. A ama de Arthurzinho levava um pacote às escondidas, quando, para castigo, elle rolou ao chão, na hora da partida, quasi aos meus pés... Perguntei à cumplice que significava aquelle embrulho... Foi o sr. Clovis quem tomou a palavra: «é um romance que mando, a pedido, para D. Carlota ler...» Ingenuamente me convenci. Pois seria possivel que o meu marido trouxesse a beijar-me a mulher indigna que me atraiçoava? que expuzesse o meu filho à infamação de ser posto junto à perfida, em lugar de seu pai gozado?... Ó meu amado Jesus!... Tenho nojo de tudo isto!... Olho-me e vejo-me só. Roubada naquillo porque mais zelos e mais ciumes alimento, eu que me tenho submettido machinalmente à concepção de treze filhos, exgottando a minha juventude para parecer velha aos trinta e dois annos, assassinando a minha belleza, relaxando os meus tecidos, criando uma ruga nova em cada manhan em que me{78} olho ao espelho!... para ser recompensada duramente com uma traição, uma tripla traição, em que se envolveram as minhas lealdades de esposa, de mãe e... de amiga. Sim, porque, desgraçadamente o digo, tolerei a concubina de Clovis na intimidade cordial de amiga. Muitas vezes, por força dessa leviandade commum a todas as mulheres, terei dado causa de rizo à maldita que me engazupava. Contava-lhe os meus esforços para trazer sempre o meu marido na obrigação pontual de possuir-me. Disse-lhe mesmo que, muitas vezes, o recebia com intimas indisposições, para que regeitado uma feita elle se não atrevesse a faltar-me outras, e nestas perseguir-me a duvida de sua saciedade noutra fonte... Não sei onde estava escondido o sol de minha comprehensão que agora recenna a minha intelligencia. E uma miseria moral essa em que se prostitúe, com o conjuge das outras, uma velha, desrespeitadora das cans do esposo e da innocencia de suas filhas. Havia de ser là, naquella alcôva cheia de seducções, que o meu companheiro se convertia em assassino da paz de minha alma. Aos olhos daquellas tres criancinhas—mulheres faceis, por herança, que desabrocham nos comoros lamacentos da podridão materna—elles{79} dois se encaminhavam do leito, quantas vezes Clovis ouvindo a voz de meu filhinho chamando-o ardentemente com o nome de pae! Bemdito o poeta que jà disse estar ao lado de cada homem uma féra monstruosa: o instincto. E esse poeta foi o meu proprio esposo, accusando toda a humanidade com o seu proprio mal. Foi preciso que uma generosidade extranha me avisasse para que eu conhecesse essa nova Mylitta babylonica, torpe, pantano no qual até a trahida companheira do amante e o explorado amor de seu filhinho foram poderes lascivos. Ó injustiça divina! Porque não me despertaste, a mais tempo, do somno em que sonhei com a lealdade de um templo christão e me achava desgarrada na nave de um templo de Buddha?!... Foi hoje o assignalado dia de minha victoria. A carta chegou-me às mãos com as resteas violetas do sol posto. Li-a de um folego. O meu primeiro impeto, naturalmente, foi de indignação contra o denunciante. Mas, alli estavam os factos verificaveis, possiveis, e terrorosos. A noite veiu mais depressa aos meus olhos do que ao resto do mundo. A verdadeira noite é essa em que tambem a alma se recolhe na escuridão de uma dôr apunhalante. O meu marido jantaria fóra,{80} num banquete intimo, mas numa sociedade festiva. Resolvi chamal-o prontamente às explicações de suas infidelidades. E fil-o sem tardada, não o nego. Á criada de Arthurzinho, a esta cancerosa alma de mulher que tinha affectos meus por dar o seu leite à formação organica de meu filho, trouxe logo às contas. Não lhe disse a denuncia, não lhe proporcionei ensejo de contestar a sua acção, porque a interpellei segura do facto, inteiramente consciente do que fazia. E ella me confessou que levava e trazia romances immoraes, que levava e trazia cartas e recados... O instante unico! Ao depois, calma e friamente, sabendo que aguçava a minha dôr, revolveu-me nalma o punhal de seu descaro, revelando-me a indignidade de ser o meu filho abraçado e beijado ardentemente, durante a ausencia do pae, com o nome deste entre os labios da corruptora... Nega, Clovis, que não és o amante dessa barregan de padres, dessa immunda mulher que maculou o meu lar com a sua abjecta convivencia...

—Nego, sim!

—Fórte coragem! Jura que hontem não beijaste, quasi aos olhos do publico, no salão de visitas, os labios rôxos pelo cansaço da idade de Carlota.{81}

—Juro-te.

—Leviano! Mente como quizeres. Mas, ouve: emquanto o meu corpo sentir as commoções do nojo pelo teu que se enlameou na companhia daquella devassa, emquanto as minhas narinas sentirem o perfume daquella carta nas tuas vestias, que é o perfume de uso na alcôva de tua hervoeira, terei a coragem de repellir-te e de cerrar os meus labios às menores palavras para as nossas relações. E se, porventura, desconfiar eu que foste buscar, como uma abelha sem sorte, o nectar que se esconde na corolla daquella flor murcha e fanada, dentro desta caza, escuta bem Clovis, haverá a incompatibilidade de nós dois... É tu entrares e eu sahir, ou só ficarei se tu te fôres para sempre. Sabes quanto sou caprichosa, o bastante para não me arrepender das resoluções tomadas. Negas, ainda, o teu erro? Serei facil de perdoar-te com a verdade, tão facil quanto não te tolerarei com a mentira... Nega a tua indignidade!

—Nego, sim!

—Quero convencer-me. A pé firme?

—Com toda lealdade.

—Pois bem! É escusado irmos adiante: sabes o que está contido naquelle pacote?{82}

—Ignóro.

—São os presentes com que me turvou a vista a tua amante. Quero devolvel-os.

—Mas, como?

—Não os guardarei mais commigo.

—Vais romper, então, com a familia do Aurelio?

—Forçosamente.

—É de mau alvitre.

—Incommoda-te muito esse rompimento pelo que estou vendo. Deves acabar com uma amizade que me aborrece, e se te excusares a esse acabamento, confessas o interesse que terás em manter a verminação desse convivio immundo...

—Se encaras por este lado, rompe Amaryllia, devolve tudo do modo mais grosseiro.

—Devolverei, sim, não ha que ver.

—Estàs no teu direito.

—E espero a tua sancção.

—Jà a tens.

—Não. Não a tenho ainda. A devolução não poderá ser feita sem uma carta.

—Pois escreve-a!

—Não! Tambem não! Serás tu...

—Eu?!...

—Ah!... Esquiva-te de escreveres a carta?...{83}

—Amaryllia, pensa bem! Nós, os homens, ficaremos mal se nos envolvermos nessas rusgas de mulheres.

—Comprehendo-te: romperei eu, e tu, às occultas quiçá, com menores apparencias, te dedicarás à continuação de teu adulterio. Has de ser quem escreverá a carta hoje mesmo, agora...

—Convencer-te-às de minha innocencia?

—De todo, não. Encaminhar-me-ei de convencer-me.

