Encontra-se na Biographia luzitana do abbade Diogo Barbosa uma succinta noticia de Manuel de Moraes, nascido em São Paulo (Brazil), pelos fins do seculo XVI, ou principios do XVII; autor de uma Historia da America, que se perdeu inteiramente, e de uma memoria em pró da acclamação d'el-rei D. João IVº, publicada em Leyde (Hollanda), no anno de 1641, com o titulo de{II} Prognostico y respuesta á una pergunta de un caballero muy ilustre sobre las cosas de Portugal; condemnado pelo tribunal do Santo Officio, relaxado em estatua no auto de fé de 6 de Abril de 1643, por apostata da religião catholica, e casado com mulher schismatica; e fallecido emfim em Lisboa, naturalmente, segundo o dizer de varias tradições; pela violencia, conforme outras não menos procedentes.
Fallando d'elle igualmente Innocencio Francisco da Silva no seu Diccionario biographico e bibliographico portuguez e brazileiro, accrescenta que pertencêra á companhia de Jesus em São Paulo, e fôra garroteado no auto de fé de 15 de Dezembro de 1647.
Outros escriptores, que procurárão lembrar-lhe tambem o nome, e nós particularmente no supplemento annexo á obra dos Varões illustres do Brazil durante os tempos coloniaes,{III} repetírão sómente o que avançára o abbade Diogo Barbosa, porque nem-uns esclarecimentos lográrão mais a este respeito, por maiores pesquizas que houvessem commettido.
Parece pois evidente que se não poderá jámais esboçar um estudo biographico e regular ácerca de Manuel de Moraes, por lhe faltarem os elementos precisos que illustrem e aclarem a physionomia, vida e feitos de um varão tão distincto, e cuja existencia é todavia incontestavel.
No desejo porém de torna-lo conhecido dos leitores, e de pôr a limpo a sua original e extravagante personalidade, traçamos proceder em relação ao escriptor paulista como o fizemos a respeito do poeta portuguez Jeronymo Cortereal, cuja biographia nos legárão todavia menos incompleta os autores passados.
A chronica de Cortereal terá assim uma{IV} imitação na de Manuel de Moraes. Comprehendia aquella a pintura da nação e da sociedade portugueza durante os ultimos dias de D. Sebastião até o jugo castelhano. Encerrará esta a descripção dos successos occorridos durante o seculo XVII em São Paulo e nas missões jesuiticas de Guayrá; em Pernambuco e nas guerras dos Hollandezes; nos Paizes Baixos e na emigração dos judêos portuguezes; em Portugal e no predominio sangrento da Inquisição.
Confundir-se-hão no mesmo quadro a historia real e a imaginação aventureira. Não é este o ramo mais popular da moderna litteratura, a formula mais estimada pelo publico da actualidade?{1}
Quem presentemente seguir da cidade de Santos para a de Sao Paulo aproveitando a estrada de ferro, que se acaba de construir entre os dous pontos mais interessantes da provincia; e lançar os seus olhos curiosos sobre a capital, assentada doce e preguiçosamente nos cimos de serras altanadas, que affrontão os ares; bafejada por uma atmosphera{2} encantadora e portentosamente diaphana; avistada de longe por todos os lados como uma habitação aerea; coroada de torres de igrejas e de edificios risonhos; cercada de campinas que se somem na confusão do firmamento; regada aos pés pelo riacho Tramandatahy, que a pequena distancia, e na propria planicie descoberta, precipita as suas aguas claras e boliçosas no seio do rio Tieté, assemelhando-se já na infancia a um monarcha poderoso quando o assorberbão as copiosas torrentes das chuvas: não póde ao certo imaginar o que fôra esta povoação nos primeiros annos do seculo XVII.
O celebrisado Martim Affonso de Souza, donatario das terras que correm do Cabo de São Thomé para o sul até encontrar as ultimas cincoenta leguas reputadas pertencentes á corôa portugueza, e que havião sido concedidas a seu irmão Pedro Lopes de Souza, edificára o arraial de São Vicente, á beira do{3} mar, povoára-o de gente laboriosa e aventureira, e passára aos moradores ordem de internar-se pelo solo, explora-lo, e cultiva-lo, travando amizade e pazes com as tribus gentias e tranquillas que encontrassem pelo caminho.
Seguio-se a São Vicente o arraial de Santos, como porto mais favoravel á navegação e ao commercio, por mais resguardado dos ventos e das furias do oceano. Dobrando depois as serras alcantiladas e graniticas que se avistavão, descobrírão os Portuguezes planicies immensas e uberrimas, que se estendião voluptuosamente pelas alturas dos montes, e fundárão então ahi a povoação de São Paulo, perto das tabas e residencias da tribu de Tyberiçá, que habitava os sitios deleitosos de Piratininga, e acolhêra os invasores como amigos e alliados, contando com o seu auxilio para combater e resistir aos valentes Tamoyos do Rio de Janeiro, que pela parte{4} do Norte commettião assaltos e depredações incessantes, roubavão e assassinavão os vizinhos sem piedade e nem commiseração, e aterrorisavão com as suas façanhas as raças mansas de Carijós, e Goyanazes, que possuião as terras e florestas da parte meridional da capitania hoje denominada provincia de São Paulo.
Não se tinhão ainda derribado as mattas poderosas, que cobrião o solo, e negavão caminho. Não se havião vencido ainda as correntes rapidas e desordenadas dos arroios, que cortavão as communicações com o largo e fundo das suas aguas possantes. Não se encontravão ainda pousos e ranchos semeiados pela estrada, para allivio dos viajantes. Não estavão ainda edificadas as lindas casas de campo, rodeiadas de pomares e jardins, e enfeitadas de flôres cheirosas, que alegrão os sentidos, e extasião com doçuras ineffaveis.
Não apparecia ainda o pittoresco arraial{5} de São Bernardo, brilhando como preciosa quinta de fidalgo no seio de arvoredos fructiferos.
Desde que se attingia ao alto dos serros, de onde se descortina o panorama soberbo das terras inferiores, rasgadas pelo curso caudaloso dos rios, e do mar fremente, que sussurrava de continuo como o gemido da eternidade, até que se chegasse á povoação de São Paulo, fulgurava a só natureza virgem com a magestade das suas arvores, a grandeza dos seus penhascos, a immensidade das suas cataractas de aguas, a extensão dos seus desertos, e a pompa e sombrio dos seus reconditos segredos.
Traçárão-se a esmo os caminhos, descendo e trepando como animaes bravios da solidão. Transpunhão-se os arroios a nado, as catadupas com páos agrestes e mal afeiçoados, que se destruião e atiravão por cima d'ellas para servir de pontes de passagem.{6} Desperdiçavão-se dias e noites inteiras na viagem difficultosa, dormindo-se ao ar, sobre o chão humido, ou em redes pendidas dos galhos das arvores. Que espirito extraordinario imaginaria n'essa época que uma estrada de ferro, movida pelo vapor, levaria hoje em poucas horas os viajantes de Santos a São Paulo, domando a natureza, avassallando os elementos do solo, e correndo mais que as aguias velozes, e quasi tanto como a aragem fresca do vento!
Se por um lado perdeu com a metamorphose a poesia das brenhas, esplendores e primitiva magnificencia das localidades, não resplandece porém nos progressos da sociedade actual, nos descobrimentos arrojados do genio do homem, outra poesia nova, que se reveste igualmente de encantos e vôos admiraveis, posto diametralmente differentes?
Não possuia a povoação de São Paulo nos{7} primeiros trinta annos do seculo XVII mais de trezentas a quatrocentas casas, com cerca de tres mil moradores, gentios catechisados e livres em maioria, Portuguezes, mamelucos ou mestiços de branco e gentio, mulatos e pretos escravos. Erão pela maior parte as habitações simplices choupanas, cobertas de telhas ou de palha; quatro ou cinco igrejas regulares, e não mais de trinta a quarenta predios de apparencia senhoril. Estreitas e tortuosas ruas traçadas sem o nivellamento preciso do solo exigião degráos para subidas e descidas, que communicassem os varios outeiros, sobre que o arraial pousava. Dominando a eminencia banhada aos pés pelo riacho Tramandatahy, pairava a casa da companhia de Jesus, limpamente caiada, erguida em sobrados, coroada de telhas vermelhas, dominando a planicie, que acabava nos montes da Penha, atirando uma cerca repleta de larangeiras, jaboticabeiras,{8} e varias arvores fructiferas pela quebrada do outeiro até as margens do arroio, e encostada á igreja do Instituto modestamente edificada, tendo ao lado uma torre pittoresca e um cemiterio já bastante povoado de sepulcros, e na frente uma praça irregular bem que espaçosa.
