a madame de jouarre
Quinta de Refaldes (Minho).
Minha querida madrinha.—Estou
vivendo pinguemente em terras ecclesiasticas, porque esta quinta foi de
frades. Agora pertence a um amigo meu, que é, como Virgilio,
poeta e lavrador, e canta piedosamente as origens heroicas de Portugal
emquanto amanha os seus campos e engorda os seus gados. Rijo,
viçoso, requeimado dos soes, tem oito filhos, com que vai
povoando estas cellas monasticas forradas de cretones claros. E eu
justamente voltei de Lisboa a estes milheiraes do
Norte para ser padrinho do
derradeiro, um famoso senhor de tres palmos, côr de tijolo,
todo roscas e regueifas, com uma careca de melão, os
olhinhos luzindo entre rugas como vidrilhos, e o ar profundamente
sceptico e velho. No sabbado, dia de S. Bernardo, sob um azul que S.
Bernardo tornára especialmente vistoso e macio, ao repicar
dos sinos claros, entre aromas de roseira, e jasmineiro, lá
o conduzimos, todo enfeitado de laçarotes e rendas,
á Pia, onde o Padre Theotonio inteiramente o lavou da fetida
crosta de Peccado Original, que desde a bolinha dos calcanhares
até á moleirinha o cobria todo, pobre senhor de
tres palmos que ainda não vivera da alma, e já
perdera a alma... E desde então, como se Refaldes fosse a
ilha dos Latophagios, e eu tivesse comido em vez da
couve-flôr da horta a flôr do Lotus, por aqui me
quedei, olvidado do mundo e de mim, na doçura d'estes ares,
d'estes prados, de toda esta rural serenidade, que me affaga e me
adormece.
O casarão conventual que habitamos, e onde os conegos
Regrantes de Santo Agostinho, os ricos e nedios Cruzios,
vinham preguiçar no
verão, prende por um claustro florido de hydrangeas e a uma
egreja lisa e sem arte, com um adro assombreado por castanheiros,
pensativo, grave, como são sempre os do Minho. Uma cruz de
pedra encima o portão, onde pende ainda da corrente de ferro
a vetusta e lenta sineta fradesca. No meio do pateo, a fonte, de boa
agua, que canta adormecidamente
cahindo de concha em concha,
tem no topo outra cruz de pedra, que um musgo amarellento reveste de
melancolia secular. Mais longe, n'um vasto tanque, lago caseiro orlado
de bancos, onde decerto os bons Cruzios se vinham embeber pelas tardes
de frescura e repouso, a agua das regas, limpida e farta, brota dos
pés de uma santa de pedra, hirta no seu nicho, e que
é talvez Santa Rita. Adiante ainda, na horta, outra santa
franzina, sustentando nas mãos um vaso partido, preside,
como uma nayade, ao borbulhar de outra fonte, que por quelhas de
granito vai luzindo e fugindo através do feijoal. Nos
esteios de pedra que sustentam a vinha ha por vezes uma cruz gravada,
ou um coração sagrado, ou o monogramma de Jesus.
Toda a quinta, assim santificada por signos devotos, lembra uma
sacristia onde os tectos fossem de parra, a relva cobrisse os soalhos,
por cada fenda borbulhasse um regato, e o incenso sahisse dos cravos.
Mas, com todos estes emblemas sacros, nada ha que nos môva;
ou severamente nos arraste, aos renunciamentos do mundo. A quinta foi
sempre, como agora, de grossa fartura, toda em campos de
pão, bem arada e bem regada, fecunda, estendida ao sol como
um ventre de Nimpha antiga. Os frades excellentes que n'ella habitaram
amavam largamente a terra e a vida. Eram fidalgos que tomavam
serviço na milicia do Senhor, como os seus irmãos
mais velhos tomavam serviço na milicia d'El-rei—e que, como
elles,
gozavam
risonhamente os vagares, os privilegios e a riqueza da sua Ordem e da
sua Casta. Vinham para Refaldes, pelas calmas de julho, em seges e com
lacaios. A cozinha era mais visitada que a egreja—e todos os dias os
capões alouravam no espeto. Uma poeira discreta velava a
livraria, onde apenas por vezes algum conego rheumatisante e retido nas
almofadas da sua cella mandava buscar o
D. Quichote,
ou as
Farças de D. Petronilla.
Espanejada, arejada, bem catalogada, com rotulos e notas
traçadas pela mão erudita dos
Abbades—só a adega...
Não se procure pois, n'esta morada de monges, o precioso
sabor das tristezas monasticas; nem as quebradas de serra e valle,
cheias de ermo e mudez, tão dôces para n'ellas se
curtirem
deliciosamente as saudades do céo; nem as espessuras de
bosque, onde S. Bernardo se embrenhava, por n'ellas encontrar melhor
que na sua cella a «fecunda solidão»;
nem os claros de pinheiral gemente, com rochas núas,
tão proprias para a
choça e para a cruz do ermita... Não! Aqui, em
torno do pateo (onde a agua da fonte todavia corre dos pés
da cruz) são solidas tulhas para o
grão, fofos eidos em que o gado medra, capoeiras abarrotadas
de capões e de perús reverendos. Adiante
é a horta viçosa, cheirosa, succulenta, bastante
a fartar as panellas todas de uma aldeia, mais enfeitada que um jardim,
com ruas que as tiras de morangal orlam e perfumam, e as latadas
ensombram,
copadas
de parra densa. Depois a eira de granito, limpa e alisada, rijamente
construida para longos seculos de colheitas, com o seu espigueiro ao
lado, bem fendilhado, bem arejado, tão largo que os pardaes
voam dentro como n'um pedaço de céo. E por fim,
ondulando ricamente até ás collinas macias, os
campos de milho, e de centeio, o vinhedo baixo, os olivaes, os
relvados, o linho sobre os regatos, o matto florido para os gados... S.
Francisco de Assis e S. Bruno abominariam este retiro de frades e
fugiriam d'elle, escandalisados, como de um peccado vivo.
A casa dentro offerece o mesmo bom conchego temporal. As cellas
espaçosas, de tectos apainelados, abrem para as terras
semeadas, e recebem d'ellas, através da
vidraçaria cheia de sol, a
perenne sensação de fartura, de opulencia rural,
de bens terrenos que não enganam. E a sala melhor,
traçada para as occupações mais
gratas, é o refeitorio, com as suas varandas rasgadas, onde
os regalados monges podessem, ao fim do jantar, conforme a veneravel
tradição dos Cruzios, beber o seu café
aos golos, galhofando, arrotando, respirando a fresquidão,
ou seguindo nas faias do pateo o cantar alto d'um melro.
