a
madame s.
Paris, fevereiro.
Minha cara amiga.—O hespanhol
chama-se D. Ramon Covarubia, mora na Passage Saulnier, 12, e como
é aragonez, e portanto sobrio, creio que com dez francos por
lição se
contentará amplamente. Mas se seu filho já sabe o
castelhano necessario para entender os
Romanceros,
o
D. Quichote,
alguns dos «Piccarescos»,
vinte paginas de Quevedo, duas comedias de Lope de Vega, um ou outro
romance de Galdós, que é tudo quanto basta
lêr na litteratura de Hespanha,—para que deseja a minha
sensata amiga que elle pronuncie esse castelhano que sabe com o
accento, o sabor, e o sal d'um madrileno nascido nas veras pedras da
Calle-Mayor? Vai assim o dôce Raul desperdiçar o
tempo que a Sociedade lhe marcou para adquirir idéas e
noções (e a Sociedade a um
rapaz da sua fortuna, do seu nome e da sua belleza, apenas concede,
para esse abastecimento intellectual, sete annos, dos onze aos
dezoito)—em quê? No luxo de apurar até a um
requinte superfino, e superfluo, o mero instrumento de adquirir
noções e
idéas. Porque as linguas, minha boa amiga, são
apenas instrumentos do saber—como instrumentos de lavoura. Consumir
energia e vida na aprendizagem de as pronunciar tão genuina
e puramente que pareça que se nasceu dentro de cada uma
d'ellas, e que por meio de cada uma se pediu o primeiro pão
e agua da vida—é fazer como o lavrador, que em vez de se
contentar, para cavar a terra, com um ferro simples encabado n'um pau
simples, se applicasse, durante os mezes em que a horta tem de ser
trabalhada, a embutir emblemas no ferro e esculpir flôres e
folhagens ao comprido do pau. Com um hortelão assim,
tão miudamente occupado em
alindar e requintar a enxada, como estariam agora, minha senhora, os
seus pomares Touraine?
Um homem só deve fallar, com impeccavel segurança
e pureza, a lingua da sua terra:—todas as outras as deve fallar mal,
orgulhosamente mal, com aquelle accento chato e falso que
denuncía logo
o estrangeiro. Na lingua verdadeiramente reside a nacionalidade;—e
quem fôr possuindo com crescente
perfeição os idiomas da Europa vai
gradualmente soffrendo uma desnacionalisação.
Não
ha já para elle o especial e exclusivo encanto da
falla materna com as suas influencias affectivas,
que o envolvem, o isolam das outras raças; e o
cosmopolitismo do Verbo irremediavelmente lhe dá o
cosmopolitismo do caracter. Por isso o polyglota nunca é
patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no
organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu
patriotismo desapparece, diluido em estrangeirismo.
Rue de
Rivoli,
Calle d'Alcalá,
Regent Street,
Wilhem Strasse—que
lhe importa?
Todas são ruas, de pedra ou de macadam. Em todas a falla
ambiente lhe offerece um elemento natural e congenere onde o seu
espirito se move livremente, espontaneamente, sem
hesitações, sem attritos. E como pelo Verbo, que
é o instrumento essencial da
fusão humana, se póde fundir com todas—em todas
sente e aceita uma Patria.
Por outro lado, o esforço contínuo de um homem
para se exprimir, com genuina e exacta propriedade de
construcção e de accento, em idiomas
estranhos—isto é, o esforço para se confundir
com
gentes estranhas no
que ellas têm de essencialmente caracteristico, o
Verbo—apaga n'elle toda a individualidade nativa. Ao fim de annos esse
habilidoso, que chegou a fallar absolutamente bem outras linguas
além da sua, perdeu toda a originalidade de espirito—porque
as suas idéas forçosamente devem ter a natureza
incaracteristica e neutra que lhes permitta serem indifferentemente
adaptadas ás linguas mais oppostas em caracter e genio.
Devem, de facto, ser como aquelles «corpos de
pobre» de que tão tristemente falla o
povo—«que cabem bem na roupa de toda a gente».
Além d'isso, o proposito de pronunciar com
perfeição linguas estrangeiras constitue uma
lamentavel sabujice para com o estrangeiro. Ha ahi, diante d'elle, como
o desejo servil de
não
sermos nós mesmos, de nos fundirmos n'elle, no
que elle tem de mais seu, de mais proprio, o Vocabulo. Ora isto
é uma abdicação de dignidade
nacional. Não, minha senhora! Fallemos nobremente mal,
patrioticamente mal, as linguas dos outros! Mesmo porque aos
estrangeiros o polyglota só inspira
desconfiança, como sêr que não tem
raizes, nem lar
estavel—sêr que rola através das nacionalidades
alheias, successivamente se disfarça n'ellas, e tenta uma
installação de vida em todas porque
não é tolerado por nenhuma. Com effeito, se a
minha amiga percorrer a Gazeta dos Tribunaes verá que o
perfeito polyglotismo é um instrumento da alta
escroquerie.
E aqui está como, levado pelo dilettantismo das
idéas, em vez d'um endereço eu lhe
forneço um tratado!... Que a minha garrulice ao menos a
faça sorrir, pensar, e poupar ao nosso Raul o trabalho
medonho de pronunciar
Viva la
Gracia! e
Benditos sean tus ojos!
exactissimamente como se vivesse a uma esquina da
Puerta del
Sol, com
uma capa de bandas de velludo, chupando o cigarro de Lazarillo. Isto
todavia não impede que se utilisem os serviços de
D. Ramon. Elle, além de
Zorrillista, é guitarrista; e póde substituir as
lições na lingua de Quevedo por
lições na guitarra de Almaviva. O seu lindo Raul
ganhará ainda assim uma nova faculdade de exprimir—a
faculdade de exprimir emoções por meio de cordas
de arame. E este dom é excellente! Convem mais na mocidade,
e mesmo na velhice, saber, por meio das quatro cordas d'uma viola,
desafogar a alma das coisas confusas e sem nome que n'ella tumultuam,
do que poder, através das estalagens do mundo, reclamar com
perfeição o pão e o queijo—em
sueco, hollandez, grego, bulgaro e polaco.
