XLVII

HYMNO DA INFANCIA DESVALIDA

Desherdados no berço de heranças,
Desvalidos dos braços de mãe,
Quem nos cérca o viver de esperanças,
Nos educa, nos veste, e mantem?

CORO

O Bom Deus que proteje a innocencia,
De quem são nossos cantos de amor;
Desherdada é sómente a existencia,
Do infeliz que descrê do Senhor!

Onde o bem? Onde o mal? nós no mundo
Como iremos a vida encontrar?
Neste valle enredado e profundo
Quem nos ha de o caminho apontar?

O Bom Deus que proteje a innocencia,
De quem são nossos cantos de amor;
Desherdada é sómente a existencia,
Do infeliz que descrê do Senhor!

Quem virá ser-nos pae na orphandade?
Consolar nossos dias de dor?
Circundar-nos depois noutra edade,
De delicias, de sonhos, de amor?

O Bom Deus que proteje a innocencia,
De quem são nossos cantos de amor;
Desherdada é sómente a existencia,
Do infeliz que descrê do Senhor!

Dos thesouros de affecto que encerra
Entre vós maternal coração,
Quem vos faz a nós orphãos na terra,
Repartir d'esse affecto um quinhão?

O bom Deus que proteje a innocencia,
De quem são nossos cantos de amor;
Desherdada é sómente a existencia,
Do infeliz que descrê do Senhor!

E esse affecto ideal que illumina
O existir de um reflexo do ceo,
Que a soffrer e que a amar nos ensina,
Quem no peito materno o accendeu?

O Bom Deus que proteje a innocencia,
De quem são nossos cantos de amor;
Desherdada é sómente a existencia,
Do infeliz que descrê do Senhor!

Mas nós crêmos, sentimos, amâmos,
A Deus grande na terra e nos ceos,
E do intimo da alma exclamâmos:
Gloria a Deus! Gloria a Deus! Gloria a Deus!

1850.

XLVIII

GRATIDÃO E SAUDADE

(Recitada no Theatro)

De candidos sonhos, de luz, e de flores,
Cercada a existencia começa a sorrir;
Alegre o presente nos falla de amores,
De amores nos falla brilhante o porvir!

Depois no horisonte sereno, e risonho,
Carregam-se as sombras, perturba-se a luz,
Esvae-se a ventura veloz como um sonho,
Que apenas instantes na vida reluz!

Assim penetrando no mundo das artes,
Ao tímido lume de frouxo clarão,
Olhava, e só via por todas as partes,
A meiga esperança sorrindo em botão!

De lyrios e rosas grinalda fragrante,
Cuidei mais ainda: cuidei vêl-a ahi;
Nos braços a aperto, convulsa, anhelante,
Aos labios a levo, na fronte a cingi!

Foi breve este sonho de amor, e de encanto;
Acordo, e procuro debalde uma flor;
Inundam-se os olhos de angustia e de pranto,
Ao ver que só restam espinhos e dor!

Só restam espinhos das pallidas rosas,
A quem pobre artista não ousa pedir
Os loiros frangrantes, as palmas viçosas,
Que a fronte de genio só devem cingir!

Só restam espinhos? ai, não! Se a ventura,
Não quiz que durasse tão meiga illusão,
Em paga deixou-me no peito a doçura.
De terna, suave, leal gratidão!

Que a voz do mais fundo, mais intimo d'alma,
Sincera tributa nest'hora o dever!
Embora outras palmas morressem,—a palma
De gratas memorias não póde morrer!

Desfeitos os sonhos, fanadas as flores,
Quebrado o encanto da pura illusão,
Que resta ao artista?—espinhos e dores,
Saudades! mais nada no seu coração!

Saudades da gloria, da luz, da ventura,
Dos magicos sonhos, presente dos ceos,
Saudades que attestam a funda amargura,
Que sente ao dizer-vos agora um adeus!

1853.

