The Project Gutenberg eBook of D. Joanna de Portugal (A Princesa Santa)

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Title: D. Joanna de Portugal (A Princesa Santa)

Author: Marques Gomes


Release date: May 11, 2008 [eBook #25437]
Most recently updated: January 3, 2021

Language: Portuguese

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*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK D. JOANNA DE PORTUGAL (A PRINCESA SANTA) ***

D. JOANNA DE PORTUGAL

(A PRINCEZA SANTA)

ESBOÇO BIOGRAPHICO

POR

MARQUES GOMES.





AVEIRO
Imprensa Commercial.
1879.


D. JOANNA DE PORTUGAL

(A PRINCEZA SANTA)

ESBOÇO BIOGRAPHICO

POR

MARQUES GOMES.





AVEIRO
Imprensa Commercial.
1879.



OBRAS DO MESMO AUCTOR

MEMORIAS DE AVEIRO (esgotada).

D. DUARTE DE MENEZES, esboço biographico.

O DISTRICTO DE AVEIRO, noticia geographica, estatistica, chorographica, heraldica, archeologica, historica e biographica da cidade d'Aveiro e de todas as villas e freguezias do seu districto.

A MULHER ATRAVEZ DOS SECULOS, estudo historico sobre a condição politica, civil, moral e religiosa da mulher; 1.ª parte sociedades primitivas. China, India, Persia, Assyria, Egypto e Israel.


 

A seis de Fevereiro de 1452 nasceu em Lisboa, no paço d'Alcaçoba,1 D. Joanna de Portugal. A nova do nascimento foi alegre e enthusiasticamente celebrada, a ponto da recordação do tristissimo drama de Alfarrobeira ser quasi que totalmente deslembrada. Os laços conjugaes entre Affonso V e D. Izabel de Lencastre estreitaram-se de forma, que murcharam de todo as esperanças alimentadas pelos inimigos do Infante D. Pedro, de verem realisado o divorcio por elles tão aconselhado2 e sempre tão nobremente repellido pelo futuro vencedor d'Arzilla.

Affirmam os seus biographos que D. Joanna foi no berço jurada princeza herdeira pelos Tres estados do reino. A falta de successores á corôa, obrigou el-rei seu pae, diz Caetano de Sousa, a que no berço fosse jurada em côrtes Princesa herdeira do reino, titulo com que sempre foi conhecida, ainda depois de nascido o Principe D. João3. E foi logo jurada por Princeza por todos os estados do reino, que acertaram achar-se juntos na conjunctura do seu nascimento, refere fr. Luiz de Souza.4 As chronicas do tempo não sanccionam esta affirmativa. Ruy de Pina e Dameão de Goes nem sequer noticiam tal juramento; aquelle diz apenas que ella sempre se chamou Princeza até 1455, em que nasceu o Principe D. João; este, que depois do nascimento do Principe ella teve o titulo de Infante, por não lhe pertencer já o que primeiro usara.5

Talvez que fosse jurada Princeza pelos fidalgos e mais pessoas que compunham a côrte, não obstante d'isso não restar memoria escripta; por quem de certo não o foi e pelos Tres estados porque estes nem estavam reunidos, nem se reuniram n'esse anno, nem nos dois annos que se lhe seguiram.6 Nem mesmo pela delegação d'elles, ella foi jurada tambem, porque esta deputação permanente, como lhe chama o sr. Oliveira Marreca, não existia já.7

Amamentada por D. Mecia de Sequeira, D. Joanna ficou orphã de mãe aos cinco annos de edade. A rainha D. Izabel, que, com o nascimento do Principe D. João, havia alfim alcançado sepultura para seu pae sob as abobadas da Batalha, cahiu fulminada em Evora pelo veneno ministrado pelos partidarios do duque de Bragança, em 2 de dezembro de 1455.8

Poucos dias depois do falecimento de D. Izabel, D. Affonso V ordenou que todos os officiaes, damas e donzeis que estavam ao serviço da finada rainha, passassem para o de D. Joanna, a quem deu casa, como aquella a trazia.9 Pelo que se deprehende da narração de D. Bernarda Pinheiro10, D. Joanna, depois do fallecimento da rainha, sua mãe, assistiu n'um palacio, separado do de seu pae e irmão, talvez o de S. Bartholomeu, que anteriormente havia sido occupado por suas thias as infantas D. Leonor, D. Catharina, e D. Joanna.11

Entre as damas mais intimas da rainha D. Izabel12 conta-se D. Beatriz de Menezes, senhora de nobre linhagem e elevados dotes do coração e do espirito; foi a ella que D. Affonso confiou a educação moral da filha. Para seu mordomo-mór nomeou-lhe Fernão Telles de Menezes, e para governador de sua casa D. João de Lima, segundo visconde de Villa Nova da Cerveira.13 O lugar de camareira-mór foi dado a D. Izabel de Menezes, a Formosa, que tambem havia sido dama da rainha D. Izabel.14

Se outras provas não tivessemos para avaliarmos os talentos de D. Joanna, o espirito esclarecido de seu pae era bastante para nos fazer acreditar que ella recebeu uma educação esmeradissima, pouco vulgar n'aquelles tempos. Não só cultivava com esmero a lingua materna, mas a latina tambem, que então, alem de ser propriamente dita a lingua da sciencia, era-o igualmente dos altos dignatarios da egreja e da côrte.

Refere D. Bernarda Pinheiro, que D. Joanna aos nove annos, sabendo já grammatica, começou com grande cuidado a aprender letras, e a querer entender latim; estando no convento de Jesus trabalhava por haver e mandar copiar muitos livros, tanto em linguagem, como em latim, dando preferencia a estes, porque ella muito bem o sabia.

D. Affonso V, que havia tido por mestre o celebre Matheus Pisano, e que sustentava n'um documento publico que «as sciencias e a sabedoria a nenhum outro dom podem ser comparadas» decerto não deixou de chamar para junto da filha, afim de lhe cultivarem o espirito, as maiores celebridades d'então. D. Filippa de Lencastre, filha do Infante D. Pedro, havia tambem de necessariamente concorrer immenso para a educação de D. Joanna, já com os seus prudentes conselhos de thia extremosíssima, já com as luzes do seu elevado talento e do seu apurado gosto litterario e artistico, pois esta senhora, alem de varias obras que traduziu do latim, escreveu coplas e foi uma notavel illuminadora de manuscriptos.15 D. Joanna imitou-a. A sua maravilhosa formosura prestava mais um encanto, diz Ferdinand Dinis, á predilecção que não deixou de mostrar por tudo quanto se referia á cultura da intelligencia.16

Fr. Luiz de Sousa diz que ella «lia e considerada as vidas e martyrios das virgens, e tanto se agradava da licção que não queria fallar nem ouvir fallar d'outra cousa, etc.» Ao historiador monastico decerto pareceu profana outra qualquer leitura que não fosse a mystica narração dos feitos das heroinas do christianismo, e por essa rasão limitou a ellas os livros compulsados por D. Joanna; parece-nos, porem, que não disse toda a verdade. A filha d'um monarcha tão illustrado como foi Affonso V, a mulher que havia recebido uma tão apurada educação como ella recebeu, decerto não se limitava só a lêr vidas de santas, que por signal escaceavam na régia livraria.17

D. Joanna passou o abril da vida instruindo-se e soccorrendo os indigentes. Onde houvesse lagrimas para enchugar, ou orphãos para arrancar ás garras da miseria, a sua sombra protectora lá estava. Milhares de infortunios foram suavisados por ella. Aos carceres e hospitaes chegava tambem a sua beneficencia. Alli, pelos seus servidores mais fieis levava o remedio do corpo e a esperança da alma, o pão para a fome e a fé para lenitivo ás grandes dôres. A sua caridade era conhecida de Lisboa e de Portugal inteiro; aquillo a que podia chamar propriamente seu distribuia-o pelos necessitados; quanto tinha era dos pobres e para os pobres. Mereciam-lhe sempre particular compaixão os desgraçados que, havendo sido grandes outrora, cahiam em pobreza; e nos soccorros que a estes ministrava é que o seu animo compassivo e bondoso melhor se reflectia, pois protegia-os sem lhes ferir o pondunor, sem sequer lhes fazer pensar d'onde lhe vinha o inesperado auxilio.

