Ah! tu queres um tête-à-tête... Vamos a isso...
(á parte) Sosinhos! estamos sosinhos! (com transporte, sentando-se ao lado de Itelvina) Ah! Itelvina! Minha esposa! querida...
Desculpa a minha perturbação!... esta emoção!... este primeiro tête-à-tête... porque é o primeiro... o primeiro... depois que és minha mulher, e que me pertences, Itelvina!... por que tu és minha, és o meu bem, o meu thesouro, a minha vida...
Sim, Liborio; somos um do outro, são inseparaveis os nossos destinos... Eu sou sua como o senhor é meu... O senhor póde esquecer isso... eu é que jámais!...
Esquecer, esquecer, eu! Se tu soubesses as noites tormentosas que eu passo!... o que me custa a adormecer... as reflexões que precedem o meu somno... os sonhos que o acompanham... Queres que eu t'os conte?
Pois sim, conte lá.
(erguendo-se) Ás vezes, vejo-te sahir d'uma floresta como a Armengarda do Alexandre Herculano das penhas da Covadonga; outras vezes estamos os dois n'um paraizo terreal como Adão e Eva... e eu a apertar-te ao coração (aproxima-se) a apertar-te... (Cinge-a com os braços).
(gritando) Ai! ai!
(recuando) Tu que tens!
Ah! que dôres!
(á parte) Diabolico torcegão!...
Isto passa... não é nada... foi um geito que o senhor me fez dar. (com a voz natural) Póde continuar, meu amigo.
Em que estavamos nós?
É verdade, um ao lado do outro.
O senhor abraçava-me...
Mas, presentemente, não me atrevo...
Isso não faz nada ao caso... o abraço era a sonhar...
Itelvina!
Liborio!
O nosso cazamento não é um sonho... pois não?
Decerto não, meu amigo.
E todavia...
E todavia...
Olha, Itelvina, eu queria que o pé torcido fôsse meu; ainda que tivesse torcidos ambos os pés não deixaria de me lançar nos teus braços... Não ha supplicio comparavel... Ah! Tantalo no meio da agua, debaixo de arvores carregadas de fructos que elle não podia trincar... Eis a minha posição!... a arvore... és tu! Tantalo, sou eu! Tenho fome, e não posso comer... Horrivel!
Então o senhor padece muito, não é verdade?
Até ao extremo de me tornar cruel e insensivel ás tuas dôres... Quando ahi te vejo, face a face, não ouço senão a minha paixão e... (abraça-a)
Ai! ai! meu Deus! ai!
(erguendo-se) Não, não, não... nada de novo... mesmo nada... (á parte) Tudo como d'antes... Quartel general d'Abrantes...
Ai que dôres! que dôres lancinantes!
Se sou o culpado, peço desculpa...
Ah!... vae passando... adormece... Ah! respiro! (tom natural:) Póde continuar, meu amigo.
Continuar... o quê?
Isso que me estava contando... que era muito bonito...
(á parte) Ella parece innocente como uma ovelhinha recem-nascida! (alto) Minha senhora, se me dá licença, ataremos o fio partido do cavaco quando a senhora estiver san.
Mas... por quê?
Porque esta palestra... agita-me... agita-me bastantemente.
Ah! sim? então fallemos d'outra coisa.
Sim... de coisas frias... historias da Siberia... Fallemos do Marão, da Serra da Estrella.
Diga-me cá, não o incommoda andar com uma bota e um chinelo?
Incommoda-me horrivelmente... e, se me dás licença, calço a outra.
Se dou licença? ora essa... Póde calçar.
(calçando a outra bota) De mais a mais, este acto não é por nenhuma maneira provocante nem estimulante... até acho que faria bem em me vestir... (tira a camisola)
Vestir-se?
Sómente vestir um colete e uma rabona (á parte) Creio que um marido, sem faltar á decencia... (Emquanto falla, vae abrir o gabinete da toillete, e recebe na cara o outro chinelo que pendia d'uma guita) Cá está o outro chinelo!
Tinha-o perdido?
Nada, fui eu... Estou no habito de todas as noites...
Pendurar um dos chinelos no gabinete de toillete...