As varias classes dos moradores se differençavão igualmente pelos costumes e tendencias. Empregavão-se os escravos nos trabalhos infimos e agricolas. Dedicavão-se os Portuguezes nascidos na Europa ou já no Brazil ao commercio e industria, á construcção e edificação de propriedades, a compras e vendas de terrenos, ou permutas em grosso ou a varejo de objectos de mercancia. Regimentos militares e milicianos defendião a povoação. Algumas ordens monasticas possuião já conventos. Mais numeroso e importante se manifestava porém o Instituto de santo Ignacio de Loyola, ao qual respeitavão{9} as proprias autoridades civis e militares, em obediencia ás ordens terminantes e rigorosas que lhes chegavão da metropole européa, recommendando-lhes todo o apoio e protecção aos jesuitas, como os apostolos mais fervorosos da catechisação dos indigenas, e os esteios mais firmes do altar e do throno. Posto em geral mais viciosos que todos os habitantes, se reputavão os mamelucos descobridores audazes de terras interiores, e exploradores perspicazes dos desertos, incitando continuamente a cobiça dos Portuguezes, que chegavão á povoação nos desejos e ancias de correrem atrás de minas de ouro e prata, que dizião existir para as partes de dentro da capitania, e para os confins e limites do Perú, e de guerrearem os gentios salvagens, que se reduzião ao captiveiro, segundo as leis existentes, quando apanhados sómente nos combates, ou convencidos de crimes.{10}
Formavão os caboclos catechisados uma classe innocente, submissa, devota, mas activa e industriosa. Compunha-se de operarios, agricultores, musicos e cantores. Apprendião todos os officios, e gostavão de procissões religiosas, festas nos templos e solemnidades apparatosas. Veneravão e obedecião aos padres da companhia de Jesus como a seus pais e protectores, seus amigos e mestres, seus medicos e anjos tutelares. Ouvião-lhes os conselhos, attendião-lhes aos sermões e predicas, assistião nas suas escolas ás lições da lingua e grammatica portugueza, ás explicações do catechismo romano, e ao exercicio do canto e musica, com que particularmente os deleitavão os jesuitas, alimentando-lhes a fé, e moralisando-os convenientemente. Applicavão os filhos desde a infancia aos coros das igrejas, ao tanger dos instrumentos sonoros, e ao serviço religioso.
Estava a capitania de São Vicente dominada{11} ainda pelos herdeiros do donatario, e administrada em seu nome por autoridades de sua escolha, conhecidas pelos titulos de locotenentes e capitães-móres. Prestavão todas preito todavia ao governador do Rio de Janeiro em tudo quanto se considerava direcção politica.
Não erão raras as lutas em que se envolvião os jesuitas contra as pretenções dos brancos e mamelucos, ambiciosos de converter em escravos quantos gentios apanhavão, ainda que as leis não consentissem o captiveiro senão em casos particularisados. Timbravão os padres em defender os infelizes indigenas, e sustentar os seus direitos e fóros de homens livres. Bastantes conflictos travavão igualmente no intuito de livrar os gentios de attentados e malversações, que soíão praticar os conquistadores contra as suas pessoas, familias e propriedades. Valião-lhes o respeito que incutião em animos ignorantes, as{12} crenças catholicas da época e que chegavão ao gráo de superstição, e das quaes os jesuitas se aproveitavão, e o apoio igualmente que prestavão aos padres as autoridades da colonia.
Como se alvoroçava a população de São Paulo ao receber noticias de Portugal e Hespanha, unidos então sob o sceptro dos Felippes de Castella? Quantas dôres e gemidos, quantas preces nos templos, quantas genuflexões perante os altares, ao espalhar-se que os Hollandezes se havião apoderado da cidade do Salvador da Bahia, e logo após do territorio de Pernambuco, ameaçando submergir o Brazil no pelago das calamidades, com levantar sobre as ruinas da religião romana o frio e schismatico culto da reforma preconisada por Luthero, Calvino e seus discipulos! Ao saber-se de victorias dos Hollandezes, acudião povos dos arredores de São Paulo, e corrião todos os moradores, guiados pelos{13} jesuitas e pelas autoridades, a implorar do Deos eterno misericordia e salvação, misturando-se as imprecações e lagrimas de gentios, mamelucos, brancos e escravos, que batião nos peitos amarguradamente, se infligião castigos corporaes, e apegavão-se aos santos do calendario para lhes conseguir protecção e piedade!
Corria assim este estado de cousas, quando, ao acabar de uma tarde do mez de Abril de 1628, descêrão dous vultos o outeiro em que estava situada a cerca da casa de Jesus, como peregrinando por entre o arvoredo, e procurando as margens do Tramandatahy.
Cobrião-se ambos de roupetas de jesuitas. Mas um puxava já os seus annos para além do numero de quarenta. Começava-lhe a cabeça a embranquecer e calvejar, cahindo-lhe os cabellos á proporção que perdião a côr primitiva. Physionomia sympathica e rasgada; olhos bondadosos; gestos agradaveis{14} apparentava. Conversando com o seu companheiro, que pouco mais passava dos vinte annos de idade, mexia o padre Eusebio de Monserrate, que assim se chamava o mais velho dos dous vultos, as contas grandes e pretas de um rosario terminado por uma cruz regular, parava de quando em quando, ouvia attentamente o seu interlocutor, dirigia-lhe palavras curtas e pausadas, levantava os olhos para o céo, e fixava-os a miudo no mancebo, como perscrutando-lhe no intimo do peito. Esbelto, vigoroso e alto, erguia-se o seu companheiro, noviço ainda da companhia. Dir-se-hia porém triste, abatido, acurvado por alguma dôr do espirito, e mais prestes a confessar-se humildemente que a entreter uma conversação regular e séria.
Morria ao longe o dia, enterrando-se o sol, que o allumiára, por detrás dos morros da Penha, posto raiassem ainda os derradeiros clarões, que vagão indefinida e indecifravelmente{15} depois ainda que o rei dos astros desapparece, demorando-se elles por algum tempo no horizonte, que do lado opposto se escurecia e minguava com as sombras da noite proxima. Suave viração brincava com as folhas das arvores, perfumando e refrescando a atmosphera um pouco aquecida com os ardores antecedentes do sol. De um para outro lado saltavão pelo chão timidas rolinhas, fugindo aterrorisadas sempre que ouvião o menor sussurro, e parecendo procurar abrigo tranquillo em qualquer galho ou tronco esparso que encontravão.
Soárão sete horas nos sinos da torre dos jesuitas, quando se havião já approximado do Tramandatahy os dous individuos de que fallamos. Tirárão immediatamente da cabeça os seus grandes chapéos de abas largas, e cortárão toda a conversação para dirigir preces ao Todo Poderoso e benzer-se devotamente. Acabadas as rezas, pegou o padre na mão{16} do mancebo, e disse-lhe com pausa estudada:
—Queres emfim abandonar a casa de Deos e deixar o serviço da religião e da companhia?
—Não me inspira vocação nenhuma para o estado,—respondeu-lhe o joven, tentando beijar a mão do jesuita, o que este lhe não permittio.—Não dirige Deos a creatura humana?—continuou depois de alguns momentos de repouso.—Se me não concede vontade e dedicação é porque me destina para outros fins.
—Serás desgraçado, filho!—retorquio-lhe o padre.—Deos não quer violencias. Recommenda apenas a convicção para chamar ao gremio da Igreja as ovelhas extraviadas. Dá-lhes o livre arbitrio, para ficarem responsaveis das suas intenções e feitos. Mas serás desgraçado, porque a Igreja catholica é a razão divina, a unica salvação da creatura{17} humana, e não encontrará descanso quem a trocar pelo oceano insondavel do mundo das miserias.
