Estava então o edificio da Inquisição no largo do Rocio, assoberbando a praça com os seus muros tristes de pedra, e suas portas robustas de ferro. Formava uma massa disforme, mas grandiosa, sem bellezas architecturaes, mas de aspecto imponente e fortificado.
Destacado no fundo do Rocio, rodeiado de soldados e guardas, que velavão noite e dia, contendo as salas do tribunal, os carceres, as cellas dos presos, os quartos dos tormentos{234} e torturas, e os aposentos das penitencias, afugentava o palacio de perto de si e dos seus arredores as massas tranquillas do povo, que o não avistava sem benzer-se devotamente e tirar-lhe o chapéo com respeitoso acatamento, temendo suspeitas e castigo.
Nem pedras restão hoje do barbaro edificio. Uma por uma forão pela população exasperada de Lisboa distrahidas do seu lugar, arrancadas á força, e dispersas em desordem, quando as côrtes constituintes de 1821 abolírão a instituição do Santo Officio, e extinguírão para sempre o tribunal execrando.
Por cima do palacio da Inquisição levanta-se actualmente o lindo theatro de Maria II, fazendo substituir o riso, os prazeres e os divertimentos alegres, ás scenas de dôres e de sangue commettidas outr'ora dentro d'aquelles muros enfumaçados, e que nodoárão as paginas da historia portugueza.
Foi Manuel de Moraes para alli conduzido.{235} Ao penetrar os umbraes da porta principal por entre fileiras de guardas armados, ao avistar a enorme estatua de pedra da Fé, que resplandecia no topo da grande escada, sentio coar-lhe pelo sangue um frio intenso, e anuviar-lhe o espirito cogitações tenebrosas.
Atravessou varios páteos escusos e sombrios. Desceu e subio diversas escadas allumiadas apenas pelo frouxo clarão de lampadas pregadas no tecto. Ouvio ranger gonzos pesados de portas, que se abrião e fechavão. Respirava-se dentro um odor infecto, que parecia exhalação de cadaveres. Dir-se-hia que as paredes gottejavão sangue humano, e gemidos de infelizes creaturas echoavão pelos longos corredores abobadados. Trajavão os empregados vestes iguaes, resplandecendo-lhes ao peito uma grande cruz pintada de côr amarella, e cobrindo-lhes as cabeças um capuz que lhes escondia as faces.{236}
Reinava uma lugubre tristeza, um horror extraordinario, que se entornava por todos os sitios e reconditos do edificio, e amedrontava os sentidos dos entes malfadados que alli penetravão.
Depois de muitas voltas, e palavras baixas trocadas entre os guardas e empregados, achou-se em um negro corredor, aonde se não adivinharia caminho se o não aclareasse opacamente uma lampada acesa, collocada no centro. Abrio-se a um dos lados uma porta de ferro, e foi Moraes introduzido em um quarto pequeno, baixo, despido de ar e sombrio, que se reputaria antes um sepulcro, cavado como que em rocha viva e humida. Trancou-se-lhe a porta, apenas elle entrou para esta prisão solitaria, que com difficuldade agazalharia duas pessoas juntas. Não havia um leito, e nem-um traste. A unica cousa que se apercebia era um pucaro de barro, que parecia cheio de agua, a um canto{237} da cella. O chão de tijollo servia de assento e uma porção de palhas espalhadas formavão a cama. Negra escuridão o rodeiava, vasando-lhe ás vezes por uma fresta aberta na parte superior da muralha um ou outro raio da lampada do corredor contiguo, que descobria o preso aos guardas, que alli vigiavão todas as acções e gestos dos presos, e lhes ouvião os ais e palavras, por maiores cautelas que as victimas empregassem em abafa-los.
Só e n'esta penosa posição, se entregou Moraes a um exame minucioso do sitio em que se achava. Percorreu com os olhos o chão, o tecto, as paredes. Deslumbrou aqui e alli dispersas manchas vermelhas que se dirião de sangue borrifado no meio do colorido enfumaçado e sujo, e hieroglyphicos sensiveis que se afiguravão traçados por mãos humanas. Subírão-lhe á mente assombrada pensamentos amargos e tristonhos. Seria sangue dos réos do Santo Officio que{238} salpicava aquellas paredes? Serião adeoses ao mundo que elles alli escrevêrão, e que já nem erão decifraveis? Appareceria algum nome, alguma data, algum signal, por onde se descobrisse o segredo que pretendessem legar aos posteriores?
Não logrou comprehender nem-um d'esses mysterios. Arripiou-se-lhe porém todo o corpo com o seu aspecto merencorio, e assomou-lhe ao espirito a historia tenebrosa do tribunal da Inquisição, que lançava o susto por toda a parte, e sobre todo o povo, e era tão geralmente execrado pelos seus crimes monstruosos.
Trouxe-lhe o cansaço o somno, porque a consciencia repousava tranquilla, desde que abandonára o calvinismo, e volvêra á religião dos seus maiores. O tempo que dormio não apreciou exactamente. As noites se confundirão com os dias, sem que um signal de maior ou menor luz ou claridade as deixasse{239} verificar, no seio das trevas constantes que inundavão monotonamente a cella solitaria.
Imaginava comsigo que raiava o dia quando, sem lhe abrir a porta da prisão, rolava pelas paredes arranjadas adrede um novo pucaro de agua, e uns pães seccos e duros, avisando-o uma voz cavernosa de fóra para os receber, tira-los do lugar, e substitui-los pelo pucaro da vespera, que se sumia logo com as mesmas mysteriosas cautelas, não ouvindo resposta alguma á pergunta que dirigisse.
