ao snr. e. mollinet
Director da Revista de Biographia e de
Historia
Paris, setembro.
Meu caro snr. Mollinet.—Encontrei
hontem á noite, ao voltar de Fontainebleau, a carta em que o
meu douto amigo, em nome e no interesse da
Revista de
Biographia e de Historia,
me pergunta quem é este meu compatriota Pacheco
(José Joaquim
Alves Pacheco), cuja morte está sendo tão vasta e
amargamente carpida nos jornaes de Portugal. E deseja ainda o meu amigo
saber que obras, ou que fundações, ou que livros,
ou que
idéas, ou que accrescimo na civilisacão
portugueza deixou esse Pacheco, seguido ao tumulo por tão
sonoras, reverentes lagrimas.
Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como n'um resumo, a sua
figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu paiz nem uma
obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma
idéa. Pacheco era entre nós superior e illustre
unicamente porque
tinha um immenso talento.
Todavia, meu caro snr. Mollinet, este talento, que duas
gerações tão soberbamente acclamaram,
nunca deu, da sua
força, uma manifestação positiva,
expressa, visivel! O talento immenso de Pacheco ficou sempre calado,
recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente elle atravessou
a vida por sobre eminencias sociaes: Deputado, Director geral,
Ministro, Governador de bancos, Conselheiro d'Estado, Par, Presidente
do conselho—Pacheco tudo foi, tudo teve, n'este paiz que, de longe e a
seus pés, o contemplava, assombrado do seu immenso talento.
Mas nunca, n'estas situações, por proveito seu ou
urgencia do Estado, Pacheco teve necessidade de deixar sahir, para se
affirmar e operar fóra, aquelle immenso talento que
lá dentro o suffocava. Quando os amigos, os partidos, os
jornaes, as
repartições, os corpos collectivos, a massa
compacta da nação,
murmurando em redor de Pacheco «
que immenso talento!»
o convidavam a alargar o seu
dominio e a sua fortuna—Pacheco sorria, baixando os olhos serios por
traz dos oculos dourados, e seguia, sempre para cima, sempre para mais
alto, através das instituições, com o
seu immenso talento
aferrolhado dentro do craneo como no cofre d'um avaro. E esta reserva,
este sorrir, este lampejar dos oculos, bastavam ao paiz que n'elles
sentia e saboreava a resplandecente evidencia do talento de Pacheco.
Este talento nasceu em Coimbra, na aula de direito natural, na
manhã em que Pacheco, desdenhando a
Sebenta,
assegurou «que
o seculo XIX era um seculo de progresso e de luz». O curso
começou logo
a presentir e a affirmar, nos cafés
da Feira, que havia muito talento em Pacheco: e esta
admiração cada dia crescente do curso,
communicando-se, como todos os movimentos religiosos, das
multidões impressionaveis ás classes
raciocinadoras, dos rapazes aos lentes, levou facilmente Pacheco a um
premio
no fim do anno. A fama
d'esse talento alastrou então por toda a academia—que,
vendo Pacheco sempre pensabundo, já d'oculos, austero nos
seus passos, com praxistas gordos debaixo do braço, percebia
alli um grande espirito que se concentra e se retesa todo em
força intima. Esta geração academica,
ao dispersar, levou pelo paiz,
até os mais sertanejos burgos, a noticia do immenso talento
de Pacheco. E já em escuras boticas de Traz-os-Montes, em
lojas palreiras de barbeiros do Algarve, se dizia, com respeito, com
esperança:—«Parece que ha agora ahi um rapaz de
immenso talento que se formou, o Pacheco!»
Pacheco estava maduro para a representação
nacional. Veio ao seu seio—trazido por um governo (não
recordo qual) que conseguira, com dispendios e manhas, apoderar-se do
precioso talento de Pacheco. Logo na estrellada noite de dezembro em
que elle, em Lisboa, foi ao Martinho tomar chá e torradas,
se susurrou pelas mesas, com
curiosidade:—«É o Pacheco, rapaz de immenso
talento!» E desde que as Camaras se constituiram, todos os
olhares, os do governo e os da opposição, se
começaram a voltar com insistencia, quasi com anciedade,
para Pacheco, que,
na ponta d'uma bancada, conservava a sua attitude de pensador recluso,
os braços cruzados sobre o collete de velludo, a fronte
vergada para o lado como sob o peso das riquezas interiores, e os
oculos a faiscar... Finalmente uma tarde, na discussão da
resposta ao discurso da
Corôa, Pacheco teve um movimento como para atalhar um padre
zarolho que arengava sobre a «liberdade». O
sacerdote immediatamente estacou com deferencia; os tachygraphos
apuraram vorazmente a orelha: e toda a camara cessou o seu desafogado
susurro, para que, n'um silencio condignamente magestoso, se podesse
pela vez primeira produzir o immenso talento de Pacheco. No emtanto
Pacheco não prodigalisou desde logo os seus thesouros. De
pé, com o dedo espetado (geito que foi sempre muito seu),
Pacheco affirmou n'um tom que trahia a segurança do pensar e
do saber
intimo:—«que ao lado da liberdade devia sempre coexistir a
autoridade!» Era pouco, decerto:—mas a camara comprehendeu
bem que, sob aquelle curto resumo, havia um mundo, todo um formidavel
mundo, de idéas solidas. Não volveu a fallar
durante mezes—mas o seu talento inspirava tanto mais respeito quanto
mais invisivel e inaccessivel se conservava lá dentro, no
fundo, no rico e povoado fundo do seu sêr. O unico recurso
que restou então aos devotos d'esse immenso talento (que
já os tinha, incontaveis) foi contemplar a testa de
Pacheco—como se olha para o céo pela certeza
que Deus está por traz,
dispondo. A testa de Pacheco offerecia uma superficie escanteada, larga
e lustrosa. E muitas vezes, junto d'elle, Conselheiros, e Directores
geraes balbuciavam maravilhados:—«Nem é
necessário mais! Basta vêr aquella
testa!»
Pacheco pertenceu logo ás principaes commissões
parlamentares. Nunca porém accedeu a relatar um projecto,
desdenhoso das especialidades. Apenas ás vezes, em silencio,
tomava uma nota lenta. E quando emergia da sua
concentração, espetando o dedo, era para
lançar alguma idéa geral sobre a Ordem, o
Progresso, o Fomento, a Economia. Havia aqui a evidente attitude d'um
immenso talento que (como segredavam os seus amigos, piscando o olho
com finura) «está á espera,
lá em cima, a pairar». Pacheco mesmo, de resto,
ensinava (esboçando, com a mão gorda, o voar
superior d'uma aza por sobre arvoredo copado) que o «talento
verdadeiro só devia conhecer as coisas
pela
rama».
