A fraterna piedade de Augusto Nobre e a saudade amiga de Justino de Montalvão honraram-me com o pedido commovente de algumas linhas que acompanhassem este volume posthumo. Tendo organisado a nota que precede os fragmentos, ao deante publicados, do poema O Desejado, hesitei grandemente em acquiescer á solicitação que refiro. Temi que malignas malevolencias acaso increpassem como de impertinente intromettimento essas linhas sinceras e innocentes. E ellas seriam, de facto, com severidade condemnaveis, desde que as dictassem pedantescas pretensões de recommendação ás delicadas leituras. O nôme do poeta não é sómente conhecido; está decisivamente consagrado. Um prosador incorrecto e secco não conseguiria senão tornar-se ridiculo, quando tam improcedente estimulo fôsse a impulsional-o.

Assim meditava e quasi me resolvia por uma polida escusa, que me magoaria aliaz; porém mais se radicou em meu animo o motivo antagonico que me convidara a ceder á captivante seducção do pedido, feito pelo irmão e pelo companheiro.

Lembrava-me e lembrei-me de que fôra eu quem, sem sequer de vista o conhecer, apontou ao publico culto o original, promettedor talento d'aquelle moço ignorado então.

Concorrendo n'um effeito de beneficencia, apparecera no Porto um volumesinho de versos, collaborado principalmente por academicos, sob o titulo generico e designativo de Um bouquet de sonetos. Eu lêra as composições contidas na sympathica collecção e prestei preferente cuidado áquellas que a novos, sem notoriedade ainda, pertenciam. Entre essas, primacialmente sobresahia o soneto de Antonio Nobre, nôme que eu havia notado já, por subscrever, em revistas litterarias de collegiaes, infantilidades onde perpassava uma restea do fulgor divino. Fundára, por esse tempo, um diario de propaganda politica A Discussão; na secção litteraria da folha estampei um artigo longo ácerca do opusculo que me attrahira o reparo; Gomes Leal replicou-me, com motivo d'algumas affirmativas minhas, concernentemente á fórma e á essencia do genero artistico. E no modesto estudo com que momentaneamente quebrei, confugindo, a monotonia acre das acerbas recriminações partidarias, indiquei o nôme do joven poeta, como o de alguem que tinha personalidade e viria a ser muito.

Veio, na verdade, a ser muito: tam fino, candidamente malicioso, dôce, ingenuo era seu temperamento; tam sincera sua tristeza; tam moderno seu gosto; tam nacionalista seu sentir, na patria e na familia; tam suggestiva sua imaginação, ardorosa e melancholica!

Ora, já quando, na jubilosa plenitude da consciencia esthetica, o escriptor preparava em Paris o original definitivo do seu volume , como quer que ao mesmo Paris, sceptico e arisco na banalidade d'uma affectuosidade de superficie, me atirasse uma onda centrifuga do atroz redomoinho, elle mostrou-me que não esquecera as palavras do jornalista portuense, as quaes só um merito possuiam, o de se haverem coadunado com o lealismo d'uma emoção espontanea. Na escura rua de Trévise me procurou, abandonando por horas a sua preferida margem-esquerda, de que lhe era tam penoso afastar-se, Antonio Nobre, uma tarde em que eu soffria cruelmente. Esta visita sensibilisou me; como me encantou a conversação do poeta, pelo tom subtil da melindrosa reserva na consolação, a um tempo caridosa e primorosa, d'um'alma em carne viva, como a minha por então andava.

Só no Porto novamente me reencontrei, conversando, com Antonio Nobre; de volta do exilio eu, de regresso da illusão de estancias salvadoras elle. Ambos viajaramos; ambos conheceramos a glacial indifferença do homem; o poeta e o politico encontravamo-nos na identidade d'uma amarga desesperança tranquilla. Separamo-nos depois de uma hora, melhorados para um instante.

Não o tornei a vêr; sabia qua ia cada vez mais a peor, n'este rude Porto, fatal, physica e moralmente, ás naturezas susceptivelmente quintessenciadas como a d'elle. Subito entrou em minha casa Justino de Montalvão, para que eu estivesse á noite na egreja, a ajudar a conduzir o nosso amigo, no seu caixão, para a sua tarima. Eis o desfecho de tudo.

Nunca me affligiu a minha aridez verbal como agora, em que me daria um orgulho ineffavel o poder fallar do talento d'este querido morto com palavras encantadas, que embebessem a leitura n'uma idealidade sonhada.

Pouso a penna aspera; demasiado dilacerou o papel; o dever da gratidão está cumprido; mas quedaria ainda faina para a critica perspicaz e expressiva. Como indispensavel, tocante elemento informativo, tenho aqui a fazer uma referencia ao titulo do volume, Despedidas. Este titulo foi escolhido pelo poeta. Criminosa impiedade seria que d'outrem emanasse.

Em uma das crises de pungente desanimo que frequentemente o assaltavam no ultimo periodo da implacavel enfermidade a que succumbiu, pediu elle que, se viesse a morrer antes de poder publicar o seu livro, lhe dessem o titulo de Despedidas, significando este a sua retirada da vida litteraria; mas mais tarde deu a perceber claramente que assim o escolhera, por serem as suas ultimas poesias, visto que tinha perdido a esperança de cura da doença que o torturava. Ainda só quinze dias antes da data fatal do seu trespasso, quiz elle ir para a aldeia, com tenções de passar a limpo todas as suas poesias e de escrever definitivamente O Desejado, que, como se frisa na nota que lhe precede hoje os fragmentos, o poeta tinha todo in mente, mas muito incompleto nos seus cadernos de apontamentos.