De sorte que não houve necessidade de alterar esta vivenda,
quando de religiosa passou a secular. Estava já sabiamente
preparada para a profanidade;—e a vida que n'ella então se
começou a viver, não foi differente da do velho
convento, apenas
mais bella, porque, livre das contradicções
do Espiritual e do Temporal, a sua harmonia se tornou perfeita. E, tal
como é, deslisa com incomparavel doçura. De
madrugada, os gallos cantam, a quinta acorda, os cães de
fila são acorrentados,
a moça vai mungir as vaccas, o pegureiro atira o seu cajado
ao hombro, a fila dos jornaleiros mette-se ás terras—e o
trabalho principia, esse trabalho que em Portugal parece a mais segura
das alegrias e a festa sempre incansavel, porque é todo
feito a cantar. As vozes vêm, altas e desgarradas, no fino
silencio, d'além, d'entre os trigos, ou do campo em sacha,
onde alvejam as camisas de linho crú, e os lenços
de longas franjas vermelhejam mais que papoulas. E não ha
n'este labor nem dureza, nem arranque. Todo elle é feito com
a mansidão com que o pão amadurece ao sol. O
arado mais acaricia do que rasga a gleba. O centeio cae por si,
amorosamente, no seio attrahente da foice. A agua sabe onde o
torrão tem sêde, e corre para
lá gralhando e refulgindo. Ceres n'estes sitios bemditos
permanece verdadeiramente, como no Lacio, a Deusa da Terra, que tudo
propicia e soccorre. Ella reforça o braço do
lavrador, torna refrescante o
seu suor, e da alma lhe limpa todo o cuidado escuro. Por isso os que a
servem, mantêm uma serenidade risonha na tarefa mais dura.
Essa era a ditosa
feição da vida antiga.
Á uma hora é o jantar, serio e pingue. A quinta
tudo fornece prodigamente:—e o vinho, o
azeite, a hortaliça, a
fructa têm um sabor mais vivo e são, assim cabidos
das mãos do bom Deus sobre a mesa, sem passar pela mercancia
e pela loja. Em palacio algum, por essa Europa superfina, se come na
verdade tão deliciosamente como n'estas rusticas quintas de
Portugal. Na cozinha enfumarada, com duas panellas de barro e quatro
achas a arder no chão, estas caseiras de aldeia, de mangas
arregaçadas, guizam um banquete que faria exultar o velho
Jupiter, esse transcendente guloso, educado a nectar, o Deus que mais
comeu, e mais nobremente soube comer, desde que ha Deuses no
céo e na terra. Quem nunca provou este arroz de
caçoula, este anho paschal candidamente assado no espeto,
estas cabidellas de frango coevas da Monarchia que enchem a alma,
não póde realmente conhecer o que seja a especial
bemaventurança tão grosseira e tão
divina, que no tempo dos frades se chamava a
comezaina.
E a quinta
depois, com as suas latadas de sombra macia, a dormente
susurração das aguas regantes, os ouros claros e
foscos ondulando nos trigaes, offerece, mais que nenhum outro paraiso
humano ou biblico, o repouso acertado para quem emerge, pesado e
risonho, d'este arroz e d'este anho!
Se estes meios-dias são um pouco materiaes, breve a tarde
trará a porção de poesia
de que necessita o Espirito. Em todo o céo se apagou a
refulgencia d'ouro, o esplendor arrogante que se não deixa
fitar e quasi repelle; agora apaziguado
e tratavel, elle derrama uma
doçura, uma
pacificação que penetra na alma, a torna tambem
pacifica e dôce, e cria esse momento raro em que
céo e alma fraternisam e se entendem. Os arvoredos repousam
n'uma immobilidade de contemplação, que
é intelligente. No piar velado e curto dos passaros ha um
recolhimento e consciencia de ninho feliz. Em fila, a boiada volta dos
pastos, cançada e farta, e vai ainda beberar ao tanque, onde
o gotejar da agua sob a cruz é mais preguiçoso.
Toca o sino a Ave-Marias. Em todos os casaes se está
murmurando o nome de Nosso Senhor. Um carro retardado, pesado de matto,
geme pela sombra da azinhaga. E tudo é tão calmo
e simples e terno, minha madrinha, que, em qualquer banco de pedra em
que me sente, fico enlevado, sentindo a penetrante bondade das coisas,
e tão em harmonia com ella, que não ha n'esta
alma, toda encrostada das lamas do mundo, pensamento que não
podesse contar a um santo...
Verdadeiramente estas tardes santificam. O mundo recua para muito
longe, para além dos pinhaes e das collinas, como uma
miseria esquecida:—e estamos então realmente na felicidade
de um convento, sem regras e sem abbade, feito só da
religiosidade
natural que nos envolve, tão propria á
oração que não tem palavras, e que
é por isso a mais bem comprehendida por Deus.
Depois escurece, já ha pyrilampos nas sebes.
Venus, pequenina, scintilla no alto. A sala, em
cima, está
cheia de livros, dos livros fechados no tempo dos Cruzios—porque
só desde que não
pertence a uma ordem espiritual é que esta casa se
espiritualisou. E o dia na quinta finda com uma lenta e quieta palestra
sobre idéas e letras, emquanto na guitarra ao lado geme
algum dos fados de Portugal, longo em saudades e em ais, e a lua, ao
fundo da varanda, uma lua vermelha e cheia, surde, como a escutar, por
detraz dos negros montes.
Deus nobis haec otia fecit in umbra Lusitaniae pulcherrimae...
Mau latim—grata verdade.
Seu grato e mau afilhado—
Fradique.
XIII
a clara...
(Trad.)
Paris, novembro.
