N'um d'esses passeios, n'uma abrazada sexta-feira, com o sol ainda
alto,
Gonçalo atravessava o logarejo da Velleda, no caminho de
Canta-Pedra. Ao
fim dos casebres que se apertam á orla da estrada alveja,
muito caiada,
n'um terreiro defronte da Egreja, a taverna famosa "do Pintainho", onde
os caramanchões do quintal e a nomeada do coelho guizado
attrahem vasto
povo nos dias da feira da
Velleda.
N'essa manhã o
Titó, depois d'uma
madrugada ás perdizes, em Valverde, apparecera na Torre para
almoçar,
urrando, d'esfomeado. Era sexta-feira—a Rosa preparára uma
pescada com
tomates, depois um bacalhau assado, formidaveis. E Gonçalo,
toda a tarde
torturado com sêde, mais resequido pela poeira da estrada,
parou
avidamente deante do portão da venda, gritou pelo Pintainho.
—Oh meu Fidalgo!...
—Oh Pintainho! depressa! Uma sangria! Uma grande sangria bem fresca,
que morro...
O Pintainho, velhote roliço de cabello amarello,
não tardou com o copo
appetitoso e fundo onde boiava, na espumasinha do assucar, uma rodella
de limão. E Gonçalo saboreava a sangria com
ineffavel delicia—quando da
janella terrea da venda partiu um assobio lento, fino e trinado, como
os
dos arrieiros que animam as bestas a beber nos riachos.
Gonçalo deteve o
copo, varado. Á janella assomára um
latagão airoso, de face clara e
suissas louras, que, com os punhos sobre o peitoril e a
cabeça
levantada, n'um descarado modo de pimponice e desafio, o fitava
atrevidamente. E n'um lampejo o Fidalgo reconheceu aquelle
caçador que
já uma tarde, no logar de Nacejas, ao pé da
Fabrica de vidros, o mirára
com arrogancia, lhe raspára a espingarda pela perna, e ainda
depois,
parado sob a varanda d'uma rapariga
de
jaqué azul, lhe
acenára
chasqueando emquanto elle descia a ladeira... Era esse! Como se
não
percebesse o ultraje—Gonçalo bebeu apressadamente a
sangria, atirou uma
placa ao pobre Pintainho enfiado, e picou a fina egoa. Mas
então da
janella rolou uma risadinha, cacarejada e troçante, que o
colheu pelas
costas como o estalo d'uma vergasta. Gonçalo soltou a
galope. E adiante,
sopeando a egoa no refugio d'uma azinhaga, pensava, ainda
tremulo:—«Quem será o desavergonhado?... E que
lhe fiz eu, Santo Deus?
que lhe fiz eu?...» Ao mesmo tempo todo o seu ser se
desesperava contra
aquelle desgraçado
mêdo,
encolhimento da carne,
arrepio da pelle, que
sempre, ante um perigo, uma ameaça, um vulto surdindo d'uma
sombra, o
estonteava, o impellia furiosamente a abalar, a escapar! Por que
á sua
alma, Deus louvado, não faltava arrojo! Mas era o corpo, o
traiçoeiro
corpo, que n'um arrepio, n'um espanto, fugia, se safava, arrastando a
alma—emquanto dentro a alma bravejava!
Entrou na Torre, mortificado, invejando a afouteza dos seus
moços da
quinta, remoendo um rancor soturno contra aquelle bruto de suissas
louras, que certamente denunciaria ao Cavalleiro e enterraria n'uma
enxovia!—Mas, logo no corredor, o Bento lhe debandou os pensamentos,
apparecendo
com
uma carta «que trouxera um moço da
Feitosa...»
—Da
Feitosa?
—Sim senhor, da quinta do snr. Sanches Lucena, que Deus haja. Diz que
vinha de mandado das senhoras...
—Das senhoras!... Que senhoras?
Sem tarja de luto, a carta não era da bella D. Anna... Mas
era de D.