E será realmente indispensavel mesmo para prover,
através do mundo, estas necessidades vitaes d'estomago e
alma—o trilhar, durante annos, pela mão dura dos mestres,
«os descampados e atoleiros das grammaticas e
pronuncias», como dizia o velho Milton? Eu tive uma admiravel
tia que fallava unicamente o portuguez (ou antes o minhoto) e que
percorreu toda a Europa com desafôgo
e conforto. Esta
senhora, risonha mas dyspeptica, comia simplesmente ovos—que
só conhecia e só comprehendia sob o seu nome
nacional vernaculo de
ovos. Para ella
huevos,
oeufs,
eggs,
das ei, eram sons da
Natureza bruta,
pouco differençaveis do coaxar das rãs, ou d'um
estalar de madeira. Pois quando em Londres, em Berlim, em Paris, em
Moscow, desejava os seus ovos—esta expedita senhora reclamava o famulo
do Hotel, cravava n'elle os olhos agudos e bem explicados, agachava-se
gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar lento das saias
tufadas uma gallinha no chôco, e gritava
ki-ki-ri-ki!
kó-kó-ri-ki!
kó-ró-kó-kó!
Nunca, em cidade ou região intelligente do Universo, minha
tia deixou de comer os seus ovos—e superiormente frescos!
Beijo as suas mãos, benevola
amiga—
Fradique.
V
a guerra junqueiro
Paris, maio.
Meu caro amigo.—A sua carta
transborda de illusão poetica. Suppôr, como V.
candidamente suppõe, que trespassando com versos (ainda
mesmo seus, e mais rutilantes que as flechas de Apollo) a Igreja, o
Padre, a Liturgia, as Sacristias, o jejum da sexta-feira e os ossos dos
Martyres, se póde «desentulhar Deus da
alluvião
sacerdotal», e
elevar o Povo (no Povo V. decerto inclue os conselheiros de Estado) a
uma comprehensão toda pura e abstracta da
Religião—a uma religião que consista apenas
n'uma Moral apoiada n'uma Fé—é ter da
Religião, da sua essencia e do seu objecto, uma sonhadora
idéa de sonhador teimoso em sonhos!
Meu bom amigo, uma Religião a que se elimine o Ritual
desapparece—porque as Religiões para os homens (com
excepção dos raros Metaphysicos, Moralistas e
Mysticos) não passa d'um conjunto de Ritos
através dos quaes cada povo procura estabelecer uma
communicação intima com o seu Deus e obter d'elle
favores. Este, só este, tem sido o fim de todos os cultos,
desde o mais primitivo, do culto de Indra, até ao culto
recente do
coração de Maria, que tanto o escandalisa na sua
parochia—oh incorrigivel beato do idealismo!
Se V. o quer verificar historicamente, deixe Vianna do Castello, tome
um bordão, e suba commigo por essa antiguidade
fóra até um sitio bem cultivado e bem regado que
fica entre o rio Indo, as escarpas do Hymalaia, e as arêas
d'um grande deserto. Estamos aqui em Septa-Sindhou, no paiz das
Sete-Aguas, no Valle Feliz, na terra dos Aryas. No primeiro povoado em
que pararmos V. vê, sobre um outeiro, um altar de pedra
coberto de musgo fresco: em cima brilha pallidamente um fogo lento: e
em torno perpassam homens, vestidos de linho, com os longos cabellos
presos por um aro
d'ouro
fino. São padres, meu amigo! São os
primeiros capellães da humanidade,—e cada um d'elles
está, por esta quente alvorada de maio, celebrando um rito
da missa Aryana. Um limpa e desbasta a lenha que ha de nutrir o lume
sagrado; outro pisa dentro d'um almofariz, com pancadas que devem
resoar «como tambor de victoria», as hervas
aromaticas que dão o
Sômma; este, como um semeador, espalha
grãos de aveia em volta da Ara; aquelle, ao lado, espalmando
as mãos ao céo,
entoa um cantico austero. Estes homens, meu amigo, estão
executando um Rito que encerra em si toda a Religião dos
Aryas, e que tem por objecto propiciar Indra—Indra, o sol, o fogo, a
potencia divina que póde encher de ruina e dôr o
coração do Arya, sorvendo a agua das regas,
queimando os pastos, desprendendo a pestilencia das lagôas,
tornando Septa-Sindhou mais esteril que o
«coração do mau»; ou
póde, derretendo as neves do Hymalaia, e soltando com um
golpe de fogo «a chuva que jaz no ventre das
nuvens», restituir a agua aos rios, a verdura aos prados, a
salubridade ás lagôas, a alegria e abundancia
á
morada do Arya. Trata-se pois simplesmente de convencer Indra a que,
sempre propicio, derrame sobre Septa-Sindhou todos os favores que
póde appetecer um povo rural e pastoral.
Não ha aqui Metaphysica, nem Ethica—nem
explicações sobre a natureza dos deuses, nem
regras para a conducta dos homens. Ha meramente
uma Liturgia, uma totalidade de
Ritos, que o Arya necessita observar para que Indra o attenda—uma vez
que, pela experiencia de gerações, se
comprovou que Indra só o escutará, só
concederá os beneficios rogados, quando em torno ao seu
altar certos velhos, de certa casta, vestidos de linho candido, lhe
erguerem canticos dôces, lhe offertarem
libações, lhe amontoarem dons de fructa, mel e
carne d'anho. Sem dons, sem libações, sem
canticos, sem anho, Indra, amuado e sumido no fundo do Invisivel e do
Intangivel, não descerá
á terra a derramar-se na sua bondade. E se vier de Vianna do
Castello um Poeta tirar ao Arya o seu altar de musgo, o seu pau
sacrosanto, o almofariz, o crivo e o vaso do
Sômma,
o Arya
ficará sem meios de propiciar o seu Deus, desattendido do
seu Deus—e será na terra como a creancinha que ninguem
nutre e a que ninguem ampara os passos.
Esta Religião primordial é o typo absoluto e
inalteravel das Religiões, que todas por instincto
repetem—e em que todas (apesar dos elementos estranhos de Theologia,
de Metaphysica, de Ethica que lhe introduzem os espiritos superiores)
terminam por se resumir, com reverencia. Em todos os climas, em todas
as raças, ou divinisando as
forças da Natureza, ou divinisando a Alma dos mortos, as
Religiões, amigo meu, consistiram sempre praticamente n'um
conjunto de praticas, pelas quaes o homem simples procura
alcançar da amizade de Deus os bens supremos da saude, da
forca, da paz,
da
riqueza. E mesmo quando, já mais crente no
esforço proprio, pede esses bens á hygiene,
á ordem, á lei e ao trabalho, ainda persiste nos
ritos propiciadores para que Deus
ajude o
seu esforço.