XLIX

Diante do tumulo de Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) e de sua filha.1


«Não sabe o que é padecer,
Quem o filhinho que adora
Não viu ainda morrer!»
(A. Garrett)

—«Bem sei que era exilio a terra
Para ti, anjo do ceo!
Porém, filha, abandonar-me
Quando toda a minha vida
Era a luz d'um olhar teu!
Ouvir essa voz infante,
Ver a impaciente alegria
De teu candido semblante!

«Deixar-me assim na existencia
Triste, só, desamparado,
Aquella flor de innocencia!
Que lhe fiz? tinha-a cercado
De quanto amor neste mundo
Pela mão da Providencia
A peito de homem foi dado!
Oh! que affecto tão profundo!
E tu pudeste partir?
Pois não tiveste piedade
D'esta solemne amargura,
D'esta infinita saudade?
Vi-te inda olhar-me, e sorrir,
Erguer os olhos aos ceos,
No instante de proferir,
O fatal e extremo adeus!...
...........................
...........................

«Oh! volve outra vez a mim,
Desce á terra, anjo do ceo,
Vem dar-me a ventura emfim!
...........................
...........................
Olha: o vivo sol de Abril
Já nestes campos rompeu;
As rosas desabroxaram;
O rouxinol desprendeu
A voz em saudosos cantos;
Os sitios onde passaram
Os teus descuidados annos,
Não os vês cheios de encantos?
São estes! a mesma fonte,
Ferve alem; naquelle outeiro
O mesmo casal alveja;
As ramas do verde olmeiro,
Dão sombra á modesta igreja
Onde tu vinhas resar,
Quando o som da Ave-Maria,
N'hora meiga do sol posto,
De vaga melancolia
Toldava teu bello rosto!
Tudo o mesmo!?... esta inscripção!...
Este nome!... anjo do ceo,
Este nome, filha, é teu!!
Oh! meu Deus, por compaixão,
Na mesma pedra singela,
Juntae o meu nome ao d'ella!»—
...............................
...............................
...............................
E Deus ouviu a oração...
O mesmo tumulo encerra
Filha e pae. Na mesma lousa
Onde repousam na terra,
Uma lagrima saudosa
Vem hoje depôr tambem
A esposa, a viuva, a mãe!

1854.

1 Quem tratou de perto Salvador Corrêa de Sá (Visconde d'Asseca) conheceu um dos caracteres mais nobres da nossa terra. Estes versos dedicados á sua memoria são um testemunho de saudade bem humilde, mas bem sincero. Um dia o braço da Providencia arrebatou-lhe uma filha, anjo que principiava a abrir as azas candidas, e que subindo ao ceo levava o coração d'aquelles que lhe haviam dado o ser. Em breve ao lado do estreito tumulo onde ella repousava ia juntar-se o cadaver do pae!

L

CANÇÃO DOS PIRATAS

(Traduzido do Corsario de Byron)