Maria Mendonça, que assignava—«prima muito amiga,
Maria Severim.» N'um
relance a leu, colhido logo por esta surpreza nova, distrahido da venda
do Pintainho e da affronta:—«Meu querido Primo. Estou ha
tres dias aqui
com a minha amiga Annica, e como passou o mez inteiro do nojo e ella
já
póde sahir (e até precisa porque tem andado
fraca) eu aproveito a
occasião para percorrer estes arredores que dizem
tão bonitos, e pouco
conheço. Tencionamos no Domingo visitar Santa Maria de
Craquêde, onde
estão os tumulos dos antigos tios Ramires. Que
impressão me vae
fazer!... Mas, ao que parece, além dos tumulos do claustro,
ha outros,
ainda mais antigos, que foram arrombados no tempo dos Francezes, e que
ficam n'um subterraneo, onde se não póde entrar
sem licença e sem que
tragam a chave. Peço pois, querido Primo, que dê
as suas ordens para que
no Domingo possamos descer ao subterraneo, que
todos
affiançam muito
interessante, por que ainda lá restam ossos e armas. Se na
Torre
houvesse uma senhora, eu mesma iria, para lhe fazer este pedido... Mas
não se póde visitar um solteirão
tão perigoso. Case depressa!...
D'Oliveira boas noticias. Creia-me sempre, etc.»
Gonçalo encarou o Bento—que esperava, interessado com
aquelle assombro
do Snr. Doutor:
—Tu sabes se em Santa Maria de Craquêde ha outros tumulos,
n'um
subterraneo?
O assombro então saltou para o Bento:
—N'um subterraneo?... Tumulos?
—Sim, homem! Além dos que estão no claustro
parece que ha outros, mais
antigos, debaixo da terra... Eu nunca vi, não me lembro.
Tambem ha que
annos não entro em Santa Maria de Craquêde! Desde
pequeno!... Tu não
sabes?
O Bento encolheu os hombros.
—E a Rosa não saberá?
O Bento abanou a cabeça, duvidando.
—Tambem vossês nunca sabem nada! Bem! Amanhã
cêdo corre a Santa Maria
de Craquêde e pergunta na Egreja, ao sachristão,
se existe esse
subterraneo. Se existir que o mostre no Domingo a umas senhoras,
á
snr.
a D. Anna Lucena, e á snr.
a
D. Maria
Mendonça, minha prima
Maria... E que tenha tudo varrido, tudo decente!
Mas, repassando a carta, reparou n'um
Post-Scriptum
em lettra mais
miudinha, ao canto da folha:—«No Domingo, não se
esqueça, a visita será
entre as cinco e cinco e meia da tarde!»
Gonçalo pensou:—«Será uma
entrevista?» E na livraria, atirando para uma
cadeira o chapeu e o chicote, assentou que era uma entrevista, bem
clara, bem marcada! E talvez nem existisse esse subterraneo—e Maria
Mendonça, com a sua tortuosa esperteza, o inventasse, como
natural
motivo de lhe escrever, de lhe annunciar que no Domingo, ás
cinco e
meia, a bella D. Anna e os seus duzentos contos o esperavam em Santa
Maria de Craquêde. Mas então a prima Maria
não gracejára, em Oliveira?
Gostava d'elle, realmente, essa D. Anna?... E uma
emoção, uma
curiosidade voluptuosa atravessaram Gonçalo á
idéa de que tão formosa
mulher o desejava.—Ah! mas certamente o desejava para marido, por que
se o appetecesse para amante não se soccorria dos
serviços da D. Maria
Mendonça—nem a prima Maria, apesar de tão sabuja
com as amigas ricas,
os prestaria assim descaradamente como uma alcoviteira de Comedia! E
caramba! casar com a D. Anna—não!
E subitamente anciou por conhecer a vida da D. Anna! Aturára
ella tantos
annos, em severa fidelidade, o velho Sanches? Sim, talvez, na
Feitosa,
na solidão
dos
grandes muros da
Feitosa—por
que nunca
sobre ella
esvoaçára um rumor, em terriolas tão
gulosas de rumores malignos. Mas em
Lisboa?... Esses «amigos estimabilissimos» de que
se ufanava o pobre
Sanches, o D. João não sei quê, o
pomposo Arronches Manrique, o Philippe
Lourençal com o seu cornetim?... Algum de certo a
attacára—talvez o D.