O que V. observou em Septa-Sindhou poderá verificar
igualmente, parando (antes de recolhermos a Vianna, a beber esse vinho
verde de Monção, que V. dithyrambisa) na
Antiguidade classica, em Athenas ou Roma, onde quizer, no momento de
maior esplendor e cultura das civilisações
greco-latinas. Se V. ahi perguntar a um antigo, seja um oleiro de
Suburra, seja o proprio
Flamen
Dialis, qual é o corpo de doutrinas e de
conceitos moraes que compõe a Religião,—elle
sorrirá,
sem o comprehender. E responderá que a Religião
consiste em
paces deorum quaerere, em
apaziguar os Deuses, em segurar a benevolencia dos Deuses. Na
idéa do antigo isso significa cumprir os ritos, as praticas,
as formulas, que uma longa tradição
demonstrou serem as unicas que conseguem fixar a attencão
dos Deuses e exercer sobre elles
persuasão ou seducção. E n'esse
ceremonial era
indispensavel não alterar nem o valor d'uma syllaba na
Prece, nem o valor d'um gesto no sacrificio, porque d'outro modo o
Deus, não reconhecendo o Sacrificio da sua
dilecção e a Prece do seu agrado,
permanecia desattento e alheio; e a Religião falseava o seu
fim supremo—influenciar o Deus. Peor ainda! Passava a ser a
irreligião: e o Deus, vendo n'essa omissão de
liturgia uma falta de reverencia, despedia
logo das Alturas os dardos
da sua colera. A obliquidade das pregas na tunica do Sacrificador, um
passo lançado á direita ou movido á
esquerda, o cahir lento das gottas da libação, o
tamanho
das achas do lume votivo, todos esses detalhes estavam prescriptos
immutavelmente pelos Rituaes, e a sua exclusão ou a sua
alteração
constituiam impiedades. Constituiam verdadeiros crimes contra a
patria—porque attrahiam sobre ella a indignação
dos deuses. Quantas Legiões vencidas, quantas cidadellas
derrubadas, porque o Pontifice deixára perder um
grão de cinza da ara—ou porque Auruspice não
arrancou lã bastante da cabeça do anho! Por isso
Athenas castigava o Sacerdote que alterasse o ceremonial; e o senado
depunha os Consules que commettiam um erro no sacrificio—fosse elle
tão ligeiro como reter a ponta da toga sobre a
cabeça, quando ella devia escorregar sobre o hombro. De
sorte que V., em Roma, lançando ironias d'ouro á
Divindade, era talvez um grande e admirado Poeta Comico: mas
satyrisando, como na
Velhice do Padre Eterno, a
Liturgia e o Ceremonial, era um inimigo publico, um traidor ao Estado,
votado ás masmorras do
Tuliano.
E se, já farto d'estes tempos antigos, V. quizer volver aos
nossos philosophicos dias, encontrará nas duas grandes
Religiões do occidente e do oriente, no Catholicismo e no
Budhismo, uma comprovação ainda mais saliente e
mais viva de que a Religião consiste intrinsecamente de
praticas, sobre
as
quaes a Theologia e a Moral se sobrepozeram, sem as penetrarem, como um
luxo intellectual, accessorio e transitorio—flôres pregadas
no altar pela imaginação ou pela virtude
idealista. O
Catholicismo (ninguem mais furiosamente o sabe do que V.)
está hoje resumido a uma curta série de
observancias materiaes:—e todavia nunca houve Religião
dentro da qual a Intelligencia erguesse mais vasta e alta estructura de
conceitos theologicos e moraes. Esses conceitos, porém, obra
de doutores e de mysticos, nunca propriamente sahiram das
escólas e dos mosteiros—onde eram preciosa materia de
dialectica ou de poesia; nunca penetraram nas multidões para
methodicamente governar os juizos ou conscientemente governar as
acções. Reduzido a catechismos, a cartilhas, esse
corpo de conceitos foi decorado pelo povo:—mas nunca o povo se
persuadiu que tinha Religião, e que portanto
agradava a Deus,
servia a
Deus, só por cumprir os dez mandamentos,
fóra de toda a pratica e de toda a observancia ritual. E
só decorou mesmo esses
Dez Mandamentos, e as
Obras de
Misericordia, e os outros preceitos moraes do Catechismo,
pela idéa de que esses versiculos,
recitados com
os
labios, tinham, por uma virtude maravilhosa, o poder de
attrahir a attenção, a bemquerença e
os favores do Senhor. Para
servir a Deus, que
é o meio
de agradar a Deus, o
essencial foi sempre ouvir missa, esfiar o rosario, jejuar, commungar,
fazer promessas, dar tunicas aos santos, etc. Só por estes
ritos,
e não
pelo cumprimento moral da lei moral, se propicia a Deus,—isto
é, se alcançam d'elle os
dons inestimaveis da saude, da felicidade, da riqueza, da paz. O mesmo
Céo e Inferno, sancção
extra-terrestre da lei, nunca, na idéa do povo, se ganhava
ou se evitava pela pontual obediencia á lei. E talvez com
razão, por isso mesmo que no Catholicismo o premio e o
castigo não são
manifestações da
justiça de Deus, mas da
graça
de
Deus. Ora a graça, no pensar dos simples, só se
obtem pela constante e incansavel pratica dos preceitos—a missa, o
jejum, a penitencia, a communhão, o rosario, a novena, a
offerta, a promessa. De sorte que no catholicismo do Minhoto como na
religião do Arya, em Septa-Sindhou como em Carrazeda
d'Anciães, tudo se resume em propiciar Deus por meio de
praticas que o captivem. Não ha aqui Theologia, nem Moral.
Ha o acto do infinitamente fraco querendo agradar ao infinitamente
forte. E se V., para purificar este Catholicismo, eliminar o Padre, a
estola, as galhetas e a agua-benta, todo o Rito e toda a Liturgia—o
catholico immediatamente abandonará uma Religião
que não tem Egreja visivel, e que não lhe
offerece os meios simples e tangiveis de communicar com Deus, de obter
d'elle os bens transcendentes para a alma e os bens sensiveis para o
corpo. O Catholicismo n'esse instante terá acabado,
milhões de sêres terão perdido o seu
Deus. A Egreja é o vaso de que Deus é o perfume.
Egreja
partida—Deus volatilisado.
