Mas a hora chegára: abracei Fradique com singular
emoção. A vela fôra içada
á briza suave que arripiava a folhagem das mimosas.
Á prôa o arraes,
espalmando as mãos para o céo,
clamou:—«Em nome de Allah que nos leve, clemente e
misericordioso!» Ao redor, d'outras barcas, vozes lentas
murmuraram:—«Em nome de Allah que vos leve!» Um
dos remadores, sentado á borda, feriu as cordas da
dourbaka,
outro
tomou uma flauta de barro. E entre bençãos e
cantos a vasta barca fendeu as aguas sagradas, levando para Thebas o
meu incomparavel amigo.
III
Durante annos não tornei a encontrar Fradique Mendes, que
concentrára as suas jornadas dentro da Europa
Occidental—emquanto eu errava pela America, pelas Antilhas, pelas
republicas do golfo do Mexico. E quando a minha vida emfim se aquietou
n'um velho condado rural de Inglaterra, Fradique, retomado por essa
«bisbilhotice
ethnographica» a que
elle allude n'uma carta a Oliveira Martins, começava a sua
longa viagem ao Brazil, aos Pampas, ao Chili e á Patagonia.
Mas o fio de sympathia, que nos unira no Cairo, não se
partiu; nem nós, apesar de tão
tenue, o deixámos perder por entre os interesses mais fortes
das nossas fortunas desencontradas. Quasi todos os tres mezes
trocavamos uma carta—cinco ou seis folhas de papel que eu
tumultuosamente atulhava de imagens e impressões, e que
Fradique miudamente enchia de idéas e de factos.
Além d'isto, eu sabia de Fradique por alguns dos meus
camaradas, com quem, durante uma residencia mais intima em Lisboa, do
outono de 1875 ao verão de 1876, elle creára
amizades onde todos encontraram proveito intellectual e encanto.
Todos, apesar das dissimilhanças de temperamentos ou das
maneiras differentes de conceber a vida—tinham como eu sentido a
seducção d'aquelle homem adoravel. D'elle me
escrevia em novembro de 1877 o auctor do
Portugal
Contemporaneo:—«Cá encontrei o teu
Fradique, que considero o portuguez mais interessante do seculo XIX.
Tem curiosas parecenças com Descartes! É a mesma
paixão das viagens, que levava o philosopho a fechar os
livros «para estudar o grande livro do Mundo»; a
mesma attracção pelo
luxo e pelo ruido, que em Descartes se traduzia pelo gosto de
frequentar as «côrtes e os
exercitos»; o mesmo amor do mysterio, e das subitas
desapparições; a mesma vaidade, nunca confessada,
mas intensa, do nascimento e da fidalguia; a mesma coragem serena; a
mesma singular mistura de instinctos romanescos e de razão
exacta, de phantasia e de geometria. Com tudo isto falta-lhe na vida um
fim sério e supremo, que estas qualidades, em si excellentes
concorressem a realisar. E receio que em logar do
Discurso
sobre o Methodo venha só a deixar um
vaudeville». Ramalho Ortigão,
pouco tempo depois, dizia d'elle n'uma carta
carinhosa:—«Fradique Mendes é o mais completo,
mais acabado producto da civilisação em que me
tem sido dado embeber os olhos. Ninguem está mais
superiormente apetrechado para triumphar na Arte e na Vida. A rosa da
sua botoeira é sempre a mais fresca, como a idéa
do seu espirito é sempre
a mais original. Marcha cinco leguas sem parar, bate ao remo os
melhores remadores de Oxford, mette-se sósinho ao deserto a
caçar o tigre, arremette com um chicote na mão
contra um troço de lanças abyssinias:—e
á
noite n'uma sala, com a sua casaca do Cook, uma perola negra no
esplendor do peitilho, sorri ás mulheres com o encanto e o
prestigio com que sorrira á fadiga, ao perigo e á
morte. Faz armas como o cavalleiro de Saint-Georges, e possue as
noções mais novas e as mais certas sobre Physica,
sobre Astronomia, sobre Philologia e sobre Metaphysica. É um
ensino, uma lição de alto gosto,
vêl-o
no
seu quarto, na vida intima de
gentleman em viagem, entre as suas malas de couro
da Russia, as grandes escovas de prata lavrada, as cabaias de
sêda, as carabinas de Winchester, preparando-se, escolhendo
um perfume, bebendo golos de chá que lhe manda o Gran-Duque
Vladimir, e dictando a um creado de calção, mais
veneravelmente correcto que um mordomo de Luiz XIV, telegrammas que
vão levar noticias suas aos
boudoirs de Paris e de Londres. E depois de tudo
isto fecha a sua porta ao mundo—e lê Sophocles no
original».
O poeta da
Morte de D.
João e da
Musa em Ferias
chamava-lhe «um Sainte-Beuve
encadernado em Alcides». E explicava assim, n'uma carta
d'esse tempo que conservo, a sua apparição no
mundo: «Deus um dia agarrou n'um bocado de Henri Heine,
n'outro de Chateaubriand, n'outro de Brummel, em pedaços
ardentes d'aventureiros da Renascença, e em fragmentos
resequidos de sabios do Instituto de França, entornou-lhe
por cima
champagne e tinta de
imprensa, amassou tudo nas suas mãos omnipotentes, modelou
á pressa Fradique, e arrojando-o á Terra
disse: Vai, e veste-te no Poole!» Emfim Carlos
Mayer,
lamentando como Oliveira Martins que ás multiplas e fortes
aptidões de Fradique faltasse
coordenação e convergencia para um fim superior,
deu um dia sobre a personalidade do meu amigo um resumo sagaz e
profundo: «O cerebro de Fradique
está admiravelmente
construido e mobilado. Só lhe falta uma idéa que
o alugue, para vivar e governar lá dentro. Fradique
é um genio com
escriptos!»
Tambem Fradique, n'esse inverno, conheceu o pensador das
Odes
Modernas, de quem,
n'uma das suas cartas a Oliveira Martins, falla com tanta
elevação e carinho. E o ultimo companheiro da
minha mocidade que se relacionou com o antigo poeta das
Lapidarias foi
J. Teixeira
d'Azevedo, no verão de 1877, em Cintra, na quinta da
Saragoça, onde Fradique viera repousar
da sua jornada ao Brazil e ás republicas do Pacifico. Tinham
ahi conversado muito, e divergido sempre. J. Teixeira d'Azevedo, sendo
um nervoso e um apaixonado, sentia uma insuperavel antipathia pelo que
elle chamava o
lymphatismo critico de Fradique.
Homem todo de
emoção não se podia fundir
intellectualmenle com aquelle homem todo de analyse. O extenso saber de
Fradique tambem não o impressionava. «As
noções d'esse guapo erudito (escrevia elle em
1879) são bocados do Larousse diluidos em agua de
Colonia». E emfim certos requintes de Fradique (escovas de
prata e camisas de sêda), a sua voz mordente recortando o
verbo com perfeição e preciosidade, o seu habito
de beber champagne com
soda-water, outros traços ainda,
causavam uma
irritação quasi physica ao meu velho camarada da
Travessa do Guarda-Mór. Confessava porém, como
Oliveira
Martins, que Fradique era o portuguez mais interessante
e mais suggestivo do seculo
XIX. E correspondia-se regularmente com elle—mas para o contradizer
com acrimonia.
Em 1880 (nove annos depois da minha peregrinação
no Oriente), passei em Paris a semana da Paschoa. Uma noite, depois da
Opera, fui cear solitariamente ao Bignon. Tinha encetado as ostras e
uma chronica do
Temps, quando por
traz do jornal que eu encostára á garrafa assomou
uma larga mancha clara, que era um collete, um peitilho, uma gravata,
uma face, tudo de incomparavel brancura. E uma voz muito serena
murmurou: «Separámo-nos ha annos no caes de
Boulak...» Ergui-me com um grito, Fradique com um sorriso;—e
o
maitre-d'hotel recuou assombrado
diante da meridional e ruidosa effusão do meu
abraço. D'essa noite em Paris datou verdadeiramente a nossa
intimidade intellectual—que em oito annos, sempre igual e sempre
certa, não teve uma
intermissão, nem uma sombra que lhe toldasse a pureza.
Determinadamente lhe chamo
intellectual, porque esta intimidade nunca passou
além das coisas do espirito. Nas alegres temporadas que com
elle convivi em Paris, em Londres e em Lisboa, de 1880 a 1887, na nossa
copiosa correspondencia d'esses annos privei sempre, sem reserva, com a
intelligencia de Fradique—e interrompidamente assisti e me misturei
á sua vida pensante: nunca porém penetrei na sua
vida affectiva de sentimento e de coração. Nem,
na verdade, me atormentou a
curiosidade de a
conhecer—talvez por sentir que a rara originalidade de Fradique se
concentrava toda no sêr pensante, e que o outro, o
sêr sensivel,
feito da banal argilla humana, repetia sem especial relevo as
costumadas fragilidades da argilla. De resto, desde essa noite de
Paschoa em Paris que iniciou as nossas relações,
nós
conservámos sempre o habito especial, um pouco altivo,
talvez estreito, de nos considerarmos dois puros espiritos. Se eu
então concebesse uma Philosophia original, ou preparasse os
mandamentos d'uma nova Religião, ou surripiasse á
Natureza distrahida uma das suas secretas Leis—de preferencia
escolheria Fradique como confidente d'esta actividade espiritual; mas
nunca, na ordem do Sentimento, iria a elle com a confidencia d'uma
esperança ou d'uma desillusão. E Fradique
igualmente manteve commigo esta attitude de inaccessivel
recato—não se manifestando nunca aos meus olhos
senão na sua
funcção intellectual.