João, por dever tradicional do nome. E ella?... Quem o
informaria sobre
a historia sentimental da D. Anna?
Depois, ao jantar, de repente pensou no Gouveia. Uma irmã do
Gouveia,
casada em Lisboa com certo Cerqueira (arranjador de Magicas e empregado
na Misericordia) costumava mandar ao mano Administrador relatorios
intimos sobre todas as pessoas conhecidas d'Oliveira, de Villa-Clara,
que se demoravam em Lisboa—e que interessavam o mano ou por Politica,
ou por mexeriquice. E de certo, pela irmã Cerqueira, o
querido Gouveia
conhecia miudamente os annaes da D. Anna, durante os seus invernos de
Lisboa, nas delicias da sua «roda fina».
N'essa noite, porém, o Administrador não
apparecera na Assembleia. E
Gonçalo, desconsolado, recolhia á Torre—quando
no Largo do Chafariz o
encontrou com o Videirinha, ambos sentados n'um banco, sob as olaias
escuras.
—Chegou lindamente! exclamou o Gouveia. Estavamos
mesmo a marchar para
minha casa, tomar chá. Quer vossê, tambem?...
Vossê costuma gostar das
minhas torradinhas.
O Fidalgo acceitou—apezar de cançado. E logo pela
Calçadinha, enlaçando
o braço do Administrador, contou que recebera uma carta de
Lisboa, d'um
amigo, com uma nova estupenda... O que?—O casamento da D. Anna Lucena.
O Gouveia parou, assombrado, atirando o côco para a nuca:
—Com quem?!
Gonçalo que inventára a carta—inventou o noivo:
—Com um vago parente meu, ao que parece, um D. João Pedroso
ou da
Pedrosa. Muitas vezes o Sanches Lucena me fallou n'elle... Conviviam
muito em Lisboa...
Gouveia bateu com a ponta da bengala nas pedras:
—Não póde ser!... Que disparate! A D. Anna
não ajustava casamento sete
semanas depois de lhe morrer o marido... Olhe que o Lucena morreu no
meado de Julho, homem! Ainda nem teve tempo de se acostumar
á sepultura!
—Sim, com effeito! murmurou Gonçalo.
E sorria, sob uma doce baforada de vaidade—pensando que, sete semanas
depois de viuva, ella,
sem
resistir, calcando decencia e luto, lhe
offerecia a elle uma entrevista nas ruinas de Craquêde.
A mentira de resto, apesar de disparatada,
aproveitára—porque, depois
de subirem á saleta verde do Administrador, o espanto
recomeçou.
Videirinha esfregava as mãos, divertido:
—Oh snr. Dr., olhe que tinha graça!... Se a snr.
a
D. Anna,
depois
d'apanhar os duzentos contos do velhote, logo passadas semanas,
zás, se
engancha com um rapazote novo...
Não, não!... Gonçalo agora, reparando,
tambem considerava despropositada
a noticia do casamento, assim com o pobre Sanches ainda
môrno...
—Naturalmente entre ella e esse D. João havia namorico,
olhadella...
Por isso imaginaram. Com effeito, alguem me contou, ha tempos, que o
tal
D. João se atirava valentemente, como cumpre a um D.
João, e que ella...
—Mentira! atalhou o Administrador, debruçado sobre a
chaminé do
candieiro para accender o cigarro. Mentira! Sei perfeitamente, e por
excellente canal... Em fim, sei por minha irmã! Nunca, em
Lisboa, a D.
Anna deu azo a que se rosnasse. Muito séria, muitissimo
séria. Está
claro, não faltou por lá maganão que
lhe arrastasse a aza languida...
Talvez esse D. João, ou outro amigo do marido, segundo a boa
lei
natural. Mas ella, nada! Nem ôlho de lado!
Esposa romana, meu
amigo, e
dos bons tempos romanos!
Gonçalo, enterrado no camapé, torcia lentamente o
bigode, regalado,
recolhendo as revelações. E o Gouveia, no meio da
sala, com um gesto
convencido e superior:
—Nem admira! Estas mulheres muito formosas são insensiveis.