Meu amor.—Ainda ha poucos instantes
(dez instantes, dez minutos, que tanto gastei n'um
fiacre
desolador desde a nossa
Torre de Marfim) eu sentia o rumor do teu
coração junto do meu, sem que nada os separasse
senão uma pouca de argilla mortal, em ti tão
bella, em mim tão rude—e já estou tentando
recontinuar anciosamente, por meio d'este papel inerte, esse ineffavel
estar
comtigo que é hoje todo o fim da minha vida, a
minha suprema e unica vida. É que, longe da tua
presença,
cesso
de viver, as coisas para mim cessam de ser—e fico como um morto
jazendo no meio de um mundo morto. Apenas, pois, me finda esse perfeito
e curto momento de vida que me dás, só com pousar
junto de mim e murmurar o meu nome—recomeço a aspirar
desesperadamente para ti como para uma
resurreição!
Antes de te amar, antes de receber das mãos de meu Deus a
minha Eva—que era eu, na verdade? Uma sombra fluctuando entre sombras.
Mas tu vieste, dôce adorada, para me fazer sentir a minha
realidade, e me permittir que eu bradasse tambem triumphalmente o
meu—«
amo, logo
existo!» E não foi só a
minha realidade que me
desvendaste—mas ainda a realidade de todo este Universo, que me
envolvia como um inintelligivel e cinzento montão de
apparencias. Quando ha dias, no terraço
de Savran, ao anoitecer, te queixavas que eu contemplasse as estrellas
estando tão perto dos teus olhos, e espreitasse o adormecer
das collinas junto ao calor dos teus hombros—não sabias,
nem eu te soube então explicar, que essa
contemplação era ainda um modo novo de te adorar,
porque realmente estava admirando nas coisas a belleza inesperada que
tu sobre ellas derramas por uma emanação que te
é propria, e que, antes de viver a teu lado, nunca eu lhes
percebera, como se não percebe a vermelhidão das
rosas ou o verde tenro das relvas antes de nascer o sol! Foste tu,
minha bem-amada, que me alumiaste o mundo. No teu amor
recebi a minha
Iniciação. Agora entendo, agora sei. E, como o
antigo Iniciado, posso affirmar:—«Tambem fui a Eleusis; pela
larga estrada pendurei muita flôr que não era
verdadeira, diante de muito altar que não era divino; mas a
Eleusis cheguei, em Eleusis penetrei—e vi e senti a
verdade!...»
E accresce ainda, para meu martyrio e gloria, que tu és
tão sumptuosamente bella e
tão ethereamente bella, d'uma belleza feita de
Céo e de Terra, belleza completa e só tua, que eu
já
concebera—que nunca julgára realizavel. Quantas vezes, ante
aquella sempre admirada e toda perfeita Venus de Milo, pensei que se
debaixo da sua testa de Deusa podessem tumultuar os cuidados humanos;
se os seus olhos soberanos e mudos se soubessem toldar de lagrimas; se
os seus labios, só talhados para o mel e para os beijos,
consentissem em tremer no murmurio de uma prece submissa; se, sob esses
seios, que foram o appetite sublime dos Deuses e dos Heroes, um dia
palpitasse o Amor e com elle a Bondade; se o seu marmore soffresse, e
pelo soffrimento se espiritualisasse, juntando ao esplendor da Harmonia
a graça da Fragilidade; se ella fosse do nosso tempo e
sentisse os nossos males, e permanecendo Deusa do Prazer se tornasse
Senhora da Dôr—então não estaria
collocada n'um museu, mas consagrada n'um santuario, porque os homens,
ao reconhecer n'ella a alliança sempre almejada e sempre
frustrada do Real e do Ideal, decerto
a teriam acclamado
in
eternum
como a definitiva Divindade. Mas quê! A pobre Venus
só offerecia a serena magnificencia da carne. De todo lhe
faltava a chamma que arde na alma e a consome. E a creatura
incomparavel do meu scismar, a Venus Espiritual, Cytherêa e
Dolorosa, não existia, nunca existiria!... E quando eu assim
pensava, eis que tu surges, e eu te comprehendo! Eras a
encarnação do meu sonho, ou antes d'um sonho que
deve ser universal—mas só eu te descobri, ou,
tão feliz fui, que só por mim quizeste ser
descoberta!
Vê, pois, se jámais te deixarei escapar dos meus
braços! Por isso mesmo que és a minha
Divindade,—para sempre e irremediavelmente estás presa
dentro da minha adoração. Os Sacerdotes de
Carthago acorrentavam ás lages dos Templos, com cadeias de
bronze, as imagens dos seus Baals. Assim te quero tambem, acorrentada
dentro do templo avaro que te construi, só Divindade minha,
sempre no teu altar,—e eu sempre diante d'elle rojado, recebendo
constantemente n'alma a tua
visitação, abysmando-me sem cessar na tua
essencia, de modo que nem por um momento se descontinue essa
fusão ineffavel, que é para ti um acto de
Misericordia e para mim de Salvação. O que eu
desejaria na verdade é que fosses invisivel para todos e
como não existente—que perpetuamente um estofo informe
escondesse o teu corpo, uma rigida mudez occultasse a tua
intelligencia. Assim passarias
no mundo como uma apparencia
incomprehendida. E só para mim, de dentro do involucro
escuro, se revelaria a tua perfeição rutilante.
Vê quanto te amo—que te queria entrouxada n'um rude, vago
vestido de merino, com um ar quêdo, inanimado... Perderia
assim o triumphal contentamento de vêr resplandecer entre a
multidão maravilhada aquella que em segredo nos ama. Todos
murmurariam compassivamente—«
Pobre
creatura!» E só eu saberia da
«pobre creatura», o
corpo e a alma adoraveis!
