Bella, graciosa e timida,
Na aurora da existencia
Rosa de grata essencia
Sorrias em botão!
A luz do sol explendido
Vinha inundar-te a frente,
Suave e docemente
Beijar-te a viração!
Como os affectos intimos
Da maternal ternura
Enchiam de ventura,
A tua vida em flor!
E como a face candida
Serena, reflectia
A magica poesia
D'ess'alma toda amor!
Dos pensamentos lugubres,
Das ambições da terra,
Das maguas que ella encerra,
Dos crimes que contém,
Jámais a teu espirito
Chegará o som profundo,
Anjo descido ao mundo
Só para amar o bem!
Um dia, a immensa abobada,
Azul e resplendente,
Toldou-se de repente
Ao sopro do tufão!
Era o primeiro fremito,
Nuncio da tempestade,
Que vinha sem piedade
Rosa, lançar-te ao chão.
Ao ver abrir-se o tumulo
Sorrias sem receio,
E se a teus olhos veiu
Funda expressão de dor,
Foi quando a boca tremula
Da mãe que te perdia,
Á tua enfim se unia,
Com mais profundo amor!
Então, como ella, pallida,
Soltando o extremo alento,
Volveste num momento
Á gloria perennal!
E logo fria, gellida,
Sem ter nem cor nem vida,
Par'ceste adormecida,
No seio maternal!
Setembro de 1856.
A idéa de emprehender a imitação d'este bello romance do autor do Child-Harold, devo-a ao meu amigo. A obra teria ficado em meio, se não fossem os desejos que manifestou de vel-a concluida. É por isto que tomo a liberdade de lh'a offerecer agora que vou dal-a ao publico.
Chamo-lhe imitação, porque me parece mais modesto o titulo, posto não seja essa a opinião geral, nem talvez fosse a minha noutras circumstancias. Nesta porém, creio que mais distante ficaria do original, quanto mais escrupulosamente intentasse aproximar-me d'elle.
Não sei se faço perceber bem a minha idéa: intendo que interpretar as obras do genio, é mais difficil do que imital-as de longe. A traducção deve ser a copia fiel; e como copiar os arrojos do maior poeta que tem tido este seculo?! Ainda assim procurei, quanto pude, seguir o pensamento predominante da composição, e conservar alguns toques da cor primitiva do quadro. Não sei se o alcancei. Se numa ou noutra passagem menos infeliz da minha tentativa o leitor sentir aquelle sabor particular que se encontra em todas as composições do grande poeta, dar-me-hei por satisfeito; se, como é mais provavel, nem isso houver conseguido, terei o castigo na indifferença publica. Com o que eu decerto conto é com a benevolencia do meu bom amigo para desculpar a insignificancia d'esta offerta ao
Seu do coração
Janeiro de 1857.
Bulhão Pato.
É na hora, em que a voz bella e sentida
Do meigo rouxinol, entre a folhagem
Das balsas escondido, solta ao vento
A saudosa canção do fim do dia:
Hora solemne e grata em que os amantes
Renovam mil protestos de ternura,
De constancia e d'amor; em que o susurro
Da fresca viração vai confundir-se
Co'o murmurar da trepida corrente.
De cristalino orvalho borrifadas,
As vicejantes flores da campina
Mais vivo aroma espargem no ambiente.
Accendem-se no ceo milhões de estrellas,
É mais escuro o azul á flor das vagas,
E a verdura do bosque é mais sombria.
Entre as trevas e a luz, o firmamento
Jaz velado por languido crepusculo,
Que rapido se esvai nos frouxos raios
Da lua, despontando no horisonte.
Mas não é para ouvir os doces carmes
Do amoroso cantor, que Parisina
Do palacio feudal ao parque desce;
Nem para contemplar a luz brilhante
Das tremulas estrellas, que divaga
Por entre as sombras que diffunde a noite.
Se procura um desvio na espessura,
Não é para aspirar o vivo aroma
Das matisadas flores; e se escuta,
Não é de certo para ouvir das aguas
O brando murmurar. Sons mais queridos
Espera o seu ouvido nesse instante.
Rangendo as folhas seccas denunciam
Que se aproxima alguem: empallidece
De susto e de prazer ao mesmo tempo.
D'entre as ramas que a brisa doidejante
De espaço a espaço agita, mansamente
Parte emfim uma voz: é voz amiga;
De subito o rubor lhe volta ás faces,
E mais livre, porém não menos forte,
Bate-lhe o coração no peito agora.
Mais um momento só é já passado,
Aos pés da bella jaz o cego amante.
O ceo, a terra, os homens, quanto os cerca,
Que lhes importa nesse doce instante?
Tudo é nada a seus olhos deslumbrados
Pelo fogo do amor; tudo se perde,
Se confunde, e se esvai nesse delirio!
Nos suspiros que vem do fundo d'alma,
Nesses mesmos, respira tal ventura,
Que, se fosse mais longa, dentro em pouco
A vida ou a razão succumbiria!
Oh! quem sente lavrar dentro do peito
O fogo da paixão com tanto imperio,
Não pensa na desgraça, nem se lembra
Da curta duração de taes enganos!
Ai! quantas vezes despertâmos antes
De saber que não volta o mago sonho!!
Vão partir: vão deixar com passos lentos
O encantado logar que presenceára
O seu transporte em delirante crime.
Vão partir: e apesar dos mil protestos,
Da esperança que em breve hão de juntar-se,
Dor profunda no peito lhes comprime
Agora o coração, como se fosse
Aquella a derradeira despedida.
