(Entra pela esquerda, trajo da manhan, traz na mão uma chocolateira e toalha. Chama:) Sebastiana!... Isto é que foi dormir alarvemente! (Olhando para o relogio) Já dez horas... e eu sem fazer a barba! (chamando) Sebastiana! Esta creada é uma calaceira!... Não ha d'outras... Tive um sonho... Isto de sonhos é uma tolice... Sonhei que estava pescando á cana... n'uma cazinha campestre, com transparentes verdes... e um repucho!... Ah! o meu sonho d'oiro!... Logo que eu cazar a filha... Um repuxo... (chamando) Sebastiana! Com effeito! (Vai á porta do fundo) Sebastiana! Sebas...
(entrando pelo fundo) Aqui estou, senhor!
Não me tinhas ouvido?
Perfeitamente. O senhor chamou-me quatro vezes.
Então porque não vieste logo?
Estava a almoçar. Acho que o senhor não pretende que os creados não comam.
Além d'isso, eu sei que o senhor é pachorrento, um paz d'alma...
Abusas um pouco do meu temperamento.
Está enganado... eu pelo senhor era capaz de me atirar ao lume...
Pois bem, vai atirar ao lume esta chocolateira... Quero barbear-me. (Dá-lh'a)
Dentro de 15 minutos aqui estou. (Vai sahir).
(chamando) Olha, Sebastiana...
(tornando) Não me mande fazer duas coisas ao mesmo tempo que me atrapalha, ouviu?
(á parte) É uma creada como se quer! Boa bisca... (alto) Olha lá... Noto que vae na caza um socêgo extraordinario! Minha filha estará doente?
Não senhor; sahiu de manhan cedo.
Ah! é isso? (Senta-se no canapé).
E, na verdade, a menina faz um estardalhaço! credo!... E é de pasmar como o snr., tão manso, tão socegado, fez uma filha tão...
Tão estapafurdia, pódes dizer...
É isso, estapafurdia... é uma trovoada... credo!
Tu que queres?... A natureza tem desconcertos... Olha, Sebastiana, eu nem sempre vivi dos meus rendimentos.
Pois sim, sim...
Tive uma fabrica de ligas em Fradellos.
De ligas? ora vejam...
Fazia pouco negocio... Resolvi ir para o Mexico, por que n'um paiz, n'um paiz quente, bem percebes, mostra-se mais a barriga das pernas... Fundei o meu estabelecimento no Mexico, e grangeei logo toda a freguezia das boas pernas do paiz... com sáias curtas.
Olha que pechincha!...
Vais vêr... um par das taes pernas... duas buxas fizeram-me uma impressão profunda... Todas as profissoens tem os seus perigos... Esposei...
As taes buxas?
Sim... Ella chamava-se Dolores. Sete mezes depois, tinha uma filha...
Sete mezes só? ora essa!...
No Mexico a vegetação cresce muito depressa, é o que é; e isso mesmo te explica o genio impaciente da minha Itelvina... Ella não quiz esperar que se completassem os nove mezes... sahiu...
Não admira, não...
E aqui tens tu, Sebastiana, como eu, um portuguez de lei, sou pae d'uma mexicana...
Agora é que eu percebo a differença dos dois genios.
O ceo do Mexico! Os costumes d'esse clima de fogo! Minha filha tem nas veias o meu sangue; mas... mais quente... ferve-lhe mais... em fim, tem uma temperatura mais alta...
Acho que sim... intendo.
Ha-de haver um anno que passei o negocio e vim para a patria... Estava rico... primeira felicidade; estava viuvo, segunda feli... Emfim, como não nos davamos bem... segunda felicidade, está dito.
Então não se davam bem...
Quero dizer... a senhora Barnabé... era muito fogosa... muito atiradiça... e chamava-me... maricas.
Em fim ella tinha desculpa... Eu bem me conheço... Mesmo hoje, com minha filha, sou uma lesma, um fracalhão... Ahi está ella a querer casar com o valdevinos do Macario.
Mas não basta querer ella.