—E porque me não depositou Deos no espirito ancias e aspirações intimas para a vida da communidade ecclesiastica e da disciplina rigorosa que exige o santo Instituto?—perguntou o joven, exaltando-se amarguradamente, e manifestando agitação patente do animo.
—Para que saibas domar as paixões que borbulhão no homem,—repetio-lhe o velho.—Mais ganha quem na luta commette sacrificios, e vence os instinctos desregrados da natureza e da juventude.
—Que vale a devoção contrafeita?—articulou o mancebo.
Sorrio tristemente o jesuita, comprehendendo-lhe o fundo do pensamento. Chegou-se a um tronco cahido, que descobrio a pequena distancia, no intuito de arrimar-se n'elle,{18} levando pelo braço e para perto de si o noviço angustiado.
—Escuta,—disse-lhe com amenidade.—Eu tambem passei pela tua idade. Eu tambem senti ferver-me no peito paixões desencontradas, como em ti prevejo, e que me incitárão e arredárão do verdadeiro caminho da felicidade n'este e no outro mundo. Eu tambem, como santo Ignacio de Loyola, creador de nosso santo Instituto, achei-me precipitado nas lutas extravagantes e desordenadas da vida. Eu tambem combati como soldado, viajei como peregrino errante e aventureiro, soffri fomes, sêdes, perigos, prisões e exilios. Apprendi porém á minha custa, ensaiou-me a experiencia dos males, arrependi-me sinceramente dos meus erros, e foi o Eterno comigo misericordioso, abrindo-me a tempo os olhos da razão, para buscar asylo e socego de corpo e d'alma na Sagrada casa, a que me acolhi de coração. Oxalá seja Deos{19} bondadoso tambem comtigo, e te manifeste na eternidade a sua infinita piedade!
—Deixai-me igualmente gozar da mocidade,—exclamou o joven.—Siga comigo a natureza a sua marcha legitima, como succedeu comvosco.
Encarou-o o padre absorto. Percebeu lagrimas copiosas cahirem-lhe dos olhos apezar da firme resolução que denunciavão as palavras do mancebo. Não descobrio maldades aonde apparecia a só exaltação de animo verde e inexperiente. Moveu-o a compaixão, e assomou-lhe igualmente ao espirito a reminiscencia do seu proprio passado. Abraçou-o apertada e amigavelmente, e disse-lhe:
—Não lucra a religião com duvidas e lutas do espirito. Não agradece o Instituto de santo Ignacio serviços involuntarios. Parte. Manda-me a consciencia que te abençôe na despedida, e rogue a Deos todo poderoso{20} te illumine na senda escabrosa que pretendes percorrer, e te abra os thesouros da sua ineffavel graça a tempo de salvar-te dos perigos.
Cahio o joven de joelhos, e recebeu com toda a humildade a benção, que lhe lançou o religioso. Ao deixa-lo, sentio o padre que seus proprios olhos humedecião, e lhe rolava pela face, que começava a enrugar-se, pranto amargo e sentido. Acompanhou com a vista o mancebo, que sahia da cerca, até que não pôde mais descobri-lo com as trevas da noite, que se adiantava. Levantou-se do tronco em que estava apoiado, e seguio machinalmente para a casa da companhia, subindo o outeiro. Chegado ao alto, voltou-se, procurando rever ainda o joven. Vão esforço! Desapparecêra elle completamente.
Rezou baixo alguns minutos, benzeu-se enternecidamente, e saudando o porteiro, entrou no convento. Dirigio-se para a Igreja,{21} prostrou-se ante os altares, e duas longas horas passou ahi n'essa posição, orando em pró do noviço infeliz, que as tentações do mundo arrancavão á vocação religiosa.{22}
Sahido da cerca dos jesuitas, seguira no entanto para o interior da povoação de São Paulo o noviço que se despedira do padre Eusebio de Monserrate. Chamava-se Manuel de Moraes. Nascera nos primeiros annos do seculo. Destinára-o seu pai, José de Moraes, para a vida trabalhosa de membro da companhia de Jesus, por se persuadir ser este o estado mais feliz, e posição mais brilhante e grata a Deos e á sociedade, que podia descobrir para o filho unico varão que lhe concedêra{23} a Providencia. Oriundo da provincia do Minho em Portugal, alli se casára José de Moraes com Ignez das Dôres, e o obrigára a pobreza a deixar os lares patrios, e procurar fortuna no Brazil, levando comsigo a consorte e companheira. Guiado pelos conselhos dos jesuitas, de quem se mostrava fervente admirador, empregára-se em lavoura na capitania de São Vicente, e ganhára creditos merecidos de um dos mais honestos moradores de São Paulo, e dos mais honrados Portuguezes, que ahi residião. Além de Manuel de Moraes, tinha mais tres filhas menores, que Ignez das Dôres educava piedosamente infiltrando-lhes no espirito tenro ainda as maximas mais salutares e virtuosas.
Entregára o proprio José de Moraes o filho querido á companhia de Jesus. Confiára-o particularmente ao padre Eusebio de Monserrate, seu amigo antigo, e protector decidido.{24} Madrugára no moço o engenho, e nem-um estudante o excedia em penetração e agudeza de espirito, e em desejos de instruir-se, e aproveitar as lições dos mestres. Merecia as sympathias dos jesuitas pelo seu procedimento escolar, e pela vida regrada que seguia, posto lhes desagradassem frequentes opposições e resistencias á disciplina e devoções mysticas que soíão praticar-se no Instituto dos discipulos de santo Ignacio. Procurára Eusebio de Monserrate acurvar essa vontade altiva, modificar essas tendencias mundanas, que o noviço manifestava claramente. Nada conseguíra, como acabamos de referir, e se determinára por fim Manuel de Moraes a abandonar o convento, e o velho padre a consentir-lhe aos desejos, reconhecendo a inutilidade das suas exhortações e conselhos.
Turvára-se a noite, e chuva ao principio miuda, que cahia sobre a terra, prognosticava{25} maiores torrentes, pela escuridão que cobria o firmamento, e pelos indicios certos de relampagos, que se denunciavão na atmosphera carregada de grossas nuvens.
Graves cogitações lhe acabrunhavão todavia o espirito attribulado pela importancia do passo que acabára de dar. Como o acolheria seu pai, ao saber da resolução que tomára? Tê-lo-hia previamente scientificado e preparado o padre Eusebio de Monserrate? Que vida o esperava, e que aventuras lhe erão reservadas, agora que, não pertencendo mais ao Instituto de santo Ignacio, entrava no gozo inteiro da liberdade, e se atirava no seio da sociedade civil, que não conhecia, mas que a imaginação lhe pintava como a mais apropriada e favoravel ao seu caracter, e ás suas aspirações intimas, que a communhão religiosa, que o acolhêra e educára até os vinte quatro annos de idade?
Ao descer um outeiro ingreme para subir{26} aquelle em que pousava a casa paterna, para a qual se encaminhava, e que era situada na extremidade da povoação, ouvio não longe de si, e mais em baixo, por detrás de uma ruela miseravel, gritos e rumores extraordinarios.
Cobria-o o habito preto de lila, que usava no convento. Não tinha armas para atacar ou defender-se. Sobrava-lhe porém coragem, e não hesitou um instante em correr para o lugar do perigo, de onde partião vozes que parecião pedir soccorro. Não lhe prestava a roupeta do jesuita uma força moral que lhe attrahia o respeito?
Ao dobrar um becco escuro, achou-se em frente de um grupo de quatro homens e de uma mulher. Escondia-lhe a densa escuridão as peripecias do acontecimento. Approximou-se porém de subito, e gritou-lhes, mostrando a cruz do seu rosario:—Em nome de Deos, cessai, peccadores!{27}
Mais poderosa que a espada foi a exclamação resoluta do noviço. Ao ouvi-lo, tres dos homens deitárão a fugir, sumindo-se incontinente. Achou-se Manuel de Moraes com um só dos homens, e o vulto de mulher que se arrastava pelo chão, proferindo ais angustiados.