Parisina, cravando os olhos languidos
No firmamento azul, treme, sentindo
Que aquelle ceo não pode perdoar-lhe.
Elle outra vez a cinge contra o peito;
Um suspiro, um adeus, inda outro beijo,
É forçoso partir, levando n'alma
Os amargos, crueis presentimentos,
Que de perto acompanham sempre o crime.
Tranquillo no seu leito solitario,
Hugo repousa, e pode sem receio
Livremente soltar o pensamento.
Porém ella descança a fronte pallida
Das fadigas do amor, junto do esposo.
Sonhando, em voz sumida solta um nome,
E suppondo estreitar contra seu peito,
Agitado e febril, o terno amante,
Entre os braços comprime esse que dorme
Agora ao lado seu. Subito acorda
Á suave impressão do meigo abraço
O esposo que se julga idolatrado,
Até nos sonhos da adorada esposa!
Sobre o seu coração com quanto affecto
Reclina aquella fronte encantadora!
Com quanto afan procura ouvir as frases,
Que de seus labios solta entrecortadas!
Mas.... que ouviu? Santo Deus! Nesse momento,
Azo, o altivo senhor, estremecêra
Como tendo escutado a voz do archanjo!
Oh! deve estremecer, porque a sentença,
A sentença fatal que os seus ouvidos
Acabam de escutar, vai despenhal-o
Para sempre no abismo da desgraça!
O nome que ella em sonhos proferíra,
Que soára tremendo como a vaga,
Quando arremeça aos concavos rochedos
A debil prancha que sustenta o naufrago,
Esse nome qual foi? O nome de Hugo;
Hugo, o filho da pobre e linda Branca,
Que o principe illudiu, e sem piedade
Depois abandonou! Hugo, seu filho,
Fructo innocente de um amor culpado!
Azo arranca o punhal, mas pára olhando-a!
Quem podera immolar um ser tão bello?!
Oh! ninguem! Apesar do negro crime,
Da nefanda traição, faltam-lhe as forças,
Ao contemplal-a assim adormecida.
Nem a acorda sequer, mas por instantes
No seu rosto encantado crava os olhos.
Se de subito agora despertasse,
A infeliz nesse olhar sentíra a morte!
Pela fronte do principe traído,
Frio corre o suor, e á luz da lampada
Estremecem brilhando as grossas bagas.
E ella dorme! Oh! mal sabe que os seus dias
Nesse instante fatal foram contados!
Assim que o sol desponta no horisonte,
Azo corre a indagar pelos que o cercam,
E as derradeiras provas apparecem.
As aias da princeza, largo tempo
Conniventes no crime, revelaram
Quanto havia de occulto nesse drama.
Não tem que duvidar! Azo, escutando
A longa historia de tão negro crime,
Sente em ondas subir-lhe o sangue ás faces,
Que de profunda cholera se inflammam.
Na vasta sala do feudal palacio
O orgulhoso Senhor da casa d'Éste,
Sobre o purpureo throno está sentado.
Nobres, pagens, soldados o circundam,
Os olhos crava nos culpados ambos,
Ambos jovens e bellos. Duros ferros
Tem sujeitos os pulsos do mancebo,
Que fôra brutalmente desarmado
Por mercenarias mãos da nobre espada.
Na presença de um pae é d'este modo
Que deve, oh Christo, apresentar-se um filho?!
Porém, Hugo infeliz, nesse momento,
Tem de ouvir a sentença incontrastavel
Dos labios paternaes, prestar ouvidos
Á triste narração do seu opprobrio!
E comtudo a expressão do nobre rosto,
A distincta altivez conserva ainda!
Pallida, sem alento e silenciosa,
Aguarda Parisina nesse instante
As palavras fataes. O seu destino
Quão rapido mudou! Ha pouco ainda,
D'aquelles olhos a celeste chamma
Pelos salões doirados espargia
A meiga seducção. Se nesses olhos
Visse alguem borbulhar uma só lagrima,
Mil cavalleiros da mais nobre estirpe,
Arrancando da espada, a vingariam!
Mas agora, infeliz! quantos a cercam,
Mal disfarçam no rosto carregado
A contida expressão do seu desprezo!
E elle, o amante adorado da sua alma,
Elle, oh Deus! que liberto por instantes,
Por instantes que fosse, a houvera salvo,
Jaz preso ao lado seu em duros ferros!
Jaz ali, mas não vê que aquellas palpebras
Onde outr'ora fugia a cor suave
Da terna violeta, convidando
A mil sequiosos, demorados beijos,
Se entumecem, velando a vista immovel
Das pupillas, nas quaes a dor intensa
Accumula uma lagrima apoz outra!
Oh! por ella tambem, nesse momento,
Derramára o infeliz amargo pranto,
Se de tantos a vista a não cercasse.
A dor que o devorava, parecia
No mais intimo d'alma adormecida;
A fronte macilenta e transtornada,
Conservava-se altiva. Por mais forte,
Mais acerbo que fosse o seu tormento,
Não quizera humilhar-se na presença
D'aquella multidão que o comtemplava.
A companheira bella de infortunio,
Não se atrevia a olhar. Ao recordar-se
Das horas do passado, do seu crime,
Da vingança de um pae, do seu destino,
E sobre tudo do destino d'ella,
Não ousava lançar sobre esse rosto
A desvairada vista, receando
Que, cedendo ao remorso, revelasse
Quanto o seu coração fôra culpado.
Azo emfim sólta a voz:
«Ha pouco ainda,
Numa esposa e num filho resumia
Toda a minha ventura neste mundo.