Se tivessemos tempo de ir á China ou a Ceylão, V.
toparia com o mesmo phenomeno no Budhismo. Dentro d'essa
Religião foi elaborada a mais alta das Metaphysicas, a mais
nobre das Moraes: mas em todas as raças em que elle
penetrou, nas barbaras ou nas cultas, nas hordas do Nepal ou no
mandarinato chinez, elle consistiu sempre para as multidões
em ritos, ceremonias, praticas—a mais conhecida das quaes é
o
moinho de
rezar. V. nunca lidou com este moinho? É
lamentavelmente parecido com o
moinho de café:
em
todos os paizes budhistas V. o verá collocado nas ruas das
cidades, nas encruzilhadas do campo, para que o devoto ao passar, dando
duas voltas á manivella, possa fazer chocalhar dentro as
orações escriptas e communica
com o Budha, que por esse acto de cortezia transcendente «lhe
ficará grato e lhe
augmentará os seus bens».
Nem o Catholicismo, nem o Budhismo vão por este facto em
decadencia. Ao contrario! Estão no seu estado natural e
normal de Religião. Uma
Religião, quanto mais se materialisa, mais se popularisa—e
portanto mais se divinisa. Não se espante! Quero dizer, que
quanto mais se desembaraça dos seus elementos intellectuaes
de Theologia, de Moral, de Humanitarismo, etc., repellindo-os para as
suas regiões naturaes que são a Philosophia, a
Ethica e a Poesia, tanto mais colloca o povo face a face com o seu
Deus, n'uma união directa e simples, tão facil de
realisar que, por um mero dobrar
de joelhos, um mero balbuciar de
Padre-Nossos, o homem absoluto que está no céo
vem ao encontro do homem transitorio que está na terra. Ora
este encontro é o facto essencialmente divino da
Religião. E quanto mais elle se materialisa—mais ella na
realidade se divinisa.
V. porém dirá (e de facto o diz):
«Tornemos essa communicação puramente
espiritual, e que, despida de toda a exterioridade liturgica, ella seja
apenas como o espirito humano fallando ao espirito divino».
Mas para isso é necessario que venha o Millenio—em que cada
cavador de enxada seja um philosopho, um pensador. E quando esse
Millenio detestavel chegar, e cada tipoia de praça
fôr governada por um Mallebranche, terá V. ainda
de ajuntar a esta perfeita humanidade masculina uma nova humanidade
feminina, physiologicamente differente da que hoje embelleza a terra.
Porque emquanto houver uma mulher constituida physica, intellectual e
moralmente como a que Jehovah com uma tão grande
inspiração d'artista
fez da costella de Adão,—haverá sempre ao lado
d'ella, para uso da sua fraqueza, um altar, uma imagem e um padre.
Essa communhão mystica do Homem e de Deus, que V. quer,
nunca poderá ser senão o privilegio d'uma
élite
espiritual,
deploravelmente limitada. Para a vasta massa humana, em todos os
tempos, pagã, budhista, christã, mahometana,
selvagem ou culta, a Religião terá sempre por
fim, na sua essencia,
a supplica dos favores divinos e o afastamento da
cólera divina; e, como
instrumentação material para realisar estes
objectos, o templo, o padre, o altar, os officios, a vestimenta, a
imagem. Pergunte a qualquer mediano homem sahido da turba, que
não seja um philosopho, ou um moralista, ou um mystico, o
que é Religião. O inglez
dirá:—«É ir ao serviço ao
domingo, bem vestido, cantar hymnos». O hindú
dirá:—«É fazer
poojah todos os dias e dar o tributo ao
Mahadeo». O africano
dirá:—«É offerecer ao
Mulungú a sua
ração de farinha e oleo». O Minhoto
dirá:—«É ouvir missa, rezar as contas,
jejuar á sexta-feira, commungar pela Paschoa». E
todos terão
razão, grandemente! Porque o seu objecto, como
sêres religiosos, está todo em communicar com
Deus; e esses são os meios de
communicação que
os seus respectivos estados de civilisação e as
respectivas liturgias que d'elles sahiram, lhes fornecem.
Voilà! Para V. está claro, e
para outros espiritos de
eleição, a Religião é outra
coisa—como já era
outra coisa em Athenas para Socrates e em Roma para Seneca. Mas as
multidões humanas não
são compostas de Socrates e de Senecas—bem felizmente para
ellas, e para os que as governam, incluindo V. que as pretende
governar!
De resto, não se desconsole, amigo! Mesmo entre os simples
ha modos de ser religiosos, inteiramente despidos de Liturgia e de
exterioridades rituaes. Um presenciei eu, deliciosamente puro e
intimo. Foi nas margens
do Zambeze. Um chefe negro, por nome Lubenga, queria, nas vesperas de
entrar em guerra com um chefe visinho, communicar com o seu Deus, com o
seu Mulungú (que era, como sempre, um seu avô
divinisado). O recado ou pedido, porém, que desejava mandar
á sua Divindade, não se podia transmittir
através dos Feiticeiros e do seu ceremonial, tão
graves e confidenciaes matérias continha... Que faz Lubenga?
Grita por um escravo: dá-lhe o recado, pausadamente,
lentamente, ao ouvido: verifica bem que o escravo tudo comprehendera,
tudo retivera: e immediatamente arrebata um machado, decepa a
cabeça do escravo, e brada
tranquillamente—«parte!» A alma do escravo
lá foi, como uma carta lacrada e sellada, direita para o
céo, ao
Mulungú. Mas d'ahi a instantes o chefe bate uma palmada
afflicta na testa, chama á pressa outro escravo, diz-lhe ao
ouvido rapidas palavras, agarra o machado, separa-lhe a
cabeça, e berra:—«Vai!»
Esquecera-lhe algum detalhe no seu pedido ao Mulungú... O
segundo escravo era um
post-scriptum.
Esta maneira simples de communicar com Deus deve regosijar o seu
coração. Amigo do
dito—
Fradique.
VI
a ramalho ortigão
Paris, abril.
Querido Ramalho.—No sabbado
á tarde, na rue Cambon, avisto dentro d'um fiacre o nosso
Eduardo, que se arremessa pela portinhola para me gritar:
«Ramalho, esta noite! de passagem para a Hollanda!
ás dez! no café da
Paz!»
