—Não a temais,—retorquio-lhe Manuel.—Permitti que eu vos acompanhe para Hollanda, e provar-vos-hei por meus actos a sinceridade de minhas palavras.
Prometteu-lhe Beatriz pensar no que elle lhe dissera, pedindo-lhe um momento de socego. Cortou-se a conversação, separando-se na maior agitação do espirito.
Dominava a paixão exclusivamente em Manuel de Moraes. Subordinárão-se-lhe todos os mais sentimentos moraes e intellectuaes. Acurvou-se como convencido, ou melhor como escravo que se liga ás suas cadeias e ferros, reputando-os como a sua felicidade,{155} considerando-os como sorte inevitavel e unica que lhe está reservada, e a que o attrahem delicias particulares, sonhos dourados, e voluptuosos imans.
Reflectia mais Beatriz. Folgava-lhe o coração com o amor profundo de Moraes. Fallava-lhe porém a razão, denunciando-lhe perigos futuros. Luta de amor risonho, e de tristes pressentimentos, se lhe travou no espirito, e o apouquentou bastante.
Resolveu-se a fallar com seu pai. Confessou-lhe que amava Moraes, lhe seria impossivel esquecê-lo e abandona-lo; e resistiria o seu animo a aceitar por marido outro qualquer homem, porque lhe pertencia toda a sua alma. Não deixou igualmente de manifestar-lhe os seus temores sobre a sinceridade da declaração do amante, que preferia trocar o catholicismo pelo culto calvinista, no intento de acompanha-la, e viver para ella.{156}
Estimava Brodechevius o homem que salvára a sua filha. Prezava-o como intelligencia distincta, espirito dotado de raras qualidades, e capaz dos feitos e acções mais honrosas. Não lhe repugnava aceita-lo por genro. Não erão para elle distincções a riqueza, e nem o nascimento desigual ou humilde. Arredava-o a só diversidade dos cultos religiosos, que se poderia sanar abandonando Manuel a religião catholica, e adoptando por patria a Hollanda. Cumpria porém em seu parecer verificar igualmente a convicção com que praticaria Moraes a difficultosa mudança. Aconselhou a Beatriz, que, esperando do tempo a prova da sinceridade do amante, lhe consentisse acompanha-la para Amsterdam, aonde se observaria mais cuidadosamente o procedimento de Moraes, para ser ao justo apreciado.
Deixou a frota hollandeza as plagas de Pernambuco no principio do anno de 1639.{157}
Embarcárão-se todos, abandonando as terras brazileiras. Despedio-se Manuel de Moraes da America, na intenção firme de nunca mais revê-la.{158}
Não decorrêra um anno inteiro em Amsterdam, para onde se havião retirado Brodechevius e sua filha, e já havia Manuel de Moraes abjurado a religião catholica, abraçado o protestantismo com o consentimento do velho Hollandez, celebrado os seus desposorios com Beatriz, e fixado emfim a sua residencia na nova patria que adoptára.
Venturosos dias se passárão a principio no seio d'essa familia tranquilla e socegada. Posto nem-uma convicção arrastasse Moraes{159} para o novo culto, seguia-lhe os mandamentos com exactidão, e cumpria escrupulosamente com os deveres que a Igreja calvinista recommendava. Não lhe pesavão no espirito, porque não era ainda chegada a hora do arrependimento e dos remorsos, e o prendião com doces e agradaveis laços os encantos da esposa, que cada vez manifestava mais finas qualidades, e correspondia ao seu amor fogoso com uma dedicação admiravel e extremosa.
Frequentavão-lhes a casa familias distinctas, affeiçoavão-lhes a amizade pessoas selectas, attrahião-lhes os cuidados relações agradaveis.
Conheceu e relacionou-se Moraes com muitos judêos portuguezes, evadidos de Portugal diante das perseguições do governo e do Santo Officio da Inquisição. Numerosas familias d'essa raça condemnada por injustos preconceitos e prejuizos loucos da opinião publica da época, abandonárão as terras luzitanas,{160} e achárão abrigo, e liberdade para os seus cultos, na judiciosa Hollanda, que se engrandeceu e gloriou com a sua industria e fortunas.
Primavão entre os judêos portuguezes homens de merito notavel. Havião muitos acquiescido em Portugal a trocar a sua religião pela catholica, afim de se lhes consentir a residencia na patria, que não admittia o culto israelita. Bastava porém a mais pequena suspeita, a menor denuncia, para que fossem presos, encarcerados, processados, e condemnados aos tormentos e fogueiras do Santo Officio. Entrárão alguns para as ordens monasticas, tomárão habitos de sacerdotes, empregárão-se no proprio tribunal da Inquisição, como seus famulos e servidores. Não lhes valêra a metamorphose do culto e dos costumes. Ninguem acreditára na sinceridade da sua abjuração. Após os que, por não quererem renegar as suas crenças religiosas,{161} forão compellidos a expatriar-se, seguírão aquelles que, convencida ou hypocrita e simuladamente, adoptárão o catholicismo, por mais evidentes e claros abonos de sinceridade e dedicação aos dogmas e disciplina da Igreja romana.
Bastava ser judêo, tê-lo sido, ou descender de sangue judêo, para que se lhe não poupassem insultos, prisões, miserias, violencias, assassinatos juridicos e barbaros. Não os isentava o sexo, e nem a idade. Perdeu Portugal com a sua emigração um povo rico, industrioso, trabalhador, activo, intelligente, e capaz de grandes emprezas.
Figuravão entre os judêos estabelecidos por esse tempo em Amsterdam tres Portuguezes, considerados como capacidades elevadas, e que deixárão fama nas lettras e sciencias. Isaac Orobio de Castro, que fôra medico notavel em Lisboa, e professor em Sevilha, escapo dos carceres do Santo Officio graças a{162} um disfarce de vestes, e nomeado para um dos chefes da communhão israelita da Hollanda[4]. Manassé ben Israel, oriundo de Arabes e judêos, naturalista distincto[5]. Uriel da Costa, que exercêra cargos civis em Lisboa, convertendo-se á religião de Roma, e que nem por isso fôra poupado pelo cruento tribunal, que anciava por purificar a fé religiosa nas fogueiras que levantava para queimar vivas as victimas da sua atrocidade supersticiosa[6].
Perseveravão as familias israelitas em guardar na Hollanda os seus costumes, e a lingua portugueza, formando uma communhão livre e levantando as suas synagogas, celebrando os seus actos religiosos, solemnisando o seu dia do sabbado, e as suas festas tradicionaes.{163}
Tudo o que víra Manuel na Hollanda entre os protestantes, e a historia e situação dos judêos portuguezes exilados, parecião fortifica-lo a principio no seu novo culto, demorando o tempo do infallivel arrependimento.
Rebentára por esse tempo a revolução portugueza de 1640. Applaudírão todos os judêos portuguezes o levantamento glorioso do povo luzitano para recuperar a sua independencia, e libertar-se do jugo de Hespanha. Enthusiasmou-se Manuel de Moraes pelo evento feliz, e incitado pelas reminiscencias patrias, escreveu e publicou uma memoria, defendendo os direitos de Portugal e do duque de Bragança elevado ao throno nacional, com o nome de Dom João IVº, e offereceu-a ao diplomata portuguez nomeado para Hollanda, Diogo de Mendonça Furtado[7].{164}
Começárão estas occurrencias a avivar no espirito de Manuel de Moraes reminiscencias do que fôra, e de onde proviera. O proprio escripto que traçava lhe insinuára saudades da patria, e forão com ellas vindo timidas duvidas a principio ácerca da honestidade e dignidade da sua abjuração religiosa, e a pouco e pouco e com o tempo depois um como que arrependimento do que praticára, e que condemnava-o no fôro interno d'alma.
Ninguem se podia reputar no entanto mais feliz na sua domesticidade. Um sogro que o estimava e prezava, cheio de bondade e affecto; uma esposa bella, meiga, amorosa, devotada; abastança de meios de fortuna; renome de homem intelligente e serio; amigos que o procuravão, e acolhião com urbanidade e respeito; que lhe era mais preciso para a felicidade na terra?{165}
Assim o pensára elle proprio no começo. Não descobríra na existencia senão socego, doçuras, risos, prazeres, delicias, encantos, flôres e perfumes. Passados os primeiros tempos da felicidade, que se deverião reputar a lua de mel dos noivos, uma voz surda e intima, que partia da alma, lhe iniciou uma agitação paulatina no espirito, que se foi entristecendo e cobrindo de luto, e perdendo a vivacidade anterior, como a rosa que murcha a olhos vistos, apenas cortada da haste, que lhe dava viço e vida.