A aurora dissipou tão bello sonho!
Antes do pôr do sol, nem um nem outro
Me devem pertencer. Quebrem-se embora,
As ligações mais caras da minh'alma!
Hugo! um padre te espera, e depois d'elle
A justa punição do teu peccado.
Ergue preces ao ceo antes que o lume
Das estrellas se accenda no horisonte:
Talvez te dê perdão. Mas neste mundo
Não existe logar onde possâmos
Nós ambos respirar. Adeus, não quero
Assistir ao teu ultimo momento!
Porém tu, fragil ser, ensanguentada
Terás de vêr cair essa cabeça.
Vai, traidora mulher; sobre a tua alma
Pese o remorso da desgraça d'elle!
Vai-te, adeus, e se podes, contemplando
Este exemplo fatal, ter vida ainda,
Gosa d'ella, que livre t'a concedo!»
Velando a face pallida e sombria,
Onde as veias inchando palpitavam,
Como se o sangue em ondas refluisse
Do coração á fronte, Azo ficára
Callado longo tempo. Hugo, soltando
Profunda, porém firme, a voz do peito,
Roga ao pae que o escute alguns momentos.
O principe em silencio lh'o concede:
«Tu bem sabes que a morte não receio;
Tinto em sangue mil vezes nas batalhas
Me viste ao lado teu, onde mais forte,
Mais travado e mortal, era o combate.
Então deves lembrar-te que esta espada,
Que ha pouco os teus escravos me arrancaram,
Derramára mais sangue do que em breve
Fará correr a mão do teu carrasco.
Deste-me a vida; arrancas-m'a; que importa?
Quite me deixas d'esse dote infame!
Presente, viva tenho na memoria
A injuria com que as faces affrontaste
De minha pobre mãe; e a vil herança
Que recebi no berço, inda me accende
O semblante de cholera e vergonha.
«No tumulo onde agora ella repousa,
Irá juntar-se em breve o meu cadaver.
Transido o peito seu por mil desgostos,
Separada do corpo esta cabeça,
Entre os mortos dirão até que ponto
Foste amante fiel, pae carinhoso.
«Ultragei-te, é verdade, mas bem sabes
Que trocámos affronta por affronta.
A mulher a que chamas tua esposa,
Victima ingenua do teu fero orgulho,
Não te lembras que fôra largo tempo
Destinada a ser minha? Mas tu, vendo-a,
Contemplando o seu rosto, desejaste-a,
E para emfim provar que não podia
Pertencer-me jámais ousaste affoito,
Allegar o teu crime e a minha origem.
«Era indigno de ser esposo d'ella!
E porque?! Por que as leis não consentiam
Que eu podesse aspirar ao throno d'Éste.
E comtudo, se a mão da Providencia
Me conservasse a vida, dentro em pouco
Podéra conquistar de certo um nome
Tão nobre como o teu. Tive uma espada,
E sobeja ambição para elevar-me
Com ella aos feitos de sonhada gloria.
Bem sabes que as esporas mais brilhantes,
Nem sempre as traz aquelle que nascêra
Embalado na purpura, e que as minhas,
O corcel que montava, por mil vezes
Avante arremessaram dos mais nobres,
Mais valentes senhores, quando, lembras-te?
Carregando eu bradava: Éste e victoria!
O meu crime conheço, e não procuro
Minoral-o, descança, nem tão pouco
Implorar-te alguns dias de existencia,
Rapidas horas que sem ser contadas
Passarão sobre a pedra do meu tumulo!
«Delirio, como foi o do passado,
Não podia ser longo. A minha origem,
O meu nome, não são de mancha isentos;
Mas comtudo, apesar do teu orgulho,
Regeitar perfilhar-me!... nesta face,
Quaes olhos não verão que sou teu filho?
A minh'alma tambem de ti procede!
De ti, sim; por que tremes? de ti veiu
O indomavel vigor do meu caracter.
Não foi somente a vida que me deste,
Porém quanto podia emfim tornar-me
Em tudo igual a ti. Comtempla a obra
Do teu culpado amor! Na semelhança,
Semelhança fatal que vês no filho,
Irada te castiga a Providencia!
Est'alma não é pois a d'um bastardo,
Como a tua não soffre a tyrannia.
O passageiro sopro da existencia,
Nunca em mais o presei do que tu proprio,
Quando juntos na força do combate,
A galope os corceis, a espada em punho,
Por mil vezes nas renques do inimigo
Rompendo a ferro frio penetramos.
«O passado acabou, e dentro em pouco
O futuro com elle irá juntar-se,
«Mas oxalá que a mão do Omnipotente
He houvesse dado a morte em taes instantes!
«Era pouco deixar-me orfão no mundo
Do affecto maternal; ousaste ainda
Arrebatar-me a noiva! Mas que importa?
Sou teu filho, conheço-o neste instante,
E a sentença cruel que proferiste,
Posto venha de ti, não posso agora,
No fundo de minh'alma achal-a injusta.
«No peccado nasci, morro na infamia;
Por onde começou, termine a vida.
Errando o filho, o pae tambem errára;
Num, castigas os dois. Perante os homens
Eu, quem sabe? serei o mais culpado,
Porém Deus julgará entre nós
ambos.»
Cruzando as mãos no peito Hugo fizera
Resoar os grilhões, e d'entre os chefes,
Que a sala do palacio povoavam,
Não houve um só, que ouvindo esse ruido
Deixasse de tremer. Depois cravaram
Sobre a fatal beldade a vista a um tempo.