Fico dôcemente alvoroçado; e ás nove e
meia, apesar da minha justa repugnancia pela esquina do café
da Paz, Centro catita do
Snobismo internacional, lá me installo,
com um bock, esperando a cada instante que surja, por entre a turba
baça e molle do boulevard, o esplendor da Ramalhal figura.
Ás dez salta d'um fiacre com anciedade o vivaz Carmonde, que
abandonára á pressa uma sobremesa alegre
pour
voir ce grand Ortigan!
Começa uma espera a dois, com bock a dois. Nada de Ramalho,
nem do seu viço. Ás onze apparece Eduardo,
esbaforido. E Ramalho? Inedito ainda! Espera a tres, impaciencia a
tres, bock a tres. E assim até que o bronze nos soou o fim
do dia.
Em compensação um caso, e profundo. Carmonde,
Eduardo e eu sorviamos as derradeiras fezes do bock, já
desilludidos de Ramalho e das suas pompas, quando roça pela
nossa mesa um sujeito escurinho, chupadinho, esticadinho, que traz na
mão com respeito, quasi com religião, um soberbo
ramo de cravos
amarellos. É um homem d'além dos mares, da
Republica Argentina ou Peruana, e amigo de Eduardo—que o retem e
apresenta «o snr. Mendibal». Mendibal aceita um
bock: e eu começo a contemplar mudamente aquella facesinha
toda em perfil, como recortada n'uma lamina de machado, d'uma
côr acobreada de chapéo
côco inglez, onde a barbita rala, hesitante, denunciando uma
virilidade frouxa, parece cotão, um cotão
negro, pouco mais negro que a tez. A testa escanteada recua, foge toda
para traz, assustada. O caroço da garganta
esganiçada, ao contrario, avança como o
esporão d'uma galera por entre as pontas quebradas do
collarinho muito alto e mais brilhante que esmalte. Na gravata, grossa
perola.
Eu contemplo, e Mendibal falla. Falla arrastadamente, quasi
dolentemente, com finaes que desfallecem, se esvaem em gemido. A voz
é toda de desconsolo:—mas, no que diz, revela a mais forte,
segura e insolente satisfação de viver. O animal
tem tudo: immensas propriedades além do mar, a
consideração dos seus fornecedores, uma casa no
Parc-Monceau, e «uma esposa adoravel». Como
deslizou elle a mencionar essa dama que lhe embelleza o lar?
Não sei. Houve um momento em que me ergui, chamado por um
velho Inglez meu amigo, que passava, recolhendo da Opera, e que me
queria simplesmente segredar, com uma convicção
forte, que «a noute estava esplendida!» Quando
voltei á mesa e ao bock, o Argentino encetára em
monologo a
glorificação da «sua
senhora». Carmonde devorava o homemzinho com olhos que riam e
que saboreavam, deliciosamente divertido. Eduardo, esse, escutava com a
compostura pesada de um portuguez antigo. E Mendibal, tendo posto ao
lado sobre uma cadeira, com cuidados devotos, o ramo de cravos,
desfiava as virtudes e os encantos de Madame. Sentia-se alli uma
d'essas admirações effervescentes, borbulhantes,
que se não podem retrahir, que transbordam por toda a parte,
mesmo por sobre as mesas dos cafés: onde quer que passasse,
aquelle homem iria deixando escorrer a sua
adoração pela mulher, como um guarda-chuva
encharcado vai fatalmente pingando agua. Comprehendi, desde que elle,
com um prazer que lhe repuxava mais para fóra o
caroço da garganta, revelou que madame Mendibal era
franceza. Tinhamos alli portanto um fanatismo de preto pela
graça loira d'uma parisiensesinha, picante em
seducção e
finura. Desde que comprehendi, sympathisei. E o Argentino farejou em
mim esta benevolencia critica—porque foi para mim que se voltou,
lançando o derradeiro traço, o mais decisivo,
sobre as excellencias de Madame: «Sim, positivamente,
não havia outra em Paris! Por exemplo, o carinho com que
ella cuidava da mamã (da mamã d'elle),
senhora de grande idade, cheia de achaques! Pois era uma paciencia, uma
delicadeza, uma
sujeição... De cahir de joelhos! Então
nos ultimos dias a mamã andára tão
rabugenta!... Madame
Mendibal
até emmagrecera. De sorte que elle proprio, n'esse domingo,
lhe pedira que se fosse distrahir, passar o dia a Versalhes, onde a
mãe d'ella, madame Jouffroy, habitava por economia. E agora
viera de a esperar na
gare
Saint-Lazare. Pois, senhores, todo o dia em Versalhes, a santa creatura
estivera com cuidado na sogra, cheia de saudades da casa, n'uma ancia
de recolher. Nem lhe soubera bem a visita á mamã!
A maior parte da tarde, e uma tarde tão linda,
gastára-a a
reunir aquelle esplendido ramo de cravos amarellos para lhe trazer, a
elle!»
—É verdade! Veja o senhor! Este ramo de cravos!
Até consola. Olhe que para estas lembrancinhas, para estes
carinhos, não ha senão uma franceza.
Graças a Deus, posso dizer que acertei! E se tivesse filhos,
um só que fosse, um rapaz, não me
trocava pelo principe de Galles. Eu não sei se o senhor
é casado. Perdôe a confiança. Mas se
não é, sempre lhe direi, como digo a todo o
mundo:—Case com uma franceza, case com uma franceza!...
Não podia haver nada mais sinceramente grotesco e tocante.
Como V. não vinha, fugidio Ramalho, dispersamos. Mendibal
trepou para um fiacre com o seu amoroso molho de cravos. Eu arrastei os
passos, no calor da noite, até ao club. No club encontro
Chambray, que V. conhece—o «formoso Chambray».
Encontro Chambray no fundo d'uma poltrona, derreado e radiante.
Pergunto a Chambray
como lhe vai a Vida, que opinião tem n'esse dia da Vida.
Chambray declara a Vida uma delicia. E, immediatamente, sem se conter,
faz a confidencia que lhe bailava impacientemente no sorriso e no olho
humedecido.
Fôra a Versalhes, com tenção de visitar
os Fouquiers. No mesmo compartimento com elle ia uma mulher,
une
grande et belle
femme. Corpo soberbo de Diana n'um vestido collante do
Redfern. Cabellos apartados ao meio, grossos e apaixonados, ondeando
sobre a testa curta. Olhos graves. Dois solitarios nas orelhas.
Sêr substancial, solido, sem chumaços e sem
blagues, bem alimentado, envolto em consideração,
superiormente installado na
vida.