Tratou de occulta-la Moraes aos olhos do mundo, e com mais cuidados da consorte adorada, que se lhe afigurava ainda o unico ente sobre a terra por quem dera e daria sempre a vida. Não escapou porém á perspicacia de Beatriz a metamorphose espiritual e moral que se passava no marido. Não tardou muito a adivinhar por si, á custa de seu unico trabalho, e sem a menor confidencia{166} de Manuel, posto o interrogasse por todas as fórmas sobre o motivo verdadeiro da lamentavel transformação que se ia operando no seu animo.
Estremeceu. Realisára-se o seu pressentimento. Após o saborear dos prazeres, entornava-se o fel do arrependimento. Destruirião os remorsos posteriores aquelle amor fogoso, aquella paixão enthusiastica, que correspondêra mais aos sentidos physicos que aos dotes da alma e do espirito.
Desapparecia-lhe toda a felicidade domestica, como um sonho agradavel que o acordar interrompêra, e a realidade supprimíra. E se não podia queixar de ingratidão. Elle não professava outro amor; não a abandonára por outra mulher; dedicava-lhe o mesmo affecto extremoso e fino; adorava-a sempre com o coração, mas laborava já em lutas intimas das idéas religiosas dos arrependimentos do espirito, dos remorsos d'alma contra esse amor{167} e paixão a que sacrificára o que agora lhe ia parecendo não dever e nem poder ser jámais sacrificado, como superior que era á razão e á vida.
Volveu contra si propria a setta, por se haver mostrado tão fraca, aceitando o sacrificio, e não apreciando no seu justo valor a sua grandeza invencivel. Communicou-se a Beatriz a tristeza e abatimento moral de Moraes, e seguindo cada um vereda differente, se convertêrão ambos em entes isolados e solitarios, que o mundo e a sociedade approximárão, e as paixões latentes separão, como remorsos vivos de crimes, que arredão um do outro os seus complices respectivos.
Fugião já ás confidencias mutuas. Mas o contacto intimo, o lar domestico a vida regular, as devião trazer naturalmente, posto as temessem reciprocamente.
—Sou eu causa,—disse-lhe Beatriz um dia,—dos tormentos do teu espirito?{168}
—Tu?—respondeu-lhe Moraes.—Enganas-te. És antes o unico anjo que me ampara. Ainda esta noite sonhei: Um monstro lançava-se sobre mim; tinha eu conhecimento da minha critica situação, como se estivera acordado; paralysava-me porém a inercia do somno—chegaste,—fugio o monstro,—salvaste-me!
—Sacrificaste por mim tua vida,—continuou ella.—Sei que isso te não peza. Mas sacrificaste igualmente o teu culto religioso, e eu aceitei o que não podia aceitar, e d'ahi provém o arrependimento que te tortura o espirito!
—Ama-me sempre,—replicou-lhe Moraes,—e tudo isso é nada, porque só vivo para ti, e ás dôres que me assomem ao espirito, desconhecidas, precipitadas, anciosas, mas que me obscurecem e assoberbão ás vezes, não vejo remedio ou allivio senão em teu amor. Arranca-m'as tua presença,{169} como a do anjo tutelar e da guarda.
—Moraes,—tornou-lhe ella,—conheço-te, admiro-te, adoro-te. Sei que sacrificio enorme commetteste por meu amor. Culpa minha foi, e não tua, em que se realisasse. Não ha mais remedio; suas terriveis consequencias apparecem agora, e Deos deixa-me solitaria. Vês como os astros gravitão um para os outros, em extases communicativos e innocentes? Um laço ineffavel prende ao creador a creatura. A floresta que geme, o lago que dormita, a torrente que se despenha, o vento que sibilla, a cidade que sonha, o passaro que canta, a aurora que resplandece, tudo tem uma voz no hymno da universal harmonia. Eu porém considero-me discordancia inutil no concerto immenso da natureza. Sou no meio do immortal poema d'arte como um membro cortado, e estranho ao movimento que lhe imprimio o architecto supremo. Dir-se-me-hia semelhante á superficie{170} incolor das aguas que reflecte apenas o brilhantismo das arvores, das flôres e do firmamento.
Impressionou-se seriamente Manuel de Moraes, ouvindo essa linguagem mysteriosa, mas que denunciava o fundo cavado no peito da esposa pelo sentimento forte da dôr e da amargura.
—Ó santa creatura!—exclamou, abraçando-a e beijando-a com effusão,—desterra imagens tristes e aterradoras. Se não sou o que fui, se não passo de uma sombra de homem, se soffro paralysia intellectual, só tu podes alliviar-me as dôres, e salvar-me, porque és o unico ente que me ampara na terra. Restitue-me tua alma, dá-me a fé que é a vida, a fé no teu amor!
—Pensei,—interrompeu ella,—que encarariamos a felicidade sob a mesma feição e aspecto. Encanta-me a paz e tranquilidade da vida intima, mas teu espirito se{171} revolta, e eu considero-me culpada. Dize que sacrificios queres que eu faça para superar os que por mim commetteste!
—Nem-um, nem-um,—respondeu-lhe Moraes.—Cumpre-me a mim repetir todos para te provar minha dedicação. Se queres que eu exista, não soffras, minha alma! Perdôa-me, serena-me estes impetos involuntarios do espirito. Não és culpada,—nem eu,—ninguem o é. Abandona sonhos e pressentimentos infaustos.
Enlutava-se cada vez mais a existencia mutua de Moraes e de Beatriz com a falta de filhos, que são prisões no mundo, e tomão pela sua affeição a dianteira a todos os sentimentos humanos, vencendo-os em superioridade e força, e obrigando os pais a ligar-se á terra, e a applicar-se á sorte e felicidade da sua prole querida.
Definhavão assim cada um para o seu lado os dous esposos, que se adoravão no entretanto.{172} Excedia a prostração em que cahíra Beatriz ao abatimento que Moraes manifestava. Cifrava-se o sentimento d'este no espirito e n'alma. Provinha do arrependimento, acarretára remorsos, que ralando inteiramente, não lhe offendião todavia as forças physicas. A intensidade da dôr de Beatriz se passára porém para o corpo, que minguava a olhos vistos. Empallidecião-se-lhe as faces, outr'ora roseas e rubicundas. Cavavão-se-lhe os olhos, em outro tempo vivos, penetrantes e espirituosos. Quebravão-se-lhe as forças paulatinamente. Tomava aquelle aspecto todo, tão esbelto e levantado como a palmeira do deserto, tão elegante e primoroso como o cysne deslisando-se gentilmente pelas aguas do lago, proporções graves, tendencias á decadencia e ruina, ares de soffrimentos physicos, que assustavão a todos que com ella convivião, e a estimavão e amavão.
Lamentava-se o velho Brodechevius, percebendo{173} finar-se a filha adorada, sem lhe conhecer o mal que a minava, e adivinhar-lhe a cura necessaria. Chorava Moraes como uma criança, esquecendo quasi diante do seu amor a propria dôr, que lhe acabrunhava o espirito. Procurava engana-la, asseverando-lhe que não sentia mais as primeiras impressões que o havião assaltado, e convencido cada vez mais do bem que procurára, e da utilidade moral que lhe proviera dos seus actos, não poderia existir longe d'ella, e sem ella. Esforçava-se em chama-la á ventura e á vida pelo amor que Beatriz lhe consagrava, e por piedade para com aquelle que se lhe dedicára com todas as forças do coração e faculdades d'alma.
—Moraes—disse-lhe ella um dia ao cahir da noite, encostando-se a uma janella que dava sobre o braço de mar que banha Amsterdam, e olhando para uma pallida estrella que bruxuleava no horizonte sombrio e{174} tristonho do norte.—Vês aquella estrella merencoria? É a minha existencia. Breve se sumirá ella no firmamento, e o negro manto da escuridão a cobrirá de todo. Fui feliz emquanto te senti feliz a meu lado. Causei a tua desventura, e devo receber do céo o castigo merecido. Sonhão-te pelo pensamento idéas de deveres nobres e patrioticos. Ruminão-te pelo espirito os insensatos sacrificios que por mim praticaste. Torturão-te a alma os remorsos crueis que acompanhão sempre quem abandona o seu culto, e a religião de seus pais. Não tardará o momento em que fiques livre de mim para volveres ao gremio da tua Igreja, e recuperares o socego pela penitencia e santidade de vida, desprendendo-te das cousas terrestres, que nos afastão da Divindade.