D'estas linhas que acima ficam se deprehende que jámais lograram os versos que sahem agora a lume o ser corrigidos por seu auctor. Se imperfeições aqui ou alli acaso os maculem, acate-se o legitimo escrupulo que não se atreveu a sujeitar o texto a alheia revisão minuciosa. Elle foi recebido como uma herança de coração; com inquieto sobresalto, julgou-se sacrilego que ella não fosse assaz respeitada.

Todavia, esta advertencia era indispensavel, para obviar a quaesquer reparos que o livro actual podesse offerecer a uma leitura ou hostil ou sequer fria. Não é a essa especie de critica, a qual não comprehende porque não sente, que o editor confia a obra posthuma do poeta a quem amou e cuja inolvidanda memoria o penetra d'uma inexhaurivel saudade. A verdadeira critica, a critica san, fal-a-ha o leitor melhormente dotado, com apurar que o livro actual, fragmentario consoante é, confirma a gloria de Antonio Nobre, cuja figura litteraria destacará como uma das mais accentuadas d'entre as mais accentuadas da nova geração portugueza.

José Pereira de Sampaio (Bruno).

 

 

 

 

SONETOS

 

 

 

 

1

Logica

Ai d'aquelles que, um dia, depozeram
Firmes crenças n'um bem que lhes voou!
Ai dos que n'este mundo ainda esperam!
Terão a sorte de quem já esperou...

Ai dos pobrinhos, dos que já tiveram
Oiro e papeis que o vento lhes levou!
Ai dos que tem, que ainda não perderam,
Que amanhã, serão pobres como eu sou.

Ai dos que, hoje, amam e não são amados,
Que, algum dia, o serão, mas sem poder!
Ai dos que soffrem! ai dos desgraçados

Que, breve, não terão mais p'ra soffrer!
Ai dos que morrem, que lá vão levados!
Ai de nós que ainda temos de viver!

Pampilhoza, 1895.

2

Ao Cahir das Folhas

A MINHA IRMÃ MARIA DA GLORIA

Podessem suas mãos cobrir meu rosto,
Fechar-me os olhos e compôr-me o leito,
Quando, sequinho, as mãos em cruz no peito,
Eu me fôr viajar para o Sol-posto.

De modo que me faça bom encosto,
O travesseiro comporá com geito.
E eu tão feliz! por não estar affeito,
Hei-de sorrir, Senhor! quazi com gosto.

Até com gosto, sim! Que faz quem vive
Orpham de mimos, viuvo de esperanças,
Solteiro de venturas, que não tive?

Assim, irei dormir com as crianças
Quazi como ellas, quazi sem peccados...
E acabarão emfim os meus cuidados.

Clavadel, outubro, 1895.

3

Á SUPERIORA D'UM CONVENTO DE PARIS

Não me esqueço de si, minha Mãe, fôra
Onde fôra. Ao contrario, lembro ás vezes
Essa viagem nossa (de ha alguns mezes)
Sobre as agoas do mar! Se fosse agora...

Oh o encanto da viagem seductora!
Que bem me disse então dos Portuguezes!
Que faria hoje! foram-se os revezes!
O que lá vae pela Africa, Senhora!

Depois, ao separarmo-nos no Tejo,
Disse-me (com que voz e com que modos!)
«Deus o faça feliz, ao seu desejo!»

Mas não fez, minha Mãe! Talvez no céo...
Porque afinal os homens quazi todos
Têm sido e são muito mais maus do que eu...

St. Johann Am-Platz, 1896.

4

Nossos amores foram desgraçados,
Desgraçada paixão! tristes amores!
Se Deus me dá assim tamanhas dores,
É porque grandes são os meus peccados.

Quando virão os dias desejados?
Quando virá Maio para eu vêr flores?
Nunca mais! ainda bem, santos horrores!
Que os pobres dias meus estão contados.

Passo os dias mettido no meu moinho,
E móe que móe saudades e tristezas,
Moleiro que no mundo está sósinho.

Os lavradores destas redondezas
Queixam-se até de que a farinha á data
Tanta é que «está de rastos de barata...»

St. Johann Am-Platz, 1896.

5

Placidamente, bate-me no peito
Meu coração que tanto tem batido!
E para mim, inda este mundo é estreito
P'ra conter tudo, quanto eu hei soffrido.

Meus dias vão passando como as agoas
Que o vento leva em ondas, ao mar-alto,
E se de noite eu oiço aquellas mágoas
Já não descanço mais, em sobresalto.

Placidamente, bate-me no peito
Meu coração em luctas tão desfeito,
Que com a Vida, a Dôr hei confundido.

E se se ganha a Paz com o soffrimento,
Deixae-me entrar emfim n'esse Convento...
Pois ha quem tenha, assim como eu, soffrido!

Berne, maio, 1896.

6

Apparição

Á VIRGEM SANTISSIMA

Pelas espadas que tu tens no peito,
Pelos teus olhos rôxos de chorar,
Pelo manto que trazes de astros feito,
Por esse modo tão lindo de andar;

Por essa graça e esse suave geito,
Pelo sorriso (que é de sol e luar)
Por te ouvir assim sobre o meu leito,
Por essa voz, baixinho: «Ha-de sarar...»