Do mesmo modo que seu pae, apparecia ao povo nos lugares publicos, e escutava com semblante prasenteiro e bom as supplicas dos subditos obscuros, afim de as depôr e advogar perante o regio throno. Honrava sempre com todo o pessoal de sua casa as festas e solemnidades da côrte. Nos seus paços orava e fazia orar Suas damas pela prosperidade do paiz. Recolhida ao seu oratorio particular, ahi se demorava longas horas em orações, e entregue á leitura dos livros sagrados, merecendo-lhe particular estima o Evangelho de S. João. Os trances afflictivos da vida do Redemptor eram para ella objecto de serias e profundas meditações, e em memoria d'elles tomou por divisa uma corôa de espinhos. Estavam então muito em uso as divisas, costume cavalleiresco com que os nobres exprimiam as tendencias do seu espirito. A Princeza, segundo fr. Luiz de Souza, «não se quiz desobrigar d'este uso commum; mas no costume do mundo buscou empreza do céu, que foi uma corôa de espinhos. Esta mandou pintar em todos os seus aposentos, esmaltar em suas joias, e gravar em sua porta.18

No reinado de D. Affonso V era tal o esplendor das festas da côrte portugueza, que embaixadores estrangeiros confessavam espontaneamente que em paiz algum da Europa poderiam ser escedidas em magnificencia.19 Os saraus eram muito frequentes; começavam de ordinario por lautas ceias, servidas em custosas baixellas de prata, e terminavam por danças e momos de exquisita invenção. «Debaixo dos tectos e das abobadas artezoadas, lavradas de oiro nos pendurões e bocetes, acotovelavam-se as damas, diz Rebello da Silva, riam pagens, atravessavam figuras de momos, pulavam anões ou corcovados, e teniam os cascaveis dos maninellos e truões.20 D. Joanna não permittia que no seu paço, diz D. Bernarda Pinheiro, se fizessem jogos nem momos de vaidades; se queria ter sarau, fazia-o quando seu pae e irmão lh'o vinham dar e ter com ella. E com elles, duques, marquezes, condes e todos os outros senhores e fidalgos, os quaes como a paço d'uma princeza, não tendo outra, vinham assim desenfadar. E tomava muito prazer em seus saraus com el-rei n'estes dias festivos, e com suas damas e donzellas, com as quaes a dita senhora Infante e Princeza sahia a recebel-os, toda coberta de sua pompa e reaes vestidos e toucado, por satisfazer sempre com a vontade e mandado de el-rei seu pae.»

Parece que n'estas festas, em que sempre dançava com el-rei, ou com o infante D. Fernando, seu thio, D. Joanna occultava com cuidado, sob as sedas dos seus vestidos e os brilhantes dos seus colares, a camisa de grosseira estamenha e os asperos celicios.

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A Africa é a terra promettida de D. Affonso V, diz Schoeffer, o objecto de seus desejos, dos seus planos favoritos e de seus sonhos,21 é finalmente alli, refere Rebello da Silva, que elle corta uma palma, que D. João I mesmo não julgaria impropria da sua corôa militar.22 A conquista d'Arzilla, uma das melhores possessões dos mouros, n'aquella parte do globo. Em 1471 depois de haver mandado observar por Pedro de Alcaçoba e Vicente Simões, o meio mais facil de levar a effeito a desejada conquista, D. Affonso preparou a expedição, composta de quatrocentos e setenta o sete navios e vinte e quatro mil homens de desembarque. Contra o voto quasi unanime do seu conselho, o rei commetteu uma d'aquellas leviandades em que tão facilmente se deixava cahir. Consentiu que seu filho, o Principe D. João, o acompanhasse, aventurando assim aos azares da guerra os destinos da corôa de Portugal. Por governador do reino ficou o duque de Bragança, D. Fernando.23 Alguns escriptores, entre elles fr. Luiz de Souza, querem que D. Joanna fosse a regente, opinião que alem de não ser seguida por Dameão de Goes, Ruy de Pina e outro qualquer chronista, cahe pela base em presença da carta patente de D. Affonso V, em que se incumbe a governança do reino ao velho duque de Bragança. A propria D. Bernarda Pinheiro não diz explicitamente que ella ficou regente, mas sim «que el-rei lhe deixou seu reino e tudo ordenado e recommendado como convinha.»

Em 15 de agosto levantou ferro a esquadra com direcção a Africa, e a 24 do mesmo mez dava-se o assalto, hasteando-se, passadas algumas horas de sanguinolento combate em que D. Affonso V combateu com o seu incontestavel valor, a bandeira da cruz nos miranetes das mesquitas e eirados das torres d'Arzilla.

«Tanger, que resistira a tantos assaltos, e que vira do alto dos seus muros, no reinado de D. Duarte, o desastre dos infantes, e o captiveiro d'um d'elles, Tanger cortada de temor, despejou-se repentinamente, e D. João, depois marquez de Montemór, recebia das mãos victoriosas do rei os estandartes portuguezes, para os hastear n'aquellas ameias desamparadas.24

A feliz nova de que Affonso V engastara na sua dupla corôa de rei e de cavalleiro duas joias de tão pura agua como eram Tanger e Arzilla, foi em Portugal alegremente recebida. D. Joanna que na capella dos seus paços havia mandado fazer preces publicas pelo bom exito da expedição, communicou logo á camara e cidade de Coimbra o resultado d'ella.25

Regulada a administração e defeza das praças conquistadas, o rei voltou ao reino, onde o esperava a mais brilhante recepção que até então entre nós se havia presenciado. Os vencedores, diz Dameão de Goes, foram recebidos com procissões e grandes festas, que em louvor de Deus, e lembrança de tão assignalada victoria por muitos dias se celebraram por todo o reino.26

D. Joanna, vestindo um habito de rico veludo verde, e ostentando na cabeça e no collo os melhores brilhantes do real thesouro, foi esperar el-rei ao desembarque. Acompanhava-a sua thia D. Filippa e bem assim todas as damas, donzellas e fidalgas de sua casa. Contava então desoito annos, e a tradicção e a historia apresentam-nol-a formosissima. Vastos cabellos loiros naturalmente annelados, presos em redor da cabeça por uma fita de seda cravejada de rubis cahiam-lhe soltos pelas costas abaixo segundo a moda d'então. O rosto era oval, alvo, ainda que um pouco rosado; os olhos eram verdes e formosos; o nariz digno rival da estatuaria grega e a bocca, pequena, entreabria-se n'uns labios purpurinos. A estatura era um pouco alta, mas donairosa; o seu trajar simples, mas sempre elegante.27

Alguns mezes depois eram taes as necessidades do estado que se pensou na conveniencia de reduzir as despezas a que D. Joanna era obrigada a fazer, tendo casa como se fosse rainha. Foram diversos os alvitres apresentados, resolvendo-se afinal que ella entrasse num mosteiro em habito secular, em quanto não casava,28 indo-se assim de accordo não só com as suas tendencias asceticas, mas tambem com os desejos que mais uma vez havia manifestado, de trocar a purpura pela estamenha. Não era novo o exemplo. As Infantas Thereza, Sancha, Mafalda, Branca e Maria, aquellas filhas de D. Sancho I, e estas de D. Affonso III, haviam trocado tambem a côrte pelo claustro. Alem d'isto é acto de abnegação praticado por D. Izabel a santa rainha de mistura com a repentina resolução de algumas damas mais illustres, que n'esta época abandonaram Lisboa a fim de professarem nos differentes mosteiros do paiz, fez com que D. Joanna recebesse jubilosa a resolução do real conselho.