Muito bem me lembro eu d'uma resplandecente manhã de maio em
que atravessavamos, conversando por sob os castanheiros em
flôr, o jardim das Tulherias. Fradique, que se
encostára ao meu braço, vinha vagarosamente
desenvolvendo a idéa de que a extrema
democratisação da Sciencia, o seu universal e
illimitado derramamento através das plebes, era o grande
erro da nossa
civilisação, que com elle preparava para bem cedo
a sua catastrophe moral... De repente, ao transpôrmos a grade
para a
praça da Concordia, o Philosopho que assim
lançava, por entre as tenras verduras de maio, estas
predicções de desastre e de
fim—estaca, emmudece! Diante de nós, ao trote fino d'uma
egoa de luxo, passára vivamente, para os lados da rua
Royale, um coupé onde entrevi, na penumbra dos setins que o
forravam, uns cabellos côr de mel. Vivamente tambem, Fradique
sacode o meu braço, balbucia um
«adeus!», acena a um fiacre, e
desapparece ao galope arquejante da pileca para os lados do
cães d'Orsay.
«Mulher!», pensei eu. Era, com effeito, a mulher e
o seu tormento; e como se deprehende d'uma carta a Madame de Jouarre
(datada de «Maio, sabbado», e começando:
«Hontem
philosophava com um amigo no jardim das Tulherias...»)
Fradique corria n'esse fiacre a uma desillusão bem rude e
mortificante. Ora n'essa tarde, ao crepusculo, fui (como
combinára) buscar Fradique á rua de Varennes, ao
velho palacio dos Tredennes, onde elle installára desde o
Natal os seus aposentos com um luxo tão nobre e
tão sobrio. Apenas entrei na
sala que denominavamos a «Heroica», porque a
revestiam quatro tapeçarias de Luca Cornelio contando os
Trabalhos
de Hercules, Fradique
deixa a janella d'onde olhava o jardim já esbatido em
sombra, vem para mim serenamente, com as mãos enterradas nos
bolsos d'uma quinzena de sêda. E, como se desde essa
manhã
nenhum
outro cuidado o absorvesse senão o seu th cuidado
o absorvesse senão o seu thema do
jardim das Tulherias:
—Não lhe acabei de dizer ha pouco... A Sciencia, meu caro,
tem de ser recolhida como outr'ora aos Santuarios. Não ha
outro meio de nos salvar da anarchia moral. Tem de ser recolhida aos
Santuarios, e entregue a um sacro collegio intellectual que a guarde,
que a defenda contra as curiosidades das plebes... Ha a fazer com esta
idéa um programma para as gerações
novas!
Talvez na face, se eu tivesse reparado, encontrasse restos de pallidez
e de emoção: mas o tom era simples, firme, d'um
critico genuinamente occupado na deducção do seu
conceito. Outro homem que, como aquelle, tivesse soffrido horas antes
uma desillusão tão mortificante e rude,
murmuraria ao
menos, n'um desafogo generico e impessoal:—«Ah, amigo, que
estupida é a vida!» Elle fallou da Sciencia e das
Plebes,—desenrolando determinadamente diante de mim, ou impondo talvez
a si mesmo, os raciocinios do seu cerebro, para que os meus olhos
não penetrassem de leve, ou os seus não se
detivessem demais, nas amarguras do seu coração.
N'uma carta a Oliveira Martins, de 1883, Fradique diz:—«O
homem, como os antigos reis do Oriente, não se deve mostrar
aos seus semelhantes senão unica e serenamente
occupado
no
officio de reinar—isto é, de pensar».
Esta regra, d'um orgulho apenas permissivel a um Spinosa ou a um Kant,
dirigia severamente a sua conducta. Pelo menos commigo assim se
comportou immutavelmente,
através da nossa activa convivencia,
não se abrindo, não se offerecendo todo,
senão nas funcções da Intelligencia.
Por isso talvez, mais
que nenhum outro homem, elle exerceu sobre mim imperio e
seducção.
IV
O que impressionava logo na Intelligencia de Fradique, ou antes na sua
maneira de se exercer, era a suprema liberdade junta á
suprema audacia. Não conheci jámais espirito
tão
impermeavel á tyrannia ou á
insinuação das
«idéas feitas»: e decerto nunca um homem
traduziu o seu pensar original e proprio com mais calmo e soberbo
desassombro. «Apesar de trinta seculos de geometria me
affirmarem (diz elle n'uma carta a J. Teixeira d'Azevedo) que
a
linha recta é a mais curta distancia
entre dois pontos, se eu achasse que, para subir da porta do
Hotel Universal á porta da Casa Havaneza, me sahia mais
directo e breve rodear pelo bairro de S. Martinho e pelos altos da
Graça, declararia logo á secular geometria—que a
distancia mais curta entre dois pontos é uma
curva vadia e delirante!». Esta
independencia da Razão, que Fradique assim apregôa
com desordenada Phantasia,
constitue uma qualidade
rara:—mas o animo de a affirmar intemeratamente diante da magestosa
Tradição, da Regra, e das conclusões
oraculares dos Mestres, é já uma virtude, e
rarissima, de
radiosa excepção!
Fradique (n'outra carta a J. Teixeira d'Azevedo) falla d'um polaco, G.
Cornuski, professor e critico, que escrevia na
Revista Suissa,
e
que (diz Fradique) «constantemente sentia o seu gosto, muito
pessoal e muito decidido, rebellar-se contra obras de Litteratura e de
Arte que a unanimidade critica, desde seculos, tem consagrado como
magistraes—a
Gerusalemme Liberata do Tasso, as
telas do Ticiano, as tragedias de Racine, as
orações de Bossuet, os nossos
Lusiadas,
e
outros monumentos canonizados. Mas, sempre que a sua probidade de
Professor e de Critico lhe impunha a proclamação
da verdade, este homem robusto, sanguineo, que heroicamente se batera
em duas insurreições, tremia,
pensava:—«Não! Porque será o meu
criterio mais seguro que o de tão finos entendimentos
através dos tempos? Quem sabe? Talvez n'essas obras exista a
sublimidade—e só no meu espirito a impotencia de a
comprehender». E o desgraçado Cornuski, com a alma
mais triste que um crepusculo d'outono, continuava, diante dos
córos da
Athalie e das nudezes do Ticiano, a murmurar
desconsoladamente:—«Como é
bello!»
Raros soffrem estas angustias criticas do desditoso
Cornuski. Todos
porém, com risonha inconsciencia, praticam o seu servilismo
intellectual. Já, com effeito, porque o nosso espirito
não
possua a viril coragem de affrontar a auctoridade d'aquelles a quem
tradicionalmente attribue um criterio mais firme e um saber mais alto;
já porque as idéas estabelecidas, fluctuando
diffusamente na nossa memoria, depois de leituras e conversas, nos
pareçam ser as nossas proprias; já porque a
suggestão d'esses conceitos se imponha e nos leve
subtilmente a concluir em concordancia com elles—a lamentavel verdade
é que hoje todos nós
servilmente tendemos a pensar e sentir como antes de nós e
em torno de nós já se sentiu ou
pensou.
«O homem do seculo XIX, o Europeu, porque só elle
é essencialmente do seculo XIX (diz
Fradique n'uma carta a Carlos Mayer), vive dentro d'uma pallida e morna
infecção
de banalidade, causada pelos quarenta mil volumes que todos
os annos, suando e gemendo, a Inglaterra, a França e a
Allemanha depositam ás esquinas, e em que interminavelmente
e monotonamente reproduzem, com um ou outro arrebique sobreposto, as
quatro idéas e as quatro impressões legadas pela
Antiguidade e pela Renascença. O Estado por meio das suas
escólas canalisa esta
infecção. A isto, oh Carolus, se chama
educar!
A
creança, desde a sua primeira «Selecta de
Leitura» ainda mal soletrada, começa a absorver
esta camada do Logar-Commum—camada que depois todos os
dias, através da
vida, o Jornal, a Revista, o Folheto, o Livro lhe vão
atochando no espirito até lh'o empastarem todo em
banalidade, e lh'o tornarem tão inutil para a
producção como um
sólo cuja fertilidade nativa morreu sob a areia e pedregulho
de que foi barbaramente alastrado. Para que um Europeu lograsse ainda
hoje ter algumas idéas novas, de viçosa
originalidade, seria necessario que se internasse no Deserto ou nos
Pampas; e ahi esperasse pacientemente que os sopros vivos da Natureza,
batendo-lhe a Intelligencia e d'ella pouco a pouco varrendo os detritos
de vinte seculos de Litteratura, lhe refizessem uma virgindade. Por
isso eu te affirmo, oh Carolus Mayerensis, que a Intelligencia, que
altivamente pretenda readquirir a divina potencia de gerar, deve ir
curar-se da Civilisacão litteraria por meio d'uma residencia
tonica, durante dois annos, entre os Hottentotes e os Patagonios. A
Patagonia opéra sobre o Intellecto como Vichy sobre o
figado—desobstruindo-o, e permittindo-lhe o são exercicio
da funcção natural. Depois de dois annos de vida
selvagem, entre o Hottentote nú movendo-se na plenitude
logica do Instincto,—que restará ao civilisado de todas as
suas idéas sobre o Progresso, a Moral, a
Religião, a Industria, a Economia Politica, a Sociedade e a
Arte? Farrapos. Os pendentes farrapos que lhe restarão das
pantalonas e da quinzena que trouxe da Europa, depois de vinte mezes
de matagal e de
brejo. E não possuindo em torno de si Livros e Revistas que
lhe renovem uma provisão de «idéas
feitas», nem um benefico Nunes Algibebe que lhe
forneça uma outra andaina de «fato
feito»—o Europeu irá
insensivelmente regressando á nobreza do estado primitivo,
nudez do corpo e originalidade da alma. Quando de lá voltar
é um Adão forte e puro,
virgem de litteratura, com o craneo limpo de todos os conceitos e todas
as noções amontoadas desde Aristoteles podendo
proceder soberbamente a um exame inedito das coisas humanas. Carlos,
espirito que distillas
espiritos, queres
remergulhar nas Origens e vir commigo á inspiradora
Hottentocia? Lá, livres e nús, estirados ao sol
entre a
palmeira e o regato que tutelarmente nos darão o sustento do
corpo, com a nossa lança forte cravada na relva, e mulheres
ao lado vertendo-nos n'um canto dôce a
porção de poesia e de sonho que
a alma precisa—deixaremos livremente as ilhargas crestadas
estalarem-nos de riso á idéa das grandes
Philosophias, e das grandes Moraes, e das grandes Economias, e das
grandes Criticas, e das grandes
Pilherias que vão por
essa Europa, onde densos formigueiros de chapéos altos se
atropellam, estonteados pelas superstições da
civilisação, pela illusão do ouro,
pelo pedantismo das sciencias, pelas
mistificações dos
reformadores pela escravidão da rotina, e pela estupida
admiração de si mesmos!...»
