A CORRESPONDENCIA
DE
Fradique Mendes
Obras do mesmo auctor:
| Revista de Portugal. 4 grossos
volumes |
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12$000 |
| As Minas de Salomão. 1
volume |
|
600 |
| Os Maias. 2 grossos
volumes |
|
2$000 |
| O Crime do
Padre Amaro. Terceira
edição inteiramente refundida, recomposta e
differente na fórma e na
acção da
edição primitiva. 1 grosso
volume |
|
1$200 |
| O Primo Bazilio. Terceira
edição. 1 grosso
volume |
|
1$000 |
| A Reliquia. 1 grosso
volume |
|
1$000 |
| O Mandarim. Quarta
edição. 1
volume |
|
500 |
| A Illustre Casa de Ramires. 1
volume |
|
1$000 |
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| No prelo: |
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| A Cidade e as Serras. |
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Eça de Queiroz
A CORRESPONDENCIA
DE
FRADIQUE MENDES
(MEMORIAS E NOTAS)
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, editores
1900
Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao
cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro,
que para a garantia que lhe offerece a lei n.º 496 de 1
d'Agosto de
1898, fez o competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a
determinação do art. 13.º da mesma Lei.
Porto—Imprensa
Moderna
A CORRESPONDENCIA DE FRADIQUE MENDES
FRADIQUE MENDES
(MEMORIAS E NOTAS)
I
A minha intimidade com Fradique Mendes começou em 1880, em
Paris, pela Paschoa,—justamente na semana em que elle
regressára da sua viagem á Africa Austral. O meu
conhecimento porém
com esse homem admiravel datava de Lisboa, do anno remoto de 1867. Foi
no verão d'esse anno, uma tarde, no café
Martinho, que encontrei, n'um numero já amarrotado da
Revolução de
Setembro, este nome de C. Fradique Mendes, em letras
enormes, por baixo de versos que me maravilharam.
Os themas («os motivos emocionaes», como
nós diziamos em 1867) d'essas cinco ou seis
poesias, reunidas em folhetim sob o titulo de
Lapidarias, tinham
logo para mim uma originalidade captivante e bemvinda. Era o tempo em
que eu e os
meus
camaradas de Cenaculo, deslumbrados pelo Lyrismo Epico da
Légende
des
Siècles, «o livro que um grande vento
nos trouxera de Guernesey»—decidiramos abominar e combater a
rijos brados o Lyrismo Intimo, que, enclausurado nas duas pollegadas do
coração, não comprehendendo d'entre
todos os rumores do Universo senão o rumor das saias
d'Elvira, tornava a Poesia, sobretudo em Portugal, uma monotona e
interminavel confidencia de glorias e martyrios de amor. Ora Fradique
Mendes pertencia evidentemente aos poetas novos que, seguindo o Mestre
sem-igual da
Légende des Siècles, iam,
n'uma universal
sympathia buscar motivos emocionaes fóra das limitadas
palpitações do
coração—á Historia, á
Lenda, aos Costumes, ás Religiões, a tudo que
através das idades, diversamente e unamente, revela e define
o Homem. Mas além d'isso Fradique Mendes trabalhava um outro
filão poetico que me seduzia—o da Modernidade, a
notação fina e sobria das graças e dos
horrores da Vida, da Vida ambiente e costumada, tal como a podemos
testemunhar ou presentir nas ruas que todos trilhamos nas moradas
visinhas das nossas, nos humildes destinos deslizando em torno de
nós por penumbras humildes.
Esses poemetos das
Lapidarias
desenrolavam com effeito themas magnificamente novos. Ahi um Santo
allegorico, um Solitario do seculo VI, morria uma tarde sobre as neves
da Silesia, assaltado e
domado por
uma tão inesperada e bestial rebellião
da Carne, que, á beira da Bemaventurança,
subitamente a perdia, e com ella o fructo divino e custoso de cincoenta
annos de penitencia e d'ermo: um corvo, facundo e velho além
de toda a velhice, contava façanhas do tempo em que seguira
pelas Gallias, n'um bando alegre, as legiões de Cesar,
depois as hordas de Alarico rolando para a Italia, branca e toda de
marmores sob o azul: o bom cavalleiro Percival, espelho e
flôr d'Idealistas, deixava por cidades e campos o sulco
silencioso da sua armadura d'ouro, correndo o mundo, desde longas
éras, á busca do San-Gral, o mystico vaso cheio
de sangue de Christo, que, n'uma manhã de Natal, elle vira
passar e lampejar entre nuvens por sobre as torres de Camerlon: um
Satanaz de feitio germanico, lido em Spinosa e Leibnitz, dava n'uma
viella de cidade medieval uma serenada ironica aos astros,
«gottas de luz no frio ar geladas»... E, entre
estes motivos de esplendido symbolismo, lá vinha o quadro de
singela modernidade, as
Velhinhas, cinco velhinhas, com chales de ramagens
pelos hombros, um lenço ou um cabaz na mão,
sentadas sobre um banco de pedra, n'um longo silencio de saudade, a uma
restea de sol d'outono.
Não asseguro todavia a nitidez d'estas bellas
reminiscencias. Desde essa sésta de agosto, no Martinho,
não encontrei mais as
Lapidarias: e, de
resto, o que n'ellas então me prendeu, não foi
a Idéa, mas a Fórma—uma fórma soberba
de plasticidade
e
de vida, que ao mesmo tempo me lembrava o verso marmoreo de Lecomte de
Lisle com um sangue mais quente nas veias do marmore, e a nervosidade
intensa de Baudelaire vibrando com mais norma e cadencia. Ora
precisamente, n'esse anno de 1867, eu, J. Teixeira de Azevedo e outros
camaradas tinhamos descoberto no céo da Poesia Franceza
(unico para que nossos olhos se erguiam) toda uma pleiade d'estrellas
novas onde sobresahiam, pela sua refulgencia superior e especial, esses
dois sóes—Baudelaire e Lecomte de Lisle. Victor Hugo, a
quem chamavamos já «papá
Hugo» ou «Senhor Hugo-Todo-Poderoso»,
não era
para nós um astro—mas o Deus mesmo, inicial e immanente, de
quem os astros recebiam a luz, o movimento e o rythmo. Aos seus
pés Lecomte de Lisle e Baudelaire faziam duas
constellações de
adoravel brilho: e o seu encontro fôra para nós um
deslumbramento e um amor! A mocidade d'hoje, positiva e estreita, que
pratíca a Politica, estuda as cotações
da
Bolsa e lê George Ohnet,
mal póde comprehender os santos enthusiasmos com que
nós recebiamos a iniciação d'essa Arte
Nova, que em
França, nos começos do Segundo Imperio, surgira
das ruinas do Romantismo como sua derradeira
encarnação, e que nos era trazida em Poesia pelos
versos de Lecomte de Lisle, de Baudelaire, de Coppée, de
Dierx, de Mallarmé, e d'outros menores: e menos talvez
póde comprehender taes fervores essa parte da mocidade culta
que logo desde as escolas
se nutre de Spencer e de Taine, e
que procura com ancia e agudeza exercer a critica, onde nós
outr'ora, mais ingenuos e ardentes, nos abandonavamos á
emoção. Eu mesmo sorrio hoje ao
pensar n'essas noites em que, no quarto de J. Teixeira d'Azevedo,
enchia de sobresalto e duvida dois conegos que ao lado moravam,
rompendo por horas mortas a clamar a
Charogne de
Baudelaire, tremulo e pallido de paixão:
Et pourtant vous serez semblable
à cette ordure,
A cette horrible infection,
Étoile de mes yeux, soleil
de ma nature,
Vous, mon ange et ma passion!
Do outro lado do tabique sentiamos ranger as camas dos ecclesiasticos,
o raspar espavorido de phosphoros. E eu, mais pallido, n'um extase
tremente:
Alors, oh ma beauté, dites
à la vermine
Qui vous mangera de baisers,
Que j'ai
gardé la forme et l'essence divine
De mes amours
décomposés!
Certamente Baudelaire não valia este tremor e esta pallidez.
Todo o culto sincero, porém, tem uma belleza essencial,
independente dos merecimentos do Deus para quem se evola. Duas
mãos postas com legitima fé serão
sempre
tocantes—mesmo quando se ergam para um Santo tão affectado
e postiço como S. Simeão Stylita. E o nosso
transporte era
candido, genuinamente nascido do Ideal satisfeito, só
comparavel áquelle que
outr'ora invadia os navegadores peninsulares ao pisarem as terras nunca
d'antes pisadas, Eldorados maravilhosos, ferteis em delicias e
thesouros, onde os seixos das praias lhes pareciam logo diamantes a
reluzir.
Li algures que Juan Ponce de Leon, enfastiado das cinzentas planicies
de Castella-a-Velha, não encontrando
tambem já encanto nos pomares verde-negros da Andaluzia—se
fizera ao mar, para buscar outras terras, e
mirar algo nuevo.
Tres annos sulcou incertamente a melancolia das aguas atlanticas: mezes
tristes errou perdido nos nevoeiros das Bermudas: toda a
esperança findára,
já as prôas gastas se voltavam para os lados onde
ficára a Hespanha. E eis que n'uma manhã de
grande sol, em dia de S. João, surgem ante a armada extatica
os esplendores da Florida! «
Gracias te sean,
mi S. Juan bendito, que he mirado algo nuevo!»
As lagrimas corriam-lhe pelas barbas brancas—e Juan Ponce de Leon
morreu de emoção. Nós
não morremos: mas lagrimas congeneres com as do velho
mareante saltaram-me dos olhos, quando pela primeira vez penetrei por
entre o brilho sombrio e os perfumes acres das
Flôres
do
Mal. Eramos assim absurdos em 1867!
De resto, exactamente como Ponce de Leon, eu só procurava em
Litteratura e Poesia
algo nuevo que mirar. E para um meridional de
vinte annos,
amando
sobretudo a Côr e o Som na plenitude da sua riqueza, que
poderia ser esse
algo
nuevo senão o luxo novo das fórmas
novas? A Fórma, a belleza inedita e rara da
Fórma, eis realmente, n'esses tempos de delicado
sensualismo, todo o meu interesse e todo o meu cuidado! Decerto eu
adorava a Idéa na sua essencia;—mas quanto mais o Verbo que
a encarnava! Baudelaire, mostrando á sua amante na
Charogne
a carcassa
pôdre do cão e equiparando em ambas as miserias da
carne, era para mim de magnifica surpreza e enlevo: e diante d'esta
crespa e atormentada subtilisação do sentir, que
podia valer o facil e velho Lamartine no
Lago, mostrando a Elvira a cansada lua, e
comparando em ambas a pallidez e a graça meiga? Mas se este
aspero e funebre espiritualismo de Baudelaire me chegasse expresso na
lingua lassa e molle de Casimir Delavigne—eu não lhe teria
dado mais apreço do que a versos vis do
Almanach
de
Lembranças.