Sim... isto é... quero dizer... Ordinariamente penduro os chinelos... não, eu ponho-os ambos aos pés da cama; mas aconteceu que pendurei este...
(á parte) É admiravel! nada o espanta! Forte idiota!
(á parte, tirando a gravata do gabinete) É inevitavel que eu seja somnambulo... acabou-se... sou somnambulo.
É singular coisa! Tenho momentos em que não me doe nada o pé... perfeitamente bôa...
Esses momentos duram pouco (Procurando atar a gravata) Não me ageito!... maldita gravata... estou muito perturbado...
Quer que o ajude, meu amigo?
Agradeço, mas receio...
Venha cá... pois eu não sou sua mulher?
Ah!
O senhor diz ah!
Eu cá me intendo... (Ajoelha aos pés da mulher estendendo-lhe o pescoço e dando-lhe a gravata) Tu não me percebes... mas eu é que me comprehendo... Mysterios...
(sorrindo) Então tem segredos para mim, Liborio?
Ah! Itelvina! que gentil, que formosa tu és! (Itelvina aperta a gravata) Ai!
(ingenuamente) Que tem?
É que me afogas!
É por que o senhor mexe-se.
Eu mexo-me por que tu me asphixias.
(maviosamente) Esteja assim quietinho... para eu lhe fazer um lindo laço. (Elle quer abraçal-a).
(erguendo-se) Não, não... não me lembrou... (á parte) Apre! que situação! (Passa para a esquerda, e vae vestir o collete e a rabona que tira do gabinete).
Que dôres! que dôres!
(entrando pelo fundo) Está prompto o almoço, senhora. Onde quer a meza?
Não tenho appetite...
Nem eu tão pouco, a não ser que... Que ha que almoçar?
Ostras cruas, pasteis de camarão e sallada de lagosta.
Ui! querem-me incendiar!
Não gosta do almôço?
Ha occasiões, menina, ha occasiões... mas, no estado actual, o que eu precisava era limonadas e orchatas.
Porque não vae almoçar com meu pae ao botequim?
Pensa que eu a deixava...
Não tem duvida... vá que eu preciso descançar.
Tambem eu...
Cá fica a Sebastiana... Vá e demore-se por lá, que eu preciso dormir.
(que passou para a direita) Pois bem, seja assim; vá dormir, que eu vou tomar um pouco d'ar. (á parte) Ah! Itelvina, Itelvina, por que polkaste tu com o tabellião! (Sahe pelo fundo).
(que passou para a esquerda) Então, pelo que vejo, ninguem almoça...
Depois, Sebastiana, depois... mas tu não esperes. Almoças quando tiveres vontade.
Eu não posso deixar a senhora sósinha...
Pódes... Vou dormir... Vae, e fecha-me esta porta. (Sebastiana passa para a direita) Olha, para eu não acordar estremunhada, espreita, e quando o senhor vier, vem prevenir-me.
Sim, minha senhora. (á parte) Ella quer aqui dormir sósinha... porque será? (Sahe pelo fundo).
(só) (está um instante quieta, mas, logo que a porta se fecha, desata precipitadamente as tiras que lhe ligam a perna, e entra a caminhar rapidamente). Ah! sim? tu comerás o almoço incendiario... hasde comêl-o por força! quando só encontrares no teu porte-monnaie um tostão para pagar o leite e as limonadas, é natural que voltes ao teu posto... Essa felicidade espero eu têl-a. Seja como fôr, vou tratando de armar as engenhocas para a noite que vem. Comecemos pelas campainhas de que elle abusa... Onde acharei eu com que as corte? (Vae ao gabinete da toilette e encontra lá uma faca de mato) Uma faca de mato! Ah! tu tens facas nos teus guarda-roupas?... tens!... está bom... esta hade servir-me... Vamos primeiro cortar... Cortar, não! (Atira com a faca para dentro do gabinete que fecha) O que se deve quebrar é o arame... Ah!... com a cadeira sobre o leito, chego acima... (Pega da cadeira, que põe sobre a cama, e sobe acima cantarolando. Ergue-se, de costas para a parede, e pega no arame com as mãos ambas) Oh! c'os diachos! parece-me muito rijo!... An! é puxar... (ouve-se tilintar a campainha) Ai que eu toquei! Se a Sebastiana me vê aqui...