Este immenso talento não podia deixar de soccorrer os
conselhos da Corôa. Pacheco, n'uma
recomposição ministerial (provocada por uma
roubalheira) foi Ministro:—e immediatamente se percebeu que
massiça consolidação viera dar ao
Poder o immenso talento de Pacheco. Na sua pasta (que era a da Marinha)
Pacheco não fez durante os longos mezes de gerencia
«absolutamente nada», como insinuaram tres ou
quatro espiritos amargos e estreitamente positivos. Mas pela primeira
vez, dentro d'este regimen, a nação deixou de
curtir
inquietações e duvidas sobre o nosso Imperio
Colonial. Porquê? Porque sentia que finalmente os interesses
supremos d'esse Imperio estavam confiados a um immeaso talento, ao
talento immenso de Pacheco.
Nas cadeiras do governo, Pacheco rarissimamente surdia do seu silencio
repleto e fecundo. Ás vezes porém, quando a
opposição se
tornava clamorosa, Pacheco descerrava o braço, tomava com
lentidão uma nota a lapis:—e esta nota, traçada
com saber e madurissimo pensar, bastava para perturbar, acuar a
opposição. É que o immenso
talento de Pacheco terminára por inspirar, nas camaras, nas
commissões, nos centros, um terror disciplinar! Ai d'esse
sobre quem viesse a desabar com colera aquelle talento immenso! Certa
lhe seria a humilhação irresgatavel! Assim
dolorosissimamente
o experimentou o pedagogista, que um dia se arrojou a accusar o snr.
Ministro do Reino (Pacheco dirigia então o Reino) de
descurar a
Instrucção do paiz! Nenhuma
incriminação podia ser mais sensivel
áquelle immenso espirito que, na sua phrase lapidaria e
succulenta, ensinára que «um povo sem o curso dos
lyceus é um povo incompleto».
Espetando o dedo (geito sempre tão seu) Pacheco esborrachou
o homem temerario com esta coisa tremenda:—«Ao illustre
deputado que me censura só tenho a dizer que emquanto, sobre
questões d'Instrucção Publica, s.
exc.
a, ahi n'essas bancadas, faz berreiro, eu,
aqui n'esta cadeira,
faço
luz!»—Eu estava lá, n'esse esplendido momento, na
galeria. E não me recordo de ter jámais
ouvido, n'uma assembléa humana, uma tão
apaixonada e fervente rajada de acclamações!
Creio que foi d'ahi a dias que Pacheco recebeu a grã-cruz da
Ordem de S. Thiago.
O immenso talento de Pacheco pouco a pouco se tornava um credo
nacional. Vendo que inabalavel apoio esse immenso talento dava
ás
instituições que servia, todas o appeteceram.
Pacheco começou a ser um Director universal de Companhias e
de Bancos. Cubiçado pela Corôa, penetrou no
Conselho de Estado. O seu partido reclamou avidamente que Pacheco fosse
seu Chefe. Mas os outros partidos cada dia se soccorriam com submissa
reverencia do seu immenso talento. Em Pacheco pouco a pouco se
concentrava a nação.
Á maneira que elle assim envelhecia, e crescia em influencia
e dignidades, a admiração pelo seu immenso
talento chegou a tomar no paiz certas fórmas
d'expressão só proprias da
religião e do amor. Quando elle foi Presidente do Conselho,
havia devotos que espalmavam a mão no peito com
uncção, reviravam o branco do olho ao
céo, para murmurar piamente:—«Que
talento!» E havia amorosos que, cerrando os olhos e
repenicando um beijo nas pontas apinhadas dos dedos, balbuciavam com
langor:—«Ai! que talento!» E, para que o esconder?
Outros havia, a quem aquelle immenso talento amargamente irritava, como
um
excessivo e
desproporcional privilegio. A esses ouvi eu bradar com furor, atirando
patadas ao chão:—«Irra, que é ter
talento de
mais!» Pacheco no emtanto já não
fallava. Sorria apenas. A testa cada vez se lhe tornava mais vasta.
Não relembrarei a sua incomparavel carreira. Basta que o meu
caro snr. Mollinet percorra os nossos annaes. Em todas as
instituições,
reformas, fundações, obras, encontrará
o cunho
de Pacheco. Portugal todo, moral e socialmente, está repleto
de Pacheco. Foi tudo, teve tudo. Decerto, o seu talento era immenso!
Mas immenso se mostrou o reconhecimento da sua patria! Pacheco e
Portugal, de resto, necessitavam insubstituivelmente um do outro, e
ajustadissimamente se completavam. Sem Portugal—Pacheco não
teria sido o que foi entre os homens: mas sem Pacheco—Portugal
não seria o que é entre as
nações!
A sua velhice offereceu um caracter augusto. Perdera o cabello
radicalmente. Todo elle era testa. E mais que nunca revelava o seu
immenso talento—mesmo nas minimas coisas. Muito bem me lembro da noite
(sendo elle Presidente do Conselho) em que, na sala da Condessa de
Arrôdes, alguem, com fervor, appeteceu conhecer o que s.
exc.
a pensava de Canovas del Castillo.
Silenciosamente,
magistralmente, sorrindo apenas, s. exc.
a deu
com a mão
grave, de leve, um corte horisontal no ar. E foi em torno um murmurio
d'admiração, lento e maravilhado. N'aquelle gesto
quantas
coisas subtis,
fundamente pensadas! Eu por mim, depois de muito esgravatar,
interpretei-o d'este modo:—«mediocre, meia-altura, o snr.
Canovas!» Porque, note o meu caro snr. Mollinet como aquelle
talento, sendo tão vasto—era ao mesmo tempo tão
fino!
Rebentou;—quero dizer, s. exc.
a morreu, quasi
repentinamente, sem
soffrimento, no começo d'este duro inverno. Ia ser
justamente creado marquez de Pacheco. Toda a
nação o chorou com infinita
dôr. Jaz no alto de S. João, sob um mausoleu, onde
por suggestão do snr. conselheiro Accacio (em carta ao
Diario
de Noticias) foi esculpida
uma figura de
Portugal chorando o Genio.