Foi sensualmente enterrado n'esta idolatria da Fórma, que
deparei com essas
Lapidarias de
Fradique Mendes, onde julguei vêr reunidas e fundidas as
qualidades discordantes de magestade e de nervosidade que constituiam,
ou me pareciam constituir, a grandeza dos meus dois idolos—o auctor
das
Flôres do Mal e o
auctor dos
Poemas Barbaros. A isto accrescia,
para me fascinar, que este poeta era portuguez, cinzelava assim
preciosamente a lingua que até ahi tivera como joias
acclamadas o
Noivado do Sepulchro e o
Avè Cesar!, habitava
Lisboa, pertencia aos
Novos, possuia decerto na alma, talvez no viver, tanta originalidade
poetica como nos seus poemas! E esse folhetim amarrotado da
Revolução
de
Setembro tomava assim a importancia d'uma
revelação d'Arte, uma aurora de Poesia, nascendo
para banhar as almas moças na luz e no calor especial a que
ellas aspiravam, meio adormecidas, quasi regeladas sob o algido luar do
Romantismo. Graças te sejam dadas, meu Fradique bemdito, que
na minha velha lingua
hé
mirado algo nuevo! Creio que murmurei isto, banhado em
gratidão. E, com o numero da
Revolução de Setembro, corri
a casa de J. Teixeira de Azevedo, á travessa do
Guarda-Mór, a annunciar o advento esplendido!
Encontrei-o, como de costume, nos silenciosos vagares das tardes de
verão, em mangas de camisa, diante de uma bacia que
trasbordava de morangos e de vinho de Torres. Com vozes clamorosas,
atirando gestos até ao tecto, declamei-lhe a
Morte
do Santo. Se bem recordo,
este asceta, ao findar sobre as neves da Silesia, era miserrimamente
trahido pela desleal Natureza! Todos os appetites da paixão
e do corpo, tão
laboriosamente recalcados por elle durante meio seculo d'ermo,
irrompiam de repente, á beira da eternidade, n'um tumulto
bestial, não querendo para sempre findar com a carne que ia
findar—antes de serem uma vez satisfeitos! E os anjos que, para o
receber, desciam d'aza serena, sobraçando mólhos
de Palmas
e
cantando os Epithalamios, encontravam, em vez d'um Santo, um Satyro,
senil e grotesco—que de rojos, entre bramidos sordidos, mordia com
beijos vorazes a neve, a macia alvura da neve, onde o seu delirio
furiosamente imaginava nudezes de cortezãs!... Tudo isto era
tratado com uma grandeza sobria e rude que me parecia sublime. J.
Teixeira d'Azevedo achou tambem «sublime—mas
bréjeiro». E concordou que convinha desentulhar
Fradique Mendes da obscuridade, e erguel-o no alto do escudo como o
radiante mestre dos Novos.
Fui logo n'essa noite á
Revolução de
Setembro, procurar um companheiro meu de Coimbra, Marcos
Vidigal, que, nos nossos alegres tempos de Direito Romano e Canonico,
ganhára, por tocar concertina, lêr a
Historia
da Musica
de Scudo, e lançar através da Academia os nomes
de Mozart e de Beethoven, uma soberba auctoridade sobre Musica
classica. Agora, vadiando em Lisboa, escrevia na
Revolução, aos domingos, uma
«Chronica lyrica»—para gozar gratuitamente o
bilhete de S. Carlos.
Era um moço com cabellos ralos e côr de manteiga,
sardento, apagado de idéas e de modos—mas que despertava e
se illuminava todo quando lograva «a
chance
(como
elle dizia) de roçar por um homem celebre, ou de arranchar
n'uma coisa original»; e isto tornára-o a elle,
pouco a pouco, quasi original e quasi celebre. N'essa noite, que era
sabbado e de pesado calor, lá estava á banca, com
uma quinzena d'alpaca, suando, bufando, a espremer
do seu pobre craneo, como d'um
limão meio sêcco, gottas d'uma Chronica sobre a
Volpini. Apenas eu alludi a Fradique Mendes, áquelles versos
que me tinham maravilhado—Vidigal arrojou a penna, já
risonho, com um clarão alvoroçado
na face molle:
—Fradique? Se conheço o grande Fradique? É meu
parente! É meu patricio! É meu parceiro!
—Ainda bem, Vidigal, ainda bem!
Fomos ao Passeio Publico (onde Marcos se ia encontrar com um agiota).
Tomámos sorvetes debaixo das acacias: e pelo chronista da
Revolução conheci a origem,
a mocidade, os feitos do poeta das
Lapidarias.
Carlos Fradique Mendes pertencia a uma velha e rica familia dos
Açores; e descendia por varonia do navegador D. Lopo Mendes,
filho segundo da casa da Troba, e donatario d'uma das primeiras
capitanias creadas nas Ilhas por começos do seculo XVI. Seu
pai, homem magnificamente bello, mas de gostos rudes, morrera (quando
Carlos ainda gatinhava) d'um desastre, na caça. Seis annos
depois sua mãi, senhora tão airosa, pensativa e
loura
que merecera d'um poeta da Terceira o nome de
Virgem d'Ossian,
morria tambem d'uma febre trazida dos campos, onde andára
bucolicamente, n'um dia de sol forte, cantando e ceifando feno. Carlos
ficou em companhia e sob a tutela de sua avó materna, D.
Angelina Fradique, velha estouvada, erudita e
exotica que colleccionava aves
empalhadas, traduzia Klopstock, e perpetuamente soffria dos
«dardos d'Amor». A sua primeira
educação
fôra singularmente emmaranhada: o capellão de D.
Angelina, antigo frade benedictino, ensinou-lhe o latim, a doutrina, o
horror á maçonaria, e outros principios
solidos; depois um coronel francez, duro jacobino que se batera em 1830
na barricada de S
t-Merry, veio abalar estes
alicerces espirituaes
fazendo traduzir ao rapaz a
Pucelle de Voltaire e
a
Declaração dos direitos do homem;
e finalmente um allemão, que
ajudava D. Angelina a enfardelar Klopstock na vernaculidade de Filinto
Elysio, e se dizia parente de Emmanuel Kant, completou a
confusão iniciando Carlos, ainda antes de lhe nascer o
buço, na
Critica da Razão pura e na heterodoxia
metaphysica dos professores de Tubinguen. Felizmente Carlos
já então gastava longos dias a cavallo pelos
campos, com a sua matilha de galgos:—e da anemia que lhe teriam
causado as abstracções do raciocinio, salvou-o o
sôpro fresco dos montados e a natural pureza dos regatos em
que bebia.
A avó, tendo imparcialmente approvado estas embrulhadas
linhas d'educacão, decidiu de repente, quando Carlos
completou dezeseis annos, mandal-o para Coimbra que ella considerava um
nobre centro d'estudos classicos e o derradeiro refugio das
Humanidades. Corria porém na Ilha que a traductora de
Klopstock, apesar dos sessenta annos que lhe revestiam a face d'um
pêllo mais denso que a hera
d'uma ruina, decidira afastar o
neto—para casar com o bolieiro.
Durante tres annos Carlos tocou guitarra pelo
Penedo da
Saudade, encharcou-se de
carrascão na tasca das Camêlas, publicou na
Idéa sonetos asceticos, e amou
desesperadamente a filha d'um ferrador de Lorvão. Acabava de
ser reprovado em Geometria quando a avó morreu subitamente,
na sua quinta das
Tornas, n'um
caramanchão de rosas, onde se esquecera toda uma
sésta de junho, tomando café, e escutando a viola
que o cocheiro repicava com os dedos carregados d'anneis.
Restava a Carlos um tio, Thadeu Mendes, homem de luxo e de boa mesa,
que vivia em Paris preparando a salvação da
Sociedade com Persigny, com Morny, e com o principe Luiz
Napoleão de quem era devoto e crédor. E Carlos
foi para Paris estudar Direito nas cervejarias que cercam a Sorbonne,
á espera da maioridade que lhe devia trazer as
heranças accumuladas do pai e da avó—calculadas
por Vidigal n'um farto milhão de cruzados. Vidigal, filho
d'uma sobrinha de D. Angelina, nascido na Terceira, possuia por legado,
conjuntamente com Carlos, uma quinta chamada o
Corvovello.
D'ahi lhe vinha ser «parente, patricio e parceiro»
do homem das
Lapidarias
.
Depois d'isto Vidigal sabia apenas que Fradique, livre e rico, sahira
do
Quartier-Latin a começar uma existencia
soberba e fogosa. Com um impeto de ave solta, viajára logo
por todo o mundo, a
todos os sopros do
vento, desde Chicago até Jerusalem, desde
a Islandia até ao Sahará. N'estas jornadas,
sempre emprehendidas por uma solicitação da
intelligencia ou por ancia d'emoções,
achára-se
envolvido em feitos historicos e tratára altas
personalidades do seculo. Vestido com a camisa escarlate,
acompanhára Garibaldi na conquista das Duas-Sicilias.
Encorporado no Estado-Maior do velho Napier, que lhe chamava
the
Portuguese Lion
(o Leão Portuguez), fizera toda a campanha da Abyssinia.
Recebia cartas de Mazzini. Havia apenas mezes que visitára
Hugo no seu rochedo de Guernesey...
Aqui recuei, com os olhos esbugalhados! Victor Hugo (todos ainda se
lembram), desterrado então em Guernesey, tinha para
nós, idealistas e democratas de 1867, as
proporções sublimes e lendarias d'um S.
João em Pathmos. E recuei protestando, com os olhos
esbugalhados, tanto se me afigurava fóra das possibilidades
que um portuguez, um Mendes tivesse apertado nas suas a mão
augusta que escrevera a
Lenda dos Seculos!