Assim é; mas ella quer á fina força e eu não quero; a final, quem hade vencer é ella, que é a forte, e casará! São favas contadas. Era o mesmo com minha mulher. Dizia-lhe eu «quero»; respondia-me ella «não quero», e eu... moita... nem palavra.
Então estavam sempre de harmonia?
Está claro. (Rumor fóra)
(indo á janella) Que será isto?
Algum choque do americano com o Rippert.
Nada, parece desordem... Tanta gente defronte da porta...
Da nossa?
Sim, snr. Quer que eu vá saber o que é?
Não... que me importa a mim?... Olha se me aqueces a agua... anda.
Ólá!... és tu?
Tu que tens?
Estou furiosa! (Passa para a direita.)
D'onde vens?
De pregar uma bofetada n'um sujeito.
Fizeste isso?
N'um atrevido...
Talvez imaginasses...
Qual imaginasse! um grosseirão que ousou dizer-me cara a cara: «a menina é encantadora.»
E bateste-lhe por isso? Que farias tu se elle te chamasse estafermo?
O seu sangue frio, meu pae, quando sou insultada! Castiguei-o, e espero que a scena se não repita.
De te chamar encantadora?... Tambem me parece que o homem deve ter modificado a sua opinião a teu respeito... (A Sebastiana) Que fazes tu ahi? a minha agua quente?
Lá vou já, snr. Barnabé. (Á parte) Muito atolambada é esta menina! (Sahe pelo fundo).
(depondo o chapeu e o chaile, vae sentar-se ao piano e canta) Trai la ri, trai la ri, trai la ró.
Isso é um bota a baixo! Agora é o piano que leva a sua conta...
«Na primavera da vida
Ambos e dois muito amigos
Suspiravam por um ninho,
Por um ninho entre os trigos.»
Que é isso que tu cantas?
Uma cançoneta moderna, que se chama: Um ninho entre os trigos. (Canta):
E de braço dado juntos
Ao repontar da manhan
Iam fazer o seu ninho
Nos trigos de Campanhan.
É mais natural que fôsse nas arvores... Os passaros em geral preferem...
Mas não se trata de passaros. (Canta):
Ah! então não é de passaros que se trata? Lá me parecia que dois passaros de braço dado por Campanhan...
É uma menina e um rapaz.
(pegando na cançoneta com arremesso). Basta! Deixa vêr. (Lê alto as tres quadras que ella cantou). E chama a isto um ninho o tratante do cançoneteiro! Quem diabo fez esta coisa?
Foi um poeta inspirado. Dê-me cá a muzica, ande!
Empresto-t'a para a estudares, de tarde, quando eu estiver a dormir a sésta... (Á parte). Mandem lá ensinar piano ás raparigas n'uma terra em que os poetas inspirados dizem ás meninas que se fazem ninhos nos trigos de Campanhan!... e que se aquecem os ovos... O Porto está peor que o Mexico a respeito de ovos e de ninhos...
(entrando pelo fundo). Ainda havia agua quente. Ella aqui está (Dá-lhe a chocolateira).
Bem, vou para o meu quarto (Mudando de ideia). Mas, se estiveres quieta... Um pae póde escanhoar-se na presença da filha (Arranja os utensilios, e remeche o pincel na vasilha do sabonete).
(a Sebastiana) Veio carta para mim?... de Braga?
Não, minha senhora, o carteiro passou ha muito. (Sahe pela porta do fundo)
(comsigo mesma) É espantoso! Ha trez dias que Macario foi para Braga, e nada de noticias! Se eu não tivesse inteira confiança no seu amor... Talvez uma catastrophe! Acontecem tantas desgraças nos caminhos de ferro!... (Vae agitadamente para o pae que lhe voltou as costas e se está barbeando) Meu pae! (com intimativa)
Que é? cuidado, que por pouco me não cortei... Que temos?
Acha isto natural?
Natural, o quê?
Trez dias de auzencia sem me escrever?
Ah! sim, o Macario? (Á parte) Bem me importa a mim isso... (alto) Se elle foi buscar os papeis a Braga, é preciso dar-lhe tempo. (Torna a escanhoar-se)
(passeando) Dar-lhe tempo, dar-lhe tempo! Eu não exijo que elle volte; mas que me escreva; não se está assim trez dias... a fazer o quê?... que difficuldades encontrou?
