VI
O erudito moralista que assigna
Alceste na
Gazette de Paris
dedicou a Fradique Mendes uma Chronica em que resume assim o seu
espirito e a sua acção:—«Pensador
verdadeiramente
pessoal
e forte,
Fradique Mendes não deixa uma obra. Por
indifferença, por indolencia, este homem foi o dissipador
d'uma enorme riqueza intellectual. Do bloco d'ouro em que poderia ter
talhado um monumento imperecivel—tirou elle durante annos curtas
lascas, migalhas, que espalhou ás mãos cheias,
conversando, pelos salões e pelos clubs de Paris. Todo esse
pó d'ouro se perdeu no pó
commum. E sobre a sepultura de Fradique, como sobre a do grego
desconhecido de que canta a Anthologia, se poderia
escrever:—«Aqui jaz o ruido do vento que passou derramando
perfume, calor e sementes em vão...»
Toda esta chronica vem lançada com a usual superficialidade
e inconsideração dos francezes. Nada menos
reflectido que as designações de
indolencia,
indifferença,
que voltam
repetidamente, n'essa pagina bem ornada e sonora, como para marcar com
precisão a natureza de Fradique. Elle foi ao contrario um
homem todo de paixão, de acção, de
tenaz labor. E escassamente
póde ser accusado de
indolencia, de
indifferença, quem, como elle, fez duas
campanhas, apostolou uma religião, trilhou os cinco
continentes, absorveu tantas civilisações,
percorreu todo o saber do seu
tempo.
O chronista da
Gazette de Paris
acerta porém, singularmente, affirmando que d'esse duro
obreiro não resta uma obra. Impressas e dadas ao mundo
só d'elle conhecemos com effeito as poesias das
Lapidarias,
publicadas na
Revolução de
Setembro—e
esse curioso poemeto em latim barbaro,
Laus Veneris
Tennebrosae, que appareceu na
Revue de Poésie et d'Art, fundada em
fins de 69 em
Paris por um grupo de poetas symbolistas. Fradique porém
deixou manuscriptos. Muitas vezes, na rua de Varennes, os entrevi eu
dentro d'um cofre hespanhol do seculo XIV, de ferro lavrado, que
Fradique denominava a
valla commum. Todos
esses papeis (e a plena disposição d'elles) foram
legados por Fradique áquella
Libuska
de quem elle largamente falla nas suas cartas a Madame de Jouarre, e
que se nos torna tão familiar e real «com os seus
velludos brancos de Veneziana e os seus largos olhos de
Juno».
Esta senhora, que se chamava Varia Lobrinska, era da velha familia
russa dos Principes de Palidoff. Em 1874 seu marido Paulo Lobrinski,
diplomata silencioso e vago, que pertencera ao regimento das Guardas
Imperiaes, e escrevia
capitaine com
t,
e, (
capiténe)
morrera em
Paris, por fins d'outono, ainda moço, de uma languida e
longa anemia. Immediatamente Madame Lobrinska, com solemne magoa,
cercada d'aias e de crépes, recolheu ás suas
vastas propriedades russas perto de Starobelsk, no governo de Karkoff.
Na primavera, porém, voltou com as flôres dos
castanheiros,—e desde então
habitava Paris em luxuosa e risonha viuvez. Um dia, em casa de Madame
de Jouarre, encontrou Fradique, que, enlevado então no culto
das Litteraturas slavas, se occupava com paixão do mais
antigo e
nobre dos seus
poemas, o
Julgamento de
Libuska, casualmente encontrado em 1818 nos archivos do
castello de Zelene-Hora. Madame Lobrinska era parenta dos senhores de
Zelene-Hora, condes de Colloredo—e possuia justamente uma
reproducção das duas folhas de pergaminho que
contêm a velha epopeia barbara.
Ambos leram esse texto heroico—até que o dôce
instante veio em que, como os dois amorosos de Dante,
«não leram mais no dia todo».
Fradique dera a Madame Lobrinska o nome de
Libuska, a rainha que no
Julgamento
apparece
«vestida de branco e resplandecente de sapiencia».
Ella chamava a Fradique
Lucifer. O poeta das
Lapidarias morreu em
novembro:—e dias depois Madame Lobrinska recolhia de novo á
melancolia das suas terras, junto de Starobelsk, no governo de Karkoff.
Os seus amigos sorriram, murmuraram com sympathia que Madame Lobrinska
fugira, para chorar entre os seus moujiks a sua segunda
viuvez—até que reflorecesse os lilazes. Mas d'esta vez
Libuska não voltou, nem com as
flôres dos castanheiros.
O marido de Madame Lobrinska era um Diplomata que estudava e praticava
sobretudo os
menus e os
cotillons. A sua
carreira foi
portanto irremediavelmente subalterna e lenta. Durante seis annos jazeu
no Rio de Janeiro, entre os arvoredos de Petropolis, como Secretario,
esperando aquella legação na Europa que o
Principe Gortchakoff, então Chanceller Imperial, affirmava
pertencer a Madame Lobrinska
par droit de
beauté et de
sagesse. A legação na Europa, n'uma
capital mundana, culta, sem bananeiras, nunca veio compensar aquelles
exilados que soffriam das saudades da neve:—e Madame Lobrinska, no seu
exilio, chegou a aprender tão completamente a nossa
dôce lingua de Portugal, que Fradique me mostrou uma
traducção da elegia de Lavoski,
A
Collina do Adeus,
trabalhada por ella com superior pureza e relevo. Só ella
pois, realmente, d'entre todas as amigas de Fradique, podia apreciar
como paginas vivas, onde o pensador depozera a confidencia do seu
pensamento, esses manuscriptos que para as outras seriam apenas
sêccas e mortas folhas de papel, cobertas de linhas
incomprehendidas.