Por tantas bençãos que eu sinto n'alma,
Quando chegando vens, assim tão calma,
Pela cinta que trazes, côr dos ceus:

Adivinhei teu nome, Apparição!
Pois consultando manso o coração
Senti dizer em mim «A Mãe de Deus!»

Lausanna, junho, 1896.

7

Todas as tardes, vou Léman acima
(E leve o tempo passa nessas tardes)
A pensar em Coimbra. Que saudades!
Diogo Bernardes deste meigo Lima.

Na solidão, pensar em ti, anima,
Oh Coimbra sem par, flôr das Cidades!
Os rapazes tão bons nessas idades
(Antes que a Vida ponha a mão em cima...)

Alegres cantam nos teus arrabaldes.
Por mais que tire vêm cheios os baldes,
Mar de recordações, poço sem fundo!

Freirinhas de Tentugal, passos lentos!
E o chá com bolos, dentro dos conventos!
Meu Deus! meu Deus! e eu sempre a errar no Mundo!

Lausanna, junho, 1896.

8

A MEU IRMÃO AUGUSTO

Léman azul, que, mudo e morto, jazes.
Quanto és feliz! assim podesse eu sel-o!
Nem a sombra dos montes, nem seu gêlo,
De turvar tuas agoas são capazes.

Minhas cartas inuteis de doutor
Eu rasgaria, é certo, com prazer,
Se eu podesse um dia vir a ser
Dessas ondas, um simples pescador.

Léman azul, nas agoas socegadas,
Quantas vidas tu levas confiadas!
Pareces ver meu mal, e escarnecel-o!

Só do meu coração, ao alto-mar,
Ninguem se quiz ainda sujeitar.
Quanto és feliz! assim podesse eu sel-o!

Villeneuve, junho, 1896.

9

A JUSTINO DE MONTALVÃO

Em St. Maurice (aqui perto) ha um convento
De Franciscanos. Fui-me lá ha dias.
Quando eu entrei, tocava a Avè-Marias.
Iam ceiar. Fóra mugia o vento.

Um pallido Christo, ao fundo da sala,
Espalha em redor seu alvo clarão;
E, quando se reflecte a Cruz pelo chão,
Os frades ingenuos não ousam pisal-a.

«Meu irmão...» disseram, ao verem-me á porta.
Vontade, Senhor, tive eu de chorar!
Tão só me sentia, pela noite morta...

E quando na volta, á luz das estrellas,
Meu doido passado me vim a evocar,
Pensei no perdão d'uma alma d'aquellas.

Bex, junho, 1896.

10

Senhora! a todas as novenas ides,
E porque vós lá ides, vou tambem.
É um descanço sem par ás minhas lides,
Aos meus males, e em summa faz-me bem.

Essas graças que tendes (vós sorrides?)
Só nas flôres as vejo, em mais ninguem.
Se o vosso corpo é magro como as vides,
Os cachos d'uvas que o cabello tem!

Fazeis-me andar n'uma continua roda,
Pelas igrejas da cidade toda,
S. Luiz de França, Encarnação e mais.

Senhora! assim commigo em beato dais,
Faço-me frade e vou para um convento...
E adeus! que lá se vae o cazamento!

Lisboa, janeiro, 1897.

11

Ha já duzentos soes, ha quatro luas,
Que te pedi que a Igreja abandonasses.
Tu és cruel, Senhora! continúas,
Como se agora apenas começasses.

Á sexta-feira e ao sabbado jejuas,
E tanto te pedi que não jejuasses.
E o que dóe mais, Senhora, é que insinuas
Em voz que tanto dóe: «Se me imitasses...»

Nenhuns peccados tens. És anjo e santa.
Boa como o ceu, simples como a planta,
Cozes p'ros pobres, fazes boas-obras!

Quaes são os teus peccados? peccadores
Senhora! são os vossos confessores.
Homens e basta: são máos como as cobras!

Lisboa, 1897.

12

Monologo d'Outubro

A MEU IRMÃO AUGUSTO

Outomno, meu Outomno, ah! não te vás embora!
Ás minhas, eu comparo as tuas extranhezas.
Ah! nos teus dias não ha Julhos nem aurora,
E só crepusculos... Crepusculos são tristezas!

E tu que já passaste o Outomno só commigo
Não pensas ao cahir de tantas agonias
Nas minhas, que tu sabes, ó meu melhor amigo?
Cahi, folhas, cahi! tombae melancholias!

Ides morrer, folhas! mas morrer que importa?
Lá vae mais uma... mal nasceu e já vae morta.
Levaes saudades? Coitadinha, sois tão nova!

Tendes razão? Nem sei a fallar a verdade.
Tombar quizera eu, só p'ra esquecer. Saudade,
Irmão, não a terei tambem, lá pela cova?...

Foz, 1897.

13

Pedi-te a fé, Senhor! pedi-te a graça,
Mas não te curvas nunca, p'ra me ouvir.
Tudo acaba no mundo... tudo passa,
Mas só meu mal se foi e torna a vir.

Não busco a morte com arma ou veneno,
Mas emfim póde vir quando quizer.
Eu estarei de pé, firme e sereno,
Sorrir-lhe-hei até, quando vier.

Tristes vaidades d'este pobre mundo!
Já me parecem taes como ellas são:
Tristes mizerias deste mar sem fundo.

Se tive algumas eu, na mocidade,
Não foram ellas mais que uma illuzão.
E um dia eu ri da minha ingenuidade!

