CAPITULO IV

Chamava-se Loreto a aldeia que tinhão em presença os aventureiros paulistas. Fôra uma das mais modernamente creadas e edificadas pelos Jesuitas, e a mais conchegada ás fronteiras que dividião os territorios conhecidos de Portugal e Hespanha. Havia o governador do Paraguay fundado Villa Real em 1557 na juncção dos rios Paraná e Piquiri, e em 1577 Villa Rica sobre o Ivahy, chamando para povoal-as os gentios guaranys; Não parecendo marchar a catechisação e{76} civilisação dos indigenas com o dominio das autoridades civis, cedeu o governo da metropole aos missionarios jesuitas as duas mencionadas aldeias, e os autorisou a organisarem outras, com que formassem a provincia denominada de Guayrá, submeltida á corôa hespanhola.

Tomárão conta os Jesuitas da direcção das duas povoações, e augmentando o numero dos indigenas que adoptárão a religião catholica, e se declarárão promptos a obedecer-lhes, estendêrão para as margens superiores do Paraná a largueza das suas posses, e a dominação da sua provincia. Santa Maria Maior sobre o rio Iguassú, São Francisco Xavier na embocadura do Imbiberalá, Arcanjos em Tayoba, Santo Ignacio no Iquatemy, São Pedro nos Pinhaes e Loreto no Pirapó, devêrão o seu nascimento aos primeiros annos do seculo XVII, e aos trabalhos exclusivos dos intrepidos discipulos de santo Ignacio.{77}

Não se poupárão os padres a fadigas. Sorria-lhes a idéa de attrahir ao catholicismo almas de gentios, e de protegê-los nos seus direitos e liberdade. Encontrando fertilissimo solo, rasgado por numerosos cursos de agua, e collocado nas duas margens do Paraná desde o Iguassú e o Igurey até o Paranapanema e Pardo, e copiosa quantia de gentios mansos e submissos, que por alli residião, começárão o edificio de um Estado independente no proprio centro dos dominios portuguezes e castelhanos da America.

Lográrão da corôa hespanhola prohibir a entrada na provincia de Guayrá a Europêos, qualquer que fosse a nação a que pertencessem, afim de lhes retirar o contacto dos innocentes indigenas. Á frente de cada uma aldeia collocárão um cura e tanto mais padres e irmãos quantos necessarios para a sua administração e regimen. Era o cura a autoridade principal, e poder executivo da missão,{78} tanto na parte civil como na ecclesiastica. Prestavão-lhe preito diversos funccionarios escolhidos d'entre os gentios, e incumbidos de funcções distinctas. Um corregedor, um lugar-tenente, dous alcaides, um porta-bandeira, sete administradores, um secretario e varios caciques possuia cada uma aldeia, além de officiaes de corpos milicianos, que os padres organisavão e disciplinavão. Dividião-se os gentios em officios. Applicavão-se á agricultura, que se compunha da canna de assucar, matte, trigo, algodão, feijão, milho, anil e tabaco; a fabricas de farinha e officinas de serralharia, carpintaria e outros misteres. Aprendião o manejo das armas de fogo. Formavão uma communidade em que erão iguaes os deveres e direitos.

Recebião os padres nos seus armazens todos os productos da industria dos habitantes da aldeia. Remettião-nos pelos rios e em balsas para Santa-Fé, Buenos-Ayres e ás vezes directamente{79} para Hespanha, aonde erão vendidos, e aonde se compravão os objectos precisos para as necessidades e commodidades dos gentios. Do saldo tiravão a quantia correspondente ao imposto de um peso annual por cabeça de gentio catechisado, o qual competia e se entregava ao governo de Hespanha, segundo a estatistica organisada pelos curas, que para defraudar a corôa não incluião nas listas os menores de vinte annos, as autoridades em exercicio, e os proprios doentes. O que restava ainda se remettia ao geral do Instituto residente em Roma.

Separavão-se nos trabalhos as mulheres, os homens e as crianças, fixando-se a cada um a parte que lhes cumpria executar no dia. Os sós casados vivião na mesma choupana, formando-se quarteirões destacados e particulares para os solteiros e viuvos, para as donzellas e meninos.

Dominava sobre os curas das aldeias de{80} Guayrá o collegio dos Jesuitas fundado na Assumpção, ao qual prestárão obediencia todos os varios nucleos da companhia estabelecidos nos territorios do rio da Prata e seus tributarios até que em Cordova se creou a séde principal do Instituto, e se deliberou a residir ahi o seu principal, assistido por quatro consultores ordinarios e tres extraordinarios, estendendo a sua autoridade sobre os demais collegios espalhados pela America meridional. Existião nos collegios seminarios de instrucção primaria e secundaria, e os dominios hespanhóes de Buenos-Ayres, Paraguay e Tucuman chegárão mais tarde a contar em seu seio cerca de trezentos padres e cem irmãos, além de numerosos noviços.

Erão semelhantemente, e segundo o mesmo plano, edificadas todas as aldeias. Uma grande praça, quadrilatera na extremidade, terminada na ultima linha pela igreja no centro, tendo ao lado direito uma torre,{81} a casa dos Jesuitas, e os armazens que guardavão as mercadorias, e á esquerda o cemiterio, e a habitação das viuvas e donzellas, que se separavão desde a infancia da companhia dos pais e da familia. Quatro cruzes grandes, postadas nos cantos, e uma columna elevada no centro, coroada pela estatua da santissima Virgem, ornavão a praça, á qual em linhas regulares e direitas communicavão as differentes ruas em que se partia a aldeia, povoadas de ambos os lados por predios iguaes na architectura exterior e interior, e cobertos de telhas vermelhas.

Usavão os varões de camisa, calça, ponche e barrete de algodão, e as mulheres de camisa comprida, chamada tipay, sem mangas, apertada ao pescoço e á cintura. Andavão todos de pé no chão, e se permittia apenas aos caciques e funccionarios trazerem os bastões designatorios dos seus cargos particulares.

Mantinha-se a mais perfeita igualdade nos{82} trajos e objectos concedidos aos gentios, nas rações e trabalhos que se lhes fixavão.

Praticavão os corpos milicianos exercicios de guerra aos domingos, ensaiando-se no esgrimir as espadas, disparar tiros, despedir frexas, e atirar com fundas pedras lavradas á maneira de bola. Terminado o exercicio, se recolhião as armas aos armazens, e se conservava a população sem o menor elemento de defesa.

Além da escripta, leitura e arithmetica, ensinavão os padres a musica e o canto, e formavão artistas para as solemnidades e festas da Igreja e da communidade, com a que captivavão os gentios, que se mostravão, em geral, propensos ás artes liberaes.

Acordavão os gentios ao som do sino da igreja, que lhes annunciava a alvorada do dia. Reunião-se para as preces. Seguião depois para os seus trabalhos respectivos guiados pelos seus fiscaes. Erão os castigos infligidos aos{83} delinquentes por um tribunal composto das autoridades da aldeia, sob a presidencia do cura.

Andava assim governada a provincia de Guayrá na época em que Matheus Chagas penetrou em seu territorio com a bandeira ao seu commando, e que foi uma das primeiras dirigidas pelos aventureiros paulistas contra as missões jesuiticas do Paraná superior, e cujos assaltos posteriores as destruírão por tal fórma, que os padres convencêrão aos gentios da necessidade de abandonal-as inteiramente, retirar-se para territorios inferiores do rio, e formar ahi novas aldeias, aonde escapassem ás correrias dos seus inimigos, que elles denominavão de mamelucos.

Observámos já que Loreto era a mais afastada reducção dos dominios castelhanos. Conteria oito ruas com uma população de duas mil almas de ambos os sexos e todas as idades.{84} Estavão cultivados os campos em roda, e offerecião abonos claros de prosperidade. Pastavão tranquillamente animaes domesticos. Vivião quietos os gentios da aldeia, sob o regimen communista dos missionarios, e nem-um acontecimento alterára ainda a paz de Loreto desde a sua fundação.

Não tinhão porém os Portuguezes de São Paulo, e nem portanto os aventureiros exploradores, o menor conhecimento dos feitos dos Jesuitas e da situação e estado das reducções da provincia de Guayrá, desde que passárão para o poder temporal, espiritual e exclusivo da companhia. Pensavão ainda, dando credito ás ultimas noticias espalhadas, que os gentios desejavão soccorros dos Portuguezes para combater os Castelhanos, e estes possuião ahi prata e ouro em quantidade, produzida pelos terrenos proximos sem grande trabalho do homem. Não excedião as idéas moraes dos colonos portuguezes de então{85} as idéas dos Hespanhóes, posto fossem menos crueis e barbaras. Nutrião porém aquelles contra estes grandes sommas de odio, quer pelos interesses contrarios de vizinhança na Europa e America, quer por estar o reino de Portugal avassallado n'esse periodo ao de Castella, e formar uma provincia da monarchia hespanhola desde o anno de 1580, em que Felippe IIº o acurvára ao seu jugo pela força e violencia, e o mantivera e legára aos seus successores castelhanos com tradições de terror, que irritava o povo lusitano, e o desesperava cada vez mais contra o dominio do captiveiro, incitando-lhe constantemente os brios para se levantar e recuperar a sua independencia.