A senhora chamou?
Ai!
Onde é que está? (Vendo-a) Ah!...
Sio! cala-te!
Foi a senhora que...
Cala-te, que te heide dar uma prenda.
Então que quer que eu faça, senhora?
Espera ahi. (Puxando pelo fio) Záz! Záz! Está quebrado! (Quebra o fio, e o mesmo tilintar da campainha continua).
(entrando pelo fundo quando sôa a campainha) Ella a chamar, a minha querida a chamar...
Ui!... meu Deus!...
Oh! co' a breca! Estou aviada!
(não encontrando a cadeira em que Itelvina ficou sentada e passa á esquerda) Como é isto? Ella não está aqui? (Vendo-a) Ólé!
(sempre sobre a cadeira; e com a maior naturalidade) Então já por cá?
Como estava melhor do pé, quiz experimentar um passeio.
Passear lá por cima?... Ah! tudo se explica! O somnambulo não era eu... eram vocês as duas que...
Ó senhor! os diabos me leve se...
Retira-te.
Mas senhor... Raios me parta, se...
(avançando para ella) Rua! rua!
Rua?... mas...
Safa-te, ou eu... (Sebastiana dá um grito e foge pelo fundo. Liborio dá um pontapé no banquinho).
(fechando a porta do fundo, e approximando-se de Itelvina) Agora nós dois, senhora! (silencio de Itelvina). Quando eu entrava no botequim, a inquietação fez-me regressar... Vejo que fiz bem... (silencio) Que geringonça é esta? queira responder.
Geringonça, dizes tu? perguntas-me que geringonça é esta?
Sim!... pergunto e quero saber.
(formalisada) Liborio, tu esmagaste o coração de uma mulher, o seu primeiro amor...
Despedaçaste a minha vida, cobriste o meu céo com um crepe negro!... Assassinaste Macario!
Lerias!
Atráz, assassino! atráz, que me horrorisas!
Como? então é p'ramôr d'isso que?... Ora adeus! isso é pêta... eu não matei Macario nenhum.
Pois tu não assassinaste Macario?
Não tinha eu mais que fazer!... E a prova é que Macario está vivo e são.
Macario vive?
(reconsiderando) Eu cá de mim não o matei... (á parte) que ia eu a dizer? Ella ama-o! e, se sabe que elle vive, temos novo chinfrim...
Ah! tu negas? não tens a coragem do teu crime?
Itelvina, palavra d'honra!... Quem te disse?...
Nada de questoens... Você está condemnado!
Condemnado!
Eu fiz um juramento, Liborio! e na minha patria não se quebram juramentos!
Isso nós veremos depois... A senhora jurou de encher de pimenta os meus carapuços? coser os meus lenços?...
Isso era um preludio... a farça antes da tragedia...
Para vingar Macario, cumpria que a sua vida me pertencesse, e por isso casei comsigo!
Então foi só para isso que...
Unicamente para me vingar, e nunca pelos seus attractivos, percebe?
Mas a senhora, casando comigo, tambem me deu a sua vida e...
A minha estava despedaçada... O sacrificio que eu lhe fazia era d'uns pedaços da minha existencia.
Mas a senhora sabe que eu sou uma especie de balão que não obedece ao movimento de vontades alheias?
Os baloens obedecem ao capricho do vento, e os homens ao capricho das mulheres.
Sim? estou com curiosidade de vêr isso...
Eis o meu programma: (Com energia) Quero que cada um dos teus dias seja uma catastrophe! cada uma das tuas horas uma tortura! cada um dos teus minutos um grito de dôr!...
(com ironia) Diga lá o resto.
Heide fazer-te tragar todas as amarguras! cravejar-te com todos os punhaes!... passarás a vida sobre umas grelhas como S. Lourenço, e eu de vez em quando a voltar-te nas grelhas... e tu a arder, a rechinar... oh!...
Que enorme têlha!
É o teu futuro!
Mas é que eu fujo-te... podéra!...
E eu vou atraz de ti. Sou tua mulher; a lei obriga-te a receber-me.
Excellente separação de corpos a que já estou habituado!... Divorcio-me.