E, no meio d'esta respeitabilidade physica e social, um geito guloso de
molhar os beiços a cada instante, vivamente, com a ponta da
lingua... Chambray pensa comsigo:—«burgueza, trinta annos,
sessenta mil francos de renda, temperamento forte, desapontamentos
d'alcova». E apenas o comboyo larga, toma o seu
«grande ar Chambray», e dardeja á dama
um d'esses olhares que eram outr'ora symbolisados pelas flechas de
Cupido. Madame impassivel. Mas, momentos, depois, vem d'entre as
palpebras um pouco pesadas, direito a Chambray (que vigiava de lado,
por traz do
Figaro aberto), um d'esses raios de luz indagadora
que, como os da lanterna de Diogenes, procuram um homem que seja um
homem. Ao chegar a Courbevoie, a pretexto de baixar o vidro por causa
da poeira,
Chambray
arrisca uma palavra, atrevidamente timida, sobre o calor de Paris. Ella
concede outra, ainda hesitante e vaga, sobre a frescura do campo.
Está travada a Ecloga. Em Suresnes, Chambray já
se senta na banqueta ao lado d'ella, fumando. Em Sevres, mão
de Madame arrebatada por Chambray, mão de Chambray repellida
por Madame:—e ambas insensivelmente se entrelaçam. Em
Viroflay, proposta brusca de Chambray para darem um passeio por um
sitio de Viroflay que só elle conhece, recanto bucolico, de
incomparavel doçura, inaccessivel ao burguez. Depois,
ás duas horas tomariam o outro trem para Versalhes. E nem a
deixa hesitar—arrebata-a moralmente, ou antes physiologicamente, pela
simples força da voz quente, dos olhos alegres, de toda a
sua pessoa franca e mascula.
Eil-os no campo, com um aroma da seiva em redor, e a primavera e
Satanaz conspirando e soprando sobre Madame os seus bafos quentes.
Chambray conhece á orla do bosque, junto d'agua, uma
tavernola que tem as janellas encaixilhadas em madresilva. Porque
não irão lá almoçar
uma caldeirada, regada com vinho branco de Suresnes? Madame na verdade
sente uma fomesinha alegre de ave solta no prado: e Satanaz, dando ao
rabo, corre adiante, a propiciar as coisas na tavernola. Acham
lá, com effeito, uma installação
magistral: quarto fresco e silencioso, mesa posta, cortina de cassa ao
fundo escondendo e trahindo a alcova. «Em todo o
caso que o almoço suba
depressa, porque elles têm de partir pelo trem das duas
horas»—tal é o brado
sincero de Chambray!
Quando chega a caldeirada, Chambray tem uma
inspiração genial—despe o casaco, abanca em
mangas de camisa. É um rasgo de bohemia e de liberdade, que
a encanta, a excita, faz surgir a
garota que ha quasi sempre no fundo da
matrona. Atira tambem o chapéo, um
chapéo de duzentos francos, para o fundo do quarto, alarga
os braços, e tem este grito d'alma:
—
Ah oui, que c'est bon, de se
desembêter!
E depois, como dizem os hespanhoes—
la
mar. O sol, ao despedir-se da terra por esse dia, deixou-os
ainda em Viroflay; ainda na tavernola; ainda no quarto;—e outra vez
á mesa, diante d'um
beefsteak
reconfortante, como os
acontecimentos pediam com urgencia e logica.
Versalhes, esquecido! Tratava-se de voltar á
estação para tomar o trem de Paris. Ella aperta
devagar as fitas do chapéo, apanha uma das flôres
da janella que mette no corpete, fixa um olhar lento em redor pelo
quarto e pela alcova, para todo decorar e retêr—e partem. Na
estação, ao saltar para um compartimento
differente (por causa da chegada a Paris), Chambray n'um aperto de
mão, já apressado e frouxo, supplica-lhe que ao
menos lhe diga como se chama. Ella
murmura—
Lucie.
—E é tudo o que sei d'ella, conclue Chambray
accendendo o charuto. E sei tambem
que é casada porque na
gare
Saint-Lazare,
á espera d'ella, e acompanhado por um trintanario serio, de
casa burgueza, estava o marido... É um
rastacuero côr de chocolate, com uma
barbita rala, enorme perola na gravata... Coitado, ficou encantado
quando ella lhe deu um grande ramo de cravos amarellos que eu lhe
mandára arranjar em Viroflay... Mulher deliciosa.
Não ha senão as francezas!
Que diz V. a estas coisas consideraveis, meu bom Ramalho? Eu digo que,
em resumo, este nosso Mundo é perfeito e não ha
nos espaços
outro mais bem organisado. Porque note V. como, ao fim d'este domingo
de maio, todas estas tres excellentes creaturas, com uma simples
jornada a Versalhes, obtiveram um ganho positivo na vida. Chambray
passou por um immenso prazer e uma immensa vaidade—os dois unicos
resultados que elle conta na existencia como proventos solidos, e
valendo o trabalho de existir. Madame experimentou uma
sensação nova ou differente, que a desenervou, a
desafogou, lhe permittiu reentrar mais acalmada na monotonia do seu
lar, e ser util aos seus com rediviva applicação.
E o Argentino adquiriu outra inesperada e triumphal certeza de quanto
era amado e feliz na sua escolha. Tres ditosos, ao fim d'esse dia de
primavera e de campo. E se d'aqui resultar um filho (o filho que o
Argentino appetece), que herde as qualidades fortes e brilhantemente
gaulezas de Chambray, accresce, ao contentamento
individual dos tres, um lucro
effectivo para a sociedade. Este mundo portanto está
superiormente organisado.
Amigo fiel, que fielmente o espera á volta da Hollanda—
Fradique.
VII
a madame de joujarre
(Trad.)
Lisboa, março.
Minha querida madrinha.—Foi hontem,
por noite morta, no comboio, ao chegar a Lisboa (vindo do Norte e do
Porto), que de repente me acudia á memoria estremunhada o
juramento que lhe fiz no sabbado de Paschoa em Paris, com as
mãos piamente estendidas sobre a sua maravilhosa
edição dos
Deveres de
Cicero. Juramento bem
estouvado, este, de lhe mandar todas as semanas, pelo correio, Portugal
em «descripções,
notas, reflexões e panoramas», como se
lê no sub-titulo da
Viagem á Suissa do seu amigo o
Barão
de Fernay, commendador de Carlos III e membro da Academia de Toulouse.