Lisboa, janeiro, 1898.

14

O mar que embala, ás noites, o teu somno
É o mesmo, flor! que á noite embala o meu.
Mas em vão canta a minha ama do Outomno,
Pois pouco dorme quem muito soffreu.

Mas tu feliz qual rainha sobre o throno,
Dormes e sonhas... no que, bem sei eu!
O teu cabello solto ao abandono,
As mãos erguidas de fallar ao céo...

Feliz! feliz de ti, doce Constança!
Reza por mim, na tua voz chymerica,
Uma Avè-Maria de Esperança!

Por minha saude e gloria (Deus m'a dê)
Por essa viagem que vou dar a America...
Quando, um dia, voltar, dir-te-ei porquê!

Ilha da Madeira, maio, 1898.

15

Mamã

Toda a Paz, todo o Amor, toda a Bondade,
Toda a Ternura que de ti me vêm,
Amparam-me esta triste mocidade
Como nos tempos em que tinha Mãe.

Quanto eu te devo! Odios, impiedade,
Indignações e raivas contra alguem,
Loucuras de rapaz, tedios, vaidade,
Tudo isso perdi—e ainda bem!

Salvaste-me! Trouxeste-me a Esperança!
Nunca m'a tires não, linda criança,
(Linda e tão boa não o farás, talvez!)

Pois que perder-te, meu amor, agora,
Ai que desgraça horrivel! isso fôra
Perder a minha Mãe, segunda vez.

Ilha da Madeira, 1898.

16

Ha vinte annos já, que andas na Terra,
Ha vinte dias só, que te conheço!
Eu andava perdido pela serra,
E o que eu era então, já não pareço.

Ha vinte dias só que te conheço,
Ó meu beijo de Luz! minha Chymera!
És a Graça de Deus (com qu'estremeço)
Talvez, o que no mundo, inda me espera.

Sonho da minh'alma! Ó meu ceu d'estio!
Pois não tens piedade d'este frio
Que sinto em mim, na minha solidão!

Minha bençam de Christo, promettida,
Não serás tu a Paz da minha vida?
Oh! não me digas não, que és Illuzão!

Quinta Almeida. Funchal, abril, 1898.

17

Riquinha

Soffrer callada as suas proprias dôres
E chorar como suas as dos mais,
Tal a Rainha do seu nome, em flôres
Transforma pedras e em sorrisos ais.

A toda a parte leva o sol e amores,
É a Saude dos Enfermos nos Cazaes;
E, no mar-alto, os velhos pescadores
Invocam-n'a entre espuma e temporaes!

Quem será ella, tão piedoza e dôce!
Com uns taes olhos que não tinha visto
Será a Virgem? Oxalá que fosse!

Oh! flôr mais bella do jardim d'esta Ilha!
Fôra outrora, talvez, filha de Christo,
Se Christo houvesse tido alguma filha!

Ilha da Madeira, 1898.

18

O Teu Retrato

Deus fez a noite com o teu olhar,
Deus fez as ondas com os teus cabellos;
Com a tua coragem fez castellos
Que poz, como defeza, á beira-mar.

Com um sorriso teu, fez o luar
(Que é sorriso de noite, ao viandante)
E eu que andava pelo mundo, errante,
Já não ando perdido em alto-mar!

Do ceu de Portugal fez a tua alma!
E ao vêr-te sempre assim, tão pura e calma,
Da minha Noite, eu fiz a Claridade!

Ó meu anjo de luz e de esperança,
Será em ti afinal que descança
O triste fim da minha mocidade!

Ilha da Madeira, junho, 1898.

19

Sestança

Ia em meio da minha Mocidade,
Perdido d'affeições, ao vento agreste,
Quando na Vida tu me appareceste,
Sestança, minha Irmã da Caridade!

Ninguem de mim dó teve, nem piedade,
Ninguem n'a tinha, só tu a tiveste:
Quantas velas á Virgem accendeste!
Quantas rezas nos templos da cidade!

Que te fiz eu, Espelho das Mulheres!
Para assim merecer um tal cuidado
E tudo quanto ainda me fizeres?

Bemdito seja Deus que me escutou!
Bemdito seja o Pae que te ha procriado!
Bemdita seja a Mãe que te gerou!

Ilha da Madeira. Quinta da Saude, 29-7-1898.

20

Emilias

(A UMA SENHORA QUE NÃO QUER SER EMILIA)

Emilia és, quer queiras, ou não queiras:
Que lindo nome o teu, soante de brizas!
É um nome de pastoras e moleiras,
Loira morgada do solar dos Nizas!

Muitas Emilias ha, entre ceifeiras,
Ha Emilias nos serões das descamizas...
Se tu, Senhor! dás nome ás Amendoeiras
Com o nome de Emilia é que as baptizas!

Que Santa Emilia te acompanhe, Rainha!
E com a tua Mãe seja madrinha,
Quando ella, um dia, te levar á Igreja!

E, ó pura Gloria, que em teus olhos brilha!
Dôces presagios meus, que a tua filha
Seja loira tambem e Emilia seja!

Ilha da Madeira, novembro, 20, 1898.

21

O coração dos homens com a idade,
A pouco e pouco, vae arrefecendo...
Quão diversos me vão apparecendo
Do que eram ao abrir da mocidade!

O sorrizo não tem já lealdade,
Lagrimas são difficeis... não as tendo.
Palavras não vos faltam, estou vendo
Mostrar o que sentis só por vaidade.