—Por compaixão por ti e por mim—atalhou elle.—Que me importa a religião de Roma, se é christão igualmente o culto{175} ensinado por Calvino, e mais consentaneo com a liberdade e o arbitrio do homem! Não me arrependi; não soffro remorsos. Asseverei-t'o tantas e repetidas vezes, e porque m'o não acreditas?
—Leio melhor que tu no fundo do teu peito—continuou Beatriz.—Fez-me Deos de modo que, ou não devia amar, ou possuindo amor, deveria elle assorberbar-me de sorte que o ente que escolhesse o meu coração me pertencesse inteira e exclusivamente, e não nutrisse idéa que se não cifrasse em mim. No dia em que notei que involuntariamente—sei-o bem, não precisas repetir-m'o—te impressionavão sentimentos, reminiscencias, saudades doridas do passado—afastavas de mim um pensamento, que te ia acommettendo, e dominando o espirito, posto me dedicasses o mesmo amor do coração, não mais porém as faculdades d'alma, entendi que devia desamparar a terra, e que meus dias{176} estavão terminados no mundo, para só entregar-me a Deos.
Pretendeu Moraes replicar-lhe; ella porém largou-o, e retirou-se para o interior do seu aposento.
Não durou muito o seu soffrimento. Á decadencia do corpo ligou-se uma febre nervosa. Inuteis e infructuosos cuidados se lhe applicárão. Nem-um medico lhe adivinhou a molestia. Reclamou-a a eternidade. Forão os seus ultimos momentos tristes, mas affaveis, despedindo-se enternecidamente do pai e do esposo, e entregando a sua alma fervorosa nos braços do Deos eterno!{177}
Achava-se de novo Manuel de Moraes só, e isolado no mundo.
Quando se separára do claustro, dos pais e da familia, o fortalecião muito ainda o viço, a imprudencia afouta e audaciosa, e a esperança propria da idade juvenil. Ao faltar-lhe agora a consorte querida, ente unico, por quem se lhe cifrava a ventura no mundo, roçavão já os seus annos pelos quarenta, e a vida se lhe annunciava com o peso da experiencia e dos soffrimentos.{178}
Não guardára reminiscencias profundas na primeira época. Os acontecimentos repentinos que lhe succedêrão, as viagens que effectuára pelo sertão da capitania de São Vicente, as aventuras que encontrára no meio dos gentios errantes, e na provincia de Guayrá, os rios poderosos, a natureza esplendida do interior da America, o mar com as suas furias e os seus gemidos estridentes, lhe havião exaltado a mente, em vez de abatê-la e curva-la.
Diversa physionomia lhe raiava agora, em idade mais avançada, e fulgurava em torno d'elle. Idéas differentes o acommettião, e lhe corroião as fibras da alma e os segredos do espirito. Saudades sinceras da esposa mortificavão-no e torturavão-no. Havião corrido em companhia d'ella dias tão alegres, tão prazenteiros, tão socegados, tão felizes! Amor puro e sem igual, dedicação primorosa e exclusiva, possuia aquelle ente adorado, que{179} se deixára morrer quando percebêra falta de uma inteira correspondencia da sua parte!
Longe igualmente da patria, cuja lembrança lhe sussurrava a miudo; sem noticias dos pais e da familia que abandonára, e que agora lhe mortificavão o peito com doridos impetos; abjurado da fé catholica, que mitiga as dôres humanas, e falla ao coração com mais eloquencia que qualquer outro culto religioso; atirado no seio de uma socidade, na qual não nascêra, e nem encontrava parentes e amigos intimos, tão necessarios á vida, como companheiros leaes e devotados; que miseria o cercava, que esperança lhe poderia sorrir, que futuro devia antever?
Deixou a casa em que morava, por se lhe partir o peito com o aspecto que ella lhe offerecia já. Separou-se do desditoso Brodechevius, abandonando-lhe as riquezas, que lhe podião pertencer por direito. Recolheu-se a um sitio solitario, nos arredores de Amsterdam,{180} para com liberdade se entregar á expansão da sua dôr.
Era já Amsterdam uma cidade importante pela industria e commercio. Cortavão-na mil canaes, ornados de magnificos edificios, povoados de numerosos navios. Prosperava com o trato mercantil das colonias que roubára Hollanda a Portugal, durante o tempo do seu captiveiro dos sessenta annos, sob os tres Felippes de Castella. Expedia carregamentos continuos e importantes para a Asia, para o Brazil, para o cabo da Boa Esperança. Agglomerava-se-lhe pelas ruas e dentro dos muros um povo emprehendedor, activo e industrioso, que sabia curvar uma natureza ingrata e um clima agreste, e criar bellezas ficticias, e espantosas riquezas, que lhe davão o aspecto de commodos e magestade.
O que admirára Moraes nas obras dos homens começou a perder os seus encantos e fulgor, á proporção que a memoria lhe avivava{181} scenas do passado. Não era mais soberba a natureza dos tropicos, e não extasiavão mais aos olhos as florestas virgens da capitania de São Vicente, os rios caudalosos do Paraná, Tieté, e Prata, e a physionomia esplendida do firmamento com a sua doce e arrebatadora temperatura? Em concepções e obras não superava a natureza á arte? O que valia o panorama de uma Cidade artificial, coagida a oppôr diques ao mar, para que o mar a não engolisse e absorvesse, diante da planicie alegre em que assentava o Recife, ou as alturas em que repousava a povoação de São Paulo?
Á terra seguio-se a raça dos homens na comparação que o espirito lhe foi formando. A taciturna gravidade do Hollandez, posto industrioso e emprehendedor, a avareza dos judêos, ainda que activos e trabalhadores, não estavão abaixo do caracter jovial e vivo dos Portuguezes, e da innocencia e bondade dos gentios americanos? As virtudes e qualidades{182} dos padres protestantes casados, homens do mundo, dos negocios e do trato mercantil, poderião correr por acaso parelhas com a dedicação mystica e santa dos Jesuitas, que parecião não pertencer á terra, mas ao céo, e que na terra cuidavão só e exclusivamente em praticar feitos meritorios e exercer a caridade e a philanthropia moral, expondo-se aos maiores perigos e á propria morte, em beneficio dos gentios desgraçados e nomades?
Subio dos objectos mundanos para os espirituaes. Encarou os dous cultos, calvinista e catholico, mais como philosopho que propriamente como religioso. Lobrigou desenhado ás claras n'aquelle o orgulho do homem, que, a pretexto de liberdade da razão, queria elevar-se directamente a Deos, dispensando intermediarios, e interpretar a capricho os santos Evangelhos, e os livros da lei divina, emquanto que o catholicismo, organisando{183} uma igreja gradual, e erguendo os homens segundo os seus merecimentos, curvava a creatura na humilhação do creador supremo, e lhe explicava os dogmas do culto e os textos das Escripturas sagradas sob a formula mais simples, a da obediencia a uma intelligencia só, para a unidade e regularidade da fé.
E quanta ousadia na affrontação da Divindade; quanta arrogancia na exclusão das pompas dos templos; quanto desprezo na repulsa dos varões virtuosos, dedicados ao ascetismo e ás doçuras da vida eterna, que com razão se canonisárão de santos; quanta rebeldia para com o successor de São Pedro, cuja autoridade negavão os protestantes, que aceitavão no entanto a direcção de qualquer ente levantado do pó, despido de prestigio, e que se erigia por si em propheta e chefe de seita, como Luthero ou Calvino! Resplandecião-lhe pela imaginação a physionomia e o caracter grave, sereno e attrahente da Igreja Catholica,{184} que com o fausto de suas solemnidades irradiava de jubilo; com a melancolia dos seus canticos lembrava ao homem o nada que era; com a confissão e communhão lhe alliviava o peito e a alma; com os sacramentos finaes á hora da morte o levava para a vida eterna socegado e contricto, esperando o perdão da misericordia divina, que nunca desampara os seus filhos malaventurados.
Agglomeravão-se-lhe os remorsos com a consequencia das suas cogitações. Vida sem fé e sem esperança não era a do animal selvagem e embrutecido? Trocar o catholicismo, que nutre, sustenta e enche de fé, pelo calvinismo frio e interessadamente calculado, não constituia um crime, superior ao maior peccado contra a moral universal?