—Não haja duvida. Dà-me papel e tinta. Escreverei num momento...

—E pensas que escreverás como quizeres?

—Não: como fôr conveniente.

—Não te concedo esse direito: vais escrever ao meu ditado.

—Quê?

—Nos termos que me espoucarem arrevezadamente aos labios...

—Mas...

—Na linguagem mais ferina que eu souber empregar contra uma inimiga...

—Amaryllia?!...

—Virulenta e grosseira...

—Faça-se a tua vontade.

—Escreves?

—Como quizeres.{84}

—E a quem pensas vai ser dirigida a missiva daquelle modo escripta?

—A Carlota!

—Não, Clovis. Quero que se escreva ao marido della, com o seu nome em todas as letras...

—É demais!

—Não retrocedas!

—Abusas de minha bondade...

—Enganas-te. Clovis, ou tu escreves como eu te determino, ou...

—Absolutamente, não!

—... ou me retirarei hoje mesmo de tua companhia... A caza de meu pae terá sempre, para a filha digna, o agasalho mais confortavel.

—Tua alma, tua...

—Sei bem! Queres o escandalo da separação para o renome do conquistador? Não te darei essa vantagem... Debaixo deste tecto, tragarás, Clovis, o amargo da tortura mais incondescendente, soffreràs a queimadura do inferno mais verdadeiro...{85}

 


 

Ao longe, um relogio temerario, arriscou o aviso tetrico da meia-noite, ao fim do qual, resolutamente, AMARYLLIA se retirou para o seu leito...{86}
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IRADO ATÉ À CURA...

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IRADO ATÉ À CURA...

 

Ampla alcôva: no armoire-à-glace reflectida como outro vasto commodo...

Rico mobiliario de pau-setim com incrustações de jacarandà reluzente...

Um leito de cazados, e sobre elle, cadaverico, pelles e ossos, despojado de carnes, ventrudo, olhar ancioso, o louro ORMINDO, luctando com a morte...

É um erro de diagnostico, rebelde a enfermidade à medicação despropositada.

Junto do leito, uma banca, e sobre esta, alem de um thermometro e de um chronometro, desenvolta frascaria...

Aos pés da cama, fatigada, somnolenta, às vezes, DOCA é heroina na vigilia: o seu semblante merencoreo{90} só consegue alguma graça quando ELOY visita o enfermo.

 


 

—A morte acena-me, e eu me vou indo aos pedaços sorrateiramente... Doca, tu bem vês como eu morro todos os segundos, como eu minguo sem cessar...

—Tem fé em Deus, Ormindo.

—Morrerei com ella, sim. A fé! Ella é o facho illuminador da estrada eterna... Como deve ser doloroso não crer em nada, Doca!... Sentir a alma cahir no vacuo... Ah! não me conformo, porem... Morrer quando tanto preciso é viver... Vou deixar-te na penuria... a braços, por certo, com os creditos da medicina e da pharmacia...

—Tu pensas demais.

—Como não hei de pensar? Vejo-te, e sei que rilharás a codea endurecida e atrazada. É com horror que prevejo as tuas infelicidades... És nova. Mas de que servirà a tua mocidade sem pão, os teus verdes annos sem um amparo? És bella. Mas de que prestarà a tua lindeza se não tiveres um manto para o frio e um abanico para o calor? Nova e{91} bella... na viuvez! Quem sabe o teu destino mulher a quem tanto amei?

—A pobreza é um estimulo, Ormindo: saberei trabalhar afim de haver com honra um pedaço de pão e alguns covados de fazendas...

—Não te peço nada, e peço-te muito: não macúla o nome de teu marido. A herva reverdesce a fronde dos vegetaes, augmenta-lhes a copa, ennobrece-lhes o aspecto: crava-lhes, porem, até ao durano, as raizes assassinas e rouba-lhes a seiva até à morte. A arvore cessa de existir com a trepadeira phytocida que lhe rendilha os contornos. A mulher deve pensar que o bem-estar não é a honra, e que ha tranquillidades mais homicidas do que a herva do passarinho... A deshonra não provem da pobreza, da fome ou mesmo da nudez. A deshonra é fructo das transigencias de alma, e a mulher viuva é a que póde peiormente transigir... Que dores!... Ui!...

—Estàs vendo: peioras quando falas!

—Doca, no meu caso extremo, a morte é assim qualquer coisa como uma sorte grande...

—Num bilhete branco para mim que fico sem ti... Não sabes aproveitar o silencio como um meio de cura, não sabes tirar partido,{92} poupando forças para momentos mais graves...

—Durarei muito pouco.

—Não pódes saber mais do que os medicos.

—Ah! mulher! Só eu posso saber o que sinto, o que senti, e como se avisinha o instante derradeiro... Dizem que os extremos se tocam. É verdade, pois tenho neste momento a visão mais lucida dos meus primordios. Que é isto senão que se vai fechar a circumferencia de minha traslação em torno do vacuo universal? O aneurisma cresce, avoluma-se, rouba-me a vida, bem o sinto agora. Tem a fórma de uma esphera, é um globo pequenino de vivos, na lucta pela existencia. Vai arrebentar, latejando e doendo, pulsando e abafando-me de vez... Pensas tu que nunca me illudi com a esperança da cura? Illudi-me, mas antes de todos...

—Quem està vivo, Ormindo, ainda não està morto, e toda a cura é plausivel.

—A tua dedicação é cega. Desde que adoeci, desde que sobre o coração senti a formação mortifera do mal circulatorio, certifiquei-me estar mais longe do mundo do que do nada. E deste momento para cà, que fiz para denunciar que creio na cura? Ao contrario, a minha vida tem sido a chamma de{93} uma véla a luctar com o sôpro das auras. Não ha um instante em que não me morra uma alegria, em que não nasça uma saudade. Em torno de mim bailam as ondas frias do nada, como brinca a mariposa teimosa em torno de uma lampada.

—Aggravas-te, Ormindo! Cala a bocca por piedade! As tuas palavras são outros tantos punhaes que me sangram o coração.

—Que horas serão?

—Jà é noite.

—E os medicos que não vieram?

—Vieram, sim. Tu estavas dormindo.

—Os medicos não vieram, não... Até a minha esposa conspira contra a minha existencia...

—Não pesas as tuas palavras, Ormindo.

—Jà sei de tudo. Perderam a esperança, abandonaram-me. Não passarei de hoje. Estou condemnado a horas.

—Descansa um pouco.

—Descansar, agora, só de vez. Bem curta foi a minha felicidade, e parece-me que foi hontem à tarde que nos vimos pela primeira vez. Um sonho às vezes tem existencia mais real, porque nos acompanha do momento da concepção em criança ao instante da morte na velhice. Ai!... falta-me o ar...{94}

—Assim queres! Falas tanto...