Pois com tanta fidelidade cumpro eu os meus juramentos (quando feitos
sobre a Moral de Cicero, e para regalo de quem reina na minha Vontade)
que, apenas o recordei, abri logo escancaradamente ambos os olhos para
recolher
«descripções, notas,
reflexões e panoramas» d'esta terra
que é minha e que
está
a la
disposicion de ustêd... Chegáramos a
uma estação que chamam de
Sacavem—e tudo o que os meus olhos arregalados viram do meu paiz,
através dos vidros humidos do wagon, foi uma densa treva,
d'onde mortiçamente surgiam aqui e além luzinhas
remotas e vagas. Eram lanternas de faluas dormindo no rio:—e
symbolisavam d'um modo bem humilhante essas escassas e desmaiadas
parcellas de verdade positiva que ao homem é dado descobrir
no universal mysterio do Sêr. De sorte que tornei a cerrar
resignadamente os olhos—até que, á portinhola,
um homem de bonet de galão, com o casaco encharcado d'agua,
reclamou o meu bilhete, dizendo
Vossa Excellencia!
Em Portugal, boa
madrinha, todos somos nobres, todos fazemos parte do Estado, e todos
nos tratamos por
Excellencia.
Era Lisboa e chovia. Vinhamos poucos no comboio, uns trinta
talvez—gente simples, de maletas ligeiras e sacos de chita, que bem
depressa atravessou a busca paternal e somnolenta da Alfandega, e logo
se sumia para a cidade sob a molhada noite de março.
No casarão soturno, á espera das bagagens
sérias, fiquei eu, o Smith
[3]
e uma senhora esgrouviada, de
oculos no bico, envolta n'uma velha capa
de pelles. Deviam ser duas horas da
madrugada. O asphalto sujo do casarão regelava
os pés.
Não sei quantos seculos assim esperamos, Smith immovel, a
dama e eu marchando desencontradamente e rapidamente para aquecer ao
comprido do balcão de madeira, onde dois guardas
d'Alfandega, escuros como azeitonas, bocejavam com dignidade. Da porta
do fundo, uma carreta, em que oscillava o montão da nossa
bagagem, veio por fim rolando com pachorra. A dama de nariz de cegonha
reconheceu logo a sua caixa de folha de Flandres, cuja tampa, cahindo
para traz, revelou aos meus olhos que observavam (em seu
serviço, exigente madrinha!) um penteador sujo, uma boceta
de dôce, um livro de missa e dois ferros de frisar. O guarda
enterrou o braço através d'estas
coisas intimas, e com um gesto clemente declarou a Alfandega
satisfeita. A dama abalou.
Ficamos sós, Smith e eu. Smith já
arrebanhára a custo a minha bagagem. Mas faltava
inexplicavelmente um saco de couro; e em silencio, com a guia na
mão, um carregador dava uma busca vagarosa
através dos fardos, barricas, pacotes, velhos bahus,
armazenados ao fundo, contra a parede enxovalhada. Vi este digno homem
hesitando pensativamente diante d'um embrulho de lona, diante d'uma
arca de pinho. Seria qualquer d'esses o saco de couro? Depois,
descorçoado, declarou que positivamente nas nossas bagagens
não havia nem couro nem saco. Smith protestava,
já irritado. Então
o capataz arrancou a guia das
mãos inhabeis do carregador, e recomeçou elle,
com a sua intelligencia superior de chefe, uma rebusca
através das
«arrumações», esquadrinhando
zelosamente caixotes, vasilhas, pipos, chapeleiras, canastras, latas e
garrafões... Por fim sacudiu os hombros, com indizivel
tedio, e desappareceu para dentro, para a escuridão das
plataformas interiores. Passados instantes voltou, coçando a
cabeça por baixo do bonet, cravando os olhos em roda, pelo
chão vasio, á
espera que o saco rompesse das entranhas d'este globo desconsolador.
Nada! Impaciente, encetei eu proprio uma pesquiza sofrega
através do casarão. O guarda da Alfandega, de
cigarro collado ao beiço (bondoso homem!), deitava tambem
aqui e além um olhar auxiliador e magistral. Nada!
Repentinamente porém uma mulher de lenço vermelho
na cabeça, que alli vadiava, n'aquella madrugada agreste,
apontou para a porta da estação:
—Será aquillo, meu senhor?
Era! Era o meu saco, fóra, no passeio, sob a chuvinha miuda.
Não indaguei como elle se encontrava alli,
sósinho, separado da bagagem a que estrictamente o prendia o
numero d'ordem estampado na guia em letras grossas—e reclamei uma
tipoia. O carregador atirou a jaleca para cima da cabeça,
sahiu ao largo, e recolheu logo annunciando com melancolia que
não havia tipoias.
—Não ha! Essa é curiosa! Então como
sahem d'aqui os passageiros?
O homem encolheu os hombros. «Ás vezes
havia, outras vezes não havia, era conforme calhava a
sorte...» Fiz reluzir uma placa de cinco
tostões, e suppliquei áquelle benemerito que
corresse as visinhanças da estação,
á cata d'um vehiculo qualquer com rodas, coche ou
carroça, que me levasse ao conchego d'um caldo e d'um lar. O
homem largou, resmungando. E eu logo, como patriota descontente,
censurei (voltado para o capataz e para o homem da Alfandega) a
irregularidade d'aquelle serviço. Em todas as
estações do Mundo, mesmo em Tunis, mesmo na
Romelia, havia, á chegada dos comboios, omnibus, carros,
carretas, para transportar gente e bagagem... Porque não as
havia em Lisboa? Eis ahi um abominavel serviço que
deshonrava a Nação!
O aduaneiro esboçou um movimento de desalento, como na plena
consciencia de que todos os serviços eram abominaveis, e a
Patria toda uma irreparavel desordem. Depois para se consolar puxou com
delicia o lume ao cigarro. Assim se arrastou um d'estes quartos d'hora
que fazem rugas na face humana.
Finalmente, o carregador voltou, sacudindo a chuva, affirmando que
não havia uma tipoia em todo o bairro de Santa Apolonia.
—Mas que hei de eu fazer? Hei de ficar aqui?
O capataz aconselhou-me que deixasse a bagagem, e na manhã
seguinte, com uma carruagem certa (contratada talvez por escriptura), a
viesse recolher
«muito a meu contento». Essa
separação porém não
convinha ao meu conforto. Pois n'esse caso elle não via
solução, a
não ser que por acaso alguma caleche, tresnoitada e
trasmalhada, viesse a cruzar por aquellas paragens.