Não existia mais a esposa para lhe distrahir o pensamento amargurado, quando o martyrisava com agudos espinhos e sangrentas dôres. Nem-um amigo lhe apparecia{185} para lhe modificar a direcção espiritualista das idéas, e attrahi-lo de novo ás cousas do mundo. Arrastava-se de dia, estorcendo-se em amarguras. Velava de noite, atormentando-se em reminiscencias crueis e remorsos pungentes. Nem-um instincto o prendia mais á terra. Aborrecia a sociedade, e não encontrava allivio na solidão. Dias sem repouso, e noites sem somno, lhe avivavão cada vez mais os soffrimentos do espirito, ao passo que lhe arruinavão a saude do corpo.
Esforçava-se por respirar o ar livre dos campos, e notando-os todos lavrados artisticamente, cortados de canaes artificiaes e monotonos, divididos com regularidade exemplar, despidos de arvores naturaes e de vegetação espontanea, despovoados de passaros que gorgéão hymnos de amor, que devem subir agradavelmente ao throno de Deos, como harmoniosa orchestra que proclama e sauda a sua omnipotencia, cahia na maior tristeza e{186} prostração, recordando-se das planicies e veigas americanas, imagem e symbolo da Providencia divina pela sua grandeza ineffavel, encantos magestosos, e sublimes attractivos.
Que é das aguas, que corrião com a sua propria força, se desprendião de rochedos, brincavão com as pedrinhas alvas que lhes interrompião o curso, e engrossando, e recostando-se a leitos de flôres e perfumes, extasiavão os olhos, e denunciavão o poder ingente do organisador dos mundos?
Marchava assim meditabundo e só pela beira de um canal proximo a Amsterdam. Cahira a noite, e escurecêra com o seu manto o firmamento, rodeiando-o de trevas, sem que se apercebesse Moraes de que lhe cumpria suspender o seu passeio.
Fendeu os ares de repente uma voz enternecida de mulher, que cantava ao som de um instrumento que elle conhecêra na sua infancia, e que desde as plagas do Brazil não{187} ouvira mais tanger. Era uma guitarra portugueza, que, imitando a harmonia da harpa, gemia melancolicamente. Approximou-se Moraes para a casa de campo de onde sahião os melodicos accentos, arrastado por uma sympathia rapida que lhe sahio do peito. Applicando o ouvido ás palavras do cantico, estremeceu involuntariamente. Erão portuguezas, e pronunciadas por labios portuguezes. Quem seria o anjo que lhe sussurrava aos sentidos vocabulos da juventude? E que exprimião elles, affectos, paixões, ou delirios amorosos?
A pouco e pouco ouvio claramente as palavras, e não pôde suster-se em pé. Cahio sobre uma pedra, que lhe servio de abrigo.
Fôra para elle o cantico mais uma oração que uma lettra poetica; mais um estigma que uma rima musical; mais uma imprecação que um hymno. Formava-se dos versos{188} seguintes, que a boca que os proferia soltava com sonora e cadente melodia:
Ó doce e sagrado culto,
Que com o leite bebemos!
Tu nos sorris desde a infancia,
Com teus feitiços crescemos.
Antes carceres, exilios,
Antes barbaro tormento,
Antes cruentas torturas
Que esquecer-te um momento!
Antes a triste miseria,
A fome e a sêde mais dura;
Antes a morte em martyrios,
Em ancias de crua amargura!
Ó legado precioso
Confiado ao coração!
O penhor sagrado de honra,
Ó santa religião!
Quem póde a fé, que lhe derão,
Renegar impunemente?
Quem seu Deos e sua crença
Se arroja a arrancar da mente?{189}
Vagará no mundo inteiro,
Como um animal damnado.
Nem amigos—nem piedade,
Só, de remorsos ralado!
Ha no espirito do homem uma fibra mysteriosa, que Deos ahi depositou para o fim de impressiona-lo de quando em quando pelo supersticioso, extraordinario e fantastico, abater-lhe a vaidade, e manifestar-lhe a differença das duas naturezas que o compõem, uma fragil como o corpo e oriunda do pó, e a outra immaterial e eterna, como emanação da chamma divina, á qual deve annexar-se no fim da existencia, quando separada dos restos mortaes.
Por mais robusto e forte que seja o espirito, alli estremece diante de um cadaver que passa; acolá se curva contrito diante de uma sepultura; mais adiante se apodera de pensamentos sombrios ao avistar uma cruz no meio do deserto, ou á beira do rio, abandonada como foi{190} pelos povos de Israel o Deos homem, que se sacrificou pela salvação do mundo; um som repentino do sino de igreja; um cantico tristonho a deshoras perdidas da noite; um miserere solemne soltado debaixo das abobadas do templo; quem póde resistir á emoção, immediata e dorida que traspassa os membros do corpo, gela o sangue, sobe á mente, prostra o espirito, e arrasta a alma mais sceptica para cogitações philosophicas e reminiscencias merencorias?
Avassallárão Manuel de Moraes todas estas impressões, causadas pelo cantico e guitarra portugueza, repetidos sem duvida e tangidos por alguma judia expatriada que guardára a sua fé, e conservára a lingua pittoresca de seus pais nas ribas do mar do Norte, e sob os frios gelos de Amsterdam.
—Renegado, renegado!—parecia clamar-lhe uma voz sahida do seu proprio peito, entornando-lhe pela alma abatida uma nuvem{191} de remorsos crueis e dolorosos!—Renegado, renegado!—era o grito estridente que lhe soava os ouvidos. Sem amigos, nem piedade, ficára só e solitario na terra.—Não era este o seu estado? Não se diria o verso dirigido e applicado contra o seu procedimento? Não era um castigo do céo?
Não teve forças para aturar a violencia dos pensamentos. Perdeu os sentidos, rolou por cima da relva que matizava o chão humido, e horas e horas se passárão sem que se percebesse do seu estado, e nem-um individuo caritativo, que por acaso transitou, o descobrio, e cuidou em tira-lo do perigo.
Esclarecião-se já os horizontes com os primeiros raios da aurora, desprendendo-se das fumaças escuras da noite, desfazendo-as ao seu sopro vital, e derramando luz por sobre a terra e nas immensidades do firmamento celeste, quando a propria humidade do chão o acordou do lethargo soporifico, e lhe prestou{192} forças para levantar-se, e reconhecer a sua triste situação.
Encaminhou-se vagarosa e pausadamente para a cidade, estremecendo ao echoar-lhe ainda aos ouvidos o cantico fatal, que o condemnava, e lembrava a sua situação.
—Eu abandonei patria, e reneguei o culto, sem convicção nem consciencia!—dizia comsigo.—Aquelles fieis sempre á sua religião, e supportando por ella tormentos, mortes, exilios, fome e miseria! Ai, padre Eusebio de Monserrate! Não serieis o autor d'esses versos que me lanção sobre a fronte o estigma da trahição? Não me dissestes igualmente que desgraçado seria quem trocasse a Igreja pacifica de Deos pelo oceano tormentoso do mundo?
Faltava-lhe o ar para respirar, a luz para allumia-lo; a fé para lhe tranquillisar a alma agitada por commoções as mais desesperadas e violentas.{193}
Chamou-o o leito a repouso, mas o repouso lhe não appareceu no meio das tormentas do espirito, e o leito se lhe afigurou de espinhos, que lhe rasgavão o corpo, e lhe ferião dorida e profundamente as entranhas todas.
Molestia tenaz o assaltou, e levou-o quasi ás bordas do sepulcro. Resistio a natureza só, e dir-se-hia que ella o reservára ainda no mundo para provanças mais calamitosas.
Quando se ergueu do leito, e logrou sahir de casa, deliberou-se a procurar alguma igreja catholica afim de sentir o effeito que sobre o seu espirito produziria a solemnidade pomposa do culto, que desamparára imprudente, e a que o chamava de novo a agitação do animo.