Sobre as ondas do mar azul ferrete,
Sem limites são nossos pensamentos,
E como as ondas nossas almas livres,
Por quanto alcança a doidejante briza
Cobrindo a vaga de fervente escuma
Nós temos uma patria! Eis os dominios
Onde fluctua o pavilhão que é nosso,
Sceptro a que devem humilhar-se todos!
Turbulenta e selvagem quando passa!
Da lucta ao ocio em taes alternativas
A vida para nós tem mil encantos!
Mas estes, oh! quem póde descrevel-os?
Não serás tu, escravo dos deleites,
Tu, que ao ver-te no cimo inconsistente
Das alterosas vagas desmaiáras!
Não serás tu, vaidoso aristocráta,
Educado no vicio e na opulencia,
Tu que nem pódes repousar no somno,
Nem achar attractivos nos prazeres.
Oh! quem póde no mundo compr'endel-os?
A não ser o incançavel peregrino,
D'estes plainos que ficam sem vestigios;
Do qual o coração affeito aos p'rigos
Pula orgulhoso em delirante jubilo
Quando se vê sobre o revolto abismo!
Só elle présa a lucta pela lucta
E espera ancioso a hora do combate.
Quando o fraco esmorece apenas sente
No mais profundo do agitado seio
A esperança que vívida desponta
E o fogo da Coragem que se accende!
Não nos assusta a morte, oh! não; comtanto
Que a nossos pés succumba o inimigo,
E comtudo mais triste que o repouso
Inda parece a morte! mas embora,
Embora, oh! póde vir! ao esperál-a
Vai-se exhaurindo a essencia d'esta vida;
E quando ella se acaba, pouco importa!
Caír pela doença, ou pela espada!
Haja um ente que prese inda algum resto
D'existencia senil! viva aspirando
Sobre o leito da dor um ar pesado,
Erguendo a custo a trémula cabeça!
Para nós são as relvas florescentes!
Emquanto ess'alma expira lentamente,
Foge a toda a pressão d'um salto a nossa!
Possa ainda ufanar-se esse cadaver,
Da cova estreita e do marmoreo tumulo
Que a vaidade dos seus lhe consagrára!
São raras, mas sinceras, nossas lagrimas,
Quando o oceano, abrindo-se, sepulta
No vasto seio os nossos camaradas!
Inda mesmo no meio dos banquetes
Funda tristeza nos rebenta d'alma
Quando a purpurea taça erguendo aos labios
A memoria dos nossos corôamos.
E o seu breve epithaphio é redigido,
Ao por do sol do dia da batalha,
Ao dividir as presas da victoria,
Quando a exclamam os rudes vencedores
Com a fronte anuviada de saudades:
Ai, de nós! como os bravos que morreram
Folgariam ditosos nesta hora!

Julho de 1861.

LI

NUM ALBUM

Onde o meu amigo e joven poeta, D. Thomaz de Mello, tinha escripto uns versos.

No reverso da folha onde escrevo,
Um cantor jovenil pulsa a lyra,
E magoado, e sentido, suspira,
Com saudosas memorias d'amor!

Na cadencia da lettra singela,
Qual murmurio de branda corrente,
Transparece sua alma innocente,
Toda vida, perfume, e calor!

Variegado, risonho, brilhante,
Inda agora na flor da innocencia
Vendo o mundo, sorri-lhe a existencia
Atravez do seu prisma gentil:

Cuida extinctas ficções encantadas,
Crê perdido o seu sonho d'amores,
Julga vêr desbotadas as flores
Que adornavam sua harpa infantil!...
................................

Ai! poeta! ai de ti! que saudade,
Que saudade tão funda e sentida
Has de ter d'esses annos da vida,
Quando os vires ao longe ficar!

Que saudade tão funda do tempo
Em que tinhas sentido saudade,
Has de ter quando a triste orfandade
Dos affectos tua alma enluctar!

Ouve pois joven bardo que a lyra
Pulsas hoje com tanta amargura;
De illusões, de poesia e ventura,
Enche agora teus annos em flor.

Que são estes ephemeros sonhos,
Os que vem derramar grata essencia
Sobre a tarde da nossa existencia
Dar-lhes vida, perfume, e calor!

Agosto de 1854.

LII

Á memoria da Ex.ma Sr. D. Maria Gertrudes Manuel da Cunha.

Na hora melancolica,
Do despedír do dia,
Quando se escuta o cantico,
Ou extranha melodia,
Que na deveza languido
Desprende o rouxinol;

Quando desponta pallida
No firmamento a lua,
E que inda incerta e trémula,
No mar azul fluctua
Co'a viva cor da purpura
A frouxa luz do sol!...

Quem passe pelo tumulo
Que encerra a virgem bella,
Quebre o silencio tetrico
A orar prece singela
Por essa que a existencia
Deixára inda em botão!

Por ella!? ai, não! a supplica
Ao nosso Deus erguida,
Seja por quem, perdendo-a,
Perdeu parte da vida,
E que no mundo estatico
A filha busca em vão!

Ella este val de lagrimas
Abandonou, subindo
Ao ceo que lhe era patria!...
Ella, feliz, sorrindo,
Brilha no mundo ethereo
Ao lado do Senhor!

Por nós, oh, sombra angelica,
Implora a Deus piedade!
Anjo das azas candidas,
Consola a saudade,
D'aquelles que, adorando-te,
Te viram morta em flor!

Outubro de 1852.