Correspondencia com Mazzini, camaradagem com Garibaldi, vá!
Mas na ilha sagrada, ao rumor das ondas da Mancha, passear, conversar,
scismar com o vidente dos
Miseraveis—parecia-me a impudente
exaggeração d'um ilhéo que me queria
intrujar...
—Juro! gritou Vidigal, levantando a mão veridica
ás acacias que nos cobriam.
E immediatamente, para demonstrar a verosimilhança d'aquella
gloria, já altissima para Fradique,
contou-me outra, bem superior,
e que cercava o estranho homem d'uma aureola mais refulgente.
Não se tratava já de ser estimado por um homem
excelso—mas, coisa preciosa entre todas, de ser amado por uma excelsa
mulher. Pois bem! Durante dois annos, em Paris, Fradique fôra
o eleito de Anna de Léon, a gloriosa Anna de
Léon, a mais culta e bella cortezã (Vidigal dizia
«o melhor
bocado») do Segundo Imperio, de que ella, pela
graça especial da sua voluptuosidade intelligente, como
Aspasia no seculo de Pericles, fôra a expressão e
a flôr!
Muitas vezes eu lêra no
Figaro os louvores de Anna de Léon, e
sabia que poetas a tinham celebrado sob o nome de
Venus
Victoriosa. Os
amores com a cortezã não me impressionaram
decerto tanto como a intimidade com o homem das
Contemplações: mas a minha
incredulidade cessou—e Fradique assumiu para mim a estatura d'um
d'esses sêres que, pela seducção ou
pelo genio, como Alcibiades ou como Goethe, dominam uma
civilisação, e d'ella colhem deliciosamente tudo
o que ella póde dar em gostos e em triumphos.
Foi por isso talvez que córei, intimidado, quando Vidigal,
reclamando outro sorvete de leite, se offereceu para me levar ao
surprehendente Fradique. Sem me decidir, pensando em Novalis que tambem
assim hesitava, enleado, ao subir uma manhã em Berlim as
escadas d'Hegel—perguntei a Vidigal se o poeta das
Lapidarias residia em
Lisboa...
Não! Fradique viera de Inglaterra visitar Cintra, que
adorava, e onde comprára a quinta da
Saragoça,
no caminho dos
Capuchos, para ter de verão em Portugal um repouso fidalgo.
Estivera lá
desde o dia de Santo Antonio:—e agora parára em Lisboa, no
Hotel Central, antes de recolher a Paris, seu centro e seu lar. De
resto, accrescentou Marcos, não havia como Fradique ninguem
tão simples, tão alegre, tão facil. E,
se eu desejava conhecer
um homem genial, que esperasse ao outro dia, domingo, ás
duas, depois da missa do Loreto, á porta da Casa Havaneza.
—Valeu? Ás duas, religiosamente, depois da missa!
Bateu-me o coração. Por fim, com um
esforço, como Novalis no patamar d'Hegel, afiancei, pagando
os sorvetes, que ao outro dia, ás duas, religiosamente, mas
sem missa, estaria no portal da Havaneza!
II
Gastei a noite preparando phrases, cheias de profundidade e belleza,
para lançar a Fradique Mendes! Tendiam todas á
glorificação das
Lapidarias. E
lembro-me de ter, com amoroso cuidado, burilado
e repolido
esta:—«A fórma de v. exc.
a
é um marmore divino com estremecimentos humanos!»
De manhã apurei requintadamente a minha
toilette como se, em vez de Fradique, fosse
encontrar Anna de Léon—com quem já n'essa
madrugada, n'um sonho repassado de erudição e
sensibilidade,
eu passeára na Via Sagrada que vai de Athenas a Eleusis,
conversando, por entre os lyrios que desfolhavamos, sobre o ensino de
Platão e a
versificação das
Lapidarias.
E
ás
duas horas, dentro de uma tipoia, para que o macadam regado me
não maculasse o verniz dos sapatos, parava na Havaneza,
pallido, perfumado, commovido, com uma tremenda rosa de chá
na lapella. Eramos assim em 1867!
Marcos Vidigal já me esperava, impaciente, roendo o charuto.
Saltou para a tipoia; e batemos através do Loreto, que
escaldava ao sol do agosto.
Na rua do Alecrim (para combater a pueril emoção
que me enleava) perguntei ao meu companheiro quando publicaria Fradique
as
Lapidarias. Por entre
o barulho das rodas Vidigal gritou:
—Nunca!
E contou que a publicação d'aquelles trechos na
Revolução
de
Setembro quasi occasionára, entre Fradique e
elle, «uma pega intellectual». Um dia, depois de
almoço, em Cintra, emquanto Fradique fumava o seu
chibouk
persa, Vidigal, na sua
familiaridade, como patricio e como parente, abrira sobre
a mesa uma pasta de velludo
negro. Descobrira, surprehendido, largas folhas de versos, n'uma tinta
já amarellada. Eram as
Lapidarias.
Lêra a
primeira, a
Serenada de Satan aos astros. E,
maravilhado, pedira a Fradique para publicar na
Revolução algumas d'essas
estrophes divinas. O primo sorrira, consentira—com a rigida
condição de serem firmadas por um pseudonymo.
Qual?... Fradique abandonava a escolha á phantasia de
Vidigal. Na redacção, porém, ao
revêr as
provas, só lhe acudiram pseudonymos decrepitos e safados, o
Independente, o
Amigo da Verdade,
o
Observador—nenhum bastante novo para dignamente
firmar poesia tão nova. Disse
comsigo:—«Acabou-se! Sublimidade não é
vergonha. Ponho-lhe o nome!» Mas quando Fradique viu a
Revolução
de Setembro ficou livido, e chamou regeladamente a Vidigal
«indiscreto, burguez e philisteu»!—E aqui Vidigal
parou para me pedir a significação de
philisteu. Eu não sabia; mas archivei
gulosamente o termo, como amargo. Recordo até que logo
n'essa tarde, no Martinho, tratei de
philisteu o
auctor
consideravel do
Avè César!
—De modo que, rematou Vidigal, é melhor não lhe
fallares nas
Lapidarias!
Sim! pensava eu. Talvez Fradique, á maneira do chanceller
Bacon e d'outros homens grandes pela acção,
deseje esconder d'este mundo de
materialidade e de força o seu fino genio poetico! Ou talvez
essa ira, ao vêr o seu nome impresso debaixo
de versos com que se orgulharia
Lecomte de Lisle, seja a do artista nobremente e perpetuamente
insatisfeito que não aceita ante os homens como sua a obra
onde sente imperfeições! Estes modos de ser,
tão superiores e novos, cahiam na minha
admiração como oleo n'uma fogueira. Ao pararmos
no Central tremia d'acanhamento.
Senti um allivio quando o porteiro annunciou que o snr. Fradique
Mendes, n'essa manhã, cedo, tomára uma caleche
para Belem. Vidigal empallideceu, de desespero:
—Uma caleche! Para Belem!... Ha alguma coisa em Belem?
Murmurei, n'uma idéa d'Arte, que havia os Jeronymos. N'esse
instante uma tipoia, lançada a trote, estacou na rua, com as
pilecas fumegando. Um homem desceu, ligeiro e forte. Era Fradique
Mendes.
Vidigal, alvoroçado, apresentou-me como um «poeta
seu amigo». Elle adiantou a mão
sorrindo—mão delicada e branca onde vermelhejava um rubi.
Depois, acariciando o hombro do primo Marcos, abriu uma carta que lhe
estendia o porteiro.
Pude então, á vontade, contemplar o cinzelador
das
Lapidarias, o
familiar de
Mazzini, o conquistador das Duas-Sicilias, o bem-adorado de Anna de
Léon! O que me seduziu logo foi a sua esplendida solidez, a
sã e viril proporção dos
membros rijos, o aspecto calmo de poderosa estabilidade com que parecia
assentar na vida, tão livremente e
tão firmemente como sobre aquelle chão de
ladrilhos
onde pousavam
os seus largos sapatos de verniz resplandecendo sob polainas de linho.
A face era do feitio aquilino e grave que se chama
cesareano, mas sem as linhas empastadas e a
espessura flaccida que a tradição das
Escólas
invariavelmente attribue aos Cesares, na tela ou no gesso, para os
revestir de magestade; antes pura e fina como a d'um Lucrecio
moço, em plena gloria, todo nos sonhos da Virtude e da Arte.
Na pelle, d'uma brancura lactea e fresca, a barba, por ser pouca
decerto, não deixava depois de escanhoada nem aspereza nem
sombra; apenas um buço crespo e leve lhe orlava os
labios que, pela vermelhidão humida e pela sinuosidade
subtil, pareciam igual e superiormente talhados para a Ironia e para o
Amor. E toda a sua finura, misturada de energia, estava nos
olhos—olhos pequenos e negros, brilhantes como contas de onyx, d'uma
penetração aguda, talvez
insistente de mais, que perfurava, se enterrava sem esforço,
como uma verruma d'aço em madeira molle.
Trazia uma quinzena solta, d'uma fazenda preta e macia, igual
á das calças que cahiam sem um vinco: o collete
de linho branco fechava por botões de coral pallido: e o
laço da gravata de setim negro, dando relevo á
alvura espelhada dos collarinhos quebrados, offerecia a
perfeição concisa que já me
encantára no seu verso.
Não sei se as mulheres o considerariam
bello. Eu achei-o um varão
magnifico—dominando sobretudo por uma graça clara que sahia
de toda a
sua força mascula. Era o seu viço que
deslumbrava. A vida de tão varias e trabalhosas actividades
não lhe cavára uma prega de fadiga. Parecia ter
emergido, havia momentos, assim de quinzena preta e barbeado, do fundo
vivo da Natureza. E apesar de Vidigal me ter contado que Fradique
festejára os «trinta e tres» em Cintra,
pela festa de S. Pedro, eu sentia n'aquelle corpo a robustez tenra e
agil de um ephebo, na infancia do mundo grego. Só quando
sorria ou quando olhava se surprehendiam immediatamente n'elle vinte
seculos de litteratura.
Depois de lêr a carta, Fradique Mendes abriu os
braços, n'um gesto desolado e risonho, implorando a
misericordia de Vidigal. Tratava-se, como sempre, da Alfandega, fonte
perenne das suas amarguras! Agora tinha lá encalhado um
caixote, contendo uma mumia egypcia...