Assim diz Fradique. Ora este «exame inedito das coisas
humanas», só possivel, segundo o poeta das
Lapidarias, ao
Adão
renovado que regressasse da Patagonia com o espirito escarolado do
pó e do lixo de longos annos de Litteratura—tentou-o elle,
sem deixar os muros classicos da rua de Varennes, com incomparavel
vigor e sinceridade. E n'isto mostrava intrepidez moral. No mundo a que
irresistivelmente o prendiam os seus gostos e os seus habitos—mundo
mediano e regrado, sem
invenção e sem iniciativa intellectual, onde as
Idéas, para agradar, devem ser como as Maneiras,
«geralmente adoptadas» e não
individualmente
creadas—Fradique, com a sua indocil e brusca liberdade de Juizos,
affrontava o perigo de passar por um petulante rebuscador de
originalidade, avido de gloriola e de excessivo destaque. Um espirito
inventivo e novo, com uma força de pensar muito propria,
deixando transbordar a vida abundante e multipla que o anima e
enche—é mais desagradavel a esse mundo do que o homem
rudemente natural que não regre e limite dentro das
«Conveniencias» a espessura da cabelleira, o
estridor das risadas, e o franco mover dos membros grossos. D'esse
espirito indisciplinado e creador, logo se murmura com
desconfiança: «Pretencioso! busca o effeito e o
destaque!» Ora Fradique nada detestava mais intensamente do
que o
effeito e o
destaque excessivo.
Nunca lhe
conheci senão gravatas escuras. E tudo preferiria a ser
apontado
como um
d'esses homens, que, sem odio sincero a Diana e ao seu culto e
só para que d'elles se falle com espanto nas
praças, vão, em plena festa,
agitando um grande facho, incendiar-lhe o templo em Epheso. Tudo
preferiria—menos (como elle diz n'uma carta a Madame de Jouarre)
«ter de vestir a Verdade nos armazens do Louvre para poder
entrar com ella em casa de Anna de Varle, duqueza de Varle e
d'Orgemont. A entrar hei de levar a minha amiga núa, toda
núa, pisando os tapetes com os seus pés
nús, enristando para os homens as pontas fecundas dos seus
nobres seios nús.
Amicus Mundus, sed magis amica
Veritas! Este bello latim significa, minha madrinha, que eu,
no fundo, julgo que a originalidade é agradavel
ás mulheres e só desagradavel aos homens—o que
duplamente me leva a amal-a com pertinacia».
Esta independencia, esta livre elasticidade de espirito e intensa
sinceridade—impedindo que por seducção elle se
désse todo a um
Systema, onde para sempre permanecesse por inercia—eram de resto as
qualidades que melhor convinham á
funcção intellectual que para Fradique se
tornára a mais continua e preferida.
«Não ha em mim
infelizmente (escrevia elle a Oliveira Martins, em 1882) nem um sabio,
nem um philosopho. Quero dizer, não sou um d'esses homens
seguros e uteis, destinados por temperamento ás analyses
secundarias que se chamam Sciencias, e que consistem
em reduzir uma
multidão de factos esparsos a Typos e Leis particulares por
onde se explicam modalidades do Universo; nem sou tambem um d'esses
homens, fascinantes e pouco seguros, destinados por genio ás
analyses superiores que se chamam Philosophias, e que consistem em
reduzir essas Leis e esses Typos a uma formula geral por onde se
explica a essencia mesma do inteiro Universo. Não sendo pois
um sabio, nem um philosopho, não posso concorrer para o
melhoramento dos meus semelhantes—nem accrescendo-lhes o bem-estar por
meio da Sciencia que é uma productora de riqueza, nem
elevando-lhes o bem-sentir por meio da Metaphysica que é uma
inspiradora de poesia. A entrada na Historia tambem se me conserva
vedada:—porque, se, para se produzir Litteratura basta possuir
talentos, para tentar a Historia convém possuir virtudes. E
eu!... Só portanto me resta ser, através das
idéas e dos factos, um homem que passa, infinitamente
curioso e attento. A egoista occupação do meu
espirito hoje, caro historiador, consiste em me acercar d'uma
idéa ou d'um facto, deslizar suavemente para dentro,
percorrel-o miudamente, explorar-lhe o inedito, gozar todas as
surprezas e emoções intellectuaes que elle possa
dar, recolher com cuidado o ensino ou a parcella de verdade que exista
nos seus refolhos—e sahir, passar a outro facto ou a outra
idéa, com vagar e com paz, como se percorresse uma a uma as
cidades
d'um paiz
d'arte e luxo. Assim visitei outr'ora a Italia, enlevado no esplendor
das côres e das fórmas. Temporal e espiritualmente
fiquei simplesmente um
touriste».
Estes
touristes da intelligencia
abundam em França e em Inglaterra. Sómente
Fradique
não se limitava, como esses, a exames exteriores e
impessoaes, á maneira de quem n'uma cidade d'Oriente,
retendo as noções e os gostos de
Europeu, estuda apenas o aéreo relevo dos monumentos e a
roupagem das multidões. Fradique (para continuar a sua
imagem) transformava-se em «cidadão das cidades
que visitava».
Mantinha por principio que se devia momentaneamente
crêr para bem comprehender uma
crença. Assim se fizera babista, para penetrar e desvendar o
Babismo. Assim se afiliára em Paris a um club
revolucionario,
As Pantheras de Batignolles, e
frequentára as suas sessões, encolhido n'uma
quinzena sordida pregada com alfinetes, com a esperança de
lá
colher «a flôr de alguma extravagancia
instructiva». Assim se incorporava em Londres aos
Positivistas rituaes, que, nos dias festivos do Calendario Comtista,
vão queimar o incenso e a myrrha na ara da Humanidade e
enfeitar de rosas a Imagem de Augusto Comte. Assim se ligára
com os
Theosophistas, concorrera prodigamente para a
fundação da
Revista Espiritista,
e presidia as
Evocações da rua Cardinet, envolto na tunica de
linho, entre os dois
mediums supremos, Patoff e
Lady Thorgan. Assim
habitára durante um longo verão Seo-d'Urgel, a
catholica cidadella do Carlismo, «para destrinçar
bem (diz elle) quaes são os motivos e as formulas que fazem
um
Carlista—porque todo o
sectario obedece á realidade d'um motivo e á
illusão
d'uma formula». Assim se tornára o confidente do
veneravel Principe Koblaskini, para «poder desmontar e
estudar peça a peça o mecanismo d'um cerebro de
Nihilista». Assim se preparava (quando a morte o
surprehendeu) a voltar á India, para se tornar budhista
praticante, e penetrar cabalmente o Budhismo, em que fixára
a curiosidade e actividade critica dos seus derradeiros annos. De sorte
que d'elle bem se póde dizer que foi o devoto de todas as
Religiões, o partidario de todos os Partidos, o discipulo de
todas as Philosophias—cometa errando através das
idéas, embebendo-se convictamente n'ellas, de cada uma
recebendo um accrescimo de substancia, mas em cada uma deixando alguma
coisa do calor e da energia do seu movimento pensante. Aquelles que
imperfeitamente o conheciam classificavam Fradique como um
dilettante. Não! essa séria
convicção (a que os
inglezes chamam
earnestness), com que Fradique se
arremessava ao fundo real das coisas, communicava á sua vida
uma valia e efficacia muito superiores ás que o
dilettantismo, a diversão sceptica que
tantas injurias arrancou a Carlyle, communica ás naturezas
que a elle deliciosamente se abandonam. O
dilettante, com effeito, corre entre as
idéas e os factos como
as borboletas (a quem
é desde seculos comparado) correm entre as flôres,
para pousar, retomar logo o vôo estouvado, encontrando n'essa
fugidia mutabilidade o deleite supremo. Fradique, porém, ia
como a abelha, de cada planta pacientemente extrahindo o seu
mel:—quero dizer, de cada opinião recolhendo essa
«parcella de verdade» que cada uma invariavelmente
contém, desde que homens, depois de outros homens, a tenham
fomentado com interesse ou paixão.