Quanto adoraveis! Nem comprehendo que, tendo consciencia do teu
encanto, não estejas de ti namorada como aquelle Narciso que
treme de frio, coberto de musgo, à beira da fonte, em
Savran. Mas eu largamente te amo e por mim e por
ti! A tua belleza, na verdade, attinge a altura de
uma virtude:—e foram decerto os modos tão puros da tua alma
que fixaram as linhas tão formosas do teu corpo. Por isso ha
em mim um incessante desespero de não te saber amar
condignamente—ou antes (pois desceste de um céo superior)
de não saber tratar, como ella merece, a hospeda divina do
meu coração. Desejaria, por vezes, envolver-te
toda n'uma felicidade immaterial, seraphica, calma infinitamente como
deve ser a Bemaventurança—e assim deslisarmos
enlaçados através do silencio e
da luz, muito brandamente, n'um sonho cheio de certeza, sahindo da vida
á mesma hora e indo continuar no
além
o mesmo sonho estatico. E outras
vezes
desejaria arrebatar-te n'uma felicidade vehemente, tumultuosa,
fulgurante, toda de chamma, de tal sorte que n'ella nos destruissemos
sublimemente, e de nós só restasse uma pouca de
cinza sem memoria e sem nome! Possuo uma velha gravura que é
um Satanaz, ainda em toda a refulgencia da belleza archangelica,
arrastando nos braços para o Abysmo uma freira, uma Santa,
cujos derradeiros véos de penitencia se vão
esgaçando
pelas pontas das rochas negras. E na face da Santa, através
do horror, brilha, irreprimida e mais forte que o horror, uma tal
alegria e paixão, tão
intensas—que eu as appeteceria para ti, oh minha Santa roubada! Mas de
nenhum d'estes modos te sei amar, tão fraco ou inhabil
é o meu
coração, de modo que por o meu amor
não ser perfeito, tenho de me contentar que seja eterno. Tu
sorris tristemente d'esta eternidade. Ainda hontem me
perguntavas:—«No calendario do seu
coração, quantos dias dura a
eternidade?» Mas considera que eu era um morto—e que tu me
resuscitaste. O sangue novo que me circula nas veias, o espirito novo
que em mim sente e comprehende, são o meu amor por ti—e se
elle me fugisse, eu teria outra vez, regelado e mudo, de reentrar no
meu sepulchro. Só posso deixar de te amar—quando deixar de
ser. E a vida comtigo, e por ti, é tão
inexprimivelmente bella! É a vida de um Deus. Melhor
talvez:—e se eu fosse esse pagão que tu affirmas que sou,
mas um pagão do Lacio,
pastor de gados, crente ainda em
Jupiter e Apollo, a cada instante temeria que um d'esses Deuses
invejosos te raptasse, te elevasse ao Olympo para completar a sua
ventura divina. Assim não receio:—toda minha te sei e para
todo o sempre, olho o mundo em torno de nós como um Paraiso
para nós creado, e durmo seguro sobre o teu peito na
plenitude da gloria, oh minha tres vezes bemdita, Rainha da minha
graça.
Não penses que estou compondo canticos em teu louvor.
É em plena simplicidade que deixo escapar o que me
está borbulhando na alma... Ao contrario! Toda a Poesia de
todas as idades, na sua gracilidade ou na sua magestade, seria
impotente para exprimir o meu extase. Balbucio, como posso, a minha
infinita oração. E n'esta desoladora
insufficiencia do Verbo humano é como o mais inculto e o
mais illetrado que ajoelho ante ti, e levanto as mãos, e te
asseguro a unica verdade, melhor que todas as verdades—que te amo, e
te amo, e te amo, e te amo!...
Fradique.
XIV
a madame de jouarre
(Trad.)
Lisboa, junho.
Minha querida madrinha.—N'aquella
casa de hospedes da travessa da Palha, onde vive, atrellado
á lavra angustiosa da
Verdade, meu primo o Metaphysico, conheci, logo depois de voltar de
Refaldes, um padre, o padre Salgueiro, que talvez a minha madrinha, com
essa sua maliciosa paciencia de colleccionar Typos, ache interessante e
psychologicamente divertido.
O meu distrahido e pallido Metaphysico affirma, encolhendo os hombros,
que padre Salgueiro não se destaca por nenhuma saliencia de
Corpo ou Alma entre os vagos padres da sua Diocese;—e que resume
mesmo, com uma fidelidade de indice, o pensar, e o sentir, e o viver, e
o parecer da classe ecclesiastica em Portugal. Com effeito, por
fóra, na casca, padre Salgueiro é o costumado e
corrente padre portuguez, gerado na gleba, desbravado e afinado depois
pelo Seminario, pela
frequentação das auctoridades e das Secretarias,
por ligações de confissão e missa com
fidalgas que têm capella, e sobretudo por longas residencias
em Lisboa, n'estas casas de hospedes da Baixa, infestadas de
litteratura e politica. O peito bem arcado, de folego fundo, como um
folle de forja; as mãos ainda escuras, asperas, apesar do
longo contacto com a alvura e doçura das hostias; o
carão
côr de couro curtido, com um sobre-tom azul nos queixos
escanhoados; a corôa livida entre o cabello mais negro e
grosso que pellos de clina; os dentes escaroladamente brancos—tudo
n'elle pertence a essa forte plebe agricola de onde sahiu, e que ainda
hoje em Portugal fornece á Egreja todo o seu pessoal, pelo
desejo de se alliar e de
se apoiar á unica grande instituição
humana que realmente comprehende e de que não desconfia. Por
dentro, porém, como miolo, padre Salgueiro apresenta toda
uma estructura moral deliciosamente pittoresca e nova para quem, como
eu, do Clero Lusitano só entrevira exterioridades, uma
batina desapparecendo pela porta d'uma sacristia, um velho
lenço de rapé posto na borda d'um confessionario,
uma sobrepeliz alvejando n'uma tipoia atraz d'um morto...
O que em padre Salgueiro me encantou logo, na noite em que tanto
palestramos, rondando pachorrentamente o Rocio, foi a sua maneira de
conceber o Sacerdocio. Para elle o Sacerdocio (que de resto ama e acata
como um dos mais uteis fundamentos da sociedade) não
constitue de modo algum uma funcção
espiritual—mas unicamente e terminantemente uma
funcção civil. Nunca, desde que foi collado
á sua parochia, padre Salgueiro se considerou
senão como um funccionario do Estado, um Empregado Publico,
que usa um uniforme, a batina (como os guardas da alfandega usam a
fardeta), e que, em logar de entrar todas as manhãs n'uma
repartição do Terreiro do Paço
para escrevinhar ou archivar officios, vai mesmo nos dias santificados,
a uma outra repartição, onde, em vez da carteira
se ergue um altar, celebrar missas e administrar sacramentos. As suas
relações portanto
não são, nunca foram, com o céo (do
céo
só lhe importa saber se está chuvoso ou
claro)—mas com a Secretaria
da Justiça e dos Negocios Ecclesiasticos. Foi ella
que o collocou na sua Parochia, não para continuar a obra do
Senhor guiando docemente os homens pela estrada limpa da
Salvação
(missões de que não curam as secretarias do
Estado), mas, como funccionario, para executar certos actos publicos
que a lei determina a bem da ordem social—baptisar, confessar, casar,
enterrar os parochianos.