Bellos
marmores, mas frios marmores... Não, Gonçalinho,
lá para o sentimento, e
para a alma, e mesmo para o resto, venham as mulheres pequeninas,
magrinhas, escurinhas! Essas sim!... Mas os grandes
mulherões brancos,
do genero Venus, só para vista, só para museo.
Videirinha arriscou uma duvida:
—Uma senhora tão bonita como a snr.
a
D. Anna, e com
aquelle sangue,
assim casada com um velhote...
—Ha mulheres que gostam de velhotes por que ellas mesmas teem
sentimentos velhotes!—declarou o Gouveia, de dedo erguido, com immensa
auctoridade e immensa philosophia.
Mas a curiosidade de Gonçalo não se contentava. E
na
Feitosa? Nunca se
rosnára d'alguma aventura escondida? Parece que com o Dr.
Julio...
De novo o Fidalgo inventava. De novo Gouveia, repelliu a
«mentira»:
—Nem na
Feitosa, nem em Oliveira, nem em
Lisboa... De
resto,
é o que
lhe digo, Gonçalo Mendes. Mulher de marmore!
Depois, saudando, em submissa admiração:
—Mas, como marmore... Vossês, meninos, não
imaginam a belleza d'aquella
mulher decotada!
Gonçalo pasmou:
—E onde a viu vossê decotada?
—Onde a vi decotada? Em Lisboa, n'um baile do Paço...
Até foi
justamente o Lucena que me arranjou o convite para o Paço.
Lá me
espanejei, de calção... Uma semsaboria. E mesmo
uma vergonha, toda
aquella turba acavallada por cima dos buffetes, aos berros, a agarrar
furiosamente pedaços de perú...
—Mas então, a D. Anna?
—Pois a D. Anna uma belleza! Vossês não
imaginam!... Santo nome de
Deus! que hombros! que braços! que peito! E a brancura, a
perfeição...
De endoidecer! Ao principio, como havia muita gente, e ella estava para
um canto, acanhadota, não fez
sensação. Mas depois lá a descobriram.
E
eram correrias, magotes embasbacados... E «quem
será?» E «que encanto!»
Todo o mundo perdidinho, até o Rei!
E um momento os tres homens emmudeceram na impressão do
formoso corpo
evocado, que entre elles surgia, quasi despido, inundando com o
explendor da sua brancura a modesta sala mal alumiada.
Por fim
Videirinha acercou a cadeira, em confidencia, para fornecer tambem a
sua
informação:
—Pois, por mim, o que posso affirmar é que a snr.
a
D. Anna
é uma
mulher muito aceada, muito lavada...
E como os outros s'espantavam, rindo, de uma certeza tão
intima—Videirinha contou que todas as semanas apparecia um
moço da
Feitosa, na botica do Pires, a comprar tres e
quatro garrafas de agua
de Colonia portugueza, da receita do Pires.
—Até o Pires dizia sempre, a esfregar as mãos,
que na Feitosa regavam
as terras com agua de Colonia. Depois é que soubemos pela
creada... A
snr.
a D. Anna toma todos os dias um grande
banho, que não
é só para
lavar, mas para prazer. Fica uma hora dentro da tina. Até
lê o jornal
dentro da tina. E em cada banho, zás, meia garrafa d'agua de
Colonia...
Já é luxo!
Então Gonçalo sentiu como um aborrecimento de
todas aquellas revelações
do Administrador, do ajudante da Pharmacia, sobre os decotes e as
lavagens da linda mulher que o esperava entre os tumulos dos Ramires
seculares. Saccudiu o jornal com que se abanava, exclamou:
—Bem! E passando a cantiga mais séria... Oh
Gouveia,
vossê que tem
sabido do Dr. Julio? O homem trabalha na eleição?
A creada entrára com a bandeja do chá. E em torno
da mesa, trincando as
torradas famosas, conversaram sobre a Eleição,
sobre os informes dos
Regedores, sobre a reserva do Rio-Manso—e sobre o Dr. Julio, que
Videirinha encontrára nos Bravaes pedinchando votos pelas
portas,
acompanhado por um môço com a machina
photographica ás costas.
Depois do chá Gonçalo, cançado e
já provido «de
revelações», accendeu o
charuto para recolher á Torre.