—Uma mumia...?
Sim, perfeitamente, uma mumia historica, o corpo veridico e veneravel
de Pentaour, escriba ritual do Templo de Amnon em Thebas, e chronista
de Ramèzes II. Mandára-o vir de Paris para dar a
uma senhora da Legação d'Inglaterra, Lady Ross,
sua amiga d'Athenas, que em plena frescura e plena ventura,
colleccionava antiguidades funerarias do Egypto e da Assyria... Mas,
apesar d'esforços sagazes, não conseguia arrancar
o defunto letrado aos armazens da Alfandega—que elle enchera de
confusão e de horror. Logo na primeira
tarde, quando Pentaour
desembarcára, enfaixado dentro do seu caixão, a
Alfandega aterrada avisou a policia. Depois, calmadas as
desconfianças d'um crime, surgira uma insuperavel
difficuldade:—que artigo da pauta se poderia applicar ao cadaver d'um
hierogrammata do tempo de Ramèzes? Elle Fradique suggerira o
artigo que taxa o arenque defumado. Realmente, no fundo, o que
é um arenque defumado senão a mumia, sem
ligaduras e sem inscripções, d'um arenque que
viveu? Ter
sido peixe ou escriba nada importava para os effeitos fiscaes. O que a
Alfandega via diante de si era o corpo d'uma creatura, outr'ora
palpitante, hoje seccada ao fumeiro. Se ella em vida nadava n'um
cardume nas ondas do mar do Norte, ou se, nas margens do Nilo, ha
quatro mil annos, arrolava as rezes de Amnon e commentava os
capitulos
de fim de dia—não era certamente da conta dos
Poderes Publicos. Isto parecia-lhe logico. Todavia as auctoridades da
Alfandega continuavam a hesitar, coçando o queixo, diante do
cofre sarapintado que encerrava tanto saber e tanta piedade! E agora
n'aquella carta os amigos Pintos Bastos aconselhavam, como mais
nacional e mais rapido, que se arrancasse um
empenho
do Ministro da Fazenda
para fazer sahir sem direitos o corpo augusto do escriba de
Ramèzes. Ora este empenho, quem melhor para o
alcançar que Marcos—esteio da
Regeneração e seu Chronista musical?
Vidigal esfregava as mãos, illluminado. Ahi estava
uma coisa bem digna d'elle,
«bem
catita»—salvar do fisco a mumia «d'um
figurão
pharaonico»! E arrebatou a carta dos Pintos Bastos, enfiou
para a tipoia, gritou ao cocheiro a morada do Ministro, seu collega na
Revolução de
Setembro. Assim fiquei só com Fradique—que me
convidou a subir aos seus quartos, e esperar Vidigal, bebendo uma
«soda e limão».
Pela escada, o poeta das
Lapidarias alludiu ao
torrido calor d'agosto. E eu que n'esse instante, defronte do espelho
no patamar, revistava, com um olhar furtivo, a linha da minha
sobrecasaca e a frescura da minha rosa—deixei estouvadamente escapar
esta coisa hedionda:
—Sim, está d'escachar!
E ainda o torpe som não morrera, já uma
afflicção me lacerava, por esta
«chulice» de esquina de tabacaria assim
atabalhoadamente lançada como um pingo de sêbo
sobre o supremo artista das
Lapidarias,
o homem
que
conversára com Hugo á beira-mar!... Entrei no
quarto atordoado, com bagas de suor na face. E debalde rebuscava
desesperadamente uma outra phrase sobre o calor, bem trabalhada, toda
scintillante e nova! Nada! Só me acudiam sordidezes
parallelas, em calão
teimoso:—«é de rachar»!
«está de
ananazes»! «derrete os untos»!...
Atravessei alli uma d'essas angustias atrozes e grotescas, que, aos
vinte annos, quando se começa a vida e a litteratura, vincam
a alma—e jámais esquecem.
Felizmente Fradique desapparecera por traz d'um reposteiro de alcova.
Só, limpando o suor, considerando que altos pensadores se
exprimem assim, com uma simplicidade rude,—serenei. E á
perturbação succedeu a curiosidade de descobrir
em torno, pelo aposento, algum vestigio da originalidade intensa do
homem que o habitava. Vi apenas cançadas cadeiras de reps
azul-ferrete, um lustre embuçado em tulle, e uma console, de
altos pés dourados, entre as duas janellas que respiravam
para o rio. Sómente, sobre o marmore da
console, e por meio dos livros que atulhavam uma velha mesa de pau
preto, pousavam soberbos ramos de flôres: e a um canto
afofava-se um espaçoso divan,
installado decerto por Fradique com colchões sobrepostos,
que dois cobrejões orientaes revestiam de côres
estridentes. Errava além d'isso em toda a sala um aroma
desconhecido, que tambem me pareceu oriental, como feito de rosas de
Smyrna, mescladas a um fio de canella e mangerona.
Fradique Mendes voltára de dentro, vestido com uma cabaia
chineza! Cabaia de mandarim, de sêda verde, bordada a
flôres de amendoeira—que me maravilhou e que me intimidou.
Vi então que tinha o cabello castanho-escuro, fino e
levemente ondeado sobre a testa, mais polida e branca que os marfins de
Normandia. E os olhos, banhados agora n'uma luz franca, não
apresentavam aquella negrura profunda que eu comparára ao
onyx, mas uma côr quente de tabaco escuro da Havana. Accendeu
uma cigarrette e
ordenou a «soda e
limão» a um creado surprehendente, muito louro,
muito grave, com uma perola espetada na gravata, largas
calças de xadrez verde e preto, e o peito florido por tres
cravos amarellos! (Percebi que este servo magnifico se chamava Smith).
O meu enleio crescia. Por fim Fradique murmurou, sorrindo, com sincera
sympathia:
—Aquelle Marcos é uma flôr!
Concordei, contei a velha estima que me prendia a Vidigal, desde o
primeiro anno de Coimbra, dos nossos tempos estouvados de Concertina e
Sebenta. Então, alegremente, recordando
Coimbra, Fradique perguntou-me pelo Pedro Penedo, pelo Paes, por outros
lentes ainda, do antigo typo fradesco e bruto; depois pelas tias
Camêlas, essas encantadoras velhas, que escrupulosamente,
através de lascivas gerações
d'estudantes, tinham permanecido virgens, para poderem no
céo, ao lado de Santa Cecilia, passar toda uma eternidade a
tocar harpa... Era uma das suas memorias melhores de Coimbra essa
taverna das tias Camêlas, e as ceias desabaladas que custavam
setenta reis, comidas ruidosamente na penumbra fumarenta das pipas, com
o prato de sardinhas em cima dos joelhos, por entre temerosas contendas
de Metaphysica e d'Arte. E que sardinhas! Que arte divina em frigir o
peixe! Muitas vezes em Paris se lembrára das risadas, das
illusões e dos piteus d'então!...
Tudo isto vinha n'um tom muito moço, sincero,
singelo—que eu
mentalmente classificava de
crystallino. Elle
estirára-se no divan; eu ficára rente da mesa,
onde um ramo de rosas se desfolhava ao calor sobre volumes de Darwin e
do Padre Manoel Bernardes. E então, dissipado o acanhamento,
todo no appetite de revolver com aquelle homem genial idéas
de Litteratura, sem me lembrar que, como Bacon, elle desejava esconder
o seu genio poetico, ou artista insatisfeito nunca reconheceria a obra
imperfeita,—alludi ás
Lapidarias.
Fradique Mendes tirou a cigarette dos labios para rir—com um riso que
seria
genuinamente galhofeiro, se de certo modo o não
contradissesse um laivo de vermelhidão que lhe subira
á face
côr de leite. Depois declarou que a
publicação d'esses
versos,
com a sua assignatura,
fôra uma perfidia do leviano Marcos. Elle não
considerava
assignaveis esses pedaços de prosa
rimada, que decalcára, havia quinze annos, na idade em que
se imita, sobre versos de Lecomte de Lisle, durante um verão
de trabalho e de fé, n'uma trapeira do Luxemburgo,
julgando-se a cada rima um innovador genial...
Eu acudi affirmando, todo em chamma, que depois da obra de Baudelaire
nada em Arte me impressionára como as
Lapidarias!
E ia
lançar a minha esplendida phrase, burilada n'essa noite com
paciente cuidado:—«A fórma de v. exc.
a
é um marmore divino...» Mas Fradique
deixára o divan
e pousava em mim os olhos finos
de onix, com uma curiosidade que me
verrumava:
—Vejo então, disse elle, que é um devoto do
maganão das
Flôres do
Mal!
Córei, áquelle espantoso termo de
maganão. E, muito grave, confessei que
para mim Baudelaire dominava, á maneira d'um grande astro,
logo abaixo d'Hugo, na moderna Poesia. Então Fradique,
sorrindo paternalmente, afiançou que bem cedo eu perderia
essa illusão! Baudelaire (que elle conhecera) não
era verdadeiramente um poeta. Poesia subentendia
emoção: e Baudelaire, todo intellectual,
não passava d'um psychologo, d'um analysta—um dissecador
subtil d'estados morbidos. As
Flôres do Mal continham apenas resumos
criticos de torturas moraes que Baudelaire muito finamente
comprehendera, mas nunca pessoalmente
sentira. A
sua obra era como a d'um pathologista, cujo
coração bate normal e serenamente, emquanto
descreve, á banca, n'uma folha de papel, pela
erudição e
observação accumuladas, as
perturbações temerosas d'uma lesão
cardiaca. Tanto assim que Baudelaire compuzera primeiro em prosa as
Flôres
do
Mal—e só mais tarde, depois de rectificar a
justeza das analyses, as passára a verso, laboriosamente,
com um diccionario de rimas!... De resto em França
(accrescentou o estranho homem) não havia poetas. A genuina
expressão da clara intelligencia franceza era a prosa. Os
seus mais finos conhecedores prefeririam sempre os poetas cuja poesia
se caracterisasse
pela precisão, lucidez, sobriedade—que
são qualidades de prosa; e um poeta tornava-se tanto mais
popular quanto mais visivelmente possuia o genio de prosador. Boileau
continuaria a ser um classico e um immortal, quando já
ninguem se lembrasse em França do tumultuoso lyrismo de
Hugo...