Os sacramentos são, pois, para este excellente padre
Salgueiro, meras ceremonias civis, indispensaveis para a
regularisação do estado civil,—e nunca, desde
que os administra, pensou na sua natureza divina, na Graça
que communicam ás almas, e na força com que ligam
a vida transitoria a um principio Immanente. Decerto, outr'ora no
seminario, padre Salgueiro decorou em compendios ensebados a sua
Theologia Dogmatica, a sua Theologia Pastoral, a sua Moral, o seu S.
Thomaz, o seu Liguori—mas meramente para cumprir as disciplinas
officiaes do curso, ser ordenado pelo seu bispo, depois provido n'uma
parochia pelo seu ministro, como todos os outros bachareis que em
Coimbra decoram as
Sebentas de Direito
natural e de Direito romano para «fazerem o curso»,
receber na cabeça a borla de doutor, e depois o aconchego de
um emprego facil. Só o grau vale e importa, porque justifica
o despacho. A sciencia é a formalidade penosa que
lá conduz—verdadeira
provação, que, depois de atravessada,
não deixa ao espirito
desejos de regressar á
sua disciplina, á sua
aridez, á sua canceira. Padre Salgueiro, hoje, já
esqueceu regaladamente a significação theologica
e
espiritual do casamento:—mas casa, e casa com pericia, com bom rigor
liturgico, com boa fiscalisação
civil, esmiuçando escrupulosamente as certidões,
pondo na benção toda a
uncção prescripta, perfeito em unir as
mãos com a estola, cabal na
ejaculação dos latins, porque é
subsidiado pelo Estado para casar bem os cidadãos, e,
funccionario zeloso,
não quer cumprir com defeitos funcções
que lhe
são pagas sem atrazo.
A sua ignorancia é deliciosa. Além de raros actos
da vida activa de Jesus, a fuga para o Egypto no burrinho, os
pães multiplicados nas bodas de Caná, o azorrague
cahindo sobre os vendilhões do Templo, certas
expulsões de Demonios, nada sabe do Evangelho—que considera
todavia
muito
bonito. Á doutrina de Jesus é
tão alheio como
á philosophia de Hegel. Da Biblia tambem só
conhece episodios soltos, que aprendeu certamente em oleographias—a
Arca de Noé, Samsão arrancando as portas de Gaza,
Judith degollando Holophernes. O que tambem me diverte, nas noites
amigas em que conversamos na travessa da Palha, é o seu
desconhecimento absolutamente candido das origens, da historia da
Egreja. Padre Salgueiro imagina que o Christianismo se fundou de
repente, n'um dia (decerto um domingo), por milagre flagrante de Jesus
Christo:—e desde essa festiva hora tudo para elle
se esbate n'uma treva incerta, onde
vagamente reluzem nimbos de santos e tiáras de papas,
até Pio IX. Não admira, porém, na obra
pontifical de Pio IX, nem a Infallibilidade, nem o Syllabus:—porque se
préza de liberal, deseja mais progresso, bemdiz os
beneficios da instrucção, assigna o
Primeiro de Janeiro.
Onde eu tambem o acho superiormente pittoresco, é
cavaqueando ácerca dos deveres que lhe incumbem como pastor
de almas—os deveres para com as almas. Que elle, por
continuação de uma obra divina, esteja obrigado a
consolar dôres, pacificar inimizades, dirigir
arrependimentos, ensinar a cultura da bondade, adoçar a
dureza dos egoismos, é para o benemerito padre Salgueiro a
mais estranha e incoherente das novidades! Não que
desconheça a belleza moral d'essa missão, que
considera mesmo
cheia de poesia. Mas
não admitte que, formosa e honrosa como é, lhe
pertença a
elle padre Salgueiro! Outro tanto seria exigir de um verificador da
alfandega que moralisasse e purificasse o commercio. Esse santo
emprehendimento pertence aos Santos. E os Santos, na opinião
de padre Salgueiro, formam uma Casta, uma Aristocracia espiritual, com
obrigações sobrenaturaes que lhes são
delegadas e pagas pelo Céo. Muito
differentes se apresentam as obrigações de um
parocho! Funccionario ecclesiastico, elle só tem a cumprir
funcções rituaes em nome da Egreja, e portanto do
Estado que a subsidia. Ha ahi uma criança
para baptisar? Padre Salgueiro toma
a estola e baptisa. Ha ahi um cadaver para enterrar? Padre Salgueiro
toma o hyssope e enterra. No fim do mez recebe os seus dez mil reis
(além da esmola)—e o seu bispo reconhece o seu zelo.
A idéa que padre Salgueiro tem da sua missão
determina, com louvavel logica, a sua conducta. Levanta-se
ás dez horas, hora classicamente adoptada pelos empregados
do Estado. Nunca abre o breviario—a não ser em
presença dos seus
superiores ecclesiasticos, e então por deferencia
gerarchica, como um tenente, que, em face ao seu general, se perfila,
pousa a mão na espada. Emquanto a
orações, meditações,
mortificações, exames d'alma, todos esses
pacientes methodos de aperfeiçoamento e
santificação
propria, nem sequer suspeita que lhe sejam necessarios ou favoraveis.
Para que? Padre Salgueiro constantemente tem presente que, sendo um
funccionario, deve manter, sem transigencias, nem omissões,
o decoro que tornará as suas funcções
respeitadas
do mundo. Veste, por isso, sempre de preto. Não fuma. Todos
os dias de jejum come um peixe austero. Nunca transpoz as portas
impuras de um botequim. Durante o inverno só uma noite vai a
um theatro, a S. Carlos, quando se canta o
Polliuto, uma opera sacra, de purissima
lição. Deceparia a lingua,
com furor, se d'ella lhe pingasse uma falsidade. E é casto.
Não condemna e repelle a mulher com colera, como os Santos
Padres:—até a venéra, se
ella é economica e
virtuosa. Mas o regulamento da Egreja prohibe a mulher: elle
é um funccionario ecclesiastico, e a mulher portanto
não entra nas suas funcções.
É rigidamente casto.
Não conheço maior respeitabilidade do que a de
padre Salgueiro.