Repousava portanto a razão principal dos assaltos dos Portuguezes de São Paulo contra as missões de Guayrá no desejo de guerrear mais aos Castelhanos que aos gentios, ainda que não poupassem a estes pela cobiça de escravisa-los{86} e vendê-los, afim de lograrem vantagens proveitosas.

Scientificado Matheus Chagas pelos seus espias da situação do Loreto, prohibio aos companheiros dessem o mais pequeno indicio da sua presença, afim de não levantarem suspeitas, e nem alterarem o socego de que os inimigos gozavão. Incitou os aventureiros a atacarem a povoação, que em sua opinião possuia riquezas extraordinarias. Applaudirão-no todos, á excepção de Manuel de Moraes, que exigia reconhecer primeiro se erão contrarios ou amigos, pois que o ultimo caso lhe parecia acção má e digna de castigo do céo. Desprezárão-lhe os companheiros o aviso, e ao amanhecer de um dia, logo que Matheus Chagas notou que a maior parte dos habitantes estava occupada fóra da aldeia, e descuidados os que n'ella permanecião, deixou a guardar o campo alguns que lhe parecêrão mais fracos, e entre elles o proprio{87} noviço, e partio com a sua gente aprestada para o combate.

Encontrárão primeiramente no campo cerca de cincoenta gentios, que reconhecendo inimigos deitárão a fugir para a aldeia. Perseguírão-nos os aventureiros, e entrárão todos na povoação quasi ao mesmo tempo, no meio de um infernal alarido. Tentárão os indigenas defender-se, e comquanto resistissem com furor e denodo, achando-se sem armas, por estarem ellas guardadas nos armazens da companhia, cortava vigorosamente o ferro dos aventureiros por seus corpos, e bastárão poucas horas aos Portuguezes para se apossarem da povoação, que a maior parte dos gentios abandonou logo. Amedrontára os padres e os Guaranys o inopinado do ataque, e cahira em poder dos aventureiros cópia numerosa de gentios, que forão a pouco e pouco amarrados e trancados nas casas, havendo corrido sangue bastante{88} na luta e na perseguição dos fugitivos.

Senhores os aventureiros da povoação, cuidárão em examina-la. Descobrírão nos armazens mantimentos de boca, armas de fogo, munições de guerra, instrumentos de combate, roupas e vestes, aguardente, e muitos outros objectos de valia. Encontrárão na igreja lampadas, castiçaes de prata, e preciosidades agradaveis. Saudárão com vivas estrepitosos o seu triumpho assignalado. Espantárão-se porém de não deparar com Hespanhóes, que pensavão dever alli existir igualmente.

Passou Matheus Chagas ordens apertadas para que se regularisasse o serviço. Mandou vir do seu campo os individuos que lá deixára. Contou e separou os prisioneiros, pela maior parte caciques velhos, mulheres e crianças, que se não tinhão podido evadir, e dividio os presos por diversos sitios guardados{89} com sentinellas. Tratou de recolher e ajuntar os objectos, e tomou providencias e cautelas para responder aos que ousassem retroceder, e roubar-lhe os fructos da victoria.

Conhecendo porém que estava em paiz inimigo, e se não deveria prudentemente alli conservar, applicou toda a sua attenção ao aproveitamento do que pudesse conduzir comsigo, tencionado a desamparar quanto antes a aldeia. Cumprindo partilhar os despojos, consistentes em preciosidades, armas, roupas, animaes, e prisioneiros, manifestárão-se pretenções oppostas, que quasi degenerárão em uma luta civil, teimando cada um dos aventureiros no desejo e cobiça de receber o mesmo objecto. Conseguio o chefe pôr cobro ás pretenções exageradas, fazendo approvar a ideia de uma especie de loteria ou sorte para a divisão immediata dos prisioneiros, animaes e vestimentas, guardando-se em{90} deposito as cousas de valor para serem rateadas em São Paulo.

A cada um tocára um numero correspondente a lote quasi regular e igual. Declarou Moraes que se contentava pela sua parte com os prisioneiros velhos, mulheres e crianças, que erão incapazes de ser transportados, porque náda queria aceitar na partilha, e preferia conceder-lhes a liberdade, e deixa-los em socego. Não entrou assim na loteria organisada, e cuidou logo em dar mantimentos e consolar aquelles infelizes, que lhe agradecêrão fervorosamente a caridade, tanto mais espantados quanto lhes aterrorisavão as imaginações as noticias que entre elles propalavão os padres de que os mamelucos de São Paulo ajuntavão á cobiça ferocidade exaltada, e não tinhão a menor idéa de religião e piedade.

Accommodados os aventureiros, e tomando cada um conta do que lhe pertencia, preparou-se{91} Matheus Chagas para deixar a aldeia. Não raiavão ainda os primeiros arrebóes da madrugada quando começou a bandeira paulista a sua marcha retrograda, collocando-se gente armada na frente, os prisioneiros amarrados, aggrupados, e cercados no centro, os cavallos e bestas carregadas na retaguarda, defendidos e guardados pelos mamelucos.

Não tinhão ainda sahido de todo da povoação, quando estouros fortes e prolongados se ouvírão, e logo após signaes de incendio que rebentára em varios pontos extremos da aldeia. Crescêrão os fogos amiudados, e uma nuvem espessa de fumaça encheu ao principio os ares, que se aclareárão paulatinamente com as luzes do incendio.

Dir-se-hia dia claro, posto a atmosphera se tornasse cada vez mais pesada e quente. Amedrontárão-se os aventureiros, ignorando se o acaso ou deliberada intenção dos gentios causára o incendio ameaçador. Apressárão-se{92} em desamparar a aldeia, recommendando Matheus Chagas aos aventureiros se prevenissem de ciladas.

Multiplicavão-se as chammas, incitadas por um vento fresco do Norte que rijamente assoprava. Illuminárão-se horrivelmente a aldeia, os campos e florestas adjacentes. Gritos espantosos atroárão os ares como se formassem uma infernal orchestra. Estalavão os tectos e portaes das casas, rolavão por terra pedaços dos edificios, telhas soltas, paredes desmoronadas. Atopetavão-se as ruas com destroços, que impedião a livre passagem, e davão immensos trabalhos aos aventureiros para as atravessarem.

Parte d'elles se semeava já por fóra da povoação, e a retaguarda tentava dentro ainda evadir-se ao perigo, e ajuntar-se aos que marchavão adiante.

A numerosos gritos soltados de longe, e cujo sibillo augmentava o pavor produzido{93} pelo incendio, e causado pelas ruinas do fogo, e pelas chammas, que esclarecião a aldeia e envolvião a parte superior do horizonte em nuvens negras, descortinárão os olhos dos aventureiros paulistas massas armadas de Guaranys, que se lhes puzerão por diante; lhes atacárão os flancos, apparecêrão por detrás, e lhes circumdárão os caminhos.

Travou-se uma peleja sem ordem, sem direcção, e nem regularidade. Cada um dos aventureiros tratou de combater como pôde, apercebendo-se emfim da cilada que lhes tinha sido traçada, e descobrindo que se havião introduzido surrateiramente na aldeia e durante a noite, gentios de fóra, para coadjuvarem os que devião correr em soccorro do arraial. Nem lhes era dado avaliar o numero dos inimigos e adivinhar o resultado do combate. Balas de espingardas, settas disparadas, tiros de funda, abrião-lhes as fileiras, zunião-lhes pelos ouvidos, ferião-lhes companheiros,{94} matavão-lhes amigos, ao lado, atrás, adiante, e perto. Pancadas de tacapes pesadas, golpes vibrantes de espadas, sangrias de faca e punhal, succedêrão ao primeiro ataque, e lhes trouxerão a luta de corpo a corpo, e de homem a homem, que é a mais cruel e ceifadora de vidas.

Terrivel espectaculo, que illuminavão por vezes as chammas estridentes do incendio devorador da aldeia, que parecia desabar, estorcendo-se em angustias doridas. Echoavão gemidos, exclamações, algazarras, sons de ferros, e estrepito de fusilaria.

