A HELENA

Lembras-te, Helena, o dia em que deixámos
O teu saudoso valle, e lentamente
Pela elevada encosta caminhámos?
O sol do estio ardente,
Já não brilhava nos frondosos ramos
Do arvoredo virente.

Chegára o fim do outono: a natureza,
Sem ter os mimos da estação festiva,
Nem aquelle esplendor e gentileza
Que tem na quadra estiva,
Na languida tristeza,
Na luz branda e serena
D'aquelle ameno dia,
Que immensa poesia,
E que saudade respirava, Helena!

Subindo pelo monte,
Chegámos ao casal onde habitava
A tua protegida,
Aquella pobre anciã que se agarrava
Aos restos d'esta vida!
Assim que te avistou, ergueu a fronte
Curvada ao peso de tão longa edade,
Sorrindo nesse instante
Com tal vida, que a luz da mocidade
Parecia alegrar o seu semblante!

Estendeste-lhe a mão, entre as mãos d'ella,
Grosseiras pelo habito constante
Do trabalho da terra,
Queimadas pelo vento sibilante,
E pelo sol da serra,
Produzia essa mão graciosa e bella,
Effeito similhante
Ao que por entre o mato
Produziria a rosa de Benguela,
A flor mais alva e de mais fino trato!

Vinte annos tu contavas nesse dia;
A fiel servidora,
Era a primeira vez que não podia
Deixar a casa ao despontar da aurora,
E cheia de alegria
Caminhar para o valle como outr'ora,
Depôr uma lembrança em teu regaço,
E unir-te ao coração num meigo abraço!

Tu, na força da vida,
Circundada de luz e formosura,
Foste levar á pobre desvalida
Os dons do lar paterno;
Alegrar com teu riso de ternura
Aquelle frio inverno!

Ao ver-te com teus braços,
Nos seus braços senis entrelaçados,
A ventura nos olhos encantados,
A inspiração na fronte deslumbrante,
Afigurou-me então o pensamento
Ver um anjo descido dos espaços,
D'aspecto fulgurante,
Enviado por Deus nesse momento,
Para animar os derradeiros dias
De quem cançado do lidar constante
Abre o seio na morte ás alegrias!

As lagrimas de gosto,
Corriam cristalinas
No rosto d'ella e no teu bello rosto!
Como orvalhos do ceo aquelles prantos,
Um brilhava na hera das ruinas,
Outro na flor de festivaes encantos,
Na rosa das campinas!

Quando voltaste a mim illuminava
O teu semblante uma alegria infinda.
Depois quizeste ainda
Ir visitar a ermida que ficava
No apice do monte:
Firmaste-te ao meu braço, e caminhámos.
No esplendido horisonte
Já declinava o sol quando chegámos.

Era singelo, mas sublime o quadro!
Em roda o mato agreste;
No meio a pobre ermida; ao lado d'ella
Um secular cypreste,
E sobre a cruz do adro
Pendente uma capella
De algumas tristes, desbotadas flores,
Talvez emblema de profundas dores!

Oh! como tu, suspensa
Num extasi ideal de sentimento,
Expandias o livre pensamento
Pela amplidão immensa!
Como depois descendo das alturas
Aonde te arrojára a phantazia,
Parece que a tua alma me trazia
Occulto premio de immortaes venturas!

Tanto expressava o teu olhar profundo,
Que o ceo, a terra, o mar, quanto rodeia
O homem neste mundo,
Jámais me trouxe a idéa
Do suppremo poder da Providencia
Com tamanha eloquencia!

O sol quasi no termo
Com um brando reflexo,
Cingia a cruz do ermo
Em amoroso amplexo!
O rei da creação, o astro orgulhoso,
Que enche a terra de luz,
Tambem vinha prostrar-se saudoso
Aos pés da humilde cruz!

Era solemne e santo
Naquell'hora supprema o teu aspecto!
Nos labios a oração, no rosto o pranto,
As mãos cruzadas sobre o seio inquieto,
Os olhos postos na amplidão do espaço,
E em derredor da frente
Um luminoso traço
A inundarte de luz resplandecente!
..................................

Branda a tarde expirou! D'aquelle dia,
E de outros dias de íntimas venturas,
De immensa poesia,
Nasceram essas paginas obscuras,
Que hoje a teus pés deponho,
Como saudoso emblema,
Do tempo em que sorrira
O nosso bello sonho!
Terias um poema,
Se tão gratas memorias
Podessem ser cantadas numa lyra
Votada a eternas glorias!

Emfim: se um pensamento,
Se uma singela idéa onde transpire
O perfume de vivo sentimento,
Nestas folhas traçar a minha penna...
A estrophe, o canto que o leitor admire,
Seja o teu nome, Helena!

6 de Junho de 1862.

I

A CONVALESCENTE NO OUTONO

Revive teu rosto pallido
Á chamma do meu amor;
De novo com mais ardor
Pula em teu seio, querida,
O sangue, o prazer, a vida.

O sopro que na existencia
D'esta luz nos illumina,
Não se ha de extinguir jámais;
Oh! provém da mesma essencia,
Da mesma porção divina,
Com que a mão da Providencia
Torna as almas immortais!
Firma teu braço ao meu braço,
Vem commigo respirar
Este ar vivo e salutar.

Não sentes na luz do ceo,
E no perfume saudoso
Do bosque espesso e formoso,
Que o doce outono volveu?
As folhas que pelo chão
Crestadas dispersa o vento,
Não desprendem um lamento
Que intristece o coração!?