Póde o homem nas primeiras idades da vida ser desdenhoso de crenças religiosas, philosopho sceptico, indifferente ao culto, mofador das cousas sagradas. Rodeião-no tantos encantos sensuaes, tantas ineffaveis delicias{194} e prazeres materiaes, que n'elles se deixa absorver, e por elles domar facilmente. Acena-lhe o mundo com scenas prestigiosas, falla-lhe a natureza com attractivos, doura-lhe o horizonte tantos quadros alegres, cantão-lhe tão agradavelmente as aves, enfeitição-no as flôres com tantos perfumes, sorri-lhe a sociedade com tanta meiguice, extasião-lhe a existencia tantos mysterios e sonhos! Quando porém dobra o cabo de mais da metade do prazo provavel que tem de passar na terra, e para adiante alarga a vista, vê estreitar-se o espaço, e fulgurar-lhe perto o espectaculo da morte, a sepultura cavada no chão, o somno derradeiro... ai!... infeliz!... Precisa de religião que lhe allivie o peito, de fé que lhe alimente esperanças, de crença firme na eternidade e na misericordia divina, que unica póde perdoar-lhe os crimes!
Era este já o estado de Moraes, e procurando a Igreja de seus pais, quem sabe—fallava-lhe{195} o seu pensamento—se depararia com algum lenitivo aos seus males pungentes!
Custou-lhe a achar uma quasi choupana, sem aspecto e nem perspectiva de templo, aonde se celebrava o culto romano por alguns poucos fieis que residião em Hollanda, e não adoptavão o calvinismo, ou lutheranismo, que predominavão na maioria do povo.
Tremulo, convulso e submisso peneirou os umbraes da porta. Achou-se dentro da igreja, em face de tres altares ornados com imagens, cobertos de flôres allegoricas, scintillantes de luzes. Appareceu-lhe ao lado a pia com a agua benta para se purificar dos peccados. Celebravão os sacerdotes missas solemnes, com canto, coros e musica de orgão. Exaltavão-se as grandezas e o poder de Deos eterno, e anjos com azas brancas, santos prostrados, e parecendo interceder pelos homens, as vestes sagradas dos padres e assessores, e a linguagem mystica latina, formavão{196} um espectaculo imponente da magestade do culto.
Como alegra o viandante cansado e atormentado por sol ardente e areiaes abrazadores a vista de um oasis no seio do deserto da Arabia? Como sorri o encontro de uma fonte crystallina a quem arqueja de sede devoradora? Assomou assim á mente de Moraes uma sensação balsamica, deliciosa, salvadora quasi, que lhe borrifou o pensamento com idéas mais prazenteiras, com um raio de luz que lhe resplendeu nos arcanos d'alma, e allumiou-lhe o espirito.
Prostrou-se contrito como penitente. Raiou-lhe a esperança com as vozes dos sacerdotes, a presença dos altares, a vista dos santos, o aspecto das flôres e ornamentos, o som harmonico do orgão. Elevou até o throno de Deos o grito do seu arrependimento, e implorou-lhe a immensidade da sua misericordia.
Duas horas ahi passou, de joelhos, firme e{197} mais socegado, parecendo-lhe que durante esse tempo lhe concedia a Providencia divina uma vida nova, e promettia um melhor porvir. Para sahir do recinto do templo foi preciso que os empregados lhe annunciassem que tinhão de fechar-lhe as portas.
Descobríra porém o balsamo alliviador dos soffrimentos do seu espirito. Que lhe dizia agora a alma que fizesse para completar a cura, e trazer-lhe o socego?{198}
Ao amanhecer do dia immediato deixou Amsterdam, e partio para Haya. Chegado á capital dos Estados de Hollanda, indagou aonde residia o emissario e agente diplomatico portuguez, acreditado perante o governo do stathouder, e que era então o padre Antonio Vieira, Jesuita celebrisado, prégador excelso, e amigo particular de D. João IVº, rei de Portugal, incumbido de negociar pazes com os Estados Geraes, afim de poder sustentar{199} a guerra da independencia, em que laborava contra Hespanha.
Dirigio-se para a sua habitação, e pedio ser levado á presença da illustre personagem. Introduzido em uma sala simplesmente arranjada, brilhando mais pela modestia e decencia que pelos ornamentos de luxo tão proprios dos agentes diplomaticos, que nas apparencias assentão a sua dignidade e cuidão realçar o seu credito e caracter, descobrio a um canto sentado em uma poltrona um homem, revestido com a roupeta negra e comprida da companhia de santo Ignacio, tendo um pequeno barrete preto coroando-lhe a cabeça, e occupado em escrever sobre uma mesa singela e repleta de papeis, a que se encostava absorto, parecendo não prestar attenção ao que em torno d'elle se passava.
Contemplou-o Moraes cuidadosamente. Era a sua estatura mais que mediana. Fronte larga, espaçosa, manifestando protuberancias{200} salientes. Olhos vivos e scintillantes. Rosto e queixo povoados de barba espessa, que começava a embranquecer. Aspecto respeitoso e severo.
Aquella roupeta, aquelle barrete, que elle nunca mais víra desde que deixára o Rio da Prata, lhe avivárão reminiscencias de São Paulo, e anuviárão o pensamento com extraordinarios impetos. Fulgurou-lhe á mente a idéa que estava ainda na companhia de santo Ignacio, e perante esses varões respeitaveis, virtuosos e santos, cuja veneração guardava no intimo do peito.
Não ousava approximar-se ao Jesuita, e nem perturba-lo nas suas occupações. Esperou que o padre por si mesmo lhe percebesse a presença, e lhe dirigisse a palavra, o que não tardou em realisar-se, Virando-se por acaso Antonio Vieira, vio de pé, em attitude submissa e quieta, aquelle vulto, e perguntou-lhe{201} o que queria, sem fazer um gesto e nem mover-se do assento.
—Sou Portuguez, e preciso fallar á Vossa Reverendissima,—respondeu-lhe humildemente.
—Como vos chamais?—continuou o padre pela mesma maneira com que lhe fizera a primeira pergunta.
—Manuel de Moraes é o meu nome,—disse-lhe acanhadamente o desgraçado.
Levantou-se subito Antonio Vieira da sua poltrona, avançou alguns passos para o sitio em que estava Moraes, encarou-o com cuidado e perspicacia, e dirigio-lhe as seguintes palavras:
—Conheço-o bem. Tome banco, e communique-me o que deseja.
—Nasci em São Paulo,—proseguio de pé Moraes, não ousando obedecer ao padre, que lhe ordenára de sentar-se.
—Sei, sei,—interrompeu-o o Jesuita.—Não{202} precisa desdobrar paginas que o devem amargurar. Sei toda a sua vida.
—Pois se o reverendo padre a sabe,—continuou Manuel de Moraes,—inutil é que eu o incommode e roube o tempo.
E um signal de despeito se espalhou por toda a sua physionomia, o qual Antonio Vieira penetrou immediatamente, e traçou de desfazer com certo affecto, e sorriso meigo, que lhe morreu nos labios, apenas elles o denunciárão.
—Não tem razão,—disse-lhe o Jesuita.—Abanque-se, e conversemos. Eu pertenço ao Instituto de santo Ignacio de Loyola. Parece que da sua memoria se não varreu ainda o procedimento dos servos de Deos, que o educárão em São Paulo. Nutre contra elles algum motivo de queixa?
—Oh não!—exclamou Moraes.—Deixárão-me gravadas eternamente no espirito e no coração as mais saudosas lembranças. Mas eu{203} reverendo padre, illudi-me, pensando que não nascêra para os santos misteres da companhia. Um espirito inimigo me arrancou do seu socegado e glorioso asylo. Aquellas virtudes primorosas, mas asceticas, aquella vida exemplar de sacrificios constantes e de devotação solitaria em pró dos homens, parecêrão-me superiores ás minhas aspirações e forças. Faltou-me a vocação, a fé, a persistencia do animo. Preferia servir a meus pais no lar domestico, coadjuvar minha familia nos meneios da vida, e pertencer ao mundo. Repellio-me meu pai... Entreguei-me ás aventuras. Atravessei desertos. Cahi prisioneiro...
—Isso nada é—cortou-lhe o Jesuita o discurso, carregando o sobrolho; apertando os labios, e reganhando o aspecto da severidade.—Ahi não ha crime ainda... ha desgraças apenas.
—Perdôe-me o reverendo padre,—gritou{204} soluçando Moraes, e atirando-se ao chão.—Tem razão. Tem toda a razão. Mas Deos não perdôa quando ha arrependimento sincero e firme? Arrependo-me, arrependo-me. Passou-se a época das loucuras. Estou preparado para todos os sacrificios que possão remir os meus crimes. Ancio por confessar-me, fazer quantas penitencias me recommendarem, soffrer as penas que me impuzerem, comtanto que volte á minha santa religião, unica que reconheço por verdadeira, e possa regressar para a minha patria, para o seio dos meus parentes, e para a santa companhia, acabando os meus dias no serviço de Deos, e esperando o seu perdão na eternidade!