Tropeçava-se por cima de homens vivos e de cadaveres. Esbarrava-se com cavallos e mulas carregadas. Cutilavão-se mutuamente Portuguezes e mamelucos, Carijós e Guaranys, sem quasi se conhecerem. Durou a peleja até que a aurora radiou risonha, e embranqueceu de todo o firmamento.

Notou-se então uma scena tristissima de desolação.{95} Desde as ruas extremas da aldeia até não pequena distancia do campo contiguo, aonde chegára a vanguarda dos aventureiros, cobrião o solo cadaveres de homens e de animaes sem conta; misturados com cargas, armas dispersas, e objectos desgarrados; inundados de sangue, e cobertos muitos com restos do incendio, elevados pelo vento ao ar, e cahidos depois sobre os proprios combatentes.

Poucos aventureiros lográrão salvar-se pela fuga. Sua maior quantia ficou estendida e morta no campo da peleja; raros forão os prisioneiros, e todos feridos mais ou menos gravemente. Havião os Guaranys vencido, e vingado a sua anterior affronta. Tratárão as suas autoridades de dar fim á luta, e de restaurar a aldeia, apagando o incendio, tomando posse d'ella, recolhendo o que pudessem salvar das garras dos aventureiros, pondo ordem no povo, e fazendo enterrar as victimas do combate.{96}

Achavão-se numerosos individuos de um e outro partido entre os cadaveres. Matheus Chagas, Antonio da Costa, e varios outros dos principaes aventureiros perecêrão na peleja. Quatro ou cinco Paulistas feridos se tirárão do meio do campo, e se recolhêrão á prisão. Era Manuel de Moraes um d'estes ultimos infelizes. Recebêra uma frexada no braço, e uma bala de espingarda na perna. Não o ameaçava perigo, mas soffria dôres agudas e penetrantes.

Confiárão-se os prisioneiros aos fiscaes do hospicio, com instrucções para os curarem e guardarem até que se decidisse a sentença dos competentes juizes, incumbidos do seu julgamento. Quando se restabeleceu Moraes das suas feridas, soube com dôr e magoa que os proprios companheiros, que tinhão ficado igualmente prisioneiros, havião já expirado nas prisões respectivas por não poderem resistir á gravidade dos seus ferimentos.{97}

CAPITULO V

Não foi longo e nem demorado o processo de Manuel de Moraes. Depuzerão em seu favor varios caciques e mulheres, que summariárão os seus actos de humanidade durante a occupação da aldeia pelos Paulistas aventureiros. Valêrão-lhe tão significativos testemunhos, e o proprio habito com que se cobríra, e o fizera reconhecer por membro da companhia de Jesus. Determinou a sentença lavrada pelo tribunal respectivo que fosse expulso da aldeia, enviado para Santa-Fé, e{98} ahi entregue ao provincial dos Jesuitas para lhe impôr as penas que julgasse necessarias, attenta a sua qualidade de noviço que abandonára o Instituto de santo Ignacio, e se alistára nas bandeiras dos aventureiros paulistas.

Acompanhado por Guaranys armados seguio Moraes por terra para Villa Rica, que distava não menos de sessenta leguas de Loreto. Conservárão-no ahi preso os padres da povoação por mais de dous mezes, esperando que se apromptassem as balsas que tinhão de expedir para Villa Real com generos e objectos de mercancia.

Embarcou-se emfim Manuel de Moraes, confiado a um irmão da companhia, por nome Cialdini, e a mais de trinta Guaranys, que servião de guardas, e marinheiros dos barcos numerosos que partião carregados de productos da industria das reducções. Descêrão o rio Ivahy, povoado de arvoredos{99} frondosos. Penetrárão no Paraná, e logo que descobrírão a ilha grande, tomárão a embocadura do Pequiri, e atracárão á Villa Real, que repousava docemente á margem d'este rio, e constituia a reducção mais importante e populosa da provincia de Guayrá, governada pelos Jesuitas. Não podião ahi as balsas continuar a descer as aguas do Paraná, porque começava um enormissimo salto, conhecido pelo nome de Sete Quedas.

Nem-um espectaculo, por mais soberbo e admiravel, extasiava tanto os olhos dos viajantes como o da famosa cascata que n'este sitio formavão as aguas do rio Paraná. Dividião-se para deixar erguer-se do seu seio uma ilha espaçosa, coberta de florestas espessas e sombrias, que contrastavão magnificamente com a claridade das aguas, precipitadas á roda. Reunindo-se de novo as massas poderosas do liquido elemento, recuperavão uma largura e extensão de mais de duas mil braças. Ião-se{100} depois estreitando, aprofundando o solo, e aterrorisando com rumores espantosos e roncos estridentes. Apertavão-se em menos de quarenta braças, e arrojavão-se então de uma altura superior a quatrocentos palmos até cahirem em uma bacia estupenda, que formava um lago de quasi duas milhas de diametro.

A oito leguas de distancia se percebia o ruido da cascata. Uma poeira humida levantavão as aguas á elevação grandiosa, formando atravessada pelos raios do sol os arcos iris mais harmonica e variadamente coloridos que se podião imaginar.

Pullulavão na enormissima bacia coroada de densas e phosphorescentes nuvens de vapor ilhéos numerosos, repletos de arvores gigantescas, que matizavão a scena com delicias ineffaveis.

Rolavão ainda de novo as aguas por sete precipicios seguidos, carregando comsigo{101} jaguáras pardas e pintadas, antas, serpentes hediondas, e toda qualidade de animaes do sertão, que se acoutárão nas ilhas durante as seccas, e não tiverão tempo e nem forças para nadar e evadir-se, apenas começárão as aguas a avultar e engrandecer-se. Acolhia-as com gemidos profundos, ecchos dolorosos e repetidos, uma segunda cratera, inçada de picos e rochedos, que parecião erguer-se, e pretender, como os Titães antigos, escalar os céos, resvalando-lhes pelos flancos raios repentinos de luz, que produzia o reflexo do sol por entre a fumaça das aguas, e que se afiguravão de longe verdadeiros coriscos durante o dia, e edificios de pedra alvissima através da escuridão da noite.

Não se podia ahi fallar, porque se sumia a voz humana ao estrondo rouco, monotono e sombriamente horrivel da cascata portentosa.

Mais de tres mezes se demorou Moraes em Villa Real, occupado, pelos padres que a dirigião,{102} no serviço da Igreja e das cousas sagradas, posto persistisse em assegurar-lhes que não volveria mais para o Instituto de santo Ignacio, comquanto guardasse no peito as mais gratas e saudosas reminiscencias pelo acolhimento que recebêra, instrucção que adquiríra, e sympathias que alcançára.

Seguio então por terra com copiosa caravana de gentios, e animaes carregados de mercadorias, para a povoação de Santa Maria Maior, edificada á margem quasi da barra do rio São Francisco na sua absorpção pelo Paraná, e abaixo do salto das Sete Quedas. Tornárão todos a embarcar-se n'este sitio em novas e numerosas balsas, que dirigir-se devião directamente para Santa-Fé, visto que a navegação não offerecia obstaculos mais e nem perigos. Conservava-se Moraes guardado tão cuidadosamente como o fôra desde o Loreto, gozando comtudo da companhia do irmão Cialdini, cùja pratica interessante lhe ganhára{103} cada vez mais o affecto e sympathia.

Cerca de um mez gastárão na descida do Paraná até onde elle recebe o curso do Paraguay engrossado pelas aguas do Vermelho, e cujas barras se denominão das Tres Bocas.

Extasiára-se Manuel de Moraes diante d'essas scenas variadas e sublimes da natureza, e da magnificencia deslumbrante do rio. De um e outro lado florestas virgens, copadas e gigantescas, que provavão a uberdade do solo; rios poderosos que se vinhão ajuntar ao Paraná, que já por si assoberbava os olhos e a imaginação com as grossas e caudalosas massas de agua que rolava, e que se dirião de um vasto oceano; aves de todos os tamanhos, fórmas e coloridos, guarás, anuns, e garças, esvoaçando ao rumor dos remos, e grasnando amedrontadas, para se esconderem nos galhos viçosos do resplendente arvoredo ou se entranharem nos brejos reconditos; jacarés enormes, dormindo ao calor{104} do sol, e que saltavão de subito das ribanceiras, e mergulhavão no vasto pego, como em fortaleza segura.

Mais que o dia claro e limpido deslumbravão as noites deleitosas no seio das solidões. Que painel primoroso e divino quando os raios merencorios da lua, entornando uma luz melancholica por entre as folhas do arvoredo, que sombreava as aguas do rio, scintillavão phosphorescentemente por cima da sua superficie, formavão espelhos estrellados de ouro e prata, e reflectião o horizonte com todos os seus toques magistraes e voluptuosas ondulações!