Escolhido o mosteiro de Odivellas, para residencia da Princeza, por ahi viver sua thia D. Filippa, diz Dameão de Goes que el-rei a foi visitar com o Principe, e lhe disse o que no conselho se ordenara ácerca da ordem de sua casa e modo do estado da sua pessoa, pelo que ella lhe beijou a mão, dizendo-lhe que n'isto lhe fazia grande mercê, porque sua tenção e vontade fôra sempre de servir a Deus em religião.29

Resolvida a deixar para sempre a côrte, D. Joanna distribuiu entre as damas de sua casa os seus vestidos e joias, e despachou com el-rei os fidalgos e officiaes, com a maior vantagem e favor que poude, diz fr. Luiz de Souza.30

Em 1472 entrou no mosteiro de Odivellas, onde foi recebida com todas as honras inherentes ao seu alto nascimento. Foi porem curta aqui a sua estada. Logo que sahiu do paço deu a conhecer que o mosteiro em que queria viver era o de Jesus de Aveiro e não aquelle, porem por motivos que nos são desconhecidos não poude logo realisar o que desejava. O convento de Jesus havia então poucos annos que fôra fundado; podia-se apresentar como exemplo de pobreza e austeridade e ao mesmo tempo como asylo das damas mais illustres de Portugal, em cujo numero se contavam D. Leonor de Menezes, filha do segundo conde de Vianna D. Duarte de Menezes, que ahi professou e veio a ser mais tarde prioreza. Parece ser esta senhora a causa principal de D. Joanna preferir Aveiro a Odivellas, pelo menos é essa a opinião mais seguida.

Obtida a permissão para vir para o convento de Jesus, D. Joanna deu-se pressa a communical-a á prioresa Dona Beatriz Leitão. Nos fins de julho de 1472 chegou a Princeza a Aveiro; acompanhavam-a, alem da côrte, o rei e o principe, D. Filippa de Lencastre, e soror Mecia d'Alvarenga, religiosa de Odivellas, e D. Mecia de Sequeira, sua ama. No dia 4 de agosto, teve lugar a entrada no mosteiro, que foi com a maior solemnidade e lusimento. El-rei e o Principe foram os unicos que entraram, acompanhando-a, precedidos da communidade, até aos aposentos que lhe estavam destinados, que eram a casa denominada das finadas, por então não haver outra devoluta, nem melhor, diz D. Bernarda Pinheiro.

«Era o mosteiro mui estreito, refere fr. Luiz de Sousa, para aposentar uma Princeza, mas ella entrou tão humildemente, que tudo lhe parecia grande; concertaram-lhe uma casa, que ficava junto á capella-mór; aqui fez logo armar um oratorio, e na parede abriu uma pequena fresta que lhe servia de tribuna para ouvir os officios Divinos.31 Seu trajo era já dominico, quando entrou, vasquinha branca e saio preto, de panno pouco custoso; os cabellos ennastrados, recolhidos em coifa de lenço, e toalha lançada; como tudo era tão honesto, não mudou nada. Nas festas descia muitas vezes ao côro, e tomava assento no esquerdo, entre as noviças, e nas ultimas cadeiras.32

Soror Mecia d'Alvarenga ficou vivendo no convento com D. Joanna; D. Filippa de Lencastre e D. Mecia de Sequeira, essas ficaram tambem por algum tempo em Aveiro, mas fóra da clausura. Algumas creadas que havia trasido comsigo de Odivellas, mandou-as ficar na villa, mais por amor e para lhes fazer bem e mercê, que por necessidade do seu serviço, diz fr. Luiz de Sousa. D. Filippa visitava-a amiudadas vezes e parece que tambem algumas vezes o fizera o Principe D. João antes della tomar o habito, o que muito lhe recommendara que não fizesse.

Nos primeiros dias de 1475; D. Joanna mostrou immensos desejos de tomar o habito. Discutido o assumpto pela communidade reunida em capitulo, determinou ella que a solemnidade tivesse lugar em 25 de janeiro, por n'esse dia a egreja resar da conversão de S. Paulo. «Chegou o dia, e bem podemos dizer, diz fr. Luiz do Souza, que foi o mais formoso, e o mais alegre, que nunca aquella casa teve. Viu-se n'elle uma Princeza jurada de um reino, sendo encontrada de pae rei, e irmão Principe, thios Infantes, e a despeito de toda uma provincia, buscar a pobreza e humildade de Christo, lançar-se por terra, e aos pés de uma pobre mulher, pedir-lhe por misericordia uma mortalha.

Começou a cerimonia depois do uma devota pratica da Prioreza, com se chegar a ella a Princeza, e offerecer-lhe a cabeça para dar os cabellos de ouro em penhor, e primicias do sacrificio, que se fazia a Deus. Cortou-lh'os a Prioreza, mas com tantas lagrimas, que quasi que nem os olhos viam, nem as mãos acertavam o que faziam. Não eram menos as de toda a communidade, nem as da noviça; porem com esta differença, que as da noviça eram de consolação e alegria, as da Prelada, subditas de devoção, de espanto e de compunção. Com as mesmas lhe foi vestido o habito. e no remate, abraçando e dando paz com humildade a todas, se foi com ellas em procissão ao altar.»33

«Começou a Princeza desde este dia um mui austero, e esquivo genero de vida, não só por qualidade tão alta e compleição tão delicada, como era a sua, mas para quem no nascimento tivera humilde sorte, e nas forças muita robustez, espelho em que se deviam vêr, e a elle compôr vidas e costumes, todos os sugeitos que buscam a religião. Os que nasceram grandes para se saberem humilhar, e os pequenos para se lembrarem sempre da pobreza do seu pó, e não pretenderem elevar-se onde os maiores se abatem.....

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«Famoso exemplo nos deixou esta Princeza; do dia que vestiu o santo habito, nunca mais se deixou visitar, nem tractar de nenhum senhor, nem outro secular do reino; nunca mais trouxe peça de ouro, nem de prata, e até o titulo de Infante quizera deixar, (porque o de Princeza muito tempo havia que o tinha deixado) se a Prioreza lh'o não tolhera. No habito, nas tunicas, na cama e em todo o trajo; no serviço de casa, e communidade, nenhuma differença fazia da mais pequena e humilde noviça. Habito curto, e sem fralda, tunicas de sarja, cama sem nenhum genero de lenço, pantufos baixos de inverno, sapatas de sola no verão (quem crêra isto hoje, ainda em uma mulher ordinaria). No côro fazia todos os officios das mais noviças, assim como lhe cabia por seu turno: dizia versos, (antiphonas), registrava as horas, cantava kalendas, accendia vellas, levava os ceriaes, cruz e agua benta; no refeitorio servia quando lhe tocava, ajudando a companheira quanto suas forças, quando não eram mui fracas, abrangiam. Ao comer, tomava sua pitança como cada uma das outras noviças; se lhe juntavam diante mais alguma cousa, como era fazer differença em respeito da sua pessoa, ou a dava á freira mais visinha, ou a deixava sem lhe tocar. Para não faltar em nenhuma occupação da communidade, aprendeu a fiar, e a coser e lavrar. E como o sangue nobre para tudo é mais habil se se applica, sahiu grande mestra; e do seu fiado se faziam corporaes para os altares. Chegou a amassar o pão, lavar a roupa, varrer as casas, para que corresse o trabalho egualmente por todas; e se acontecia metter-se lenha em casa, ou trigo, e ainda que fosse tijollo, telha e barro, que as religiosas, por não entrarem dentro seculares, e por que não usavam ainda então servidoras, nem de escravas, costumavam por suas mãos acarretar, accudia com alegre rosto a ajudar, e levar sua parte, louvando umas, animando outras, e dando exemplo de humildade a todas.»

«Veio-se a saber na villa, e logo por todo o reino, que estava noviça, com cabellos cortados e habito vestido. Foi estrondo, e nunca visto o sentimento, que por toda a parte causou. Entre os moradores da villa houve pranto geral. Os criados, e criadas se encerraram, e vestiram de pano de dó, como se a viram enterrar. A senhora D. Felippa não quiz mais visital-a, ou de sentida do feito, ou de receiar ser havida por consentidora d'elle; e poucos dias depois se foi da Villa; e deu ordem com a Prelada de Odivellas, que lhe tirasse a amiga D. Mecia d'Alvarenga.»34

Mal se divulgou nas provincias que D. Joanna havia tomado o habito, muitas e importantes povoações mandaram a Aveiro representantes seus afim de protestarem contra uma tal deliberação. Chegados que foram aqui, dirigiram-se ao convento, onde foram recebidos na Casa da Roda pela Prioreza D. Beatriz Leitão, a quem asperamente censuraram, chegando a ameaçal-a com o lançarem o fogo ao convento se ella não fizesse com que D. Joanna despisse o habito. D. Beatriz desculpou-se o melhor que poude, dizendo que não tinha feito mais do que obedecer ás ordens da Princeza; estas explicações satisfizeram em parte os representantes dos concelhos, que se retiraram em seguida, depois de haverem feito lavrar instrumentos publicos pelos tabeliães que comsigo haviam trazido, pelos quaes o Convento se obrigou a não pôr estorvo algum nem demora á sahida da Princeza em qualquer tempo que se tornasse necessario para bem do reino.