Logo que comecei a colleccionar as cartas dispersas de Fradique Mendes,
escrevi a Madame Lobrinska contando o meu empenho em fixar n'um estudo
carinhoso as feições d'esse transcendente
espirito—e implorando, se não alguns extractos dos seus
manuscriptos, ao menos algumas
revelações
sobre a sua natureza.
A resposta de
Madame Lobrinska foi uma recusa, bem determinada, bem
deduzida,—mostrando que decerto sob «os claros olhos de
Juno» estava uma clara razão de Minerva.
«Os papeis de Carlos Fradique (dizia em summa) tinham-lhe
sido confiados, a ella que vivia longe da publicidade, e do mundo que
se interessa e lucra na publicidade, com o intuito de que para sempre
conservassem o caracter intimo
e secreto em que tanto
tempo Fradique os mantivera: e n'estas condições
o
revelar a sua natureza seria manifestamente
contrariar o recatado e altivo sentimento que dictára esse
legado...» Isto vinha escripto, com uma letra grossa e
redonda, n'uma larga folha de papel aspero, onde a um canto brilhava a
ouro, sob uma corôa d'ouro, esta divisa—
Per terram ad
coelum.
D'este modo se estabeleceu a obscuridade em torno dos manuscriptos de
Fradique. Que continha realmente esse cofre de ferro, que Fradique com
desconsolado orgulho denominava a
valla
commum, por julgar pobres e sem brilho no mundo os
pensamentos que para lá arrojava?
Alguns amigos pensam que ahi se devem encontrar, se não
completas, ao menos esboçadas, ou já coordenadas
nos seus materiaes, as duas obras a que Fradique alludia como sendo as
mais captivantes para um pensador e um artista d'este seculo—uma
Psychologia
das Religiões
e uma
Theoria da Vontade.
Outros (como J. Teixeira d'Azevedo) julgam que n'esses papeis existe um
romance de realismo epico, reconstruindo uma
civilisação extincta,
como a
Salammbô. E deduzem essa
supposição (desamoravel) d'uma carta a Oliveira
Martins, de 1880, em que Fradique exclamava, com uma ironia
mysteriosa:—«Sinto-me resvalar, caro historiador, a praticas
culpadas e vãs! Ai de mim, ai de mim, que me foge a penna
para o mal! Que demonio
malfazejo, coberto do pó das Idades, e sobraçando
in-folios archeologicos, me veio murmurar uma d'estas noites, noite de
duro inverno e de erudição
decorativa:—«Trabalha um
romance! E no teu romance resuscita a antiguidade asiatica!»?
E as suas suggestões pareceram-me dôces, amigo,
d'uma doçura lethal!... Que dirá
vossê, dilecto Oliveira Martins, se um dia desprecavidamente
no seu lar receber um tomo meu, impresso com solemnidade, e
começando por estas
linhas:—«
Era em Babylonia, no mez de
Sivanù, depois da colheita do balsamo?...»
Decerto,
vossê (d'aqui o sinto) deixára pender a face
aterrada entre as mãos tremulas,
murmurando:—«Justos céos! Ahi vem sobre
nós a
descripção do templo das Sete-Espheras, com todos
os seus terraços! a descripção da
batalha de Halub, com todas as suas armas! a
descripção do banquete de
Sennacherib, com todas as suas iguarias!... Nem os bordados d'uma
só tunica, nem os relevos d'um só vaso nos
serão perdoados! E é isto
um amigo intimo!»
Ramalho Ortigão, ao contrario, inclina a crêr que
os papeis de Fradique contêm
Memorias—porque só a
Memorias
se
póde coherentemente impôr a
condição de permanecerem secretas.
Eu por mim, d'um melhor e mais contínuo conhecimento de
Fradique,
concluo que elle não deixou um livro de Psychologia, nem uma
Epopeia archeologica (que certamente pareceria a Fradique
uma culpada e vã
ostentação de saber
pittoresco e facil), nem
Memorias—inexplicaveis
n'um homem todo de idéa e de
abstracção, que
escondia a sua vida com tão altivo recato. E affirmo
afoutamente que n'esse cofre de ferro, perdido n'um velho solar russo,
não existe uma
obra—porque Fradique nunca foi verdadeiramente um
auctor.
Para o ser não lhe faltaram decerto as idéas—mas
faltou-lhe a certeza de que ellas, pelo seu valor
definitivo,
merecessem ser
registradas e perpetuadas: e faltou-lhe ainda a arte paciente, ou o
querer forte, para produzir aquella fórma que elle concebera
em abstracto como a unica digna, por bellezas especiaes e raras, de
encarnar as suas idéas. Desconfiança de si como
pensador, cujas conclusões, renovando a philosophia e a
sciencia, podessem imprimir ao espirito humano um movimento inesperado;
desconfiança de si como escriptor e creador d'uma Prosa, que
só por si propria, e separada do valor do pensamento,
exercesse sobre as almas a acção ineffavel do
absolutamente
bello—eis as duas influencias negativas que retiveram Fradique para
sempre inedito e mudo. Tudo o que da sua intelligencia emanasse queria
elle que perpetuamente ficasse actuando sobre as intelligencias pela
definitiva verdade ou pela incomparavel belleza. Mas a critica
inclemente e sagaz que praticava sobre os outros, praticava-a sobre si,
cada dia, com redobrada sagacidade e inclemencia. O sentimento,
tão vivo n'elle, da Realidade
fazia-lhe distinguir o seu
proprio espirito tal como era, na sua real potencia e nos seus reaes
limites, sem que lh'o mostrassem mais potente ou mais largo esses
«fumos da illusão
litteraria»—que levam todo o homem de letras, mal corre a
penna sobre o papel, a tomar por faiscantes raios de luz alguns sujos
riscos de tinta. E concluindo que, nem pela idéa, nem pela
fórma, poderia levar
ás intelligencias persuasão ou encanto que
definitivamente marcassem na evolução da
razão ou do
gosto—preferiu altivamente permanecer silencioso. Por motivos
nobremente diferentes dos de Descartes, elle seguiu assim a maxima que
tanto seduzia Descartes—
bene vixit qui bene
latuit.