Lembrou-se de contar as vezes em que se verificava esta operação, e pensou encontrar no seu numero a quantia dos dias de prisão. Mais de quarenta erão já decorridos, quando sentio rumor mais sensivel de passos e palavras baixas trocadas fóra da cella.
—A mim,—disse comsigo,—ou a outra victima vizinha procurão e buscão para os tormentos e torturas.{240}
Percebeu minutos depois abrir-se a sua porta. Ergueu-se, e vio apparecer um vulto coberto de manto longo e escuro. Tornou a porta a fechar-se, e achárão-se os dous cerrados um junto ao outro, quasi sem poderem fazer livremente um gesto, pela estreiteza do aposento.
—Sois Manuel de Moraes? perguntou-lhe uma voz mansa e socegada.
Pensou rapido o preso que tinha diante de si um dos juizes encarregados do seu interrogatorio e processo. O accento meigo e sereno com que lhe dirigíra a pergunta, significava de certo um dos estratagemas empregados pelos inquisidores, afim de illudir os presos, e leva-los, pelas palavras seductoras e fallazes a confessar-lhes confiada e loucamente os seus segredos, ou a revelar-lhes falsas narrações de imaginarios crimes.
Deliberado porém a dizer a verdade inteira,{241} fosse qual fosse o resultado, e a se não deixar enganar com promessas fascinadoras, respondeu ao vulto em tom resoluto.
—Não ha duvida que me chamo Manuel de Moraes.
—É vossa patria a povoação de São Paulo na capitania de São Vicente dos Brazis?—continuou o vulto a perguntar-lhe.
—É verdade,—repetio Moraes.
—Fostes noviço na companhia de Jesus? Abandonastes o Instituto e o habito?—continuou o vulto.
—Não posso, não devo, e nem quero nega-lo,—proseguio Moraes.
—E me não reconheceis?—disse-lhe o vulto, approximando-se do espaço atravessado pelo raio da lampada do corredor, e mostrando uma face macerada pelos annos e povoada de alvissima barba, uma cabeça despida inteiramente de cabellos, e a roupeta de Jesuita de que estava cingido.{242}
Encarou-o Moraes em vão. Não lhe recordárão os seus olhos o homem que tinhão diante de si. Traçou chamar em seu auxilio reminiscencias passadas. Nem-uma idéa o coadjuvou nos seus intentos.
—Não me é possivel,—respondeu-lhe amarguradamente; e depois de alguns momentos de silencio e de visivel anciedade, continuou:—Sem duvida querem os santos padres castigar-me pela minha fuga da sua casa, e vos envião para interrogar-me?
—Afastai do espirito,—replicou-lhe o Jesuita,—idéas tão erradas quanto insensatas. Nossa companhia aconselha, convence, e influe pela persuasão e consciencia. Não dobra vontades com a força physica. Não castiga rebeldes ou criminosos com penas corporaes, tormentos ou carceres. Deos todo poderoso é o unico juiz que reconhece para os delictos dos homens. Não estais preso por ordem do Instituto de santo Ignacio de{243} Loyola. Sois réo do tribunal do Santo Officio da Inquisição. Venho visitar-vos como amigo e antigo companheiro, conseguindo com custo as licenças necessarias para penetrar até esta prisão.
Profunda impressão produzírão sobre o desditoso Moraes essas palavras pausadas, e proferidas com uma uncção tão aprimorada, que lhe levárão certeza ao animo de robusta expressão de franqueza e verdade. Mas quem era esse homem que lhe fallava? Partia-lhe e agitava-lhe o espirito a idéa de não podê-lo descobrir e conhecer.
—Que quereis pois de mim?—disse-lhe meigamente.—Cheguei de Hollanda, trazendo cartas de recommendação do veneravel padre Antonio Vieira, que me protegeu e salvou do precipicio e da perdição eterna. Se sois Jesuita como proclamais, encontrareis na casa da companhia esses papeis e documentos, que lá deixei quando os famulos da Inquisição{244} me arrancárão da santa morada.
—Tomou o nosso provincial conta de tudo—proseguio o vulto com tristeza.—Entregou a cada um a carta que lhe era dirigida, afim de affeiçoar vontades e dedicações em pró de vossa pessoa e defesa. Infelizmente porém não vo-lo devo occultar, parecem-me inefficazes todos os esforços!
—Tenho de morrer!—proseguio Moraes.—Sinto-o tão cedo porque não expurguei ainda os meus grandes peccados e crimes. Desejára conservar-me no mundo o tempo só preciso para as penitencias e sacrificios. Mas Deos ouve o meu sincero arrependimento, e será de certo misericordioso para comigo!
—Ignorais que já vos condemnárão?—retorquio o vulto.
—Condemnado sem ser ouvido?—perguntou-lhe.
—Fostes denunciado ao tribunal do Santo Officio de Lisboa como herege e apostata,—continuou{245} o Jesuita.—Formou-se o processo, e lavrou-se a sentença. Apezar de ausente e refugiado em Hollanda, fostes relaxado comtudo em estatua no auto de fé de 6 de Abril de 1643, e inscripto o vosso nome no livro dos condemnados á morte.
—Nada me resta portanto no mundo?—exclamou Moraes.—Deixai-me então rogar a Deos tranquilamente nos poucos instantes que me sobrão de vida, para que me conceda a sua graça infinita!
—Ereis assim um réo já, e sujeito ao tribunal da Inquisição—proseguio o velho—quando ousastes vir a Lisboa, confiado na vossa nova abjuração, e na protecção do veneravel padre Antonio Vieira. Soube o Santo Officio que vos havieis recolhido á nossa casa, e reclamou-vos com a sua justiça.