E a voz d'essa ave amorosa,
Que alem na balsa murmura,
Melancolico modilho,
Não parece a voz saudosa
Da mãe que adormenta o filho
Entre os braços com ternura?

D'aquelle pobre casal,
O fumo que vae subindo
Em ondulante espiral,
Não diz que em volta do lar
Se reune a pobre gente,
Que já de perto pressente,
O frio inverno chegar?

Não vês que ha tanta tristeza
Na voz que se eleva a Deus
Agora da natureza!
Oh! mas como aos olhos teus,
E como ao meu coração
É grata a melancolia
D'esta languida estação!

Toda a explendida poesia
Do ceo, da terra, e das flores,
Quando mil cansões de amores
Improvisa o rouxinol,
Alegrando o mez de maio
Desde os clarões do arreból
Até que em doce desmaio
Nas aguas se occulte o sol,
Terá, sim, tem mais frescura,
Mais vida e mais esplendor,
Mas não tem tanta ternura,
Nem respira tanto amor!

Paremos aqui, descansa
Um momento neste abrigo;
O sopro da aragem mansa
Anda em roda a murmurar,
E um raio de sol amigo,
A teus pés se vem prostrar
...........................
Oh! que noites de amargura!
Que horas lentas de agonia!
Que instantes naquelle dia,
Quando tu sem voz, sem gesto,
Suspensa num fio a vida...
Emfim te julguei perdida!

Chegára a noite; uma estrella,
Uma só, não transluzia
No ceo triste e carregado;
Oppresso e desalentado,
O coração me batia.

Pouco a pouco no horisonte
Foi rompendo a nevoa densa;
Era a vida, a luz, o dia,
Aquella alegria immensa,
Que no murmurar da fonte,
No perfume da campina,
Na brisa e na voz divina
Do amoroso rouxinol,
Seduz, arrebata, inspira,
Quando acorda a terra em canticos,
Aos raios vivos do sol!

«Pois tudo se anima agora,
Tudo nasce com a aurora,
Tudo é vida e tudo é luz;
Só nesta face adorada,
Inerte, fria, gelada,
Nem um só clarão reluz!»

Ouviu Deus naquelle instante
A minha supplica ardente;
Em teu lívido semblante
Vi despontar docemente
Um reflexo semelhante
Ao que o sol derrama á tarde
Sobre as nuvens do ponente.

Prostrei-me a rogar então;
E essa estrella de bonança,
Essa casta divindade,
Risonha irmã do infortunio,
Companheira da saudade,
Que o mundo chama—Esperança—
Senti-a no coração!

Com aquelle sol explendido
Que rompêra a nevoa densa,
E com a alegria immensa
Do mar, da terra, e dos ceos,
Quiz de novo a Providencia
Que eu visse nos olhos teus
O mundo, a luz, a existencia!

Agora pois, neste instante,
Agora, que lá distante,
O sino da pobre ermida
Dá signal do fim do dia,
Co' a prece da Ave-Maria,
Ergâ-mos, ambos querida,
Graças mil a Deus piedoso,
Por te haver tornado á vida!

Setembro de 1854.

II

FELIZ DE AMOR!

Não sabes que ao ver-te triste,
E pensativa a meu lado,
O rosto na mão firmado.
E os olhos postos no chão,
Calado, ancioso, anhelante,
Quero ler no teu semblante
A causa da dôr constante
Que te opprime o coração?

Pois não basta o meu amor
Para te dar a ventura?
Responde: quando a luz pura
Do sol vem beijar a flor,
Não lhe accende mais a côr?
Não lhe dá mais formosura?

Agora, quando se inflamma
Em teu peito aquella chamma,
Á qual tudo se illumina
De viva, encantada luz,
Dize: é quando, minha vida,
Pallida, triste, abatida,
A tua fronte se inclina,
E melancolica sombra,
De mal contida amargura
Nos teus olhos se traduz?!

Certeza de que és amada
Com quanto poder na terra
Em peito de homem se encerra,
Tem-la em tua alma gravada!
Então de fundo desgosto
Porque vem nuvem pesada
Carregar teu bello rosto?

Pois se ao vívido calor
Do sol a rosa fulgura
E redobra aroma e côr,
Não te ha de dar a ventura
A chamma do meu amor?!

Maio de 1859.

III

VAES PARTIR!

Vaes partir! cada instante que passa
Aproxima o adeus derradeiro,
Para mim neste mundo o primeiro,
Que teus olhos proferem aos meus!
Vaes partir! nessas morbidas palpebras,
Treme agora uma lagrima anciosa,
Já deslisa na face formosa,
Já teus labios me dizem adeus!

Vaes partir! contemplar esses campos,
Que o sol vivo de abril illumina,
Ver as relvas da alegre campina
Já cobertas agora de flor.
Escutar as estrophes sentidas
Que de tarde improvisam as aves,
Recordar os instantes suaves
De outros dias de encanto, e de amor.

Vaes partir! vaes tornar aos logares
Testemunhas de um ceo de delicias,
Que em suaves risonhas caricias,
Para nós neste mundo brilhou!
Cada flor, cada tronco viçoso,
Cada espaço de relva florída
Vae lembrar-te uma scena da vida,
Um momento feliz que passou!

Quando for aos clarões da alvorada
O perfume das plantas mais brando,
Quando as aves voarem em bando,
E cantarem ditosas no val;
Quando as aguas correrem mais vivas,
Pelo verde declivio do monte,
Quando as rosas erguerem a fronte
Animadas de um sopro vital...