Atirou-se-lhe aos joelhos o individuo que ficára, e agradeceu-lhe a sua salvação. Apressou-se a mulher em imitar-lhe o exemplo, e ambos fallavão ao mesmo tempo, denunciando a sua gratidão, e beijando o habito do noviço.
—Que succedeu?—perguntou-lhes Manuel de Moraes, levantando-os, e animando-os com gestos bondadosos, e um tom meigo, que lhe devia affeiçoar a confiança.
—Padre!—disse-lhe o homem mais tranquillo—Sou um pobre carijó, e é minha filha esta menina. Moravamos ahi,—apontando para uma infima choupana—quando tres{28} brancos arrombárão a porta, se atirárão sobre a cama de minha Cora, arrancárão-na d'ahi, e corrêrão para a rua, carregando-a nos braços. Acordei sobresaltado, precipitando-me contra elles com os meus braços por unica arma, que os braços de um pai valem as melhores espingardas. Segurei em minha filha, atraquei-me com elles, quando chegastes, e nos salvastes!
—E que sangue é este?—continuou Moraes, percebendo-lhe manchada a cabeça, a face, e a camisa de algodão.
—Não é nada, meu salvador,—repetio o gentio, chegando os labios á mão do noviço.—Alguma bordoada que apanhei. Não é nada, que escapou Cora dos seus perseguidores.
—E os conhecestes?—interrogou-lhe o joven.
—São perros,—tornou-lhe o carijó.—Não lhes divisei bem os rostos, mas creio{29} que não passão de uns máos vizinhos brancos, que commettem tropelias em São Paulo, sem respeito ás vozes dos santos missionarios, e nem medo de castigo de Deos eterno. Somos fracos, pobres gentios, e os padres sós nos amparão e protegem!
Dirigírão os seus passos para o casebre miseravel que servia de habitação ao indigena. Cahida estava a porta unica que lhe abria communicação para a ruela, arrancada dos gonzos e derribada por terra. Entrárão os tres. Acendeu o gentio lume com umas pedras. Passou-se o fogo para uns pedaços seccos de páo, que se illuminárão em um momento. Vio então Moraes o caboclo, que reconheceu por um dos mais fieis seguidores da religião e frequentadores da igreja da companhia. Trazia camisa e calças de algodão branco. Pés no chão, e o aspecto respeitavel. Uma saia da mesma fazenda cobria o corpo todo de Cora, apertada na cintura e{30} com mangas largas e compridas. Cahião-lhe em desordem pelos hombros bastos cabellos pretos, que se dirião luzentes como o verniz. Olhos quasi azulados, grandes, rasgados, cobertos de espessas pestanas da mesma côr, harmonisavão admiravelmente com o vermelho das faces juvenis, com o delicado dos labios e fórmas do rosto, e com o esbelto e elegante do corpo. Uma grande estampa da santissima Virgem lacrymosa ornava a parede do aposento, despido de trastes, e sem forro nem soalho de madeira.
Ajudou Manuel de Moraes ao gentio no levantar e pregar de novo a porta do seu casebre. Socegou-o com seus conselhos. Exhortou a filha a proseguir no caminho da virtude. Despedio-se por fim d'elles, deixou-lhes a choupana, e continuou o seu caminho, pensando na luta das duas raças de homens que ahi estavão reunidas na mesma povoação e em face uma da outra, e agradecendo{31} a Deos por conservar ao menos a autoridade e prestigio dos padres da companhia de Jesus, afim de defenderem a mais fraca e innocente, e reprimirem com as armas da religião, que assoberbavão felizmente os espiritos de todos, as violencias e arbitrios, que com barbaros instinctos soíão os conquistadores praticar contra os desgraçados gentios.
Volvêrão-lhe pela mente idéas favoraveis ao seu regresso para o seio da companhia, destinada á salvação de tantas almas desditosas, e á protecção de individuos tanto mais interessantes quanto menos robustos, e menos estragados na religião e nos costumes. Ou o pejo, depois do que havia commettido, ou uma aspiração interna e indefinida, que o arrastava para o mundo, e lhe pesava sobre a razão, ordenárão-lhe porém que marchasse para outros destinos, posto lhe fossem desconhecidos.{32}
Absorvido n'estes pensamentos chegou á porta da casa paterna. Reinava o maior socego e quietação na aldêa. Continuava negro o céo, a chuva mais grossa, o vento crespo e em rajadas desagradaveis, a atmosphera atravessada por scentelhas de fogo, o ar roncando já com trovões assustadores, ainda que longinquos ainda. Nem uma luz raiava nas ruas, e nem uma porta ou janella das casas estava aberta.
Bateu docemente com a mão na porta do ninho paterno. Respondeu-lhe logo o latir de um cão amigo, e depois uma voz perguntando-lhe quem era. Á sua resposta conhecida, se lhe abrio a porta, e penetrou elle na casa.
Não era abastada de bens de fortuna a familia de Moraes. Passava todavia folgadamente, porque os trabalhos ruraes do chefe a entretinhão com a satisfação das necessidades da vida, e até com alguma commodidade.{33} Estava o pai, cuja idade orçava pelos quarenta e cinco a cincoenta annos, sentado em uma velha poltrona, rodeiado da mulher e de tres filhas menores de pé, e que parecião ouvir-lhe as admoestações e conselhos. Alguns moveis, uma talha de agua de barro vermelho encostada a um canto, uma mesa no centro, sustentando algumas iguarias frias, e uma vela acesa em um castiçal de páo, formavão todo o seu adorno. Parecia que se terminára a merenda habitual da noite, e que a familia attendia ás bençãos do seu chefe, para se recolher ao descanso do somno.
—Louvado seja nosso Senhor Jesus Christo,—disse Manuel, benzendo-se ao entrar, e beijando as mãos do pai e da mãi.
—Novidades grandes trazeis-nos,—exclamou o velho, percebendo-o.—A taes deshoras fóra do convento! Que desgraças nos annunciais?
Empallideceu Manuel a esta pergunta repentina,{34} e que o impressionou como máo agouro. Como preparar o animo de seu pai, que se mostrára tão adheso ás felicidades da vida ecclesiastica, e tão convencido da missão religiosa, para communicar-lhe o passo que dera de abandonar a companhia? Traçou attenuar-lhe pela melhor maneira o effeito que devia produzir o motivo da sua apparição, mostrando-se ao principio cuidadoso pela saude de todos os membros da familia, que ha tres dias não havia visitado, antes que respondesse a seu pai como lhe cumpria.
Em poucas palavras o satisfez José de Moraes, assegurando-lhe que todos gozavão de paz e socego, reiterando-lhe a pergunta que lhe dirigíra, e mostrando-se ancioso por saber a razão da sua visita inesperada.
Comprehendeu o filho que a narração devia de ser rapida para que menos desastroso fosse o effeito produzido. Não andava já contente José de Moraes com a sua conhecida repugnancia{35} de passar na companhia do gráo de noviço ao de irmão, que era o segundo do Instituto, e requisito necessario e indispensavel para se elevar ao de padre. Exasperava-se porque o filho lhe não abria o coração, pelo temor em que o pai o continha, e respeitoso afastamento de si, em que o guardára desde a infancia, quando alguns avisos dos jesuitas lhe chegavão aos ouvidos, e profundamente o irritavão.
—Antes de responder-vos, meu querido pai—disse-lhe Manuel, ajoelhando-se perante elle, e apertando-lhe as mãos com affecto extremoso—Antes de responder-vos, peço-vos me perdoeis!
A estas expressões arrancou José de Moraes as mãos que o filho conservava e beijava. Levantou-se da poltrona, deu alguns passos para se arredar de Manuel, tomou aspecto sinistro, e gritou-lhe arrebatadamente:
—Que crime commettestes? Preciso sabê-lo{36} primeiro, porque Deos me não permitte perdoar na ignorancia!
Assumio logo ao espirito de Manuel que o padre Monserrate nada contára ao pai, e o não prevenira para o golpe que lhe ia ser descarregado. Sobresaltado mais por esta circumstancia imprevista, conservou-se taciturno por alguns momentos, morrendo-lhe a voz nos labios quando estes pretendião dar passagem ás palavras.
Foi mister que José de Moraes, depois de mira-lo attentamente, e procurar adivinhar-lhe o pensamento, lhe ordenasse positivamente que se não evadisse a declarar-lhe toda a verdade.