Atravessárão-se sitios desertos e inexplorados então, e aonde os proprios Jesuitas fundárão depois missões novas, para acolherem os Guaranys atropelados constantemente na provincia de Guayrá, que abandonárão por fim aos Paulistas aventureiros. Em uma e outra margem existem hoje os povos de Corpus Christi,{105} Candellaria, Itaqui, Santa Clara, Trindade, São Cosme, e outras aldeias edificadas pelos famosos missionarios, quando na época a que nos referimos formavão apenas esses territorios immensos, escondrijos e asylos de animaes ferozes.

Descêrão os viajantes das Tres Bocas para Santa-Fé, e acolheu ahi o provincial do Instituto a Manuel de Moraes com carinho paterno, recommendando-lhe penitencias e cogitações serias afim de decidi-lo a volver para o serviço da companhia, que o receberia com os braços abertos, esquecendo-lhe as faltas commettidas.

Em despeito porém das exhortações e conselhos dos padres, apezar de mais de tres annos que foi coagido a demorar-se no convento, persistio Manuel em sua deliberação anterior, e firme proposito, que se não modificava com as circumstancias e eventos.

Concordárão então os padres em remettê-lo{106} por Hespanha para Roma, esperando que o geral da companhia fosse mais que elles afortunado, e se não perderia assim para o Instituto um moço, cujos talentos variados, e solida instrucção, divisavão todos que com elle se entretinhão.

Seguio portanto de Santa-Fé para Buenos-Ayres em uma lancha, que praticava regularmente a navegação entre os dous portos do Paraná e Prata. Residio na casa da companhia o tempo que necessitárão os aprestos de um comboio de embarcações que se tinha de dirigir para Cadix, acompanhado por dous bergantins de guerra hespanhóes, e incumbidos de amparar e defender os vasos do commercio contra as esquadras e corsarios hollandezes, que infestavão os mares.

Ajudou aos navegantes um violento pampeiro, que os tirou em pouco tempo das aguas perigosas do rio da Prata, e os precipitou no seio do oceano Atlantico. Achava-se Moraes{107} em face do outro assombro da natureza, o mar immenso, profundo, tranquillo, ou agitado segundo as crises das correntes e as violencias do vento. As florestas virgens, os rios selvagens e inavegados, os animaes bravios, as cataractas estupendas, os sitios pittorescos, as planicies e montanhas, constituia tudo isso o deserto americano, e formava ao certo uma maravilha, em que o bello, o sublime, o grandioso e o infinito se abraçavão sem que a arte cooperasse para o quadro magestoso. Contrapunha-se-lhe agora o oceano, que sabia gemer tambem como as mattas reconditas, alvoroçar-se como a cratera dos saltos, roncar e enfurecer-se como o jaguára, e o surucucú, e mudar constantemente de physionomia, situação, e colorido, como a varia atmosphera que rodeia a creatura humana.

Corrêrão velozmente os navios para o Norte assoprados pelas aragens frescas de galernos favoraveis, posto fossem coagidos os mais veleiros{108} a reter de quando em quando a sua marcha, afim de esperarem pelos mais pesados, e não se desligarem do comboio, que pelo numero e união dos seus vasos lograria conter piratas e inimigos.

Estavão já pela altura da ilha de Fernando de Noronha, semeiados os navios como uma frota, e communicados constantemente por meio de signaes com os dous bergantins de guerra que os escoltavão, quando velas estranhas rasgárão o horizonte, e apparecêrão aos olhos, ainda que a grande distancia. Deu rebate ao coração dos navegantes o inopinado do caso, e sustos geraes se lhes incutírão nos animos. Serião inimigos? Pretender reconhecê-los não equivaleria a expôr-se mais aos perigos? Fugir-lhes não significaria medo, e os não animaria no seu proseguimento?

Organisou-se conselho a bordo dos bergantins de guerra, que se approximárão um{109} do outro. Decidírão os commandantes preferivel evitar o encontro, e afastar-se o comboio, largando todas as velas para que corressem os navios com maior velocidade. Estavão infelizmente a barlavento as embarcações suspeitas. Percebêrão a manobra, e suspeitando o comboio, e imitando-lhe o exemplo, se precipitárão sobre elles a pannos abertos. Muitos do comboio, por mais veleiros, se forão sumindo, e escapando no seio do oceano e na immensidade do firmamento. Menos felizes, vírão outros os seus perseguidores ganhar-lhes a cada momento em distancia, e cerrar-lhes o espaço que os havia a principio separado. Figurava entre os ultimos o galeão Santo Ambrosio, a cujo bordo se achava Manuel de Moraes.

Ao approximar-se, içárão os navios desconhecidos bandeira dos Estados Geraes de Hollanda, e apresentárão um costado de guerra que mais contribuio para amedrontar{110} os Hespanhóes do comboio. Tiros de artilharia disparados logo após lhes intimárão o dever de parar, e sujeitar-se á inspecção e visita. O commandante do Santo Ambrosio pensou incutir-lhes sustos descarregando sobre elles a metralha de duas peças que o guarnecião, e esforçando-se no entanto em evadir-se. A este signal acompanhárão igualmente com tiros outras embarcações do comboio. Mas infelizmente para ellas não ficou muda a artilharia dos Hollandezes, que posto apenas oito vasos, se mostrárão mais bem tripulados e armados. Nuvens de fumo, cortadas ás vezes por fuzis de fogo, e o estrondo das peças, assoberbavão inteiramente a atmosphera. Abrio agua pela pôpa o galeão Santo Ambrosio, despedaçado por uma bala certeira. Mandou subito o commandante arreiar a bandeira hespanhola que levantára no começo da acção, e dar signaes de render-se para não ir ao fundo do oceano.{111}

Percebidos os signaes pelos Hollandezes, acudírão-lhes incontinente com lanchas ao mar para tomarem conta do navio vencido. Antes que ellas chegassem, rebentou infelizmente a bordo do Santo Ambrosio um incendio do paiol de prôa, que ameaçou devorar-lhe a tripolação, inquietada assim, e ao mesmo tempo pelas aguas do oceano que pela pôpa submergião o galeão desditoso. Achavão-se portanto os navegantes entre dous perigos fataes e horrorosos. Echoárão pelos ares gritos estridentes de desesperação, ais sentidos clamando por soccorro e misericordia. Reinou a bordo infernal anarchia, ninguem mais governando, ninguem mais obedecendo. Lançárão-se uns desordenadamente no seio das vagas do mar, cogitando salvar-se melhor no meio d'ellas que dentro do navio. Saltárão outros nos escaleres pendurados aos lados, cortando-lhes as cordas que os prendião, e arriscando-se{112} a quaesquer eventualidades. Agarrárão-se alguns a bancos de madeira, e com elles se deixárão resvalar pela superficie do oceano.

Conseguírão as lanchas hollandezas salvar bastantes desgraçados, posto crescido numero de Hespanhóes perecesse nos arrancos da dôr, e no jogo sorvedor das ondas. Contou-se entre os escapos Manuel de Moraes, mas nem presa pôde ficar dos Hollandezes o galeão Santo Ambrosio, que as labaredas do fogo e os ultrages das vagas destruírão totalmente em pouco tempo. Lográrão todavia os Batavos audaciosos colher ás mãos dez dos outros vasos do comboio, que não tiverão a fortuna de evadir-se, e com que applaudírão estrondosamente o seu feito e triumpho.

Chamava-se Henrique Long o chefe da frota hollandeza que aprisionára as embarcações referidas. Era um famoso marinheiro, que desde 1630, succedendo a Willekens,{113} Pict Heyne e Padrid, limpava os mares de navios hespanhóes e portuguezes, mercantes e de guerra, causava destroços inauditos no oceano, apoderava-se de cópia numerosissima de galeões adversos, e espalhava os sustos e terrores por toda a immensidade dos mares.

Ordenou Henrique Long que se levassem para o Recife as presas de valor e fossem entregues ao governo que administrava a colonia hollandeza do Brazil, queimando-se immediatamente os galeões imprestaveis. Dos dez vencidos escapárão quatro apenas, para cujo bordo se transferírão as cargas retiradas dos outros, os prisioneiros infelizes, e novas tripolações hollandezas. Deu-se então ainda um espectaculo merencório e attristador para os que se não havião a elle habituado. Lançou-se fogo ás seis embarcações condemnadas, que ardêrão no meio de robustas e estrepitosas chammas, e ao som de vivas partidos{114} dos navios hollandezes, que assistião alegres á scena miseranda.

Executadas as determinações do commandante, seguírão os quatro galeões para Pernambuco. Entrárão no porto do Recife, e derão contas ao conselho director da Companhia das Indias Occidentaes, que governava a conquista hollandeza.