—Deixa-me ir, Doca, ao meu destino: não ha rio que não chegue ao mar. Demorado, se grandes e muitas curvas descreve; rapido, se rectas consegue... Quatro annos e parecem quatro horas! Tu talvez não te lembres mais do meu enfeitiçamento; não me esqueço eu do sorriso unico com que festejaste o nosso encontro. Toda a tarde, toda a noite... Oh! que lindo luar te prateou as pupilas, te diademou os cabellos e te banhou luciferamente as espaduas! Mezes depois, o cazamento... A noite de nupcias vivazes... O nosso lar... O nosso amor insatisfeito sempre para accordar novas caricias, para fomentar alegrias... A esperança de um filho... O recúo da esperança... E tudo isto acabar quando mesmo principiava?!...

—Não temas a morte: um cerebro que pensa como o teu dà confiança na renascença da vida.

—A alma não morre, Doca! É ella quem esta vivendo agora. Os pulmões fraqueiam, o coração tem espasmos, a visão escurece-se, a voz arrasta-se, mas o cerebro pensa... Crês tu que, porque não falam, todos os moribundos não pensam? Illudes-te! É a hora de maior pensamento. Só recompôr todo o passado{95} afim de o ligar ao presente e encerrar o circulo das sensações mundanas, é pensar robustamente. Um moribundo que eu vi, não tinha a fala. Os membros eram paralyticos, os olhos envidrados e photographavam a luz do dia para a eternidade... Pois bem! esse homem assim amortecido, repelliu com o gesto brusco de uma perna o supplicio de uma injecção nos ultimos instantes... Acaso, não pensaria mais aquelle cerebro de tanta vontade? Outros ha que conhecem até o segundo derradeiro: fazem despedidas... Ah! como deve ser tocante o adeus de um esposo que ahi deixa a companheira sem a certeza de um agasalho... Um que vai, a outra que fica... Qual dos dois padecerà mais no extremo momento? Doca, ouve-me bem: tu vais entrar num terceiro mundo... Alegras-te com a nova?... Pensas que deliro ou que não falo certo?

—Não me alegro, confranjo-me: viste um lampejo maior de esperança illuminar-me o rosto...

—Como és amante?!... Quererias de coração e de alma, com todos os affectos e vontades, a minha cura?

—Tenho provado o meu desejo de ver-te salvo e tornado à saúde.{96}

—É bem pouco um desejo!

—Duvidas que todas as minhas forças funccionam só na intenção de possuir-te novamente são?

—Não duvido! Pareceu-me que te aborrecias, inda ha pouco, com a prolongação de minha tortura...

—Aborrecer-me eu!...

—E então?!...

—Tens coragem! Só me representa que gravaràs na alma uma eterna desconfiança da amizade de tua esposa...

—Isto não!

—Pois parece, Ormindo!

—Neste caso, escutas-me com agrado?

—Sim.

—Posso falar?

—Não.

—Ah! jà sei... É a mesma quesilia de que falar é um desperdicio de forças organicas...

—Diz o doutor...

—Nenhum delles sabe nada... Quem pensa deve falar. Onde o meu cerebro conteria tanta palavra que tenho pensado? Eu te dizia que tu vais entrar num terceiro mundo, e para cada um desses mundos, devido às intenções animaes dos homens, a equação da mulher é{97} perigosamente diversa. Virgem, ella tem a expressão de um sonho; esposa, representa uma realidade; e viuva, ella é uma alma em que se derramam os mananciaes copiosos da luxuria humana... Virgem, fôste uma criadora; esposa, uma inspiradora; viuva, seràs, em nome da honra de teu marido, uma redemptora... Ai!... Dóem-me os pulmões... Morrerei, porem, com todas as sensações...

—Não morreràs, Ormindo!

—São os teus votos?

—Duvidas de mim, dos meus affectos, dos meus affagos, do meu amor, inda no instante derradeiro?

—Não duvidei jamais: fui um esposo feliz, muito feliz.

—Pois então?!...

—Dà-me a tua mão...

—Estàs frio!

—É a gelidez da morte... Não tardarà... Fazes-me um favor?...

—Se o faço...

—É para depois de minha morte...

—Juro-te.

—Mas, responde franca e precisamente, para que eu não succumba com uma duvida...

—Pede o que quizeres... Pede... não!... ordena!{98}

—Estou acabado. Luctou commigo a morte, que, se não me derrubou de vez, vai invadindo-me com o gêlo de seu halito das extremidades para o coração. Bestam-me instantes. Vais enviuvar e a viuvez é um despenhadeiro. Peço-te em nome de minha tranquillidade, que te cases, immediatamente, afim de que não paire uma só nuvem sobre a limpidez do teu e do meu nome... Casarás logo... Peço-te... É o ultimo sacrificio em prol do teu defuncto...

—Intranquillisas-me, Ormindo.

—Não ha razão para isso.

—Se tu mandas...

—Mando, não; peço... Agradar-te-à Eloy?

—Queres, Ormindo, a verdade antes da morte?

—É isso...

—Pois bem! O que tu propões jà estava assentado entre nós outros...

 


 

A ira irrompe brutalmente na alma do trahido moribundo, que faz um grande esforço e se salva com o despedaçamento brusco do myoma desconhecido, do assassino erro de diagnóstico...{99}

 

A HUNGARA

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A HUNGARA

 

Commodo de hotel. Um fóco electrico esverdinhava o azul papel das paredes.

Revolvido, o leito denunciava em duas cóvas a pressão de dois corpos que nelle se afundaram.

SARAH, a hungara, recebia GUANABARINO, o chronista theatral, com um estridente signal de contentamento...

 


 

—Aqui estou. Nem sei como acertei.

—Estás apaixonado?

—Crês, Sarah, que paixão desponte como um sorriso?{102}

—Quem te disse o meu nome?

—Li-o nos programmas.

—Ah! sim. Gostaste do meu canto?

—Não te ouvi.

—Como te agradei?

—Pertencendo a outro. A mulher sem dono custarà a topar com um amante. Rolarà uma eternidade como a pedra que não cria limo... Tenha um amante e dezenas surgirão...

—Como elle é experiente!

—Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo braço delle, no teu longo manteau de sêdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo dezenas de mulheres no Café-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o canariar de suas vozes; francesas, que arrebatam com o savoir-dire as malicias mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus sapateados; americanas, que lembram bugios nos saltos do cake-walk... Todas são-me indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com cocottes para todo o mundo... De começo estive tentado a emprehender uma ménage-à-trois com uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo prohibido e vivia aferrolhado{103} à concupiscencia de seu proprio pae. Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente encontrei-me comtigo...

—Ladrãosinho! Como elle sabe contar!

—Junto de Gustavo acendeste-me a centelha de um capricho: trahir o teu amante. Tinha eu entrado no Theatro naquella hora mesmo. O grupo de amigos attrahiu-me e a attracção de todos eras tu. Olhei-te e fiz-te um cumprimento com a cabeça. Não me teres sido apresentada, significou que o teu galan zelava de mais. Ah! A cultura humana tem o maior testimunho de seu progresso na sabedoria dos olhares que as pessôas cultas pódem trocar. Viste como te comprehendi e logo te apertei os dedos, no caminho para o buffet? Atinaste como consegui retirar, por um momento, Gustavo de junto de ti e como tratamos, quaes velhos conhecidos este encontro? Na sombra dos pés da meza, os nossos corpos se trocavam desejos nos encontros, animavam-se tambem com os promettimentos mais claros, e as nossas carnes se queimavam por detraz dos tecidos de nossas vestias. Tudo isto, porem, ainda não é paixão. É um grito do instincto animal. Só nos não apaixonaremos se não quizermos...