—Vossê não acompanha, Videirinha?
—Hoje, Snr. Dr., não posso. Parto de madrugada para
Oliveira, na
diligencia.
—Que diabo vae vossê fazer a Oliveira?
—Por causa d'uns sapatos de praia e d'um fato de banho lá
da minha
patrôa, da D. Josepha Pires... Tenho de os trocar nos
Emilios, levar as
medidas.
Gonçalo ergueu os braços, desolado:
—Ora vejam este paiz! Um grande artista, como o Videirinha, a carregar
para Oliveira com os sapatos de banho da patrôa Pires!... Oh
Gouveia!
quando eu fôr deputado precisamos arranjar um bom logar para
o
Videirinha, no Governo Civil. Um logar facil e com vagares, para elle
não esquecer o violão!
Videirinha córou de gôsto e de
esperança—correndo a despendurar do
cabide o chapéo do Fidalgo.
Pela estrada da Torre, os pensamentos de Gonçalo
esvoaçaram logo, com
irresistida tentação, para D. Anna—para os seus
decotes, para os
languidos banhos em que se esquecia lendo o jornal. Por fim, que
diabo!... Essa D. Anna assim tão honesta, tão
perfumada, tão
explendidamente bella, só apresentava, mesmo como esposa, um
feio
senão—o papá carniceiro. E
a voz tambem—a voz
que tanto o arripiára
na Bica-Santa... Mas o Mendonça assegurava que aquelle
timbre rolante e
gordo, na intimidade, se abatia, liso e quasi doce... Depois, mezes de
convivencia habituam ás vozes mais desagradaveis—e elle
mesmo, agora,
nem percebia quanto o Manoel Duarte era fanhoso! Não! mancha
teimosa,
realmente, só o pae carniceiro. Mas n'esta Humanidade
nascida toda d'um
só homem, quem, entre os seus milhares d'avós
até Adão, não tem algum
avô carniceiro? Elle, bom fidalgo, d'uma casa de Reis d'onde
Dynastias
irradiavam, certamente, escarafunchando o Passado, toparia com o
Ramires
carniceiro. E que o carniceiro avultasse logo na primeira
geração, n'um
talho ainda afreguezado, ou que apenas s'esfumasse, atravez d'espessos
seculos, entre os trigesimos avós—lá estava, com
a faca, e o cepo, e as
postas de carne, e as nodoas de sangue no braço suado!...
E este pensamento não o abandonou até
á Torre—nem ainda depois, á
janella do quarto, acabando o charuto, escutando o cantar dos ralos.
Já
mesmo se deitára, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda
sentia que os
seus passos impacientes se embrenhavam para traz, para o escuro passado
da sua Casa, por entre a emmaranhada Historia, procurando o
carniceiro... Era já para além dos confins do
Imperio Visigodo, onde
reinava com um globo d'ouro na mão o seu barbudo
avô Recesvinto.
Esfalfado, arquejando, transpozera as cidades cultas, povoadas de
homens
cultos—penetrára nas florestas que o mastodonte ainda
sulcava. Entre a
humida espessura já crusára vagos Ramires, que
carregavam, grunhindo,
rezes mortas, molhos de lenha. Outros surdiam de tocas fumarentas,
arreganhando agudos dentes esverdeados para sorrir ao neto que passava.
Depois por tristes ermos, sob tristes silencios, chegára a
uma lagôa
ennevoada. E á beira da agoa limosa, entre os canaviaes, um
homem
monstruoso, pelludo como uma féra, agachado no lodo, partia
a rijos
golpes, com um machado de pedra, postas de carne humana. Era um
Ramires.
No ceu cinzento voava o Açor negro. E logo, d'entre a
neblina da lagôa,
elle acenava para Santa Maria de Craquêde, para a formosa e
perfumada D.
Anna, bradando por cima dos Imperios e dos Tempos:—«Achei o
meu avô
carniceiro!»