Nenhum d'estes sentimentos elle me confessou; mas todos lh'os
surprehendi, transparentemente, n'um dos derradeiros Nataes que vim
passar á rua de Varennes, onde Fradique pelas festas do anno
me hospedava com immerecido esplendor. Era uma noite de grande e
ruidoso inverno: e desde o café, com os pés
estendidos á alta chamma dos madeiros de faia que estalavam
na chaminé, conversavamos sobre a Africa e sobre
religiões Africanas. Fradique recolhera na região
do Zambeze notas muito flagrantes, muito vivas, sobre os cultos
nativos—que são divinisações dos
chefes mortos,
tornados pela morte
Mulungus, Espiritos
dispensadores das coisas boas e más, com residencia divina
nas cubatas e nas collinas onde tiveram a sua residencia carnal; e,
comparando os ceremoniaes e os fins
d'estes cultos selvagens da
Africa com os primitivos ceremoniaes liturgicos dos Aryas em
Septa-Sandou, Fradique concluia (como mostra n'uma carta d'esse tempo a
Guerra Junqueiro) que na religião o que ha de real,
essencial, necessario e eterno é o Ceremonial e a
Liturgia—e o que ha de artificial, de supplementar, de dispensavel, de
transitorio é a Theologia e a Moral.
Todas estas coisas me prendiam irresistivelmente, sobretudo pelos
traços de vida e de natureza africana com que vinham
illuminadas. E sorrindo, seduzido:
—Fradique! porque não escreve vossê
toda essa sua viagem á Africa?
Era a vez primeira que eu suggeria ao meu amigo a idéa de
compôr um livro. Elle ergueu a face para mim com tanto
espanto como se eu lhe propozesse marchar descalço,
através da noite
tormentosa, até aos bosques de Marly. Depois, atirando a
cigarette para o lume, murmurou com lentidão e melancolia:
—Para que?... Não vi nada na Africa, que os outros
não tivessem já visto.
E como eu lhe observasse que vira talvez d'um modo differente e
superior; que nem todos os dias um homem educado pela philosophia, e
saturado de erudição, faz a travessia da Africa;
e que em sciencia uma só verdade necessita mil
experimentadores—Fradique quasi se impacientou:
—Não! Não tenho sobre a Africa, nem sobre
coisa alguma n'este
mundo, conclusões que por alterarem o curso do pensar
contemporaneo valesse a pena registrar... Só podia
apresentar uma série
de impressões, de paizagens. E então peor! Porque
o verbo humano, tal como o fallamos, é ainda impotente para
encarnar a menor impressão intellectual ou reproduzir a
simples fórma d'um arbusto... Eu não sei
escrever! Ninguem sabe escrever!
Protestei, rindo, contra aquella generalisação
tão inteiriça, que tudo varria, desapiedadamente.
E lembrei que a bem curtas jardas da chaminé que nos
aquecia, n'aquelle velho bairro de Paris onde se erguia a Sorbonna, o
Instituto de França e a Escóla Normal, muitos
homens houvera, havia ainda, que possuiam do modo mais perfeito a
«bella arte de dizer».
—Quem? exclamou Fradique.
Comecei por Bossuet. Fradique encolheu os hombros, com uma irreverencia
violenta que me emmudeceu. E declarou logo, n'um resumo cortante, que
nos dois melhores seculos da litteratura franceza, desde o
meu
Bossuet
até Beaumarchais, nenhum prosador para elle tinha relevo,
côr, intensidade, vida... E nos modernos nenhum tambem o
contentava. A distenção retumbante de Hugo era
tão intoleravel como a flaccidez oleosa de Lamartine. A
Michelet faltava gravidade e equilibrio; a Renan solidez e nervo; a
Taine fluidez e transparencia; a Flaubert
vibração e calor. O pobre
Balzac, esse, era d'uma
exuberancia desordenada e barbarica. E o preciosismo dos Goncourt e do
seu mundo parecia-lhe perfeitamente indecente...
Aturdido, rindo, perguntei áquelle «feroz
insatisfeito» que prosa pois concebia elle, ideal e
miraculosa, que merecesse ser escripta. E Fradique, emocionado (porque
estas questões de fórma
desmanchavam a sua serenidade) balbuciou que queria em prosa
«alguma coisa de crystallino, de avelludado, de ondeante, de
marmoreo, que só por si, plasticamente, realisasse uma
absoluta belleza—e que expressionalmente, como verbo, tudo podesse
traduzir desde os mais fugidios tons de luz até os mais
subtis estados d'alma...»
—Emfim, exclamei, uma prosa como não póde haver!
—Não! gritou Fradique, uma
prosa como
ainda não ha!
Depois, ajuntou, concluindo:
—E como ainda a não ha, é uma inutilidade
escrever. Só se podem produzir fórmas sem
belleza: e dentro d'essas mesmas só cabe metade do que se
queria exprimir, porque a outra metade não é
reductivel ao verbo.
Tudo isto era talvez especioso e pueril, mas revelava o sentimento que
mantivera mudo aquelle superior espirito—possuido da sublime
ambição de só produzir verdades
absolutamente definitivas por meio de fórmas absolutamente
bellas.