—Como sabes a vida!{104}

—Precisas prender Gustavo. A epoca é das melhores. O dinheiro passa-lhe pelas mãos como as aguas pelos rios para o mar. Segura-o bem, porque, alem do mais, é um amante que, por força de ter mulher e filhos e morar longe, te darà muito tempo aos amores furtados.

—Não os quererei. Sempre fui parcimoniosa. Juro-te como o meu corpo não se tem dado a muitos. Fui concubina de um general, durante annos, e só o trahi uma só vez: com o pae de meu filho. Gósto de um amor só, de ter um dono e de ser cubiçada. Nem sei como te recebi agora... Em todo o caso, o Gustavo não me agrada... Prefiro-te a elle, serás o meu amante...

—Erraràs se assim preferires, Sarah. Não tenho posses para te manter, ao passo que o Gustavo...

—Que tem isso? Tenho eu o meu officio. O emprezario paga-me bem, ganho para o luxo e para a meza. Dou-me a quem eu quero...

—Neste caso ficaràs com elle...

—Porque então?

—Conheceste-o primeiro.

—Não importa isso. A elle conheci na manhan, a ti à noite, ambos no mesmo dia.{105} Vi-o a bordo. Trouxe-me elle para a terra. Encaminhou-me do hotel, e... má recommendação tem dado com os multifarios obsequios, com os gastos e as gentilezas, sómente com essas coisas... Ora, uma mulher como eu, ou quer o homem, ou não o quer... De minha parte dispenso as galanterias...

—Tudo isto concorre para lhe fazeres teu amante, para dispôres de sua bolsa...

—E fico comtigo para o meu verdadeiro amante, para o meu especial amor...

—Là com isto combino eu.

—Assim, và que seja e comecemos...

—Que tenho eu para tanto me olhares?...

—Fixo a tua imagem. Tens um olhar de fogo. Os teus olhos incandescentes são dois vulcões. Como te chamas?

—Guanabarino, um nome difficil.

—Como?

—Gua-na-ba-ri-no!

—Gua-na...

—... barino.

—Ah! sei. Guanabarino. É a primeira vez que ouço esse nome. És brazileiro?

—De corpo e alma. E tu?

—Filha do sul da Hungria. Vim creança para a tua terra. Fui noiva, aprendi a cantar com um meu amante e vivo disto...{106}

—Tens percorrido meio-mundo, hein?

—Não: conheço a tua patria e a minha, em pallida reminiscencia...

—Dize outra vez esse termo...

—Reminiscencia.

—Que lindo! Parece-me, Sarah, que estás a dar uma serie de beijos...

—Como elle é ardente!

—De verdade?

—A tua alma està fugindo-te pelos olhos...

—Junto de um espirito como o teu, como ella não querer a transfusão carnal? Jà notaste o frio que regela as mãos do homem emocionado junto da mulher que o escalda?...

—Ih!... Que gêlo!

—Sabes explicar?

—Não. É difficil?

—Ao contrario. Bem facil. O sangue todo affluiu-me ao coração. As extremidades resfriaram-se. Tudo isto jà é começo de paixão... Falaste nos meus olhos! E os teus? São capazes de comprar o mundo com um só relance.

—Costumas ser gentil com todas as mulheres de teu conhecimento?

—Que graça! Se costumasse, haviam de estar bem gastas as minhas gentilezas.

—Tens gozado tanto?{107}

—Inda perguntas?! Não sabes que o amor se fez para os temperamentos tropicaes, para os homens das terras do Sol, como eu o sou? Tenho um desejo para cada mulher e, posso parodiar um dito desrespeitado a toda hora: sinto que todo o teu sexo não seja uma só mulher para esta ser a minha amante...

—Caloroso! Deita-te aqui, Guanabarino!

—Não.

—Desmentes o que asseguras.

—Jà tiveste o teu quinhão.

—Como assim?

—Jà te possuiu o Gustavo...

—Juro-te que não. Tem sido o meu apresentante, e, a verdade seja revelada, ainda não desejou...

—De facto?

—Juro-te eu.

—Ao depois delle... nunca!

—Mas, porque? Mettes-me medo...

—Por nada! O Gustavo é um homem para se temer...

—E porque me inflúes para ser a sua amante?

—Porque o encontrei no fastigio da tua posse, porque vejo que do seu concubinato bem pódes usufruir grandes proventos. E, jà agora te direi: pouco mais fará elle do que{108} hoje... Entretanto, como homem de recursos, talvez ainda não te désse a menor prova do que seja...

—Fez-me hoje a oblata de um collar de libras...

—Um collar?

—Sim.

—De libras esterlinas?

—Conheces?

—Acho que não. Agora reparo que tens dois fachos lindissimos...

—Foram presente.

—Fico esmorecido. Nem sei como hei de portar-me para comtigo sem outros meios que não esta apparencia palavrosa e este atrevimento que me trouxe aqui...

—Não amo os homens pelas riquezas. Tenho os meus rendimentos de chanteuse. Ás vezes succede amar os que podem. Neste caso, sou a primeira a não regeitar o que me dão. Um deputado deu-me este annel...

—Adoravel!

—Um advogado, ao depois de uma perseguição de mezes, para eu o receber, offertou-me estas pulseiras... No entanto, o pae de meu filho aquinhoou-me apenas com o seu amor... Assim vou passando, umas em cheio, outras...

—Muito em cheio, Sarah!{109}

—Tu falas? Um mineiro, hoje desesperançado de conseguir a minha retribuição, deu-me estes correntões para atilios...

—Que lindas fórmas!

—Mostro-te apenas os atilios e não as pernas...

—E eu vejo tudo! É admiravel como o fraise das meias se destaca no gêsso das tuas pelles...

—Pois bem, Guanabarino! Permitte que eu te diga; amantes que me cubrissem de oiro tenho tido às carradas... mas, um só que me dissesse coisas tão lindas, nunca tive... A palavra inescutada é tambem uma joia preciosa. E para retribuir tantas distincções ineditas só um beijo de muita paixão, só um beijo...

—Basta, Sarah! Basta! Prometteste um e déste mais de mil...

—Longe disto, tu não me recompensaste com um só... Reparei bem...

—Desculpa. Mas, quando sou beijado, não beijo. Esta caricia deve ser sempre espontanea e impagavel. E eu não commetto a grosseira sensualidade de pagar uma caricia...

—Ao depois de ti, nem mais sei como receba Gustavo, amanhan...

—Com todo o fervor...{110}

—Não te enciumas?

—Não. Estimarei que possas fluctuar aos olhos do mundo na aeronave de ouro que elle te der.

—Queres ver o collar de hoje?

—Verei.

—Elle me prometteu para amanhan um relogio e um correntão.

—Aproveita, Sarah! Gustavo desperdiça dinheiros de herança...

—Vês tu o bello collar?

—É lindo!... Elle t'o deu?

—Sim.

—Esta joia?

—Que significa o teu espanto?

—É que este collar é...

—Falso?