Já não me illude, a Gloria que sonhei.
Perdi a fé em tudo quanto amei.
Mas só agora, eu sei o que é viver!

Não fazes bem, assim, em rir de mim!
Tenho tido na vida horrores sem fim,
Mas só agora, eu sei o que é soffrer!

Ilha da Madeira, dezembro, 1898.

22

O Senhor, cuja Lei é sempre justa,
Deu-me uma infortunada mocidade,
Talvez para eu saber (o que é verdade)
Quanto é bom ser feliz, mas quanto custa!

Feliz de quem no mundo sem piedade,
Encontrou alma que lhe entenda a sua,
Que o mesmo é que ter na mão a Lua
Tão longe n'essa triste Eternidade!

Os meus dias passavam tristemente
Quando encontrei o teu olhar ridente:
Foi a bençam de luz da Mãe de Deus!

Vaes deixar-me de novo, só na vida!
Ao cabo de viagem tão comprida
Talvez sintas mais perto os olhos meus!

Ilha da Madeira, janeiro de 1899.

23

Adeus a Constança

Vae o teu Pae andar ao sol de verão,
E mais á chuva e ao vento; e só depois
Poderá ter a colheita d'esse pão
Que semeou cantando ao pé dos bois.

Feliz que eu fui em te encontrar na vida,
Minha dôce Constança desejada!
Antes de vêr-te a ti não via nada,
Nem para mim a lua era nascida.

Tu vaes partir em breve com teu Pae
Por esse mar que tão piedozo está.
Não sêde amargas, ondas, mas chorae!

Vaes vêr campos em flôr que te conhecem...
E se a colheita se fizesse já,
Talvez na volta as ondas te trouxessem!

Ilha da Madeira, 1899.

24

Antes de partir

Varios Poetas vieram á Madeira
(Pela fama que tem) a ares do Mar:
Uns p'ra, breve, voltarem á lareira,
Outros, ai d'elles! para aqui ficar.

Esta ilha é Portugal, mesma é a bandeira,
Morrer n'esta ilha não deve custar,
Mas para mim sempre é terra extrangeira,
Á minha patria quero, emfim, voltar.

Ilhas amadas! Ceu cheio de luas!
Ah como é triste andar por essas ruas,
Pallido, de olhos grandes, a tossir!

Eu vou-me embora, adeus! mas volto a vêl-as,
Vou com as ondas, voltarei com ellas,
Mas como ellas p'ra tornar a ir!

Ilha da Madeira, fevereiro, 1899.

25

Meu pobre amigo! Sempre silencioso!
Assim eu fui. Scismava, lia, lia...
Mudei no entanto de Philosophia.
Não creio em nada! e fui tão religioso!

Tomei parte no Exercito gloriozo
Que foi bater-se por Israel, um dia!
Cri no Amor, no Bem, na Virgem Maria,
Não creio em nada! tudo é mentirozo!

Não vale a pena amar e ser amado,
Nem ter filhos d'um seio de mulher
Que ainda nos vêm fazer mais desgraçado!

Não vale a pena um grande poeta ser,
Não vale a pena ser rei nem soldado
E venha a Morte, quando Deus quizer!

St. Johann-am-Platz, outubro, 1899.

 

 

 

 

OUTRAS POESIAS

 

 

 

 

A FRANCISCO CEZIMBRA

Eu chegara de França uns quatro dias antes
E via-me tão só n'um deserto sem fim,
Lá deixara a alegria, amores, estudantes,
Via a vida, aqui, negra adiante de mim.

Que havia de fazer? Eu não tinha um desejo,
Nada no mundo me podia estimular!
Ai quantas vezes, ao passar junto do Tejo,
Perdoa-me, Senhor! pensei em me afogar!

Perdoa-me, Senhor! tu deves perdoar
Pois para que me deste assim um coração!
Tudo quanto via me dava que scismar
De tudo tinha dó, de tudo compaixão.

Ó meus amigos de Coimbra! que saudades
Eu sentia ao pensar nos tempos d'illuzões!
Porque chamaria eu agora, só vaidades
Ao que outrora p'ra nós tinham sido visões?

E conheci depois a phase lastimoza
(Ó meus amigos certos, não m'a queiraes lembrar)
Em que descri de tudo, até da meiga roza
Que via entre velas, aos pés d'algum altar.

De tudo ri então, Senhor, como um perdido
Mas era um rizo mau, Francisco, que feria...
Tu cuja alma em flôr ainda me sorria
Como pudeste tu, meu rizo ter vencido?

1895.

Ladainha da Suissa

A MARTINHO DE BREDERODE
Quando cheguei aqui, dizia baixo o povo
Pelas ruas, vendo-me passar:
—Vem tão doentinho, olhae! e é ainda tão novo...
E assim sósinho, sem ninguem para o tratar!
(Que boa a Suissa! que bom é este povo!)

Raparigas de luar, pastoras d'estes Andes,
Diziam entre si: Quem será este senhor?
Todo de preto, tão pallido, olhos tão grandes!
E rezavam por mim, baixinho, com amor.
(Ó pastoras tão meigas d'estes Andes!)

Por fim entrei receoso em uma caza immensa
Com Jezus-Christo ao fundo e velas e alecrim.
Treme-me ainda hoje a minha alma se n'ella pensa:
Rezas... doentes... ais... corredores sem fim!...
(Ah que tristeza a d'essa caza immensa!)