Parisina, infeliz! pallida e fria,
Immovel como estatua de alabastro,
Dissemos que assistíra á scena horrivel,
Da perdição do amante. Os olhos fixos,
Scintillantes, abertos, desvairados,
Nem sequer por instantes se volveram.
Nem uma vez as palpebras, cerrando-se,
O fito olhar velaram; mas em torno
Das pupillas azues, e resplendentes,
Sem cessar se alargava o alvo circo!
Uma lagrima a custo conglobada,
Lentamente das palpebras saía,
Tremendo sobre a franja das pestanas:
Quem o sabe contar? nesse momento,
Os que a viam, pasmavam, não podendo
Crer que a olhos de humana creatura,
Fosse dado verter tão grossas lagrimas!
Quiz fallar, mas a voz morreu cortada:
Comtudo no som cavo que soltára,
Nesse longo suspiro, parecia
Que vinha o coração; apoz instantes
Tentára inda outra vez, porém debalde!
Do mais fundo do peito a voz partira
Num grito, num gemido prolongado,
E depois como a pedra, como a estatua
Derrubada da base, como tudo
O que é de vida falto emfim caíra
Digno emblema do tumulo da esposa,
Do traído senhor da casa d'Éste!
Porém não da mulher que sente n'alma
O remorso do crime, e nelle segue
Pelo ardor dos desejos instigada.
Do lethargo fatal tornára em breve,
Mas não para a razão; cada sentido
Por dor intensa fôra aniquilado.
Como das cordas do arco humedecidas
Lassas da chuva, as settas disparadas
Vão bater ao acaso, assim do cerebro
As magoadas fibras só soltavam
Desvairados, e vagos pensamentos.
O passado, e porvir! Ermo o passado!
Nas trevas do porvir apenas via
Um sinistro clarão, de espaço a espaço,
Semelhante ao do raio quando fende
As nuvens conglobadas no horisonte,
E cai sobre um logar deserto e triste.
Gelada de terror sentia n'alma
O peso do remorso; que existiam
A vergonha, o peccado, na consciencia,
Uma voz mal distincta lh'o lembrava;
Que a morte estava ali pairando livida
Sobre alguem, nesse instante o presentia.
Sobre quem? Esquecera-o. Era a vida
O sopro que seus labios respiravam?
Era o ceo, era a terra, eram os homens,
Que tinha ante seus olhos deslumbrados?
Os homens, ou demonios que a miravam
Com sinistra expressão? Eram os mesmos
Cujo olhar noutro tempo revelava
Tão suave, e profunda sympathia?
Tudo era incerto e vago no seu animo,
Receios, e esperanças insensatas;
Agora um meigo riso, logo um pranto,
E no seu desvairado pensamento,
Cuidava ser aquelle um sonho horrivel
No qual o coração se debatia.
Porém d'elle, oh! debalde procurára
Acordar a infeliz jámais na vida!
Na torre pardacenta do mosteiro,
Balançam lentamente agora os sinos,
E o som profundo e triste dentro d´alma,
Desperta dolorosos sentimentos.
Por aquelles que á sombra do cypreste,
Repousam para sempre, ou dentro em pouco
Terão de repousar, o canto funebre,
Que ouvis neste momento se desprende.
Na terra humida, e fria, eil-o de joelhos;
Ante os olhos o cepo, ao lado um padre!
Braços nus o carrasco attento espera
Pelo instante fatal; certeiro e forte,
Deve o golpe caír. Horrivel quadro!
Mas comtudo ao redor avidamente,
A turba silenciosa se reune,
Para ver, Santo Deus! no cadafalso
Por ordem de seu pae morrer um filho!
É um'hora encantada a que precede
O derradeiro adeus do sol explendido!
Na pompa de seus raios fulgurantes,
Parece escarnecer da scena horrivel
Que se aproxima de seu termo agora.
Curvado aos pés do monge, em voz sumida
Hugo profere a derradeira prece,
Prece contricta, humilde, fervorosa.
Nessa fronte inclinada e pensativa
Bate um raio de luz, porém mais vivo,
Mais brilhante reflecte sobre a lamina,
Que proxima da victima responde
Por um forte, mas lugubre, reflexo.
Como est'hora suprema é dolorosa!
O crime fôra atroz, justo o castigo;
Mas comtudo o supplicio nesse instante
Faz gelar de terror quem o contempla!
As orações extremas acabaram;
O filho ao pae traidor, o audaz amante,
Tudo emfim confessou. Rapidas tocam
As horas no seu ultimo momento.
As ondadas madeichas de cabello
Já cairam no chão. O nobre manto
Bordado pelas mãos de Parisina,
Não deve acompanhal-o á sepultura.
Tentam vendar-lhe o rosto, não consente
Esta final affronta. O seu orgulho,
Comprimido no mais intimo d'alma
Pela expressão de fria indifferença,
Acorda nesse instante, repellindo
A mão do algoz que vem cobrir-lhe os olhos.
«O meu sangue, culpado, é teu, pertence-te,
Preso, algemado estou; co'a vista livre,
Quero ao menos morrer: «Fere» e dizendo
No logar do supplicio inclina a fronte.
Ao proferir esta palavra: «Fere»
Brilha o ferro no ar; silvando o golpe
Cai rapido e fatal. Rola a cabeça,
O corpo palpitante e transtornado,
Pula envolto no pó, que bebe o sangue
Saído em borbotões pelas arterias!
Inda instantes os labios estremecem,
Nos olhos inda fulge a luz da vida;
Tudo emfim acabou! Morto sem pompas,
Como deve morrer o homem culpado
Que se arrepende no momento estremo,
Elle o seu coração oppresso e triste
A Deus sómente consagrou ness'hora.