—Não! Uma joia de familia, uma joia da mulher de Gustavo...

—Agora é minha!

—Estàs no teu direito. Deixa-o amar-te e colhe os seus esbanjamentos...

—E só a ti amarei, Guanabarino!...

 


 

Pela madrugada, a libertina abria a porta para o successor de GUSTAVO{111} evadir-se, e recebia, instantes depois, reticenciando o silencio somnolento do casarão do hotel, a figura caprina de um mal conhecido visinho de quarto...{112}
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DEPOIS DO COMETA

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DEPOIS DO COMETA

 

De olhos pisados e presos num halo de violeta cinta, ALEXANDRINA ergueu-se da steeple-chaise, e beijou a mão da velha senhora D. CAROLINA, que acompanhava MIMI, naquella matutina visita de nupcias.

Ao depois, como duas flores de uma só haste separadas para sempre que se reencontrassem, a recem-cazada recebeu alacremente nos braços a figura da amiga e beijaram-se fartamente.

De outro lado, ARTHUR, o novel esposo, enfardado no seu dolman de brins brancos, cumprimentàra, ceremoniosamente, a DONA CAROLINA e com um sorrizo prazenteiro applaudiu as bregeirices de MIMI.

Esta e ALEXANDRINA, ao depois de affaveis cumprimentos geraes, confidenciavam numa janella, por{116} detraz de arrendadas cortinas, onde se foram acastellar para a permuta de segredos...

 


 

—A que horas despertaste?

—Nem sei mesmo...

—Não é possivel.

—Palavra!

—Então ferraste no somno, e...

—Ao contrario: não durmimos.

—É exquisito.

—Como te enganas! Não calculas o que seja a estafa de um dia de noivado.

—O dia mais bello da mulher...

—Parece-te?

—Esta é bôa, Alexandrina! Sou eu quem deve perguntar-te: não te sentiste extraordinariamente feliz?

—Ah! sim... Casei-me por meu gosto...

—Olha que já me pareces outra com tanta sisudez e seccura...

—Não é, Mimi. Arthur e Dona Carolina nos olham insistentemente. É preciso que não me tenham na conta de alguma leviana: jà hoje em dia, minha amiga, tenho segredos que te não posso falar...{117}

—Prohibiram-te de dizer-m'os..

—Não! Nem sei explicar-te, mas ha tanta alteração na vida de uma mulher que se caza, dentro das primeiras vinte e quatro horas de sua vida conjugal, que nem sei como me reconheceste hoje... Jà viste, no craveiro, o botãosinho verde; o casúlo de folhas, como, na manhan seguinte, está um perfumoso cravo, uma flor distincta? Se te dessem as duas cousas, pela vez primeira, tu contestarias o facto como inveridico...

—Mas eu te vejo a mesma boniteza...

—Sim! É questão de alma. Suppõe que adormeceste no começo de uma viagem e que quando despertaste estavas numa terra de extranhos. O teu corpo seria o mesmo, a tua lindeza não seria transformada, mas o teu coração palpitaria diversamente na sociedade desconhecida a que aportaste. As tuas amigas ficariam noutra parte. Se quizesses vel-as, seria preciso que regressasses ou que ellas viajassem para onde fôras. Assim no cazamento: viajei para muito longe de ti. Para nos irmanarmos como dantes, ou voltarei à minha immaculabilidade de hontem, o que seria impossivel, ou tu ascenderás ao matrimonio para o que faço votos.

—Tens razão!{118}

—Não te parece?

—Falas e procedes tão judiciosamente que não me atrevo a duvidar das alterações por que passaste... Eu, porem, serei capaz de repudiar o cazamento para não me esquecer tão depressa das intimidades com as minhas amigas...

—Não me esqueci. És injusta! Não te darei novas confidencias: as velhas, entretanto, ficarão acariciadas como um sonho de felicidades na vida de uma mulher inditosa.

—Pois pensei que me dirias tudo...

—Tudo... quê?

—Ora!

—Denuncias que pensas em algumas coisas que não são veridicas, ou, pelo menos, não o foram para mim.

—Foste differente das outras!

—Offendes-me.

—Não te offendo, não. Desconheço-te.

—Que quererias tu que eu te falasse?

—Não sei. Se soubesse, desnecessario seria que me referisses.

—Objectiva o que queres saber... e depressa, porque Arthur me acompanha com um olhar seriamente investigador e tua mãe franze o sobrolho para mim... Um ha de{119} suppôr-me indiscreta para te communicar tolices... e a outra... corrupta para te ensinar... loucuras...

—Não! Deixa...

—És má! Tens talento e não queres comprehender a minha situação, especialmente no dia de hoje.

—Jà te comprehendi: e estou pelo que tu quizeres...

—Amúas sem razão.

—Com que direito a planta exige viço da flor que já foi colhida? Comprehendo, perfeitamente, agora, que entre nós duas existe a alma do sr. Arthur...

—Não exaggeres...

—Pódes ouvir de mim o maior segredo, bem como ouvirás delle tambem. Os meus serão contados, syllaba por syllaba, aos ouvidos do sr. teu esposo, porque não deve haver um conhecimento novo que não pertença a ambos: os delle... morrerão comtigo, porque não deves trahir à tua fé conjugal...

—És incondescendente!

—Sim, sou incondescendente na verdade das cousas.

—Em parte, minha amiga.

—Não. Em tudo.

—Veremos.{120}

—Pois experimenta!

—E se eu te provar?

—Pago-te com um beijo...

—Oh! Pois então a mulher que se cazou póde beijar outra pessôa que não seja o seu esposo?

—Deste modo, Mimi, não chegaremos a um accordo. Ha beijos como ha conversas... O que te conversei até hontem, não conversarei jamais com o meu esposo. O que te converso agora, não conversarei jamais com a tua maman. Beijos!... Os que te dou são da ordem dos que sempre te dei...

—Bem te comprehendo. A mulher cazada tem duas existencias.

—Não sei se sómente duas, mas, a solteira, antes do matrimonio, nem sei quantas tem...

—Comtudo, conto-te eu um incidente de minha intimidade feminina. Dizes ou não ao teu marido?

—Conforme.

—Não é caso de dubiedades. Dizes ou não?

—Se fôr só do teu interesse, não.

—Faço-te justiça, minha boa Alexandrina: a tua gentileza obriga-te ao falseamento agora, sómente agora, do teu dever. Contarás tudo o que te disserem, ou serás uma perjura na fé{121} conjugal. Eu mesma duvidaria de tuas intenções, se occultasses do teu marido o menor acontecimento que te revelassem. E, por fim, em tudo quanto te falarem has de descobrir sempre esse interesse que não é exclusivo da pessôa que te fallou, para contares tudo ao teu companheiro. Deixemos essas cousas de parte, e affectemos a nossa convivencia hypocrita, como tu queres...

—Dou-te razão, minha amiga. O mundo é esse mesmo e não serei eu quem o modificará.

—Estavas bella, Alexandrina, nas tuas vestias de noiva!

—Achaste?

—Encantadoramente bella!

—E tu me viste?

—Sim. Passaste bem junto de mim quando saltavas da carruagem à porta da igreja. Tinhas um rubor nas faces de matar de inveja.