Que saudade! ai que funda saudade
Has de ter d'esse tempo encantado,
Em que bella e feliz a meu lado
Viste as pompas da terra e dos ceos!
Quando a aurora era a pura alegria,
Uma vaga saudade o sol posto,
Quando meigo sorria teu rosto
Se eu fitava meus olhos nos teus!

.................................

Vaes partir! cada instante que passa
Aproxima o adeus derradeiro,
Para mim neste mundo o primeiro
Que teus olhos proferem aos meus!
Vaes partir! nessas morbidas palpebras,
Treme agora uma lagrima anciosa,
Já deslisa na face formosa,
Já teus labios me dizem adeus!

Abril de 1855.

IV

A JULIA

(Da Paquita)

Naquella deserta ermida,
Que alveja na serrania,
Deu signal, Julia querida,
O sino da Ave-Maria.

Este som tão conhecido
Da nossa innocente infancia,
Como agora vem sentido
Trazer-me viva á lembrança,
Toda essa doce fragrancia
D'aquelle existir d'então!

Ai! lembrança não, saudade!
Saudade Julia, tão funda...
Mas tão grata, que me innunda
De ventura o coração.

Espera... se neste instante
Mandasse á terra o Senhor,
Anjo de meigo semblante,
E aos dias d'aquella edade
Nos tornasse o seu amor...
Oh! responde-me, querida,
Se quanto depois na vida
De bello nos ha passado,
Não devera ser trocado
Por esses dias em flor?!

Que lá vão! lembras-te ainda?
Tu risonha doidejavas,
Por entre as moitas de flores
Como ellas fragrante e linda.
Quando o som pausado e lento
D'Ave-Maria escutavas,
Então naquelle momento
Aos pés da Cruz te prostravas!...

Que fronte de anjo era a tua
Vista ao reflexo amoroso
Dos frouxos raios da lua!
Uma tarde, ao pôr do sol,
No recosto pedregoso
Do monte nos encontrámos;
Lembras-te! essa hora bateu,
Porem nós mal a escutámos!
Os olhos, tu perturbada,
Baixavas, e no semblante
Não sei que luz te brilhava,
Eu sei que naquelle instante
O prazer me enlouqueceu.

Oh! fatal loucura aquella!
Tinha-me ali tão perdido,
Que, sem mais ver, delirante
Nos braços te arrebatei.

Não sei por onde vagava,
Nem quanto, nem como andei;
Só me lembra que a ventura
Ali real me fallava,
E que aos incertos lampejos
Das estrellas desmaiadas,
Impremi ardentes beijos

Nas tuas faces rosadas!
Foi breve aquelle delirio;
Ao menos breve o julguei;
E quando, outra vez á vida
De sobressalto voltei,
Desbotada como um lyrio
Pelos vendavaes batido,
Nos meus braços te encontrei!

Setembro de 1851

V

IMPROVISO

Porque languida essa frente
Descai, quando a tarde espira?
Porque nesse olhar dormente
Tua alma ingenua suspira?

Porque? ai! porque? responde;
Que se amor do ceo procura,
Eil-o; em meu peito se esconde;
Vive, é teu, tens a ventura!

Verás como então brilhante,
Seduz, toma vida, inspira,
Esse teu bello semblante,
Que apenas hoje se admira!

Ilha da Madeira—Novembro de 1850.

VI

A UM RETRATO

És tu, sim, o mesmo olhar,
A mesma ardente expressão,
Com que teus olhos sabiam,
Tão habilmente occultar
O gêlo do coração.

Como fascina o teu ser?
Agora, que eu posso ver,
Vejo bem que não és bella.
Quem for buscar no teu rosto,
A severa correcção
Que esta palavra revela,
Tirar feição, por feição...

Não pode achal-a, bem sei.
Oh! mas nessa viva luz,
Que teus olhos illumina,
Ha de achar, como eu achei,
O fogo que nos seduz,
A chamma que nos fascina!

E agora vais escutar;
Agora, que a Providencia
Piedosa me quiz salvar
D'essa fatal influencia,
Vais saber como te amei!

Não é sómente da gloria,
Das illusões, da ventura,
Que é doce narrar a historia.
Repassando na memoria
Tantas scenas de amargura,
Vendo-as saltar palpitantes
Ante meus olhos agora,
Com toda a sinistra pompa
Da vida que tinham d'antes,
Ao ver de quanto é capaz,
Não sabes?... na propria dor,
O coração se compraz!

Medindo o padecimento
Do martyrio atroz e lento
Que me trouxe o teu amor,
S'inda aterrado contemplo,
As crenças que fui depôr
Sobre as aras d'esse templo,
A dor do arrependimento
Ha de salvar-me da culpa
Ante os olhos do Senhor.

Ai de ti! mil vezes mais
És tu desgraçada agora!
Viveste, reinaste um'hora,
E com que imperio! jámais,
Em delirio o pensamento
Te fez julgar adorada
Como eu te adorei, jámais!

Ninguem neste mundo ousára,
Erguer a mão para um culto
Tão santo como eu criára!
Tu foste a que, cega um dia,
Por loucura e por vaidade,
As crenças que nelle havia,
Destruiste sem piedade!

Punida estás, bem punida,
Sabe pois que amor do ceo,
Amor como foi o meu,
Encontra-se um só na vida!

Inda ao ver-te... porque não,
Porque t'o devo occultar?!
Este morto coração,
De novo sinto pular
Em meu peito fatigado!