Por isso, e não por indolencia de meridional
como insinua
Alceste,—Fradique
passou no mundo, sem deixar outros vestigios da formidavel actividade
do seu sêr pensante além d'aquelles que por longos
annos espalhou, á maneira do sabio antigo, «em
conversas com que se deleitava, á tarde, sob os platanos do
seu jardim, ou em cartas, que eram ainda conversas naturaes com os
amigos de que as ondas o separavam...» As suas conversas, o
vento as levou—não tendo, como o velho dr. Johnson, um
Boswell, enthusiasta e paciente, que o seguisse pela cidade e pelo
campo, com as largas orelhas attentas, e o lapis prompto a tudo notar e
tudo eternizar. D'elle pois só restam as suas cartas—leves
migalhas d'esse ouro de que falla
Alceste, e onde se sente o brilho, o valor
intrinseco, e a preciosidade do bloco rico a que pertenceram.
VII
Se a vida de Fradique foi assim governada por um tão
constante e claro proposito de
abstenção e silencio—eu, publicando as suas
Cartas, pareço lançar estouvada e
traiçoeiramente o meu amigo, depois da sua morte, n'esse
ruido e publicidade a que elle sempre se recusou por uma rigida
probidade de espirito. E assim seria—se eu não possuisse
a evidencia
de que Fradique incondicionalmente approvaria uma
publicação da sua Correspondencia,
organisada com discernimento e carinho. Em 1888, n'uma carta em que lhe
contava uma romantica jornada na Bretanha, alludia eu a um livro que me
acompanhára e me encantára, a
Correspondencia
de Xavier Doudan—um
d'esses espiritos recolhidos que vivem para se aperfeiçoar
na verdade e não para se glorificar no mundo, e que, como
Fradique, só deixou vestigios da sua intensa vida
intellectual na sua Correspondencia, colligida depois com reverencia
pelos confidentes do seu pensamento.
Fradique, na carta que me volveu, toda occupada dos Pyrenéos
onde gastára o verão,
accrescentava n'um
post-scriptum:—«A
Correspondencia de Doudan é realmente muito legivel; ainda
que através d'ella apenas se sente um espirito naturalmente
limitado, que desde novo se entranhou no doutrinarismo da escola de
Genebra, e que depois, cahido em solidão e
doença, só
pelos livros conheceu a vida, os homens e o mundo. Li em todo o caso
essas cartas—como leio todas as collecções de
Correspondencias, que,
não sendo didacticamente preparadas para o publico (como as
de Plinio), constituem um estudo excellente de psychologia e de
historia. Eis-ahi uma maneira de perpetuar as idéas d'um
homem que eu afoutamente approvo—publicar-lhe a corresponcia! Ha desde
logo esta immensa vantagem:—que
o valor das
idéas (e portanto a escolha das que devem ficar)
não é decidido por aquelle que as concebeu, mas
por um grupo de amigos e de criticos, tanto mais livres e mais
exigentes no seu julgamento quanto estão julgando um morto
que só desejam mostrar ao mundo pelos seus lados superiores
e luminosos. Além d'isso uma Correspondencia revela melhor
que uma obra a individualidade, o homem; e isto é
inestimavel para aquelles que na terra valeram mais pelo caracter do
que pelo talento. Accresce ainda que, se uma obra nem sempre augmenta o
peculio do saber humano, uma Correspondencia, reproduzindo
necessariamente os costumes, os modos de sentir, os gostos, o pensar
contemporaneo e ambiente, enriquece sempre o thesouro da
documentação historica. Temos depois que as
cartas d'um homem, sendo o producto quente e vibrante da sua vida,
contêm mais ensino que a sua philosophia—que é
apenas a creação impessoal do seu espirito. Uma
Philosophia offerece meramente uma conjectura mais que se vai juntar ao
immenso montão das conjecturas: uma Vida que se confessa
constitue o estudo d'uma realidade humana, que, posta ao lado de outros
estudos, alarga o nosso conhecimento do Homem, unico objectivo
accessivel
ao
esforço intellectual. E finalmente como
cartas
são palestras
escriptas (assim affirma não sei que classico),
ellas dispensam o revestimento sacramental da
tal prosa como
não
ha... Mas
este ponto precisava ser
mais desembrulhado—e eu sinto parar á porta o cavallo em
que vou trepar ao pico de Bigorre».
Foi a lembrança d'esta opinião de Fradique,
tão clara e fundamentada, que me decidiu, apenas em mim se
foi calmando a saudade d'aquelle camarada adoravel, a reunir as suas
cartas para que os homens alguma coisa podessem aprender e amar
n'aquella intelligencia que eu tão estreitamente
amára e seguira. A essa carinhosa tarefa devotei um
anno—porque a correspondencia de Fradique, que, desde os quietos
habitos a que se acolhera depois de 1880 aquelle «andador de
continentes», era a mais preferida das suas
occupacões, apresenta a vastidão e a copiosidade
da correspondencia de Cicero, de Voltaire, de Proudhon, e d'outros
poderosos remexedores de idéas.
Sente-se logo o prazer com que compunha estas cartas na
fórma do papel—esplendidas folhas de Whatman, eburneas
bastante para que a penna corresse n'ellas com o desembaraço
com que a voz corta o ar; vastas bastante para que n'ellas coubesse o
desenrolamento da mais complexa idéa; fortes bastante, na
sua consistencia de pergaminho, para que não prevalecesse
contra ellas o carcomer do tempo. «Calculei já,
ajudado pelo Smith (affirma elle a Carlos Mayer), que cada uma das
minhas cartas, n'este papel, com enveloppe e estampilha, me custa 250
reis. Ora suppondo vaidosamente que cada quinhentas cartas minhas
contêm uma
idéa—resulta que cada idéa
me fica por
cento e vinte e cinco mil
reis. Este méro calculo bastará para
que o Estado, e a economica Classe-Média que o dirige,
empeçam com ardor a
educação—provando, como inilludivelmente prova,
que fumar é mais barato que pensar...
Contrabalanço
pensar e
fumar, porque são,
ó Carlos, duas operações identicas que
consistem em atirar pequenas nuvens ao vento».