A imagem de seu pae, da propria amante
O que eram á sua alma atribulada?
Um sentimento das paixões terrestres
Não viera turbar naquelle instante
A pura contricção do seu espirito,
A não ser quando expondo a fronte nua,
Ao cutello do algoz quiz ver a morte.
Era o unico adeus que proferira,
Ás testemunhas do cruel supplicio.
A multidão gelada e silenciosa,
Mal ousa respirar. Alguns gemidos
Cortados, mas profundos, se escutaram;
Nada mais, a não ser o som socturno
Do cutello batendo sobre o cepo.
Nada mais? houve um som, um grito horrivel,
Estridulo, selvagem, semelhante
Ao da mãe, que de um golpe repentino
Vê cair a seus pés sem vida o filho!
O grito de quem foi, de onde partiu?
De um seio feminil, e mais terriveis
Não os solta jámais o desespero!
Hugo jaz no sepulchro, e Parisina
Dissera acaso eterno adeus ao mundo,
Refugiando sua alma atribulada
No silencio da cella de um convento?
O veneno, o punhal talvez seriam
O severo castigo do seu crime?
Ou succumbira emfim nesse momento,
Em que vira brandir o duro ferro
Sobre a adorada fronte? compassiva
A mão da Providencia permittiu,
Que ao quebrar-se em seu peito confrangido
De angustia o coração, se terminasse
Tambem com elle a fragil existencia?
Não o soube ninguem. Aquella vida,
Ai! de mim! acabára neste mundo
Pela dor como a vida principia!
Setembro de 1856.
Venceste: sou teu, bem ves
Quão facil foi a victoria!
Cahi-te rendido aos pes.
E sem disputar a gloria.
Aos golpes da tua mão
Expuz logo o coração!
Venceste: sinto nas veias
Correr o sangue agitado:
Todo o fogo do passado
Já nos sentidos me ateias.
Submisso, humilde, sugeito
Ao teu estranho poder
Existe todo o meu ser!
Em ti palpita o meu peito;
E a razão que me delira,
Em ti vive, em ti respira,
Com teu imperio a rendeste;
Sou teu: venceste, oh! venceste!
Quanto tempo decorreu
Desde aquell'hora maldita?
Quanto tempo est'alma afflicta
Na angustia se debateu,
Sem que um sorriso, um olhar
A viesse consolar!
Em vão buscava no ceo
As scintillantes estrellas;
Não via em nenhuma d'ellas
Nem formosura, nem lume,
E no prado por mais bellas
Que se ostentassem as flores,
Para mim não tinham cores,
Nem encantos, nem perfume!
..........................
Uma tarde, era o sol posto,
Vi-te assomar á janella;
Depois inclinar o rosto
Sobre a mão graciosa e bella,
E contemplar fascinada,
A natureza encantada.
A aragem com brando alento
Agitava os teus cabellos,
E julguei nesse momento
Ver-te á flor dos olhos bellos
Estremecer cristalina
Uma lagrima divina!
Sobre o cimo flexuoso
Do monte se reflectia
Ainda o clarão saudoso
Do brando expirar do dia,
Quando afogueada rompeu
A lua no azul do ceo.
Teu seio battia inquieto,
E eu senti no coração
A chamma do antigo affecto
Rebentar como um volcão!
De repente os olhos teus
Se volveram para os meus.
Quizemos fallar, a voz
Nenhum a poude soltar;
Mas que não dissemos nós
Naquelle inspirado olhar!...
Uma só vez na existencia
O diz a muda eloquencia!
........................
........................
Entrei no baile! a alegria
Saltava no teu semblante,
Quando a valsa delirante
Rompeu no vasto salão!
Era aquella melodia,
Que tanta vez a teu lado
Me fez batter agitado
De enthusiasmo o coração!
Ergueste a fronte animada,
E em teu rosto se trocou
A pallidez namorada
Pelo fogo da paixão!
Como o teu olhar fallou
Antes que dissesse a voz:
«Oh! tua outra vez eu sou!»
Depois no giro veloz
Da dança vertiginosa,
Como a tua voz formosa
Sobresaltada tremia!
Como em tua alma eu vivia!...
É que nesse instante Deus
Quiz unir as nossas vidas
Por um amplexo dos ceos!
No horisonte esmorecidas
As estrellas desmaiavam
Co'os resplendores da aurora
Que já no ceo despontavam.
Naquella encantada hora
Expirou nos labios teus
Um suspiro, e um adeus!
Um adeus, que promettia...
Mas quem pode revelar
O que nelle se dizia!
A aurora vinha a ráiar
E os clarões da manhã fria
Acaso viram jámais
Tão felizes dois mortaes?
.........................
.........................
Desde então ao teu poder,
Submisso, humilde, sugeito
Existe todo o meu ser.
Em ti palpita o meu peito,
E a razão que me delira,
Em ti vive, em ti respira,
Com teu imperio a rendeste,
Sou teu: venceste, oh! venceste!
Setembro da 1861.
Como foi, e ha quanto tempo
Que esse tão feliz momento,
Da minha vida acabou?!
Não sei, que importa? Era um dia
Que o sol vivido inundava
A luxuriante campina.
Intensa, glacial frieza
O coração me gelava,
Quando subito sentira
Um raio de luz divina
Que minh'alma illuminou.
Deslumbrado em vão buscava
Ver donde essa luz partia,
A mente me delirava
Co'a ventura que sentia!