—E o Instituto de santo Ignacio entregou-me, e abandonou-me?—murmurou Manuel com indicios visiveis de despeito.{246}
—Que póde contra a Inquisição a companhia de Jesus?—repetio-lhe o padre.—São tão diversas as funcções respectivas das duas oppostas instituições! Aquella cura da purificação da fé, e da orthodoxia romana, constituindo um poder temporal, formando um tribunal civil, com juizes, guardas, empregados, força publica, instrumentos de tortura, fogueiras, processos e execuções. Limita-se esta ao espiritual, e ás cousas sagradas, apenas incumbida de derramar as luzes e os dogmas pelo mundo. Quantos trabalhos lhe não tem custado salvar os Brazis da inquisição, que desejaria lá como em Portugal estender o seu dominio? Vivem a Inquisição e a companhia separadas por insuperaveis barreiras, em luta constante, porque uma deseja destruir e cortar a arvore molesta, emquanto pretendem os filhos de santo Ignacio que se cure apenas a parte imprestavel, e se aproveite e salve o tronco e os ramos{247} sãos, que podem dar ainda viço e fructos.
—Mande-me ao menos—interrompeu Moraes—um padre, um amigo fiel para me ouvir de confissão, e acompanhar-me nos derradeiros arquejos da existencia!
—E que vim eu aqui fazer?—perguntou-lhe o Jesuita em tom de queixa—para que penetraria por entre estes negros corredores, e chegaria até aqui, se não houvera recebido encargo particular do nosso provincial, e logrado licença do Santo Officio, para ver-vos, fallar-vos, e entreter-vos como membro da companhia de Jesus, que não desampara os seus discipulos?
—Obrigado! obrigado!—proferio Moraes, deixando-se cahir aos pés do padre, e esforçando-se em abraça-los com fervor.
—Levantai-vos, filho—continuou o vulto, tentando erguer o desgraçado e apertando-o nos braços—não é tempo ainda de confissão e preparativos do ultimo instante. Sou por{248} ora um amigo, que procura consolar-vos, e basta para que me presteis toda a vossa confiança recordar-vos de quem sou... lembrar-vos do passado...
Observou Manuel que sahírão estas palavras no meio de suffocados soluços, e inundava o rosto do amigo desconhecido um pranto amargo e copioso.
Por mais tratos porém que désse á memoria, não lhe foi possivel ainda assomar ao espirito pensamento algum que lhe recordasse aquella figura arruinada pelo tempo, aquella veneranda cabeça, aquella voz doce e attractiva, aquelles gestos bondadosos, que o convencião no entanto de que não o enganavão as expressões sinceras do seu respeitavel interlocutor.
Decorreu um silencio de alguns instantes, sem que nem-um d'elles ousasse interrompê-lo, até que o desconhecido, encostando-lhe a face, e imprimindo-lhe um beijo paternal na fronte, perguntou-lhe em voz clara e sonora:{249}
—Não me reconheces ainda? Continuava o animo de Moraes a embrulhar-se com o emmaranhado dos eventos da sua vida errante, sem que pudesse atinar com uma reminiscencia qualquer, que lhe rasgasse o véo que o assombrava de todo.
—Olha—proseguio o vulto, fallando vagarosamente, no intuito de avivar-lhe a memoria—olha em cima d'aquelle outeiro a casa da companhia de Jesus, com o seu risonho sobrado, a sua igreja contigua e a sua torre pittoresca. Adeja-lhe ao lado o arraial com suas casas de telha vermelha, e suas choupanas de palha amarellada, com suas ruas e beccos tortuosos, que trepão e descem outeiros um aos outros pendurados. Divisa do outro lado a cerca plantada de arvoredos fructiferos, de larangeiras, jaboticabeiras, e cajueiros, em cujos galhos canoros sabiás e pintados gaturamos saudão a aurora que nasce, o dia que desapparece, e o poder e a{250} grandeza de Deos, que se estende por toda a parte. Descobre abaixo da cerca, que povoa o outeiro até a sua base, esse riacho, que alli corre sereno e limpido, rumorejando sobre pedrinhas e humedecendo flôres sylvestres, que lhe brotão das margens alegres e festivas. Lança para mais longe os olhos, e lá pairão a planicie com suas mattas poderosas; o grande rio Tieté, que lhe rasga as entranhas; os morros da Penha, que em distancia arrebatão os sentidos, e terminão em soberbo amphitheatro. Sente essa atmosphera perfumada com as folhas movidas e balouçadas pelo brando zephyro, e que se não escapão jámais dos galhos das arvores carinhosas, e nem jorrão murchas pelo chão como succede na Europa durante a estação do outono. Nota esses gentios, côr de cobre, que enchem os templos em multidão, orão devotamente, respeitão e obedecem aos padres da companhia, e formão procissões religiosas. Não avistas a povoação{251} de São Paulo pelas lembranças, já que a não vêem mais os teus olhos? Não me reconheces ainda?
—Meu Deos, meu Senhor!—gritou Moraes.—Que feridas me rasga este padre, e não posso recordar-me d'elle!
—Alli em cima de um outeiro pousava tranquilla e retiradamente uma casinha branca, de telhas vermelhas,—continnou o vulto.—Morava n'ella José de Moraes com sua familia. Chamou-o Deos para perto de si antes que lhe perdoasse a imprudencia que commetteu, expellindo-te do seu alvergue.
—Morto é já meu pai!—desgraçado!—Basta, basta!—interrompeu-o Moraes.—Tende piedade de mim! dizei-me quem sois por compaixão!