Mezes depois da morte de Pacheco, encontrei a sua viuva, em Cintra, na
casa do dr. Videira. É uma mulher (asseguram amigos meus) de
excellente intelligencia e bondade. Cumprindo um dever de portuguez,
lamentei, diante da illustre e affavel senhora, a perda irreparavel que
era sua e da patria. Mas quando, commovido, alludi ao immenso talento
de Pacheco, a viuva de Pacheco ergueu n'um brusco espanto, os olhos que
conservára baixos—e um fugidio, triste, quasi apiedado
sorriso arregaçou-lhe os cantos da bôca pallida...
Eterno desaccordo dos destinos humanos! Aquella mediana senhora nunca
comprehendera aquelle immenso talento! Creia-me, meu caro snr.
Mollinet, seu dedicado—
Fradique.
IX
A CLARA...
(Trad.)
Paris, junho.
Minha adorada
amiga.—Não, não foi na
Exposição dos Aguarellistas,
em março, que eu tive comsigo o meu primeiro encontro, por
mandado dos Fados. Foi no inverno, minha adorada amiga, no baile dos
Tressans. Foi ahi que a vi, conversando com Madame de Jouarre, diante
d'uma console, cujas luzes, entre os molhos de orchideas, punham nos
seus cabellos aquelle nimbo d'ouro que tão justamente lhe
pertence como «rainha de graça entre as
mulheres». Lembro ainda, bem
religiosamente, o seu sorrir cançado, o vestido preto com
relevos côr de botão d'ouro, o leque antigo que
tinha fechado no regaço. Passei; mas logo tudo em redor me
pareceu irreparavelmente enfadonho e feio; e voltei a readmirar, a
meditar em silencio a sua belleza, que me prendia
pelo esplendor patente e comprehensivel, e ainda por não sei
quê de fino, de espiritual, de dolente e de meigo que
brilhava através e vinha da alma. E tão
intensamente me embebi n'essa contemplação, que
levei commigo a sua imagem, decorada e inteira, sem esquecer um fio dos
seus cabellos ou uma
ondulação da sêda que a cobria, e corri
a encerrar-me com ella, alvoroçado, como um artista que
n'algum escuro armazem, entre poeira e cacos, descobrisse a Obra
sublime d'um Mestre perfeito.
E, porque o não confessarei? Essa imagem foi para mim, ao
principio, meramente um Quadro, pendurado no fundo da minha alma, que
eu a cada dôce momento olhava—mas para lhe louvar apenas,
com crescente surpreza, os encantos diversos de Linha e de
Côr. Era sómente uma rara tela, posta em sacrario,
immovel e muda no seu brilho, sem outra influencia mais sobre mim que a
d'uma fórma muito bella que captiva um gosto muito educado.
O meu sêr continuava livre, attento ás
curiosidades que até ahi o seduziam, aberto aos sentimentos
que até ahi o solicitavam;—e só quando sentia a
fadiga das coisas imperfeitas ou o desejo novo d'uma
occupação mais pura, regressava
á Imagem que em mim guardava, como um Fra Angelico, no seu
claustro, pousando os pinceis ao fim do dia, e ajoelhando ante a Madona
a implorar d'ella repouso e inspiração superior.
Pouco a pouco, porém, tudo o que não foi esta
contemplação perdeu para mim valor e encanto.
Comecei a viver cada dia mais retirado no fundo da minha alma, perdido
na admiração da Imagem que lá
rebrilhava—até que só essa
occupação me pareceu digna da vida, no mundo todo
não reconheci mais que uma apparencia inconstante, e fui
como um monge na sua
cella, alheio ás coisas mais reaes, de joelhos e hirto no
seu sonho, que é para elle a unica realidade.
Mas não era, minha adorada amiga, um pallido e passivo
extasi diante da sua Imagem. Não! era antes um ancioso e
forte estudo d'ella, com que eu procurava conhecer através
da Fórma a
Essencia, e (pois que a Belleza é o esplendor da Verdade)
deduzir das perfeições do seu Corpo as
superioridades da sua Alma. E foi assim que lentamente surprehendi o
segredo da sua natureza; a sua clara testa que o cabello descobre,
tão clara e lisa, logo me contou a rectidão do
seu pensar: o seu sorriso, d'uma nobreza tão intellectual,
facilmente me revelou o seu desdem do mundanal e do ephemero, a sua
incansavel aspiração para um viver de verdade e
de belleza: cada graça de seus movimentos me trahiu uma
delicadeza do seu gosto: e nos seus olhos differencei o que n'elles
tão adoravelmente se confunde, luz de razão,
calor de coração, luz que melhor aquece, calor
que melhor alumia... Já a certeza de tantas
perfeições bastaria a fazer dobrar, n'uma
adoração perpetua, os joelhos mais rebeldes. Mas
succedeu ainda que, ao passo que a comprehendia e que a sua Essencia se
me manifestava, assim visivel e quasi tangivel, uma influencia descia
d'ella sobre mim—uma influencia estranha, differente de todas as
influencias humanas, e que me dominava com transcendente omnipotencia.
Como lhe poderei dizer? Monge,
fechado na minha cella, comecei a
aspirar á santidade, para me harmonisar e merecer a
convivencia com a Santa a que me votára. Fiz
então sobre mim um aspero exame de consciencia. Investiguei
com inquietação se o meu pensar era condigno da
pureza do seu pensar; se no meu gosto não haveria
desconcertos que podessem ferir a disciplina do seu gosto; se a minha
idéa da vida era tão alta e séria como
aquella que eu presentira na espiritualidade do seu olhar, do seu
sorrir; e se o meu coração não se
dispersára e enfraquecera de mais para poder palpitar com
parallelo vigor junto do seu coração. E tem sido
em mim agora um arquejante esforço para subir a uma
perfeição identica áquella que em si
tão submissamente adoro.