Veio depois o Principe D. João, trazendo em sua companhia alguns dos principaes fidalgos e varios bispos, dos quaes um era o d'Evora, D. Garcia de Menezes. Entrou iradissimo no convento, e sahindo-lhe ao encontro a Prioreza, reprehendeu-a asperamente tambem, perguntando-lhe como a tal se atrevera.

Ella toda cheia de humildade, mas humildade que não avilta, antes enobrece, respondeu-lhe: «Senhor, a senhora Princeza, jurada herdeira do throno, é por nós todas obedecida, como se fosse Rainha de Portugal: a senhora Princeza mandou, senhor, e soror Beatriz cumpriu.»

D. João, surprehendido com esta tão respeitosa submissão, passou aos aposentos de D. Joanna, que sahiu a recebel-o, «fazendo-se força, diz Sousa, por mostrar alegria com sua vinda: porém elle, pondo os olhos n'ella, e quando lhe viu o rosto secco, pallido e enfiado, effeitos do rigor com que vivia, e notou a pobreza do vestido, a novidade do toucado, não poude conter as lagrimas; e trocada a paixão pela ira, com que vinha, em uma não cuidada brandura, fallou-lhe amorosamente, pedindo-lhe que deixasse aquelle genero de vida e trajo, com que tinha desgostado a seu Pae, e a elle, inquietado e alterado todos os Estados do Reino: que lhe lembrasse a necessidade que havia da sua pessoa para na falta d'elle Principe: caso em que estava obrigada, não só a cortar por seu gosto, pelo dar a tantos, mas ainda a sacrificar-se. Que folgasse de agradar a um Pae velho, que muito lhe queria; fazer a vontade a um irmão enfermo, e sem filhos, e não desprezar os requerimentos de um Reino inteiro. Respondeu a Princeza com poucas, e humildes palavras, como a Principe, que reconhecia por Senhor, e como a irmão, que muito amava; que bem sabiam El-Rei seu Pae, e elle, que era tão antigo n'ella o amor da vida religiosa, como o uso da rasão; que a esta conta de beneplacito de ambos, e com sua licença, de longo tempo requerida, viera para aquella casa. E sendo assim, bem deviam entender, que não podia estar bem a sua pessoa, entrando em companhia de professas de estado austero, e rigoroso estar á vista de seus trabalhos, sem tomar parte n'elles; e viver em casa de religião, isempta das obrigações d'ella: que fazendo conta, que ambos d'isso eram contentes, começara aquella vida, vida que buscara com vontade, e proseguia com gosto; e ajudando-a Deus levaria ao cabo, com a firmeza, e constancia, que devia a seu sangue: e assim pedia a sua alteza fosse servido parecer-lhe bem. Estas rasões e as lagrimas piedosas, com que as acompanhava, atalharam o principe de sorte, que não mais fez instancia. Mas tomando a Princeza pela mão levou-a para uma varanda. Alli chamou o bispo de Evora Dom Garcia de Menezes, que com outros senhores o viera acompanhando, e queixou-se-lhe da dureza, que achara n'ella. Tomou então o bispo a mão, e como era dotado de singular eloquencia, de que até nossa edade chegaram vestigios (devia cuidar, que esperava o Principe elle désse fim a esta empreza) começou a propor-lhe com elegantes, e bem pensadas palavras toda a substancia das que o principe tinha dito, e ajuntando outras rasões de vivo e esperto engenho: e emfim resolvendo com termo demasiado livre, que se todavia insistisse em proseguir um genero de vida, que tinha mais de apetite, e meninice, que de prudencia de Princeza, e em querer passar os termos da obediencia, que devia a el-rei, como filha a seu pae, e como qualquer vassallo a seu rei, e senhor natural, que para isso estava alli o Principe para lhe não soffrer, que tivesse mais habito, nem religião, nem mosteiro. Viu-se n'este passo o que tanto de antemão avisou Christo a seus discipulos no santo Evangelho; quando por causa sua se achassem diante dos reis, e grandes do mundo, não se matassem por estudar respostas a seus ditos, que elle se obrigava a dar-lh'as feitas, e postas nas linguas.

Revestiu-se a Princeza de um brio real e valor senhoril, que bem pareceu communicado do céu, e respondeu-lhe assim: Bispo reverendo, tudo o que me tendes dito, devo, e quero crer por obrigação de christã, que vol-o faz dizer o zelo que tendes do serviço de el-rei meu senhor, e pae, e do bem de seus povos, e por esta parte não mereceis reprehensão; mas que conta haveis de dar a Deus, sendo successor de Christo Jesus seu filho no habito de sacerdote, e profissão de prelado atreverdes-vos a persuadir-me uma cousa tão encontrada com as obrigações, que prometestes, que jurastes? Como havieis de desculpar com vossa consciencia atissardes o fogo da ira do Principe meu senhor, e irmão, com rasões mais apparentes, que verdadeiras, mais artificiosas, que bem fundadas, só porque vos parece, que o agradaes n'isso? Vós, que tinheis obrigação, como padre espiritual, de o mitigar, e trabalhar, que não chegasse a colera a inficcionar-lhe a alma, e commetter culpa contra Deus: vós, que como outro Ambrosio deverieis aconselhal-o, que temesse entrar por estes claustros sagrados, se não fosse a honral-os, e veneral-os; e fazei-o tanto ao revés, que em sua presença, e minha, tendes bocca para fallar em tirar habito, e religião; e não tendes consideração para vêr, que o haveis com um Deus, que vos pode castigar (e temei-o muito) só pelo que dizeis; e a el-rei meu senhor só por me conservar n'este estado, que com sua licença busquei, havieis de ter por fé (se sentis bem d'ella) que dará vida e honra, e novas victorias: e ao Principe muitos filhos, e nétos, e saude e vida para os vêr e lograr. Se os ecclesiasticos não discursam, como ecclesiasticos, não fallam como ecclesiasticos, que se ha de esperar do vulgo? Se a vossa theologia vos ensina, que nem nas cousas humanas se move a folha d'uma arvore sem vontade de Deus, como nas divinas, e no que foi inspiração do céu, e quasi nascida comigo, haveis de pôr nome de apetite? Estando escripto, que nem o nome de Jesus podemos pronunciar, nem vós, nem eu, sem especial movimento do Espirito Santo. Se isto ignoraveis, não merecieis de mim resposta; e se o sabieis, como sei que sabeis, mereceis nome de adulador para com o Principe, e de enganador para comigo. E qualquer que seja vossa tenção e entendimento, sabei de certo (e com isto concluo) que a causa é de Deus, que se não sujeita a poderes humanos: e pela mesma rasão não haverá nenhum na terra, que me tire o proseguil-a: e se elle fôr servido, que me custe a vida tal demanda, isso terei por ventura, por reino e por imperio. Assim concluiu a Princesa, e com a ultima palavra fez signal de se querer recolher, porque enxergava no gesto do irmão enfiado ondas de nova paixão. Parece que houve por dito contra si tudo o que a Princeza respondeu ao Bispo; sentiu-se, e desconfiou de vêr sua inteireza e liberdade; e vêr juntamente ficar o Bispo corrido, e pouco airoso com o que ouvira.

Dizem que soltou contra ella muitas palavras pesadas, e foi uma, que em pedaços lhe havia de tirar o habito, e assim a deixou.