Dizia estas coisas enormes n'uma voz lenta, penetrante—que ia
recortando os termos com a certeza e a perfeição
d'um buril. E eu escutava,
varado! Que um Boileau, um pedagogo, um lambão de
côrte, permanecesse nos cimos da Poesia Franceza, com a sua
Ode
á tomada de
Namur, a sua cabelleira e a sua ferula, quando o nome do
poeta da
Lenda dos Seculos fosse como um
suspiro do vento que passou—parecia-me uma d'essas
affirmações, de rebuscada originalidade, com que
se procura assombrar os simples, e que eu mentalmente classificava de
insolente.
Tinha mil
coisas, abundantes e esmagadoras, a contestar: mas não
ousava, por não poder apresental-as n'aquella
fórma translucida e geometrica do poeta das
Lapidarias. Essa
cobardia, porém, e o esforço para reter os
protestos do meu enthusiasmo pelos Mestres da minha mocidade,
suffocava-me, enchia-me de mal-estar: e anciava só por
abalar d'aquella sala onde, com tão bolorentas
opiniões classicas, tanta rosa
nas jarras e todas as molles exhalações de
canella e mangerona,—se respirava conjuntamente um ar
abafadiço de Serralho e de Academia.
Ao mesmo tempo julgava humilhante ter soltado apenas, n'aquella
conversação com o familiar de Mazzini e d'Hugo,
miudos reparos sobre o Pedro Penedo e o carrascão das
Camêlas. E na justa ambição de
deslumbrar Fradique com um resumo critico, provando as minhas finas
letras, recorri á phrase, á lapidada phrase,
sobre a fórma do seu verso. Sorrindo, retorcendo o
buço, murmurei:—«Em
todo o caso a fórma de v. exc.
a
é um
marmore...» Subitamente, á porta que se abrira com
estrondo, surgiu Vidigal:
—Tudo prompto! gritou. Despachei o defunto!
O ministro, homem de poesia, e de eloquencia, interessára-se
francamente por aquella mumia d'um «collega», e
jurára logo poupar-lhe
o opprobrio de ser tarifada como peixe salgado. S. exc.
a
tinha mesmo
ajuntado:—«Não, senhor!
não, senhor! Ha de entrar livremente, com todas as honras
devidas a um classico!» E logo de manhã Pentaour
deixaria a Alfandega, de tipoia!
Fradique riu d'aquella designação de
classico dada a um hierogrammata do tempo de
Ramèzes—e Vidigal, triumphante, abancando ao piano, entoou
com ardor a
Grã-Duqueza.
Então eu, tomado estranhamente, sem razão, por um
sentimento de inferioridade
e de melancolia, estendi a mão para o chapéo.
Fradique não me reteve; mas os dois
passos com que me acompanhou no corredor, o seu sorriso e o seu
shake-hands,
foram
perfeitos. Apenas na rua, desabafei:—,
foram
perfeitos. Apenas na rua, desabafei:—«Que
pedante!»
Sim, mas inteiramente
novo,
dessemelhante de todos os homens que eu até ahi conhecera! E
á noite, na travessa do Guarda-Mór (occultando a
escandalosa apologia de Boileau, para nada d'elle mostrar imperfeito),
espantei J. Teixeira d'Azevedo com
um Fradique
idealisado, em que
tudo era irresistivel, as idéas, o verbo, a cabaia de
sêda, a face marmorea de Lucrecio moço, o perfume
que esparzia, a graça, a erudição e o
gosto!
J. Teixeira d'Azevedo tinha o enthusiasmo difficil e lento em fumegar.
O homem deu-lhe apenas a impressão de ser postiço
e theatral. Concordou no emtanto que convinha ir estudar «um
machinismo de
pose montado com tanto
luxo»!
Fomos ambos ao Central, dias depois, no fundo d'uma tipoia. Eu,
engravatado em setim, de gardenia ao peito. J. Teixeira d'Azevedo,
caracterisado de «Diogenes do seculo XIX», com um
pavoroso cacete ponteado de ferro, chapéo braguez orlado de
sêbo, jaquetão encardido e remendado que lhe
emprestára o creado, e grossos tamancos ruraes!... Tudo isto
arranjado com trabalho, com despeza, com intenso nojo, só
para horrorisar Fradique—e diante d'esse homem de sceptismo e de luxo,
altivamente affirmar, como democrata e como idealista, a grandeza moral
do remendo e a philosophica austeridade da nodoa! Eramos assim em 1867!
Tudo perdido! Perdida a minha gardenia, perdida a immundicie estoica do
meu camarada! O
snr.
Fradique Mendes (disse o porteiro) partira na vespera n'um vapor que ia
buscar bois a Marrocos.
III
Alguns annos passaram. Trabalhei, viajei. Melhor fui conhecendo os
homens e a realidade das coisas, perdi a idolatria da Fórma,
não tornei a lêr Baudelaire. Marcos Vidigal, que,
através da
Revolução de Setembro,
trepára da Chronica Musical á
Administração Civil, governava a
India como Secretario Geral, de novo entregue, n'esses ocios asiaticos
que lhe fazia o Estado, á
Historia da
Musica e á concertina: e levado assim esse grato
amigo do Tejo para o Mandovi eu não soubera mais do poeta
das
Lapidarias.
Nunca porém se me apagára a lembrança
do homem singular. Antes por vezes me succedia de repente
vêr, claramente
vêr,
n'um relevo quasi
tangivel—a face eburnea e fresca, os olhos côr de tabaco
insistentes e verrumando, o sorriso sinuoso e sceptico onde viviam
vinte seculos de litteratura.
Em 1871 percorri o Egypto. Uma occasião, em Memphis, ou no
sitio em que foi Memphis, navegava nas margens inundadas do Nilo, por
entre
palmeiraes que
emergiam da agua, e reproduziam sobre um fundo radiante de luar
oriental, o recolhimento e a solemnidade triste de longas arcarias de
claustros. Era uma solidão, um vasto silencio de terra
morta, apenas dôcemente quebrado pela cadencia dos remos e
pelo canto dolente do arraes... E eis que subitamente (sem que
recordação alguma
evocasse até esta imagem)—
vejo,
nitidamente
vejo, avançando com o
barco, e com elle cortando as faxas de luz e sombra, o quarto do Hotel
Central, o grande divan de côres estridentes, e Fradique, na
sua cabaia de sêda, celebrando por entre o fumo da cigarette
a immortalidade de Boileau! E eu mesmo já não
estava no Oriente, nem em Memphis, sobre as immoveis aguas do Nilo; mas
lá, entre o reps azul, sob o lustre embuçado em
tulle, diante das duas janellas que miravam o Tejo, sentindo em baixo
as carroças de ferragens rolarem para o Arsenal. Perdera
porém o acanhamento que então me enleava. E,
durante o tempo que assim remámos n'esta
decoração pharaonica
para a morada do Sheik de Abou-Kair, fui argumentando com o poeta das
Lapidarias,
e
enunciando emfim, na defeza de Hugo e Baudelaire, as coisas finas e
tremendas com que o devia ter emmudecido n'aquella tarde de agosto! O
arraes cantava os vergeis de Damasco. Eu berrava
mentalmente:—«Mas veja v. exc.
a nos
Miseraveis
a alta
lição moral...»
Ao outro dia, que era o da festa do Beiram, recolhi ao Cairo pela hora
mais quente; quando os
muezzins
cantam a terceira
oração. E ao apear do meu burro, diante do Hotel
Sheperd, nos jardins do Ezbekieh, quem hei de eu avistar? Que homem,
d'entre todos os homens, avistei eu no terraço, estendido
n'uma comprida cadeira de vime, com as mãos cruzadas por
traz da nuca, o
Times esquecido sobre os joelhos, embebendo-se
todo de calor e de luz? Fradique Mendes.
Galguei os degraus do terraço, lançando o nome de
Fradique, por entre um riso de transbordante prazer. Sem desarranjar a
sua beatitude, elle descruzou apenas um braço que me
estendeu com lentidão. O encanto do seu acolhimento esteve
na facilidade com que me reconheceu, sob as minhas lunetas azues, e o
meu vasto chapéo panamá:
—«Então como vai desde o Hotel Central?... Ha
quanto tempo pelo Cairo?»
Teve ainda outras palavras indolentes e affaveis. N'um banco ao seu
lado, todo eu sorria, limpando o pó que me
empastára a face com uma espessura de mascara. Durante o
curto e dôce momento que alli conversámos, soube
que Fradique chegára havia uma semana de Suez, vindo das
margens do Euphrates e da Persia, por onde errára, como nos
contos de fadas, um anno inteiro e um dia; que tinha um
debarieh,
com o lindo nome
de
Rosa das Aguas, já tripulado e
amarrado
á sua espera no caes de Boulak; e que ia n'elle subir o Nilo
até ao Alto Egypto, até á Nubia, ainda
para
além de Ibsambul...
Todo o sol do Mar Vermelho e das planicies do Euphrates não
lhe tostára a pelle lactea. Trazia,
exactamente como no Hotel Central, uma larga quinzena preta e um
collete branco fechado por botões de coral. E o
laço da gravata de setim negro representava bem, n'aquella
terra de roupagens soltas e rutilantes, a precisão
formalista das idéas
occidentaes.
Perguntou-me pela pachorrenta Lisboa, por Vidigal que burocratisava
entre os palmares brahmanicos... Depois, como eu continuava a esfregar
o suor e o pó, aconselhou que me purificasse n'um banho
turco, na piscina que fica ao pé da Mesquita de El-Monyed, e
que repousasse toda a tarde, para percorrermos á noite as
illuminações
do Beiram.
Mas em logar de descançar, depois do banho lustral, tentei
ainda, ao trote dôce de um burro, através da
poeira quente do deserto libyco, visitar fóra do Cairo as
sepulturas dos Kalifas. Quando á noite, na sala do Sheperd,
me sentei diante da sopa de «rabo de boi», a fadiga
tirára-me o
animo de pasmar para outras maravilhas musulmanas. O que me appetecia
era o leito fresco, no meu quarto forrado de esteiras, onde
tão romanticamente se ouviam cantar no jardim as fontes
entre os rosaes.