De sorte que a minha querida amiga, sem saber, se tornou a minha
educadora. E tão dependente fiquei logo d'esta
direcção, que já
não posso conceber os movimentos do meu sêr
senão governados
por ella e por ella ennobrecidos. Perfeitamente sei que tudo o que hoje
surge em mim de algum valor, idéa ou sentimento,
é obra d'essa educação que a sua alma
dá
á minha, de longe, só com existir e ser
comprehendida. Se hoje me abandonasse a sua influencia—devia antes
dizer, como um asceta, a sua Graça—todo eu rolaria para uma
inferioridade sem remissão. Veja pois como se me tornou
necessaria e preciosa... E considere que, para exercer esta supremacia
salvadora,
as suas
mãos não tiveram de se
impôr sobre as minhas—bastou que eu a avistasse de longe,
n'uma festa, resplandecendo. Assim um arbusto silvestre floresce
á borda d'um fôsso, porque
lá em cima nos remotos céos fulge um grande sol,
que não o vê, não o conhece, e
magnanimamente o faz crescer, desabrochar, e dar o seu curto aroma...
Por isso o meu amor attinge esse sentimento indescripto e sem nome que
a Planta, se tivesse consciencia, sentiria pela Luz.
E considere ainda que, necessitando de si como da luz, nada lhe rogo,
nenhum bem imploro de quem tanto póde e é para
mim dona de todo o bem. Só desejo que me deixe viver sob
essa influencia, que, emanando do simples brilho das suas
perfeições, tão facil e
dôcemente opéra o meu aperfeiçoamento.
Só peço esta permissão caridosa. Veja
pois quanto me conservo distante e vago, na esbatida humildade d'uma
adoração que
até receia que o seu murmurio, um murmurio de prece, roce o
vestido da imagem divina...
Mas se a minha querida amiga por acaso, certa do meu renunciamento a
toda a recompensa terrestre, me permittisse desenrolar junto de si,
n'um dia de solidão, a agitada confidencia do meu peito,
decerto faria um acto de ineffavel misericordia—como outr'ora a Virgem
Maria quando animava os seus adoradores, ermitas e santos, descendo
n'uma nuvem e concedendo-lhes um sorriso fugitivo, ou deixando-lhes
cahir entre as mãos erguidas
uma rosa do Paraiso.
Assim, ámanhã, vou passar a tarde com Madame de
Jouarre. Não ha ahi a santidade d'uma cella ou d'uma ermida,
mas quasi o seu isolamento: e se a minha querida amiga surgisse, em
pleno resplendor, e eu recebesse de si, não direi uma rosa,
mas um sorriso, ficaria então radiosamente seguro de que
este meu amor, ou este meu sentimento indescripto e sem nome que vai
além do amor, encontra ante seus olhos piedade e
permissão para
esperar.—
Fradique.
X
a madame de jouarre
(Trad.)
Lisboa, junho.
Minha excellente madrinha.—Eis o
que tem «visto e feito», desde maio, na
formosissima
Lisboa,
Ulyssipo pulcherrima, o seu
admiravel afilhado. Descobri um patricio meu, das Ilhas, e meu parente,
que vive ha tres annos construindo um Systema de Philosophia no
terceiro andar d'uma casa de hospedes, na travessa da Palha. Espirito
livre, emprehendedor e destro, paladino das Idéas Geraes, o
meu parente, que se chama Procopio,
considerando que a mulher
não vale o tormento que espalha, e que os oitocentos mil
reis de um olival bastam, e de sobra, a um espiritualista—votou a sua
vida á Logica e só se interessa e soffre pela
Verdade. É um philosopho alegre; conversa sem berrar; tem
uma aguardente de muscatel excellente;—e eu trepo com gosto duas ou
tres vezes por semana á sua officina de Metaphysica a saber
se, conduzido pela alma dôce de Maine de Biran, que
é o seu cicerone nas viagens do Infinito, elle já
entreviu emfim, disfarçada por traz dos seus derradeiros
véos, a Causa das Causas. N'estas piedosas visitas vou,
pouco a pouco, conhecendo alguns dos hospedes que n'esse terceiro andar
da travessa da Palha gozam uma boa vida de cidade, a doze
tostões por dia, fóra vinho e roupa lavada. Quasi
todas as profissões em que se occupa a
classe-média em Portugal estão
aqui representadas com fidelidade, e eu posso assim estudar, sem
esforço, como n'um indice, as idéas e os
sentimentos que no nosso Anno da Graça
formam o fundo moral da nação.
Esta casa de hospedes offerece encantos. O quarto do meu primo Procopio
tem uma esteira nova, um leito de ferro philosophico e virginal, cassa
vistosa nas janellas, rosinhas e aves pela parede,—e é
mantido em rigido asseio por uma d'estas creadas como só
produz Portugal, bella moça de Traz-os-Montes, que,
arrastando os seus chinelos com a indolencia grave d'uma nympha latina,
varre, esfrega
e arruma todo o andar; serve nove almoços, nove jantares e
nove chás;
escarolla as louças; prega esses botões de
calças e de ceroulas que os portuguezes estão
constantemente a perder; engomma as saias da Madama; reza o
terço da sua aldeia; e tem ainda vagares para amar
desesperadamente um barbeiro visinho, que está decidido a
casar com ella quando fôr empregado na Alfandega. (E tudo
isto por tres mil reis de soldada). Ao almoço ha dois
pratos, sãos e fartos, de ovos e bifes. O vinho vem do
lavrador, vinhinho leve e precoce, feito pelos veneraveis preceitos das
Georgicas, e semelhante decerto ao vinho da
Rethia—
quo te carmine dicam, Rethica? A torrada,
tratada pelo lume forte, é incomparavel. E os quatro paineis
que ornam a sala, um retrato de Fontes (estadista, já morto,
que é tido pelos
portuguezes em grande veneração), uma imagem de
Pio IX sorrindo e abençoando, uma vista da varzea de
Collares, e duas donzellas beijocando uma rôla, inspiram as
salutares idéas, tão
necessarias, de Ordem Social, de Fé, de Paz campestre, e de
Innocencia.
A patrôa, D. Paulina Soriana, é uma Madama de
quarenta outonos, frescalhota e roliça, com um
pescoço muito nedio, e toda ella mais branca que o chambre
branco que usa por sobre uma saia de sêda roxa. Parece uma
excellente senhora, paciente e maternal, de bom juizo e de boa
economia. Sem ser rigorosamente viuva—tem um filho, já
gordo tambem, que roe as
unhas e segue o curso dos lyceus. Chama-se Joaquim, e, por ternura,
Quinzinho; soffreu esta primavera não sei que duro mal que o
forçava a infindaveis orchatas e semicupios; e
está destinado por D. Paulina á
Burocracia que ella considera, e muito justamente, a carreira mais
segura e a mais facil.