«Desbaratam muito a saude corporal desgostos da alma, e se estes cahem sobre vida acossada de trabalhos, como acham materia disposta, são os effeitos maiores, e mais nocivos. Tinha esta Senhora passado alguns mezes de noviça com tão rigoroso tractamento de sua pessoa, que toda a communidade havia por impossivel chegarem ao cabo do anno membros tão fracos, e compleição tão delicada. E com tudo a força do espirito, e gosto, que tinha de se dar a Deus, fazia, que levasse alegremente tudo, e se vencesse a si mesma. Mas como se juntou o sobresalto dos povos, e desamparal-a sua thia, e a indignação do Principe, rendeu-se, e acurvou a natureza, opprimida de tantos males juntos: como acontece sossobrar o navio com demasiado pezo, e arrebentar a peça de bronze, se lhe lançam mais carga daquella com que pode. Passados poucos dias depois de ido o Principe, adoeceu gravemente.»

A noticia da doença chegou aos ouvidos de D. Affonso V. Differentes prelados e physicos distinctos foram logo enviados a Aveiro, e, chegados aqui, decidiram em conferencia que D. Joanna não podia continuar a vida que até então levara, pois a sua existencia corria grave risco se continuasse a insistir em querer professar.

D. Joanna, tendo conhecimento do que se havia deliberado a seu respeito, consultou o então vigario geral da ordem, fr. Antão de Santa Maria, homem de grande saber e ainda de maior virtude, se devia continuar o seu anno de provação, se despir o habito. O sabio religioso, ouvidos os padres mais qualificados, fez-lhe vêr que, visto estar tão debilitada pela doença e ser de natureza tão franzina, como manifestamente se via, não poderia cumprir com os encargos e austeridades da ordem, ficava em consciencia obrigada a deixar a pretensão, que tinha de professar n'ella. D. Joanna recebeu pesarosa a ordem do Geral; o seu espirito estava já de todo absorto em sensações mysticas, para não lhe parecer cruel uma tal determinação. Mas humilde como sempre obedeceu de prompto ao que se lhe havia ordenado.

Reunida a communidade no seu oratorio particular, apresentou-se á Prioreza, e de joelhos e banhada em lagrimas, declarou-lhe que por obediencia e não por vontade desistia de professar; e tirando o habito collocou-o sobre o altar, tudo com um respeito tão devoto, que revelava bem quanto lhe custava deixal-o, diz fr. Luiz de Sousa. Passados que foram alguns dias, tornou a vestir o habito, mostrando assim que o trazia por devoção e não por obrigação.

Nos fins da primavera de 1479 a peste oriental que havia annos já assolava Portugal, entrou em Aveiro com o seu funebre cortejo de calamidades. Havendo-se desenvolvido em Esgueira, de uma maneira verdadeiramente assustadora, principiou a fazer sentir aqui os seus horrorosos effeitos, ainda que com menos intensidade. Infelizmente, todas as condições hygienicas de Aveiro, eram de forma para fazer receiar o desenvolvimento do fatal contagio. A villa, como a maioria das povoações de então, com as suas altas muralhas e fossos profundos, com as suas ruas e viellas estreitas e immundas, cerrada por todos os lados de pantanos, estava adquada sobremaneira para a epidemia se desenvolver espantosamente, como com effeito se desenvolveu.

D. Affonso V, vendo o risco eminente que corria sua filha, permanecendo aqui, ordenou que sem demora abandonasse o convento e a villa e se dirigisse ao Alemtejo, ainda não inficcionado, e aos Bispos, de Coimbra e do Porto, bem como a varios fidalgos visinhos que se lhe apresentassem para a acompanharem. «Tendo ella escrupulisado em dar cumprimento áquella determinação, diz D. Bernarda Pinheiro, e chegando isto ao conhecimento do Provincial, veio aqui com alguns religiosos mais auctorisados, e lhe fizeram vêr, que devia cumprir o que lhe era ordenado; pois mesmo que quizesse fazer sacrificio da sua vida, cuidando que Deus lha aceitaria, tal sacrificio não era meritorio, por lhe faltar a devida obediencia, a qual devia muito escrupulisar, de não satisfazer, principalmente sendo o preceito tão justo, pois vinha de quem podia mandal-a e tinha por fim prevenir o gravissimo prejuizo, que poderia seguir-se ao reino se a sua pessoa fosse victima da peste; e podia levar comsigo, as religiosas que quizesse, mesmo a Prioreza; e n'esta occasião o dito Provincial as intimou por santa obediencia para que nenhuma se recusasse.»

Feitos os necessarios preparativos, D. Joanna deixou o convento de Jesus em 27 de setembro, e dirigiu-se a Aviz. Alem dos Bispos do Porto e Coimbra, e varios fidalgos e escudeiros, acompanharam-n'a D. Beatriz Leitão e mais algumas religiosas, e bem assim sua ama D. Mecia de Sequeira. Viajava sempre em andas35 cerradas, cobertas de panno azul escuro, pois então entre nós ainda se não havia introduzido o uso das carruagens.

Depois de alguns mezes de residencia em Aviz, partiu para Abrantes, aonde em 3 de agosto de 1480 falleceu a Prioreza D. Beatriz que comsigo levara, e passados alguns dias depois de haver orvalhado com muitas lagrimas a sepultura d'aquella virtuosa senhora, voltava ao convento de Jesus, por haver noticia que a peste havia finalmente abandonado Aveiro.

No anno seguinte de 1481 perdia el-rei seu pae, fallecido a 28 de agosto no paço de Cintra, na propria camara que em que havia nascido. Feitas que foram na egreja do convento as exequias solemnes pelo eterno descanço do que fôra seu pae e rei, mandou alli alguns frades do convento de Nossa Senhora da Mizericordia e differentes fidalgos, cumprimentar o novo monarcha, e prestarem-lhe em seu nome juramento de fidelidade. D. João II recebeu prasenteiro e agradecido os emissarios de sua irmã, e por elles mesmos lhe fez saber que procuraria ministrar-lhe, tão depressa as circumstancias do real thesouro o permitissem, os meios de que carecesse para poder sustentar, como era mister, o decoro inherente á sua pessoa.

D. Affonso V havia declarado em seu testamento, que não instituia sua filha herdeira em cousa alguma porque, segundo o costume do reino, tudo o que possuia o rei passava a seu filho primogenito, o qual tinha o encargo de manter e agasalhar todos os outros irmãos.36 O novo rei cumpriu cavalheirosamente as disposições testamentarias de seu pae, como mostraremos, e se não o fez logo é porque lhe foi totalmente impossivel fazel-o. A nobreza estava senhora absoluta de Portugal inteiro; quasi que todos os rendimentos do estado eram absorvidos por ella; taes haviam sido as doações, tenças e moradias concedidas por D. Affonso V. De seu filho pode-se dizer com justificada rasão, que herdou de seu pae unica e simplesmente, as estradas de Portugal.

Antes poucos dias de D. João subir ao throno, nasceu-lhe um filho illegitimo, D. Jorge de Lencastre, de D. Anna de Mendonça, mulher muito fidalga, e moça formosa de mui nobre geração, diz Garcia de Rezende.37 Os primeiros vagidos de D. Jorge despertaram logo no coração de D. João II aquelle intenso amor que mais tarde o levaram a tentar legitimal-o, para lhe poder succeder no throno, o que não se chegou a realisar pela resistencia tenacissima que a isso oppoz a rainha D. Leonor.

Por escusar desgostos caseiros--escreveu fr. Luiz de Souza,--determinou (el-rei) tirar diante dos olhos o Principe. Este meio de tirar deante dos olhos para evitar desgostos caseiros é vulgar, diz o sr. Alberto Pimentel, em reis e vassallos. O que não é vulgar é encontrarem os bastardos de uns e outros, educadora tão carinhosa e meiga como a Princeza Santa Joanna, que no mosteiro de Aveiro recebeu e educou o sobrinho.38

O pedido de D. João II para que o futuro Mestre de S. Thiago fosse educado no convento de Jesus, foi feito a D. Joanna por o então Provincial dos Dominicos e que em tempo fôra tambem confessor de el-rei seu pae. Obtidas as licenças necessarias, mandou D. Joanna preparar-lhe aposentos por cima da casa da roda, para onde veio, não tendo ainda trez mezes, diz D. Bernarda Pinheiro, não trazendo em sua companhia ninguem mais do que a ama que lhe dava leite, mulher d'aqui natural.