—Não descobriste ainda?—repetio o padre.—Conto está obsecado o teu espirito com os successos portentosos da tua vida transviada!... Lembra-te, filho, do padre{252} que te disse: Desgraçado serás, porque a Igreja calholica é a razão divina, a unica salvação da creatura humana. Não encontrará descanso quem a trocar pelo oceano insondavel do mundo das miserias!
—Eusebio de Monserrate!—prorompeu em ancias afflictas Manuel de Moraes, e agarrando-se ao velho, foi desfallecendo, perdendo os sentidos, e cahindo sobre o chão frio do carcere.{253}
Apenas deixou o padre Eusebio de Monserrate os paços da Inquisição, encaminhou-se para a casa da companhia, e procurou o provincial.
Expôz-lhe com lealdade o que tinha succedido com Manuel de Moraes. Era sua opinião que a sua conversão ao catholicismo se baseava em sinceridade e espontaneidade d'alma, e fôra o seu arrependimento verdadeiro e consciencioso: poder-se-hia tornar um excellente discipulo de santo Ignacio, e prestar{254} relevantes serviços á religião e ao Estado.
Em relação no entanto ás suas pesquizas ácerca dos intentos do tribunal do Santo Officio, perseverava em desconfiança de que confirmaria a primeira sentença proferida em ausencia do réo, e não seria poupado o infeliz no primeiro auto de fé que a Inquisição designasse.
Lembrou ao provincial a necessidade de empregar todos os esforços e empenhos afim de salvar o noviço, avocando-o a companhia como sujeito á sua jurisdicção, e transfuga do claustro, para arranca-lo ao tribunal do Santo Officio. Para se conseguir esse fim, ninguem era de mais: Jesuitas, funccionarios publicos, ministros, nobres, bispos e officiaes da Igreja. Cumpria a todos promover os meios possiveis para attrahir a cooperação e a autoridade d'el-rei e da rainha.
Concordárão em procurar todos os seus{255} amigos, e aquelles individuos para quem trouxera Moraes cartas de Antonio Vieira, e pedir-lhes os seus auxilios efficazes. Escreveu o provincial ao padre Vieira, summariando-lhe os successos, e mostrando-lhe a urgencia de implorar do proprio soberano o perdão do noviço por uma missiva sua directa, empenhando todo o seu valimento.
Uma quantia numerosa de personagens importantes se achou dentro de poucos dias em movimento, e trabalhando em pró de Manuel de Moraes. O confessor d'el-rei e da rainha, Duarte Nunes de Leão, desembargador da casa da Supplicação, João Pinto Ribeiro, secretario privado do monarcha, e varios individuos mais de influencia. Não pôde infelizmente Dom Francisco Manuel de Mello concorrer, porque um fatal acontecimento o roubara á liberdade, e o arrastára aos carceres. Ninguem valêra mais que elle á sua chegada a Lisboa. Considerado pelos{256} seus escriptos primorosos, pelos seus feitos guerreiros no Brazil, Flandres e Catalunha, e pelos seus sentimentos patrioticos de nacionalidade e independencia portugueza, sacrificando honras e riquezas em Hespanha, e expondo-se a perseguições do governo de Castella, de cujas prisões lográra evadir-se, comprando os guardas que o vigiavão, e recolhendo-se a Portugal, travára por um acaso infeliz uma rixa em Belem com o aldeão Francisco Cardoso, e o matára exasperado. Estava por esse motivo processado e preso, cumprindo-lhe cuidar mais da sua salvação que do beneficio alheio.
Virão-se el-rei e a rainha circumdados de pedidos e empenhos para salvarem a Manuel de Moraes. Hesitava porém Dom João IVº em intrometter a sua autoridade, ainda não solidamente estabelecida em Portugal, em questões inherentes ao tribunal do Santo Officio.{257}
Saltára a sua corôa do meio de uma revolução. Sahíra o seu throno de um movimento popular, que fôra unisono no povo, e em maioria apenas na nobreza e clero. Era compellido a todos os instantes a abafar reacções e levantamentos dos que lhe não adherião ao governo, e perseveravão em obediencia a Castella. Via-se obrigado a castigar e punir com severidade fidalgos e bispos, que se lhe oppunhão, e tramavão contra a sua autoridade. Por demais forte se mostrava ainda Hespanha em referencia a Portugal, achando-se felizmente occupada em varios pontos dos seus dominios igualmente insurgidos, e laborando em guerra contra os seus exercitos numerosos, que divididos assim e dispersos, não alcançavão victorias assignaladas.
Cumpria portanto a Dom João IVº praticar na sua administração interior uma tal moderação, que não augmentasse a somma de difficuldades e perigos que lhe surgião{258} por toda a parte. Que valia a salvação de um noviço dos Jesuitas diante dos despeitos e lutas do Santo Officio, que exercia influencia nos animos populares, e ajudava até o seu governo nacional?
Sabia que os proprios fidalgos e principaes ecclesiasticos se honravão de pertencer á Inquisição, e de lhe servir de famulos. E não estremecia o povo todo diante dos seus actos e jurisdicção, reputando-a mais divina que humana?
Mais politico que sentimental se esquivava el-rei aos rogos dos seus mais dedicados amigos e conselheiros dilectos. Recusava-se as vozes da propria rainha Dona Luiza de Gusmão, que tomava o partido dos Jesuitas, apezar de quanta affeição e confiança tributava el-rei á sua extremosa consorte.
Sem a intervenção directa do soberano comprehendia Eusebio de Monserrate que perdidos serião todos os esforços empregados.{259} Esvoaçava por cima da sociedade portugueza da época o poder aterrorisador do Santo Officio. Ninguem o ousaria affrontar impunemente a não ser el-rei em pessoa, graças ao seu prestigio pessoal, e á necessidade que reconhecião os Portuguezes de sustentar-lhe a autoridade para poderem resistir ás forças de Castella, e restaurar a sua autonomia e independencia.