Oh! depois vi claramente,
Que de teu rosto innocente
Partira o raio de luz,
Tão suave e tão sereno,
Como esse que nas pupillas,
Azuladas e tranquillas
Do anjo da nossa infancia
Melancolico reluz!
Parámos naquella estancia,
Dize, lembras-te, Luiza,
Como vinha fresca a brisa,
E que suave fragrancia
Rescendia a viração?
Tu firmavas-te ao meu braço,
E eu mal respirar podia
Que não sei quê me opprimia,
Mas com que doce oppressão!
Parava, não de cançaço,
Por que o peito mais valente,
De mais vigor não se anima,
Nem com mais força se sente
Do que eu me sentia então!
Foi fatal aquelle instante,
Para ti fatal, embora,
Tu viveste numa hora,
Inteira toda uma vida
Do mais delirante amor;
Porque a tua alma, querida,
Quando deveras se inflamma,
Devora co'a sua chamma
O prazer até á dor!
Duas lagrimas brilhantes
De teus olhos deslisaram,
Quando nos meus se cravaram
Formosos e scintillantes.
A expressão que eu nelles via,
Devêra ser semelhante
Á que o justo vê no dia
Do seu supremo juizo,
Nos do anjo fulgurante
Que lhe aponta o paraizo!
Como foi que tal encanto
A fatal mão do destino
Para sempre nos quebrou!?
Da noite o sombrio manto,
O teu semblante divino
A meus olhos occultou!
Oh! não foi nesse momento,
Porque inda no firmamento
O lampejo d'uma estrella,
As tuas pallidas faces
De um reflexo illuminou,
E inda um beijo, longo, ardente
Na tua boca innocente
A minha boca estampou!
Oh! não foi!! Depois ainda,
Na mesma noite encantada,
Te vi fulgurante e linda,
De brancas roupas trajada,
No turbilhão delirante
Do baile veloz passar;
Inda ali tanta esperança,
Tanto amor, tanta ventura,
Veiu minh'alma inundar
Inda ouvindo aquella valsa
De enthusiasmo estremecemos,
E desvairados corremos
Ao som da doida cadencia.
Oh! que fogo nesse instante
Nos inflammava a existencia!!
Eu cingia-te anhelante
Entre meus convulsos braços,
E com teus ligeiros passos
Tu mal tocavas o chão!
Aquella doce harmonia
De instante a instante augmentava.
Oh! como então nos battia
Agitado o coração!
Augmentava, e de repente,
Como cortada torrente,
A melodia parou;
E nos meus braços, querida,
Extenuada, abatida,
Por momentos te deixou.
A aurora vinha rompendo
Quando teus olhos aos meus,
Proferiam eloquentes
Aquelle saudoso adeus.
Ao longe o vasto Oceano,
Da brisa fresca agitado,
Ante nós bramia ufano.
Tu, volveste horrorisado
O rosto co'a vista d'elle!...
É que em breve a todo o pano,
O meu baixel correria
Sobre aquellas ondas torvas,
E de ti me apartaria!
Janeiro de 1851.
Sê feliz! Hontem ainda
Contemplando o teu semblante,
Na sua innocencia infinda,
Porém triste nesse instante,
Roguei a Deus do mais fundo
Mais puro do coração,
Que uma lagrima, um desgosto,
Uma sombra de amargura,
Jámais viesse no mundo,
Turbar teu candido rosto.
Sê feliz: toda a ambição
Que por ti minh'alma encerra
É ver-te feliz na terra!
Nada mais. O amor profundo,
O mais violento embora,
Tem sempre na vida um'hora
De egoismo, e esta affeição,
Que uma só vez na existencia
No meu peito se accendeu,
Que jámais se ha de extinguir,
Tem a pureza do ceo,
Proveiu da tua essencia!
Se no presente ou porvir,
Alguem que te encante a vida
Existe ou tem de existir...
Não terei zelos... Unida,
Para sempre a outro affecto
Passarás junto de mim,
Embora, direi então:
«Sê feliz: toda a ambição,
Que por ti minh'alma encerra
É ver-te feliz na terra!»
E sabes?... ao Creador
Dou graças por me haver dado
Este puro sentimento
Em vez do fogo do amor.
Ai! se um dia, no momento
De ver-te, te houvesse amado!...
Se em vez da chamma suave,
Que em meu coração se inflamma,
Se ateasse aquella chamma,
Se houvesse emfim rebentado
Aquelle fatal volcão!...
Ai! de mim! quanta amargura!
Quanta angustia o coração
Não teria já passado!
Porem assim!... não, ai! não!
Sê feliz: toda a ambição
Que por ti minh'alma encerra,
É ver-te feliz na terra!
Maio de 1854.
Volve folha desbotada,
Outra vez á mão nevada
Que do tronco te ceifou,
Volve, e dize sem receio,
Que te apertei contra o ceio,
Que o meu olhar te adorou:
Vai discreta confidente,
Dize tudo quanto sente,
E calla o meu coração!
Vai, que a tua voz sentida,
Ha de ser por ella ouvida
Com ternura e compaixão.
Dize que ao ver um instante
Anuviado o seu semblante,
Pensativo o seu olhar,
De sobresalto e receio,
Sinto o coração no seio
De repente a palpitar!
Que a sonhei antes de vel-a,
Como bem fadada estrella,
Mensageira do Senhor!
Que ao vel-a a voz da consciencia
Disse: É esta na existencia
A tua estrella de amor!
De amor puro, intenso, ardente,
Mas que occulto eternamente
No meu peito ficará!