Fixou n'elle o padre olhares vibrantes e perscrutadores. Quiz ler-lhe na consciencia, descer-lhe ao fundo d'alma, e descobrir a verdade da retractação e sua espontaneidade. Não se tratava de um gentio selvagem,{205} puro e innocente, nomade e ignorante, despido de idéas sociaes e religiosas, que Antonio Vieira encontrára em multidão errante no seio das florestas brazileiras, e que elle sabia tão perfeita e carinhosamente affeiçoar á grei catholica, chama-lo á religião santa de Christo, e fazer-lhe abraçar de um trago o baptismo com a fé, não guardando no coração pensamento adverso ou malicioso. Fôra Antonio Vieira um missionario magistral, e se habituára a considerar o indigena das solidões da Bahia, do Maranhão e do Pará como uma criança, que aceita sincera e convencidamente os conselhos do religioso provecto, e se lhe dedica com todo o fervor ingenuo da alma e do espirito. Outra era porém a situação de um Portuguez, que esquecêra o seu culto, postergára os seus deveres religiosos, e apostatára da sua fé, trocando-a pelas doutrinas dissidentes e schismaticas que perdião o mundo. Mais difficultosa e grave{206} era ainda a sua posição, tendo em presença um homem que elle sabia instruido, intelligente, e atormentado de paixões tumultuosas.
—Manuel de Moraes,—disse-lhe o padre, erguendo-se como o sacerdote, e tomando a attitude que cabia a quem não fallava já como homem, mas obrava como representante de Deos e da Igreja.—Como posso dar credito ás vossas vozes, quando contra vós proclama uma serie constante de procedimentos indecorosos, uma lista de crimes infamantes?
—Não proclama só, reverendo padre,—retorquio-lhe Moraes;—condemna-me até com força e verdade; sei-o eu mais que ninguem. Daria porém este passo por interesse? O que me falta na vida, se a pretendesse continuar como até agora?
—Sois ardiloso,—disse-lhe o Jesuita.—Conheço-vos muito pelos vossos escriptos, e pela fama dos talentos que Deos vos concedeu. Como patriota, não nutro a menor duvida,{207} porque a defesa que publicastes da nossa revolução de 1640 o certifica de sobejo. Não basta porém isso... não... A religião é superior a tudo. O que é patria, sociedade, familia, homem, sem a religião de Christo, dos seus apostolos, dos seus santos canonisados, da sua Igreja universal e eterna, do seu representante na terra, que é o Summo Pontifice de Roma? Fragil tudo, barro incolor e imprestavel, materia inerte, selvageria miseranda, animalia bruta. Aos interesses mundanos se antepõem as aspirações sagradas e as cousas divinas. Ao homem a familia, á familia a sociedade, á sociedade a patria, e á patria a religião unica e verdadeira de Deos, que é a catholica apostolica romana, da qual são servos humilissimos os socios e discipulos de santo Ignacio, que abandonastes e renegastes!
—É sincero, meu padre,—continuou Moraes,—é sincero o meu arrependimento. Torturão-me{208} os remorsos. Não me deixe morrer sem retractar-me, e expiar os meus crimes. Não me deixe finar nas penas do inferno, que me devastão, assolão e martyrisão já. Tenha piedade. Guie-me. Ensine-me o caminho da esperança, que allivia, quando mesmo não salve!
Forão estas palavras acompanhadas por tão abundantes lagrimas que inundárão o semblante de Moraes, e proferidas com accento tão enternecido e convencidamente profundo, que o Jesuita se impressionou em pró do penitente, e arrancando do pescoço uma enorme cruz pendida de um rosario que o ornava, apresentou-a a Moraes, que a beijou incontinente com fervoroso affecto, e dando evidentes demonstrações de arrependimento consciencioso.
—Levanta-te, peccador!—disse-lhe o padre, e abrindo uma porta, que lhe apontou com a mão, continuou:—Eis alli um oratorio.{209} Alli está a imagem de Deos. Curva-te diante d'elle, dirige-lhe tuas preces, e pede o teu perdão.
Ergueu-se Moraes de subito, correu para o oratorio annunciado, transpôz a porta, e atirou-se de joelhos diante de um altar allumiado por uma lampada de prata e quatro velas de cêra, que lançavão um clarão funebre e merencorio.
Estava em cima do altar um grande quadro representando Jesus crucificado. Gottejava-lhe o sangue das mãos, dos pés, e das numerosas feridas de que tinha o corpo atravessado. Serenidade celeste e magestosa lhe pairava por sobre as faces esbranquiçadas. Dos olhos amortecidos partião raios vivazes de innocencia, pureza e santidade ineffavel. Parecia proclamar ainda ao mundo as verdades eternas, a moral e a fraternidade humanitaria. Pintava-se agarrada aos pés da cruz a afflicta Mãi, carpindo a dôr que lhe{210} dilacerava o peito, e lhe raiava sublime pelas faces enternecidas. De um lado do quadro a grande figura de santo Ignacio de Loyola prégava a disciplina e o enthusiasmo para combater o protestantismo. São Pedro, do outro lado, mostrava as chaves do céo, e cingia a tiára augusta dos Pontifices de Roma, cabeça da Igreja catholica.
Sentio Manuel coar-lhe pelas veias como que um lenitivo, senão jubilo, diante d'essas santas imagens. Despio-se a sua alma do sopro frio e secco do calvinismo, aquecendo-se ás chammas mysteriosas do culto salvador e misericordioso. Não lhe esquecêrão orações enternecidas, preces da mocidade, e sinceras demonstrações de convicção e fé. Sorrio-lhe a esperança, a vida, a eternidade sob nova physionomia. Rasgou-se-lhe aos sentidos, e ao espirito, um vago, diaphano e indefinido futuro, que já não era o da desesperação, como até então antevia, e com que tanto se assustava.{211}
Tempo bastante deixou-o a sós o padre Antonio Vieira na posição de peccador e penitente. Aproveitou Moraes esse espaço, saboreando-o a tragos apraziveis, inundando-se de esperanças prazenteiras, e reganhando a fé perdida, que se lhe entranhou profundamente, e se apossou de sua mente inteira. Dir-se-hia outro homem, mudado, metamorphoseado, crente, e ancioso de entregar-se ao serviço de Deos eterno, e da sua Igreja universal, para remir por meio de todos os sacrificios, que o não aterrorisavão já, os seus peccados e crimes, e alcançar a sua salvação eterna.
Chegou-se a passos vagarosos para o pé d'elle o celebrisado Jesuita. Percebeu-o absorto na contemplação celeste, raiando-lhe o semblante com uma alegria extraordinaria, dedicado fervorosamente á adoração, entregue a pensamentos puros e divinos. Admirou-o na sua contricção, e convenceu-se de que provinha o seu arrependimento de espontaneidade{212} e sinceridade da consciencia, e que o catholicismo e a companhia de Jesus ganharião muito com a abjuração da sua apostasia.
Estava o padre acostumado a assistir a arrependimentos serios, e a devoções preciosas e inspiradas subitamente depois de uma carreira lamentavel de crimes, como se a Providencia divina prezasse sacar do mal infindo o prestimoso bem, e mostrar que a retractacão convencida e conscienciosa conseguia o esquecimento de peccados horriveis, e salvava os infelizes que, recuados dos seus impetos de loucura, se soccorrião á sua inextinguivel piedade.
Não iniciára o proprio santo Ignacio de Loyola a sua vida tormentosa no turbilhão de feitos escandalosos? Não se convertêrão em seus discipulos e se tornárão exemplares de virtudes selectas individuos exaltados repentinamente pelas obras meritorias e gloriosas dos padres da companhia? Não se recrutára{213} e resplandecêra o Instituto algumas vezes com peccadores que se reputavão perdidos, e que uma vida nova de sacrificios attrahira á salvação das suas almas, e ao serviço heroico e humanitario da companhia? Não conseguira Madgalena ser por fim canonisada santa da Igreja, após enormes acções, que a prostravão na miseria degradante e infima?
Era por demais avisado o Jesuita para se enganar em presença de manifestações tão expressivas, e para deixar perder-se uma occasião tão propicia, que offerecia ao Instituto recuperar uma intelligencia primorosa, e um sujeito ornado dos mais bellos e distinctos dotes e qualidades.