As suas occupações, segundo observei, consistem
muito logicamente, como empregado (além das horas dadas aos
deveres liturgicos), em procurar melhoria de emprego. Pertence por isso
a um partido politico:—e em Lisboa, tres noites por semana, toma
chá em casa do seu chefe, levando rebuçados
ás senhoras. Maneja habilmente
eleições. Faz serviços e recados,
complexos e indescriptos, a todos os directores geraes da Secretaria
dos Negocios Ecclesiasticos. Com o seu bispo é
incansavel:—e ainda ha mezes o encontrei, suado e afflicto, por causa
de duas incumbencias de. S. exc.
a uma relativa a
queijadas de Cintra,
outra a uma collecção do
Diario do
Governo.
Não fallei da sua intelligencia. É pratica e
methodica—como verifiquei, assistindo a um sermão que elle
prégou pela festa de S. Venancio. Por esse
sermão, encommendado, recebia padre Salgueiro 20$000 reis—e
deu, por esse preço, um sermão succulento,
documentado, encerrando tudo o que convinha á
glorificação de S.
Venancio. Estabeleceu a filiação do Santo;
desenrolou todos os seus milagres (que são poucos) com
exactidão, exarando as datas, citando as auctoridades;
narrou com rigor agiologico o seu martyrio; enumerou as
egrejas que lhe são
consagradas, com as épocas da
fundação. Enxertou destramente louvores ao
Ministro dos Negocios Ecclesiasticos. Não esqueceu a Familia
Real, a quem rendeu preito constitucional. Foi, em summa, um excellente
relatorio sobre S. Venancio.
Felicitei n'essa noite, com fervor, o reverendo padre Salgueiro. Elle
murmurou, modesto e simples:
—S. Venancio infelizmente não se presta. Não foi
bispo, nunca exerceu cargo publico!... Em todo o caso, creio que
cumpri.
Ouço que vai ser nomeado conego. Larguissimamente o merece.
Jesus não possue melhor amanuense. E nunca realmente
comprehendi por que razão outro amigo meu, um frade do
Varatojo, que, pelo extasi da sua fé, a profusão
da sua caridade, o seu devorador cuidado na
pacificação das almas, me faz lembrar os velhos
homens evangelicos, chama sempre a este sacerdote tão
zeloso, tão pontual, tão proficiente,
tão
respeitavel—«o horrendo padre Salgueiro!»
Ora veja, minha madrinha! Mais de trinta ou quarenta mil annos
são necessarios para que uma montanha se desfaça
e se abata até ao tamanhinho d'um outeiro que um cabrito
galga brincando. E menos de dois mil annos bastaram para que o
Christianismo baixasse dos grandes padres das Sete Egrejas da Asia
até ao divertido padre Salgueiro, que não
é de sete Egrejas, nem mesmo
d'uma, mas sómente,
e muito devotamente, da Secretaria dos Negocios Ecclesiasticos. Este
baque provaria a fragilidade do Divino—se não fosse que
realmente o Divino abrange as religiões e as montanhas, a
Asia, o padre Salgueiro, os cabritinhos folgando, tudo o que se desfaz
e tudo o que se refaz, e até este seu afilhado, que
é todavia
humanissimo.—
Fradique.
XV
a bento de s.
Paris, outubro.
Meu caro Bento.—A tua
idéa de fundar um jornal é damninha e execravel.
Lançando, e em formato rico, com telegrammas e chronicas,
uma outra «d'essas folhas impressas que apparecem todas as
manhãs», como diz tão assustada e
pudicamente o Arcebispo de Paris, tu vaes concorrer para que no teu
tempo e na tua terra se aligeirem mais os Juizos ligeiros, se exacerbe
mais a Vaidade, e se endureça mais a Intolerancia. Juizos
ligeiros, Vaidade, Intolerancia—eis tres negros peccados sociaes que,
moralmente, matam uma Sociedade! E tu alegremente te preparas para os
atiçar. Inconsciente como uma peste, espalhas sobre as almas
a morte. Já decerto o Diabo está atirando mais
braza para debaixo da caldeira de pez, em
que, depois do Julgamento,
recozerás e ganirás, meu Bento e meu reprobo!
Não penses que, moralista amargo, exagero, como qualquer S.
João Chrysostomo. Considera antes como foi
incontestavelmente a Imprensa, que, com a sua maneira superficial,
leviana e atabalhoada de todo affirmar, de tudo julgar, mais enraigou
no nosso tempo o funesto habito dos juizos ligeiros. Em todos os
seculos decerto se improvisaram estouvadamente opiniões: o
grego era inconsiderado e garrulo; já Moysés, no
longo Deserto, soffria com o murmurar variavel dos Hebreus; mas nunca,
como no nosso seculo apressado, essa improvisação
impudente se tornou a operação natural do
entendimento. Com excepção de alguns philosophos
escravisados pelo Methodo, e d'alguns devotos roidos pelo Escrupulo,
todos nós hoje nos deshabituamos, ou antes nos
desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar.
É com impressões
fluidas que formamos as nossas massiças
conclusões. Para julgar em Politica o facto mais complexo,
largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina,
n'uma manhã de vento. Para apreciar em Litteratura o livro
mais profundo, atulhado de idéas novas, que o amor de
extensos annos fortemente encadeou—apenas nos basta folhear aqui e
além uma pagina, através do fumo escurecedor do
charuto. Principalmente para condemnar, a nossa ligeireza é
fulminante. Com que soberana facilidade declaramos—«Este
é uma besta! Aquelle é um
maroto!» Para proclamar—«É um
genio!»
ou «É um santo!» offerecemos uma
resistencia mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa
digestão ou a macia luz d'um céo de maio nos
inclinam á
benevolencia, tambem concedemos bizarramente, e só com
lançar um olhar distrahido sobre o eleito,
a corôa ou a aureola, e ahi empurramos para a popularidade um
maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim
passamos o nosso bemdito dia a estampar rotulos definitivos no dorso
dos homens e das coisas. Não ha acção
individual ou collectiva, personalidade ou obra humana, sobre que
não estejamos promptos a promulgar rotundamente uma
opinião bojuda. E a opinião tem sempre, e apenas,
por base aquelle pequenino lado do facto, do homem, da obra, que
perpassou n'um relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos.
Por um gesto julgamos um caracter: por um caracter avaliamos um povo.
Um inglez, com quem outr'ora jornadeei pela Asia, varão
douto, collaborador de
Revistas, socio de
Academias, considerava os francezes todos, desde os senadores
até aos varredores, como «porcos e
ladrões»... Porquê, meu Bento? Porque em
casa de seu sogro houvera um escudeiro, vagamente oriundo de Dijon, que
não mudava de collarinho e surripiava os charutos. Este
inglez illustra magistralmente a formação
escandalosa das nossas
generalisações.