E as provas? Pensas no divorcio? Cuidas que eu não previ já esse caso muito natural de me quereres escapar? Eu já li o teu codigo civil. Ninguem se separa sem provas e testemunhas; e tu nunca hasde arranjar testemunhas nem provas. Mulher mais terna do que eu, em publico, não hade haver segunda, heide acariciar-te, ameigar-te, se fôr preciso, que isso me não custa nada...
(á parte) Irra! estou a sentir uns calefrios na espinha...
Em publico, serás o meu amante, o meu heroe, o meu Deus! Serás um mortal ditoso e invejado!... possuirás uma gentilissima esposa, dedicadissima... e, se, um dia, ousares queixar-te de mim, se promoveres o divorcio, passarás por um monstro extraordinario, por um ignobil... malandro!
(á parte) Isto é o José do Telhado disfarçado em mulher!
(indo para Liborio que passa á esquerda) Mas o anjo das salas será o demonio dos lares! quero que a tua vida se teça de espinhos dilacerantes. Não entrarás em tua casa sem cahir n'uma esparrela! Não poderás sahir sem te palpitar uma desgraça imprevista. E este amor... este amor que me pedias, heide dál-o a outro!
Oh! Shocking!
Sim! heide cuspir na tua honra!
(furioso) Senhora!
Eis o teu futuro, Liborio! eis o teu futuro! (sahe pela direita).
(só, atordoado) Safa! caramba! É bècarre! Estou a abafar! ardem-me os miolos! Anda-me tudo á roda! Parece-me que estou n'uma jaula tête-à-tête com uma panthera solta... Falta-me a coragem para a lucta! (Cáe prostrado perto do gueridon) Que a panthera me devore! Resistir-lhe é-me impossivel!... (Fecha os olhos e fica immovel...)
(entrando alegremente pelo fundo) O meu negocio vae bem... optimamente.
É elle!... (levanta-se e sobe um pouco).
Ah! meu amigo Liborio, obterei a casa. O Braga ainda hesita quanto ao preço, mas eu conheço-lhe o genio... elle é condescendente... e emfim, viverei em paz e socego.
(dirigindo-se-lhe) Em paz?... Sorri-lhe essa esperança? Pois não viveste...
Sim... sorri-me esta esperança.
O senhor é cumplice, não é?
Cumplice de quem?
Da besta-fera de quem se intitula pae?
Snr. Liborio! Modere-se!
É cumplice d'ella... Concorde... Apraz-me a sua confissão... Ao menos que a minha colera encontre um homem em frente d'ella...
Eu não o percebo! Será isto um ataque de somnambulismo?!
Somnambulo! Ainda está n'isso, o senhor! Não sabe que a farça se desenvolveu depois... o véo veio á terra... descobri o inimigo do meu descanço, o ente mal-fazejo que se mettia, de noite, no meu quarto, para me transtornar tudo...
Então... quem é?
A sua hedionda filha... a sua filha que o senhor teve artes de me impingir!...
Itelvina? o senhor está a mangar...
Sim... finja-se espantado!...
Com um pé desnocado? a minha filha?
(rindo amargamente) Pé desnocado! (rindo) Ah! ah! ah! ah! Não vê que ella me bigodeou?
Mas para quê?
Para quê? para vingar Macario que ella me accusa de eu ter assassinado!
Isso é incrivel!
E quer saber o futuro que ella me destina? A sorte de Meneláo de Sganarello, de Vulcano e d'outras testas celebres.
E ella disse-lh'o? Mas, quando isso se dá, as mulheres nunca previnem os maridos...
É uma excepção...
Tudo isso é tão anormal... tão extravagante... (como assaltado por uma idea) Ah!
Que é?
Lá vou... Foi a palavra extravagancia que me orientou... Estou no caminho...
Caminho de quê?
O snr. Liborio sondou o pulso de sua mulher?
Ora essa!... sondar-lhe o pulso!... Não.
Fez mal. Esta excentricidade no seu proceder, este humor extravagante... explica-se tudo...
O quê? o que é que se explica?
É a crize ordinaria... Amigo Liborio, não succumba ao pezo da sua felicidade... Liborio, vou dar-lhe um jubilo immenso... Olhe que vae ser progenitor! Vae ser pae!