Emfim, se o destino agora,
Quer que não possa existir
Da esperança do porvir,
Deixal-o existir embora,
Da saudade do passado!

Esse é meu como tu foste
Na illusão de tanto amor,
E tu mesma, tu, que um dia
Com semblante mudo e frio
Lhe disseste o extremo adeus,
Com quanto remorso e dor
Has de ter rogado a Deus
Perdão de tal desvario!

E dizes tu que ao dever,
Sacrificaste a existencia
E sujeitaste o meu ser!!...
Pois ha dever neste mundo,
Que aos olhos da Providencia,
Possa mais alto valer
Do que aquelle amor profundo
Que tu fizeste nascer?!
.............................
.............................

Quando foi? vivo o momento,
E quanto então nos cercava
Existe em meu pensamento:
Era á tarde; o firmamento,
De nuvens se carregava,
E nos fraguedos da costa
O mar soturno quebrava.

Olhei-te, e vi nesse instante,
Assumir o teu semblante,
Aquella mesma expressão,
Que de toda a natureza
Fatal respirava então.

Pausada, lenta, glacial,
A tua voz respondia,
A tudo que eu proferia!
E depois dos labios teus
Desprendeste um frio adeus!

Cuidaste sacrificar
A Deus em tua loucura,
Sem ver que foste apagar
A chamma d'essa ternura
Que só elle pode dar,
E te atreveste a tentar
O poder do Creador,
Na obra da creatura!

Ai de ti! mil vezes mais
És tu desgraçada agora!
Viveste, reinaste um'hora,
E d'esse imperio, jámais
Na terra serás senhora!

Fevereiro de 1855.

VII

QUIEN NO AMA, NO VIVE

Pois não vês que se a luz do sol nascente
Á rosa na manhã desabroxada,
Não illumina as folhas, desbotada
Fica n'aste pendente,
Sem perfume, sem vida abandonada?

Dize: então queres tu que a formosura
Que o Senhor estampou no teu semblante,
Sem renome, sem gloria, passe obscura
No mundo em que radiante
Ostentar-se podia magestosa?
Queres vel-a abatida como a rosa
Que o sol não illumina?

Pois o que falta a essa fronte bella?
Oh! vais sabel-o:—O amor!
Que se anime e reviva á luz divina
E verás se depois alguem ao vel-a
Lhe nega o seu fulgor!

Ajuda 1850.

VIII

AMANHÃ!

Resta um dia, mais um dia,
Algumas horas ainda
De amor, de ternura infinda!
Amanhã nos olhos teus,
Uma lagrima sentida;
Em teus labios, um adeus!

O instante da despedida
Tão perto está!... Minha vida,
Crava teus olhos nos meus,
Um sorriso, um beijo ainda,
Mais um'hora de ternura,
De amor, de alegria infinda
Antes d'esse longo adeus!

Adeus de tanta amargura!
Sabe Deus! oh! sabe Deus,
Quando outros dias virão,
Tão gratos ao coração!
Quando nessa face linda
Verei sorrir a ventura;
Mas agora um beijo ainda
Antes que chegue o momento
De soltar o extremo adeus!

Oh! tira do pensamento,
A hora da despedida;
Mais um instante de vida,
De delicia e gloria infinda!...

Amanhã!... ai! não te lembres
De tal dia de amargura!
Crava teus olhos nos meus;
Inda um'hora de ventura,
De amor, de alegria infinda
Sorrindo nos olhos teus:
Um beijo, mais outro ainda,
O derradeiro: oh! adeus!

Abril de 1857.

ANJO CAÍDO

Na flor da vida, formosa,
Ingenua, casta, innocente,
Eras tu no mundo, rosa!
Quem te arrojou de repente
Para o abysmo fatal!
Viste um dia o sol de abril;
O teu seio virginal
Sorriu alegre e gentil.

Ergueu-se aos clarões suaves
D'aquella doce alvorada
A tua face encantada.
Amaste o doce gorgeio
Que desprendiam as aves,
E no teu candido seio
Quanto amor, quanta illusão
Alegre pulava então!

Mal haja o fatal destino,
Maldita a sinistra mão,
Que em teu calix purpurino
Derramou fera e brutal
Esse veneno fatal.

Hoje és bella; mas teu rosto
Que outr'ora alegre sorria,
É todo melancolia!
Hoje nem sol, nem estrella,
Para ti brilha no ceo;
Mal haja quem te perdeu!

Novembro de 1857.

X

PIEDADE!

Em torno da mesma idéa,
Meu ardente pensamento
Constantemente volteia.
Que horas estas de tormento!
E póde viver-se assim?
Que força tens, coração?
Pois tudo que sinto em mim
És capaz de supportar?
Oh! basta! por compaixão
Deixa emfim de palpitar!

Agosto de 1856.

XI

BELLEZA E MORTE

Quando Deus á terra envia
Um anjo dos seus, é breve
A vida que lhe confia.
.........................

Como a flor branca de neve
Que ao primeiro alvor do dia
No prado desabroxou,
Assim ella veiu ao mundo,
E tão rapida passou,
Que d'este rumor profundo
Nem um som, nem um gemido
Por esse anjo foi ouvido!
Nasceu, e sorrindo amou!

Quem ao vel-a tão ditosa
Tão feliz por ser amada,
E tão feliz por amar,
Bella, fragrante, viçosa,
Cheia de vida no olhar,
De luz na face encantada;
Quem diria que esse amor
Seria a chamma fatal,
Que a devia emfim matar!?