E quem nos tem enraizado estes habitos de
desoladora leviandade? O jornal—o
jornal, que offerece cada manhã, desde a chronica
até aos
annuncios, uma massa espumante de juizos ligeiros, improvisados na
vespera, á meia noite, entre o silvar do gaz e o fervilhar
das chalaças, por excellentes rapazes que rompem pela
redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar
mesmo o chapéo, decidem com dois rabiscos da penna sobre
todas as coisas da Terra e do Céo. Que se trate d'uma
revolução do Estado, da solidez d'um Banco, d'uma
Magica, ou d'um descarrillamento, o rabisco da penna, com um
traço, esparrinha e julga. Nenhum estudo, nenhum documento,
nenhuma certeza. Ainda, este domingo, meu Bento, um alto jornal de
Paris, commentando a situação
economica, e politica de Portugal, affirmava, e com um aprumado saber,
que «em Lisboa os filhos das mais illustres familias da
aristocracia se empregam como
carregadores da alfandega,
e ao
fim de cada mez mandam receber as soldadas
pêlos
seus
lacaios!» Que dizes tu aos herdeiros das casas
historicas de Portugal, carregando pipas de azeite no caes da
alfandega, e conservando criados de farda para lhes ir receber o
salario? Estas pipas, estes fidalgos, estes lacaios dos carregadores,
formam uma deliciosa e chimerica alfandega que é menos das
Mil
e Uma Noites, que das Mil e
Uma Asneiras. Pois assim o ensinou um jornal consideravel, rico, bem
provido de Encyclopedias, de Mappas, de Estatisticas, de Telephones, de
Telegraphos,
com uma
redacção muito erudita, pinguemente
remunerada, que conhece a Europa, pertence á Academia das
Sciencias Moraes e Sociaes, e legisla no Senado! E tu, Bento, no teu
jornal, fornecido tambem de Encyclopedias e de Telephones, vaes com
penna sacudida lançar sobre a França e sobre a
China, e sobre o desventuroso Universo que se torna assumpto e
propriedade tua, juizos tão solidos e comprovados como os
que aquella bemdita gazeta archivou definitivamente ácerca
da nossa alfandega e da nossa fidalguia...
Este é o primeiro peccado, bem negro. Considera agora outro,
mais negro. Pelo jornal, e pela reportagem que será a sua
funcção e a
sua força, tu desenvolverás, no teu tempo e na
tua terra, todos os males da Vaidade! A reportagem, bem sei,
é uma util abastecedora da Historia. Decerto importou saber
se era adunco ou chato o nariz de Cleopatra, pois que do feitio d'esse
nariz dependeram, durante algum tempo, de Philippes a Actium, os
destinos do Universo. E quantos mais detalhes a esfuracadora
bisbilhotice dos reporters revelar sobre o snr. Renan, e os seus
moveis, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos
possuirá o seculo XX para reconstruir com
segurança a personalidade do auctor das
Origens
do
Christianismo, e, através d'ella, comprehender a
obra. Mas, como a reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem
nos negocios do Mundo ou
nas
direcções do Pensamento, do que, como diz a
Biblia, sobre toda a «sorte e condições
de gente van», desde os jockeys até aos
assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a
documentação da historia, e muito,
prodigiosamente, escandalosamente, para a
propagação das vaidades!
O jornal é com effeito o folle incansavel que assopra a
vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chamma. De todos os tempos
é ella, a vaidade do homem! Já sobre ella gemeu o
gemebundo Salomão, e por ella se perdeu Alcibiades, talvez o
maior dos gregos. Incontestavelmente, porém, meu Bento,
nunca a vaidade foi, como no nosso damnado seculo XIX, o motor
offegante do pensamento e da conducta. N'estes estados de
civilisação, ruidosos e ôcos, tudo
deriva da vaidade, tudo tende á
vaidade. E a fórma nova da vaidade para o civilisado
consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa
commentada no jornal!
Vir no jornal! eis hoje a
impaciente
aspiração e a recompensa suprema! Nos regimens
aristocraticos o esforço era obter, senão
já o favor, ao menos o sorriso do Principe. Nas nossas
democracias a ancia da maioria dos mortaes é
alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se
conquistarem essas sete linhas bemditas, os homens praticam todas as
acções—mesmo as boas. Mesmo as boas, meu Bento!
O «nosso generoso amigo Z...» só manda
os cem mil reis á Creche, para que a gazeta exalte os
cem mil reis de Z...,
nosso amigo generoso. Nem é mesmo necessario que as sete
linhas contenham muito mel e muito incenso: basta que ponham o nome em
evidencia, bem negro, n'essa tinta cujo brilho é mais
appetecido que o velho nimbo d'ouro do tempo das Santidades. E
não ha classe que não ande devorada por esta fome
morbida do reclamo. Ella é tão roedora nos
sêres de exterioridade e de mundanidade, como n'aquelles que
só pareciam amar na vida, como a sua fórma
melhor, a quietação e o silencio...
Entrámos na quaresma (é entre as cinzas, e com
cinzas, que te estou moralisando). Agora, n'estas semanas de peixe,
surdem os frades dominicanos, do fundo dos seus claustros, a
prégar nos pulpitos de Paris. E porquê esses
sermões sensacionaes, d'uma arte profana e theatral, com
exhibicões de psychologia amorosa, com
affectações de anarchismo
evangelico, e tão creadores de escandalo que Paris corre
mais gulosamente a Notre-Dame em tarde de Dominicano, do que
á Comedia-Franceza em noite de Coquelin? Porque os monges,
filhos de S. Domingos, querem setenta linhas nos jornaes do Boulevard,
e toda a celebridade dos histriões. O Jornal estende sobre o
mundo as suas duas folhas, salpicadas de preto, como aquellas duas azas
com que os iconographistas do seculo XV representavam a Luxuria ou a
Gula: e o Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as
duas azas que o levem á gloriola, lhe espalhem o nome
pelo ar sonoro. E
é por essa gloriola que os homens se perdem, e as mulheres
se aviltam, e os Politicos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas
rebolam na extravagancia esthetica, e os Sabios alardeiam theorias
mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda
ululante dos charlatães... (Como me vim tornando
altiloquente e roncante!...) Mas é a verdade, meu Bento!