Triste e abatido, continuando curvado, e saltando-lhe dos olhos algumas lagrimas, balbuciou então vagarosamente Manuel:
—Faltei á vossa vontade, aos meus proprios desejos de obedecer-vos.
Levou o velho a mão á fronte despovoada{37} quasi de cabellos. Ergueu-se com magestade, posto manifestasse a maior afflicção. Chammejárão-lhe os olhos, apertárão-se-lhe os labios, anuviou-se-lhe a physionomia inteira.
—Expulsárão-te da companhia?—disse-lhe desesperadamente.
—Não, meu pai,—tornou-lhe Manuel com tom decidido e firme.—Foi sempre exemplar o meu proceder na casa dos santos padres. Elles vo-lo dirão todos, que não criei nem-um desaffecto.
—Mais criminoso foste então,—retorquio-lhe o velho—porque lançaste sobre mim, sobre tua familia, e sobre ti proprio, a deshonra, commettendo fóra do claustro attentados talvez horrorosos.
—Não, meu pai,—continuou Manuel mais tranquillamente.—Segui sempre o caminho da virtude, que me ensinastes.
—Não te entendo,—repetio-lhe José de{38} Moraes, bastante alliviado já do peso horrivel de idéas disparatadas que lhe apouquentavão o espirito.
—Não commetti um crime, meu pai,—proseguio Manuel.—Não pratiquei uma acção viciosa. Mas faltei ás vossas ordens, e desobedeci á vossa vontade, por mais que me esforçasse em satisfazer-vos; faltárão-me as forças!
Embrulhava-se cada vez mais o espirito de José de Moraes com estas declarações singelas, mas resolutas no tom e nos gestos do filho. O que lhe teria succedido, que o devesse magoar profundamente? Em que lhe desrespeitára Manuel ás ordens e desattendêra á vontade, que se elevasse a tal gravidade, que lhe fosse preciso perdoar de antemão? Nem-uma idéa lhe fulgurava ao animo que lhe prestasse a chave do segredo, e lhe fizesse adivinhar o mysterio escondido nas palavras do filho. Menos exasperado ficára todavia, posto inquieto ainda.{39}
Conservava-se como uma estatua a mãi enternecida. Não fizera um movimento, não proferíra uma palavra, não praticára um gesto. Debulhados apenas os olhos em pranto copioso, corrião-lhe elles a miudo do filho para o marido, e de José para Manuel de Moraes, sem que ousassem fitar-se seriamente em nem-um dos dous. As duas filhas maiores apertando nos braços a mais pequena, que teria seis annos, e recolhendo-se a um canto da casa, formavão um grupo de pequenas creaturas espantadas, a quem embargava a voz na garganta o terror de que se tinhão apossado.
—Que fizeste pois?—disse mais pausadamente José de Moraes, chegando-se para o filho. Custou-lhe a conceder a mão que o noviço parecia implorar-lhe. Fê-lo todavia na intenção mais de anima-lo a terminar a historia que lhe devia contar, que de manifestar-lhe paternal affecto.{40}
—Perdoai-me antes, meu pai,—repetio-lhe Manuel.—Promettei-me o vosso perdão e abrir-vos-hei todo o meu peito, revelar-vos-hei todo o occorrido.
—Confessa primeiro,—continuou o velho, arredando-se de novo do pé do filho, e carregando o semblante com indicios visiveis de tempestade.
Reinou o silencio. Nem o filho se atreveu a fallar, por o não animar José de Moraes com um gesto ou palavra que se lhe afigurassem de benevolencia, e nem o velho julgou dever proseguir na indagação, depois de ter dado provas patentes das suas exigencias.
Appropinquou-se no entanto de Manuel o cão amigo, no intuito de acaricia-lo e festeja-lo, como soía pelo seu animo de animal fiel e agradecido.
—Sahe d'ahi,—gritou para o cachorro estremoso o velho irritado, lançando-lhe um olhar terrivel e dando-lhe com o pé. Comprehendeu-o{41} o animal submisso, e volveu vagarosa e tristemente para a porta da rua, aonde era o seu lugar, e deitou-se de novo no chão, posto não tirasse a vista da scena, que para elle se diria comprehensivel.
Resolveu-se emfim Manuel de Moraes a fallar, no desejo e esperança de terminar o espectaculo cruel, de que era parte importante. Abaixou humildemente a cabeça e balbuciou pausadamente as seguintes palavras:
—Não encontrei jámais em mim vocação para a existencia pacifica dos claustros, e nem para a vida religiosa. Lutei bastantes annos para vencer minhas paixões, dobrar o meu espirito, reprimir-lhe as tendencias para o mundo e para a sociedade civil, abafar n'alma as aspirações que d'ella partião, e me convidavão para outros destinos. Não posso pertencer á companhia de Jesus, como me determinastes e como vos devia um filho obediente. Prefiro despir o habito, deixar o Instituto,{42} e ajudar-vos nos trabalhos em que vos empregais, meu pai!
—Nunca!—retorquio-lhe o velho com violencia.—Dediquei-te á vida dos missionarios para bem teu, serviço de Deos, amor da religião e arrimo da tua familia.
—Deixei-a já, meu pai!—respondeu o filho.—Esta roupeta me não pertence mais. Estes trajos já não são meus. Desamparei a casa da companhia. Despedi-me d'ella para sempre. Deos não quer votos contrarios ao coração e ao espirito.
Tão decididos termos exaltárão em demasia o animo irritado de José de Moraes. Sem titubear um momento e nem hesitar um instante, gritou para o filho, respondendo á sua declaração com outra mais forte e resoluta:
—Foge de minha presença, que te não reconheço mais por meu filho! Sahe immediatamente d'esta casa que desdouras, e cuja porta te será para sempre fechada!{43}
Pretendeu Manuel fallar ainda. Faltou-lhe coragem diante do gesto altivo e firme do velho. Olhou para a mãi, que cahio em soluços sobre um banco encostado á parede; para as irmãs, que, como pombinhas diante do caçador feroz, se apertavão cada vez mais umas ás outras.
—Minha querida mãi!...—escapou-lhe dos labios uma voz dorida.
Procurou a mãi acolhê-lo, mas trepidou, á vista do marido, que com o braço estendido mostrava ao filho a porta da rua.
—Manuel!—pronunciou sempre a assustada mãi.—Obedece a teu pai, volta para os teus deveres.
—É impossivel já, exclamou o noviço.
—Calai-vos, senhora!—cortou-lhe o velho a palavra nova que desejava ella pronunciar.—É um homem perdido esse que ahi está. Não é mais nosso filho! Acompanha-o a maldição do pai e o castigo infallivel do céo!{44}
Não pôde mais nada dizer Dona Ignez, e perseverou na sua posição dolorosamente enternecida. Afigurava-se a Virgem das Dôres, partida pelas mais acerbas magoas e crueis soffrimentos, e prostrada com a submissa e evangelica resignação de que as sós creaturas celestes se revestem.
Levantou-se então Manuel de Moraes, que se conservava de joelhos. Intentou approximar-se do pai. Foi com força repellido. Traçou proferir algumas palavras. Impôz-lhe o velho silencio com um gesto expressivo. Chegou-se á mãi e agarrou-lhe na mão. Saltou José de Moraes do seu lugar, e arrancou-lh'a violentamente antes que o filho tivesse tempo para a tocar com os labios.
—Segue o teu destino, infeliz!—disse-lhe o velho.
Percebeu Manuel que nada mais podia fazer que minorasse a dôr do pai, e lhe cumpria sómente sahir da casa. Dirigio-se para a{45} porta da rua, e abrio-a. Antes de transpô-la porém, volveu-se de novo para os parentes, mostrando-lhes as lagrimas, e pedindo-lhes a commiseração e piedade. Soluços repentinos acompanhárão uma voz de despedida saudosa, e de adeos dorido. Pôz termo o velho á scena, correndo para a porta, e fechando-a sobre o filho, que se achou de fóra e no meio da rua.{46}
Tinha chegado no entanto a tempestade ao seu apogêo. Rasgavão os ares os coriscos e raios que esclarecião sós e momentaneamente a povoação de São Paulo. Enlutára-se a natureza, e a noite espessa, triste e medonha não deixava descobrir caminho. Se não fôra o relampago, que de quando em quando commettia a sua apparição, ter-se-hia perdido de certo o noviço no meio d'esses beccos e ruellas estreitas e escuras, de subidas{47} e descidas, bem que as conhecesse desde a sua infancia.