Assim se exercia esta diligente e alta Intelligencia. Qual era
porém a sua qualidade essencial e intrinseca? Tanto quanto
pude discernir, a suprema qualidade intellectual de Fradique pareceu-me
sempre ser—uma percepção extraordinaria da
Realidade. «Todo o phenomeno (diz elle n'uma carta a Anthero
de Quental, suggestiva através de certa obscuridade que a
envolve) tem uma Realidade. A expressão de
Realidade
não é philosophica; mas eu emprego-a,
lanço-a ao acaso e tenteando, para apanhar dentro d'ella o
mais possivel d'um conceito pouco coercivel, quasi irreductivel ao
verbo. Todo o phenomeno, pois, tem relativamente ao nosso entendimento
e á sua potencia de discriminar, uma Realidade—quero dizer
certos caracteres, ou (para me exprimir por uma imagem, como recommenda
Buffon) certos
contornos que o limitam, o
definem,
lhe dão feição propria no esparso e
universal conjunto, e constituem o seu
exacto,
real e
unico modo de
ser. Sómente o erro, a
ignorancia, os preconceitos, a tradição, a rotina
e sobretudo a
illusão,
formam em torno de cada phenomeno uma nevoa que esbate e deforma os
seus contornos, e impede que a visão intellectual o divise
no seu
exacto,
real e
unico modo de ser. É
justamente o que succede aos monumentos de Londres mergulhados no
nevoeiro... Tudo isto vai expresso d'um modo bem hesitante e
incompleto! Lá fóra o sol está cahindo
d'um céo fino e nitido sobre o meu quintal de convento
coberto de neve dura: n'este ar tão puro e claro, em que as
coisas tomam um relevo rigido, perdi toda a flexibilidade e fluidez da
technologia philosophica: só me poderia exprimir por imagens
recortadas á tesoura. Mas vossê decerto
comprehenderá, Anthero
excellente e subtil! Já esteve em Londres, no outono, em
novembro? Nas manhãs de nevoeiro, n'uma rua de Londres, ha
difficuldade em distinguir se a sombra densa que ao longe se empasta
é a estatua d'um heroe ou o fragmento d'um tapume. Uma
pardacenta illusão submerge toda a cidade—e com espanto se
encontra n'uma taverna quem julgára penetrar n'um templo.
Ora para a maioria dos espiritos uma nevoa igual fluctua sobre as
realidades da vida e do mundo. D'ahi vem que quasi todos os seus passos
são transvios, quasi todos os seus juizos são
enganos; e estes constantemente estão trocando o Templo e a
Taberna. Raras são as visões intellectuaes
bastante agudas
e poderosas para romper
através da neblina e surprehender as linhas exactas, o
verdadeiro contorno da Realidade. Eis o que eu queria
tartamudear».
Pois bem! Fradique dispunha de uma d'essas visões
privilegiadas. O proprio modo que tinha de pousar lentamente os olhos e
detalhar em
silencio—como dizia Oliveira Martins—revelava logo o seu
processo interior de concentrar e applicar a Razão,
á maneira de um longo e pertinaz dardo de luz,
até que, desfeitas as nevoas, a Realidade pouco a pouco lhe
surgisse na sua rigorosa e
unica
fórma.
A manifestação d'esta magnifica força
que mais impressionava—era o seu poder de
definir. Possuindo um espirito que
via
com a maxima
exactidão; possuindo um verbo que
traduzia
com
a maxima concisão—elle podia assim dar resumos
absolutamente profundos e perfeitos. Lembro que uma noite, na sua casa
da rua de Varennes, em Paris, se discutia com ardor a natureza da Arte.
Repetiram-se todas as definições de Arte,
enunciadas desde Platão: inventaram-se outras, que eram,
como sempre, o phenomeno visto limitadamente através d'um
temperamento. Fradique conservou-se algum tempo mudo, dardejando os
olhos para o vago. Por fim, com essa maneira lenta (que para os que
incompletamente o conheciam parecia professoral) murmurou, no silencio
deferente que se alargára:—«A Arte é
um resumo da
Natureza feito pel
com
a maxima concisão—elle podia assim dar resumos
absolutamente profundos e perfeitos. Lembro que uma noite, na sua casa
da rua de Varennes, em Paris, se discutia com ardor a natureza da Arte.
Repetiram-se todas as definições de Arte,
enunciadas desde Platão: inventaram-se outras, que eram,
como sempre, o phenomeno visto limitadamente através d'um
temperamento. Fradique conservou-se algum tempo mudo, dardejando os
olhos para o vago. Por fim, com essa maneira lenta (que para os que
incompletamente o conheciam parecia professoral) murmurou, no silencio
deferente que se alargára:—«A Arte é
um resumo da
Natureza feito pela imaginação».
Certamente, não conheço mais completa
definição d'Arte! E com razão
affirmava um amigo nosso, homem de excellente phantasia, que
«se o bom Deus, um dia, compadecido das nossas
hesitações, nos atirasse lá de cima,
do seu divino ermo, a final explicação da Arte,
nós
ouviriamos resoar entre as nuvens, soberba como o rolar de cem carros
de guerra, a definição de
Fradique!»
A superior intelligencia de Fradique tinha o apoio de uma cultura forte
e rica. Já os seus instrumentos de saber eram consideraveis.
Além d'um solido conhecimento das linguas classicas (que, na
sua idade de Poesia e de Litteratura decorativa, o
habilitára a crear em latim barbaro poemetos tão
bellos como o
Laus Veneris
tenebros[ae])—possuia profundamente os idiomas das tres
grandes nações pensantes, a França, a
Inglaterra e a Allemanha. Conhecia tambem o arabe, que (segundo me
affirmou Riaz-Effendi, chronista do sultão Abdul-Aziz)
fallava com abundancia e gosto.
As sciencias naturaes eram-lhe queridas e familiares; e uma insaciavel
e religiosa curiosidade do Universo impellira-o a estudar tudo o que
divinamente o compõe, desde os insectos até aos
astros. Estudos carinhosamente feitos com o
coração—porque Fradique sentia pela Natureza,
sobretudo pelo animal e pela planta, uma ternura e uma
veneração genuinamente budhistas. «Amo
a Natureza
(escrevia-me elle em 1882) por si mesma, toda e individualmente, na
graça e na fealdade de cada uma das fórmas
innumeraveis que a enchem: e amo-a ainda como
manifestação tangivel e multipla da suprema
Unidade, da Realidade intangivel, a que cada Religião e cada
Philosophia deram um nome diverso e a que eu presto culto sob o nome de
Vida.
Em resumo
adoro a Vida—de que são igualmente expressões
uma rosa e uma chaga, uma constellação e (com
horror o confesso) o conselheiro Acacio. Adoro a Vida e portanto tudo
adoro—porque tudo é viver, mesmo morrer. Um cadaver rigido
no seu esquife vive tanto como uma aguia batendo furiosamente o
vôo. E a minha religião está toda no
credo de Athanasio, com uma pequena variante:—«Creio na
Vida
toda-poderosa, creadora do
céo e da terra...»
Quando começou porém a nossa intimidade, em 1880,
o seu inquieto espirito mergulhava de preferencia nas sciencias
sociaes, aquellas sobretudo que pertencem á Pre-historia—a
Anthropologia, a Linguistica, o estudo das Raças, dos Mythos
e das
Instituições Primitivas. Quasi todos os tres
mezes, altas rumas de livros enviadas da casa Hachette, densas camadas
de Revistas especiaes, alastrando o tapete de Caramania, indicavam-me
que uma nova curiosidade se apoderára d'elle com intensidade
e paixão. Conheci-o assim successiva e ardentemente occupado
com os monumentos megalithicos da Andaluzia;
com as
habitações lacustres; com a
mythologia dos povos Aryanos; com a magia Chaldaica; com as
raças Polynesias; com o direito costumario dos Cafres; com a
christianisação dos Deuses Pagãos...
Estas aferradas
investigações duravam emquanto podia extrahir
d'ellas «alguma emoção ou surpreza
intellectual».
Depois, um dia, Revistas e volumes desappareciam, e Fradique annunciava
triumphalmente alargando os passos alegres por sobre o tapete
livre:—«Sorvi todo o
Sabeismo!», ou «Esgotei os Polynesios!»
O estudo porém a que se prendeu ininterrompidamente, com
especial constancia, foi o da Historia. «Desde pequeno
(escrevia elle a Oliveira Martins, n'uma das suas ultimas cartas, em
1886) tive a paixão da Historia. E adivinha vossê
porquê, Historiador? Pelo confortavel e conchegado sentimento
que ella me dava da solidariedade humana. Quando fiz onze annos, minha
avó, de repente,
para me
habituar ás coisas duras da vida (como ella
dizia),
arrancou-me ao pachorrento ensino do padre Nunes, e mandou-me a uma
escóla chamada
Terceirense. O jardineiro levava-me pela
mão: e todos os dias a avó me dava com
solemnidade um pataco para eu comprar na tia Martha, confeiteira da
esquina, bolos para a minha merenda. Este creado, este pataco, estes
bolos, eram costumes novos que feriam o meu monstruoso orgulho de
morgadinho—por me descerem ao nivel humilde dos filhos do nosso
procurador. Um dia, porém, folheando
uma
Encyclopedia
de Antiguidades
Romanas, que tinha estampas, li, com surpreza, que os
rapazes em Roma (na grande Roma!) iam tambem de manhã para a
escóla, como eu, pela mão d'um servo—denominado
o
Capsarius; e compravam tambem, como eu, um bolo
n'uma tia Martha do Velabro ou das Carinas, para comerem á
merenda—que chamavam o
Ientaculum. Pois, meu caro, no mesmo instante a
veneravel antiguidade d'esses habitos tirou-lhes a vulgaridade toda que
n'elles me humilhava tanto! Depois de os ter detestado por serem
communs aos filhos do Silva procurador—respeitei-os por terem sido
habituaes nos filhos de Scipião. A compra do bolo tornou-se
como um rito que desde a Antiguidade todos os rapazes de
escóla cumpriam, e que me era dado por meu turno celebrar
n'uma honrosa solidariedade com a grande gente togada. Tudo isto,
evidentemente, não o sentia com esta clara consciencia. Mas
nunca entrei d'ahi por diante na tia Martha, sem erguer a
cabeça, pensando com uma vangloria
heroica:—«Assim faziam tambem os romanos!» Era por
esse tempo pouco mais alto que uma espada gôda, e amava uma
mulher obesa que morava ao fim da rua...»