Não lhe bastavão os triumphos adquiridos nos sertões do Brazil sobre tribus inteiras de gentios desgarrados e errantes, que chamára ao gremio da igreja santa. Não se reputava o Instituto devotado exclusivamente á catechisação{214} e civilisação dos selvagens dos desertos americanos, como praticavão ainda os discipulos de santo Ignacio, expondo-se corajosos e enthusiasticamente á fome, á sede, ás perseguições, ás frexas envenenadas dos gentios, e á morte cruel, que alguns encontravão na solidão das mattas virgens; nem tambem a conseguir abjurações de rajahs e povos idolatras da Asia, como São Francisco Xavier, apostolo das Indias. Mais poderosa aspiração e ambição mais elevada lhe exaltavão e dirigião o animo. Anciava por ver a companhia alçar-se em prestigio na Europa, combatendo com denodo os schismas que rasgavão a Igreja Catholica, domando as autoridades civis, superintendendo os soberanos, e impondo-se ao poder temporal, e á marcha dos governos. Verdadeiro revolucionario politico e religioso, empregava a penna escrevendo constantemente e publicando umas sobre outras obras primorosas, e não poupava a palavra, fallando dos{215} pulpitos aos reis, aos nobres, ao clero, e ao povo, que se apinhavão nos templos para ouvi-lo prégar, e admirar-lhe a portentosa eloquencia, e a instrucção variada e interessante. Convencido de que a companhia de Jesus era um instrumento da Igreja e do Papa, não repousava em seus trabalhos. Conseguira fazer resoar os templos da Bahia, de Lisboa e de Roma sob os échos agradaveis e harmoniosos de sua voz admiravel, e gemer os prelos typographicos com a tarefa ininterrompida de manufacturar os seus livros. Recebêra missões secretas e politicas de Dom João IVº de Portugal para Roma, França e Hollanda, e em pró do seu paiz negociava ainda allianças de nações estranhas, que o ajudassem contra Hespanha.
Despedia a sua palavra o fogo sagrado. Queimava como incendio, feria como punhal afiado e agudo. Seduzia, arrastava, captivava, e enchia ao mesmo tempo de encantos os ouvintes{216} todos. Manifestava a sua penna uma logica cerrada, um estylo pomposo e correcto, uma cópia espantosa de erudição, e imagens apropriadas, interessantes e arrebatadoras.
Alma grande, sublime espirito, eloquencia superior, corpo affeito a trabalhos e fatigas, indifferente a perigos, devia justamente passar o padre Antonio Vieira, nascido em Lisboa, criado e educado na Bahia, por um dos homens mais extraordinarios que tem o mundo produzido: meio Portuguez e meio Brazileiro; meio civil e meio religioso; meio patriota e meio romano; gozou devidamente em sua vida de uma fama universal e legou á posteridade um nome de engenho selecto, grandioso e admiravel.{217}
Notámos já que o padre Antonio Vieira, percebendo a sinceridade dos passos e desejos de Manuel de Moraes, se chegára para elle, posto o não interrompesse na sua adoração mystica. Logo porém que percebeu occasião opportuna, se apresentou-lhe á frente, lançou-lhe uma benção paterna com apparatosa solemnidade, e ajoelhou-se igualmente a seu lado, rezando com devoção, e implorando a misericordia divina em pró do acolhimento no gremio da sua Igreja da ovelha desgarrada{218} do rebanho, e que espontanea e convencidamente voltava para viver e morrer no seio d'elle.
Erguendo-se depois, disse a Moraes em tom resoluto:—Approxima-te do confessionario, ajoelha-te perante o sacerdote de Deos, e revela-lhe todo o teu coração!
Obedeceu-lhe Moraes. Sentou-se o Jesuita no confessionario, e a seus pés se prostrou o penitente. Longa foi a confissão com o summariar de aventuras, erros, peccados e crimes de acção e intenção que formárão a vida do renegado. Interrompião-na a miudo soluços magoados, abundantes demonstrações de dôr, e jorros de lagrimas que lhe saltavão dos olhos. Quando a terminou Moraes, levantou-se o Jesuita, cravou as suas vistas no altar, como quem lhe pedia conselhos ou auxilio, e balbuciou preces repetidas. Benzeu depois ao penitente, e designou-lhe a penitencia que lhe cabia para encetar a vida nova{219} que se lhe destinava. Deixou-o ainda no oratorio, e retirou-se para o seu aposento enternecido, e ao mesmo tempo contente e satisfeito com o que se passára, como de um feito importante que lhe devia augmentar os serviços e a gloria!
Mudou inteiramente Manuel de Moraes. Posto conservasse aspecto triste e meditabundo, recuperára o repouso d'alma e do espirito, e com elle o do corpo. Intima alegria lhe proclamava o acerto da sua nova abjuração, que tornou publica, segundo as ordens do padre Antonio Vieira. Cumprindo com os seus deveres religiosos, parecia-lhe que alliviava o animo de um peso insupportavel, que o acabrunhava outr'ora constantemente. Rompeu com o mundo que o rodeiava, cortou as relações e conhecimentos que possuíra, e o padre, a igreja e o estudo occupárão d'ahi por diante e exclusivamente todos os seus momentos. Estimava-o o Jesuita, prezava-o já,{220} e recommendou-lhe escrevesse uma historia da America portugueza, que elle conhecia perfeitamente, e com referencia em particular ás invasões e occupações dos Hollandezes, cuja lingua praticava, e cujos livros lia com facilidade. Quando lhe considerou completa a abjuração, annunciou-lhe a necessidade de partir para Lisboa, afim de ahi reentrando para a companhia de Jesus, e logrando o seu perdão do soberano, e permissão do provincial, passar-se para o Brazil, e dedicar-se com fervor á catechisação dos gentios.
—Cumpre rehabilitar-te,—disse-lhe,—n'aquella sociedade e n'aquelle governo. Encontras nas capitanias do Brazil trabalhos escabrosos, fadigas superiores, perigos incessantes, e talvez a morte cruel amarrado a algum cepo, ou ao sibillar de uma frexa de gentio selvagem. Mas liquidarás as contas dos teus peccados com os sacrificios e feitos honrosos que commetteres. O Deos misericordioso{221} te acolherá nos seus braços divinos. Não hão de ser só os Brazis que te hão de pôr á prova de calamidades e amarguras, de resignação e paciencia. Maiores incommodos te causaráõ os brancos europêos, e a sua raça americana, que anhelão unicamente accumular riquezas, captivando, roubando e destruindo os infelizes gentios, sem freio moral e religioso. Acima d'elles estão ainda o governador e as autoridades da colonia, insaciaveis, perseguidores, tyrannicos, despoticos, para quem não ha lei humana ou divina, e com quem terás de arrostar, no serviço da companhia de Jesus, e na pratica das virtudes christãs e dos dogmas e disciplina da Igreja. Precisas encher com feitos heroicos e meritorios do corpo e do espirito as paginas negras que lavraste no livro da tua existencia atormentada e virtiginosa. Não bastão a fé e a convicção conscienciosa para com Deos e os homens, volvendo dos erros e{222} crimes para o caminho da verdade. Tornão-se indispensaveis muitos exemplos de virtudes e serios sacrificios para te restaurarem no conceito geral, e perante o Eterno. Eu tambem atravessei desertos e mattas virgens, subi montanhas, transpuz rios caudalosos, avassallei distancias abandonadas, só, inerme, confiado na cruz de Christo que trazia ao peito, vigorado pela fé, e fortificado pelos desejos de commetter serviços em pró da religião. Avistei-me com tribus nomades de gentio desconhecido. Senti armar-se o arco, desprender-se a frexa, roncar a tacape por cima da minha cabeça, roçando-me os cabellos com sibillos horriveis e aterradores. Achei-me amarrado ao tronco da arvore, despido das vestes e exposto á morte mais tormentosa. Vi-lhes as velhas nojentas, chegando-se para mim com as suas cabaças, sequiosas do meu sangue, bezuntando-me o corpo com tintas vermelhas e pretas, dansando horrivelmente{223} em torno como megeras, retorcendo-se como serpentes damnadas, e gritando como espiritos do inferno. Escapei aos perigos por milagre de Deos, e catechisei numerosa cópia de Brazis desgraçados, que á minha palavra se ameigavão, á minha voz abandonárão a sua vida errante e seus costumes selvagens, e aos meus conselhos e exhortações recebião o baptismo, e abraçavão a religião catholica e a vida social, sahindo da miseria e da perdição. Formei muitas aldeias de indigenas catechisados, que se tornárão tão bons ou melhores catholicos e vassallos que os proprios conquistadores do seu paiz e das suas terras. Nada d'isso me curtio de dissabores, e nem me pareceu pesado sacrificio. Mas os Portuguezes aventureiros, e principalmente os governadores, capitães-generaes, capitães-móres, autoridades, e empregados publicos da metropole, forão,—sim,—a pedra de toque de minha humildade{224} e paciencia. Eis a vida do Jesuita missionario. Homem, não pertence á humanidade senão pelo lado espiritual, e á sociedade senão pela vida dos sacrificios. Padre, não vive no descanso do claustro e no repouso da communhão. É propriedade dos desertos, das missões longinquas, dos perigos, das almas perdidas dos gentios, da morte ingloria no meio das brenhas. Não são d'este mundo os seus bens e gozos. Lembra-te de José de Anchietta ou de Manuel da Nobrega. Caminha em vida para o céo através de cachopos levantados a cada instante diante de teus passos, e a teu lado, afim de te provarem a devoção, e te apurarem o sentimento humano. Avança sem dobrar o collo, sem perder a resignação evangelica, sem renegar a piedade, sem esquecer a caridade christã, sem conhecer o desanimo, e nem olhar para trás de ti. Envolve-te em manto novo, e regressando para a companhia de Jesus, ennobrece-te{225} e exalta-te no serviço da Igreja e na propagação da fé catholica com feitos meritorios e gloriosos. Será a penitencia reservada ao teu arrependimento, e o balsamo que mitigará os teus remorsos.