Fradique Mendes já estava jantando, n'uma mesa onde
flammejava, entre as luzes, um ramo enorme de cactos. Ao seu lado
pousava de leve, sobre um escabello mourisco, uma senhora, vestida de
branco, a quem eu só via a massa esplendida dos cabellos
louros, e as costas,
perfeitas e graciosas, como as d'uma estatua de Praxiteles que usasse
um collete de Madame Marcel; defronte, n'uma cadeira de
braços, alastrava-se um homem gordo e molle, cuja vasta
face, de barbas encaracoladas, cheia de força tranquilla
como a de um Jupiter, eu já decerto
encontrára algures, ou viva ou em marmore. E cahi logo
n'esta preoccupação. Em que rua, em que museu
admirára eu já aquelle rosto olympico, onde
apenas a fadiga do olhar, sob as palpebras pesadas, trahia a argilla
mortal?
Terminei por perguntar ao negro de Seneh que servia o
macarrão. O selvagem escancarou um riso de faiscante alvura
no ebano do carão redondo, e, através da mesa,
grunhiu com
respeito:—
Cé-le-diêu...
Justos céos!
Le Dieu!
Intentaria o negro affirmar que aquelle homem de barbas encaracoladas
era
um Deus—
o
Deus especial e conhecido que habitava o Sheperd!
Fôra pois n'um altar, n'uma téla devota, que eu
vira essa face, dilatada em magestade pela
absorpção perenne do incenso e da prece? De novo
interroguei o Nubio quando elle voltou erguendo nas mãos
espalmadas uma travessa que fumegava. De novo o Nubio me atirou, em
syllabas claras, bem feridas, dissipando toda a incerteza—
C'est
le Dieu!
Era um Deus! Sorri a esta idéa de litteratura—um Deus de
rabona, jantando á mesa do Hotel Sheperd. E, pouco a pouco,
da minha imaginação esfalfada foi-se evolando
não sei que sonho, esparso
e tenue, como o fumo que se
eleva de uma brazeira meio apagada. Era sobre o Olympo, e os velhos
Deuses, e aquelle amigo de Fradique que se parecia com Jupiter. Os
Deuses (scismava eu, colhendo garfadas lentas da salada de tomates)
não tinham talvez morrido: e desde a chegada de S. Paulo
á Grecia, viviam refugiados n'um valle da Laconia, outra vez
entregues, nos ocios que lhes impozera o Deus novo, ás suas
occupações
primordiaes de lavradores e pastores. Sómente, já
pelo habito que os Deuses nunca perderam de imitar os homens,
já para escapar aos ultrajes d'uma Christandade pudibunda,
os olympicos abafavam sob saias e jaquetões o esplendor das
nudezas que a Antiguidade adorára: e como tomavam outros
costumes humanos, ora por necessidade (cada dia se torna mais difficil
ser Deus), ora por curiosidade (cada dia se torna mais divertido ser
Homem), os Deuses iam lentamente consummando a sua
humanisação. Já por vezes deixavam a
doçura do seu valle bucolico; e com bahús, com
saccos de tapete, viajavam por distracção ou
negocios, folheando os
Guias Bedecker. Uns iam
estudar
nas cidades, entre a Civilisação, as maravilhas
da Imprensa,
do Parlamentarismo e do Gaz; outros, aconselhados pelo erudito Hermes,
cortavam a monotonia dos longos estios da Attica bebendo as aguas em
Vichy ou em Carlsbad: outros ainda, na saudade imperecivel das
omnipotencias passadas, peregrinavam até ás
ruinas dos templos onde outr'ora lhes era
offertado o mel e o sangue das
rezes. Assim se tornava verosimil que aquelle homem, cuja face cheia de
magestade e força serena reproduzia as
feições com que Jupiter se revelou á
Escóla
d'Athenas—fosse na realidade Jupiter, o Tonante, o Fecundador, pai
inesgotavel dos Deuses, creador da Regra e da Ordem. Mas que motivo o
traria alli, vestido de flanella azul, pelo Cairo, pelo Hotel Sheperd,
comendo um macarrão que profanadoramente se prendia
ás barbas divinas por onde a ambrosia escorrera? Certamente
o dôce motivo que através da
Antiguidade, em Céo e Terra, sempre inspirára os
actos de Jupiter—do frascario e femeeiro Jupiter. O que o podia
arrastar ao Cairo senão
alguma
saia, esse desejo esplendidamente insaciavel de deusas e de
mulheres que outr'ora tornava pensativas as donzellas da
Hellenia ao decorarem na Cartilha Pagã as datas em que elle
batera as azas de Cysne entre os joelhos de Leda, sacudira as pontas de
touro entre os braços d'Europa, gottejára em
pingos d'ouro sobre o seio de Danae, pulára em linguas de
fogo até aos labios d'Egina, e mesmo um dia, enojando
Minerva e as damas sérias do Olympo, atravessára
toda a Macedonia com uma escada ao hombro para trepar ao alto eirado da
morena Seméle? Agora, evidentemente, viera ao Cairo passar
umas férias sentimentaes, longe da Juno molle e conjugal,
com aquella viçosa mulher, cujo busto irresistivel provinha
das artes conjuntas de Praxiteles e de Madame Marcel. E ella, quem
seria ella? A côr das suas
tranças, a suave
ondulação dos seus
hombros, tudo indicava claramente uma d'essas deliciosas Nymphas das
Ilhas da Ionia, que outr'ora os Diaconos Christãos
expulsavam dos seus frescos regatos, para n'elles baptisar
centuriões cacheticos e comidos de dividas, ou velhas
matronas com pêllo no queixo, tropegas do incessante
peregrinar aos altares de Aphrodite. Nem elle nem ella porém
podiam esconder a sua origem divina: através do vestido de
cassa o corpo da Nympha irradiava uma claridade; e, attendendo bem,
vêr-se-hia a fronte marmorea de Jupiter arfar em cadencia, no
calmo esforço de perpetuamente conceber a Regra e a Ordem.
Mas Fradique? Como se achava alli Fradique, na intimidade dos
Immortaes, bebendo com elles champagne Clicquot, ouvindo de perto a
harmonia ineffavel da palavra de Jove? Fradique era um dos derradeiros
crentes do Olympo, devotamente prostrado diante da Fórma, e
transbordando de alegria pagã. Visitára a
Laconia; fallava a lingua dos
Deuses; recebia d'elles a inspiração. Nada mais
consequente do que descobrir Jupiter no Cairo, e prender-se logo ao seu
serviço, como
cicerone, nas terras barbaras de Allah. E
certamente com elle e com a Nympha da Ionia ia Fradique subir o Nilo,
na
Rosa das Aguas, até
aos derrocados templos onde Jupiter poderia murmurar, pensativo, e
indicando minas d'aras com a ponta do guarda-sol:—«Abichei
aqui muito incenso!»
Assim, através da salada de tomates, eu desenvolvia
e coordenava
estas imaginações—decidido a convertel-as n'um
Conto para publicar em Lisboa na
Gazeta de Portugal.
Devia chamar-se
A derradeira campanha de Jupiter:—e n'elle
obtinha o fundo erudito e phantasista para incrustar todas as notas de
costumes e de paizagens colhidas na minha viagem do Egypto.
Sómente, para dar ao conto um relevo de modernidade e de
realismo picante, levaria a Nympha das aguas, durante a jornada do
Nilo, a enamorar-se de Fradique e a trahir Jupiter! E eil-a
aproveitando cada recanto de palmeiral e cada sombra lançada
pelos velhos pilones d'Osiris para se pendurar do pescoço do
poeta das
Lapidarias,
murmurar-lhe coisas em grego mais dôces que os versos de
Hesiodo, deixar-lhe nas flanellas o seu aroma de ambrosia, e ser por
todo esse valle do Nilo immensamente
cochonne—emquanto o Pai dos Deuses, cofiando as
barbas encaracoladas, continuaria imperturbavelmente a conceber a
Ordem, supremo, augusto, perfeito, ancestral e cornudo!
Enthusiasmado, já construia a primeira linha do Conto:
«Era no Cairo, nos jardins de Choubra, depois do jejum do
Ramadan...»—quando vi Fradique adiantar-se para mim, com a
sua chavena de café na mão. Jupiter tambem se
erguera,
cançadamente. Pareceu-me um Deus pesado e molle, com um
principio de obesidade, arrastando a perna tarda, bem proprio para o
ultrage que eu lhe preparava na
Gazeta de Portugal.
Ella
porém tinha a harmonia,
o aroma, o andar, a
irradiação d'uma
Deusa!... Tão realmente divina que resolvi logo
substituir-me a Fradique no Conto, ser eu o
cicerone, e com os Immortaes vogar á
véla e á
sirga sobre o rio de immortalidade! Junto á minha face,
não
á de Fradique, balbuciaria ella, desfallecendo de
paixão entre os granitos sacerdotaes de Medinet-Abou, as
coisas mais dôces da
Anthologia! Ao menos, em sonho, realisava uma
triumphal viagem a Thebas. E faria pensar aos assignantes da
Gazeta
de
Portugal:—«O que elle por lá
gozou!»
Fradique sentára-se, recebendo, de Jove e da Nympha que
passavam, um sorriso cuja doçura tambem me envolveu.
Vivamente puxei a cadeira para o poeta das
Lapidarias:
—Quem é este homem? Conheço-lhe a cara...
—Naturalmente, de gravuras... É Gautier!
Gautier! Theophilo Gautier! O grande Theo! O mestre impeccavel! Outro
ardente enlevo da minha mocidade! Não me enganára
pois inteiramente. Se não era um Olympico—era pelo menos o
derradeiro Pagão, conservando, n'estes tempos de abstracta e
cinzenta intellectualidade, a religião verdadeira da Linha e
da Côr! E esta intimidade de Fradique com o auctor de
Mademoiselle
de
Maupin, com o velho paladino de
Hernani,
tornou-me logo mais precioso este compatriota que dava á
nossa gasta Patria um lustre tão original! Para saber se
elle preferia aniz ou genebra acariciei-lhe a manga com meiguice. E foi
em mim um extase
ruidoso, diante da sua agudeza, quando elle me aclarou o grunhir do
negro de Seneh. O que eu tomára pelo annuncio d'uma
presença divina significava apenas—
c'est le deux!
Gautier no
hotel occupava o quarto numero dois. E, para o barbaro, o plastico
mestre do Romantismo era apenas—
o
dois!