Estas dispendiosas folhas têm todas a um canto as iniciaes de
Fradique—F. M.—minusculas e simples, em esmalte escarlate. A letra
que as enche, singularmente desigual, offerece a maior similitude com a
conversação de Fradique: ora cerrada e fina,
parecendo morder o papel como um buril para contornar bem rigorosamente
a idéa; ora hesitante e demorada, com riscos,
separações,
como n'aquelle esforço tão seu de tentear,
espiar, cercar a real realidade das coisas: ora mais fluida e rapida,
lançada com facilidade e largueza, lembrando esses momentos
de abundancia e de veia que Fontan de Carmanges denominava
le
dégel de Fradique, e em que o gesto estreito e
sobrio se lhe desmanchava n'um esvoaçar de flammula ao
vento.
Fradique nunca datava as suas cartas: e, se ellas vinham de moradas
familiares aos seus amigos, notava méramente o nome do mez.
Existem assim cartas innumeraveis com esta resumida
indicação—
Paris, Julho;
Lisboa,
Fevereiro... Frequentemente,
tambem, restituia aos
mezes as alcunhas naturalistas do kalendario republicano—
Paris,
Floreal;
Londres, Nivoze. Quando se
dirigia a
mulheres substituia ainda o nome do mez pelo da flôr que
melhor o symbolisa; e possuo assim cartas com esta bucolica data—
Florença,
primeiras
violetas (o que indica fins de fevereiro);
Londres,
chegada dos Chrysanthemos (o que indica começos
de setembro). Uma carta de Lisboa offerece mesmo esta data
atroz—Lisboa,
primeiros fluxos da
verborreia parlamentar! (Isto denuncia um janeiro triste,
com lama, tipoias no largo de S. Bento, e bachareis em cima bolsando,
por entre injurias, fézes de velhos compendios).
Não é portanto possivel dispôr a
Correspondencia de Fradique por uma ordem chronologica: nem de resto
essa ordem importa desde que eu não edito a sua
Correspondencia completa e integral, formando uma historia continua e
intima das suas idéas. Em cartas que não
são d'um
auctor e que não constituem, como as de
Voltaire ou de Proudhon, o corrente e constante commentario que
acompanha e illumina a obra, cumpria sobretudo destacar as paginas que
com mais saliencia revelassem a
personalidade—o
conjunto de
idéas, gostos, modos, em que tangivelmente se sente e se
palpa o homem. E por isso, n'estes pesados maços das cartas
de Fradique, escolho apenas algumas, soltas, d'entre as que mostram
traços de caracter e relances da existencia activa; d'entre
as que deixam
entrevêr algum instructivo episodio da sua vida de
coração; d'entre as que, revolvendo
noções geraes sobre a litteratura, a arte, a
sociedade e os costumes, caracterisam o feitio do seu pensamento; e
ainda, pelo interesse especial que as realça, d'entre as que
se referem a coisas de Portugal, como as suas
«impressões de Lisboa», transcriptas com
tão maliciosa realidade para regalo de Madame de Jouarre.
Inutil seria decerto, n'estas laudas fragmentaes, procurar a
summa do alto e livre Pensar de Fradique ou do seu Saber tão
fundo e tão certo. A correspondencia de Fradique
Mendes, como diz finamente Alceste—
c'est son genie qui
mousse. N'ella, com effeito, vemos apenas a espuma radiante
e ephemera que fervia e transbordava, emquanto em baixo jazia o vinho
rico e substancial que não foi nunca distribuido nem serviu
ás almas
sedentas. Mas, assim ligeira e dispersa, ella mostra todavia, em
excellente relevo, a imagem d'este homem tão superiormente
interessante em todas as suas manifestações de
pensamento, de
paixão, de sociabilidade e de acção.
Além do meu desejo que os contemporaneos venham a amar este
espirito que tanto amei—eu obedeço, publicando as cartas de
Fradique Mendes, a um intuito de puro e seguro patriotismo.
Uma nação só vive porque pensa.
Cogitat ergo
est. A
Força e a Riqueza não
bastam para provar que uma nação vive d'uma vida
que
mereça ser glorificada na Historia—como rijos musculos n'um
corpo e ouro farto n'uma bolsa não bastam para que um homem
honre em si a Humanidade. Um reino d'Africa, com guerreiros incontaveis
nas suas aringas e incontaveis diamantes nas suas collinas,
será sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da
Civilisação, os Civilisados pisam e retalham
tão desassombradamente como se sangra e se corta a rez bruta
para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egypto ou Tunis
formassem resplandecentes centros de Sciencias, de Litteraturas e de
Artes, e, através de uma serena legião de homens
geniaes, incessantemente educassem o mundo—nenhuma
nação, mesmo n'esta idade de ferro e de
força, ousaria occupar como um campo maninho e sem dono
esses sólos augustos d'onde se elevasse, para tornar as
almas melhores, o enxame sublime das Idéas e das
Fórmas.
Só na verdade o Pensamento e a sua
creação suprema, a Sciencia, a Litteratura, as
Artes, dão grandeza aos Povos, attrahem para elles universal
reverencia e carinho, e, formando dentro d'elles o thesouro de verdades
e de bellezas que o mundo precisa, os tornam perante o mundo
sacrosantos. Que differença ha, realmente, entre Paris e
Chicago? São duas palpitantes e productivas cidades—onde os
palacios, as instituições, os parques, as
riquezas, se equivalem soberbamente. Porque fórma
pois Paris um fóco
crepitante de
Civilisação que irresistivelmente fascina a
humanidade—e porque tem Chicago apenas sobre a terra o valor de um
rude e formidavel celleiro onde se procura a farinha e o
grão? Porque Paris, além dos palacios, das
instituições e das riquezas de que Chicago tambem
justamente se gloría, possue a mais um grupo especial de
homens—Renan, Pasteur, Taine, Berthelot, Coppée, Bonnat,
Falguieres, Gounod, Massenet—que pela incessante produccão
do seu cerebro convertem a banal cidade que habitam n'um centro de
soberano ensino. Se as
Origens do
Christianismo, o
Fausto, as telas de
Bonnat, os
marmores de Falguieres, nos viessem d'além dos mares, da
nova e monumental Chicago—para Chicago, e não para Paris,
se voltariam, como as plantas para o sol, os espiritos e os
corações da Terra.