Não andes assim n'esse passo que me incommodas. Fazes tremer o sobrado.
O pae não sabe o que é amor!
Soube-o primeiro que tu, e dou-te a minha palavra que depois que a gente sabe o que isso é, e pensa a sangue frio... não vale um caracol o amor... Tu o saberás...
Ha tres mezes que conheço Macario, e a toda a hora maldigo as formalidades portuguezas, e pergunto de que servem para a gente se casar, papeis, banhos, tabellião, padre, sacristão...
Ha pessoas que dispensam tudo isso... mas (com energia) fazem mal... fazem muito mal... Sem tabellião, e banhos, e padre e sacristão não ha honra.
Finalmente, logo que Macario chegar com os papeis, não haverá impedimentos...
Isso lá de impedimentos... veremos.
(derrubando uma cadeira, e indo direita ao pae) Haverá alguns? diga...
(cortando-se) Cá está um... vês tu?
Um impedimento?
Um golpe de navalha... estou acutilado!
(estancando-lhe o sangue com o lenço) Deixe vêr... Isto não é nada.
Arde-me... e bastante...
Vae passar.
Falla-me, se queres, mas lá de longe... Eu só de longe é que ouço bem.
(afastando-se e levantando a cadeira) Faço-lhe a vontade; mas o pae fallou de um impedimento... desejo conhecêl-o.
É o meu consentimento.
O seu consentimento?
Está claro; tu não pódes casar sem eu consentir... A lei é positiva.
Que arrelia! Isso quer dizer que, se o pae não ama Macario, tambem eu não posso amál-o...
Lá tu amál-o pódes... mas não basta...
Não posso casar com elle, se o pae o não amar?...
As leis portuguezas dizem isso? Existem absurdos taes n'um povo livre?
(limpando a navalha e pondo-a sobre o contador) Tal e qual, minha filha. Ora agora, quanto a Macario...
(passando para a esquerda) Meu pae, eu amo Macario!
Elle não tem chêta.
Amo Macario!
Passa a vida nos bilhares e nas cervejarias.
Mas eu amo-o.
Acabemos com isto. Amo Macario!
«Amo Macario, amo Macario!» Estás-me cantando o 1.º acto da Favorita. «Eu o amo, eu o amo!»
Dá ou não dá o consentimento?
Não.
Não? (Pega da navalha) O pae é implacavel, hein?
Que é o que ella tem na mão? Ceus! a minha navalha!
(caminhando e brandindo a navalha e o pae a seguil-a) Trato de me evadir ás leis infames d'este paiz. Suicido-me.
Ultima vez: consente?
Consinto: casa com elle.
(largando a navalha e abraçando-o) Obrigada, meu pae, obrigada!
Agora, asfixias-me... (Passa para a direita, levanta a navalha e colloca-a sobre o contador) Cruzes!
Mas o silencio d'elle assusta-me, meu pae! Trez dias sem noticias! Vou escrever a Macario; e, se me não responder, amanhan parto para Braga. Se lhe tivesse acontecido algum revez! (A Sebastiana, que entra pelo fundo) Sebastiana, não estou em casa para ninguem, absolutamente para ninguem (Entra pela direita)
Sou o pae d'esta pombinha... É um anjo... Se eu me vejo livre d'esta ardente creatura do Mexico... Sebastiana, dá-me o casaco e o chapéo.
Sim, senhor. (Sahe pela esquerda)
(só) Deixál-a casar com o Macario! O que eu quero, sobre tudo, é paz e socego... O casamento favorece os meus projectos... Fallaram-me d'uma quinta que se vende em S. Mamede de Infesta. O dono mora perto d'aqui; vou tratar com elle; e, se não fôr muito cara, o meu sonho d'esta noite realisa-se... O repuxo! Ah! o repuxo!
(entrando com o casaco e o chapeo) Aqui estão as coisas.
(despindo o rob-de-chambre) Obrigado... Ajuda-me... (Vestindo-se) Irei viver sosinho em paz e socego.
O senhor vem jantar?
Sim, mas ha de ser tarde. (Sahe pelo fundo repetindo) Em paz e socego...