Forão soltos todos os prisioneiros e abandonados a plena e inteira liberdade para procurarem á sua vontade meios de subsistencia e vida, já que havião sido despojados de quantos bens lhes pertencião. Corria o anno de graça de 1632 quando se achou Manuel de Moraes lançado no meio da povoação do Recife, dominado então pelos Hollandezes. Sob os mais infaustos auspicios se lhe abria o mundo livre, a que elle aspirára imprudentemente. Raiava-lhe a aurora da vida anuviada por clarões sinistros de amarguras e dôres physicas. Iniciava assim a sua marcha{115} debaixo das impressões mais crueis e sombrias, já que, por capricho do espirito, ou indefinidos impetos d'alma, desamparára a quietação e santidade do claustro para correr adiante de peripecias e aventuras que lhe preparavão o seu fatal destino e a sua estrella desventurada.{116}

CAPITULO VI

Desde que a nação portugueza, conquistada em 1580 pelos exercitos do duque d'Alva e pelas trahições da nobreza nacional degenerada, fôra reunida á monarchia hespanhola como sua provincia, timbrárão constantemente os Felippes de Castella em suffoca-la, arruina-la, e esbroa-la sob seus pés, quebrando-lhe os brios, sopitando-lhe os vôos de regeneração, e sumindo na miseria e na degradação as reminiscencias das passadas glorias e faustos heroicos. Cuidárão igualmente os Hollandezes,{117} inimigos de Hespanha, em roubar-lhe possessões transatlanticas, empossar-se das suas colonias, e estragar-lhe inteiramente o commercio maritimo.

Hespanholas se reputavão as terras americanas, asiaticas e africanas, que havião a Portugal pertencido quando constituíra um Estado independente. Não as poupou Hollanda, incitada pelas riquezas do solo. Da Asia e Africa lançou vistas igualmente sobre o Brazil. Organisára-se em 1631 uma Companhia de gente e capitaes pelas varias cidades dos Paizes Baixos afim de conquistar e usufruir as possessões americanas outr'ora portuguezas. Lográra approvação do governo dos Estados Geraes para os estatutos que a constituião sob o titulo de Companhia das Indias Occidentaes, e lhe concedião o direito de invadir, occupar e desfructar os territorios que conquistasse, pelo espaço de trinta annos a começar de 1624, com a obrigação de{118} entregal-os no fim do prazo ao governo, e receber em indemnisação o valor dos navios que possuissem, estabelecimentos que lhe pertencessem, e munições de guerra que lhe restassem.

Formárão-se os capitaes necessarios com a emissão de titulos ou acções, espalhados em Hollanda. Concorria o Estado com a somma annual de um milhão de florins para ajudar a Companhia, e com o auxilio de vinte navios de guerra para o seu serviço. Participava por este motivo da metade dos beneficios liquidos que lhe resultassem das suas emprezas.

Residia alternativamente em Amsterdam e Midelburgo a séde ou conselho director principal e supremo da Companhia, composto do stathouder de Hollanda como presidente, e de dezoito membros escolhidos pelas camaras e secções de accionistas de Amsterdam, Rotterdam, Groningue, Zelandia e Frisa. Competião á administração superior as attribuições{119} politicas e administrativas da Companhia, e d'ella partião as ordens necessarias para expedição de frotas e tropas, e augmentos das conquistas, como se fôra a Companhia um Estado e governo proprio e independente.

Traçára a Companhia encetar o seu dominio na America portugueza apoderando-se da Bahia de Todos os Santos. Conseguira em 8 de Maio de 1624 vencer e domar a cidade, aprisionando-lhe o governador Diogo de Mendonça Furtado. Teve porém de abandona-la no anno seguinte, diante das massas numerosas de gente armada que se formárão no reconcavo da capitania, e assediárão os invasores entrincheirados nas linhas da sua capital, ao passo que uma esquadra hespanhola, commandada por D. Fradique de Toledo, os punha em rigoroso bloqueio maritimo.

Não se desanimára todavia, e expedindo contra o Brazil novas forças em 1630, lográra{120} fazer saltar em terra no Páo Amarello o coronel Wanderburgo com cerca de tres mil soldados, que cahindo sobre Olinda, capital de Pernambuco, e apossando-se d'ella inopinadamente, obrigárão Mathias de Albuquerque, governador da capitania, a desamparar o porto do Recife, atacado por terra e bombardeado pelo mar, afim de achar abrigo no interior das terras, e fortificar-se no arraial do Bom Jesus, depois de ter queimado os armazens do Recife, e os navios ancorados no porto, para que não pudessem servir ao inimigo.

Estendêrão-se a pouco e pouco as posses dos Hollandezes em Pernambuco, em despeito da resistencia heroica dos naturaes e habitadores portuguezes do paiz, que valentemente commandava Mathias de Albuquerque, e dos gentios alliados, que o indigena Felippe Camarão denodadamente dirigia.

Reduzíra-se a cinzas o glorioso forte de{121} São Jorge, arrasára-se o heroico arraial do Bom Jesus, incendiára-se a fermosa Olinda; mas a Companhia progredia em sua conquista, e os Portuguezes e Brazileiros se forão recolhendo para o Norte e Sul, abandonando aos Hollandezes o territorio invadido, para o qual expedia a Companhia das Indias incessantes e poderosos auxilios de armas e soldados, e nomeára chefes activos e bravos.

Curvavão-se ao jugo hollandez os naturaes do paiz, que não puderão ou lográrão evadir-se, posto lhes prohibisse o conselho director da Companhia a celebração do seu culto religioso nas igrejas e templos que possuião, e que forão transferidos para o protestantismo, logrando apenas a faculdade de ouvirem missa catholica, e praticarem as suas preces no meio dos campos e praças, ao ar livre e publico. Passára-se o commercio para os agentes exclusivos da Companhia, consentindo-se unicamente aos Portuguezes o{122} cultivo das terras, e os trabalhos da industria agricola.

Era esta a physionomia do Recife quando desembarcou alli Manuel de Moraes, e tratou de procurar meios de vida. Partia-se a povoação em tres quarteirões distinctos. Os armazens, arsenaes, casas de negocio, fortalezas, e habitações officiaes e particulares, occupavão a lingua de terra que forma o rio Biberibe na sua juncção com o Capiberibe. Avassallava o segundo quarteirão a ilha de Antonio Vaz, creada no seio d'este ultimo rio, deserta e abandonada ainda. Além do Capiberibe e Biberibe estendia-se a capitania para o centro das terras, sem que nem-umas pontes o communicassem ainda com a ilha, e nem com o Recife. Atravessavão-se os rios em canôas e jangadas, que conduzião assucares e aguardentes que produzia a lavoura, e que vinhão a entregar-se aos agentes da Companhia, que os compravão pelo preço previamente estabelecido{123} nos seus regulamentos e annuncios.

Não lhe podendo valer a instrucção que adquirira no Instituto dos Jesuitas de São Paulo, e nem os dotes primorosos da intelligencia com que o mimoseára a Providencia, comprehendeu Moraes que o só trabalho manual lhe forneceria elementos de existencia, e cuidou portanto em applicar-lhe os seus recursos. Entregou-se aos misteres agricolas, alugando os seus serviços a um Portuguez que possuia terrenos á margem esquerda do rio Biberibe, no sitio em que se edificou posteriormente o notavel bairro da Boa Vista.

Corrêrão os dias, os mezes e os annos sem que lhe deparasse a sorte com meios de modificar a sua situação e estado miseravel e penoso. A varios generaes e chefes do conselho civil substituíra a Companhia em 1656 o principe Mauricio de Nassau, que tomando as redeas do Estado, prestou nova vida á{124} colonia hollandeza, augmentou-lhe os dominios até além do rio de São Francisco para as partes do Sul, e quasi no Maranhão as possessões do Norte. Tratava-se Nassau como soberano. Trouxera comsigo naturalistas para estudar as riquezas do paiz, como Piso de Leyde e o celebrisado Macgraff, historiadores como Barlous, litteratos como Francisco Plante, architectos como Pieter Porter, e pintores sahidos da escola flamenga, que já gozava de nomeada na Europa. Conseguio que a Companhia cedesse aos particulares hollandezes a liberdade do commercio, guardando unicamente monopolios em generos determinados, afim de augmentar a povoação do Recife, e enriquecer a colonia. Perseguio funccionarios prevaricadores. Pôz ordem nas finanças. Melhorou a administração publica. Reorganisou as forças militares. Acabou com arbitrios e abusos das autoridades subalternas. Permittio aos judêos levantar as{125} suas synagogas, e aos Portuguezes celebrar a sua religião e culto divino, e praticar conforme a antiga solemnidade as suas procissões apparatosas. Fundou escolas para os gentios. Mandou restituir os escravos fugidos a seus donos portuguezes, comtanto que estes prestassem juramento de obediencia ao governo de Hollanda. Levantou fortalezas no Penedo, Porto Calvo, na ilha de Antonio Vaz, e outros lugares. Traçou uma nova cidade n'esta ilha, delineando-lhe as ruas, e construindo n'ella um palacio para si com o nome de Wryburgo, com torres nas azas, e um observatorio astronomico ao lado. Communicou a ilha com o Recife por uma ponte lançada sobre o Capiberibe e Biberibe, que já ahi correm juntos e unidos. Á nova cidade edificada sobre a ilha deu o titulo de Mauricia, e em pouco tempo se cobrio ella de edificios e predios. Attrahíra assim o seu governo cópia numerosa de naturaes do paiz,{126} que não temião já perseguições e vinganças dos invasores, e não raros forão os que aceitárão então o dominio hollandez, notando-se entre elles João Fernandes Vieira, que fôra um dos bravos defensores do forte de São Jorge, e acompanhára Mathias de Albuquerque ao arraial do Bom Jesus, preferindo agora a vida socegada e industriosa, e tornando-se até um dos agentes financeiros da Companhia.