Se uma nação, portanto, só tem
superioridade porque tem pensamento, todo aquelle que venha revelar na
nossa patria um novo homem de original pensar concorre patrioticamente
para lhe augmentar a unica grandeza que a tornará
respeitada, a unica belleza que a tornará amada;—e
é como quem aos seus templos juntasse mais um sacrario ou
sobre as suas muralhas erguesse mais um castello.
Michelet escrevia um dia, n'uma carta, alludindo a Anthero de
Quental:—«Se em Portugal restam quatro ou cinco homens como
o auctor das
Odes Modernas, Portugal
continúa a ser um grande
paiz vivo...» O
mestre da
Historia de
França com isto significava—que emquanto viver
pelo lado da Intelligencia, mesmo que jaza morta pelo lado da
Acção, a nossa patria não
é inteiramente um cadaver que sem escrupulo se pise e se
retalhe. Ora no Pensamento ha manifestações
diversas: e se nem todas irradiam o mesmo esplendor, todas provam a
mesma vitalidade. Um livro de versos póde sublimemente
mostrar que a alma de uma nação vive ainda pelo
Genio Poetico: um conjunto de leis salvadoras, emanando de um espirito
positivo, póde solidamente comprovar que um povo vive ainda
pelo Genio Politico:—mas a revelação de um
espirito como o de Fradique
assegura que um paiz vive tambem pelos lados menos grandiosos, mas
valiosos ainda, da graça, da vivaz
invenção, da transcendente ironia, da
phantasia, do humorismo e do gosto...
Nos tempos incertos e amargos que vão, Portuguezes d'estes
não podem ficar para sempre esquecidos, longe, sob a mudez
de um marmore. Por isso eu o revelo aos meus
concidadãos—como uma consolação e uma
esperança.
AS CARTAS
I
ao
visconde de a.-t.
Londres, maio.
Meu caro patricio.—Só
hontem á noite, tarde, ao recolher do campo, encontrei o
bilhete com que consideravelmente me honrou, perguntando á
minha experiencia—«qual é o melhor alfaiate de
Londres». Depende isso inteiramente do fim para que V.
necessita esse Artista. Se pretende meramente um homem que lhe cubra a
nudez com economia e conforto, então recommendo-lhe aquelle
que tiver taboleta mais perto do seu Hotel. São tantos
passos que forra—e, como diz o
Ecclesiastes, cada passo encurta a distancia da
sepultura.
Se porém V., caro patricio, deseja um alfaiate que lhe
dê consideração e valor no seu
mundo; que V. possa citar com orgulho, á porta da Havaneza,
rodando lentamente para mostrar o córte ondeado
e fino da cinta; que o
habilite a mencionar os Lords que lá encontrou, escolhendo
d'alto, com ponta da bengala, cheviotes para blusas de caça;
e que lhe sirva mais tarde, na velhice, á hora
gêba do rheumatismo, como recordação
consoladora de elegancias moças—então com
ardente instancia lhe aconselho o Cook (o Thomaz Cook) que é
da mais extremada moda, absolutamente ruinoso, e falha tudo.
Para subsequentes conselhos de «fornecedores», em
Londres ou outros pontos do Universo, permanece sempre ao seu grato
serviço—
Fradique Mendes.
II
a
madame de jouarre
Paris, dezembro.
Minha querida madrinha.—Hontem, em
casa de Madame de Tressan, quando passei, levando para a ceia Libuska,
estava sentada, conversando comsigo, por debaixo do atroz retrato da
Marechala
de Mouy, uma mulher loura, de
testa alta e clara, que me seduziu logo, talvez por lhe presentir,
apesar de tão indolentemente enterrada n'um divan, uma rara
graça no andar, graça altiva e
ligeira de Deusa e de ave. Bem differente da nossa sapiente Libuska,
que se move com o esplendido peso de uma estatua! E do interesse por
esse outro passo, possivelmente alado e
dianico
(de Diana), provém estas garatujas.
Quem era? Supponho que nos chegou do fundo da provincia, d'algum velho
castello do Anjou com herva nos fossos, porque me não lembro
de ter encontrado em Paris aquelles cabellos fabulosamente louros como
o sol de Londres em dezembro—nem aquelles hombros descahidos,
dolentes,
angelicos, imitados de uma madona de
Montegna, e inteiramente desusados em França desde o reinado
de Carlos X, do
Lyrio no Valle, e
dos corações incomprehendidos. Não
admirei com igual fervor o vestido preto, onde reinavam coisas
escandalosamente amarellas. Mas os braços eram perfeitos; e
nas pestanas, quando as baixava, parecia pender um romance triste.
Deu-me assim a impressão, ao começo, de ser uma
elegiaca do tempo de Chateaubriand. Nos olhos porém
surprehendi-lhe depois uma faisca de vivacidade sensivel—que a datava
do seculo XVIII. Dirá a minha madrinha:—«como
pude eu abranger tanto, ao passar, com Libuska ao lado
fiscalisando?» É que voltei. Voltei, e da
hombreira da porta readmirei os hombros dolentes
de virgem do seculo XIII; a
massa de cabellos que o mólho de velas por traz, entre as
orchideas, nimbava d'ouro; e sobretudo o subtil encanto dos olhos—dos
olhos finos e languidos... Olhos
finos e languidos.
É a primeira
expressão em que hoje apanho decentemente a realidade.