(só) Muito bom sujeito! (arruma); mas a filha... Ah! tenho pena do tal Macario, se casar com ella! Credo! se eu fôsse homem, e topasse uma creatura assim... ó senhores!... Emfim, isto de homens gostam assim das mulheres que puxem por elles... Mas esta ida a Braga... Quem sabe se o tal Macario... an, an... (Toque fóra) Quem sabe se é elle? (Liborio entra pelo fundo)
Ai! não é elle!
Não é elle: sou eu.
O senhor que quer?
A snr.ª D. Itelvina Barnabé, uma mexicana de raça portugueza...
É aqui; mas...
Ella sahiu? É o que eu quero. (Assenta-se, e apresenta um aspecto risonho) Vou-me ensaiar.
Mas a senhora está em casa.
(erguendo-se de impeto, e tornando-se grave) Recôlho o meu sorriso; n'esse caso vae dizer a tua ama...
A senhora está a escrever, e prohibiu-me de a interromper.
(tornando-se a sentar risonho) Muito bem... vou-me ensaiar.
(á parte) A fallar a verdade, a menina é tão exquisita que, se eu a não aviso, é capaz de se escamar. (alto) O senhor como se chama?
Sim... vou avisar a senhora. Quem direi que a procura?
Annuncia-lhe... um desgraçado! (passa para a esquerda).
Um desgraçado?!
Não... (á parte) Seria parlapatice de mais...
Então que decide?
A tua ama é nervosa?
O senhor que diz? olha que pergunta!
Deve ser nervosa... Olha bem para mim... Vês esta cara melancolica? vês? pois vae dizer á menina Itelvina que está aqui um sujeito com cara de quem chorou...
Como? o senhor quer que eu diga...
Não, outra coisa... espera...
O senhor não pense que eu vou agora incommodar a menina para lhe fazer o seu retrato.
Tens rasão; não a incommodes... Esperarei... convem-me esperar...
(á parte) Tem grande têlha o homem!
Como te chamas?
Para que o quer saber?
Para quê? É para não estar a chamar-te creada; mas, tens rasão... Que me importa a mim? Eu queria chamar-te Mariquinhas ou Theresinha... Que lindos olhos tu tens, e que cinta!... (Cinge-a pela cintura).
Está bonita a chalaça!... foi para isto que veio cá?
Não. Tu me impões o cumprimento de um dever. Obrigado, rapariga, obrigado!
(á parte) Elle é doido; mas aparelha bem com a minha ama... Cá se avenham, que eu vou para a cosinha. (Sahe pelo fundo, levando o rob-de-chambre de Barnabé, e os utensilios de barbear.)
(só, arrumando á esquerda o chapeu e a bengala) Eis-me a braços, com a minha missão!... Aquelle diabo do Macario!... Acabou-se... Não ha remedio... Hontem á noite, entrei no café Lisbonense, e estava lá o Macario a apostar ao bilhar. Assim que me avistou, veio direito a mim, e disse-me: «Liborio, és meu amigo?» Eu conhecia-o de ter estado com elle no collegio do Six, onde tinhamos rilhado de parceiros algumas raizes de latinidade. Respondi-lhe: «Sim, sou teu amigo para a vida e para a morte.»--«Para a morte? exclamou elle. É o que eu exijo da tua amizade. Se me amas, vaes matar-me!» E em poucas palavras contou-me os seus amores com uma mexicana a quem promettera casamento. «Esta neta de Montezuma, disse elle, não pega como uma obreia--agarra-se á gente como colla forte: é um betume. Quer por força pregar comigo na egreja. Se eu não cazar com ella, mata-me; e eu prefiro antes morrer ás tuas mãos que ás d'ella.» Fallou-me então d'uma fantastica sahida para Braga, e encarregou-me da missão que venho cumprir... Confésso que não me encarregaria d'isto sem umas certas intençoens... O retrato que elle me fez d'essa Itelvina realisa os meus ideaes. Uma rapariga selvagem é ave rara no Porto!... Uma mulher que tem nas veias sangue dos Incas!... alto lá com ella! Está no meu gosto. Resolvi, por tanto, relacionar-me com a pequena; e, se me agradar, tratarei de lhe dar algum alivio, e passo a emprehender a conquista do Mexico. (Olha para o lado direito) Abre-se uma porta... é talvez a pequena... Agora é que são ellas... Firme!...