No alto da escada umas Irmãs da Caridade
Vieram, a sorrir, perguntar: «Como vae?»
No olhar d'ellas (tão doce!) havia tal bondade,
Que me julguei feliz, até sorrir, olhae!
(Minhas boas Irmãs da Caridade!)

Uma dellas guiou-me ao quarto onde a paysagem
Ante meus olhos se estendia e os deslumbrou...
—«E então como passou? Gostou da sua viagem?
E a Nossa-Suissa que tal acha, não gostou?»
(Ó Suissa da divina paysagem!)

Não me deixava com perguntas. Era Suissa
E não deixara nunca esta alva nação.
Ignorava o que era a Verdade, a Justiça:
Tudo n'ella era instincto, innocencia e perdão.
(Que ingenua és ainda, Suissa!)

—Vá, quero que me diga o seu nome, primeiro
E depois d'onde vem, quem é... pelo fallar...
—Venho da beira-mar, e sou um marinheiro.
E ella tornou-me: O mar! eu nunca vi o mar!
(Nos meus olhos o viste tu primeiro.)

Com que doçura, com que mimo e com que graça
Me arranjou tudo! Até meu leito quiz abrir.
E como uma ama diz ao menino que a enlaça,
Disse-me: «Boas noites. Faça por dormir!...»
(Ó Suissa cheia de graça!)

E eu assim fiz. Adormeci, feliz, sereno,
E no outro dia eu já estava melhor.
Passados trez, passei de pallido a moreno
Passado um mez, «não é nada» disse o doutor.
(Oh! quanto eu era então feliz, sereno!)

E a boa Irmã toda contente e dedicada
Que sempre estava á escuta em biquinhos de pé
—Vê, tantos sustos! e afinal não era nada!
E se elle disse «não é nada» é que não é!
(Ó boa Irmã, de voz tão delicada!)

Fallou verdade o bom doutor. Ergueu-se em breve
A minha doida mocidade arrependida.
Bemditos sejaes vós, Alpes cheios de neve!
Bemditos sejaes vós que me salvaste a vida!
(E o meu coração que dôce paz vos deve!)

Bemdita sejas tu, ó Suissa meiga e boa!
Gloriosa entre os mais povos, sê bemdita!
Bemdita sejas tu, de Christiania a Lisboa!
Bemdita sejas tu entre as nações, bemdita!
(Bemdita sejas, minha Suissa boa!)

Lausanna, 1896.

Confissão d'uma rapariga feia

(INCOMPLETA)

Ha raparigas n'este mundo,
Ha raparigas que são feias,
Mas nenhuma tanto como eu.
De mim tenho nojo profundo,
Ciumes do Sol, das luas cheias,
Que vão tão lindas pelo céo!

Nos arraiaes, nas romarias,
Adelaides, Joannas, Marias,
Todas tem par, mas menos eu.
Todas bailam, rindo e cantando,
E eu fico-me a olhal-as scismando
Na sorte que o Senhor me deu!

Se eu fosse cega ou aleijada,
Talvez ficasse resignada,
Porque havia de queixar-me eu?
Mas sendo sã, sendo perfeita
Tua vontade seja feita,
Senhor! é sorte, é fado meu!

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Affirmações religiosas

Ó meus queridos! Ó meus S.tos limoeiros!
Ó bons e simples padroeiros!
Santos da minha muita devoção!
Padres choupos! ó castanheiros!
Basta de livros, basta de livreiros!
Sinto-me farto de civilisação!

Rezae por mim, ó minhas boas freiras
Rezae por mim escuras oliveiras
De Coimbra, em S.to Antonio de Olivaes:
Tornae-me simples como eu era d'antes,
Sol de Junho queima as minhas estantes
Poupa-me a Biblia, Anthero... e pouco mais!

No mar da Vida cheia de perigos
Mais monstros ha, diziam os antigos,
Que lá nas agoas d'esse outro mar.
O que pensaes vós a respeito d'isto,
Ó navegantes d'esse mar de Christo!
Heroes, que tanto tendes que contar?

Chorae por mim, ó prantos dos salgueiros,
Pois entre os tristes eu sou dos primeiros!
Lamentos ao luar, dos pinheiraes,
E vós ó sombra triste das figueiras!
Chorae por mim ó flôr das amendoeiras
Chorae tambem ó verdes cannaviaes!

E quando emfim, já farto de soffrer
Eu um dia me fôr adormecer
Para onde ha paz, maior que n'um convento:
Cobri-me de vestes, ó folhas d'outomno,
Ai não me deixeis no meu abandono!
Chorae-me cyprestes, batidos do vento...

1897.

Ares da Andaluzia

Ó formoza Andaluzia!
Terra de Nossa Senhora!
Ó formoza Andaluzia
Onde o luar parece dia
Onde é dia a toda a hora!

Ai eu tenho sete muzas
Quaes d'ellas prefiro eu?
Ai eu tenho sete muzas,
Trez d'ellas são andaluzas
Porque as outras são do céo.

Malaga, terra de encantos,
Terra das vinhas doiradas!
Malaga, terra de encantos!
Igrejas cheias de Santos,
E Virgens cheias de espadas!

Vossa bocca tem desejos
Que a bocca das mais não tem...
Vossa bocca tem desejos
E já morria por beijos
No ventre da vossa mãe!