De vagar, e apalpando quasi o caminho, largou a aldeia, e se dirigio para a planicie. Teria marchado tres quartos de hora pelo campo aberto, apenas de distancia em distancia povoado por um ou outro casebre isolado e solitario, quando se achou no sitio a que chamão hoje da Luz, por se ter ahi erguido uma ermida sob a invocação da senhora d'este nome.
Apezar do máo tempo, alagada a roupeta com as chuvas abundantes que a inundavão, enterrados os grossos sapatos nos lodaçaes, que uns sobre outros tinha de atravessar, continuou a sua marcha por meia hora mais, até que se appropinquou de uma rustica choupana, e conseguio que lhe dessem n'ella entrada e pouso. Pertencia a um seu amigo da infancia, com o qual entretinha a maior intimidade.{48}
Acolheu-o e espantou-se Antonio da Costa com a sua apparição inesperada, e áquellas horas mortas da noite. Agasalhou-o; ajudou-o a despir-se da roupeta de noviço, que trajava ainda, deu-lhe novo fato, emquanto a capa se enxugava ao fogo de um brazeiro, e convidou-o a tomar alguma refeição, para recobrar as forças perdidas.
Não excedia a idade de Antonio da Costa a vinte e dous annos. Era homem robusto já, como se mais adiantamentos ganhára sobre o tempo. Possuia imaginação ardente e aventurosa, e sentimentos cavalheirescos. Vivia só e retirado n'aquelle sitio e casa, depois da morte dos pais, que minguados recursos lhe havião legado. Não se applicáva a trabalho ou officio algum, vegetando e estorcendo-se por isso nas angustias da ociosidade, que mais desespera que nutre o homem, e lhe torna tediosa e aborrida a sua existencia no mundo.{49}
Summariou-lhe francamente Manuel os acontecimentos por que passára, e a situação a que o havião elles arrastado. Chamárão os successos do noviço as reflexões do seu amigo para si proprio. Comprehendeu que era identica a posição de ambos, e lhes cumpria abandona-la conjunctamente, procurando meios que do mundo em que vivião os arrancassem para novo destino. Em vez de dormirem, gastárão os dous moços o resto da noite em mutuos pensamentos e cogitações. Reflectião, e discutião sobre o que devião fazer, sem que tivessem chegado ainda a um accordo, quando começarão a annunciar-se os primeiros arrebóes da madrugada.
Passára o temporal, e promettia bonança o dia que se levantava. Conversavão ambos, recostados sobre a mesma cama, quando ouvírão grandes rumores na estrada. Erguêrão-se, abrírão uma janella que dava sobre ella, e prestárão sua attenção a vozes alternadas e{50} ás vezes conjunctas, e tumultuosas. Descobrírão um grupo de cerca de trinta homens brancos e mamelucos, e outros tantos ou mais gentios, armados todos de espadas, facões, clavinotes e espingardas, de mochila ás costas, vestes grossas de viagem, calças arregaçadas, e largos chapéos, ou carapuças espessas.
Parára o grupo quasi defronte da choupana de Antonio da Costa, e ahi se occupava em uns negocios ou aventuras, fallando muitos ao mesmo tempo, e commettendo a maior algazarra.
—Não ha que fallar mais,—disse um com voz de estentor, dominando inteiramente o barulho...—Matheus Chagas sabe melhor que ninguem os caminhos, está affeito aos perigos do sertão, e devemos obedecer-lhe ás cegas. Sem chefe não ha bandeira que preste. Seja Matheus Chagas acclamado para nosso chefe.{51}
Seguírão applausos repetidos, e gritou a maior parte:—Viva Matheus Chagas!
Rompeu então por d'entre elles um homem pequeno, corpulento, de physionomia requeimada do sol, e rasgada por um talho de faca ou instrumento cortante. Seguravão-lhe as mãos calejadas uma grande espingarda, e um enorme facão lhe pendurava á cintura. Enrolado capote velho com mochilas que parecião coldres lhe cobria desformemente as costas. Era o senhor Matheus Chagas, improvisado repentinamente em commandante do grupo pelas acclamações dos companheiros. Agradeceu-lhes a prova de consideração que recebia, e lhes prometteu que, como homem de resolução, tomava ao serio o posto conferido, e os guiaria para os seus destinos.
—Amigos!—disse-lhes emphaticamente.—Levar-vos-hei caminho direito ao Perú. Muita caça encontraremos nas mattas, e{52} muito peixe nos rios para alimentar-nos, muito boa agua para matar-nos a sede, saborosas frutas para refrescar-nos, bastos arvoredos para cobrir-nos contra os ardores do sol, e gentio em quantidade para captivar e vender. Espero em Deos que entraremos nos paizes dos Castelhanos, e encontraremos e carregaremos ouro e prata que elles lá têm em abundancia, sendo mais felizes que Aleixo Garcia, que elles roubárão escandalosamente, e matárão com tanta barbaridade[1]. Não sabeis que o cacique Taubixi, mandou avisar os Portuguezes de São Paulo que havião lá muitas riquezas, e os fossem ajudar contra os Castelhanos, que só querião tomar os bens aos gentios e assassinar-lhes{53} os filhos e as mulheres[2]?
—Bravo! bravo! Viva Matheus Chagas! repetirão todos com contentamento cada vez mais estridente e progressivo.
—Em ordem pois, e andar para adiante!—continuou o fogoso orador.—D'aqui a trinta leguas começão os nossos trabalhos. Até então viagem de rosas. Depois tocaias de gentios atrás do páo, ataques de jaguára de sobre a ribanceira, mordedura de cascavel dentro do buraco. Mas não tenhais medo. Eu conheço todos estes perigos. Servi com um dos homens que por ordem de Martim Affonso acompanhárão ao sertão em auxilio de Aleixo Garcia ao capitão José Sedenho, e de que poucos escapárão da refrega[3]. Marchemos, amigos!{54}
Reconhecêrão os dous moços, que presenciavão esta scena, que o grupo avistado formava uma bandeira de aventureiros, como começavão a organisar então os Portuguezes de São Paulo, incitados pela ambição de descobrir minas de ouro e prata, e fazer guerra aos gentios do interior para os reduzirem ao captiveiro.
Posto que nas sós tradições, que se referião a Aleixo Garcia e aos Hespanhóes do Perú, se denunciasse a existencia de minas de ouro e prata no interior do paiz, e nem uma havião ainda descoberto os Portuguezes, bastava a idéa para lhes fallar á cobiça, e leva-los a tentar a fortuna nas emprezas, atirando-se nas densas mattas, transpondo os rios caudalosos, dobrando as serranias levantadas, em procura de preciosidades que a crença geral dizia escondidas no seio das terras, e colhidas pelos Castelhanos por mais audaciosos. Deve a corôa portugueza a{55} estas bandeiras de aventureiros terrenos importantes que conquistárão, e com que alargárão as suas posses, ganhando-as sobre os vizinhos Castelhanos, espalhando nucleos de arraiaes e povoações, que com o tempo prosperárão e augmentárão, e abrindo communicações e caminhos para a beira do mar, aonde havião os Portuguezes começado a estabelecer-se. Findárão seus dias pelos desertos muitos dos aventureiros. Bandeiras inteiras desapparecêrão sem deixarem noticias. Não os poupavão as frexas envenenadas dos gentios, e as tacapes terriveis e pesadas de que usavão, no meio dos seus ferozes festejos, para quebrarem as cabeças dos prisioneiros, cujos corpos devoravão em banquetes horriveis. Resultárão porém no fim das correrias dos Paulistas vantagens e lucros extraordinarios para a colonia, que cresceu em terras, população e riquezas.
Olhou Manuel de Moraes para o seu amigo,{56} e disse-lhe:—Não pensas que o céo nos mostra o que temos de fazer? Porque não acompanhamos estes homens nas suas explorações?