N'essa mesma carta, adiante, Fradique accrescenta:—«Levou-me
pois effectivamente á Historia o meu amor da Unidade—amor
que envolve o horror ás interrupções,
ás lacunas, aos espaços escuros onde se
não sabe o que ha. Viajei
por toda a parte viajavel, li todos
os livros de explorações e de travessias—porque
me repugnava não conhecer o globo em que habito
até aos seus extremos limites, e não sentir a
contínua solidariedade do pedaço de terra que
tenho sob os pés com toda a outra terra que se arqueia para
além. Por isso, incansavelmente exploro a Historia, para
perceber até aos seus derradeiros limites a Humanidade a que
pertenço, e sentir a compacta solidariedade do meu
sêr com a de todos os que me precederam na vida. Talvez
vossê murmure com desdem—«mera
bisbilhotice!» Amigo meu, não despreze a
bisbilhotice! Ella é um impulso humano, de latitude
infinita, que, como todos, vai do reles ao sublime. Por um lado leva a
escutar ás portas—e pelo outro a descobrir a
America!»
O saber historico de Fradique surprehendia realmente pela amplexidade e
pelo detalhe. Um amigo nosso exclamava um dia, com essa ironia affavel
que nos homens de raça celtica sublinha e corrige a
admiração:—«Aquelle
Fradique! Tira a charuteira, e dá uma synthese profunda,
d'uma transparencia de crystal, sobre a guerra do Peloponeso;—depois
accende o charuto, e explica o feitio e o metal da fivela do
cinturão de
Leonidas!» Com effeito, a sua forte capacidade de
comprehender philosophicamente os movimentos collectivos, o seu fino
poder de evocar psychologicamente os caracteres individuaes—alliava-se
n'elle
a um minucioso
saber archeologico da vida, das maneiras, dos trajes, das armas, das
festas, dos ritos de todas as idades, desde a India Vedica
até á França Imperial. As suas cartas
a Oliveira
Martins (sobre o Sebastianismo, o nosso Imperio no Oriente, o Marquez
de Pombal)
[1]
são verdadeiras maravilhas pela sagaz
intuição, a alta potencia
synthetica, a certeza do saber, a força e a abundancia das
idéas novas. E, por outro lado, a sua
erudição archeologica repetidamente esclareceu e
auxiliou, na sabia composição das suas telas, o
paciente e fino reconstructor dos Costumes e das Maneiras da
Antiguidade Classica, o velho Suma-Rabêma. Assim m'o
confessou uma tarde Suma-Rabêma, regando as roseiras, no seu
jardim de Chelsea.
Fradique era de resto ajudado por uma prodigiosa memoria que tudo
recolhia e tudo retinha—vasto e claro armazem de factos, de
noções, de fórmas, todos bem
arrumados, bem classificados, promptos sempre a servir. O nosso amigo
Chambray affirmava que, comparavel á memoria de Fradique,
como «installação, ordem e
excellencia do
stock», só
conhecia a adega do café Inglez.
A cultura de Fradique recebia um constante alimento e accrescimo das
viagens que sem cessar emprehendia, sob o impulso de
admirações ou de curiosidades intellectuaes.
Só a Archeologia o levou quatro vezes ao Oriente:—ainda que
a sua derradeira residencia em Jerusalem, durante dezoito mezes, foi
motivada (segundo me affirmou o consul Raccolini) por poeticos amores
com uma das mais esplendidas mulheres da Syria, uma filha de Abraham
Côppo, o faustoso banqueiro de Aleppo, tão
lamentavelmente morta depois, sobre as tristes costas de Chypre, no
naufragio do
Magnolia. A sua aventurosa e aspera
peregrinação pela China, desde o Thibet (onde
quasi deixou a vida, tentando temerariamente penetrar na cidade sagrada
de Lahsá) até á alta
Manchuria, constitue o mais completo estudo até hoje
realisado por um homem da Europa sobre os Costumes, o Governo, a Ethica
e a Litteratura d'esse povo «profundo entre todos, que (como
diz Fradique) conseguiu descobrir os tres ou quatro unicos principios
de moral capazes, pela sua absoluta força, de eternisar uma
civilisação».
O exame da Russia e dos seus movimentos sociaes e religiosos
trouxeram-no prolongados mezes pelas provincias ruraes d'entre o
Dnieper e o Volga. A necessidade d'uma certeza sobre os Presidios
Penaes da Siberia impelliu-o a affrontar centenas de milhas de steppes
e de neves, n'uma rude telega, até ás minas de
prata de Nerchinski. E
proseguiria
n'este
activo interesse, se não recebesse subitamente, ao chegar
á costa, a Archangel, este aviso do general Armankoff, chefe
da IV secção da
policia imperial:—
Monsieur, vous nous observez de trop
près, pour que votre jugement n'en soit faussé;
je vous invite donc, sur votre
intérêt, et pour avoir de la Russie une vue
d'ensemble plus exacte, d'aller la regarder de plus loin, dans votre
belle maison de Paris!—Fradique abalou para Vasa, sobre o
golfo de Bothnia. Passou logo á Suecia, e mandou de
lá, sem data, este bilhete ao general Armankoff:—
Monsieur,
j'ai reçu votre
invitation où il y a beaucoup d'intolerance et trois fautes
de français.
Os mesmos interesses de espirito e «necessidades de
certeza» o levaram na America do Sul desde o Amazonas
até ás areias da Patagonia, o levaram na Africa
Austral desde o Cabo até aos Montes de Zokunga...
«Tenho folheado e lido attentamente o mundo como um livro
cheio de idéas. Para vêr
por
fóra, por mera festa dos olhos, nunca fui
senão a Marrocos».
O que tornava estas viagens tão fecundas como ensino era a
sua rapida e carinhosa sympathia por todos os povos. Nunca visitou
paizes á maneira do detestavel
touriste
francez, para
notar de alto e pêcamente «os
defeitos»—isto
é, as divergencias d'esse typo de
civilisação mediano e generico d'onde sahia e que
preferia. Fradique amava logo os costumes, as idéas, os
preconceitos dos homens
que o cercavam: e, fundindo-se com elles no seu modo de pensar e
de sentir, recebia uma lição directa e viva de
cada sociedade em que
mergulhava. Este efficaz preceito—«
em Roma
sê
romano»—tão facil e dôce de
cumprir em Roma, entre as vinhas da collina Celia e as aguas
susurrantes da Fonte Paulina, cumpria-o elle gostosamente trilhando com
as alpercatas rotas os desfiladeiros do Himalaya. E estava
tão homogeneamente n'uma cervejaria philosophica da
Allemanha, aprofundando o Absoluto entre professores de Tubingen—como
n'uma aringa africana da terra dos Matabeles, comparando os meritos da
carabina «Express» e da carabina Winchester, entre
caçadores de elephantes.
Desde 1880 os seus movimentos pouco a pouco se concentraram entre Paris
e Londres—com excepção das «visitas
filiaes» a Portugal: porque, apesar da sua
dispersão pelo mundo, da sua facilidade em se nacionalisar
nas terras alheias, e da sua impersonalidade critica, Fradique foi
sempre um genuino Portuguez com irradicaveis traços de
fidalgo ilhéo.
O mais puro e intimo do seu interesse deu-o sempre aos homens e
ás coisas de Portugal. A compra da quinta do
Saragoça, em Cintra,
realisára-a (como diz n'uma carta a F. G., com desacostumada
emoção) «para
ter
terra em Portugal,
e para se prender pelo forte vinculo
da propriedade ao sólo augusto d'onde um dia tinham partido,
levados por um ingenuo tumulto de idéas grandes, os seus
avós, buscadores de mundos, de quem elle herdára
o sangue e a curiosidade do
além!»
Sempre que vinha a Portugal ia «retemperar a fibra»
percorrendo uma provincia, lentamente, a cavallo—com demoras em villas
decrepitas que o encantavam, infindaveis cavaqueiras á
lareira dos campos, fraternisações ruidosas nos
adros e nas tavernas, idas festivas a romarias no carro de bois, no
vetusto e veneravel carro sabino, toldado de chita, enfeitado de louro.
A sua região preferida era o Ribatejo, a terra
chã da leziria e do boi. «Ahi (diz elle), de
jaleca e cinta, montado n'um potro, com a vara de campino erguida,
correndo entre as manadas de gado, nos finos e lavados ares da
manhã, sinto, mais que em nenhuma outra parte, a delicia de
viver».
Lisboa só lhe agradava—como paizagem. «Com tres
fortes retoques (escrevia-me elle em 1881, do Hotel Braganza), com
arvoredo e pinheiros mansos plantados nas collinas calvas da
Outra-Banda; com azulejos lustrosos e alegres revestindo as fachadas
sujas do casario; com uma varredella definitiva por essas bemditas
ruas—Lisboa seria uma d'essas bellezas da Natureza creadas pelo Homem,
que se tornam um motivo de sonho, de arte e de
peregrinação. Mas uma
existencia enraizada em Lisboa
não me parece toleravel. Falta aqui uma atmosphera
intellectual onde a alma respire. Depois certas
feições,
singularmente repugnantes, dominam. Lisboa é uma cidade
alitteratada,
afadistada,
catita e
conselheiral. Ha
litteratice
na simples maneira
com que um caixeiro vende um metro de fita; e, nas proprias
graças com que uma senhora recebe, transparece
fadistice:
mesmo na Arte ha
conselheirismo; e ha
catitismo
mesmo nos cemiterios.