No Domingo, Gonçalo acordou com uma «esperta
ideia!» Não correria a
Santa Maria de Craquêde com uma pontualidade sofrega,
ás cinco horas (as
cinco horas marcadas no
Post-Scriptum da prima
Maria)—mostrando o seu
alvoroço em encontrar a tão bella e
tão rica D. Anna Lucena! Mas ás seis
horas, quando findasse a romaria das senhoras aos tumulos, appareceria
elle indolentemente, como se, recolhendo d'um passeio pelas frescas
cercanias, se recordasse, parasse nas ruinas para conversar com a prima
Maria.
Logo ás quatro horas porém se começou
a vestir com tantos esmeros, que o
Bento, cançado das gravatas que o Snr. Dr. experimentava e
arremessava
amarfanhadas para o divan, não se conteve:
—Ponha a de sedinha branca, Snr. Dr.! Ponha a branca, que lhe fica
melhor! E refresca mais, com este calor.
Na escolha d'um ramo para o casaco ainda requintou, juntando as
côres
heraldicas dos Ramires, um cravo amarello com um cravo branco. Ao
portão, apenas montára na egoa, temeu que as
senhoras (não o encontrando
no Claustro) encurtassem a visita, estugou o trote pelo atalho da
Portella. Depois adiante, ao desembocar na antiga estrada real,
soltou
n'um galope impaciente que o branqueou de poeira.
Só retomou um passo indifferente, ao acercar da linha do
Caminho de
Ferro, onde um carro de lenha e dois homens esperavam deante da
cancella, que se fechára para a lenta passagem d'um trem
carregado de
pipas. Um d'esses homens, d'alforge aos hombros, era o Mendigo—o
vistoso Mendigo que passeava por aquellas aldeias a rendosa magestade
das suas barbaças de Deus fluvial. Erguendo gravemente o
chapéo de
vastas abas, desejou ao Fidalgo a companhia de Nosso Senhor.
—Então hoje a ganhar a rica vida por Craquêde?...
—Cá me arrasto ás vezes para a passagem do
comboio d'Oliveira, meu
Fidalgo. Os passageiros gostam de me vêr de pé no
talude, correm sempre
ás janellas...
Gonçalo, rindo, recordou que o encontro d'aquelle
ancião precedia sempre
um encontro seu com a bella D. Anna.—«Quem sabe? pensou.
É talvez o
Destino! Os antigos pintavam assim o Destino, com longas barbas e
longas
guedelhas, e o alforge ás costas contendo as sortes
humanas...»—E com
effeito ao cabo do pinheiral silencioso, que estiradas resteas de sol
docemente douravam—avistou a caleche da
Feitosa,
parada sob uma
carvalha, com o cocheiro fardado de negro dormitando na almofada. A
estrada real de Oliveira costeia ahi o antigo adro do mosteiro de
Craquêde, queimado pelo fogo do céo, n'aquella
irada tempestade que
chamam
de S. Sebastião, e que aterrou
Portugal em 1616.
Uma herva
agora alfombra o chão, crescida e verde, entre os poderosos
troncos dos
castanheiros velhissimos. A Egrejinha nova alveja, bem caiada, ao fundo
da ramaria: e, ligada a ella por um muro esbrechado que densa hera
veste, tomando todo o lado nascente do Terreiro—sobe, enche ainda
magnificamente o céo lustroso, a fachada da Egreja do
vetusto Mosteiro,
suavemente amarellecida e brunida pelos tempos, com o seu immenso
portal
sem portas, a rosacea desmantelada, e esvasiados os nichos
d'enterramento onde outr'ora se estiraçavam as imagens dos
fundadores,
Froylas Ramires e sua mulher Estevaninha, condessa d'Orgaz, por alcunha
a
Queixa-perra. Duas casas terreas povoam o lado
fronteiro do
adro—uma limpa, com as hombreiras das janellas pintadas d'azul
estridente, a outra deserta, quasi sem telhado, afogada na verdura d'um
quinteiro bravo onde gira-soes resplandecem. Um pensativo silencio
envolvia o arvoredo, as altivas ruinas. E nem o quebrava, antes
serenamente o emballava, o susurro d'uma fonte, que a estiagem
adelgaçára
em
fio lento, e mal enchia o seu
tanque de pedra, toldado
pela pallida e rala folhagem d'um chorão muito alto.