Em 1485 desenvolveu-se de novo a peste em Aveiro, e D. Joanna viu-se obrigada a deixar o seu convento. Todos os seus biographos, incluindo mesmo D. Bernarda Pinheiro, affirmam que ella se retirou para o mosteiro das religiosas dominicas da cidade do Porto. Parece-nos que não dizem toda a verdade. Alli não havia nem nunca houve mosteiro algum de religiosas dominicas; alem d'isto, no archivo da camara de Coimbra existe uma carta autographa de D. Joanna, datada de 14 de janeiro d'aquelle anno, em que agradece aos vereadores d'aquella cidade a boa vontade que tinham ao seu serviço, e lhes offerece tambem a sua para com a cidade, na villa de Monte-mór (velho) para onde el-rei a mandara ir.39 De Monte-mór dirigiu-se a Alcobaça onde el-rei então estava, deixando comtudo alli seu sobrinho D. Jorge.

Diz-se geralmente que fôra o chamamento de D. João II que alli a levara, e a causa d'isto as negociações d'um projectado casamento com Ricardo III de Inglaterra. Todos os biographos de D. Joanna são concordes em que ella fosse pedida em casamento por differentes Principes da Europa, e bem assim nos successos milagrosos que foram a causa principal na sua opinião, d'elles, de se não chegarem a realisar.40

A historia séria, debaixo do ponto de vista humano, a historia, como no seculo XIX se escreve, e como diz o sr. Pinheiro Chagas, não acceita nem regeita estes factos milagrosos, passa-lhe de largo; por isso abster-nos-hemos de apreciar aquillo que em materia de tão alta transcendencia se não basear em documentos sobre cuja autenticidade não haja a maior duvida. Não existe documento algum, ou ainda mesmo qualquer referencia nos chronistas contemporaneos, por onde se prove que D. Joanna foi pedida em casamento.

Todos os escriptores que se occuparam de D. Joanna, e que foram muitos, principalmente os que escreveram anteriormente ao seculo XVIII, affirmam que Luiz XI e Carlos VIII, de França, Frederico VI, d'Allemanha, e Henrique VIII, de Inglaterra, a pretenderam para esposa. Aquellas affirmativas, em quanto a nós, baseam-se unica e simplesmente na tradição, mas na tradição adulterada pelo espirito dos chronistas monachaes, cujo fim principal era sempre referir só o bem, e admittir facilmente prodigios, de forma que na mór parte das chronicas regulares, como diz um dos mais brilhantes luminares que o episcopado portuguez tem tido,41 se destacam «tantos milagres absurdos em muitos casos para não dizer ridiculos, recebidos sem exame, abraçados com pouco credito do entendimento, propostos ou antes apregoados com mais boa fé e singeleza do que discripção42

Os biographos de D. Joanna sahidos com rarissimas excepções dos claustros, não podiam talvez deixar de cercar de successos milagrosos o vulto sympathico da filha de Affonso V, e é só assim que se explica a sua convicção, aliás na apparencia sincera, com que relatam factos, que de forma alguma podiam ter lugar, como são os do casamento com alguns d'aquelles monarchas. Seria demasiado longo, e até mesmo fastidioso, o rebater, n'esta parte, os biographos, cada um de per si, e mesmo porque todas as suas affirmativas estão compendiadas na Historia de S. Domingos, pelo classico e brilhante chronista d'esta ordem. Fr. Luiz de Sousa, seguiu é verdade, pela vereda dos mais chronistas, mas fel-o tão primorosamente, escreveu num estylo tão arrebatador, que a elle só podemos e devemos pedir as narrações dos factos de que nos estamos occupando e que temos de condemnar como absurdos.

Escreve fr. Luiz de Souza:

«Entraram n'esta conjuncção em Lisboa embaixadores de el-rei de França Ludovico Undecimo. Era a missão da embaixada, que el-rei houvesse por bem, que para mais firmeza de amor, e, paz, que entre as duas corôas havia, interviesse novo vinculo de sangue, contrahindo-se matrimonio entre a Princeza Dona Joanna, e o Delfim de França (tal é o titulo dos Principes d'aquelle reino). Não havia quem duvidasse em estar bem o negocio a el-rei D. Affonso seu pae, e ao reino, e á mesma Princesa; só ella, quando seu pae lho communicou para saber sua vontade, ficou dentro em sua alma com sobresalto, e desconsolação. Mas sem dar a entender o que sentia, desviou o tracto com rasões tão sabias, que el-rei ficou satisfeito d'ellas, e de sua tenção, não descontente. Disse, que o Principe Dom João seu irmão era moço, e enfermo; e parecia temeridade, em quanto não tinha edade para casar, nem disposição, e saude firme, desterrarem-n'a a ella para tão longe, sendo, como era herdeira e successora do reino; que se podia responder aos francezes com palavras geraes de boa amizade, e gosto do parentesco; porem differindo a resolução, e dando por causa os poucos annos do Delfim, que não eram mais de quinze, e tambem os d'ella; que havia mister ser mais crescida, e ter mais pratica do que lhe convinha saber para tal estado, e para em terras estranhas. Instou el-rei todavia, e porfiou, porque não tinha por acertado perder tal occasião. Mas emfim, considerando de vagar a resposta da Princeza, foi julgada por mais conveniente, e seguida por todos os do conselho.»

«Era rei dos romanos Miximiliano, filho do imperador Frederico, e da infanta D. Leonor, irmã de el-rei D. Affonso, diz fr. Luiz de Souza; como nascido de portugueza, e affeiçoado ao reino, desejou casar n'elle. Houve da sua parte muitas instancias, que a Princeza rebateu com seu valor, e emfim as desviou outro casamento, que se offereceu ao pretensor, e teve effeito com herança do senhorio de Borgonha e Flandres; porem, não tardaram outras que lhe deram maior cuidado. Estava herdado el-rei Carlos VIII, de França, para quem fôra pedida em vida de seu pae Luiz XI, como atraz escrevemos; pediu-a agora de novo. Pareceu a el-rei que convinha muito a seu reino a alliança, com tão poderoso principe para continuação da paz antiga, e segurança das navegações portuguezas.43

.........................

«Tinha-se feito rei, e senhor de Inglaterra, e conde Henrique de Rixemont, vencendo em batalha ao duque de Clucestra, Ricardo, que, contra elle injustamente se levantara. Presava-se de portuguez, porque trazia sua descendencia da casa real de Portugal. Tanto que se viu rei pacifico, desejou renovar o parentesco, e juntamente a paz e amizade, que seus antecessores tinham com este reino. Despacha embaixadores, offerece pazes com particularidades de importancia, e para firmeza pede a Princeza D. Joanna por mulher.»44

Com relação a todos estes projectos de casamento, cumpre-nos dizer, que não tiveram nem podiam ter lugar. A boa fé de fr. Luiz de Souza, foi illudida mais uma vez, com as narrações dos chronistas que o antecederam, e que por santa obediencia teve de seguir e imitar. D. Joanna não podia casar com nenhum d'aquelles principes, não só porque a polygamia não estava em pratica n'aquelles paizes, como tambem porque não podia ter por maridos homens que nem sequer haviam ainda nascido.

Luiz XI não pediu, nem podia pedir, a mão de D. Joanna para o Delfim, que depois foi Carlos VIII. Pelo que se deprehende da narração de fr. Luiz de Souza, este pedido deveria ter lugar antes da conquista de Arzilla (1471), época em que o Delfim ainda não era nascido, ou se o era já, poucos mezes contava ainda, não podendo por forma alguma ter quinze annos, como affirma o chronista, pois nasceu em 1470.45

Tambem não tem minimo fundamento a vinda a Lisboa n'aquella época de embaixadores de Luiz XI, porque o unico embaixador enviado por este monarcha a D. Affonso V, foi Ollivier Le Roux, e isto em 1485.46 Diz mais fr. Luiz de Souza, que Carlos VIII, já rei, pedira em casamento D. Joanna; poderia ser que assim fosse, porém, de taes negociações não resta memoria. Na Carta Patente de 6 de setembro de 1483, em que aquelle monarcha renova as antigas allianças e amisades que desde antigos tempos existiam entre Portugal e a França não ha a mais leve referencia com relação a este objecto.47 O que se torna completamente inadmissivel e chega até a tocar as raias do ridiculo, é a causa assentada por Souza de se não chegar a realisar o casamento. Diz que D. Joanna, respondeu a el-rei seu irmão, que consentia no matrimonio, se n'aquelle dia e hora, que tal consentimento dava, estivesse el-rei Carlos vivo; mas em caso, que fosse morto, houvesse sua alteza por bem deixal-a livre para em nenhum tempo mais se lhes fallar em mudanças de estado.