Então, á maneira de naufragos n'uma ilha deserta
do Pacifico, todos nos apinhamos á porta da
estação, esperando através da treva a
vela—quero dizer a sege salvadora. Espera amarga, espera esteril!
Nenhuma luz de lanterna, nenhum rumor de rodas, cortaram a mudez
d'aquelles ermos.
Farto, inteiramente farto, o capataz declarou que «iam dar
tres horas, e elle queria fechar a
estação!» E eu? Ia eu ficar alli na
rua, amarrado, sob a noite agreste, a um montão de bagagens
intransportavel? Não! nas entranhas do digno capataz decerto
havia melhor misericordia. Commovido, o homem lembrou outra
solução. E era que nós, eu e o Smith,
ajudados por um carregador—atirassemos a bagagem para as costas, e
marchassemos com ella para o Hotel. Com effeito este parecia ser o
unico recurso aos nossos males. Todavia (tanto costas amollecidas por
longos e deleitosos annos de civilisação repugnam
a carregar fardos, e tão tenaz é a
esperança n'aquelles a
quem a sorte se tem mostrado amoravel) eu e o Smith ainda uma vez
sahimos ao largo, mudos, sondando a escuridão, com o ouvido
inclinado ao lagedo, a escutar anciosamente se ao longe, muito ao
longe, não sentiriamos rolar para nós o
calhambeque da
Providencia. Nada, desoladamente nada, na sombra avara!... A minha
querida madrinha, seguindo estes lances, deve ter já
lagrimas a bailar nas suas compassivas pestanas. Eu não
chorei—mas tinha vergonha, uma immensa e pungente vergonha do Smith!
Que pensaria aquelle escocez da minha patria—e de mim, seu amo,
parcella d'essa patria desorganisada? Nada mais fragil que a
reputação das nações. Uma
simples tipoia que falta de
noite, e eis, no espirito do Estrangeiro, desacreditada toda uma
civilisação secular!
No emtanto o capataz fervia. Eram tres horas (mesmo tres e um quarto),
e elle queria fechar a estação! Que fazer?
Abandonamo-nos, suspirando,
á decisão do desespero. Agarrei o estojo de
viagem e o rolo de mantas: Smith deitou aos seus respeitaveis hombros,
virgens de cargas, uma grossa maleta de couro: o carregador gemeu sob a
enorme mala de cantoeiras d'aço. E (deixando ainda dois
volumes para ser recolhidos de dia), começamos, sombrios e
em fila, a trilhar
á
pata a distancia que vai de Santa Apolonia ao Hotel de
Braganza! Poucos passos adiante, como o estojo de viagem me derreava o
braço, atirei-o para as costas... E todos tres, de
cabeça baixa, o dorso esmagado sob dezenas de kilos, com um
intenso azedume a estragar-nos o figado, lá continuamos,
devagar, n'uma fileira soturna, avançando para dentro da
capital d'estes reinos! Eu viera a Lisboa com um fim de repouso e de
luxo. Este era o luxo,
este o repouso! Alli, sob a chuvinha impertinente, offegando,
suando, tropeçando no lagedo mal junto d'uma rua tenebrosa,
a trabalhar de carrejão!...
Não sei quantas eternidades gastamos n'esta via dolorosa.
Sei que de repente (como se a trouxesse, á redea, o anjo da
nossa guarda) uma caleche, uma positiva caleche, rompeu a passo do
negrume d'uma viella. Tres gritos, sofregos e desesperados, estacaram a
parelha. E, á uma, todas as malas rolaram em catadupa sobre
o calhambeque, aos pés do cocheiro, que, tomado d'assalto e
de assombro, ergueu o chicote, praguejando com furor. Mas serenou,
comprehendendo a sua espantosa omnipotencia—e declarou que ao Hotel de
Braganza (uma distancia pouco maior que toda a Avenida dos Campos
Elyseos) não me podia levar por menos de
tres mil
reis. Sim,
minha madrinha,
dezoito francos! Dezoito francos
em
metal, prata ou ouro, por uma corrida, n'esta Idade democratica e
industrial, depois de todo o penoso trabalho das Sciencias e das
Revoluções para igualisarem e embaratecerem os
confortos sociaes. Tremulo de colera, mas submisso como quem cede
á exigencia d'um trabuco, enfiei para a tipoia—depois de me
ter despedido com grande affecto do carregador, camarada fiel da nossa
trabalhosa noite.
Partimos emfim, n'um galope desesperado. D'ahi a momentos estavamos
assaltando a porta adormecida do Hotel de Braganza com repiques,
clamores, punhadas,
cocegas, injurias, gemidos, todas as violencias e todas as
seducções. Debalde! Não foi mais
resistente ao bello cavalleiro Percival o portão de ouro do
palacio da Ventura! Finalmente o cocheiro atirou-se a ella aos couces.
E, decerto por comprehender melhor esta linguagem, a porta, lenta e
estremunhada, rolou nos seus gonzos. Graças te sejam, meu
Deus, pae ineffavel! Estamos emfim sob um tecto, no meio dos tapetes e
estuques do Progresso, ao cabo de tão barbara jornada.
Restava pagar o batedor. Vim para elle com acerba ironia:
—Então, são tres mil reis?
Á luz do vestibulo, que me batia a face, o homem sorria. E
que ha de elle responder, o malandro sem par?
—Aquillo era por dizer... Eu não tinha conhecido o snr. D.
Fradique... Lá para o snr. D. Fradique é o que
quizer.
Humilhação incomparavel! Senti logo
não sei que torpe enternecimento que me amollecia o
coração. Era a bonacheirice, a relassa fraqueza
que nos enlaça a todos nós portuguezes, nos enche
de culpada indulgencia uns para os outros, e irremediavelmente estraga
entre nós toda a Disciplina e toda a Ordem. Sim, minha cara
madrinha... Aquelle bandido conhecia o snr. D. Fradique. Tinha um
sorriso brejeiro e serviçal. Ambos eramos portuguezes. Dei
uma libra áquelle bandido!
E aqui está, para seu ensino, a veridica maneira
por que se entra, no ultimo
quartel do seculo XIX, na grande cidade de Portugal. Todo seu, aquelle
que de longe de si sempre
péna—
Fradique.
VIII