Porque é que não me adiantei, e não
pedi uma «apresentação?» Nem
sei.
Talvez o requinte em
retardar, que fazia com que
La-Fontaine, dirigindo-se mesmo para a felicidade, tomasse sempre o
caminho mais longo. Sabe o que dava tanta
seducção ao palacio das Fadas, nos tempos do rei
Arthur? Não sabe. Resultados de não lêr
Tennyson... Pois era a immensidade d'annos que levava a chegar
lá, através de jardins encantados, onde cada
recanto de bosque offerecia a emoção inesperada
d'um
flirt, d'uma batalha, ou d'um
banquete... (Com que morbida propensão acordei hoje para o
estylo asiatico!) O facto é que, depois da
contemplação junto á hombreira, voltei
a cear ao pé da minha radiante tyranna. Mas por entre o
banal sandwich de
foie-gras, e um copo de Tokay
em
nada parecido com aquelle Tokay que Voltaire, já velho, se
recordava de ter bebido em casa de Madame d'Etioles (os vinhos dos
Tressans descendem em linha varonil dos venenos da Brinvilliers), vi,
constantemente
vi, os
olhos finos
e languidos. Não ha senão o
homem, entre os animaes, para misturar a languidez d'um olhar fino a
fatias de
foie-gras. Não o faria decerto um
cão de boa raça. Mas seriamos
nós
desejados
pelo «ephemero feminino» se
não fosse esta providencial brutalidade? Só a
porção de Materia que ha no homem faz com que as
mulheres se resignem á incorrigivel
porção
d'Ideal que n'elle ha tambem—para eterna
perturbação do mundo. O que mais prejudicou
Petrarcha aos olhos de Laura—foram os
Sonetos. E
quando Romeu,
já com um pé na escada de sêda, se
demorava, exhalando o seu extasi em invocações
á Noite e
á Lua—Julietta batia os dedos impacientes no rebordo do
balcão, e pensava: «Ai, que palrador que
és, filho dos
Montaigus!» Este detalhe não vem em
Shakspeare—mas é comprovado por toda a
Renascença.
Não me amaldiçôe por esta sinceridade
de meridional
sceptico, e mande-me dizer que nome tem, na sua parochia, a loura
castellã do Anjou. A proposito de castellos: cartas de
Portugal annunciam-me que o kiosque por mim mandado erguer em Cintra,
na minha quintarola, e que lhe destinava como «seu pensadoiro
e retiro nas horas de sésta»—abateu. Tres mil e
oitocentos francos achatados em entulho. Tudo tende á ruina
n'um paiz de ruinas. O architecto que o construiu é
deputado, e escreve no
Jornal da Tarde estudos
melancolicos sobre as Finanças! O meu procurador em Cintra
aconselha agora, para reedificar o kiosque, um estimavel rapaz, de boa
familia, que entende de construcções e que
é empregado na Procuradoria Geral da Corôa! Talvez
se eu necessitasse um Jurisconsulto me propozessem um trolha.
É com estes elementos alegres
que nós procuramos
restaurar o nosso imperio d'Africa! Servo humilde e
devoto—
Fradique.
III
a
oliveira martins
Paris, maio.
Querido amigo.—Cumpro emfim a
promessa feita na sua erudita ermida das Aguas-Ferreas, n'aquella
manhã de Março em que conversavamos ao sol sobre
o caracter dos Antigos,—e remetto, como documento, a photographia da
mumia de Ramèzes II (que o francez banal, continuador do
grego banal, teima em chamar Sezostris), recentemente descoberta nos
sarcophagos reaes de Medinet-Abou pelo professor Maspero.
Caro Oliveira Martins, não acha V. picarescamente suggestivo
este facto—
Ramèzes
photographado?... Mas ahi está justificada a
mumificação
dos cadaveres, feita pelos bons Egypcios com tanta fadiga e tanta
despeza, para que os homens gozassem na sua fórma terrena,
segundo diz o Escriba, «as vantagens da
Eternidade!» Ramèzes,
como elle acreditava e lhe affirmavam os metaphysicos de Thebas,
resurge effectivamente «com todos os seus ossos e a pelle que
era sua» n'este anno da Graça
de 1886. Ora 1886, para um Pharaoh da decima-nona dynastia, mil e
quatrocentos annos anterior a Christo,
representa muito decentemente
a
Eternidade e a
Vida-Futura.
E eis-nos agora
podendo contemplar as «proprias
feições» do
maior dos Ramezidas, tão realmente como Hokem seu
Eunuco-Mór, ou Pentaour seu Chronista-Mór, ou
aquelles que outr'ora em dias de triumphos corriam a juncar-lhe o
caminho de flôres, trazendo «os seus
chinós de festa e a cutis envernizada com oleos de
Segabai». Ahi o tem V. agora diante de si, em photographia,
com as palpebras baixas e sorrindo. E que me diz a essa face real? Que
humilhantes reflexões não provoca ella sobre a
irremediavel degeneração do homem! Onde ha ahi
hoje um, entre os que governam povos, que tenha essa soberana fronte de
calmo e incommensuravel orgulho; esse superior sorriso de omnipotente
benevolencia, d'uma ineffavel benevolencia que cobre o mundo; esse ar
de imperturbada e indomavel força; todo esse esplendor viril
que a treva de um hypogeo, durante tres mil annos, não
conseguiu apagar? Eis-ahi verdadeiramente um
Dono de homens!
Compare esse
semblante augusto com o perfil sôrno, obliquo e bigodoso d'um
Napoleão III; com o focinho de
bull-dog acorrentado d'um Bismarck; ou com o
carão do Czar russo, um carão parado e affavel
que podia ser o do seu Copeiro-Mór. Que chateza, que
fealdade tacanha d'estes rostos de poderosos!