Espalhavão-se por toda a parte espias da Inquisição, adivinhando acções, gestos, palavras, pensamentos, para os denunciarem ao tribunal execrando. Dir-se-hia que as paredes tinhão ouvidos, olhos os trastes das casas, e lia a propria atmosphera no fundo d'alma os mais reconditos segredos, porque chegavão todos ao conhecimento do Santo Officio, que não tardava em expedir mandados de prisão, ordenar castigos, applicar torturas, formar processos, lavrar sentenças rigorosas, preparar forcas e fogueiras, espantando a{260} multidão supersticiosa com os espectaculos horriveis dos autos de fé, acreditados como sacramentos da Igreja.
Não escapavão á sua jurisdicção condições, nem classes da sociedade. Era o unico tribunal judiciario diante do qual desapparecião fóros e privilegios, e que curvava á sua autoridade velhos, moços, crianças, mulheres, aldeões, populares, obreiros, commerciantes, padres, frades, fidalgos, grandes officiaes da Igreja, titulares e validos do soberano.
Não desanimou todavia o padre Monserrate, e quantas mais difficuldades surgião adiante dos seus passos, quanto mais seus projectos se nullificavão, mais tratos dava ao espirito para lembrar-lhe novos meios a empregar, no intuito de conseguir o triumpho. Ardia-lhe no peito o amor-proprio de Jesuita, que não queria consentir na affronta de arrancar a Inquisição ao Instituto um seu noviço e membro, para o julgar e condemnar livremente.{261} Movia-lhe igualmente os affectos a sympathia que lhe ganhára Moraes desde os seus mais verdes annos. Accrescia a essas duas razões poderosas outra ainda de grande importancia para o padre. Não fôra sincero o arrependimento de Moraes? Não estava prompto a commetter todas as penitencias e sacificios que lhe exigissem? Não podia prestar serviços relevantes á religião, á companhia, ao Estado e aos gentios do Brazil? Não o perdoára Deos quando espontaneamente lhe infiltrára no animo a idéa de abandonar riquezas e posições honrosas em Hollanda, trajar de novo o habito da companhia, dedicar-se á vida trabalhosa e miseravel do missionario, volver á sua antiga fé e crenças religiosas, como a ovelha desgarrada que regressa para o rebanho, ou o filho perdido que reganha a casa paterna? Quando Deos se mostrára tão misericordioso, haveria justiça nos homens em condemna-lo?{262}
Proseguíra no entanto o tribunal no julgamento de Moraes. Revendo o antigo processo instaurado na sua ausencia, e annexando-o a novo summario, passou aos interrogatorios necessarios do réo, que por mais de seis dias seguidos fôra tirado do seu aposento e conduzido á sala dos juizes. Perguntas insinuantes a principio, argucias preparadas adrede e geitosamente, lhe forão dirigidas para o apanharem em contradicções, e confissões do que lhes convinha. Mas o preso se conservou inalteravel, sereno, sincero, igual e verdadeiro. Expôz com franqueza toda a sua vida, todos os seus erros e hallucinações, todos os seus peccados e crimes, e os seus remorsos e arrependimento espontaneo, que a propria alma gerára, robustecêra, e lográra verificar particular e publicamente.
Persuadidos os juizes de que conseguirião maiores esclarecimentos, ou factos que mais correspondessem aos seus intentos, com a{263} applicação dos tormentos usados contra as suas victimas, passárão das declarações voluntarias ás arrancadas por meio das dôres resultantes dos instrumentos de tortura.
Começárão pelos anginhos, doce e mimoso nome dado por irrisão a ferros que se collocavão aos dedos dos pés e das mãos, e os apertavão tão cruelmente que causavão soffrimentos horrorosos. Exigírão-lhe confessasse que volvêra apparente e maliciosamente á religião catholica, no intuito de se passar para o Brazil, e servir aos interesses dos Hollandezes, com os quaes se unira, para coadjuva-los nas suas invasões e conquista da America. Resistio Moraes com estoica resignação á barbaridade dos castigos, arrasando-se-lhe os olhos de lagrimas, e escapando-lhe dos labios o nome santo do Christo, que pela salvação dos homens padecêra martyrios superiores.
Não alcançando os juizes o seu fim, adiárão{264} para mais tarde a applicação de novos instrumentos, insinuando a Moraes que lhe era preferivel revelar a verdade espontaneamente a confessa-la á custa de soffrimentos agudos.
Não se apressava a Inquisição nos processos e julgamentos. Annos inteiros se demoravão em seus carceres presos innocentes ou culpados, accusados sem fundamento, suspeitos apenas, e ás vezes mesmo despidos do menor indicio de crime, sem que cuidasse o tribunal em adiantar-lhes as sentenças!
Não se contentando com factos materiaes, e procurando adivinhar intenções e pensamentos, carecia de ganhar tempo, rodeiando as suas victimas com uma espionagem vigilante, que visse e ouvisse o que ellas praticavão ou dizião. Aquelle por recusar-se a comer carne de porco em certos dias; este por soltar uma expressão de raiva ou despeito; um por commetter qualquer gesto que se interpretasse{265} malignamente; outro por não se benzer, ou rezar em horas determinadas: tudo lhe servia de inducção e prova para descobrir crimes, que imaginava o Santo Officio.
Seguírão-se aos interrogatorios e primeiras torturas os depoimentos de testemunhas, que declarárão ser voz geral e constante que Moraes se convertêra ao calvinismo, praticára nos templos protestantes todos os officios religiosos que lhes erão proprios, e se casára com uma mulher schismatica.