Vê quantos preferem ser injuriados a serem ignorados!
(Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O proprio mal
appetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para apparecerem
no jornal, ha assassinos que assassinam. Até o velho
instincto da conservação
cede ao novo instincto da notoriedade: e existe tal maganão,
que ante um funeral convertido em apotheose pela abundancia das
corôas, dos coches e dos prantos oratorios, lambe os
beiços, pensativo, e deseja ser o morto.
N'este verão, uma manhã, muito cedo, entrei n'uma
taberna de Montmartre a comprar phosphoros. Rente ao balcão
de zinco, diante de dois copos de vinho branco, um meliante, que pelas
ventas chatas, o bigode hirsuto e pendente, o barrete de pelle de
lontra, parecia (e era) um Huno, um sobrevivente das hordas
d'Alarico,—gritava triumphalmente para outro vadio imberbe e livido, a
quem arremessára um jornal:
—É verdade, em todas as letras, o meu nome todo! Na segunda
columna, logo em cima, onde
diz:—
Hontem um infame e
ignobil
bandido... Sou eu! O nome todo!
E espalhou lentamente em redor um olhar que triumphava. Eis-ahi, como
agora se diz tão alambicadamente, um «estado
d'alma»! Tu, Bento, vaes crear d'estes estados.
Depois considera o derradeiro peccado, negrissimo. Tu fundas, com o teu
novo jornal, uma nova escola de Intolerancia. Em torno de ti, do teu
partido, dos teus amigos, ergues um muro de pedra miuda e bem
cimentada: dentro d'esse murosinho, onde plantas a tua bandeirola com o
costumado lemma de
imparcialidade,
desinteresse, etc., só
haverá, segundo Bento e o seu jornal,
intelligencia, dignidade, saber, energia, civismo; para além
d'esse muro, segundo o jornal de Bento, só haverá
necessariamente sandice, vileza, inercia, egoismo, traficancia!
É a disciplina de partido (e para te agradar, entendo
partido, no seu sentido mais amplo, abrangendo a Litteratura, a
Philosophia, etc.) que te impõe fatalmente esta divertida
separação das virtudes e dos vicios. Desde que
penetras na batalha, nunca poderás admittir que a
Razão ou a Justiça ou a Utilidade se encontrem do
lado d'aquelles contra quem descargas pela manhã a tua
metralha silvante de adjectivos e verbos—porque então a
decencia, se não já a
consciencia, te forçariam a saltar o muro e desertar para
esses justos. Tens de sustentar que elles são maleficos,
desarrazoados,
velhacos, e vastamente merecem o chumbo com que os trespassas. Das
solas dos pés até aos teus raros cabellos, meu
Bento, desde
logo te atolas na Intolerancia! Toda a idéa que se eleve,
para além do muro, a condemnarás como funesta,
sem exame, só porque appareceu dez
braças adiante, do lado dos outros, que são os
Reprobos, e não do lado dos teus, que são os
Eleitos.
Realisam esses outros uma obra? Bento não poupará
prosa nem musculo para que ella pereça: e se por entre as
pedras que lhe atira, casualmente entrevê n'ella certa
belleza ou certa utilidade, mais furiosamente apressa a sua
demolição, porque seria mortificante para os seus
amigos que alguma coisa de util ou de bello nascesse dos seus
inimigos—e vivesse. Nos homens que vagam para além do teu
muro, tu só verás peccadores; e quando entre
elles reconhecesses S. Francisco d'Assis distribuindo aos pobres os
derradeiros ceitis da Porciuncula, taparias a face para que tanta
santidade te não amollecesse, e gritarias mais
sanhudamente:—«Lá anda aquelle malandro a
esbanjar com os vadios o dinheiro que roubou!»
Assim tu serás no teu jornal. E, em torno de ti, os que o
compram e o adoptam lentamente e moralmente se fazem á tua
imagem. Todo o jornal distilla intolerancia, como um alambique distilla
alcool, e cada manhã a multidão se envenena aos
goles com esse veneno capcioso. É pela
acção do jornal que se azedam todos os velhos
conflictos do
mundo—e que as almas, desevangelisadas, se tornam mais rebeldes
á indulgencia. A sociabilidade incessantemente amacia e
arredonda as divergencias humanas, como um rio arredonda e alisa todos
os seixos que n'elle rolam: e a humanidade, que uma longa cultura e a
velhice tem tornado docemente sociavel, tenderia a uma suprema
pacificação—se cada manhã o jornal
não avivasse os odios de Principios, de Classes, de
Raças, e, com os seus gritos, os acirrasse como se acirram
mastins até que se enfureçam e mordam. O jornal
exerce hoje todas as funcções malignas do
defuncto Satanaz, de quem herdou a ubiquidade; e é
não
só o Pae da Mentira, mas o Pae da Discordia. É
elle que por um lado inflamma as exigencias mais vorazes—e por outro
fornece pedra e cal ás resistencias mais iniquas.
Vê tu quando se alastra uma gréve, ou quando entre
duas nações bruscamente se chocam interesses, ou
quando, na ordem espiritual, dois credos se confrontam em hostilidade:
o instincto primeiro dos homens, que o abuso da
Civilisação material tem amollecido e
desmarcialisado, é murmurar
paz! juizo!
e
estenderem as mãos uns para os outros, n'aquelle gesto
hereditario que funda os pactos. Mas surge logo o jornal, irritado como
a Furia antiga, que os separa, e lhes sopra na alma a intransigencia, e
os empurra á batalha, e enche o ar de tumulto e de
pó.
O jornal matou na terra a paz. E não só
atiça as questões já dormentes como
borralhos de lareira,
até que d'ellas salte novamente uma chamma furiosa—mas
inventa dissensões novas, como esse anti-semitismo nascente,
que repetirá, antes que o seculo finde, as anachronicas e
brutas
perseguições medievaes. Depois é o
jornal...
Mas escuta! Onze horas! Onze horas ligeiras estão
dançando, no meu velho relogio, o minuete de Gluck. Ora esta
carta já vai, como a de Tiberio, muito tremenda e verbosa,
verbosa
et tremenda epistola; e eu tenho pressa de a findar, para
ir,
ainda antes do almoço, lêr os meus jornaes, com
delicia.—Teu
Fradique.
XVI