Contei-lhe então a minha phantasia pagã, o Conto
que ia trabalhar, os perfeitos dias de paixão que lhe
destinava na viagem para a Nubia. Pedi mesmo permissão para
lhe dedicar a
Derradeira Campanha de Jupiter. Fradique sorriu,
agradeceu. Desejaria bem (confessou elle) que essa fosse a realidade,
porque não se podia encontrar mulher de mais genuina belleza
e de mais aguda seducção do que essa Nympha das
aguas, que se chamava Jeanne Morlaix, e era comparsa dos
Delassements-Comiques.
Mas, para seu
mal, a radiosa creatura estava caninamente namorada de um Sicard,
corretor de fundos, que a trouxera ao Cairo, e que fôra
n'essa tarde, com banqueiros gregos, jantar aos jardins de Choubra...
—Em todo o caso, accrescentou o originalissimo homem, nunca
esquecerei, meu caro patricio, a sua encantadora
intenção!
Descartes, zombando, creio eu, da physica Epicuriana ou atomista, falla
algures das affeiçoes produzidas pelos
Atomes
crochus, atomos
recurvos, em fórma de colchete ou d'anzol, que se engancham
invisivelmente de coração a
coração, e formam essas
cadeias,
resistentes como o bronze de Samothracia,
que para sempre ligam e fundem dois sêres, n'uma constancia
vencedora da Sorte e sobrevivente á Vida. Um qualquer
nada
provoca esse fatal ou providencial enlaçamento d'atomos. Por
vezes um olhar, como desastradamente em Verona succedeu a Romeu e
Julieta: por vezes o impulso de duas creanças para o mesmo
fructo, n'um vergel real, como na amizade classica de Orestes e
Pylades. Ora, por esta theoria (tão satisfatoria como
qualquer outra em Psychologia affectiva), a esplendida aventura de
amor, que eu tão generosamente reservára a
Fradique na
Ultima campanha de
Jupiter, seria a causa mysteriosa e inconsciente, o
nada que determinou a sua primeira sympathia para
commigo, desenvolvida, solidificada depois em seis annos de intimidade
intellectual.
Muitas vezes, no decurso da nossa convivencia, Fradique alludiu
gratamente a essa minha
encantadora
intenção de lhe atar em torno
do pescoço os braços de Jeanne Morlaix.
Fôra elle captivado pela sinuosa e poetica homenagem que eu
assim prestava ás suas seducções de
homem?
Não sei.—Mas, quando nos erguemos para ir vêr as
illuminações do Beiram, Fradique Mendes, com um
modo novo, aberto, quente, quasi intimo, já me tratava por
vossê.
As illuminações no Oriente consistem, como as do
Minho, de tigellinhas de barro e de vidro onde
arde um pavio ou uma mecha
d'estopa. Mas a descomedida profusão com que se prodigalisam
as tigellinhas (quando as paga o Pachá) torna as velhas
cidades meio arruinadas, que assim se enfeitam em louvor de Allah,
realmente deslumbrantes—sobretudo para um occidental besuntado de
litteratura, e inclinado a vêr por toda a parte, reproduzidas
no moderno Oriente, as muito lidas maravilhas d'essas
Mil e
uma noites
que ninguem jámais leu.
Na celebração do Beiram (custeada pelo Khediva),
as tigellinhas eram incontaveis—e todas as linhas do Cairo, as mais
quebradas e as mais fugidias, resaltavam na escuridão,
esplendidamente sublinhadas por um risco de luz. Longas fieiras de
pontos refulgentes marcavam a borda dos eirados; as portas abriam sob
ferraduras de lumes; dos toldos pendia uma franja que faiscava; um
brilho tremia, com a aragem, sobre cada folha d'arvore; e os minaretes,
que a Poesia Oriental classicamente compara desde seculos aos
braços da Terra levantados para o Céo,
ostentavam, como braços em noite de festa, um luxo de
braceletes fulgindo na treva serena. Era (lembrei eu a Fradique) como
se durante todo o dia tivesse cahido sobre a sordida cidade uma grossa
poeirada d'ouro, pousando em cada friso de
moucharabieh e em cada grade de varandim, e agora
rebrilhasse, com radiosa saliencia, na negrura da noite calma.
Mas, para mim, a belleza especial e nova estava
na multidão festiva
que atulhava as praças e os bazares—e que Fradique,
através do rumor e da poeira, me explicava como um livro de
estampas. Com quanta profundidade e miudeza conhecia o Oriente este
patricio admiravel! De todas aquellas gentes, intensamente diversas
desde a côr até ao traje—elle sabia a
raça, a historia, os costumes, o logar proprio na
civilisação musalmana.
Devagar, abotoado n'um paletot de flanella, com um chicote de nervo
(que é no Egypto o emblema de Auctoridade) entalado debaixo
do braço, ia apontando, nomeando á minha
curiosidade flammejante essas estranhas figuras, que eu comparava,
rindo, ás d'uma mascarada fabulosa, arranjada por um
archeologo em noite de folia erudita para reproduzir as
«modas» dos Semitas e os seus
«typos» através
das idades:—aqui Fellahs, ridentes e ageis na sua longa camisa de
algodão azul; além Beduinos
sombrios, movendo gravemente os pés entrapados em ligaduras,
com o pesado alfange de bainha escarlate pendurado no peito; mais longe
Abadiehs, de grenha em fórma de mêda,
eriçada de longas
cerdas de porco-espinho que os corôam d'uma aureola negra...
Estes, de porte insolente; com compridos bigodes esvoaçando
ao vento, armas ricas reluzindo nas cintas de sêda, e curtos
saiotes tufados e encanudados, eram Arnautas da Macedonia; aquelles,
bellas estatuas gregas esculpidas em ebano, eram homens do Sennar; os
outros, com a cabeça envolta n'um lenço amarello
cujas franjas immensas lhes faziam
uma romeira de fios d'ouro,
eram cavalleiros do Hedjaz... E quantos ainda elle me fazia distinguir
e comprehender! Judeus immundos, de caracoes frisados; Coptas togados
á maneira de senadores; soldados pretos do Darfour, com
fardetas de linho ennodoadas de poeira e sangue; Ulemas de turbante
verde; Persas de mitra de feltro; mendigos de mesquita, cobertos de
chagas; amanuenses turcos, pomposos e anafados, de collete bordado a
ouro... Que sei eu! Um Carnaval rutilante, onde a cada momento
passavam, sacudidos pelo trote dos burros sobre albardas vermelhas,
enormes saccos enfunados—que eram mulheres. E toda esta turba
magnifica e ruidosa se movia entre invocações a
Allah, repiques de pandeiretas, gemidos estridentes partindo das cordas
das
dourbakas, e
cantos lentos—esses cantos arabes, d'uma voluptuosidade tão
dolente e tão aspera, que Fradique dizia
passarem n'alma com uma «caricia rascante». Mas por
vezes, entre o casario decrepito e rendilhado, surgia uma frontaria
branca, casa rica de Sheik ou de Pachá, com a varanda em
arcarias, por onde se avistavam lá dentro, n'um silencio de
harem, sêdas
colgantes, recamos d'ouro, um tremor de lumes no crystral dos lustres,
fórmas airosas sob véos
claros... Então a multidão parava, emmudecia, e
de todos os labios sahia um grande
ah!
languido e maravilhado.
Assim caminhavamos, quando, ao sahir do Moujik, Fradique Mendes parou,
e, muito gravemente,
trocou com um moço pallido, de esplendidos olhos, o
salam—essa
saudação oriental em que os dedos tres vezes
batem a testa, a bôca e o
coração. E como eu, rindo, lhe invejava aquella
intimidade com um «homem de tunica verde e de mitra
persa»:
—É um Ulema de Bagdad, disse Fradique, d'uma casta antiga,
superiormente intelligente... Uma das personalidades mais finas e mais
seductoras que encontrei na Persia!
Então, com a familiaridade que se ia entre nós
accentuando, perguntei a Fradique o que o detivera assim na Persia um
anno inteiro e um dia como nos contos de fadas. E Fradique, com toda a
singeleza, confessou que se demorára tanto nas margens do
Euphrates por se achar casualmente ligado a um movimento religioso que,
desde 1849, tomava na Persia um desenvolvimento quasi triumphal, e que
se chamava o
Babismo. Attrahido para essa nova seita por
curiosidade critica, para observar como nasce e se funda uma
Religião, chegára pouco a pouco a ganhar pelo
Babismo um interesse militante—não por
admiração da doutrina, mas por
veneração dos apostolos. O Babismo (contou-me
elle, seguindo por uma viella mais solitaria e favoravel ás
confidencias) tivera por iniciador certo Mirza-Mohamed, um d'esses
Messias que cada dia surgem na incessante
fermentação religiosa do Oriente, onde a
religião é a occupação
suprema e querida da
vida. Tendo
conhecido os Evangelhos Christãos por contacto com os
Missionarios; iniciado na pura tradição
mosaista pelos judeus do Hiraz; sabedor profundo do Guebrismo, a velha
religião nacional da Persia—Mirza-Mohamed
amalgamára estas doutrinas com uma
concepção mais abstracta e pura do Mahometismo, e
declarára-se
Bab. Em
persa
Bab quer dizer
Porta. Elle era, pois, a
porta—a
unica
porta através da qual os homens
poderiam jámais penetrar na absoluta Verdade. Mais
litteralmente, Mirza-Mohamed apresentava-se como o grande
porteiro, o homem eleito entre todos pelo Senhor
para abrir aos crentes a porta da Verdade—e portanto do Paraiso. Em
resumo era um Messias, um Christo. Como tal atravessou a classica
evolução dos
Messias: teve por primeiros discipulos, n'uma aldeia obscura, pastores
e mulheres: soffreu a sua
tentação na montanha: cumpriu as penitencias
expiadoras: prégou parabolas: escandalisou em
Méca os doutores: e padeceu a sua Paixão,
morrendo, não me lembro se degolado, se fuzilado, depois do
jejum do Rhamadan, em Tabriz.
Ora, dizia Fradique, no mundo musulmano ha duas divisões
religiosas—os Sieds e os Sunis. Os Persas são Sieds, como
os Turcos são Sunis. Estas
differenças porém, no fundo, têm um
caracter mais politico e de raça, do que theologico e de
dogma; ainda que um fellah do Nilo desprezará sempre um
persa do Euphrates como
heretico e
sujo. A
discordancia resalta, mais
viva e teimosa,
logo que Sieds ou Sunis necessitem pronunciar-se perante uma nova
interpretação de doutrina ou uma nova
apparição de propheta. Assim o
Babismo entre os Sieds, topára com uma hostilidade que se
avivou até á
perseguição:—a isto desde logo indicava que
seria acolhido pelos Sunis com deferencia e sympathia.