Mas a nausea suprema, meu amigo, vem da politiquice e dos
politiquetes».
Fradique nutria pelos politicos todos os horrores, os mais
injustificados: horror intellectual, julgando-os incultos, broncos,
inaptos absolutamente para crear ou comprehender idéas;
horror mundano, presuppondo-os reles, de maneiras crassas, improprios
para se misturar a naturezas de gosto; horror physico, imaginando que
nunca se lavavam, rarissimamente mudavam de meias, e que d'elles
provinha esse cheiro morno e molle que tanto surprehende e enoja em S.
Bento aos que d'elle não têm o habito
profissional.
Havia n'estas ferozes opiniões, certamente, laivos de
perfeita verdade. Mas em geral, os juizos de Fradique sobre a Politica
offereciam o cunho d'um preconceito que dogmatisa—e não
d'uma observação que discrimina. Assim lh'o
affirmava eu uma manhã, no Braganza, mostrando que todas
essas deficiencias de espirito, de cultura, de maneiras,
de gosto, de finura,
tão acerbamente notadas por elle nos Politicos—se explicam
sufficientemente pela precipitada democratisação
da nossa
sociedade; pela rasteira vulgaridade da vida provincial; pelas
influencias abominaveis da Universidade; e ainda por intimas
razões que são no fundo
honrosas para esses desgraçados Politicos, votados por um
fado vingador á destruição da nossa
terra.
Fradique replicou simplesmente:
—Se um rato morto me disser,—«eu cheiro mal por isto e por
aquillo e sobretudo porque apodreci»,—eu nem por isso deixo
de o mandar varrer do meu quarto.
Havia aqui uma antipathia de instincto, toda physiologica, cuja
intransigencia e obstinação
nem factos nem raciocinios podiam vencer. Bem mais justo era o horror
que lhe inspirava, na vida social de Lisboa, a inhabil, descomedida e
papalva imitacão de Paris. Essa «saloia
macaqueação», superiormente denunciada
por elle n'uma carta que me escreveu em 1885, e onde assenta, n'um
luminoso resumo, que «
Lisboa é uma
cidade
traduzida do francez em calão»—tornava-se
para Fradique, apenas transpunha Santa Apolonia, um tormento sincero. E
a sua anciedade perpetua era então descobrir,
através da frandulagem do Francezismo, algum resto do
genuino Portugal.
Logo a comida constituia para elle um real desgosto. A cada instante em
cartas, em conversas, se lastíma de não poder
conseguir «um cozido
vernaculo!»—«Onde estão (exclama
elle, algures) os pratos veneraveis do Portugal portuguez, o pato com
macarrão do seculo XVIII, a almondega indigesta e divina do
tempo das descobertas, ou essa maravilhosa cabidella de frango, petisco
dilecto de D. João IV, de que os fidalgos inglezes que
vieram ao reino buscar a noiva de Carlos II levaram para Londres a
surprehendente noticia? Tudo estragado! O mesmo provincianismo reles
põe em calão as comedias de Labiche e os acepipes
de Gouffé. E estamo-nos nutrindo miseravelmente dos sobejos
democraticos do
boulevard, requentados, e
servidos em chalaça e galantine! Desastre estranho! As
coisas mais deliciosas de Portugal, o lombo de porco, a vitella de
Lafões, os legumes, os dôces, os vinhos,
degeneraram,
insipidaram...
Desde quando? Pelo que dizem os velhos, degeneraram desde o
Constitucionalismo e o Parlamentarismo. Depois d'esses enxertos
funestos no velho tronco lusitano, os fructos têm perdido o
sabor, como os homens têm perdido o caracter...»
Só uma occasião, n'esta especialidade
consideravel, o vi plenamente satisfeito. Foi n'uma taverna da Mouraria
(onde eu o levára), diante d'um prato complicado e profundo
de bacalhau, pimentos e grão de bico. Para o gozar com
coherencia Fradique despiu a sobrecasaca. E como um de nós
lançára casualmente o nome de Renan, ao atacarmos
o piteu sem igual, Fradique protestou com paixão:
—Nada de idéas! Deixem-me saborear esta bacalhoada, em
perfeita innocencia de espirito, como no tempo do Senhor D.
João V, antes da Democracia e da Critica!
A saudade do velho Portugal era n'elle constante: e considerava que,
por ter perdido esse typo de civilisação
intensamente original, o mundo
ficára diminuido. Este amor do passado revivia n'elle, bem
curiosamente, quando via realisados em Lisboa, com uma
inspiração original, o luxo e o
«modernismo» intelligente das
civilisações mais saturadas de cultura e
perfeitas em gosto. A derradeira vez que o encontrei em Lisboa foi no
Rato—n'uma festa de raro e delicado brilho. Fradique parecia desolado:
—Em Paris, affirmava elle, a duqueza de La Rochefoucauld-Bisaccia
póde dar uma festa igual: e para isto não me
valia a pena ter feito a quarentena em Marvão! Supponha
porém vossê que eu vinha achar aqui um sarau do
tempo da Senhora D. Maria I, em casa dos Marialvas, com fidalgas
sentadas em esteiras, frades tocando o lundum no bandolim,
desembargadores pedindo mote, e os lacaios no pateo, entre os mendigos,
rezando em côro a ladainha!... Ahi estava uma coisa unica,
deliciosa, pela qual se podia fazer a viagem de Paris a Lisboa em
liteira!
Um dia que jantavamos em casa de Carlos Mayer, e que Fradique
lamentava, com melancolica sinceridade, o velho Portugal fidalgo e
fradesco
do tempo
do snr. D. João V—Ramalho Ortigão não
se conteve:
—Vossê é um monstro, Fradique! O que
vossê queria era habitar o confortavel Paris do meado do
seculo XIX, e ter aqui, a dois dias de viagem, o Portugal do seculo
XVIII, onde podesse vir, como a um museu, regalar-se de pittoresco e de
archaismo... Vossê, lá na rua de Varennes,
consolado de decencia e de ordem. E nós aqui, em viellas
fedorentas, inundados á noite pelos despejos d'aguas sujas,
aturdidos pelas arruaças do marquez de Cascaes ou do conde
d'Aveiras, levados aos empurrões para a enxovia pelos
malsins da Intendencia, etc. etc... Confesse que é o que
vossê queria!
Fradique volveu serenamente:
—Era bem mais digno e bem mais patriotico que em logar de vos
vêr aqui, a vós, homens de letras, esticados nas
gravatas e nas idéas que toda a Europa usa, vos encontrasse
de cabelleira e rabicho, com as velhas algibeiras da casaca de
sêda cheias d'odes shaphicas, encolhidinhos no salutar terror
d'El-Rei e do Diabo, rondando os pateos da casa de Marialva ou
d'Aveiro, á espera que os senhores, de cima, depois de dadas
as graças, vos mandassem por um pretinho, os restos do
perú e o mote. Tudo isso seria dignamente portuguez, e
sincero; vós não merecieis melhor; e a vida
não é possivel sem um bocado de pittoresco depois
do almoço.
Com effeito, n'esta saudade de Fradique pelo
Portugal antigo, havia amor do
«pittoresco»,
estranho n'um homem tão subjectivo e intellectual: mas
sobretudo havia o odio a esta universal
modernisação que reduz todos os costumes,
crenças, idéas, gostos, modos, os mais ingenitos
e mais originalmente
proprios, a um typo uniforme (representado pelo
sujeito
utilitario e
sério de sobrecasaca preta)—com a monotonia com
que o chinez apara todas as arvores d'um jardim, até lhes
dar a
fórma unica e dogmatica de pyramide ou de vaso funerario.
Por isso Fradique em Portugal amava sobretudo o povo—o povo que
não mudou, como não muda a Natureza que o envolve
e lhe communica os seus caracteres graves e dôces. Amava-o
pelas suas qualidades, e tambem pelos seus defeitos:—pela sua morosa
paciencia de boi manso; pela alegria idyllica que lhe poetisa o
trabalho; pela calma acquiescencia á vassallagem com que
depois do
Senhor Rei venera o
Senhor
Governo; pela sua doçura amaviosa e naturalista;
pelo seu catholicismo pagão, e carinho fiel aos Deuses
latinos, tornados santos calendares; pelos seus trajes, pelos seus
cantos... «Amava-o ainda (diz elle) pela sua linguagem
tão bronca e pobre, mas a unica em Portugal onde se
não sente odiosamente a influencia do Lamartinismo ou das
Sebentas
de
de
Direito Publico».
V
A ultima vez que Fradique visitou Lisboa foi essa em que o encontrei no
Rato, lamentando os saraus beatos e secios do seculo XVIII. O antigo
poeta das
Lapidarias
tinha
então cincoenta annos; e cada dia se prendia mais
á quieta doçura dos
seus habitos de Paris.
Fradique habitava, na rua de Varennes, desde 1880, uma ala do antigo
palacio dos Duques de Tredennes que elle mobilára com um
luxo sobrio e grave—tendo sempre detestado esse atulhamento de alfaias
e estofos, onde inextricavelmente se embaralham e se contradizem as
Artes e os Seculos, e que, sob o barbaro e justo nome de
bric-à-brac, tanto seduz os financeiros
e as
cocottes. Nobres e ricas tapeçarias de
Paizagem e de Historia; amplos divans d'Aubusson; alguns moveis d'arte
da Renascença Franceza; porcelanas raras de Deft e da China;
espaço, claridade, uma harmonia de tons castos—eis o que se
encontrava nas cinco salas que constituiam o
«covil» de Fradique. Todas as varandas, de ferro
rendilhado, datando de Luiz XIV, abriam sobre um d'esses jardins de
arvores antigas, que, n'aquelle bairro fidalgo e ecclesiastico, formam
retiros de silencio e paz silvana, onde por vezes nas noites de maio se
arrisca a cantar um rouxinol.