—Era a ultima nota do meu pudor de virgem!

—A tua costureira fez o teu vestido a capricho e o teu cabelleireiro assentou-te a grinalda como uma corôa de rainha. Agradou-me a tua elegancia. E, porque não te censurar? só não gostei de trazeres os olhos{122} humildemente baixos... Faltava-te o sol do teu olhar esplendido.

—Lisonjeira!

—Eu traria os olhos bem illuminados, fascinando as multidões que se dominavam com a curiosidade de ver-me...

—Tens razão. Naquella hora, eu temia os olhos de tanta gente... sem saber que... mais tarde...

—Dize... dize...

—Dir-te-ei... mais tarde... eu teria sobre o meu corpo olhares mais algozes...

—De véras?

—Sim, minha amiga! Não calculas o olhar de Arthur quando elle... Oh! Digo-te de mais! Perdôa se te offendo...

—Desculpo-te. Senhora de mim, sei dispensar-te das leviandades que, ainda ha pouco, condemnavas. Onde puzeste o teu veu?

—Guardei-o já para offerenda a uma Santa.

—Quem t'o tirou?

—A maman... Arthur conversava no salão com o papà e dois amigos retardatarios... Sentia-me alquebrada. Tambem jà era alta hora da madrugada. Duas ou tres, não sei.

—E o teu vestido? Era primoroso...

—Está no armoire-à-glace...{123}

—Muito amarrotado?

—Não. Quando o despi... chorei! Como é que uma mulher só se veste tão bem uma vez na vida?!...

—Choraste, Alexandrina?

—Sim.

—É de mau agoiro. Dizem que morrerá primeiro aquelle que chora...

—Não sabia.

—Nem que morrerá antes do outro o que se deitou por primeiro?

—Tambem não! E por isso tambem serei eu quem morrerá antes...

—Ah! já estavas deitada quando elle appareceu na alcôva?

—Sim. Elle se abeirou de mim e, segurando-me uma das mãos, tratou do successo das festas de nosso cazamento. Recapitulamos toda a seroada, desde as asperezas do juiz cazamenteiro, até às melifluidades de voz do sacerdote, quando fez a pratica sobre a felicidade conjugal. Recompuzemos a sociedade que aqui esteve. As dansas, o serviço de buffet, a ceremonia do chá... Tudo se conservou. Elle dizia uma coisa, eu lembrava outra. Sorriamo-nos, commentavamos, com seriedade, as incorrecções dos outros...

—E o tempo se passava...{124}

—É exacto, Mimi. O tempo se escoava enganadoramente. Não sabes, porem, como foi opportuna a nossa conversação. Quando extremecemos, ouviu-se o tiro das cinco horas...

—E então?

—Arthur lembrou-se do cometa... Já o viste?

—Ainda não!

—Pois é bello! Arthur mostrou-m'o... Que lindo esteve elle na madrugada do meu cazamento?!... Se todos vissem o cometa como eu vi...

 


 

Interrompidas por DONA CAROLINA, MIMI e ALEXANDRINA, dando-se as mãos, nervosamente, passaram ao recinto da sala e entraram na conversação commum...{125}

 

AMORES NO CLAUSTRO

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AMORES NO CLAUSTRO

 

Um ar tépido, cheio de luzes meridionaes, rico de aromas novos, instigador do sensualismo mais humano e menos animal, era o excellente conforto da cella de FREY PATRICIO.

Um leito acolchoado recebia em cheio a restea do sol poente, e, de dedos enclavinhados, um em frente do outro, o habitante do claustro e o seu affectuoso irmão de ordem, FREY THOMASIO, palravam gostosamente de coisas alegres...

 


 

—Assim foi que me decidi, sem espanto dos meus, e por uma resolução improvisada...

—Pois eu, não! Luctei contra uma grosseira serie de vontades, e não venci: fui derrotado.{128}

—Não posso crer facilmente.

—É a verdade, irmão Thomazio... Fiz como um cadaver que entra no sepulchro. Para aqui trouxe o meu corpo, e, là fóra, borboleteando, sem parar, a minha alma... viveu sempre muito longe das carnes que ella animava. Emquanto moço, nas minhas preces só o nome de uma mulher viçava triumphante...

—Tambem a mulher...

—Sim. Preconceitos, preconceitos! A baronía estulta de uma familia asphyxiou sem dó a ventura de duas almas... E eu de falar-te, inda hoje, tremo de colera. Pudesse eu e a vontade amorosa de Marina, por entre hymnos e bemdições, tel-a-ia levado, não à cova, sublevando-se contra os pais, sim ao hymeneu, triumphando o seu amor. Desde que nos vimos, sem cuidados naquillo que outros apreçavam—a feeria dos titulos nobiliarchicos—vivemos apenas pelas suggestões do sentimento que nos venceu...

—Os teus labios tremem, irmão Patricio, as tuas pupilas se inflammam e olham por sobre nós para tempos bem distanciados...

—Realmente! Fusilam-me eternamente os desejos da vingança que exerci contra mim mesmo, enclausurando-me. Quando aqui cheguei, Marina vivia ainda, mas respirando{129} balões de oxygenio. Artificios da sciencia! E tres dias depois, desta mesma janella, vi passar, alli embaixo, naquella tortuosa e accidentada vereda, vi passar o coche branco, portador do esquife em que desappareceu para sempre a materia que tanto amei... A vista annuviou-se-me e, balouçadas pela briza, as rendas do esquife me disseram um adeus afflictivo, como as despedidas de uns lenços muito brancos, molhados de lagrimas... Succumbi deante da falsa visão e esmaeci... debruçado sobre aquelle leito, onde chorei incansavelmente irado—Deus me perdôe!—como o mais pecador dos homens...

—Tanto poude o amor!

—A mola do mundo, Frei Thomasio, é a mulher. Não ha um burel aqui dentro que não seja trazido por uma dellas. E em tudo, como dizem corriqueira e profanamente os francêses, chercher la femme... Por ventura não professaste como os outros?

—Sem tirar nem pôr na cauza.

—Sempre assim.

—Mas, tu procuraste o claustro como um eleito do amor que te distinguiu entre os outros homens e te elegeu o seu preferido.

—Ah! por certo.

—Quem me déra!{130}

—E que te faltou, Frei Thomasio?

—Justamente o amor.

—Intrigas-me de véras.

—Vou contar-te, pois, a minha historia. Lembras-te de que professei mocinho?

—Se me lembro!...

—Pois bem! O meu acontecimento foi de alguns annos antes... Eu era menino, e se me dissessem que o heliantho foi obra da pretenção e do desabuso de Hephaestos querendo, como um Deus, criar sóes e mais sóes, todo o credito eu daria, porque não tinha discernimento para me salvar das tentações humanas...

—Que são as verdadeiras tentações da serpente no Paraiso...

—Fazendo estudos, eu ia, quotidianamente, para os cursos, como o carreiro que passe todo o dia pela mesma estrada em busca de accendalhas e ramos para sustentar a lareira aquecida e feliz... Tinha eu ambições de saber... Embriagavam-me os livros, e nelles mesmos comecei de ler as primeiras cousas de amor...