Partindo d'esta idéa, Fradique, que em Bagdad se
ligára familiarmente com um dos mais vigorosos e
auctorisados apostolos do Babismo, Said-El-Souriz (a quem
salvára o filho d'uma febre paludosa com
applicações de
Fruit-salt), suggerira-lhe um dia, conversando
ambos no eirado sobre estes altos interesses espirituaes, a
idéa de apoiar o Babismo nas raças agricolas do
valle do Nilo e nas raças nómadas da Libya. Entre
homens de seita
Suni, o Babismo encontraria um campo facil ás
conversões; e, pela tradicional marcha dos movimentos
sectarios, que no Oriente, como em toda a parte, sobem das massas
sinceras do povo até ás classes cultas, talvez
essa nova onda de emoção
religiosa, partindo dos Fellahs e dos Beduinos, chegasse a penetrar no
ensino de alguma das mesquitas do Cairo, sobretudo na mesquita de
El-Azhar, a grande Universidade do Oriente, onde os ulemas mais
moços formam uma cohorte de enthusiastas sempre disposta
ás innovações e aos
apostolados combattentes. Ganhando ahi auctoridade theologica, e
litterariamente polido, o Babismo poderia então atacar com
vantagem as velhas fortalezas do Musulmanismo
dogmatico. Esta
idéa penetrára profundamente em Said-El-Souriz.
Aquelle moço pallido, com quem elle trocára o
salam,
fôra logo mandado como emissario babista a Medinet-Abou (a
antiga Thebas), para sondar o Sheik Ali-Hussein, homem de decisiva
influencia em todo o valle do Nilo pelo seu saber e pela sua virtude: e
elle, Fradique, não tendo agora no Occidente
occupações attractivas, cheio
de curiosidade por este pittoresco Advento, partia tambem para Thebas,
devendo encontrar-se com o babista, á lua mingoante, em
Beni-Soueff, no Nilo...
Não recordo, depois de tantos annos, se estes eram os factos
certos. Só sei que as
revelações de Fradique, lançadas assim
através do Cairo em festa, me impressionaram indizivelmente.
Á medida que elle fallava do Bab, d'essa missão
apostolica ao velho Sheik de Thebas, de uma outra fé
surgindo no mundo musulmano com o seu cortejo de martyrios e d'extasis,
da possivel fundação de
um imperio Babista—o homem tomava aos meus olhos
proporções grandiosas. Não
conhecera jámais ninguem envolvido em coisas tão
altas: e sentia-me ao mesmo tempo orgulhoso e aterrado de receber este
segredo sublime. Outra não seria minha
commoção, se, nas vesperas de S. Paulo embarcar
para a Grecia, a levar a Palavra aos gentilicos, eu tivesse com elle
passeado pelas ruas estreitas de Seleucia, ouvindo-lhe as
esperanças e os sonhos!
Assim conversando, penetrámos no adro da
mesquita de El-Azhar onde mais
fulgurante e estridente tumultuava a festa do Beiram. Mas já
não me prendiam as surprezas d'aquelle arraial
musulmano—nem
almées
dançando entre brilhos de vermelho e d'ouro; nem poetas do
deserto recitando as façanhas d'Antar; nem Derviches, sob as
suas tendas de linho, uivando em cadencia os louvores d'Allah...
Calado, invadido pelo pensamento do Bab, revolvia commigo o confuso
desejo de me aventurar n'essa campanha espiritual! Se eu partisse para
Thebas com Fradique?... Porque não? Tinha a mocidade, tinha
o enthusiasmo. Mais viril e nobre seria encetar no Oriente uma carreira
de evangelista, que banalmente recolher á banal Lisboa, a
escrevinhar tiras de papel, sob um bico de gaz, na
Gazeta de
Portugal! E pouco
a pouco d'este desejo, como d'uma agua que ferve, ia subindo o vapor
lento d'uma visão. Via-me discipulo do Bab—recebendo n'essa
noite, do ulema de Bagdad, a iniciação da
Verdade. E partia logo a prégar, a espalhar o verbo babista.
Onde iria? A Portugal certamente, levando de preferencia a
salvação ás
almas que me eram mais caras. Como S. Paulo, embarcava n'uma galera: as
tormentas assaltavam a minha prôa apostolica: a imagem do Bab
apparecia-me sobre as aguas, e o seu sereno olhar enchia minha alma de
fortaleza indomavel. Um dia, por fim, avistava terra, e na
manhã clara sulcava o claro Tejo, onde ha tantos seculos
não entra um enviado de Deus. Logo de longe
lançava uma injuria ás
igrejas
de Lisboa,
construcções d'uma Fé
vetusta e menos pura. Desembarcava. E, abandonando as minhas bagagens,
n'um desprendimento já divino de bens ainda terrestres,
galgava aquella bemdita rua do Alecrim, e em meio do Loreto,
á hora em que os Directores Geraes sobem devagar da Arcada,
abria os braços e bradava:—«Eu sou a
Porta!»
Não mergulhei no Apostolado babista—mas succedeu que,
enlevado n'estas phantasmagorias, me perdi de Fradique. E
não sabia o caminho do Hotel Sheperd,—nem, para d'elle me
informar, outros termos uteis, em arabe, além de
agua e
amor! Foram angustiosos momentos em que farejei
estonteado pelo largo de El-Azhar, tropeçando nos fogareiros
onde fervia o café, esbarrando inconsideradamente
contra rudes beduinos armados. Já por sobre a turba atirava,
aos brados, o nome de Fradique—quando topei com elle olhando
placidamente uma
almée que
dançava...
Mas seguiu logo, encolhendo os hombros. Nem me permittiu adiante
admirar um poeta, que, em meio de fellahs pasmados e de Moghrebinos
arrimados ás lanças, lia, n'uma toada langorosa e
triste, tiras de papel ensebado. A Dança e a Poesia,
affirmava Fradique, as duas grandes artes orientaes, iam em miserrima
decadencia. N'uma e outra se tinham perdido as
tradições do estylo puro. As
almées,
pervertidas
pela influencia dos casinos do Ezbequieh onde se perneia o
can-can—já polluiam a graça das velhas
danças arabes, atirando
a perna pelos ares á
moda vil de Marselha! E na Poesia triumphava a mesma banalidade,
mesclada de extravagancia. As fórmas delicadas do
classicismo persa nem se respeitavam, nem quasi se conheciam; a fonte
da imaginação seccava entre os
musulmanos; e a pobre Poesia Oriental, tratando themas vetustos com uma
emphase preciosa, descambára, como a nossa, n'um
Parnasianismo
barbaro...
—De sorte, murmurei, que o Oriente...
—Está tão mediocre como o Occidente.
E recolhemos ao hotel, devagar, emquanto Fradique, findando o charuto,
me contava que o espirito oriental, hoje, vive só da
actividade philosophica, agitado cada manhã por uma nova e
complicada concepção da Moral, que lhe offerecem
os Logicos dos bazares e os Metaphysicos do deserto...
Ao outro dia acompanhei Fradique a Boulak, onde elle ia embarcar para o
Alto Egypto. O seu
debarieh esperava, amarrado
á estacaria, rente das casas do Velho Cairo, entre barcas
d'Assouan, carregadas de lentilha e de cana dôce. O sol
mergulhava nas areias libycas: e ao alto, o céo adormecia,
sem uma sombra, sem uma nuvem, puro em toda a sua profundidade como a
alma d'um justo. Uma fila de mulheres coptas, com o cantaro amarello
pousado no hombro, descia cantando para a agua do Nilo, bemdita entre
todas as aguas. E os ibis, antes de recolher aos ninhos, vinham, como
no tempo em que eram Deuses, lançar por sobre os eira
esperava, amarrado
á estacaria, rente das casas do Velho Cairo, entre barcas
d'Assouan, carregadas de lentilha e de cana dôce. O sol
mergulhava nas areias libycas: e ao alto, o céo adormecia,
sem uma sombra, sem uma nuvem, puro em toda a sua profundidade como a
alma d'um justo. Uma fila de mulheres coptas, com o cantaro amarello
pousado no hombro, descia cantando para a agua do Nilo, bemdita entre
todas as aguas. E os ibis, antes de recolher aos ninhos, vinham, como
no tempo em que eram Deuses, lançar por sobre os eirados,
com um bater d'azas contentes, a benção
crepuscular.
Baixei, atraz de Fradique, ao salão do
debarieh, envidraçado, estofado, com
armas penduradas para as manhãs de caça, e rumas
de livros para as
séstas de estudo e de calma quando lentamente se navega
á sirga. Depois, durante momentos, no convés,
contemplámos silenciosamente aquellas margens que,
através das compridas idades, têm feito o
enlevo de todos os homens, por todos sentirem que n'ellas a vida
é cheia de bens maiores e de
doçura suprema. Quantos, desde os rudes Pastores que
arrazaram Thanis, aqui pararam como nós, alongando para
estas aguas, para estes céos, olhos cobiçosos,
extaticos ou saudosos: Reis de Judá, Reis de Assyria,
Reis da Persia; os Ptolomeus magnificos;
Prefeitos de Roma e Prefeitos de Byzancio; Amrou enviado de Mahomet, S.
Luiz enviado de Christo; Alexandre-o-Grande sonhando o imperio do
Oriente, Bonaparte retomando o immenso sonho; e ainda os que vieram
só para contar da terra adoravel, desde o loquaz Herodoto
até ao primeiro Romantico, o homem pallido de grande
pose que disse as dôres de
«Réné»! Bem conhecida
é ella, a paizagem divina e sem igual. O Nilo corre,
paternal e fecundo. Para além verdejam, sob o vôo
das pombas, os jardins e os pomares de Rhodah. Mais longe as palmeiras
de Giseh, finas e como de bronze sobre o ouro da tarde, abrigam aldeias
que têm a simplicidade de ninhos. Á orla do
deserto, erguem-se, no orgulho da sua eternidade, as tres Pyramides.
Apenas isto—e para sempre a alma
fica presa e lembrando, e para
viver n'esta suavidade e n'esta belleza os povos travam entre si longas
guerras.