Ó meninas de Sevilha
Sou doente, vinde amparar-me,
Ó meninas de Sevilha
Deixae-me a vossa mantilha
Que eu não quero constipar-me!

Ó menina, olá, a mais alta
Porque foge e me olha assim?
Ó menina olá a mais alta,
Se a belleza não lhe falta,
Não julgue que é mais que a mim.

Ai esta Vida é tão curta!
Ai o Amor dura um instante,
Ai esta Vida é tão curta!
Dormir, um dia, entre murta
Nos braços d'uma outra amante!...

Olhos de Cadiz tão pretos
(E o mar ao pé tão azul!)
Olhos de Cadiz tão pretos
De luto por Esqueletos
Que o mar traz com vento sul.

Já sorvi na minha bocca
Beijos de toda a Nação!
Já sorvi na minha bocca
Tanto mel, cabeça louca!
Mas assim como estes, não!

Menina das pandeiretas!
Que contente que hoje estaes!
Menina das pandeiretas!
Tão séria, de capas pretas,
Ao lado de vossos Paes.

Vem beber a mocidade
Com a tua trança solta.
Vem beber a mocidade
Não torna a vir esta idade
E o Amor como ella não volta.

Ó seios como pombinhos
Ó seios por quem bateis?
Ó seios como pombinhos
Tão alegres nos seus ninhos
Não sei eu, mas vós sabeis...

Contas de rezar

      A Maria dos Prazeres
      Mizericordia dos mares!
      Que escrevi para tu leres,
      Que eu fiz para tu rezares!

Maria dos Prazeres.                       Antonio sem Elles.

Maria é! Violeta da Humildade
Onda do mar das Indias! sempre triste!
Porque andará tão triste nessa idade
Se o Deus em que ella crê para ella existe?

Maria é! Violeta da Humildade!
Onda do mar das Indias! tão modesta
E tão grande que ella é! Que dôr funesta
A faz andar tão triste nessa idade?

E eu digo ao vêl-a entrar, meiga e modesta,
Na Igreja, quando ajoelha e se persigna:
«Parece incrivel faça parte d'esta
Humanidade mentiroza e indigna!»

Quanto ella é Santa! quanto ella é boa!
Até tem dó e compaixão por mim...
Mal diria eu que a tragica Lisboa
Tinha em seus muros uma Santa assim!

Ella nasceu para assistir ás guerras
Ella nasceu p'ra atravessar os mares
Ella nasceu para ir a longas terras
Ella nasceu para proteger os lares!

Ella nasceu para ir com portuguezes,
Ao que a vida arriscou, sarar-lhe as feridas,
Com remedios, ao pé, mezes e mezes,
Ou dar-lhe a uncção com suas mãos compridas!

Ella nasceu para levar comsigo
Um exercito leal, mystico e forte.
Ser a ultima a dobrar ante o inimigo
E a primeira a morrer, sorrindo á morte!

Ella nasceu p'ra commandar armadas
Vestir a bluza azul dos marinheiros.
Morrer que importa? Sobre agoas salgadas
No immenso oceano não faltam coveiros!

Ella é formosa e grande entre as mulheres,
Sua doçura é toda de velludo...
Mas as respostas que dão malmequeres!
Tristes, Senhor! como na vida é tudo!

Quando ella passa toda côr de cera,
Devagarinho e de missal na mão,
Vae tão ligeira, lembra uma galéra
Que segue viagem de vento á feição!

Os seus olhos são negros e tão bellos
Que grandes são! têm penas disfarçadas...
Que são elles? Ogivas de castellos
Com duas meninas sempre debruçadas.

O seu cabello é negro e immenso e roça
Pelo chão, como a noite e a escuridade,
Aparta-o ao meio assim... Parece Nossa
Senhora, quando tinha a sua idade!

A sua voz baixinha vem da alma,
Tudo o que ha nella é do que eu gosto mais.
É assim que falla a aragem pela calma
Quando mareantes pedem temporaes.

Vozes assim só se ouvem no convento
Á oração em silencio habituado,
Que Deus entende a voz do Pensamento:
Póde fallar-se a Deus e estar callado!

Os seios lembram duas pombas gemeas
No seu ninho a dormir, muito quietinhas.
Amor, protege o somno d'ellas, teme-as,
Não acordes as pombas coitadinhas!

Que dizer do seu corpo esbelto de aza!
Tão delgado, onde passa o seu annel?
É o mais lindo Torreão da sua Caza!
É uma náu da India, a S. Gabriel.

Os seus braços são debeis! mas exaltam
E sustentam em mim toda a Esperança!
Os seus braços, Senhor! são os que faltam
A certa Venus que se admira em França!

O seu sorrizo é o sol, quando apparece,
Vêl-a sorrir é vêr o sol cantar;
Mas o seu habitual, ai não se esquece!
É o sol ás tardes quando cahe no mar...

A sua bocca é uma romã vermelha,
Mostrando em rizos os seus grãos de opala.
Favo de beijos, que dá mel á abelha,
A sua bocca é uma flôr com falla!

Lisboa, 1898.

A Ceifeira

(INCOMPLETA)

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Porque é que te odeiam os homens se os levas
             A um mundo melhor?
Ó velha hospedeira da aldeia do nada,
Tenho as malas promptas, vou breve partir.
Prepara-me um quarto na tua pousada
Que tenha a janella para o sul voltada
E fontes á roda para eu dormir...