A vida de Fradique era medida por um relogio
secular, que precedia o
toque lento e quasi austero das horas com uma toada argentina de antiga
dança de côrte: e era mantida n'uma immutavel
regularidade pelo seu creado Smith, velho escossez da
clan
dos Macduffs, já
todo branco de pello e ainda todo rosado de pelle, que havia trinta
annos o acompanhava, com severo zêlo, através da
vida e do mundo.
De manhã, ás nove horas, mal se espalhavam no ar
os compassos gentis e melancolicos d'aquelle esquecido minuete de
Cimarosa ou de Haydin, Smith rompia pelo quarto de Fradique, abria
todas as janellas á luz, gritava:—
Morning,
Sir! Immediatamente Fradique, dando de entre a roupa um
salto brusco que considerava «de hygiene
transcendente», corria ao immenso laboratorio de marmore, a
esponjar a face e a cabeça em agua fria, com um resfolgar de
Trytão ditoso. Depois, enfiando uma das cabaias de
sêda que tanto me maravilhavam, abandonava-se, estirado n'uma
poltrona, aos cuidados de Smith que, como barbeiro (affirmava Fradique)
reunia a ligeireza macia de Figaro á sapiencia confidencial
do velho Oliveiro de Luiz XI. E, com effeito, emquanto o ensaboava e
escanhoava, Smith ia dando a Fradique um resumo nitido, solido, todo em
factos, dos telegrammas politicos do
Times, do
Standard e da
Gazeta de Colonia!
Era para mim uma surpreza, sempre renovada e saborosa, vêr
Smith, com a sua alta gravata branca
á Palmerston, a
rabona curta, as calças de
xadrez verde e preto (côres da sua
clan), os sapatos de verniz decotados, passando o
pincel na barba do amo, e murmurando, em perfeita sciencia e perfeita
consciencia:—«Não se realisa a
conferencia do principe de Bismarck com o conde Kalnocky... Os
conservadores perderam a eleição supplementar de
York... Fallava-se hontem em Vienna d'um novo emprestimo
russo...» Os amigos em Lisboa riam d'esta
«caturreira»; mas Fradique sustentava que havia
aqui um proveitoso regresso á tradição
classica, que em
todo o mundo latino, desde Scipião o Africano, instituira os
barbeiros como «informadores universaes da coisa
publica». Estes curtos resumos de Smith formavam a carcassa
das suas noções politicas: e Fradique nunca
dizia—«Li no
Times»—mas «Li no
Smith».
Bem barbeado, bem informado, Fradique mergulhava n'um banho
ligeiramente tepido, d'onde voltava para as mãos vigorosas
de Smith, que, com um jogo de luvas de lã, de flanella,
d'estopa, de clina e de pelle de tigre, o friccionava até
que o corpo todo se lhe tornasse, como o de Apollo, «roseo e
reluzente». Tomava então o seu
chocolate; e recolhia á bibliotheca, sala séria e
simples, onde uma imagem da Verdade, radiosamente branca na sua nudez
de marmore, pousava o dedo subtil sobre os labios puros, symbolisando,
em frente á vasta mesa de ébano, um trabalho todo
intimo
á
busca de verdades que não são
para o ruido e para o mundo.
Á uma hora almoçava, com a sobriedade d'um grego,
ovos e legumes:—e depois, estendido n'um divan, tomando goles lentos
de chá russo, percorria nos Jornaes e nas Revistas as
chronicas d'arte, de litteratura, de theatro ou de sociedade, que
não eram da competencia politica de Smith. Lia
então tambem com cuidado os jornaes portuguezes (que chama
algures «phenomenos picarescos de
decomposição social»), sempre
caracteristicos, mas superiormente interessantes para quem como elle se
comprazia em analysar «a obra genuina e sincera da
mediocridade», e considerava Calino tão digno
d'estudo como Voltaire. O resto do dia dava-o aos amigos, ás
visitas, aos
ateliers, ás salas
d'armas, ás exposições, aos clubs—aos
cuidados
diversos que se cria um homem d'alto gosto vivendo n'uma cidade d'alta
civilisacão.
De tarde subia ao
Bois conduzindo o
seu phaeton, ou montando a
Sabá, uma
maravilhosa egoa das caudelarias de Aïn-Weibah que lhe cedera
o Emir de Mossul. E a sua noite (quando não tinha cadeira na
Opera ou na
Comédie) era passada
n'algum salão—precisando sempre findar o seu dia entre
«o ephemero feminino». (Assim dizia
Fradique).
A influencia d'este «feminino» foi suprema na sua
existencia. Fradique amou mulheres; mas fóra d'essas, e
s
A influencia d'este «feminino» foi suprema na sua
existencia. Fradique amou mulheres; mas fóra d'essas, e
sobre todas as coisas, amava a Mulher.
A sua conducta para com as mulheres era governada conjuntamente por
devoções de espiritualista, por curiosidades de
critico, e por exigencias de sanguineo. Á maneira dos
sentimentaes da
Restauração, Fradique considerava-as como
«organismos» superiores, divinamente complicados,
differentes e mais proprios de adoração do que
tudo o que offerece a Natureza: ao mesmo tempo, através
d'este culto, ia dissecando e estudando esses «organismos
divinos», fibra a fibra, sem respeito, por paixão
de analysta; e frequentemente o critico e o enthusiasta desappareciam
para só restar n'elle um homem amando a mulher, na simples e
boa lei natural, como os Faunos amavam as Nymphas.
As mulheres, além d'isso, estavam para elle (pelo menos nas
suas theorias de conversação) classificadas em
especies. Havia a «mulher
d'exterior», flôr de luxo e de mundanismo culto: e
havia a «mulher d'interior», a que guarda o lar,
diante da qual, qualquer que fosse o seu brilho, Fradique conservava um
tom penetrado de respeito, excluindo toda a
investigação experimental. «Estou em
presença d'estas (escreve elle a Madame de Jouarre), como em
face d'uma carta alheia fechada com sinete e lacre». Na
presença,
porém, d'aquellas que se «exteriorisam»
e vivem todas no ruido e na phantasia, Fradique achava-se
tão livre e tão irresponsavel como perante um
volume impresso. «Folhear o livro (diz elle ainda a Madame de
Jouarre), annotal-o nas margens assetinadas,
critical-o em voz alta com
independencia e veia, leval-o no coupé para lêr
á noite em
casa, aconselhal-o a um amigo, atiral-o para um canto percorridas as
melhores paginas—é bem permittido, creio eu, segundo a
Cartilha e o Codigo».
Seriam estas subtilezas (como suggeria um cruel amigo nosso) as d'um
homem que theorisa e idealisa o seu temperamento de carrejão
para o tornar litterariamente interessante? Não sei. O
commentario mais instructivo das suas theorias dava-o elle, visto n'uma
sala, entre «o ephemero feminino». Certas mulheres
muito voluptuosas, quando escutam um homem que as perturba, abrem
insensivelmente os labios. Em Fradique eram os olhos que se alargavam.
Tinha-os pequenos e côr de tabaco: mas junto d'uma d'essas
mulheres de exterior, «estrellas de mundanismo»,
tornavam-se-lhe immensos, cheios de luz negra, avelludados, quasi
humidos. A velha lady Mongrave comparava-os «ás
guelas abertas de duas
serpentes». Havia alli com effeito um acto de
alliciação e de
absorpção—mas havia sobretudo a evidencia da
perturbação e do encanto que o inundavam. N'essa
attenção de beato diante da Virgem, no murmurio
quente da voz mais amollecedora que um ar de estufa, no humedecimento
enleado dos seus olhos finos,—as mulheres viam apenas a influencia
omnipotentemente vencedora das suas graças de
Fórma e d'Alma sobre um homem esplendidamente viril. Ora
nenhum homem mais perigoso do
que aquelle que dá sempre
ás mulheres a
impressão clara, quasi tangivel—de que ellas são
irresistiveis, e subjugam o coração mais rebelde
só com mover os hombros lentos ou murmurar «que
linda tarde!» Quem se mostra facilmente seduzido—facilmente
se torna seductor. É a lenda india, tão sagaz e
real, do espelho encantado em que a velha Maharina se via radiosamente
bella. Para obter e reter esse espelho, em que com tanto esplendor se
reflecte a sua pelle engilhada—que peccados e que
traições não
commetterá a Maharina?...
Creio, pois, que Fradique foi profundamente amado, e que magnificamente
o mereceu. As mulheres encontravam n'elle esse sêr, raro
entre os homens—um Homem. E para ellas Fradique possuia esta
superioridade inestimavel, quasi unica na nossa
geração—uma alma extremamente sensivel,
servida por um corpo extremamente forte.
De maior duração e intensidade que os seus amores
foram todavia as amizades que Fradique a si attrahiu pela sua
excellencia moral. Quando eu conheci Fradique em Lisboa, no remoto anno
de 1867, julguei sentir na sua natureza (como no seu verso) uma
impassibilidade brilhante e metallica: e através da
admiração que me
deixára a sua arte, a sua personalidade, o seu
viço, a sua cabaia de sêda—confessei um dia a J.
Teixeira d'Azevedo
que não encontrára no poeta das
Lapidarias aquelle
tepido
leite da bondade humana, sem
o qual o velho Shakspeare (nem eu, depois d'elle) comprehendia que um
homem fosse digno da humanidade. A sua mesma polidez, tão
risonha e perfeita, me parecera mais composta por um systema do que
genuinamente ingenita. Decerto, porém, concorreu para a
formação d'este juizo uma carta
(já velha, de 1855) que alguem me confiou, e em que
Fradique, com toda a leviana altivez da mocidade, lançava
este rude programma de conducta:—«Os homens nasceram para
trabalhar, as mulheres para chorar, e nós, os fortes, para
passar friamente através!...»