Anciosos de confissões mais amplas do réo, applicárão-lhe novos tormentos para o obrigarem pela violencia ás revelações necessarias. Suspendêrão-lhe o pescoço a uma argola pregada no muro, chamada gonilha, que levantando o corpo por uma fórma perpendicular, produzia-lhe uma posição dorida, difficil e quasi suffocadora, peior em soffrimentos que os mais barbaros castigos imaginados pelos tyrannos da idade média. Escalárão-lhe depois{266} as costas e os peitos com azorragues de arame, que o ensanguentárão todo.
Mas a victima se afigurava superior aos tormentos, e resignada á sua sorte. Repetia constantemente as mesmas declarações, e não offerecia elementos novos de duvida ou suspeita aos juizes cruentos.
Recebeu-o a final o leito de Procusto, larga taboa crivada de pregos agudos, á qual se lhe apertou o corpo estendido e deitado por cima. Desfalleceu ahi totalmente Manuel de Moraes, e perdeu os sentidos na cópia de sangue que lhe rebentava por todos os póros.
Foi carregado para a sua enxovia, e ahi deixado a repousar em uma esteira de palha mais macia, é tratado com mais cuidado para se lhe não esvair a vida antes da execução da sentença, e não escapar assim ao castigo publico e exemplar que lhe destinava o Santo Officio.
Lavrou-se a sua sentença. Confirmava em{267} todas as suas partes a do anno de 1643. Condemnava-o a sahir no primeiro auto de fé, coberto com as insignias do fogo, e a ser garroteado na praça publica por apostata, profitente e obstinado.
Chegou aos ouvidos dos Jesuitas a noticia da decisão. Intensa desesperação e despeito violento se apoderárão dos padres. Nem-um deixou de procurar os seus amigos, e de empregar os meios que lhe parecêrão proprios a nullificar a sentença do tribunal do Santo Officio. Applicárão-se os ultimos esforços para lograr d'el-rei uma ordem terminante em pró do infeliz noviço. Cartas do padre Antonio Vieira, conselhos e insinuações do confessor de Suas Magestades, avisos dos seus secretarios de estado, e do seu escrivão da puridade, rogos e empenhos dos fidalgos que o soberano mais prezava, nada alcançava todavia d'el-rei que sahisse da reserva que se havia imposto.
Assumio ao espirito de Eusebio de Monserrate{268} uma idéa aventurada. Conhecendo uma irmã de Moraes, por nome Dona Clara da Incarnação, viuva de um Portuguez que de São Paulo mudára a sua residencia para Lisboa, e carregada de numerosa familia, preparou-a para se lançar aos pés do soberano e da rainha, e implorar-lhe ella propria com todos os seus filhos o perdão do noviço. Concertou com o confessor d'el-rei em facilitar-lhe a entrevista no momento em que Dom João IVº e Dona Luiza de Gusmão seguissem para o oratorio a receber a communhão sagrada.
Combinado o projecto, cuidou-se em realisa-lo. Encaminhou-se para os paços reaes Dona Clara com seus filhos menores. Introduzidos por uma porta particular, achárão-se na passagem dos soberanos no momento designado.
—Piedade! piedade!—gritou toda a familia, arrastando-se aos pés de Dom João IVº,{269} e de sua augusta consorte, agarrando-os com força, e molhando-os com pranto acerbo e copioso.
Enternecêrão-se todos os circumstantes. Pareceu el-rei impressionado profundamente, e não pôde proferir palavra. A rainha, banhada em lagrimas, consolava a dama amargurada, que lhe entregou um memorial escripto, supplicando a graça de Manuel de Moraes. Representou-se a scena mais tocante e dorida. O confessor d'el-rei lhe lembrou que Deos era infinito em sua misericordia, e que os soberanos da terra não tinhão prerogativa mais bem aceita do céo e mais humana que o perdão, que os igualava quasi á Divindade. Prometteu Dona Luiza aos infelizes ouvir-lhes as vozes, e pedio-lhes se retirassem tranquillisados.
Não pôde então o monarcha recusar-se ás supplicas da sua consorte, e deixa-la faltar á sua palavra. Ordenou ao seu escrivão da puridade{270} expedisse ao tribunal do Santo Officio uma ordem terminante, em que, declarando haver el-rei perdoado Manuel de Moraes, lhe determinasse a entrega do preso á companhia de Jesus, como membro que era do Instituto, afim de que esta com penas menores o castigasse conforme julgasse conveniente.
Lavrado e assignado, foi o aviso entregue immediatamente ao Inquisidor geral, afim de executa-lo com o seu zelo reconhecido em pró da religião e do soberano.
Tremia no entanto o padre Eusebio de Monserrate. Obedecer-lhe-hião os juizes do Santo Officio? Não se consideravão superiores a todas as autoridades temporaes, baseando a sua alçada nos breves e determinações do Summo Pontifice de Roma? Não responderião a el-rei memorando-lhe a necessidade de expurgar a fé catholica, e de salvar o dogma; e se resolveria o monarcha a sustentar e fazer cumprir a sua{271} primeira deliberação, que mais ao sentimento intimo que á propria convicção lhe havia sido arrancada?{272}
Fixou e annunciou no entanto o tribunal do Santo Officio de Lisboa um auto de fé para o dia 15 de Dezembro de 1647.
Oito condemnados devião ser queimados nas fogueiras; dez se destinávão ao supplicio do garrote; trinta e quatro ao acompanhamento da procissão, cobertos com as insignias do fogo; tres relaxados em estatua por ausentes e fugidos.