Que no infortunio nascido,
Só commigo tem vivido,
E commigo morrerá!
Ai! folhinha desbotada!
Outra vez á mão nevada
Volve de quem te ceifou!
Volve, e dize, sem receio,
Que te apertei contra o seio,
Que o meu olhar te adorou!
Maio de 1854.
Venham ver este retrato,
E respondam se o pintor,
Que desenhasse melhor,
O tirava mais exacto.
Eil-a! saltando da tela,
Viva, inteira, palpitante!
Pallido um pouco o semblante,
A boca graciosa e bella,
Quando o sorriso a desflora,
É como a rosa da aurora
Abrindo ao sopro de abril!
É mais! é ver num momento,
Quanto pode o pensamento
Sonhar de casto e gentil!
O cabello ondado e fino,
Negro como a noite escura,
Cai no collo alabastrino,
E faz resair a alvura
Do rosto fascinador.
Os olhos... oh! neste instante,
Tremo, hesito, não ha cor,
Não ha luz por mais brilhante,
Que possa emfim imitar
O reflexo scintillante
Da chamma do seu olhar!
Chamma que ás vezes traidora,
Se occulta na sombra escura,
Á espera que chegue um'hora,
Hora de morte ou ventura!,
Em que possa deslumbrar,
Com mais fogo e com mais vida,
O desvairado que ousar,
Miral-a sem recear,
Pela ver assim sumida!
Terminou?... e eu que julgava
Cobrir-me de eterna gloria,
Quando tanto me esmerava
Na minha copia ideal!
Agora que na memoria,
(Ou antes no coração)
Tenho vivo o original,
Vejo bem que não ha mão,
Por mais que saiba pintar,
Capaz de estampar na tela
A expressão graciosa e bella
D'essa face, e d'esse olhar!
Abril de 1859.
Onde se encontra a ventura,
Esta encantada visão,
Que tantas vezes procura,
Mas debalde, o coração?
Nas pompas da formosura?
Nos esplendores da gloria?
No poder de conquistar
A mais difficil victoria
Com o mais timido olhar?
Oh! como então és feliz,
Porque tudo te revela,
Que não ha face mais bella,
Nem existencia tecida
De mais florído matiz!
Porém responde, na vida,
Quando tu passas radiante
D'essa luz que emfim só Deus,
Concede a um anjo dos seus!...
Quando ouves a cada instante
Dizer com voz anhelante:
«Lá chega, lá passa, é ella,
Que é tão feliz como é bella!»
Uma sombra de amargura,
Um sentimento profundo
Não te opprime o coração
E não te diz que a ventura
Se não encontra no mundo?!
Uma vez, sereno o ceo,
Como os teus olhos brilhava!
Airosa ante mim passava
Essa forma, esse ideal
Que não pode ser mortal!
Atravez do raro veo,
Que o semblante te encobria,
Uma lagrima descia;
Era de prazer ou dor!
Oh! de angustia parecia,
Pelo agitado tremor
Com que o peito te battia!
O mundo não sei se a via,
Porque a meu lado exclamava:
«Lá chega, lá passa, é ella,
Que é tão feliz como é bella!»
Mas quem sabe se acertava?!
Porque a ventura real
Se existe, é só no momento
Em que livre o pensamento
Se eleva ao mundo ideal!
E noss'alma a outra unida,
Foje á terra, se illumina
De um raio de luz divina,
E se esquece emfim da vida!
Julho de 1859.
Quem dirá, vendo a expressão
Que brilha no teu olhar,
Que tu não tens coração?
Bem haja a mão tutelar,
Que á beira me suspendeu
Do abismo da perdição!
Que delirio foi o meu
Naquelles tão curtos dias
Que passei ao lado teu?
Oh! como tu respondias
Com o silencio eloquente
Ás palavras que partiam
Do meu coração ardente!
E depois, se num momento
Os labios já não podiam
Expressar o sentimento,
O fogo do meu affecto,
Como o teu olhar inquieto
A minh'alma interrogava
E todo paixão jurava,
Que era meu o teu amor!
Oh! que dias de ventura!...
Nos campos, abria a flor;
Por entre a tenra verdura,
Inda fraca, inda infantil,
Se escutava a voz das aves
Que saudavam abril.
E tu, como ellas, ditosa,
Ás suas notas suaves
Juntavas a voz formosa!
Ah! como eu vivia então!
Como de novo sentia
Rebentar no coração
Essa infinita alegria
Que nos desvaira a razão!
Por quanto tempo durou
O sonho que me encantava?
Breve foi, maldicta a mão
Que d'elle me despertou.
Quando mais certo julgava
Que era emfim minha a ventura,
No momento em que acabava,
De escutar dos labios teus
Aquelle estremoso adeus!
Adeus, que nesse momento
Com a esperança sorria
E tanto me promettia!...
Foi, oh Deus! que de repente,
Uma palavra maldicta,
Fez que eu visse claramente,
Cobrindo minh'alma afflicta
De espessa nuvem sombria!
........................
Quem dirá vendo a expressão
Que brilha no teu olhar,
Que tu não tens coração
Ou tem-lo para enganar?!
Abril de 1859.
Amigos, á formosura
Que nos cerca neste instante,
Erga-se a taça escumante
De purpurino licor.
Vivo enthusiasmo rebente
Agora de nossas almas,
Caiam palmas sobre palmas
Cada vez com mais ardor!
Aqui floresce na horta
A viçosa laranjeira,
Corre o Champanhe e o Madeira
Que offertara nivea mão,
Aqui não chegam as garras
De tanta velha leôa
Que esfaimada por Lisboa
Se atira a tanto leão.