—O essencial para um rapaz (affirmava ha dias a apreciavel
senhora, depois do almoço,
traçando a perna) é ter padrinhos e apanhar um
emprego; fica logo arrumado; o trabalho é pouco e o
ordenadosinho está certo ao fim do mez.
Mas D. Paulina está tranquilla com a carreira do Quinzinho.
Pela influencia (que é toda-poderosa n'estes Reinos) d'um
amigo certo, o snr. conselheiro Vaz Netto, ha já no
Ministerio das Obras Publicas ou da Justiça uma cadeira de
amanuense, reservada, marcada com lenço, á espera
do
Quinzinho. E mesmo como o Quinzinho foi reprovado nos ultimos exames,
já o snr. conselheiro Vaz Netto lembrou que, visto elle se
mostrar assim desmazelado, com pouco gosto pelas letras, o melhor era
não teimar mais nos estudos e no Lyceu, e entrar
immediatamente para a repartição...
—Que ainda assim (ajuntou a boa senhora, quando me honrou com estas
confidencias) gostava que o Quinzinho acabasse os estudos.
Não era pela necessidade, e por causa do emprego, como v.
exc.
a vê: era pelo gosto.
Quinzinho tem pois a sua prosperidade agradavelmente
garantida. De resto
supponho que D. Paulina junta um peculio prudente. Na casa, bem
afreguezada, ha agora sete hospedes—e todos fieis, solidos, gastando,
com os extras, de quarenta e cinco a cincoenta mil reis por mez. O mais
antigo, o mais respeitado (e aquelle que eu precisamente já
conheço) é o Pinho—o Pinho
brazileiro, o commendador Pinho. É elle quem todas as
manhãs annuncia a hora do almoço (o relogio do
corredor ficou desarranjado desde o Natal) sahindo do seu quarto
ás dez horas, pontualmente, com a sua garrafa d'agua de
Vidago, e vindo occupar á mesa, já posta, mas
ainda deserta, a sua
cadeira, uma cadeira especial de verga, com almofadinha de vento.
Ninguem sabe d'este Pinho nem a idade, nem a familia, nem a terra de
provincia em que nasceu, nem o trabalho que o occupou no Brazil, nem as
origens da sua commenda. Chegou uma tarde de inverno n'um paquete da
Mala Real; passou cinco dias no Lazareto; desembarcou com dois
bahús, a cadeira de verga, e cincoenta e seis latas de
dôce de tijolo; tomou o seu quarto n'esta casa de hospedes,
com janella para a travessa; e aqui engorda, pacifica e risonhamente,
com o seis por cento das suas inscripções.
É um
sujeito atochado, baixote, de barba grisalha, a pelle escura, toda em
tons de tijolo e de café, sempre vestido de casimira preta,
com uma luneta d'ouro pendente d'uma fita de sêda, que elle,
na rua, a cada esquina, desemmaranha do cordão d'ouro do
relogio
para
lêr com interesse e lentidão os cartazes dos
theatros. A sua vida tem uma d'essas prudentes regularidades que
tão admiravelmente concorrem para crear a ordem nos Estados.
Depois de almoço calça as botas de cano, lustra o
chapéo de
sêda, e vai muito devagar até á rua dos
Capellistas, ao
escriptorio terreo do corretor Godinho, onde passa duas horas pousado
n'um môcho, junto do balcão, com as
mãos cabelludas encostadas ao cabo do guarda-sol. Depois
entala o guarda-sol debaixo do braço, e pela rua do Ouro,
com uma pachorra saboreada, parando a contemplar alguma senhora de
sêdas mais tufadas ou alguma vittoria de librés
mais lustrosas, alonga os passos para a tabacaria Sousa, ao Rocio, onde
bebe um copo de agua de Caneças, e repousa até
que a tarde refresque.
Segue então para a Avenida, a gozar o ar puro e o luxo da
cidade, sentado n'um banco; ou dá a volta ao Rocio, sob as
arvores, com a face erguida e dilatada em bem-estar. Ás seis
recolhe, despe e dobra a sobrecasaca, calça os chinelos de
marroquim, enverga uma regalada quinzena de ganga, e janta, repetindo
sempre a sopa. Depois do café dá um
«hygienico» pela Baixa, com demoras pensativas, mas
risonhas, diante das vitrines de confeitaria e de modas; e em certos
dias sobe o Chiado, dobra a esquina da rua Nova da Trindade, e
regateia, com placidez e firmeza, uma senha para o Gymnasio. Todas as
sextas-feiras entra no seu banco, que é o
London
Brazilian. Aos domingos,
á noitinha, com
recato, visita uma moça
gorda e limpa que mora na rua da Magdalena. Cada semestre recebe o juro
das suas inscripcões.
Toda a sua existencia é assim um pautado repouso. Nada o
inquieta, nada o apaixona. O universo, para o commendador Pinho, consta
de duas unicas entidades—elle proprio, Pinho, e o Estado que lhe
dá o seis por cento: portanto o universo todo
está perfeito, e a vida perfeita, desde que Pinho,
graças ás aguas de Vidago, conserve appetite e
saude, e que o Estado continue a pagar fielmente o coupon. De resto,
pouco lhe basta para contentar a porção d'Alma e
Corpo de que
apparentemente se compõe. A necessidade que todo o
sêr vivo (mesmo as ostras, segundo affirmam os Naturalistas)
tem de communicar com os seus semelhantes por meio de gestos ou sons,
é em Pinho pouco exigente. Pelos meados d'abril, sorri e
diz, desdobrando o guardanapo—«temos o verão
comnosco»: todos concordam e Pinho goza. Por meados
d'outubro, corre os dedos pela barba e murmura—«temos
comnosco o inverno»: se outro hospede discorda, Pinho
emmudece, porque teme controversias. E esta honesta
permutação de idéas lhe basta.
Á mesa, comtanto que lhe
sirvam uma sopa succulenta, n'um prato fundo, que elle possa encher
duas vezes—fica consolado e disposto a dar graças a Deus. O
Diario de
Pernambuco, o
Diario de Noticias,
alguma comedia
do Gymnasio, ou uma Magica, satisfazem e de sobra
essas outras necessidades de
intelligencia e de
imaginação, que Humboldt encontrou mesmo entre os
Botecudos. Nas funcções do sentimento Pinho
só pretende modestamente (como revelou um dia ao meu primo)
«não apanhar uma
doença». Com as coisas publicas está
sempre agradado, governe este ou governe aquelle, comtanto que a
policia mantenha a ordem, e que não se produzam nos
principios e nas ruas disturbios nocivos ao pagamento do coupon. E
emquanto ao destino ulterior da sua alma, Pinho (como elle a mim
proprio me
assegurou)—«só deseja depois de morto que o
não enterrem vivo». Mesmo ácerca d'um
ponto
tão importante, como é para um commendador o seu
mausoléo, Pinho pouco requer:—apenas uma pedra lisa e
decente, com o seu nome, e um singelo
orai por elle.