Deu-se el-rei por satisfeito, contentou o embaixador com palavras de matrimonio, como quem ignorava o que a sua irmã fôra manifestado. Mas não passaram muitos dias, que lhe viesse nova de ser morto o que já tinha por cunhado; e que acabara de morte subita, e antes do termo, em que a Santa dera seu consentimento.»48

Fr. Luiz de Souza foi aqui o verdadeiro chronista monastico; julgou ser ensejo de arranjar um milagre, e não recuou perante cousa alguma; cremos mesmo que elle conhecia sufficientemente a historia de França e que sabia muito bem que Carlos VIII sobrevivera a D. Joanna, pois, fallecera só em 149849 mas narrou o facto d'aquella forma, não só porque se tornava necessario povoar a historia de successos milagrosos, não talvez por convicção propria, mas sim por lho haverem ordenado, porque elle, como diz o douto prelado por nós já citado, «escreveu porque o mandaram escrever, e escreveu o que lhe mandaram.50

Maximiliano tambem não podia pedir a mão de D. Joanna, pois havia já casado em 1477 com Maria de Borgonha; Henrique VII esse podia pretender desposal-a, pois só veio a casar em 1486 com Izabel York, o que não podia era morrer a fim de impedir de se realisar o casamento, como quer fr. Luiz de Souza, que faz dizer D. Joanna a D. João II «que era morto e enterrado o mesmo para quem a buscava»51 pois só conseguiu passar d'esta para melhor vida em 22 de abril de 1509. Estes factos foram já combatidos por Caetano de Souza que, dizendo que «elles padecem muito na verdade da historia,» demonstra com dados irrecusaveis que não podiam ter lugar.52

Fr. Antonio da Silveira,53 tentou corrigir os erros de Souza e dos escriptores que o precederam historiando a vida de D. Joanna, os quaes elle proprio confessa que cahiram em não pequenos descuidos, mas fel-o de forma, que não podem tambem as suas affirmativas merecer credito algum, pois não nos apresenta um unico documento em que se baseie. Entre os erros que tenta corrigir, conta-se o do casamento com o rei da Inglaterra, que elle affirma ser Ricardo III e não Henrique VII. Com Ricardo III não havia é verdade a inverosimilhança que se dava com aquelle, por seu fallecimento ter lugar em 1485, mas ainda assim não podemos acceitar a emenda, pois não ha nada que a auctorise. Na primeira e unica collecção diplomatica que possuiamos54, ha uma leve referencia a este casamento, mas basea-se tambem apenas num só documento, se documento se pode chamar a um manuscripto avulso, aliás contemporaneo que pouco ou nenhum valor pode ter attendendo-se á sua ignota procedencia. Parece-nos que se o visconde de Santarem reflectisse por um momento no elogio que a Ricardo III faz Dameão de Goes,55 não faria menção de tal casamento, pois é mais que provavel, dado o caso de haver aquelle projecto, que este chronista não fallasse tão desabridamente de um monarcha, que simplesmente por uma circumstancia inesperada, deixou de desposar uma princeza portugueza.

Quanto a nós a causa do chamamento de D. Joanna a Alcobaça, não foi nenhum projecto de casamento, mas sim o desejo que D. João II tinha de dar cumprimento á promessa que havia feito por occasião da morte de seu pae de lhe proporcionar meios condignos da sua alta posição. Por carta datada d'alli, de 19 de agosto de 1485, concedeu-lhe a villa de Aveiro, com todos os seus terrenos, e todas as rendas e direitos reaes, e as dizimas do pescado nova e velha, com a cisa e imposição do sal da mesma villa e dos lugares de Mortágua, Eixo, Requeixo, Paus, Ois, Quinta de Villarinho e de Bellazaima, com todos os seus reguengos.56 D. João II fez só agora esta concessão por lhe ser impossivel fazel-a antes, pois estas terras estavam em poder do conde de Faro a quem haviam sido concedidas por D. Affonso V, por carta passada em Salvaterra em 20 de maio de 1467. A conspiração do duque de Bragança, em que o conde era um dos conjurados, é que as fez voltar novamente á corôa.

Não foi longa a demora de D. Joanna em Alcobaça; regressando a Monte-mór, passou a Coimbra, indo-se aposentar conjuntamente com seu sobrinho nos paços que D. Izabel edificara junto do mosteiro de Santa Clara. Nos primeiros dias de fevereiro de 1486, informada de que a peste havia novamente abandonado Aveiro regressou ao convento de Jesus, tendo por essa occasião por parte dos habitantes da villa, que sairam a esperal-a a grande distancia, uma recepção brilhantissima.

D. Joanna logo que se viu senhora de todas estas terras, tractou de empregar o rendimento d'ellas, isto é, o que lhe sobrava dos soccorros que prodigamente distribuia pelos necessitados, hospitaes e egrejas pobres, em augmentar consideravelmente o mosteiro de Jesus. Diz D. Bernarda Pinheiro que as idéas de D. Joanna, com relação a esta obra, eram mandar construir com a maior grandeza, egreja, casa do capitulo, dormitorio e mais officinas, para o lado do mar, por lhe assegurarem que, collocado d'esta forma o convento, ficava muito mais ventilado e sadio. Chegou mesmo a mandar abrir os alicerces para a nova egreja, para o que obteve licença do bispo de Coimbra D. Jorge d'Almeida, porém, a doença que a levou ao tumulo, não lhe permittiu levar a cabo tão desejado commettimento.

Depois do seu regresso de Alcobaça, D. Joanna começou a soffrer horrorosamente, até que em dezembro de 1489 cahiu prostrada pela doença que a arrastou ao tumulo. É tradicção geralmente seguida, que a causa principal e unica da molestia foi veneno que uma dona que ella expultura da villa «que em poder de fazenda, era do melhor do lugar» pelo seu devasso comportamento, lhe ministrou n'um copo d'agua, durante o trajecto d'aquella viagem. Diz D. Bernarda Pinheiro que pelo motivo d'ella desejar, por causa da salvação das almas, evitar erros e peccados, em especial nos clerigos e mulheres de má vida, lhe foi ordenada e dada a morte. Nada conseguiu debelar a doença, nem lagrimas nem supplicas do povo, que n'ella via o seu mais desvelado protector, nem tão pouco os esforços desesperados da sciencia e as preces do clero de Portugal inteiro obtiveram uma melhora sequer; o mal recrudescia sempre.

D. João II enviou-lhe o seu physico-mór mestre Rodrigo, e sua thia D. Filippa, acompanhada de D. Mecia de Alvarenga, e mais duas religiosas veio d'Odivellas, afim de velar junto d'ella. Accudiram tambem, diz fr. Luiz de Souza, o arcebispo de Braga, D. Jorge da Costa, e o bispo de Coimbra, D. Jorge de Almeida, e o do Porto, D. João d'Azevedo. Da visita d'estes prelados, porque tinham licença para entrar na clausura, mostrou agradar-se muito. Fallavam-lhe de Deus, e ella, como se sentia acabar, não consentia que de outra cousa se tractasse em sua presença.57

Na noute de 19 de março, dictou á madre Catharina da Silva o seu testamento, em que institue por seu herdeiro o mosteiro de Jesus e dá liberdade a alguns escravos com que seu pae a presenteara quando regressou da conquista d'Arzilla.58 Escripta que foi a sua ultima e derradeira vontade, assignou-o e rubricou-o por seu proprio punho, e lacrando-o, sellou-o com um sêllo d'ouro que, segundo diz D. Bernarda Pinheiro, fôra da rainha sua mãe, objecto com que ella costumava sempre sellar as suas cartas e cousas de mais substancia.