Agitou-se e alegrou-se a população de Lisboa com o aviso do espectaculo que se lhe{273} preparava. Ninguem ousaria deixar de assistir a essa solemnidade religiosa e sagrada, que remia peccados, e valia perante Deos, abrindo aos crentes as portas do céo, e trazendo-lhes pelas indulgencias ganhas a salvação na vida eterna. Quem não tivesse fé no sacrificio divino não se arriscava a perseguições e tormentos iguaes aos das victimas condemnadas, no caso de faltar com a sua presença, e não apparentar jubilo?
Levantárão-se no campo de Santa Anna os cadafalsos e fogueiras. Prevenírão-se os réos que devião figurar na ceremonia. Concedeu-se a alguns a faculdade de chamar confessores particulares, e de receber uma ou outra pessoa da familia, com quem desejassem entreter-se uma vez ainda antes de abandonar o mundo. Transferírão-se todos os condemnados para prisões especiaes, aonde lhes cumpria passar o resto do tempo que lhes sobrava nos paços do Santo Officio.{274}
Intimada a Moraes a sua sentença de garrote, e communicada a noticia de que lhe era licito escolher um confessor, e receber uma pessoa da sua familia, declarou desejar o padre Eusebio de Monserrate para o acompanhar nos ultimos momentos, e sua irmã Dona Clara da Incarnação para lhe dizer o adeos derradeiro.
Forão-lhe satisfeitos ambos os desejos. Impossivel é descrever a sua entrevista com Dona Clara. Quebrantado de forças physicas, martyrisado cruelmente pelas chagas que lhe deixárão no corpo os instrumentos terriveis que supportára, decomposta a physionomia pelas dôres profundas, brancos os cabellos da cabeça e do rosto antes que o tempo lhes mudasse o colorido natural, mais se assemelhava a um decrepito ancião que anciava por descer ao tumulo e não pertencer mais ao mundo.
O tempo, os trabalhos, as peregrinações{275} e soffrimentos lhe havião por tal feitio transfigurado a physionomia, que o não conhecêra Dona Clara, e para o tratar como irmão necessitára de que lhe affirmassem estar em presença de Manuel de Moraes. Abraçando-se ternamente, entretiverão-se no meio de soluços repetidos e de lagrimas abundantes, ácerca dos pais já fallecidos, das irmãs, e parentes domiciliados em São Paulo, da familia que residia em Lisboa, da casa e ninho paterno, e das reminiscencias da mutua mocidade. Revivêrão saudades que pungião o coração, e o cortavão dolorosamente, tanto mais que o tempo feliz passado lhes manifestava a profunda miseria presente.
—Meu respeitavel pai! minha querida mãi e verdadeira santa,—exclamava a miudo Moraes.—Estais ambos já no seio da eternidade, e em presença de Deos. Breve vos irá ahi encontrar o vosso filho desgraçado. Perdoai-lhe... Perdoai a quem concorreu{276} sem duvida para os vossos males na terra, mas que padeceu tambem muito!
Durou a entrevista mais de uma hora, e foi seu resultado infallivel prostrar mais as forças do infeliz noviço, que só deixou a irmã quando os empregados do Santo Officio a coagírão a abandona-lo, e sahir dos paços terriveis da Inquisição.
Tocou a vez do padre Eusebio de Monserrate, que se apresentou no caracter de confessor do condemnado. Contou-lhe a ordem d'el-rei, posto lhe não occultasse o seu temor tanto mais fundado de que o tribunal a desattendesse, quanto até aquelle momento lhe não constára haverem os juizes respondido. Declarou-lhe que visto approximar-se o dia fatal designado para o auto de fé e execução da sua sentença, preferivel era que se preparasse para comparecer perante Deos, abrindo ao sacerdote a sua alma inteira, e recebendo a sua absolvição para se passar á{277} eternidade tranquillo e sacramentado.
Prostrou-se Moraes diante do seu confessor e amigo. Revelou-lhe com franqueza os desejos e aspirações mundanas que lhe havião assoberbado o espirito, os crimes que praticára no seu desvairamento, e as idéas e pensamentos sinceros de que se possuia o seu animo n'aquelle momento solemne. Orárão ambos fervorosamente, e de joelhos, diante da cruz sagrada, que symbolisava o martyrio do filho de Deos. Lançou-lhe o padre a benção consoladora, e recommendou-o á misericordia do Omnipotente.
Estava-se já em vesperas do auto de fé annunciado, e nem-uma deliberação tomára ainda o tribunal do Santo Officio ácerca do aviso expedido pelo escrivão da puridade d'el-rei em pró de Moraes, posto o provincial dos Jesuitas empregasse as maiores diligencias no seu cumprimento.
No dia porém anterior ao designado para{278} a horrenda ceremonia, quando os aprestos todos se havião já concluido, correu voz emfim que não ousára o tribunal do Santo Officio affrontar o perdão que Dom João IVº concedêra, bem que singular e desusado. Assentárão os juizes que darião execução ao aviso regio, depois de sahir Manuel de Moraes no auto de fé como penitente, e coberto com as insignias do fogo, e de assistir ao cumprimento das sentenças relativas aos demais accusados.
Raiou o dia fatal. Cobrírão-se desde a madrugada as casas dos habitantes de Lisboa sitas nas ruas e praças que devia atravessar a procissão, e ornadas de colchas adamascadas, cruzes, imagens de santos, e velas acesas. Guarneceu-se o chão, que nem calçado era n'aquelle tempo, com folhas viçosas de arvores. Brilhárão com velas e lampadas, e ornárão-se com flôres odoriferas os oratorios, que se semeavão pelos cantos das{279} ruas. Derão signaes repetidos de festa os sinos dos numerosos templos, que saudavão o triumpho da Igreja catholica, que salvava a fé e o dogma, castigando os máos, e amedrontando os tibios e descrentes. Desfilárão soldados, occupando varios pontos proximos á praça de Santa-Anna, e occupando-a cuidadosamente para que ninguem, afóra as pessoas do cortejo, penetrasse dentro do circulo reservado ás execuções das sentenças.