Mas em 1880, quando a nossa intimidade uma noite se fixou a uma mesa do
Bignon, Fradique tinha cincoenta annos: e, ou porque eu
então o observasse com uma assiduidade mais penetrante, ou
porque n'elle se tivesse já operado com a idade esse
phenomeno que Fustan de Carmanges chamou depois
le degel de
Fradique, bem
cedo senti, através da impassibilidade marmorea do
cinzelador das
Lapidarias,
brotar,
tepida e
generosamente, o
leite da bondade humana.
A forte expressão de virtude que n'elle logo me impressionou
foi a sua incondicional e irrestricta indulgencia. Ou por uma
conclusão da sua philosophia, ou por uma
inspiração da sua natureza—Fradique, perante o
peccado e o delicto, tendia áquella velha misericordia
evangelica que, consciente da
universal fragilidade, pergunta
d'onde se erguerá a mão bastante pura para
arremessar a primeira pedra ao erro. Em toda a culpa elle via (talvez
contra a razão, mas em obediencia áquella
voz que fallava baixo a S. Francisco d'Assis e que
ainda se não calou) a irremediavel fraqueza humana: e o seu
perdão subia logo do fundo d'essa Piedade que jazia na sua
alma, como manancial d'agua pura em terra rica, sempre prompto a
brotar.
A sua bondade, porém, não se limitava a esta
expressão passiva. Toda a desgraça, desde a
amargura limitada e tangivel que passa na rua, até
á vasta e esparsa miseria que com a força d'um
elemento devasta classes e raças, teve n'elle um consolador
diligente e real. São d'elle, e escriptas nos derradeiros
annos (n'uma carta a G. F.) estas nobres palavras:—«Todos
nós que vivemos n'este globo formamos uma immensa caravana
que marcha confusamente para o Nada. Cerca-nos uma natureza
inconsciente, impassivel, mortal como nós, que
não nos entende, nem sequer nos vê, e d'onde
não podemos esperar nem soccorro nem
consolação. Só nos resta para nos
dirigir, na rajada que nos leva, esse secular preceito, summa divina de
toda a experiencia humana—«ajudai-vos uns aos
outros!» Que, na tumultuosa caminhada, portanto, onde passos
sem conta se misturam—cada um ceda metade do seu pão
áquelle que tem fome; estenda metade do seu manto
áquelle que tem frio; acuda com o braço
áquelle que
vai tropeçar; poupe o corpo d'aquelle que já
tombou; e se algum mais bem provido e seguro para o caminho necessitar
apenas sympathia d'almas, que as almas se abram para elle transbordando
d'essa sympathia... Só assim conseguiremos dar alguma
belleza e alguma dignidade a esta escura debandada para a
Morte».
Decerto Fradique não era um santo militante, rebuscando
pelas viellas miserias a resgatar: mas nunca houve mal, por elle
conhecido, que d'elle não recebesse allivio. Sempre que lia
por acaso, n'um jornal, uma calamidade ou uma indigencia, marcava a
noticia com um traço a lapis, lançando ao lado um
algarismo—que indicava ao velho Smith o numero de libras que devia
remetter, sem publicidade, pudicamente. A sua maxima para com os pobres
(a quem os Economistas affirmam que se não deve Caridade mas
Justiça)—era «que á hora das comidas
mais vale um pataco na mão que duas Philosophias a
voar». As creanças, sobretudo quando necessitadas,
inspiravam-lhe um enternecimento infinito; e era d'estes, singularmente
raros, que encontrando, n'um agreste dia de inverno, um pequenino que
pede, tranzido de frio—param sob a chuva e sob o vento, desapertam
pacientemente o paletot, descalçam pacientemente a luva,
para vasculhar no fundo da algibeira, á procura da moeda de
prata que vai ser o calor e o pão d'um dia.
Esta caridade estendia-se budhistamente a tudo
que vive. Não conheci
homem mais respeitador do animal e dos seus direitos. Uma
occasião em Paris, correndo ambos a uma
estação de
fiacres para nos salvarmos d'um chuveiro que
desabava, e seguir, na pressa que nos leváva, a uma venda
de
tapeçarias (onde Fradique cubiçava umas
Nove
Musas dançando entre loureiraes),
encontrámos apenas um
coupé,
cuja pileca, com o
sacco pendente do focinho, comia melancolicamente a sua
ração. Fradique teimou em esperar que o cavallo
almoçasse com socego—e perdeu as
Nove Musas.
Nos ultimos tempos, preoccupava-o sobretudo a miseria das classes—por
sentir que n'estas Democracias industriaes e materialistas,
furiosamente empenhadas na lucta pelo pão egoista, as almas
cada dia se tornam mais sêccas e menos capazes de piedade.
«A fraternidade (dizia elle n'uma carta de 1886 que conservo)
vai-se sumindo, principalmente n'estas vastas colmeias de cal e pedra
onde os homens teimam em se amontoar e luctar; e, através do
constante deperecimento dos costumes e das simplicidades ruraes, o
mundo vai rolando a um egoismo feroz. A primeira evidencia d'este
egoismo é o desenvolvimento ruidoso da philantropia. Desde
que a caridade se organisa e se consolida em
instituição, com regulamentos, relatorios,
comités, sessões, um presidente e uma
campainha, e de sentimento natural passa a
funcção official—é porque o homem,
não contando já com os impulsos do seu
coração,
necessita
obrigar-se
publicamente ao bem pelas prescripções
d'um estatuto. Com os corações assim duros e os
invernos tão longos, que vai ser dos
pobres?...»
Quantas vezes, diante de mim, nos crepusculos de novembro, na sua
bibliotheca apenas alumiada pela chamma incerta e dôce da
lenha no fogão,
Fradique emergiu d'um silencio em que os olhares se lhe perdiam ao
longe, como afundados em horisontes de tristeza—para assim lamentar,
com enternecida elevação, todas as miserias
humanas! E voltava então a amarga
affirmação da
crescente aspereza dos homens, forçados pela violencia do
conflicto e da concorrencia a um egoismo rude, em que cada um se torna
cada vez mais o lobo do seu semelhante,
homo homini lupus.
—Era necessario que viesse outro Christo! murmurei eu um dia.
Fradique encolheu os hombros:
—Ha de vir; ha de talvez libertar os escravos; ha de ter por isso a
sua igreja e a sua liturgia; e depois ha de ser negado; e mais tarde ha
de ser esquecido; e por fim hão de surgir novas turbas de
escravos. Não ha nada a fazer. O que resta a cada um por
prudencia é reunir um peculio e adquirir um revolwer; e aos
seus semelhantes que lhe baterem á porta, dar, segundo as
circumstancias, ou pão ou bala.
Assim, cheios de idéas, de delicadas
occupações
e d'obras amaveis, decorreram os
derradeiros annos de Fradique Mendes em Paris, até que no
inverno de 1888 a morte o colheu sob aquella fórma que elle,
como Cesar, sempre
appetecera—
inopinatam atque repentinam.
Uma noite, sahindo d'uma festa da condessa de La Ferté
(velha amiga de Fradique, com quem fizera n'um
yacht
uma viagem á
Islandia) achou no
vestiario a sua pelissa russa
trocada por outra, confortavel e rica tambem, que tinha no bolso uma
carteira com o monogramma e os bilhetes do general Terran-d'Azy.
Fradique, que soffria de repugnancias intolerantes, não se
quiz cobrir com o agasalho d'aquelle official rabugento e catarrhoso, e
atravessou a praça da Concordia a pé, de casaca,
até ao club da
Rue
Royale. A noite estava sêcca e clara, mas cortada
por uma d'essas brizas subtis, mais tenues que um halito, que durante
leguas se afiam sobre planicies nevadas do norte, e já eram
comparadas pelo velho André Vasali a «um punhal
traiçoeiro». Ao outro dia acordou com uma tosse
leve. Indifferente porém aos resguardos, seguro d'uma
robustez que affrontára tantos ares inclementes, foi a
Fontainebleau com amigos no alto d'um
mail-coach.
Logo n'essa noite,
ao recolher, teve um longo e intenso arripio; e trinta horas depois,
sem soffrimento, tão serenamente que durante algum tempo
Smith o julgou adormecido, Fradique, como diziam os antigos,
«tinha vivido». Não acaba mais
dôcemente um bello dia d.
Logo n'essa noite,
ao recolher, teve um longo e intenso arripio; e trinta horas depois,
sem soffrimento, tão serenamente que durante algum tempo
Smith o julgou adormecido, Fradique, como diziam os antigos,
«tinha vivido». Não acaba mais
dôcemente um bello dia de
verão.
O dr. Labert declarou que fôra uma fórma rarissima
de pleuriz. E accrescentou, com um exacto sentimento das felicidades
humanas:—«
Toujours de la chance, ce Fradique!»
Acompanharam a sua passagem derradeira pelas ruas de Paris, sob um
céo cinzento de neve, alguns dos mais gloriosos homens de
França nas coisas do saber e da arte. Lindos rostos,
já pisados pelo tempo, o choraram, na saudade das
emoções passadas. E, em pobres moradas, em torno
a lares sem lume, foi decerto tambem lamentado este sceptico de finas
letras, que cuidava dos males humanos envolto em cabaias de
sêda.
Jaz no
Père-Lachaise,
não longe da sepultura de Balzac, onde no dia dos Mortos
elle mandava sempre collocar um ramo d'essas violetas de Parma que
tanto amára em vida o creador da
Comedia Humana. Mãos fieis, por seu
turno,
conservam sempre perfumado de rosas frescas o marmore simples que o
cobre na terra.