Errariamos porém, minha querida madrinha, em
suppôr que Pinho seja alheio a tudo quanto seja humano.
Não! Estou certo que Pinho respeita e ama a humanidade.
Sómente a humanidade, para elle, tornou-se no decurso da sua
vida excessivamente restricta. Homens, homens serios, verdadeiramente
merecedores d'esse nobre nome, e dignos de que por elles se mostre
reverencia, affecto, e se arrisque um passo que não cance
muito—para Pinho só ha os prestamistas do Estado. Assim,
meu primo Procopio, com uma malicia bem inesperada n'um espiritualista,
contou-lhe ha tempos em confidencia, arregalando os olhos, que eu
possuia
muitos papeis!
muitas apolices! muitas
inscripções!... Pois na primeira manhã
que voltei, depois d'essa revelação, á
casa de hospedes,
Pinho, ligeiramente córado, quasi commovido, offereceu-me
uma boceta de dôce de tijolo embrulhada n'um guardanapo. Acto
tocante, que explica aquella alma! Pinho não é um
egoista, um Diogenes de
rabôna preta, sêccamente retrahido dentro da pipa
da sua inutilidade. Não. Ha n'elle toda a humana vontade de
amar os homens seus semelhantes, e de os beneficiar. Sómente
quem são, para Pinho, os seus genuinos
«semelhantes»? Os prestamistas do Estado. E em que
consiste para Pinho o acto de beneficio? Na cessão aos
outros d'aquillo que a elle lhe é inutil. Ora Pinho
não se dá bem
com o uso da goiabada—e logo que soube que eu era um possuidor de
inscripções, um seu semelhante,
capitalista como elle, não hesitou, não se
retrahiu mais ao seu dever humano, praticou logo o acto de beneficio, e
lá veio, ruborisado e feliz, trazendo o seu dôce
dentro d'um guardanapo.
É o commendador Pinho um cidadão inutil?
Não, certamente! Até para manter em estabilidade
e solidez a ordem d'uma nação, não ha
mais prestadio cidadão do que este Pinho, com a sua placidez
de habitos, o seu facil assentimento a todos os feitios da coisa
publica, a sua conta do banco verificada ás sextas-feiras,
os seus prazeres colhidos em hygienico recato, a sua reticencia, a sua
inercia. D'um Pinho nunca póde sahir idéa ou
acto, affirmação
ou negação, que
desmanche a paz do Estado. Assim gordo e quieto, collado sobre o
organismo social, não concorrendo para o seu movimento, mas
não o contrariando tambem, Pinho apresenta todos os
caracteres d'uma excrescencia sebacea. Socialmente, Pinho é
um lobinho. Ora nada mais inoffensivo que um lobinho: e nos nossos
tempos, em que o Estado está cheio de elementos morbidos,
que o parasitam, o sugam, o infeccionam e o sobreexcitam, esta
inoffensibilidade de Pinho póde mesmo (em
relação aos interesses da ordem) ser considerada
como qualidade meritoria. Por isso o Estado, segundo corre, o vai crear
barão. E barão
d'um titulo que os honra a ambos, ao Estado e a Pinho, porque
é n'elle simultaneamente prestada uma homenagem graciosa e
discreta á Familia e á Religião. O pae
de Pinho chamava-se Francisco—Francisco José Pinho. E o
nosso amigo vai ser feito barão de S. Francisco.
Adeus, minha querida madrinha! Vamos no nosso decimo oitavo dia de
chuva! Desde o começo de junho e das rosas, que n'este paiz
de sol sobre azul, na terra trigueira da oliveira e do louro, queridos
a Phebo, está chovendo, chovendo em fios d'agua cerrados,
continuos, imperturbados, sem sopro de vento que os ondule, nem raio de
luz que os diamantise, formando das nuvens ás ruas uma trama
molle de humidade e tristeza, onde a alma se debate e definha como uma
borboleta presa nas teias d'uma aranha. Estamos em pleno versiculo
XVII, do capitulo VII do
Genesis. No caso d'estas aguas do céo não
cessarem, eu concluo que as
intenções de Jehovah, para com este paiz
peccador, são diluvianas; e, não me julgando
menos digno da Graça e da Alliança divina do que
Noé, vou comprar madeira e betume, e fazer uma Arca segundo
os bons modelos hebraicos ou assyrios. Se por acaso d'aqui a tempos uma
pomba branca fôr bater com as azas á sua
vidraça, sou eu que
aportei ao Havre na minha Arca, levando commigo, entre outros animaes,
o Pinho e a D. Paulina, para que mais tarde, tendo baixado as aguas,
Portugal se repovoe com proveito, e o Estado tenha sempre Pinhos a quem
peça dinheiro emprestado, e Quinzinhos gordos com quem gaste
o dinheiro que pediu a Pinho. Seu afilhado do
coração—
Fradique.
XI
a mr. bertrand b.
Engenheiro na Palestina
Paris, abril.
Meu caro Bertrand.—Muito
ironicamente, hoje, n'este Domingo de Paschoa em que os céos
contentes, se revestiram paschalmente d'uma chasula d'ouro e d'azul, e
os lilazes novos perfumam o meu jardim para o santificar, me chega a
tua horrenda
carta,
contando que findaste o traçado do
Caminho de Ferro de Jaffa a Jerusalem! E
triumphas! Decerto, á porta de Damasco, com as botas fortes
enterradas no pó de Josaphat, o guarda-sol pousado sobre uma
pedra tumular de propheta, o lapis ainda errante sobre o papel, sorris,
todo te dilatas, e através das lunetas defumadas contemplas,
marcada por bandeirinhas, a «linha» onde em breve,
fumegando e guinchando, rolará da velha Jeppo para a velha
Sião o negro comboio da tua negra obra! Em redor os
empreiteiros, limpando o grosso suor da façanha, desarrolham
as garrafas da cerveja festiva! E por traz de vós o
Progresso, hirto contra as muralhas de Herodes, todo
engonçado, todo aparafusado, tambem triumpha, esfregando,
com estalidos asperos, as suas rigidas mãos de ferro
fundido.