Fogueiras formadas com madeiros seccos e palha solta destinadas para os condemnados ás chammas, e cadafalsos erguidos ao lado para os que devião supportar o supplicio do garrote, aterrorisavão as vistas. Vultos cobertos com o manto do Santo Officio, mascarados, e reluzentes com grandes cruzes, que se lhes gravárão nos peitos, os rodeiavão em copiosa quantidade.
Á hora marcada, el-rei, a rainha, os secretarios{280} e conselheiros de estado, e a côrte toda, tomárão os seus lugares, occupando um edificio levantado na frente, conforme os usos supersticiosos da época. Por toda a parte adejava, rumorejava, e saltava, benzendo-se e rezando, uma multidão de gente miuda, que não falta a quaesquer espectaculos de dôr ou de alegria.
Ouvírão-se tiros multiplicados da artilharia dos arsenaes, fortalezas e navios de guerra. Repicárão de novo os sinos das igrejas, e girandolas pittorescas de fogos artificiaes subírão aos ares, e os partírão com mil riscos refulgentes, e ribombos repetidos. Era o signal de que partia dos paços do largo do Rocio o auto de fé e se encaminhava para o seu destino, segundo as formulas da mais rigorosa etiqueta. Marchavão adiante empregados do Santo Officio, montados a cavallo, armados, e segurando bandeiras negras com chammas de fogo, emblemas do tribunal sanguinolento.{281} Seguião-nos padres e frades de diversas ordens, recitando orações lugubres, com a cabeça descoberta. Guardas a pé com clavinotes, espadas e terçados, e vultos mascarados, e com os habitos da Inquisição, rodeiavão as numerosas victimas, amarradas umas ás outras, de pés no chão, e ornadas as cabeças com capuzes negros manchados de flammas luminosas, que lhes cobrião as faces, permittindo-lhes apenas a vista por dous buracos rasgados.
Ião depois os membros do Santo Officio, cercando o Inquisidor geral, que caminhava sob um pallio, e acompanhados por mais de duzentos famulos da Inquisição, que no dizer das tradições se compunhão de fidalgos das primeiras casas do reino, magistrados, altos funccionarios, capitalistas, industriosos, e gente de todas as condições e classes da sociedade.
Fechava o prestito um corpo de cavallaria,{282} com a sua musica e tambores tangendo constantemente.
Parava o auto de fé diante de todos os oratorios e imagens levantadas na sua passagem, e demoradamente chegou assim ao largo de Santa-Anna.
Levantárão-se as bandeiras, e rufárão os tambores. Occupára cada pessoa do cortejo o seu lugar competente. Leu o pregoeiro a lista dos condemnados ao fogo e ao garrote, e a dos penitentes que devião assistir á execução das sentenças. Figurava entre estes ultimos o nome do desditoso Manuel de Moraes, perdoado da pena capital por graça particular de Dom João IVº. Dirigio um sacerdote uma oração a Deos, ajoelhárão-se todos os circumstantes, e manifestárão a piedade dos seus sentimentos.
Derão-se as ordens derradeiras. Subírão ás fogueiras por meio de escadas preparadas as victimas reservadas ás chammas. Forão amarradas{283} a um poste de páo que se erguia no centro d'ellas. Incendiou-se a palha e o madeiro. Uma nuvem escura e ardentes labaredas brotárão immediatamente, e logo depois se ouvírão gritos doridos, e gemidos pungentes dos desgraçados, que se queimavão e desapparecião nas flammas.
Succedeu-lhe a operação do garrote, e algozes impedernidos cortárão os fios de vida, por meio da suffocação instantanea, aos desventurados réos, cujos restos se lançárão nas fogueiras ainda abrazadoras para o fim de se confundirem todos, que se havião condemnado.
Organisou-se por fim em torno das fogueiras e cadafalsos a procissão dos penitentes, sustidos a maior parte por famulos e empregados do Santo Officio, visto como lhes faltavão forças para se sustentarem por seus proprios pés.
Terminada a ceremonia, volveu o cortejo para os paços da Inquisição.{284}
Logo que passou os umbraes da entrada principal do edificio, deu ordens o Inquisidor geral para se tirar Manuel de Moraes d'entre os penitentes, e restitui-lo aos Jesuitas, que já alli se havião reunido, no intuito de recebê-lo, e recolhê-lo á sua casa.
Procedeu-se á entrega solemne, e lavrou-se termo, que assignárão as autoridades competentes. Não se podendo ter em pé o paciente, foi depositado em um assento de pedra, emquanto se cumprião as formalidades do acto.
Quando o padre Eusebio de Monserrate se approximou d'elle para lhe dar o braço, levanta-lo, e ajuda-lo a sahir dos paços do Santo Officio, escapou-lhe Moraes das mãos, resvalou do assento, e rolou pelo chão.
Tratou subito o Jesuita de rasgar-lhe a mascara e as vestes. Descobrio um cadaver. Já não pertencia ao mundo.{285}
Ajoelhou-se Eusebio de Monserrate, e disse enternecidamente:
—Senhor! Senhor! recebe no teu seio piedoso o peccador contrito, e perdôa com a tua infinita misericordia a quem tanto soffreu na terra!
FIM{286}
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