Apoderava-se igualmente de Antonio da Costa o mesmo pensamento repentino.—Vá feito,—respondeu,—e já!
Não gastárão tempo em colloquios. Tomou o noviço a sua roupeta que seccára, e o seu chapéo preto de abas largas. Vestio-se Antonio da Costa com uma jaqueta grossa, deitou-lhe por cima um capote, collocou na cabeça um barrete de palha tosca, e pegou da espingarda e espada que possuia. Promptos para a longa peregrinação, sahírão ambos da choupana, cuja porta ficou trancada, e apressárão os seus passos afim de apanharem a bandeira, que se tinha afastado e adiantado bastante.
Ao chegar á margem do rio Tieté, lográrão os moços encontrar os aventureiros, a cuja{57} empreza pretendião associar-se. Requereu Antonio da Costa fallar ao chefe. Apresentado a Matheus Chagas, declarou-lhe a sua intenção e a do seu companheiro.
—Hum! hum!—vociferárão alguns.—Dous rapazolas, que parecem uns fracalhões, para que nos servem? Queremos gente forte, robusta, capaz de trabalhos e de fadigas, e não franguinhos, que irão só incommodar-nos!
—Silencio!—bradou Matheus Chagas.—Sou eu quem governa, e aceito a companhia. Teremos assim padre e sacristão!
Gargalhadas estrepitosas soárão d'entre os aventureiros. Apropriava-se de feito o dito do chefe ás vestes de Manuel de Moraes e ao juvenil semblante de Antonio da Costa. Subio ao rosto do noviço um rubor subito. Virando-se para o seu amigo, pareceu annunciar-lhe que melhor fôra abandonar o intento. Disse-lhe porém baixo Antonio da Costa que não{58} fizesse caso das risotas do grupo, e lançado estava o dado do destino.
Concordes assim, seguírão todos o seu caminho, acompanhando pela margem esquerda a correnteza do rio, até que em um sitio mais baixo deparárão com seis canôas de toscas e mal afeiçoadas madeiras, juntas por amarras de corda, e pregos grossos, como as jangadas modernas das costas do norte do Brazil. Embarcárão-se nas canôas, desatárão-lhes as cordas que as seguravão á terra, e largárão-nas pelo Tieté, para que as suas aguas as levassem.
Rolava o Tieté no seio de planicies admiraveis, povoadas de arvoredos gigantescos, jacarandás, louro, gurubus, cabiunas e gabirobas possantes, volteando incessantemente como serpente que se enrosca, recuando, avançando como jogo de xadrez, e lançando assim traços argenteos e limpidos através da côr verde-escura das mattas, que o cobrião{59} ás vezes com o tecto protector e hospitaleiro dos seus galhos numerosos. Pelos troncos e ramos das arvores corpulentas se atracavão igualmente mil tenues fios de parasitas, scintillando com as côres de suas flôres deleitosas, que perfumavão a atmosphera e extasiavão os olhos. Rasgavão os ares diversos e copiosos chilros de pequenos passaros, que se erguião e sumião ao rumor que fazião os viajantes. Alli gemia funebremente a juriti, e mais adiante repercutia o som vibrante da araponga, assemelhando-se ao lavrar dos ferros nas forjas das officinas. Via-se ás vezes correr assustada a cotia ligeira, e estridentes risadas dos macacos parecião zombarias de gente que chasqueava a viagem dos aventureiros.
Amarravão-se de noite as canôas ás ribas do rio. Acendião-se fogueiras para seccar a temperatura, e afugentar os animaes damninhos dos desertos. Envolvião-se nos seus{60} capotes os homens da bandeira, e dormião ao ar, e á luz opaca dos astros. Levantavão-se á alvorada, reganhavão as suas embarcações, e continuavão a sua derrota.
Havião navegado oito dias já com esta monotonia, quando percebêrão o primeiro salto do rio, cavado entre morros, e apertado pelas suas quebradas. Passárão as canôas para a terra, e as carregárão ás costas até vencerem o salto, e collocarem aonde o rio offerecia de novo facil navegação. Formava o salto uma verdadeira e perigosa cascata, pela qual rodomoinhavão e se precipitavão as aguas por entre pedras ás vezes agudas, que despedaçavão tudo quanto rolasse com a corrente atirada do alto. Exigia esta operação grandes trabalhos materiaes dos aventureiros, que a pericia de Matheus Chagas sabia até diminuir para se não cansarem.
Não poupavão aves e animaes, que lhes apparecião, roncando de quando em quando na{61} solidão o tiro das espingardas disparadas. Apanhavão ás tardes e ao cahir da noite, ao anzol, peixes exquisitos que lhes variavão o paladar, e lhes deleitavão o gosto. Jacús, tucanos, pacas e capivaras dos mattos, bagres, e surubis do rio, erão tudo regalos, com que os presenteava aquella magestosa solidão dos tropicos.
Soou-lhes um dia um assobio agudo e penetrante de animal bravio. Não lhe prestavão os aventureiros mais attenção, quando minutos depois echoou um segundo. Levantou-se Matheus Chagas, e fazendo signal de silencio, disse á meia voz aos companheiros:
—Atraca, e quietos e mudos. Temos, pelo que parece, gentio perto. Cuidado com as tocaias. São finos como lãs de cagado, e velhacos como lobos.
Encostárão as canôas á margem, e o chefe escolheu tres Carijós, aos quaes incumbio de reconhecer os signaes, e vigiar os sitios.{62}
Não se demorárão os caboclos designados. Entranhárão-se logo pelo basto arvoredo, marchando sobre folhas seccas sem que fizessem o menor ruido, enfiando pelos galhos das arvores com geito de animaes silvestres, e avançando com a ligeireza da corça.
Chegados á raiz de um outeiro, que estava a duzentas braças do sitio em que havião ficado os aventureiros, apromptando as suas armas de fogo para o que désse e viesse, deitárão-se ao chão os tres Carijós, estendendo-se ao correr do terreno. Reinava silencio sepulcral. Nem gritos de aves, ou animaes, nem barulho do rio, ou sopro de vento. Ardentissimo o sol vibrava raios abrazadores, que recolhião ao repouso os entes todos que habitavão as florestas.
Applicárão os Carijós á terra os ouvidos, para que a terra lhes communicasse o que sobre ella se passava em distancia. Em dous livros soem os gentios ler com particular attenção,{63} a terra que lhes noticia o que se passa em torno e até distante d'elles, e o céo, aonde descobrem as peripecias do tempo. Depois de um quarto de hora de acurada attenção erguêrão-se vagarosamente, e a um signal expressivo de um respondêrão os dous com breve abano de cabeça. Examinárão então o terreno, para descobrir que especie de entes o havia pisado. Voltárão para junto dos aventureiros com as mesmas cautelas, e disserão ao chefe:
—Inimigo está perto. São muitas duzias.
—Como o podeis saber?—perguntou-lhes um Portuguez curioso.
—Calai-vos—retorquio Matheus Chagas.—Sou eu o chefe, e quem governa.
Approximou-se dos Carijós, e indagou a distancia em que pensavão estar os inimigos.
—Quatro a seis tiros de frexa—respondêrão-lhe os Carijós.—Ouvimos debaixo da{64} terra o rumor dos seus pés. Apanhámos no chão os signaes de seus passos.
Havião acabado apenas de proferir estas palavras, quando cahio de cima das arvores, não muito longe dos aventureiros, um passaro atravessado por uma frexa produzindo um ruido grande por entre as folhas seccas. Correu para alli um dos Carijós, apanhou o passaro, que reconheceu por uma jacotinga, que entregou a Matheus Chagas.
Não podia haver mais duvida de que tinhão perto de si tribus de gentios selvagens. Não era porém Matheus Chagas homem de temer. Habituára-se ás correrias e á luta.
—Á tocáia tocáia,—disse elle.—Vá o padre fallar-lhes, engana-los, e descobrir-lhes o numero. E digão que o padre nos não serve!
Nomeou quatro Carijós, dous mamelucos, e dous Portuguezes. Ordenou-lhes acompanhassem em distancia, e escondidos, a{65} Manuel de Moraes. Recommendou ao noviço avançasse sem temer, procurasse os gentios, e mostrando-lhes sempre a cruz do seu rosario, lhes fallasse no céo, para que elles se persuadissem que não tinhão inimigos diante de si, mas missionarios de paz, que os pretendião catechisar.