Bem o sinto, bem o comprehendo o teu escandaloso traçado, oh
filho dilecto e fatal da Escóla de Pontes e
Calçadas! Nem necessitava esse plano com que me deslumbras,
todo em linhas escarlates, parecendo golpes d'uma faca vil por cima
d'uma carne nobre. É em Jaffa, na antiquissima Jeppo,
já
heroica e santa antes do Diluvio, que a tua primeira
Estação com os alpendres, e a carvoeira, e as
balanças, e a sineta, e o chefe de bonet agaloado, se ergue
entre esses laranjaes, gabados pelo Evangelho, onde S. Pedro, correndo
aos brados das mulheres, resuscitou Dorcas, a boa tecedeira, e a ajudou
a sahir do seu sepulchro. D'ahi a locomotiva, com a sua 1.ª
classe forrada de chita, rola descaradamente
pela planicie de Saaron,
tão amada do céo, que, mesmo sob o bruto pisar
das hordas philistinas, nunca n'ella murchavam anemonas e rosas. Corta
através de Beth-Dagon, e mistura o pó do seu
carvão de Cardiff ao vetusto pó do Templo de
Baal, que Samsão, mudo e repassado de tristeza, derrocou
movendo os hombros. Corre por sobre Lydda, e atrôa com
guinchos o grande S. Jorge, que ainda couraçado, emplumado,
e o guante sobre a espada, alli dorme o seu somno terrestre. Toma agua,
por um tubo de couro, do Poço Santo d'onde a Virgem na
fugida para o Egypto, repousando sob o figueiral, deu de beber ao
Menino. Pára em Ramleh, que é a velha Arymathea (
Arymathea,
quinze
minutos de demora!), a aldeia dos dôces hortos e
do
homem dôce que enterrou o Senhor. Fura, por tunneis
fumarentos, as collinas de Judá, onde choraram os prophetas.
Rompe por entre ruinas que foram a cidadella e depois a sepultara dos
Machabeus. Galga, n'uma ponte de ferro, a torrente em que David errante
escolhia pedras para a sua funda derrubadora de monstros. Colleia e
arqueja pelo valle melancolico que habitou Jeremias. Suja ainda Emmauz,
vara o Cedron, e estaca emfim, suada, azeitada, sordida de felugem, no
valle de Hennom, no
terminus de Jerusalem!
Ora, meu bom Bertrand, eu que não sou das Pontes e
Calçadas, nem accionista da
Companhia dos Caminhos de Ferro da Palestina,
apenas um peregrino saudoso d'esses logares adoraveis, considero
que a tua obra de
civilisação é
uma obra de profanação. Bem sei, engenheiro! S.
Pedro
resuscitando a velha Dorcas; a florescencia miraculosa das roseiras de
Saaron; o Menino bebendo, na fuga para o Egypto, á sombra
das arvores que os anjos iam adiante semeando,—são
fabulas... Mas são fabulas que ha dois mil annos
dão encanto,
esperança, abrigo consolador, e energia para viver a um
terço da Humanidade. Os logares onde se passaram essas
historias, decerto muito simples e muito humanas, que depois, pela
necessidade que a alma tem do Divino, se transformaram na
tão linda mythologia christã, são por
isso
veneraveis. N'elles viveram, combateram, ensinaram, padeceram, desde
Jacob até S. Paulo, todos os sêres
excepcionaes que hoje povoam o céo. Jehovah só
entre esses montes se mostrava, com terrifico esplendor, no tempo em
que visitava os homens. Jesus desceu a esses valles pensativos para
renovar o mundo. Sempre a Palestina foi a residencia preferida da
Divindade. Nada de Material devia pois desmanchar o seu recolhimento
Espiritual. E é penoso que a fumaraça do
Progresso suje um ar que conserva o perfume da passagem dos anjos, e
que os seus trilhos de ferro revolvam o sólo onde ainda
não se apagaram as pégadas divinas.
Tu sorris, e accusas precisamente a velha Palestina de ser uma
incorrigivel fonte de Illusão. Mas a illusão,
Bertrand amigo, é tão util
como a certeza: e na formação de todo o espirito,
para que elle
seja
completo, devem entrar tanto os Contos de Fadas como os Problemas de
Euclides. Destruir a influencia religiosa e poetica da Terra Santa,
tanto nos corações simples como nas
intelligencias cultas, é um retrocesso na
Civilisação, na verdadeira, n'aquella de que tu
não és obreiro, e que tem por melhor
esforço aperfeiçoar a Alma do que
reforçar o Corpo, e, mesmo pelo lado da utilidade, considera
um Sentimento mais util do que uma Machina. Ora, locomotivas manobrando
pela Judéa e Galiléa, com a sua materialidade de
carvão e
ferro, o seu desenvolvimento inevitavel de hoteis, omnibus, bilhares e
bicos de gaz, destroem irremediavelmente o poder emotivo da
Terra-dos-Milagres, porque a modernisam, a industrialisam, a
banalisam...
Esse poder, essa influencia espiritual da Palestina, de que provinha?
De ella se ter conservado, através d'estes quatro mil annos,
immutavelmente
biblica e
evangelica... Decerto sobrevieram
mudanças em Israel; a administração
turca tem menos esplendor que a administração
romana; dos vergeis e jardins que cercavam Jerusalem, só
resta penhasco e ortiga; as cidades, esboroadas, perderam o seu
heroismo de cidadellas; o vinho é raro; todo o saber se
apagou; e não duvido que aqui e além, em
Sião, n'algum terraço
de mercador levantino, se assobie ao luar a valsa de
Madame
Angot.