—E não lias o Cantico dos Canticos!

—Ah! não! Fui sabendo que, como Eva fôra criada para acompanhar o primeiro homem, a mulher vivia para funccionar no amor. Os{131} arrebatamentos vieram pouco a pouco. E dei para olhar as raparigas com olhos de escaldo...

—Que maganão!

—E não peco porque te falo a mais pura verdade. No rebanho de nossas amizades havia uma ovelhinha, que, por ser linda e mansa, recebia o cortejo dos mocinhos de minha idade. Se as suas companheiras não tinham as calenturas de um amor, ella abrasava na abundancia das pretenções exaltadas: todos à porfia lhe disputavam a preferencia... Tolamente eu era conduzido entre os fascinados pelo olhar da moçoila cortejada.

—Estou vendo que eras o preferido...

—Não sei, porque não tive capacidade para aquilatar, bem como porque—e daqui se originou a minha principal historia—troquei logo essa espectativa de amor bem aventurado por uma effectividade de amor bem triste... Mas sei que os olhares dos meus velhinhos cahiam sobre nós dois como punhados de olorosos jasmins, quando elles nos viam, quaes dois noivos conscientes, em falações na varanda arborisada de nossa caza, amorosamente illuminados pela lua...

—Bem feliz que ias para a vida entrando, irmão Thomasio?{132}

—Devo crer-te, muito mais ainda quanto entre os que mais choraram a minha desdita foi ella a que mais lagrimas chorou... Ora, se a intuição de amar crescia e eu me tentava a ser amado, olhos outros, mais fulgentes e chispantes, me sensualisaram todo e a carne arvorou-se em maior do que o sentimento...

—O pecado!

—Verdadeiramente, o pecado! Nas idas e vindas dos meus cursos, às vezes ainda peiando cigarras e apedrejando, com rudes instinctos, os inoffensivos gaturamos, fui prendendo-me às ardencias das esbrazeadas pupilas de uma mulher facil... A principio, quando o seu olhar incidia sobre mim, eu cerrava os olhos, abaixava a fronte, e, sem o querer, pensava nas ternuras da outra. Nada mais. Os dias repetiam-se e as scenas mudavam-se, crescendo as investidas e diminuindo a resistencia. Ao depois, os meus olhares chocavam-se com os da aggressora, eu sentia uma purpuridão nas faces, mas incolume proseguia o meu caminho... Mais tempo, e duas, tres, quatro vezes, voltava-me para trocar sorrisos... Em caza, a presença da outra, começou de aborrecer-me. Á noite, por sobre as paginas abertas dos meus livros, dansavam cabrioladamente as imagens das duas mulheres. E eu{133} me decidia fragorosamente pela menos conhecida. Um dia, notei que os labios da extranha se moviam. Nada percebi, no entanto. Que ella falava, eu estava certo. Nas passagens seguintes, com os olhares e os sorrisos, ouvi um termo exquisito. Duas syllabas apenas, e, se não te offendo nem abuso de tua condescendencia, irmão Patricio, dir-t'o-ei jà...

—Faço mesmo questão de sabel-o...

—Jà que queres ouvir-me, continuarei...

—Continúa...

—A deslumbrante mulher dizia-me apenas: «Tico»...

—Olá!... Olha que eu velho assim nunca ouvi esse vocabulo...

—Nada sei explicar-te, Frey Patricio, senão que corri os diccionarios dos meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo investigador, depois de algumas pesquisas fóra da convivencia dos collegas, soprou-me segredadamente: «Tico é um convite... E quando ouvires, responde taco...» Corei deante da revelação e maldei de tudo. O meu primeiro impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me furtar às seducções de Almira...

—Que bello nome, e lendario!{134}

—Tive, porem, de ceder à contingencia dos factos. Não era possivel andar por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti da ideia e affrontei a tentação. Com o tempo fui cedendo. E, um bello dia, como se diz là fóra, escorreguei... «Tico!», disse-me ella, e eu lhe oppuz murmuradamente quasi: «Taco!» Em resposta, ouvi: «Amanhan!» Que noite, Frey Patricio! Se ha caldeiras para queimar almas, nós as experimentamos quando fazemos a espera de alguma coisa. Não durmi, confesso. E, para encurtar as razões, só acordei, effectivamente, quando, advertido por ella de que là iria chegar o seu homem, me vi escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que cresceram e motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que creatura perversa! Foi às bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho animal me arrancou de debaixo das pilhas de saccos, às bastonadas, Frey Patricio...

—Ah!... ah!... ah!... ah!

—Não rias, Irmão!

—Não te zangues, Frei Thomasio. Não me posso conter... A tua historia é alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!...{135}

—Nem sei como de maus tratos não me acabaram naquella hora furiosa... E quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais!

—Pudéra!... Ah! ah! ah! ah!...

—Aliás, não foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido jà, e voltando aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia: «Taco?»... e eu a repellia instinctivamente... «Nem tico, nem taco... nem là dentro do teu sacco...»

—É bôa, é bôa!... Ah!... ah!... ah!... ah!...

—Em seguida...

—Sim...

—... senti-me humilhado, porque, por toda a parte, a mofa dos conhecidos me estygmatisava com o escandalo, e soffri, abrazadoramente. Ninita, escandalisada com a minha quéda, definiu-se por outro, que a recebeu como esposa perante Deus! Por tudo isto, tive nojo de mim mesmo... O mundo era um tedio... Então pensei no vicio...

—Mizericordia!

—Mas, não era?... Para abafar uma mizeria moral, só outra maior... ou o passo que dei...{136}

 


 

A bronzea sineta da confraria, não se retendo na missão avisadora, chamava a Ordem para a humilde refeição da noite.

E quando FREY PATRICIO chegou ao salão, na companhia de FREY THOMASIO, jà se liam, emphaticamente, as consoantes orações da hora.{137}

 

A CONSULÊZA

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A CONSULÊZA

 

De maillot, apenas, arrebicando as faces diante de um espelho, NINA, a bailadeira, tinha um milhão de pensamentos banaes no cerebro ardente.

Os traços da sepia e os rebordos do nanquim, já lhe accentuavam a grande vivacidade do olhar, e o pó de arroz attenuava e embellecia as côres roseas do rosto criadas pelo carmin vencedor.

Uma vez por outra, deixava de conformar-se, para attender aos appellos da porta, de onde, sem deixar ninguem penetrar, voltava enfastiada com as iterações de extranhos.

Esperava OCTAVIO: era o aimant du coeur, porque o CONSUL, o velho{140} francês, pelas suas funcções representativas, evitava aquelles encontros mais notorios...

 


 

—Nina?

—Quem bate? Octavio?

—Elle, sim!

—Entra, meu rico amor!

—Fiz-me esperar, hein?

—Nem tanto, mas eu tenho a regalia de poder cheirar-te as vestimentas para saber se tiveste o contacto do corpo de outra mulher, de vistoriar-lhe o casaco, para descobrir ahi os fios perdidos dos cabellos da que me logrou...