Pobre florinha do val,
Da aurora ao primeiro alvor
Nasceu, e sorrindo, amou,
Mas com a tarde... expirou!

Junho de 1857.

XII

ORAÇÃO DA MANHÃ

Á filha do meu amigo Magalhães Coutinho

Vem reflorindo a aurora;
A voz do rouxinol,
Mais inspirada agora,
Sauda a luz do sol.

A perfumada aragem
Beija no campo a flor;
Tudo sorri á imagem,
Do nosso Creador.

No bosque as avesinhas
Soltam os hymnos seus;
No berço as criancinhas
Resam tambem a Deus.

«Por minha mãe, por ella,
E por meu pae, Senhor!
Dai-lhes propicia estrella,
Gloria, ventura, amor!

«Cercai de mil delicias,
A sua vida emfim,
Como elles de caricias
Me tem cercado a mim.

«As preces da innocencia
No ceo ouvidas são;
E a minha, oh Providencia,
Parte do coração,

«Parte ao florir da aurora,
Co'a voz do rouxinol,
Que se desprende agora
Saudando a luz do sol!»

Junho de 1859.

XIII

CARIDADE

Á Ex.ma Sr.a Viscondessa d'Asseca

Como avesinhas implumes
Enjeitadas nos seus ninhos,
Deixa a sorte os pobresinhos,
Sem lar, sem pão, sem carinhos
De maternal coração.
Escutando os seus queixumes,
Compassiva a Providencia,
Volve os olhos á innocencia,
E em sua eterna clemencia
Da-lhes lar, ensino, e pão.

Mais vivos torna os desejos
No seio da caridade,
Que á desvalida orfandade
Vai com sincera piedade
Inundar de puro amor;
Amor, que em candidos beijos,
Suavemente procura
Dar conforto na amargura,
Aos que fez a desventura,
Orfãos no berço e na dor.

A quem busca a Providencia
Para amparar o destino,
Do que pobre e pequenino
Se encontra sem luz, sem tino,
Logo no mundo ao nascer!?
Anjos de viva clemencia,
Que onde existe o sofrimento,
Correm, voam num momento,
A dar todo o sentimento,
Que taes almas sabem ter!

São ellas mães, são esposas,
E recordando os carinhos
Que tiveram seus filhinhos,
Não podem ver pobresinhos
Sem amor, sem lar, sem pão!
No berço desfolham rosas,
Onde espinhos só havia,
E o sol de pura alegria,
Já de affectos alumia,
Dos orfãos o coração.

Salve pois, oh Caridade!
Que assim abres o teu seio,
Áquelle que sem esteio,
Á luz d'este mundo veiu
Para viver na afflicção.
Salve casta divindade!
Terna irmã da desventura,
Que os suspiros da amargura
Convertes á creatura
Em risos de gratidão!

Junho de 1856.

XIV

BELLA SEM CORAÇÃO

Era uma esplendida imagem
De olhos rasgados e bellos;
Negros, negros os cabellos;
Boca gentil como a rosa,
Que á luz da manhã formosa
Sorri ao sopro da aragem.

Alta, graciosa, elegante,
Um ar de tal distincção,
Na figura e no semblante,
Que eu disse commigo ao vel-a:
«Como esta mulher é bella,
Sobre tudo na expressão
De pallidez namorada,
Que tem na face encantada!
Esta sim, por Deus o juro,
Esta ha de ter coração!»

A estação, o sitio, a hora...
Era a hora do sol posto,
E um frouxo raio de luz
Vinha bater-lhe no rosto.
A estação o meigo outono,
Quando o prado se descora,
No bosque cessa a harmonia,
Quando tudo emfim seduz
Com vaga melancolia.
O sitio, ameno e saudoso,
Onde livre a alma podia
Dar-se inteira aos sentimentos
De paz, de amor, de poesia!

Aproximei-me da imagem
Meiga, risonha, singela;
Soltára a voz, era bella,
Bella sim, vibrante e pura,
Mas sem aquella ternura,
Sem aquelle sentimento,
Que diz tudo num momento!
Sem tremor, sem sobresalto,
Voz que dos labios saía,
Dos labios só, que se via,
Não provir do coração;
Voz sonora, porem fria;
Bella sim, mas sem paixão.

«Pois essa gentil figura,
Esse pallido semblante,
Essa expressão de ternura
Que todo o teu ar respira,
A luz do olhar scintillante,
Dize emfim: quanto se admira,
Quanto ao ver-te nos encanta,
Será sem alma, e sem vida?!»

Sorrindo me respondeu:
«Aqui não ha coração!»
Mas eu vi que elle bateu
D'essa vez precipitado
Por que a sua nivea mão
Tentou comprimil-o em vão!
E no olhar enamorado,
E na voz que estremecia,
Oh! Deus! o que não dizia
A bella sem coração!

Setembro de 1856.

XV

PERDOASTE!

Anjo offendido; outra vez,
Volve teus olhos do ceo
Áquelle que te offendeu!
Vel-o abatido a teus pés,
Anjo esquece, e compassivo,
Num sorriso de perdão,
Torna a dar-lhe o coração.
A cada instante mais vivo
O remorso cresce em mim;
Perdoa, oh! perdoa, emfim!

Offendi-te num momento
De terrivel desvario;
Era o ciume violento!
O rubor da castidade
A tua face affrontava,
E eu cego, eu perdido, ousava
Proseguir! oh! por piedade,
Por piedade, anjo do ceo,
Perdoa a quem te offendeu!