Sensações de Baltimore

(INCOMPLETA)

Cidade triste entre as tristes,
     Oh Baltimore!
Mal eu diria que na terra existes
Cidade dos Poetas e dos Tristes,
Com teus sinos clamando «Never-more.»

Os comboios relampagos voando,
Pela cidade de Baltimore,
Levam uns sinos que de quando em quando
Ferem os ares, o coração magoando
E os sinos clamam «Never-more, never-more».
...........................................

Baltimore, 1897.

Ao Mar

(SONETO ANTIGO)

Ó meu amigo Mar, meu companheiro
De infancia! dos meus tempos de collegio,
Quando p'ra vir nadar como um poveiro
Eu gazeava á lição do mestre-regio!

Recordas-te de mim, do Anto trigueiro?
(O contrario seria um sacrilegio)
Lembras-te ainda d'esse marinheiro
De boina e de cachimbo? Ó mar protege-o!

Que tua mão oceanica me ajude,
Leva-me sempre pelo bom caminho,
Não me faltes nas horas de afflicção.

Dá-me talento e paz, dá-me saude,
Que um dia eu possa emfim, poeta velhinho!
Trazer meus netos a beijar-te a mão...

Dispersos

1

—Soffro por ti nesta auzencia,
Tanto que não sei dizer.
—Meu Antonio! Tem paciencia!
Soffrer por mim é soffrer?

2

Ah quem me dera abraçar-te
Contra o peito, assim, assim...
Levar-me a morte e levar-te
Toda abraçadinha a mim!

3

Ai ella é tão pequenina
Que, quando ao meu collo vae,
Diz o povo: uma menina
Que vae ao collo do Pae!

4

És tão fraca, tão fraquinha,
Que, ao passar, uma andorinha
Com um simples encontrão
Podia deitar-te ao chão.

Mas tambem te levantava
Sem grande custo: bastava
Beijar-te (nem isso, até)
Logo te punhas em pé!

5

Espreitei á tua porta,
Quiz vêr-te a dormir, sorrindo...
Mas ai! só vendo-te morta,
Saberei como és dormindo!

6

—Dá-me um beijinho, que eu peço?
—Isso sim!—Furto-lh'o então!
—Não que eu metto-o n'um processo
Pelo crime de ladrão!

7

O teu somno—ai que ventura
Tantos sonhos, que sei eu?
O meu é uma noite escura
Com uma estrella no ceu!

8

Coração, bates saudades
Saudades tão tristes são,
Lembra-me o sino ás Trindades,
O sino faz: Dlão! dlão! dlão!

9

Ai! na hora da partida,
Parte-se o coração!
Ai! como é triste a Vida!
Uns ficam... outros vão...

10

O coração apodrece,
Apodrece como o mais
Mas a dôr, ai! reverdece,
Essa não morre jamais.

11

És morena, moreninha,
Morena de andar ao sol!
No dia em que fôres minha
Como has de ser moreninha
Na brancura do lençol!

12

São as meninas da Ilha da Madeira
Ternas, graciozas, pallidas, ideaes;
Fica-se doido, vendo-se a primeira,
Doido se fica, se se veem as mais;
Qual é a mais bella da Ilha da Madeira.
       Se são todas eguaes?

13

Ha um lindo logar, em Traz-os-Montes,
Com uma caza só, a caza della.
O mais é o pôr-do-sol, bouças e fontes
Que compõem a sua parentella.

Encanto de possuir uns taes parentes!
Fidalga excepcional que é a Purinha!
Que ella nas veias tem sangue dos poentes,
E os cravos brancos chamam-lhe: Priminha!

Oh que ascendencia! que familia estranha!
Onde ha fidalgos com uns taes avós?
Sois os seus Paes, pinheiros da montanha,
E assim ella é altinha como vós!

14

Amo-te toda porque és linda, linda, linda!
Teus olhos, tua voz, teu sorrizo, eu sei lá!
Mas o que eu amo mais, o que amo mais ainda,
É a alminha de Deus que dentro de ti está.

15

Uma alma chega ao pé do seio da Purinha!
E bate devagar, docemente: «truz! truz!»
—Quem é? (responde lá de dentro uma vozinha)
—(Antonio...) e logo veio á porta, com a luz.

16

Mamã te chamo porque me trazes ao peito,
Filha te chamo pelo mimo que te dou,
Irmã te chamo porque te tenho respeito,
Noivinha te chamo porque teu noivo sou!

17

Na sexta-feira ás dez horas olha p'ra lua,
Que eu, tão longe, ai tão longe! hei-de olhal-a tambem:
Assim minha alma encontrar-se-á lá com a tua!
E quem se encontra, filha!, é porque se quer bem!

18

Tu és altinha como eu, embora
Eu seja um homem e tu uma criança!
Tanto que ao irmos pela estrada, agora,
Ouvi dizer: «Que lindo par de França!»

19

Teus olhos são dois ceus. E nelles leio
O que nos outros lêem os pastores:
Estrella da manhã dos meus amores!
Sete estrello que vaes do ceu em meio!

20

Ai que saudade! O amor das Extrangeiras!
Que chegam, sabe Deus d'onde e com que fito,
E um dia, lá se vão andorinhas ligeiras,
E nunca poisam, andorinhas sem Egypto!

21

No vosso leito, á cabeceira, ponde isto,
Ponde este livro ao pé do vosso coração:
Adormecei rezando a «Imitação de Christo»
E «Nun Alvares», que é de Christo a imitação.