—Descansa o teu coração. Vivo inteiramente para ti. E emquanto estou longe do teu olhar, sou como o barro que espera, ardorosamente, a toda a hora, a plasmagem do artista. Por elle, passam e voltam, vão e tornam, todos os profanos: mas elle não é menos monopolisador de sua plasticidade do que uma flor do gnomo que só abra a horas certas...

—Não sabes? O Consul pediu-me a noite...

—E deste-lh'a?{141}

—Nem sei...

—Já me toma os dias inteiros... Entra agora pelas noites... Que horas serão as minhas?

—Todas até. Aturo-o porque tu consentes.

—Exactamente. Mas elle vem a prejudicar-me se continúas a não se satisfazer com o que lhe dás. Ás vezes, lá para as tantas do dia, penso em ti. O brazido abre em chammas ao menor sopro. O incendio alastra. Quero remediar-me e soffrer a caricia dos teus beijos anti-incendiarios. Vem logo a certeza de que o Consul te frequenta o dia inteiro. Esmoreço. Abomino-me e espero confiante o prazer da noite. Tenho sido certo e insubstituido. De agora por diante, nem mesmo nas noites poderei confiar. Ao amante nunca lhe dês demais. Se te pede uma hora, dá-lhe meia, se te pede um dia, dá-lhe horas, se te pede uma noite, dá-lhe um dia, e reduze sempre as suas pretenções. Ao contrario, todo o tempo será absorvido. E, quanto ao mais, espera-te hoje a ventura. Vais dormir com o Consul... Estou libertado...

—Oh! não! Que succede Octavio?

—Nada. Não estorvo os teus anhelos. Leva comtigo o Consul. Dá-lhe o meu lugar,{142} mas dize-lhe, ao menos, que não me occultaste a entrada delle no leito que deixo vasio...

—Espera um pouco que te falarei melhor. É só acabar de toucar-me...

—Careces de mim?

—Não me aborrece, Octavio!

—Pensei sempre que valhesse mais do que todos os outros teus amantes. Vejo, entretanto, agora, que um existe mais poderoso ainda do que todos nós reunidos...

—Vale a pena a descuberta.

—Desmente-me, pois. Não tens um amante que preferes ao Consul, um amante deante do qual te esqueces mesmo de mim?

—Dizes-me coisas extraordinarias...

—Contesta a existencia desse outro amante omnipoderoso, que motiva teres-me deixado no exilio deste divan, na semi-obscuridão de teu camarim...

—Não és amavel.

—De mais em mais se confirma o que te digo: nem tens animo, por causa delle mesmo, para contestares o que te affirmo de um modo tão categorico... Digo-te centos de coisas e nada te abstrai desse amante unico...

—Agora, sim! Dei um ultimo retoque nos meus preparativos de scena... Que te pareço de maillot?{143}

—Não trato disto. Refiro-me ao teu poderoso amante.

—O Consul?

—Não sabia que este seja poderoso. Mas não é a elle. Ao outro, deante do qual te esqueces de mim, do Consul e de alguns menos e mais cotados do que nós outros...

—Amante?

—De certo. Negas que não te absorve elle mais do que qualquer de nós?

—Nego.

—Contestas que exista esse amante?

—Juro-te mesmo.

—Vê lá que não me enganas...

—Quem será, Octavio?

—O teu espelho...

—Aceito a graça. Em troca, porem, vais dizer-me o que julgas de meus trajos em maillot?...

—Julgo mal, porque te acho parecida com uma lebre a quem cortaram cerce todos os pellos... Assim muito delambida, muito escorrida, muito masculina...

—Tens espirito.

—E fui franco do modo que tu me pediste. Veste as rendas, sobrepõe as sedas, ou tira o maillot. Se vamos ao mundo, todos os atavios, todos os soutaches, applicações e manteaux{144} serão poucos; se ficamos aqui, o menor fragmento de tecido mais fino, será demais... Ou o extremo enroupamento, ou a extrema nudez...

—Figuremos duas hypotheses. Se me visses enroupada, com um luxuoso vestido, de muitas rendas, muitas fitas, muito decóte, muita joia, e lindo chapeu de plumas, que farias de mim?

—É essa a primeira hypothese?

—Sim!

—Pois bem: levar-te-ia, logo, à tua caza para que, antecipando a hora de tua sahida, o Consul, nem de longe, pelo meu braço, te visse hoje...

—És digno de um acto destes.

—Bravura do amor. Agora, a segunda hypothese?

—Sim: se me visses núa, tão núa que nem uma écharpe me velasse as pomas, que farias de mim?

—Ah!... Ahi está uma pergunta de difficil resposta, uma hypothese de operosa solução...

—Porque?

—Porque uma nueza dessas exigiria um leito e sem este tu serias apenas uma gravura...

—Venceste-me. Despacharei o Consul.{145}

—Não sou eu quem determina. Passarias uma noite igual às de Bhodis na companhia de Chrysis... Porque escancellas tanto os teus deformados olhos? Não calculas, assim, a desproporção do teu semblante, lindo como um camapheu...

—Procurei ouvir o que se faz em scena, afim de verificar quanto falta para a minha vez...

—Queres, saio a ver...

—Não. Chamarei o contraregra. Nem precisa: canta a Solidonia...

—A pernóstica!

—Deixa-a, coitada! Ainda tenho todo um intervallo e dois numeros da outra parte. Agora... dà-me um beijo, paixãosinha!

—Guarda-te para receberes os do Consul, senhora Consulêza...

—Octavio, para que sentes ciumes desse devasso? que te importa que eu lhe tenha promettido uma noite, quando não lh'a darei por preço nenhum?

—Ciumes?!... Não os sinto dos outros homens, porque nenhum delles logrará de ti as venturas e as concessões que eu tenho gozado... Nem mesmo do Consul... Se um prazer novo junto de ti elle experimentar, deve dizer sempre que antes delle provei-o eu.{146} Tenho ciumes, Nina, do que tu vestes, do que te pinta, do que te adorna, do que mordes, do que fitas... Se eu pudesse, haveria de ser o tecido com que se fazem os teus vestidos. Invejo delles a sorte de cingirem-te o corpo e serem confidentes dos teus nervos e das tuas pulsações. Tenho ciúmes das flores que exornam os teus cabellos, porque sómente ellas passam o deliquio de uma vida inteira, enlanguecidas do teu amor. Tenho ciúmes do fructo que mordes, deante da grande fortuna de ser apertado entre os teus dentes luxuriosos. Inquieto-me com a sorte do perfume que te inebria, porque sómente elle atravessa as tuas fórmas e vai arrebatar-te na essencia do teu ser. Tenho inveja da palavra que proferes, porque sómente ella vive fecundada da humidade quente dos teus labios. Por tudo isto, eu quereria ser o somno que te fecha as palpebras, porque participaria das felicidades todas dos teus sonhos; a agua que te banha as fórmas, porque desvendaria os immensos segredos e mysterios de tua belleza unica, e o riso que te doura o semblante, porque teria o dominio do mundo inteiro. Recordas-te, Nina, do instante magico em que pela primeira vez nos pertencemos mutuamente? São de véras muito irmans as almas que tocam à{147} meta de uma ventura no mesmo instante... e as nossas duas...