(exasperado) Pae!
Sim! esses appetites desvairados... essa desordem moral...
(agarrando-o pelo colete) Ah! patife!
Hein? você chame-me patife? a mim?
É a minha deshonra que você apregôa!
(desagarrando-se sem poder) Que diz?
Você sabia-o e não me gritou: acautele-se!
Mas agora estou convencido... (sacode-o cada vez mais).
Largue-me! socorro! ó da guarda!
Que é isto? que aconteceu? (Liborio larga Barnabé, que cahe assentado ao pé da jardineira. Liborio fica um momento immovel entre o sogro e a mulher, olhando-os alternadamente; depois despede um suspiro abafado, e sahe precipitadamente pelo fundo, fazendo um gesto de horror).
(assentado) Uf! (bufando)
O pae que tem! parece que está sobresaltado!
Sim... com certeza... eu não me sinto bastante bem. (respira fortemente).
Mas que aconteceu?
(erguendo-se) Aconteceu... mas não, as explicações são inuteis... Vou deixar esta caverna...
Mas emfim... que lhe disse o meu marido? onde foi elle?
Não sei nem me importa... Cá te avêm sem mim... Lavem cá a sua roupa suja como poderem, que eu tenciono ser estranho a esta barrela. Boas tardes. (Vae para sahir).
Mas... meu pae! venha cá...
Convence-te de que me vou embora (sobe).
(tolhendo-lhe o passo) Ao menos diga-me...
Não digo... deixa-me!
Não hade sahir!
Impedir-me! (indo para ella) Minha filha!
Não sahe antes de me dizer...
Tudo o que eu tenho no coração? Vaes ser satisfeita! Tu, a meu pezar, envolves-me nas tuas combinaçoens ferozes! Pois bem... Tambem eu vou torturar-te... e desde já fica sabendo uma pequena coisa que te vae dar grande prazer! Macario existe! Macario vive!
Macario!
Nunca se bateu... não era tão bêsta, como isso... É um maltrapilho, mas é velhaco... Elle logo conjecturou a linda mulhersinha que tu serias... e disse lá com os seus botões: «Não quero contas com a mexicana» e pediu a este bajojo do Liborio que viesse annunciar-te a sua morte, e este parvoeirão foi tão asno... que...
O pae está blasphemando...
Que é blasphemar?
Macario vivo!... Macario auctor de tal perfidia!... não, não, é impossivel!
Com que então impossivel! E, se eu te disser, que elle, bem contente por não entrar n'este langará, se consola em uma mancebia...
Mancebia?
Sim... com uma creaturinha, de pouco mais ou menos, rua de Miragaya n.º 1071, lado direito.
Rua de Miragaya n.º 1071, lado direito...(Passa para a esquerda).
Mudou de freguezia; mas não de costumes... O fedor dos escandalos de Miragaya não passa da Cordoaria, e confunde-se com as flôres do jardim e do peixe do barracão...
Oh! isso seria horrivel! horrivel! (Liborio entra pelo fundo).
(com o porte-monnaie na mão) Minha senhora, eu tinha aqui 12$000 réis. Foi a senhora que lhe deitou o gatazio?
Logo o saberá quando eu voltar (Sahe).
Rua de Miragaya n.º 1071. (Sahe precipitadamente pelo fundo).
Que é? Rua de Miragaya n.º 1071! Quem lh'o diria? (A Barnabé) Foi o senhor... Rua de Miragaya, é lá effectivamente (Ouve-se fechar á chave a porta do fundo) Ella fecha-nos! e vae a casa d'elle! a casa d'elle! (Indo á porta da direita) Por esta porta... (Ouve-se o rodar da chave que a fecha) Fechada! fechada tambem! (correndo á chaminé) Sebastiana! (pucha pelo cordão da campainha) Não ha campainha! está quebrada a campainha!
E o Braga que me está esperando para assignar a escriptura!
Eis-me encarcerado!
E eu!
(fóra de si, ameaçando Barnabé) Ah! seu biltre! foi você a causa de tudo isto! (Atira-se a Barnabé, que procura fugir-lhe, aos encontroens aos trastes. Liborio persegue-o vivamente. Cahe o panno, quando Barnabé está apitando).