Em breve a razão voltou,
E com ella essa anciedade
Do desgraçado que ousou
Num momento de loucura
Offender a divindade.
Nas trevas da noite escura,
Nem ao menos uma estrella,
Brilhava serena e bella!
E eu caminhava em delirio
Sem força para acabar
A vida que era um martyrio!
A tão profunda amargura
Quem me podia arrancar,
Quem, senão um teu olhar?

Lá, nas sombras do horisonte,
Despontou por fim a luz,
A mesma que em tua fronte
Bella e placida reluz.
No peito afflicto e cançado
Senti dilatar-se então
Este oppresso coração;
O teu olhar adorado
A mim outra vez volveu,
Terno, meigo, apaixonado.
Perdoaste, anjo do ceo!

Abril de 1857.

XVI

TRES RETRATOS

(Num album)

Como as horas passam rapidas
Nesta doce companhia!
Brilha impaciente alegria
Em tudo á roda de mim.
Nunca fui tão venturoso,
Nunca a mão da Providencia
Fez com que eu visse a existencia
Tão bella e risonha emfim.

Esta noite, quando a lua
No horisonte resvalava,
Inspirado a saudava
Nas balsas o rouxinol.
Vem agora a primavera
Abrindo o virginio manto,
Cada dia um novo encanto
Nos traz o romper do sol.

Como a vida assim é bella,
Nesta amena convivencia,
Com tres anjos de innocencia
De formosura, e de amor!
Dezaseis annos talvez
Não tem Julia, bem contados,
Alta, airosa, olhos rasgados,
E sorriso encantador.

O pesinho estreito e breve
Cinturinha delicada,
A fronte um pouco inclinada,
Com seu ar sentimental.
Na ramagem das pestanas
Occulta a traidora chamma,
Que no instante em que se inflamma
Dardeja um raio mortal.

Mas que morte tão suave!
Inda ha pouco, em certa hora,
Que essa chamma seductora
O coração me accendeu...
Se é morte esquecer a terra,
Naquelle instante morria,
Por que tudo o que sentia,
Era a ventura do ceo!

Vel-a sorrir entre os campos,
Bella, candida, animada,
Como as flores que a alvorada
De sua luz inundou!...
Vel-a, co'as mãos impacientes,
Afastar do rosto bello,
O basto e fino cabello,
Que a aragem desalinhou!

Vel-a depois pensativa,
Quando tibio o sol declina,
Na corrente cristalina
Os olhos negros fitar!
Vagas sombras de tristeza
Que vem toldar-lhe o semblante,
São tão bellas nesse instante,
Dizem tanto sem fallar!

Laura, Elisa, as outras duas,
Laura, pallida e morena,
Baixa um pouco, mão pequena,
Expressivas as feições;
Os olhos claros e vivos,
No seu brilho insinuante,
Reflectem a cada instante
Milhares de sensações.

Eliza, a timida Eliza,
Que innocente singeleza,
Que perfume, que belleza
Naquella face gentil!
Cabellos loiros cendrados,
Olhos d'esse azul escuro,
Que é semelhante ao ceo puro
De um bello dia de abril!

As rosas da formosura
Sempre vivas no semblante,
O corpo esbelto e ondulante,
Se é permittida a expressão;
Uma tal ingenuidade,
No seu todo se revela,
Que em se olhando para ella,
Bate alegre o coração.

Tirados daguerreotypo
Não ficavam mais exactos
De certo estes tres retratos
Que procurei desenhar;
Qual porém é mais sympathico,
Mais perfeito, deve agora
Dizel-o a amavel senhora
Do livro onde os vou deixar.

Eu de certo não me atrevo!
Nos olhos tem Julia a chamma
Que nos sentidos derrama
Torrentes de languidez!
Laura... Eliza... mil encantos;
Emfim, não sei qual prefiro,
Não sei a que mais admiro,
Sei que adoro a todas tres!

Setembro de 1857.

XVII

ADEUS

Vai-te, oh! vai sombra mentida,
Para nunca mais volver!
Vai-te, deixa-me na vida,
Que esse teu estranho ser,
Fatal sempre me tem sido,
Fatal sempre me ha de ser.

Qual era a traidora mão
Que para ti me impellia?
Eu desvairado não via,
Ser aquelle um fulgor vão
Que no horisonte luzia?!
Crente a vista repousava
Na luz clara, intensa, bella,
Que para a terra manava
Do seio da meiga estrella,
E que minh'alma inundava
D'aquella celeste chamma
Que a vida e razão inflamma
No ardente fogo de amor!

Deixei-me cegar por ella;
Quanto e como então vivia
Ao grato e doce calor
D'essa que assim me perdia,
Não sei; porem sei que um dia,
Num'hora de maldição,
Não vi mais no firmamento
O seu mentido clarão.
Desvairado em tal momento
Fugi sem norte e sem tino;
Mas quem foge ao seu destino!?

Numa d'estas noites placidas,
Em que as estrellas fulgentes,
Reflectem vívida luz,
Á flor das aguas dormentes;
Em que o rouxinol seduz,
Co'as inspiradas endeixas
Soltando sentidas queixas,
D'entre as balseiras virentes;
Quando respira no ar,
Do monte que o mato veste
Aquelle perfume agreste,
Que é tão grato de aspirar;
Quando emfim a natureza,
No seu mais pleno vigor
Ergue a Deus seu hymno eterno
De graças, de paz, de amor!
Eu na minha alma abatida,
Procurava, mas em vão,
Uma só nota do canto
Immenso da creação.