(com uma carta na mão) Está feita a carta... já p'ro correio... (avistando Liborio) Um homem!...
(cumprimentando) Minha senhora... (á parte) Fatia!... rica natureza!
O senhor quem procura?
A snr.ª D. Itelvina Barnabé.
Sou eu.
(sorrindo) Minha senhora... (á parte) trabalha-se bem no Mexico... (alto) Venho encarregado de lhe transmittir uma importante noticia...
Noticia?
(á parte) Circumspecção...
Queira dizer (apontando-lhe uma cadeira e sentando-se)
(pegando de uma cadeira do fundo á esquerda e sentando-se) (á parte) Estou atrapalhado... (alto) Minha senhora, acabo de chegar de Braga.
(erguendo-se, e elle tambem) De Braga?
(passando para a direita) (á parte) Parece que o cavaco tem de ser de pé. (Alto)... Venho de Braga, onde estive com Macario...
O senhor é amigo d'elle?
Sim... isto é... sim... oh! certamente... amigo intimo...
(com vehemencia) Por que não está elle aqui ao pé de mim como prometteu e jurou? Por que me não escreve? porque é? diga-me o senhor por que é?
(á parte) Que bonita ella é zangada!
O senhor não responde?
Responderei. (á parte) Circumspecção! (alto) Macario ficou em Braga... e encarregou-me de communicar a V. Exc.ª as rasoens que o prendem lá.
Mas acabe com isso... vamos direitos á questão... Nada de delongas...
(á parte) Tambem não é feia na impaciencia!... (alto) Minha senhora, o imprevisto é o machinista da existencia... O acaso arranja uns scenarios, umas tramoias que parecem de peça magica...
Que mais?
(á parte) Não vamos logo ás do cabo. (alto) Ah! minha senhora... ser joven, bello, amado de uma mulher... isso não é rasão para impedir que um máu destino... pelo contrario é peor...
Ó senhor! por piedade! Acabe...
Macario disse a V. Ex.ª, creio eu, que ia a Braga buscar uns papeis...
E mentiu-me?
Quanto ao fim da viagem, mentiu. Ninguem hoje vae a Braga senão por dous motivos.
Ou se vae ao Bom Jesus vêr os judeus e comer frigideiras, ou terçar no campo da honra dois floretes, desde que os duelos no Porto, por muito repetidos, têm a policia n'uma constante vigilancia.
Um duelo!?
Um conflicto de honra...
Elle foi bater-se? Ficou ferido?
Minha senhora...
Ligeiramente ferido, sim? quasi nada? Oh! diga-me que não é nada!
Minha senhora... Macario... ah!... não posso... Se V. Ex.ª soubesse...
Ó ceus!... que foi?...
(á parte) Chegou o momento.
Macario?...
Macario...
Morto! (Liborio está um momento silencioso; depois, ampara a cabeça com as mãos).
(expedindo um enorme grito) Ah!
Minha senhora...
Morto! assassinado... elle!... ah! (Roda sobre si mesma duas vezes e vae desmaiar no canapé).
Hein! ella desmaia!... ora esta! Não a julgava capaz d'esta tolice! (vae junto d'ella) Menina... Acho que chamo alguem... Mas que historietas se vão arranjar com este caso!... Menina, peço-lhe que recupere os sentidos... Se eu a despertasse... Mas é preciso bolir-lhe nos colchetes... Não, não me atrevo a fazer tanto... O coração bate-lhe... Estou mais socegado... É gentil!... é mais que gentil, é formosa! Isto é bom a valer!... E aquelle parvo do Macario a desdenhar... Ella está ganhando côres... já lhe tremem as azas do nariz... e pestaneja. Volta á vida... Se eu me safasse agora... (Vae a querer sahir e retrocede) Não: já agora fico, succeda o que succeder.
Onde estou?
Menina...
Quem me falla? quem é o senhor? (encarando-o) ah!