D'onde provém isto? De que a alma modela a face como o sopro
do antigo oleiro modelava o vaso fino:—e hoje, nas nossas
civilisações,
não
ha logar
para que uma alma se affirme e se produza na absoluta
expansão da sua força. Outr'ora um simples homem,
um feixe de musculos sobre um feixe d'ossos, podia erguer-se e operar
como um elemento da Natureza. Bastava ter o illimitado querer—para
d'elle tirar o illimitado poder. Eis-ahi em Ramèzes um
sêr que tudo quer e tudo
póde, e a quem Phtah, o Deus sagaz, diz com espanto:
«a tua vontade dá a vida e a tua vontade
dá a
morte!» Elle impelle a seu bel-prazer as raças
para norte, para sul ou para leste; elle altera e arraza, como muros
n'um campo, as fronteiras dos reinos; as cidades novas surgem das suas
pegadas; para elle nascem todos os fructos da terra, e para elle se
volta toda a esperança dos homens; o logar para onde volve
os seus olhos é bemdito e prospéra, e o logar que
não recebe essa luz benefica jaz como «o
torrão que o Nilo não
beijou»; os deuses dependem d'elle, e Amnon estremece
inquieto quando, diante dos pylones do seu templo, Ramèzes
faz estalar as tres cordas entrançadas do seu latego de
guerra! Eis um
homem—e que
seguramente póde affirmar no seu canto
triumphal:—«Tudo vergou sob a minha força: eu vou
e venho com as passadas largas d'um leão; o rei dos deuses
está
á minha direita e tambem á minha esquerda; quando
eu fallo o céo escuta; as coisas da terra estendem-se a meus
pés, para eu as colher com mão livre; e para
sempre estou erguido sobre o throno do mundo!»
«O mundo», está claro, era aquella
região, pela maior parte arenosa, que vai da cordilheira
Libyca á Mesopotamia: e nunca houve mais petulante emphase
do que nas Panegyrias dos Escribas. Mas o homem é, ou
suppõe ser, inigualavelmente grande. E esta consciencia da
grandeza, do incircumscripto poder vem necessariamente resplandecer na
physionomia e dar essa altiva magestade, repassada de risonha
serenidade, que Ramèzes conserva mesmo além da
vida, resequido, mumificado, recheado de betume da Judêa.
Veja V. por outro lado as condições que cercam
hoje um poderoso do typo Bismarck. Um desgraçado d'esses
não está acima de nada e depende de tudo. Cada
impulso da sua vontade esbarra com a resistencia d'um obstaculo. A sua
acção no
mundo é um perpetuo bater de craneo contra espessuras de
portas bem defendidas. Toda a sorte de
convenções, de tradições,
de direitos, de preceitos, de interesses, de principios, se lhe levanta
a cada instante diante dos passos como marcos sagrados. Um artigo de
jornal fal-o estacar, hesitante. A rabulice d'um legista obriga-o a
encolher precipitadamente a garra que já ia estendendo. Dez
burguezes nedios e dez professores guedelhudos, votando dentro d'uma
sala, estatelam por terra o alto andaime dos seus planos. Alguns
florins dentro d'um sacco tornam-se o tormento das suas noites.
É-lhe tão impossivel dispôr d'um
cidadão como
d'um astro. Nunca póde avançar d'uma arrancada,
erecto
e seguro: tem de
ser ondeante e rastejante. A vigilancia ambiente impõe-lhe a
necessidade vil de fallar baixo e aos cantos. Em vez de
«recolher as coisas da terra, com mão
livre»—surripia-as
ás migalhas, depois de escuras intrigas. As irresistiveis
correntes de idéas, de sentimentos, de interesses, trabalham
por baixo d'elle, em torno d'elle: e parecendo dirigil-as, pelo muito
que braceja e ronca d'alto, é na realidade por ellas
arrastado. Assim um omnipotente do typo Bismarck vai por vezes em
apparencia no cimo das grandes coisas;—mas como a boia solta vai no
cimo da torrente.
Miseravel omnipotencia! E o sentimento d'esta miseria não
póde deixar de influenciar a
physionomia dos nossos poderosos dando-lhe esse feitio contrafeito,
crispado, torturado, azedado e sobretudo
amolgado
que se nota na cara de
Napoleão, do czar, de Bismarck, de todos os que reunem a
maior somma de poder contemporaneo—o feitio
amolgado d'uma coisa que rola aos
encontrões, batendo contra muralhas.
Em conclusão:—a mumia de Ramèzes II (unica face
authentica do homem antigo que conhecemos) prova que, tendo-se tornado
impossivel uma vida humana vivida na sua maxima liberdade e na sua
maxima força, sem outros limites que os do proprio
querer—resultou perder-se para sempre, no typo physico do homem, a
summa e perfeita expressão da grandeza. Já
não ha uma face sublime: ha carantonhas mesquinhas onde a
bilis cava rugas
por
entre os recortes do pêllo. As unicas physionomias nobres
são as das feras, genuinos Ramèzes no seu
deserto, que nada perderam da sua força, nem da sua
liberdade. O homem moderno, esse, mesmo nas alturas sociaes,
é um pobre Adão
achatado entre as duas paginas d'um codigo.
Se V. acha todo isto excessivo e phantasista, attribua-o a que jantei
hontem, e conversei inevitavelmente, com o seu correligionario P.,
conselheiro d'estado,
e muchas cosas
más.
Más em hespanhol; e
más
também
em portuguez no sentido de pessimas. Esta carta é a
reacção
violenta da conversa conselheiral e conselheirifera. Ah, meu amigo,
desditoso amigo, que faz V. depois de receber o fluxo labial d'um
conselheiro? Eu tomo um banho por dentro—um banho lustral, immenso
banho de phantasia, onde despejo como perfume idoneo um frasco de
Shelley ou de Masset. Amigo certo
et nunc et
semper—
Fradique
Mendes.
IV