Debalde encontrar buscava,
Naquella ardente anciedade
Em que o peito arqueja e cança,
No passado uma saudade,
No porvir uma esperança!

Debalde a vista alongava,
Pelo ceo onde as estrellas,
Resplandeciam tão bellas!
Em meu peito arido e morto
O reflexo d'uma d'ellas
Nem sequer compenetrava!
Fatigado, exangue, absorto,
Sem luz, sem norte, e sem tino
Prosseguia o meu destino!
Quando ao chegar um instante
Em que afflicto a vista erguia,
Dei com teu bello semblante,
Pallido, triste, abatido,
Que para mim se volvia
Saudoso e compadecido.

Oh! tão fundo sentimento
Brilhava nos olhos teus
Que ao ver-te nesse momento
Quem te não dissera um anjo
Do ceo á terra descido,
E que volve arrependido,
Outra vez aos pés de Deus!

Lá, na extrema do horisonte
Vinha então rompendo a lua;
Melancolica a luz sua,
O teu semblante inundou;
E nunca no prado ou monte,
Aquella face formosa,
Outra tão pallida rosa
De um reflexo illuminou!

Comtemplava-te perdido,
De esperança, amor, e gosto,
Quando teu languido rosto,
Pouco a pouco se animou;
E a tua voz docemente
Murmurando ao meu ouvido,
De novo um amor ardente
Outra vez me protestou.

Hesitava em crer-te ainda;
Mas o pobre coração,
Quando se vê na desgraça
Encontra a crença tão linda!
A plenos tragos a taça,
D'esse philtro enganador
Ancioso esgotava então,
Sem me lembrar que no fundo,
Estava o fel da traição.

Vai-te, adeus, pallida sombra,
Vai, porque este coração,
Por tuas mãos lacerado,
Com a tua vista se assombra,
E de ti foge aterrado!

Janeiro de 1855.

XVIII

A VISÃO DO BAILE

Foi num baile que a viste cercada
De perfumes, de luz, de harmonia,
Onde viva, impaciente alegria,
Nos semblantes andava a saltar;
E ella triste, abatida, indolente
Entre as pompas da festa encantada,
Co'a tristeza na face estampada,
E infinita saudade no olhar.

Ai! que luz! que expressão nesses olhos
Quando instantes nos teus se cravaram!
De repente em tropel acordaram
Mil affectos no teu coração!
E debalde a seu lado quizeste
Revelar o que n'alma sentias,
As palavras, a voz eram frias
Para aquella infinita paixão.

D'essa noite os instantes voaram,
Entre amor, entre gloria e ventura,
E no fim com que immensa ternura,
Seu olhar para ti se volveu!
É que havia chegado o momento
De deixar essa estancia inundada
Dos primeiros clarões da alvorada,
Que já vinha rompendo no ceo

Mas depois, quando o sol d'esse dia
Desmaiava nas veigas virentes,
Quando as aves soltavam gementes
A voz doce nas balsas em flor,
Não a viste assomar á janella,
E sorrindo, mirar-te um instante?
Não brilhava naquelle semblante,
Um sublime reflexo de amor!?

No sonoro recinto do templo
Quando as preces sinceras subiam,
Quando os hymnos sagrados se ouviam
Aspirando suaves aos ceos,
Não ouviste dizer-lhe: «Sou tua,
Ante Deus, ante os olhos do mundo
Que este affecto suave e profundo,
Vem do ceo e é bemdicto de Deus!»

Hoje pois, que na luz d'esses olhos,
Nessas fontes de amor e candura,
Encontraste na terra a ventura,
Cuidas tu em deixal-a, e partir?
Oh! não vês que é fatal o destino,
Que chegou para ti essa hora
De encontrar a mulher seductora
Que te deve encantar o porvir?

Ai, poeta, debalde procuras
Esquecer a visão adorada;
Ai! debalde! tua alma inspirada
Outra igual neste mundo encontrou!
São irmãs, e co'a mesma ternura
Viverão abraçadas no mundo,
Num affecto sincero e profundo
A suprema vontade as juntou!

31 de Março de 1857.

XIX

RECEIOS

Ás vezes, quando a teu lado
Comparo a expressão que outr'ora
Tinha teu rosto adorado,
Á sua expressão de agora...
Não sei que tristeza vaga
Que impressão sentida e funda,
O meu coração esmaga!
Oh! mas sei que a alma se inunda
De uma subita amargura,
De uma tal angustia e dor,
Que toda a luz da ventura,
Que me vem do teu amor
Toda com ella se apaga!
Loucuras serão, delirio
D'este ardente imaginar;
Serão, sim; mas o martyrio,
Com que me sinto acabar,
Só tem poder tua mão
Para de todo o findar
Neste oppresso coração!

Setembro de 1855.

XX

LEMBRAS-TE?

Lembras-te? frouxa expirava
Aquella doce harmonia
Que em nossas almas entrava.
De uma luz tão resplendente
Teu limpido olhar brilhava,
Como a da aurora nascente,
E aurora gentil sorria,
No meigo azul de teus olhos
Para raiar entre rosas
Fragrantes e sem abrolhos.

Quando mais tenue partiu
A cadencia saudosa,
Tua boca proferiu
Não sei que cortadas fallas,
Que o ouvido não sentiu,
Porque vieste graval-as
Com a voz do ceo no peito,
Que a ti rendido e sujeito
Anhelando t'as ouviu.