Esta voz... esta cruel voz...
Que é?
Recordo-me... Macario, o meu noivo, a minha alma... ah! ah! ah! (recahe sobre o canapé e chora).
(á parte) Palavra, que me mordem remorsos.... Se eu previsse... Acabou-se... Vou-lhe dizer tudo... (caminha para ella; mas reconsidera) É demais atormentar assim esta mulher com mentiras... Diabo! como ella chora... (avisinha-se) Minha senhora, então, então...
(erguendo-se energicamente, limpando as lagrimas, e passando para a direita) Basta de fraqueza! Nada mais de prantos! Um scelerado matou Macario... e eu aqui a carpir-me em vez de o vingar! (Vae a Liborio) O senhor foi testemunha do duelo?
Sem duvida... isto é... sim... fui testemunha (com dôr) Fiz quanto podia; mas...
Sabe qual foi a causa do duelo?
A causa? ora, se sei... pois não sei?... (á parte) Ó diabo!... (alto) pois não heide saber a causa? não sei eu outra coisa...
Então diga lá qual foi?
Uma questão de carambolas... A paixão do Macario... bem sabe... é o bilhar... Por causa de uma carambola...
De uma carambola?
Sim... o parceiro tinha descolado a bola.
Está bem... não quero saber d'isso... Logo que o motivo não foi outra mulher, o resto não me importa. Como se chama o adversario?
O adversario?
O nome d'elle?
Então quer que eu lh'o diga...
O nome do assassino. (Liborio hesita) Vamos!
Ah! sim o nome do assa... Ora espere... Mas é que eu fui padrinho do Macario... e não conheço o outro...
Ora essa! um padrinho deve conhecer os dois.
Tem razão; é natural que m'o dissessem; mas a commoção...
(á parte) O homem está atrapalhadissimo! (alto) Mas o senhor quem é? como se chama?
Liborio, minha senhora, Arthur Liborio; profissão, filho familia que devora a legitima paterna; mas tenho muitos tios ricos...
Pois então, senhor Liborio, meu presado senhor Liborio, diga-me o nome...
De quem?
Do assassino de Macario.
Palavra d'honra que não sei...
O senhor mente!
Ó minha senhora...
Antes isso... que é menos indelicado...
Está bom: eu saberei o nome. Onde foi que se bateram?
Onde foi?
Tambem não sabe?
Não sei eu outra coisa! mas essas miudezas... (á parte) ella embrulha-me!
(á parte) Outra vez atrapalhado!
Foi n'uma carvalheira... A snr.ª D. Etelvina conhece Braga?
(á parte) Ainda bem! (alto) Braga tem a figura d'um enorme bacalhau da Noruega, e tem 3 portas. Nós sahimos pela estrada de Guimaraens. Foi ao pé da Falperra. Carregando á mão direita topa-se uma azenha, depois sobe-se um pedaço de monte, toma-se para a esquerda, e entra-se n'uma mata virgem... Foi ahi que se bateram.
Não preciso mais nada. A que horas se sahe para Braga?
Ha tres comboios a escolher.
Iremos no primeiro.
Iremos?!
Duvída acompanhar-me?
Ir mostrar-me a fatal mata virgem, e auxiliar-me nas minhas pesquizas até descobrir o assassino de Macario?
Mas, minha senhora...
Não vae?
Irei; mas...
Vou escrever a meu pae, preparar a malêta e vamos... (vae para a direita)
Sosinhos?
Com meu pae... Jura que me espera?
Faça favor de reflectir... minha senhora...
Sobre os manes de Macario! juro!
Obrigada! venho já. Oh! sim! a Braga, no expresso! (sahe velozmente pela direita).
(só, cobrindo-se) Toca a safar! É uma canalhice faltar ao juramento... mas basta de asneiras... Onde esta o meu chapeo? A rapariga é bonita, é adoravel; mas leval-a a Braga e mais o pae, e continuar esta tramoia absurda...--onde poria eu o chapeo?--que eu vim representar no seio d'esta familia (Põe a mão na cabeça) Cá está o chapeo... Por aqui me esgueiro... (Vae a sahir pelo fundo, e encontra Barnabé que entra).