Mas a vida intima, na sua fórma rural, urbana
ou nomada, as maneiras, os
costumes, os ceremoniaes, os trajes, os utensilios,—tudo permanece
como nos tempos de Abrahão e nos tempos de Jesus. Entrar na
Palestina é penetrar n'uma Biblia viva. As tendas de pelle
de cabra plantadas á sombra dos sycomoros; o pastor apoiado
á sua alta lança, seguido do seu rebanho; as
mulheres, veladas de amarello ou branco, cantando, a caminho da fonte,
com o seu cantaro no hombro; o montanhez atirando a funda ás
aguias; os velhos sentados, pela frescura da tarde, á porta
das villas muradas; os claros terraços cheios de pombas; o
escriba que passa, com o seu tinteiro dependurado da cinta; as servas
moendo o grão; o homem de longos cabellos nazarenos que nos
saúda com a palavra de
paz, e que
conversa
comnosco por parabolas; a hospedeira que nos acolhe, atirando, para
passarmos, um tapete ante o limiar da sua morada; e ainda as
procissões nupciaes, e as
danças lentas ao rufe-rufe das pandeiretas, e as carpideiras
em torno aos sepulchros caiados,—tudo transporta o peregrino
á velha Judéa das
Escripturas, e de um modo tão presente e real, que a cada
momento duvidamos se aquella ligeira e morena mulher, com largas
argolas d'ouro e um aroma de sandalo, que conduz um cordeiro preso pela
ponta do manto, não será ainda Rachel, ou se,
entre os homens sentados além, á sombra da
figueira e da vinha, aquelle de curta barba frisada, que ergue o
braço, não será Jesus ensinando.
Esta sensação, preciosa para o crente,
é preciosa para o intellectual, porque o põe
n'uma communhão
flagrante com um dos mais maravilhosos momentos da Historia Humana.
Decerto seria igualmente interessante (mais interessante talvez) que se
podesse colher a mesma emoção na Grecia, e que
ahi encontrassemos ainda nos seus trajes, nas suas maneiras, na sua
sociabilidade, a grande Athenas de Pericles. Infelizmente, essa Athenas
incomparavel jaz morta, para sempre soterrada, desfeita em
pó, sob a Athenas romana, e a Athenas byzantina, e a Athenas
barbara, e a Athenas musulmana, e a Athenas constitucional e sordida.
Por toda a parte o velho scenario da historia está assim
esfrangalhado e em ruinas. Os proprios montes perderam, ao que parece,
a configuração classica: e ninguem
póde achar no Lacio o rio e o fresco valle que Virgilio
habitou e tão virgilianamente cantou. Um unico sitio na
terra permanecia ainda com os aspectos, os costumes, com que o tinham
visto, e de que tinham partilhado, os homens que deram ao mundo uma das
suas mais altas transformações:—e esse sitio era
um
pedaço da Judéa, da Samaria e da
Galiléa. Se elle
fôr grosseiramente modernisado, nivelado ao prototypo social,
querido do seculo, que é o districto de Liverpool ou o
departamento de Marselha, e se assim desapparecer para sempre a
opportunidade educadora de
vêr uma
grande imagem
do Passado, que profanação, que
devastação bruta e barbara! E por
perder essa fórma sobrevivente das
civilisações antigas, o thesouro do nosso saber e
da nossa inspiração fica irreparavelmente
diminuido.
Ninguem mais do que eu, decerto, aprecia e venera um caminho de ferro,
meu Bertrand;—e ser-me-ia penoso ter de jornadear de Paris a Bordeus,
como Jesus subia do valle de Jerichó para Jerusalem,
escarranchado n'um burro. As coisas mais uteis, porém,
são importunas, e mesmo
escandalosas, quando invadem grosseiramente logares que lhes
não são congeneres. Nada mais necessario
na vida do que um restaurante: e todavia ninguem, por mais descrente ou
irreverente, desejaria que se installasse um restaurante com as suas
mesas, o seu tinir de pratos, o seu cheiro a guisados,—nas naves de
Norte-Dame ou na velha Sé de Coimbra. Um
caminho de ferro é obra louvavel entre Paris e Bordeus.
Entre Jerichó e Jerusalem basta a egua ligeira que se aluga
por dois drachmas, e a tenda de lona que se planta á tarde
entre os palmares, á beira de uma agua clara, e onde se
dorme tão santamente sob a paz radiante das estrellas da
Syria.
E são justamente essa tenda, e o camello grave que carrega
os fardos, e a escolta flammejante de beduinos, e os pedaços
de deserto onde se galopa com a alma cheia de liberdade, e o lyrio de
Salomão que se colhe nas fendas d'uma ruina sagrada, e as
frescas paragens junto aos poços biblicos, e as
rememorações do Passado á noite em
torno á
fogueira do acampamento, que fazem o encanto da jornada, e attrahem o
homem de gosto que ama as emoções delicadas de
Natureza,
Historia e Arte. Quando de Jerusalem se partir para a
Galiléa n'um wagon estridente e cheio de pó,
talvez ninguem emprehenda a peregrinação
magnifica—a não ser o destro
commis-voyageur que vai vender pelos Bazares
chitas de Manchester ou pannos vermelhos de Sedan. O teu
negro comboio rolará vazio. Que pura alegria essa para todos
os entendimentos cultos—que não sejam accionistas dos
Caminhos
de Ferro da Palestina!...
Mas socega, Bertrand, engenheiro e accionista! Os homens, mesmo os que
melhor servem o Ideal, nunca resistem ás
tentações
sensualistas do Progresso. Se d'um lado, á sahida de Jaffa,
a propria caravana da Rainha de Sabá, com os seus elephantes
e onagros, e estandartes, e lyras, e os arautos coroados de anemonas, e
todos os fardos abarrotados de pedrarias e balsamos, infindavel em
poesia e lenda, se offerecesse ao homem do seculo XIX para o conduzir
lentamente a Jerusalem e a Salomão—e do outro lado um
comboio, silvando, de portinholas abertas, lhe promettesse a mesma
jornada, sem soalheiras nem solavancos, a vinte kilometros por hora,
com bilhete d'ida e volta, esse homem, por mais intellectual, por mais
eruditamente artista, agarraria a sua chapelleira e enfiaria
sofregamente para o wagon, onde podesse descalçar as botas,
e dormitar de ventre estendido.
Por isso a tua obra maligna prosperará pela propria virtude
da sua malignidade. E, dentro de poucos annos, o occidental positivo
que de manhã partir da velha Jeppo, no seu wagon de
1.ª
classe, e comprar na estação de Gaza a
Gazeta Liberal do Sinai, e jantar divertidamente
em Ramleh no
Grand-Hotel dos
Machabeus—irá, á noite, em
Jerusalem, através da
Via Dolorosa
illuminada pela electricidade, beber um bock e bater tres carambolas no
Casino do Santo Sepulchro!
Será este o teu feito—e o fim da lenda christã.
Adeus, monstro!—
Fradique.
XII