Aprazia a Moraes esta linguagem do padre venerando e insigne. Coincidia com os seus desejos. Nada o apegava mais á terra hollandeza. Havião findado os seus amores e os seus deveres sociaes, com o passamento d'aquella creatura humana que o encantára e enfeitiçára com tamanha força. Não o prendia o tumulo, que lhe cobrira os restos mortaes, posto ahi corresse de quando em quando a lançar-lhe flôres doridas de saudade, porque o coração lhe dizia que fôra a hallucinação apaixonada, que se havia apoderado de todos os seus sentidos, a causa da primeira e fatal abjuração religiosa, que lhe pesava constantemente sobre a alma.
Occorrêra além d'isso que Brodechevius,{226} a quem consagrava affecto filial pelas suas qualidades virtuosas, e pelo acolhimento com que sempre o favorecera, não lográra resistir á morte de Beatriz, e conservar-se no mundo. Arrebatára-o a morte mezes logo depois do infausto acontecimento. Que lhe restava em Hollanda, a que mais se chegasse?
Soárão-lhe os conselhos e exhortações do padre Antonio Vieira como uma esperança mais para se conciliar com Deos e com a Igreja. Abrindo-lhe a companhia de novo os braços, regressando para o seu gremio, dedicando-se ao seu serviço, volvendo para a sua patria, não conseguiria rever os pais e a familia querida, receber o seu perdão igualmente, e gastar os ultimos dias de vida de um modo util, proveitoso e santo?
Não o aterrorisavão os trabalhos e sacrificios que se lhe reservavão. Não temia os perigos da tarefa de missionario, porque elles o exaltarião no amor de Deos, e o{227} fortalecerião na fé do culto catholico. Não poderia commetter feitos que lhe remissem os peccados, e afeiçoassem a misericordia divina?
Preparou-se para partir, abandonando Hollanda para sempre. Não podendo seguir por terra e embarcar-se em qualquer porto de França, por causa do dominio castelhano na Belgica, tomou passagem em um navio hollandez que seguia de Rotterdam. Recebeu cartas de recommendação do padre Antonio Vieira para o provincial dos Jesuitas em Portugal, para alguns funccionarios importantes e fidalgos distinctos em Lisboa, e particularmente para Dom Francisco Manuel de Mello. Despedio-se do Jesuita seu protector, que tinha de partir para Munster, no serviço do seu soberano.
Não quiz esquivar-se á obrigação de dizer o ultimo adeos áquella que lhe dominára em vida o coração e o espirito, e o hallucinára{228} a ponto de perder a sua razão e comprometter a sua alma. Seguio para Amsterdam, que lhe recordava acontecimentos que lhe parecêrão felizes a principio, e se lhe tornárão depois tão dolorosos e infaustos. Dirigio-se para o cemiterio, aonde parava a sepultura querida. Ornava-a uma columna de marmore, cercada por uma grande cadeia de ferro. Em grandes lettras douradas se esculpira o nome de Beatriz de Moraes, com a data do seu nascimento e da sua morte. Pallidas roseiras lhe vicejavão em torno, e um cypreste sombrio lhe deitava por cima os galhos dispersos e desordenados. Rodeiavão a grade pequenos arbustos, brotando flôres merencorias nas estações competentes.
Impressionárão-lhe profundamente o aspecto do tumulo, o silencio que reinava, e as reminiscencias que lhe assaltárão o animo. Approximou-se com respeito, e rebentárão-lhe dos olhos prantos amargurados. Ajoelhou-se,{229} dirigio suas preces a Deos, e atirando-lhe em cima ramos de flôres saudosas, exclamou enternecido:
—Mulher adorada! uma fatalidade inesperada nos reunio, uma louca paixão nos enlaçou, um crime nasceu do nosso amor! Fomos mutua causa das nossas desditas e calamidades. Assim nos perdôe Deos no mundo da eternidade, para o qual já te passaste, e aonde não tardarei a seguir-te! Só Deos é grande!
Lançou-lhe um derradeiro olhar. Tinha cumprido com os seus deveres. Affrontára a provança cruel, e a dominára com força.
Embarcou-se em Rotterdam para Lisboa.
Atirárão os mares por vezes o miseravel baixel sobre as costas de França e de Inglaterra, ao atravessar o canal perigoso que as separa, e aonde os ventos se encrespão com tanta furia, e se desencadeião com espantosa e repetida violencia.{230}
Dobrado o cabo de Finisterra, não o poupou o golpho da Gasconha, celebrisado pelas suas constantes tormentas. Ondas precipitadas, correntes de agua, e furacões desordenados, parecião pretender devorar o galeão e os seus hospedes imprudentes.
Vencêrão os nautas todos os perigos. Ao entrarem porém no Oceano, dir-se-hia ainda que as costas de Portugal os repellião, enviando-lhes ventos impetuosos de leste, que os arrastavão para o largo. Mais de quarenta dias despendêrão até que lograssem avistar as montanhas de Cintra. Aproárão á barra do Tejo, com os mastros do galeão partidos, velas rasgadas, cortado em pedaços, e falta quasi completa de alimentos e aguada. Dobrárão felizmente o cabo, e penetrárão dentro das aguas mansas do rio, e no meio das fortalezas que o guarnecem e vigião.
Saltou Manuel de Moraes, e soffreu, como era habitual do tempo, infindos e minuciosos{231} interrogatorios, e visitas rigorosas. Dirigio-se para a casa da companhia de Jesus, e se apresentou ao provincial, que, ao tomar conhecimento das recommendações do padre Antonio Vieira, o acolheu com benevolencia e carinho, ainda que com sorpresa e susto.
Não terião decorrido duas horas depois que se abrigára ao Instituto de santo Ignacio, quando soldados armados, e fâmulos cobertos com as insignias do Santo Officio da Inquisição, se apresentárão á porta da casa santa, exigindo fallar ao provincial, e derramando espanto no claustro e em todo o povo da vizinhança.
Levados á presença do veneravel sacerdote, intimárão-lhe uma ordem do tribunal, reclamando a entrega de Manuel de Moraes, chegado de Hollanda, e asylado na companhia, réo dos crimes de abjuração e apostasia, e sujeito á jurisdicção do Santo Officio.
Conferenciou o provincial com varios padres{232} respeitaveis e illustrados sobre o que lhe convinha praticar em honra do Instituto e em defesa dos seus direitos. Concordárão todos unanimemente, que offendia os fóros e privilegios da companhia a ordem inaudita do tribunal da Inquisição, mas lhe não podia o provincial oppôr resistencia, cumprindo-lhe apenas entregar o preso, e dirigir os seus protestos ao governo e ao soberano, afim de reinvindica-lo como membro do Instituto, e julga-lo segundo os seus regulamentos, quando se lhe imputassem crimes dignos de punição e castigo.
Executou-se a ordem do Santo Officio. Sahio Manuel de Moraes da casa da companhia de Jesus, e se passou para o poder da Inquisição. Corria então o anno de 1645.{233}