Ao proferil-as, dormente
O teu olhar descaíra,
E em teu pallido semblante
A expressão se reflectíra
Dos affectos que agitavam
A tua alma nesse instante.
Ai! nesse instante do ceo,
Que á terra breve fugíra,
Que a elle inteiro volveu!

No horisonte estremeciam,
Ebrias de amor as estrellas,
E teus olhos se fitavam
Na luz scintillante d'ellas;
É que no ceo procuravam
O eterno d'aquelle instante
Que na terra presentiam
Que passaria inconstante.

O alvor da nascente aurora,
Que no horisonte assomava,
Das estrellas desmaiava
A viva luz, e inda agora,
Tenho em minh'alma, querida,
A expressão com que me olhaste
Apontando para ella!
É que essa aurora tão bella
Não brilhava mais na vida!

Janeiro de 1849.

XXI

POIS SER PALLIDA É DEFEITO?

Pois ser pallida é defeito?
E de todo o coração,
Diz, pondo a mão sobre o peito,
Que um rostosinho desfeito
Não pode inspirar paixão?

Ora diga: a rosa é bella
Quando o sol lhe accende a cor,
É bella sim, mas ao vel-a
Desmaiar n'haste singela
Não lhe inspira mais amor?

Viçosa, fresca, orvalhada,
De manhã é toda luz;
Mas á tarde desmaiada,
Co'a pallidez namorada,
Oh! quanto mais nos seduz!

Está convencida vejo,
Deveras não, inda não?
Pois se é todo o seu desejo
Ser corada, dê-me um beijo,
E verá se cora ou não!

Porque esconde o rosto lindo?
Santo Deus! descubra-o já!
Aposto que vai sentindo
Um certo rubor subindo...
Ai! como corada está!

Neste espelho, olhe-se agora,
Veja bem que linda cor;
Quando nasce a fresca aurora,
A luz que a face lhe cora,
Não tem mais vivo fulgor.

Sorri-se a furto, bem vejo,
Occulta o rosto na mão:
Pois vamos, agora um beijo,
Quem cumpriu o seu desejo,
Não merece, diga, não?

Junho de 1852.

XXII

DEVER

Sê bem vinda estação melancolica!
Sê bem vinda! minh'alma abatida,
No teu seio procura essa vida,
Que tão bella, e tão breve passou!
Oh! são estes os campos formosos,
É bem este o deserto mosteiro,
Onde ouvíra o adeus derradeiro
Que teu peito anhelante soltou!

Já nas folhas do bosque frondoso
Se desbota a risonha verdura,
E co'a aragem que á tarde murmura,
Vão caindo dispersas no chão.
Já nos campos de todo cessaram,
Os modilhos da ingenua avesinha,
Que nas moitas espessas se aninha,
Presentindo a invernosa estação.

Que saudade na luz que desmaia,
Nestes campos sem viço nem flores,
Quando á tarde os incertos fulgores
Do sol tibio resplendem no ceo!
Que saudade na aragem agreste,
Que deriva do cimo do monte,
E no azul d'este vasto horisonte,
Onde pallida a lua rompeu!

Foi aqui nestas margens viçosas
Hoje tristes, desertas, sombrias,
Que sorriram os unicos dias,
Para mim de ventura e de amor;
Quando tu inspirada a meu lado
Caminhavas com tremulo passo,
E firmando-te alegre ao meu braço
Davas graças da vida ao Senhor.

Era aqui, junto á cruz mutilada,
Aos extremos reflexos do dia
Quando o sino da ermida se ouvia
Dar signal da singela oração,
Que tu vinhas prostrar-te soltando
Com voz flebil a prece sentida,
Pelo bem, pelo amor, pela vida,
Dos que a sorte deixou na afflição.

E depois nos meus olhos cravando
Os teus olhos de pranto orvalhados
Os protestos mil vezes jurados,
Vinhas mais uma vez proferir;
Nesse esforço baldado do espirito,
Que nas frases da terra procura
Expressar a celeste ventura,
Que sómente se pode sentir.

E pensar que este ceo de delicias
Se acabou para nós na existencia!
Que não temos mais nada que a essencia
Da saudade que d'elle ficou!...
Ver que a mão de um poder sobrehumano,
Nos traz cegos do mesmo delirio,
E votarmos a vida ao martyrio,
Porque o mundo um fantasma creou!!

Pois se Deus quiz ligar nossas almas,
Se é fatal que ellas sejam unidas,
Queres tu desprender duas vidas
Que se acharam irmãs ao nascer?
Vês que foi a suprema vontade
Que as juntou num abraço divino,
E ousas tu, desvairada e sem tino,
Separal-as á voz do dever!

O dever?! O dever mais sagrado
E mais santo que temos no mundo,
É mantermos o affecto profundo
Que d'um sopro divino nasceu;
Attentar contra a sua existencia,
Debelar sem piedade essa vida,
Não será como ser suicida
E affrontar a vontade do ceo!?

Sobre as aras de um templo mentido,
Num altar pelos homens creado,
Vais queimar quanto ha puro e sagrado,
Por um falso julgar da razão!
Sem pensar no teu crer insensato
Que não póde jámais ser extincto,
Este amor tão profundo que eu sinto
E tu sentes co'a mesma paixão!
..................................

Oh! de novo a meu lado, querida,
Volve, em quanto no ceo e na terra,
Nos agrestes perfumes da serra,
A suave estação respirar!
Volve pois, porque as veigas frondosas
Não perderam de todo a verdura,
E inda a mesma infinita ventura
Neste sitio has de agora encontrar.

Setembro de 1856.