Aqui livre em nosso peitos
Pula impaciente alegria,
Porque ao sol de um bello dia
Tudo vemos reflorir!
Que importa pois que os ministros
Resonem no parlamento,
E que os homens de São Bento
Nem sequer nos façam rir?
Para nós sorri-se o mundo,
Para nós a vida é esta,
Hoje festa, amanhã festa,
Gloria, encantos, illusões!
Junto a nós temos as bellas
Mais fragrantes do que as rosas,
Longe... o mundo das preciosas,
E o mundo dos papellões!
Eia pois! á formosura
Que me cerca neste instante
Erga-se a taça escumante
De purpurino licor.
Vivo enthusiasmo rebente
Agora de nossas almas,
Caiam palmas sobre palmas
Cada vez com mais ardor!
Abril de 1859.
Jámais me ha de esquecer aquelle dia!
Do meigo outono a pallida folhagem
Inda os troncos do bosque revestia.
Sereno estava o ceo; doce a
bafagem;
De toda a natureza
Infinita saudade respirava;
Mas por essa tristeza
Feliz o coração se dilatava!
Feliz, ai! tão feliz qu'inda á lembrança,
D'esses dias de amor e de ventura,
De paz e de
esperança,
Se anima, e vê sorrir na noite escura,
Um reflexo da estrella resplendente
Que uma vez lhe brilhou serena e pura;
Inda a sombria nevoa do presente
Se rarefaz, se esvai, e se illumina
Tudo a seus olhos de uma luz divina!
Oh! tu lembras-te bem d'aquelle dia!
Nem o lento correr de tantos annos,
Nem as tardias horas que vieram
Depois cheias de amargos desenganos,
O encanto desfizeram
Da inspirada, divina poesia,
Que elle continha em si, que elle nos deu,
E nós guardmos como um dom do ceo!
Era ermo o logar, ermo, mas bello!
Profunda a solidão! De quando em quando,
Escutava-se o cantico singelo,
Da estrangeira avesinha que buscando
O sol do nosso inverno,
A voz desfalecida ia
soltando
Com saudades do ninho seu paterno.
No extasi ideal do sentimento,
Tu volvias os olhos silenciosa,
Para o sereno azul do firmamento;
E da boca formosa,
Reprimir um suspiro em vão tentavas!
É que nesse
momento,
Exausta a escala do prazer, anciosa
Uma nota na dor emfim buscavas!
Nas nossas almas existia um mundo
De indefenito amor;
Do pelago profundo
Onde ruge o furor
Insano, concentrado, atroz, maldicto,
D'esta cruenta guerra
Das ambições da
terra,
Nem uma maldição, um som, um grito
Nos vinha perturbar!
Era a amplidão do ceo, a solidão da serra,
Ao longe... a voz do
mar!
Depois como se a mão da Providencia
Inundasse meu ser naquelle instante
Da luz de outra
existencia,
Julguei ter visto a origem fulgurante,
De onde provém a
chamma
D'este immortal amor que nos inflamma!
Á ideia então da
morte
Sentia-me sorrir; porque na hora,
Que nol-a desse a sorte,
Brilhava para nós serena e pura
Essa immortal aurora,
Que reluz nos umbraes da sepultura!
Iriam nossas almas,
Já livres de
martirio,
Colher as flores e mimosas palmas
Que vicejam no empyreo!
Tudo em fim acabou! a noite escura,
Envolvera em seu manto aquelle dia!
E de tanta poesia
Que resta para nós? uma saudade,
E a esperança que um dia essa ventura
Nossa outra vez será na eternidade!
Agosto de 1858.
Era no outono quando a imagem tua
A luz da lua seductora vi.
Lembras-te ainda nessa noite Eliza,
Que doce brisa suspirava ali?
Toda de branco, em tua fronte bella,
Rosa singela se ostentava então,
Vi-te, e perdido de te ver buscava
Se me apartava da gentil vizão!
Era debalde; quanto mais te via,
Mais me perdia delirante amor;
Magicas fallas proferiste incerta,
Toda coberta de infantil pudor!
Tremulo, ancioso, quiz pedir-te um beijo
Louco desejo pois fugir-te vi!
Vendo-me triste para mim voltaste,
Não me fallaste; mas eu bem senti!
Fresca, arrobada de perfume a brisa,
Lembras-te, Eliza? suspirava então;
Tu nos meus braços reclinaste a frente,
E meigamente me disseste: Não!
Setembro de 1852.
De luz, de encanto, de alegria infinda,
Aquelle rosto seductor esplende,
Brilha a ventura em sua face linda,
E vivo fogo o seu olhar accende!
Como a existencia para nós é bella
Entre a verdura d'esta amena estancia!
Aqui suspira a viração singela,
E esparge a rosa virginal fragrancia.
Livres, immunes neste doce enleio,
Dos gratos dias do saudoso abril,
Ouvir das aves o infantil gorgeio,
Gosar da sombra do enredado til...
Ella a meu lado, sobre os meus cravando,
Aquelles olhos cuja densa rama,
Agora occulta, logo vai deixando,
Brilhar o fogo da traidora chamma!
Se entro no baile onde o prazer se agita,
Eil-a, a formosa, no veloz passar,
Louca os seus olhos nos meus olhos fita,
E mil affectos me traduz no olhar!
De luz, de encanto, de alegria infinda,
Aquelle rosto seductor esplende;
Brilha a ventura em sua face linda,
E o ceo no fogo que esse olhar accende!
Abril de 1854.