Em 6 de maio pediu para que se celebrasse missa na sua propria camara, e havendo em seguida recebido todos os sacramentos, mandou que levassem á sua presença seu sobrinho D. Jorge, a quem, depois de haver abraçado com effusão, disse:--«Filho, peço-vos muito que vos lembreis sempre, que vieste para esta casa de tres mezes, e n'ella vos criei, chorando e cantando, vestida de burel; tende sempre d'ella lembrança, porque ella é a minha alma, e tambem o são estas madres, que vos ajudaram a criar, como se cada uma fôra vossa mãe.»59

Resignada e feliz esperou a morte. Havendo-se despedido de todas as religiosas, a quem pediu perdão de toda e qualquer offensa que d'ella tivessem, pediu á Prioreza D. Maria de Athayde, que lhe mandasse dar sepultura no côro de baixo, pois os seus maiores desejos era dormir o eterno somno junto d'aquellas que em vida lhe fizeram tão agradavel companhia. Na noute de 11 de maio, reunidas que foram em volta do seu leito a communidade, os bispos do Porto e Coimbra, e o prior dos dominicos fr. João Dias, pediu que a acompanhassem com as orações e canticos com que a egreja se despede de seus filhos no momento final. «Chegava-se a derradeira hora, diz fr. Luiz de Souza, e eram quasi duas horas depois da meia noute. Disse então baixo, digam a ladainha: começou o prior em voz alta, respondiam as madres, e seu companheiro; quando chegaram a dizer: Omnes sanctis Innocentes, abriu os olhos e levantando-os por um pequeno espaço ao céu, despediu a innocente alma em companhia dos sanctos innocentes.»60

O dobre plangente dos sinos do mosteiro a que se seguiram os do convento de Nossa Senhora da Mizericordia, e os da matriz, S. Miguel,--annunciaram logo ao romper d'alva, que D. Joanna dormia já o eterno somno. A noticia propalou-se rapida, a ponto de em poucos momentos a egreja de Jesus estar apinhada de fieis; a povoação inteira, despertada por tão cruel nova, correu presurosa ali, afim de se certificar da veracidade do acontecimento, tão irremediavel e immensa era a perda. «Na villa, diz um bispo do Porto, chegavam ao céu os prantos, e procuravam chegar as lagrimas; como todo aquelle povo ficou desamparado, todo ficou choroso; clamavam ao céu na sua saudade e na sua perda, porque no céu estava o alivio da sua perda, e a causa da sua saudade.»61

Amortalhado que foi o cadaver com o habito dominico, collocaram-o algumas religiosas sobre um estrado levantado no meio da cella, convertida em camara ardente, onde se conservou até ao dia seguinte. Feitos os officios funebres na egreja do convento, pelas religiosas de S. Domingos a que assistiu todo o clero da villa e lugares circumvisinhos, bem como um grande concurso de fieis, entraram no convento os bispos do Porto e Coimbra, trazendo vestidas, diz D. Bernarda Pinheiro, grandes lobas e capelos de dó, e quatro religiosos dominicos, dos mais antigos e qualificados, que foram os que levaram o cadaver. Quando o prestito funebre se dirigia ao côro de baixo, diz a tradicção que, na occasião de atravessar por entre os canteiros que D. Joanna cultivava por suas proprias mãos, as flôres cahiram murchas sobre a haste, exprimindo tambem assim a sua saudade. A sepultura, cujo lugar havia sido por ella designado em vida, foi aberta junto dos degraus do commungatorio.

Em 1577, a prioreza D. Jeronima de Castro, mandou abrir a sepultura e trasladar os restos mortaes de D. Joanna, d'onde haviam sido sepultados, para um caixão de ebano em forma de tumulo, marchetado de bronze dourado. O caixão era resguardado por uma balaustrada do mesmo páu, e coberto por uma rica tapeçaria, dadiva da duqueza de Caminha D. Anna Manrique de Lara.

As religiosas de Jesus, e bem assim o povo de Aveiro que, desde a morte de D. Joanna a appelidaram sempre de Princeza Santa, e, confiados na sua intercessão, a ella recorriam nos trances afflictivos da vida, pediram ao Papa em 1626 que d'ella se podesse resar, e que o seu nome fosse inscripto no catalogo dos santos.

Em setembro de 1626 requereu a camara da villa de Aveiro, representada pelos vereadores Antonio da Cruz Botelho, Raphael de Figueiredo e Manuel de Almeida, e as religiosas do convento de Jesus, representadas tambem pela sua prioreza Soror Marianna de Belem, ao bispo de Coimbra D. João Manuel, afim de se procederem ás justificações necessarias da «virtuosa vida e santa morte da Princeza D. Joanna, filha de el-rei D. Affonso» afim de se obter a sua beatificação e canonisação. D. João Manuel, por despacho de 27 do mesmo mez e anno, ordenou ao provisor do bispado o dr. Bernardo da Fonseca Saraiva, viesse pessoalmente a Aveiro e désse andamento ao processo requerido; que levado a final, o mesmo prelado mandou subir á presença do Papa Urbano VIII, por sentença de 8 de outubro de 1627.

Por causas hoje desconhecidas, só passados sessenta e dois annos, é que de novo se tractou de obter a beatificação de D. Joanna. Em 1676, sendo prioresa do convento de Jesus D. Filippa de Menezes, fr. Manuel Mascarenhas, prior do convento de S. Domingos, indo pessoalmente a Roma, conseguiu que se expedissem as bulas para o bispo de Coimbra, então D. João de Mello, vir a Aveiro examinar os restos mortaes da Santa Princeza, e o que havia de verdadeiro nos milagres que se diziam obtidos por intercessão sua. D. João de Mello, por provisão de 11 de março de 1689, delegou todos os seus poderes no promotor do bispado o dr. Manuel Spinola de Vasconcellos, e notario apostolico Francisco Alvares da Costa, os quaes vieram aqui, e depois de haverem inquerido algumas testemunhas, e visto os cabellos que cortaram a D. Joanna quando lhe lançaram o habito, e bem assim o escapulario e a camisa com que falleceu, que então, e ainda hoje se guarda no convento com a maior veneração, examinou tambem os seus restos mortaes.

Aberto o tumulo, em 29 de junho d'aquelle anno, onde se guardavam tão venerandas reliquias, na presença de todas as religiosas, e dos superiores dos tres conventos de frades d'aqui, fr. Manuel Mascarenhas, fr. João das Chagas, e fr. Ignacio de Espozende, e dos priores das collegiadas de Nossa Senhora da Oliveira, e de S. Miguel, D. Pedro de Souza e fr. Thomé de Sequeira, foi verificado pelo dr. Manuel Spinola de Vasconcellos, que envoltos em toalha de linho estavam os ossos (completos) d'um corpo humano que pelo auto que se achava junto se julgaram ser o de D. Joanna.

Enviados, finalmente, todos os processos a Roma, a instancias de el-rei D. Pedro II, e alguns grandes de Portugal, o Papa Innocencio XII beatificou solemnemente D. Joanna, por bulla de 4 de abril de 1693, designando o dia 12 de maio para a sua festividade.62

Por decreto da congregação dos ritos, de 9 de julho de 1694, ordenou-se que se rezasse da Beata Joanna em todo o reino de Portugal e suas conquistas; debaixo do rito semi-duplex; e por outro decreto da mesma congregação de 6 de abril de 1715 se concederam lições e oração para o seu officio.

Poucos annos depois de ter lugar a beatificação, o prior do convento de Nossa Senhora da Mizericordia (S. Domingos) fr. Pedro Monteiro, obteve de el-rei D. Pedro II os meios necessarios para a construcção dum tumulo mais sumptuoso do que aquelle em que se guardavam as santas reliquias.

Foi incumbido da obra o architecto da Casa Real João Antunes,63 que lhe deu principio em 1699. É obra digna de immortalisar um artista distincto, e é esta a rasão porque se tem attribuido a estranhos, chegando-se a affirmar com convicção que ella viera da Italia. O seu custo foi de 4:800$000 réis. Fr. Lucas de Santa Catharina descreve-o assim: «É o tumulo quadrado e alteroso, lavrado de jaspes finissimos com variedade de embutidos primorosos, e em cada remate um anjo; sobre o tumulo se vêem as Quinas Portuguezas, e na face a corôa de espinhos, que a Santa escolheu para gloriosa empreza, e teve por estimavel troca. Toda a obra respira magestade, e saudosas lembranças.» A descripção nada tem de exagerado; é fiel, tanto quanto é possivel.