Não trepidou Moraes em obedecer ao chefe. A rogos de Antonio da Costa, deu-lhe Matheus Chagas o seu amigo por companheiro.
Tomárão os dous moços a direcção que lhes apontárão os tres Carijós que tinhão já reconhecido os sitios. Seguírão-lhes os passos os oito aventureiros, occultando-se para não serem vistos, e nem pressentidos pelos inimigos.
Chegárão Manuel de Moraes e Antonio da Costa á raiz do outeiro, e subírão-no até o alto pelas escabrosidades do terreno. Quando alli apparecêrão, echoou na baixada opposta uma gritaria descommunal, que lhes annunciou{66} a existencia proxima dos gentios que devião procurar. Levantou os braços o noviço, apertando e mostrando nas mãos a cruz e o rosario, e seguido pelo seu amigo, foi descendo em direitura ao sitio de onde partião as vozes da tribu selvagem, sem que entretanto descobrissem pessoa alguma adiante e nem atrás de si.
Deixado o outeiro, encaminhárão-se afoutamente pela veiga, que se abria, e acabava no rio. Terião marchado duzentas braças mais, quando a gritos repetidos, se sentírão rodeados de um enxame de gentios nús, tendo apenas na cabeça, e nas partes inferiores do corpo, pennas multicôres de passaros vermelhos e fulgurantes, e nas mãos arcos e frexas de tamanhos e feitios diversos.
Sentírão ambos os moços parar-lhes o sangue nas veias, e arripiarem-se-lhes as carnes. Levantada a cabeça, e erguidas as mãos, mostrou Manuel de Moraes aos gentios a cruz{67} divina, e começou um discurso em portuguez, que derão os indigenas mostras de não entender, posto lhe prestassem attenção com ares de curiosidade. Curvado com humildade, e as mãos entrelaçadas no peito, como penitente, se conservava Antonio da Costa firme e resignado, representando ambos as personagens que lhe havião sido confiadas.
Cada um dos gentios procurava todavia examinar os dous individuos. Occupárão-se uns com o improvisado Jesuita, pegavão-lhe na roupeta, miravão-lhe o chapéo, olhavão-lhe para os grossos sapatos, espantavão-se diante dos seus gestos e das suas palavras incomprehensiveis. Seguravão outros no seu acolyto, e puxavão-lhe as barbas sem o menor respeito.
—Homem de paz,—exclamava Manuel pomposamente,—procuro dar-vos a paz, e ensinar-vos a religião do unico Deos, creador do mundo. Deixai, selvagens, a vida errante{68} e nomade, que vos arrasta para a perdição! Morreu o verdadeiro filho de Deos em Golgota...
Trocárão no entanto entre si os gentios palavras rapidas em lingua guarany, das quaes posto algumas escapassem a Manuel, percebeu-lhes comtudo o sentido, por haver estudado o idioma na casa da companhia. Manifestavão os gentios suspeitas de que fosse um laço a scena a que assistião, e parecião desconfiar da veracidade do missionario.
Para desviar-lhes as suspeitas, e affeiçoar-lhes os animos, disse-lhes Manuel em guarany:
—Tenho companheiros, sim, mas ficárão longe e não vos farão mal. Somos mensageiros de paz, e procuramos a vossa amizade. Vim por isso fallar-vos.
—Piayas desconfião, e mossacaz são fortes,—respondeu-lhe um d'entre elles.—Os brancos são máos e enganadores.{69}
—Socegai-vos,—continuou o noviço.—Os que vêm comigo são bons e amigos.
Trocárão-se signaes mutuos os indigenas. Apalpárão alguns d'entre elles os dous moços para examinarem se tinhão armas escondidas. Reconhecendo que nem-umas trazião, o que parecia cacique da tribu lhes disse com resolução:
—Padre, não vos faremos mal. Somos uma tribu e uma nação poderosa. Temos perto d'aqui as nossas tabas, as nossas mulheres e filhos, e os nossos maracás e uapis. Seguí vosso caminho tranquillamente, e não nos procureis mais, que não queremos negocios com brancos.
Sumírão-se logo em um instante com a mesma velocidade com que tinhão apparecido, deixando absortos os dous moços, que sem os verem mais, lhes ouvião todavia estridentes e repetidos assobios pela espessa floresta, os quaes devião corresponder á signaes{70} e avisos que se communicassem os gentios.
Tratárão os moços de voltar para onde estavão os seus companheiros, e descobrírão agachados por detrás de uma grande arvore os oito amigos que os seguião.
—Cuidado,—disse um Carijó.—São muitos centos. Se desconfião, mal de nós.
Deixárão o sitio e procurárão ajuntar-se aos aventureiros, que anciosos os esperavão. Ouvida a narração do successo, deu Matheus Chagas ordem para se demorarem ahi um dia e uma noite, afim de darem tempo aos gentios inimigos de se afastarem para longe das margens do rio. Passado o prazo marcado, embarcárão-se de novo nas suas canôas, e proseguírão na sua derrota empregando todo o cuidado e vigilancia.
Mais de dous mezes terião gasto já, navegando o Tieté sem que outras aventuras os houvessem perturbado, quando começárão a aperceber que o rio se alargava desmedidamente,{71} assoberbavão as suas aguas campinas extensas, cobrião parte das florestas, e corrião com maior violencia.
Appareceu-lhes pela frente dous dias depois como que uma lagôa de dimensão extraordinaria, além de cujas margens se avistavão difficultosamente as terras.
—É o grande rio Paraná,—disse um dos Carijós.—Entramos agora n'elle.
É impossivel descrever-se a magnificencia do soberbo rio. Depois de atravessar as terras de Matto-Grosso, Minas e parte superior da capitania de São Vicente, e de se ter engrossado com tributarios não menos possantes, e extremamente caudalosos, absorvia no sitio descoberto pelos aventureiros as aguas do Tieté por um lado, e as do Sucuriu, e mais o Pardo do outro, formando uma vasta e grandiosa bahia. Cosêrão-se com as suas canôas á riba esquerda do Paraná, para se não expôrem ao arrebatamento das aguas. Transpuzerão{72} outros arroios importantes, e alguns poderosos, como o Aguapehi e Santo Anastacio. Approximando-se do Paranapanema, ordenou Matheus se desamparasse a corrente do Paraná, e se tratasse de subir este seu tributario encostando-se á ribanceira do lado esquerdo. Foi então mister empregar a força das varas e remos para vencer as aguas que descião. Quatro dias de esforços bastárão para se appropinquarem á embocadura do Pirapó, que se despeja no Paranapanema.
Ao descansar das suas fadigas, partírão gentios a pesquizar os terrenos em que se achavão. Participárão na sua volta a Matheus Chagas, que havião descoberto indicios certos de taba proxima de gentios, galhos de arvores cortados, ausencia de caça e signaes de pisadas humanas. Aproveitou o chefe os avisos e destacou de novo espias para melhor e mais cuidadosamente examinarem as localidades.{73}
Dias depois regressárão os exploradores, declarando terem encontrado uma aldeia grande e vasta, com igreja, campos lavrados, bois, cavallos e carneiros pastando, e abonos visiveis de que não erão os seus habitadores gentios selvagens e errantes.
Pensou logo Matheus Chagas que estavão os aventureiros perto das povoações castelhanas de Guayrá, e raiou de alegria por notar a felicidade com que tinhão percorrido todo o Tieté sem a perda de um homem, e nem lutas com os gentios, e chegado a salvo a uma das aldeias de Guaranys catechisados, que, conforme as noticias espalhadas em São Paulo, devião conter immensas riquezas de prata e ouro, que se podião arrebatar aos Castelhanos em paga das que elles havião roubado aos Portuguezes de Aleixo Garcia.
Formou logo uma especie de campo militar com a sua pequena tropa, escondendo-o no seio das mattas mais proximas da aldeia. Tomou todas{74} as providencias que reputou precisas, e preparou-se para lhe dar o assalto, almejando encher-se de despojos e carregal-os para São Paulo.{75}