Trabalhava Manuel de Moraes uma tarde á margem do rio, limpando e arando a terra, quando gritos doridos lhe chamárão a attenção para a ilha de Antonio Vaz. Partião de dous cavalleiros que a todo o galope dos seus corseis corrião após uma dama cavalleira, que cada vez se afastava mais d'elles, vencendo-os na marcha veloz e precipitada. Estavão longe ainda, e se não podia adivinhar o motivo dos clamores. Ao approximar-se porém mais o ginete da dama que{127} vinha adiante, percebeu Manuel com susto que fugia o animal á redea solta, e não era mais domado pela cavalleira, que com difficuldade se sustentava na sella. Gravissimo perigo a ameaçava se mão estranha não segurasse o freio do cavallo disparado, e lhe não cortasse os impetos força de braço vigoroso.

Descobrir a scena, e acudir-lhe incontinente, cogitou Moraes no mesmo instante. Atravessar o rio em canôa equivalia a perder tempo, e nem canôa se encontrava perto. Posto as aguas estivessem crescidas, não hesitou um minuto em atirar-se no seu seio, vencê-las, e transpo-las, vestido como estava, para chegar ao sitio fatal, e servir aos seus intentos.

Bastárão-lhe poucos momentos para passar de uma para outra margem, da terra firme para a ilha. Precipitou-se sobre o cavallo disparado, agarrou-lhe as redeas e freio, e o conteve de subito. Esbraveceu o ginete de{128} raiva, vendo-se acurvado, e fortes tremores lhe agitárão o corpo. Com um dos braços sacou Moraes de cima dos arções a dama, que desmaiada depositou no chão, e cujos sentidos cuidou em avivar, tranquillisando-a com palavras animadoras. Chegárão no entanto os dous cavalleiros da comitiva. Era um d'elles um velho Hollandez, Guilherme Brodechevius, membro do conselho politico, amigo do principe Mauricio, e pessoa abastada e importante da Companhia das Indias. Apertou amigavel e fervorosamente a mão de Manuel de Moraes, perguntou-lhe por seu nome, officio e residencia, e prometteu-lhe lembrar-se do serviço assignalado que prestára á sua filha. A pouco e pouco recobrou a dama os seus sentidos, e quiz ver o homem que a salvára da morte, e exprimir-lhe de viva voz o seu reconhecimento.

Não tardárão em vir soccorros de gente, e uma liteira, que recebeu a dama, e a transportou{129} para a sua casa, emquanto Manuel tratou de recolher-se ao seu mesquinho alvergue.

Ou o proprio feito, ou a humidade das vestes, que tanto tempo conservára sobre o corpo, lhe não deixára conciliar o repouso. Com o correr da noite um insulto de febre violenta lhe quebrou as forças, agitou os membros, requeimou-o de fogo e arrancou-lhe o somno.

Horas tormentosas se passárão para Moraes até que o dia raiou, e linhas quentes do sol lhe rasgárão as frestas da janella do seu alvergue, sem que uma mão amiga lhe procurasse allivio ao mal que o suffocava, visto como só e isolado residia.

Tentou levantar-se, mas sentio fraqueza inexprimivel. Esperava resignado que o calor da temperatura lhe trouxesse recobramento de forças, quando ouvio bater á porta, e fallar uma voz meiga posto{130} desconhecida. Pôde a custo erguer-se, e abrir o miseravel ferrolho, volvendo logo depois para a velha marqueza, que lhe servia de leito.

Entrou o velho Hollandez, cuja filha salvára na vespera. Com difficuldade pôde responder-lhe Moraes ás perguntas, reconhecendo-se extremamente abatido e prostrado. Deixou-lhe Brodechevius um criado, que o havia acompanhado, para tratar o enfermo, munindo-o de dinheiro e instrucções no intuito de cuidar de Moraes, compromettendo-se a mandar-lhe immediatamente um facultativo que o examinasse e medicasse.

Regressado o velho á sua casa exigio-lhe a filha fizesse transportar para alli o enfermo, dando-lhe pouso na sua propria morada, porque ella propria desejava pagar-lhe a vida que lhe devia.

Não sabia Brodechevius recusar-se á vontade de sua filha Beatriz. Era o fructo unico{131} que lhe restava da sua finada e querida esposa, e dominava-lhe o animo e o coração com poder extraordinario. Desesperado com a morte da companheira, abandonára Amsterdam, aceitára um emprego no conselho director da Companhia das Indias, passára-se para o Recife, e ahi se estabelecêra, vivendo só para Beatriz, e cercando-lhe a vida com todas as delicias, que sóem adivinhar e descobrir o carinho e amor paterno.

Foi portanto Manuel de Moraes conduzido em uma padiola para a casa de Brodechevius, e recolhido a um aposento excellentemente preparado, aonde um facultativo se incumbio de trata-lo.

Tomou a febre um caracter maligno e proporções assustadoras. Visitava a miudo Beatriz o infeliz enfermo compellindo-o ás vezes a tomar os medicamentos aconselhados pelo facultativo, quando Moraes se recusava ao enfermeiro, animando-o com maneiras{132} gentis e expressões doces e sympathicas, e extasiando-o como um anjo, que lhe raiava á cabeceira, e lhe dirigia a vontade.

Tinha Beatriz estatura elevada. Era a sua idade de vinte annos. Longos e louros cabellos ondeavão-lhe por sobre a cabeça altiva, denunciando a sua origem do norte da Europa. Fronte larga e pura, physionomia oval e expressiva, olhos grandes e feições regulares, lhe davão ares de magestade mais que de delicadeza e doçura. Impunha o respeito pela seriedade do porte, como as antigas rainhas, que convertêra o catholicismo em santas da sua Igreja, tão graciosas na sua dignidade quanto imponentes na sua attitude.

Faltavão a doçura, a fineza delicada, e a suavidade meridional das imagens traçadas pelos Raphaeis e Murillos. Manifestava porém uma d'essas figuras grandiosas de sacerdotisas dos Gaulezes, como as cria a imaginação. Não resplandecião os seus olhos{133} voluptuosamente, inundando-se de paixões deleitosas. Mas dizião admiravelmente que se um dia sentissem os assaltos do amor, não serião estes transitorios e mundanos, inconstantes e ligeiros; elevar-se-hião á altura de dedicação firme e permanente.

Acostumava-se Moraes á direcção que lhe dava Beatriz, descobrindo pela primeira vez de sua vida o valor e poderio de uma mulher, que curva as vontades, e converte os seus admiradores em escravos submissos. Melhorava, considerava-se quasi restabelecido sempre que se pregavão os seus olhos n'aquelle semblante admiravel. Recahia e definhava na sua ausencia, parecendo chama-la constantemente para perto de si, se ella queria que elle não morresse. Fallava-lhe já o coração que era Beatriz indispensavel á sua existencia, e a pouco e pouco violenta paixão lhe tomou posse de todas as faculdades, e assoberbou-lhe todo o espirito.{134}

Não deixava a donzella de admirar igualmente a gentileza do moço, as suas maneiras nobres, que lhe não parecião coadunar com a condição em que o achára, as conversas delicadas, instructivas e interessantes, que manifestavão uma educação superior á sua profissão, e os pensamentos moraes e religiosos, que soía exprimir, e que abonavão uma alma pura e honesta, e um animo primoroso.

O que foi n'elle desde o principio paixão amorosa, iniciou-se em Beatriz como sympathia razoavel. Borbulhavão no peito de Manuel sentimentos fogosos e delirantes, que lhe assoberbárão o espirito. Deixou-se arrastar a donzella por uma affeição moral, que lhe descrevia as qualidades selectas do mancebo e o seu trato agradavel, passando da razão para o peito, e cavando-lhe a pouco e pouco o coração, como gottas d'agua, que esbroão a pedra progressivamente. Vagarosa, diremos mesmo razoavelmente, tomou a affeição{135} o caracter de amizade, e este o gráo de amor, acompanhando as phases da reflexão em luta com os sentimentos naturaes, até que estes conseguírão sobre aquella um triumpho decidido.

Mais de tres mezes durou a molestia de Moraes, aggravando-se e diminuindo alternativamente até que entrou em plena convalescença. Bastou esse tempo para criar e firmar nos corações de ambos os jovens o sentimento mutuo, que os prendeu um ao outro para todo o sempre.

Fizera-se Moraes conhecer e apreciar como um homem de raro merecimento, e que o só destino cego conservava em trabalhos inferiores á sua educação e intelligencia. Arranjou-lhe Brodechevius um emprego conveniente na administração da Companhia, em cujo exercicio entrou, sahindo-lhe de casa, e estabelecendo-se com decencia no Recife. Sem que suspeitasse o velho os mysterios{136} que lhe escondia o coração, abrio-lhe a sua sociedade, e continuou a dar-lhe os abonos mais evidentes de verdadeira estima.

Ao passo que o contacto incessante de Beatriz lhe aprofundava cada vez mais os sentimentos de amor que nutria, e lhe affeiçoava as vontades da donzella, sorvendo ambos a tragos saborosos a atmosphera incitante da paixão, ganhou Moraes relações com personagens importantes da Companhia, e se habituou aos costumes severos e puritanos de muitos Hollandezes distinctos, extremosa e convencidamente dedicados ao seu culto calvinista, e arreigados profundamente ás virtudes domesticas, e á vida intima e pura do lar e da familia.

Resistíra sempre o seu espirito altivo e independente á disciplina imposta e forçada. A instrucção que adquiríra dos dogmas da religião catholica não lhe havião ganho a razão, como elle proprio o desejára, para que{137} com a razão lhe sorrisse a fé que lhe cumpria ter na orthodoxia de Roma. Conservava já o seu culto mais por habito e instincto que por convicção, porque se impregnára de duvidas o seu animo, não distinguindo nas religiões senão as idéas moraes e as virtudes praticas. Mais convencidos e respeitadores do culto lhe parecião em geral os protestantes que os catholicos, avaliando os Hollandezes do Recife pelos Portuguezes de São Paulo.

A cogitações tão fataes lhe ia seguindo a indifferença espiritual e o scepticismo cruel e destruidor, que lhe abalava e estragava as fibras da alma. Concorreria o amor para esta phase desgraçada, que o desprendia da religião pura e santa de Roma, que melhor falla ao homem para a vida eterna, e mais perfeitamente lhe mostra a humildade e natureza da creatura diante do supremo autor do mundo?{138}

CAPITULO VII

Corria o tempo veloz e feliz para Manuel de Moraes. Cumpria com as obrigações do seu emprego. Applicava-se ás lettras e ás artes. Engolfava-se na contemplação do seu amor. Espirito e coração nadavão em prazer e delicias ineffaveis.

Sem que os dous amantes se tivessem mutuamente rasgado os segredos do peito, e confessado as suas ardencias apaixonadas, parecião comprehender-se entre si, porque no trocar dos olhos os feria a chamma, e nas{139} conversações familiares denunciavão as palavras de ambos os seus intimos sentimentos. Notámos já que o amor de Manuel de Moraes tendia a idéas e instinctos mais sensuaes, emquanto que o affecto de Beatriz se sumia no espiritualismo de um animo raciocinador, e menos dedicado ás cousas do mundo. Mais firme devia de ser o da donzella, porque nascia da convicção e da razão que o aceitárão, e dos pensamentos sublimes que ella nutria. Resplandecia como uma aureola celeste, e uma aspiração pura e santa. Dominava a paixão de Moraes os sentidos materiaes exclusivamente, avassallava-o pela fascinação, curvava-o pelo enthusiasmo, e pertencia mais á terra e á realidade, fragil e inconstante como o homem, exaltada e attribulada como todos os seus impetos.

Amavão-se, e bastava o mutuo sentimento para approxima-los, sem que percebessem as differenças que os arredarião mais tarde.{140}

Preparára no entanto Mauricio de Nassau uma poderosa expedição para augmentar os dominios dos Hollandezes no continente brazilico. Reunindo uma frota de vinte dous vasos de guerra, mandou embarcar tres mil e duzentos soldados hollandezes e mil gentios de Pernambuco, com quem entretinha relações amigaveis e excellente alliança, e passou ordens para se dirigirem para a Bahia do Salvador, e tomarem á força conta d'esta praça importante.

Partíra a frota, e penetrára na Bahia, descarregando gente que por terra coadjuvasse os navios na redição da cidade. Foi o assalto terrivel e medonho. Defendêrão-se com denodo os habitantes da praça. Tomárão os Hollandezes os fortes Alberto, Felippe, Bartholomeu, e Rosario. Pretendendo escalar o convento dos Carmelitas descalços, fortificado cuidadosamente, soffrêrão todavia resistencia tão azeda e pertinaz, que os compellio a recuar.{141} Tinhão perdido já cerca de mil e cem homens, quando conhecêrão que lhes não restava recurso, para não morrerem todos, senão no levantamento do sitio, e no abandono da praça. Volvêrão vencidos para o Recife os restos da famosa expedição effectuada pelos Hollandezes em Maio de 1637. Amargurára-se extremamente o principe de Nassau com este evento desastroso dos seus projectos. Traçou todavia ajuntar meios mais fortes e poderosos para os levar avante, não perdendo a esperança de annexar a capitania da Bahia aos demais territorios de que já estava de posse no continente americano, que se intitulava n'esse tempo de Brazil hollandez, para se distinguir do que sobrava ainda aos Portuguezes.

Tramava porém na Hollanda contra o principe um seu decidido inimigo, Christovão Artichfsky, Polaco de nascimento, general ao serviço dos Estados Geraes, e que{142} governára militarmente Pernambuco antes que se tivesse confiado a administração do paiz a Mauricio de Nassau. Proezas praticára Artichfsky, serviços distinctos commettêra, fama de valentia e coragem ganhára, durante as guerras em que anteriormente laborava a Companhia das Indias Occidentaes. Retirado do Recife ao chegar Mauricio, conservava creditos excellentes na Hollanda, e procurava vingar-se da preterição que reputava injusta, e da sua substituição pelo principe Mauricio no cargo principal da Companhia em seus territorios de Pernambuco.

Aproveitando-se da derrota soffrida pélas armas hollandezas diante da Bahia do Salvador, levantou opposições contra Mauricio no conselho director de Amsterdam. Logrou que sem se lhe tirar a autoridade civil e administrativa, confiasse o conselho a Artichftky o commando em chefe das forças militares, com o titulo de mestre general da artilharia.{143}

Chegado ao Recife, e empossado do seu novo cargo, encetou Artichfsky uma serie de correspondencias para Hollanda, censurando os actos do principe de Nassau, e pretendeu manobrar em Pernambuco independentemente da sua autoridade, e fóra da acção superior de Mauricio.

Exasperou-se o principe com o procedimento de Artichfsky, e reunio o seu conselho secreto e politico. Expôz-lhe a impossibilidade da existencia no Brazil hollandez de duas autoridades em luta e dissidencia. Manifestou intenções de retirar-se para Hollanda, e abandonar o Recife.

Erão porém todos os membros do conselho amigos do principe, e justos apreciadores dos seus talentos administrativos. Assentárão unanimemente em fazer uso das suas faculdades extraordinarias e superiores, decidindo em favor de Mauricio, e reenviando para Hollanda o astucioso Polaco, com communicações{144} francas á Companhia a respeito dos motivos que os levavão a adoptar essa anormal resolução e alvitre.

Partíra constrangido Artichfsky, e ficára o principe senhor da situação, e livre do seu inimigo. Mas o perspicaz e atilado conselheiro Brodechevius, pressentio logo que as intrigas do Polaco em Amsterdam arrancarião por fim ao principe o governo de Pernambuco, e os odios concentrados dos naturaes do paiz recomeçariam as lutas e guerras nas terras já possuidas pela Companhia, e lograrião expellir do solo americano as armas hollandezas. Conservava-se tranquillo o Brazil hollandez com a moderação, experiencia e tino de Mauricio de Nassau. Regimen diverso arrastaria tudo para a perdição.

Deliberou-se Brodechevius a abandonar o Recife, e recolher-se a Amsterdam com a sua familia. Communicou á sua filha os seus intentos para que se preparasse a seguir na{145} primeira frota que para Hollanda se fizesse de vela.

Recebeu Beatriz a noticia com tristeza e amargura, mas não oppôz duvidas á resolução de Brodechevius. Tornou-se mais reservada com Manuel de Moraes, escondendo-lhe todavia os projectos paternos.

Não escapou a Manuel de Moraes a nova phase por que passava o trato da donzella. Diminuir-se-lhe-hia o affecto que, sem lhe haver sido jámais declarado, elle não deixára de perceber? Que causas lhe teria dado? Quando de soffrimentos intimos resultasse a frieza calculada, mas triste e pensativa de Beatriz, d'onde partia a sua origem?

Atormentava-se Moraes com serias cogitações, sem que pudesse rasgar o véo que encobria a dôr de Beatriz, que cada vez mais o acabrunhava com o seu procedimento reservado. Corrêrão alguns dias nebulosos e enlutados após tantos dias alegres, felizes,{146} perfumados de amores, de estremecimentos risonhos e de sonhos vaporosos.

Resolveu-se Manuel a um passo atrevido. Não podia conservar-se n'aquella situação miseranda depois da anterior e aventurada posição. Sentio que a franqueza se tornava necessaria, qualquer que fosse o seu resultado. Preferivel era abrir a Beatriz o intimo do seu peito, dirigir-lhe uma declaração leal do seu amor, manifestar pelos labios o que com mais eloquencia havião os olhos propalado, já que uma nuvem se interpuzera á linguagem muda com que mutuamente até então se correspondião.

Não lhe faltavão occasiões para se achar a sós com a donzella. Tomou forças para a acção, e arrojou-se a pratica-la. Perguntou-lhe decidida e resolutamente pelo motivo da sua tristeza, que desgraça lhe houvera acontecido, ou que calamidade estava a elle reservada. Tentou Beatriz esconder-lhe a verdade.{147} Apertando-a cada vez mais, sem que lograsse ser satisfeito, arrancou do coração um grito de dôr, e disse-lhe estremecidamente:

—Dizei-m'o, dizei-m'o por piedade. Não sabeis já, com que força vos amo e adoro!

Não espantou a confissão á donzella. Conheceu porém que após ella feita tão solemnemente, melhor fôra fallar-lhe com lealdade. Posto pretendesse apparentar-se calma e tranquilla a physionomia abatida trahia-a, e a voz se lhe embargava ás vezes, correndo vagarosa e como perturbada por entre os tremulos labios que a desprendião.

Declarou-lhe que seu pai lhe annunciára que pela primeira frota, que do Recife seguisse para a Hollanda, deverião ambos partir, deixando por uma vez as terras de Pernambuco.

—Partir! partir!—exclamou elle attonito;—E eu que fico aqui fazendo? que vida posso esperar?{148}

Subírão-lhe ao espirito todos os impetos da paixão. Fallou mais alto o sentimento do peito que a reflexão, o respeito e a conveniencia.

—Para que me apparecestes?—continuou desasocegadamente.—Para que mostrastes a meus sentidos absortos, quietos e indifferentes, o que era amor, que elles nunca tinhão conhecido.

Estava Beatriz acostumada a ler-lhe a paixão nos gestos, no trato, nos olhos, no fogo, e no enthusiasmo. Não escapa a mulher nem-uma o mysterio de um coração apaixonado, qualquer que seja o trabalho que se empregue em occulta-lo. Impressionou-se todavia com a força e vehemencia com que elle fallava. Fingíra a principio que o não comprehendêra. Empregára esforços para divergir do assumpto do colloquio. Não conseguindo porém que Moraes o abandonasse, disse-lhe Beatriz com sombrio, mas calculado enternecimento:{149}

—Razão maior encontro eu agora na necessidade de separar-nos. Não vos quero enganar. Amo-vos tambem, e não menos profundamente do que me asseverais ser para comigo o vosso sentimento! Serei desditosa igualmente. Devem apartar-nos mares, distancias, terras, espaços. Tentarei esquecer-vos... Procurai igualmente riscar do vossa espirito a minha lembrança... Poderá talvez o tempo abafar idéas que a loucura nos creou, e que a razão condemna...

—Não vos entendo,—interrompeu-a Manuel de Moraes.—Porque condemnará a razão o que lhe não é contrario?

—Não o pensastes, e nem eu ao principio—repetio-lhe Beatriz, pegando-lhe na mão, erguendo humedecidos os olhos para o céo, e empregando um tom de ineffavel ternura.—Deixámos imprudentemente que a paixão se infiltrasse pelos nossos corações, sem que pressentissemos a impossibilidade de{150} uma união legitima. Sois catholico, eu protestante. Distancia fatal e insuperavel nos arreda um do outro. Não podem meus pais esquecer as violencias que dos vossos soffrêrão. Gottejão feridas profundas entre os dous cultos...

—Impossivel! impossivel!—prorompeu Moraes.—Emquanto me não convencia de ser correspondido, poderia realisar-se a separação. Tragaria eu só a minha dôr, matar-me-hia ella sem duvida. Agora que me raiou o céo diaphano, que me sorrio a natureza toda, que me fallão os anjos no paraiso—é impossivel.—Partis, eu parto. Em qualquer parte, lugar ou sitio que vos abrigue, quaesquer mares que atravesseis, estarei ahi tambem, encontrar-me-heis como quem respira com o vosso sopro, vive com a vossa vida, e exhalará o ultimo suspiro da existencia por vós, ou comvosco!

—De que serve tudo isso,—replicou-lhe Beatriz agitada igualmente, posto esforçando-se{151} em parecer serena,—se jámais podemos unir-nos, se nos separão para sempre os homens, os cultos, as tradições e os costumes? Eu não posso tornar-me catholica. Não poderieis renegar a vossa religião, e quando o amor em um momento vos desvirtuasse a razão, e vos coagisse a renegar, não vos atormentaria eternamente o perjurio, não ralaria o remorso todos os dias da vossa vida? Não se murcharia com elle o amor que exigio sacrificios superiores á alma e á fé? Não o quebrantaria o arrependimento, reputando-o capricho insensato? Pensai melhor. Tratemos de cicatrizar o que o peito soffre. Somos como dous viajores que se encontrárão no deserto, repousárão ambos á sombra do mesmo oásis, refrescárão os seus labios nas aguas da mesma fonte, e se despedírão depois, seguindo cada um para horizontes diversos. Este valle de lagrimas em que andamos errantes não é eterno. Transpomo-lo apenas. Mais tarde nos{152} encontraremos. Como o filho de Abrahão atravessastes a Mesopotamia. Não vos seguirá porém a filha de Labão.

—Quereis que eu morra?—perguntou-lhe Manuel assombrado por essas palavras quasi mysticas, e accentuadas tristemente, que lhe dirigira a donzella.—Melhor fôra que me houvesseis deixado perecer quando Deos me mandou aquella febre terrivel, que me consumiria de certo se os vossos cuidados e carinhos me não tivessem salvado!

—Deos—repetio-lhe Beatriz—nos concedeu um coração para amar, mas acima do coração collocou o espirito, que é a sua emanação divina, e a razão que deve dominar sobre tudo e todos. Emmudeça a paixão diante da reflexão. Não nos é permittido unir-nos honestamente. Ficai em Pernambuco. Eu parto. Assim devia sê-lo, logo que nos descobrímos mutuamente os sentimentos.{153}

—Não, não,—gritou Manuel.—Mato-me antes. O que é a vida? o que vale para o homem solitario e abandonado na terra? o que é a religião, quando a creatura não tem fé intensa e profunda, e reconhece que pertence igualmente ao mundo, e á sociedade humana?

Aterrou-se a donzella com esta declaração inopinada. Percebeu logo que a paixão cegava Moraes, e o precipitava para destinos desconhecidos. Mas essa paixão se manifestava com uma força que lisongeava de certo o seu amor-proprio, e exaltava a seus olhos o amante capaz dos maiores sacrificios. Não era todavia Beatriz tão sensivel ao arrastamento dos instinctos do seu sexo, que não deslumbrasse ao longe, e no tempo as consequencias fataes que poderião resultar do enthusiasmo.

—Mudança de culto,—disse-lhe ella,—exige convicção firme, e não subito hallucinamento.{154} Deve ser obra da razão, não do coração. O espirito confirma e garante. O amor é passageiro. Quando lhe desapparece o encanto, e murcha-lhe o viço, bate á porta o arrependimento. Eu propria me condemnaria se causasse a vossa eterna desgraça...