O trintanario da
Feitosa, ao enxergar o Fidalgo,
saltou risonhamente
da borda do tanque onde picava tabaco, para segurar a egoa. E
Gonçalo,
que desde pequeno não penetrava nas ruinas de
Craquêde, seguia por um
carreirinho cortado na relva, attentamente, encantado com aquella
romantica solidão de lenda e verso, quando, sob o arco do
portal,
appareceram as duas senhoras voltando do velho Claustro. D. Maria
Mendonça, com a sua sacudida vivacidade, agitou logo o
guarda-sol de
xadrezinho, semelhante ao vestido, cujas mangas, tufando desmedidamente
nos hombros, lhe vincavam mais a elegancia esgalgada. E ao lado, na
claridade, D. Anna era uma silenciosa e esvelta fórma negra,
de lã negra
e d'escumilha negra, onde apenas transparecia, suavisada sob o
véo
negro, a brancura explendida da sua face sensual e séria.
Gonçalo correra, erguendo o chapéo de palha,
balbuciando o seu «prazer
por aquelle encontro...» Mas já D. Maria o
reprehendia, sem lhe
consentir a fabula do «encontro»:
—O primo não é nada amavel, nada amavel...
—Oh prima!...
—Pois sabia que vinhamos, pela minha carta!
E
nem está
á hora aprazada,
para fazer as honras, como devia...
Elle, rindo, com o seu desembaraço airoso, negou esse dever!
Aquella
casa não era sua, mas do Bom Deus! Ao Bom Deus competia
«fazer as
honras»—acolher tão doces romeiras com algum
milagre amavel...
—E então, gostaram? V. Ex.
a, Snr.
a
D. Anna, gostou das
ruinas?...
Muito interessantes, não é verdade?
Através do véo, com uma lentidão que a
espessa renda negra tornava mais
grave, ella murmurou:
—Eu já conhecia... Vim cá uma tarde, com o pobre
Sanches que Deus haja.
—Ah...
Áquella evocação do pobre morto,
Gonçalo sumira todo o sorriso, com
polida tristeza. Mas D. Maria Mendonça acudio, atirando um
dos seus
magros gestos, como para arredar a sombra importuna:
—Ai! não imagina o que gostei, primo! É
d'appetite todo o claustro...
Logo aquella espada enferrujada, chumbada por cima do tumulo...
Não ha
nada que impressione como estas cousas antigas... Oh primo, e pensar
que
estão alli antepassados nossos!
O sorriso de Gonçalo de novo lampejou, alegre e acolhedor,
como sempre
que D. Maria se empurrava com desesperada gula para dentro da Casa de
Ramires.
E
gracejou, affavelmente. Oh, antepassados... Simples punhados
de cinsa vã!—Pois não era verdade, Snr.
a
D.
Anna?... Realmente! quem
conceberia que a prima Maria, tão viva, tão
sociavel, tão engraçada,
descendesse d'uma poeira tristonha guardada dentro d'uma pia de pedra?
Não! não se podia ligar tanto
ser
a tanto
não-ser...—E como D. Anna
sorria, n'uma vaga concordancia, encostando as duas mãos
fortes e muito
apertadas na pellica negra ao alto cabo d'aljofar da sombrinha, elle
atalhou com interesse:
—V. Ex.
a está talvez
cançada, Snr.
a D. Anna?
—Não, não estou cançada... Ainda
vamos mesmo entrar na capella, um
bocadinho... Eu nunca me canço.
E pareceu a Gonçalo que a voz da formosa creatura
não rolava do papo,
tão grossa e gorda—mas que se afinára,
adoçada e velada pelo luto
d'escomilha e lã, como esses grossos e rolantes rumores que
a noite e o
arvoredo adelgaçam. Mas D. Maria confessou o seu immenso
cançasso! Nada
a esfalfava como visitar curiosidades... E além d'isso a
emoção, a ideia
de heroes tão antigos!
—Se nos sentassemos n'aquelle banco, hein? É muito cedo para
recolhermos, não é verdade, Annica? E
está tão agradavel n'este socego,
n'esta frescura...
Era um banco de pedra, rente ao muro esbrechado que a hera afogava. Em
torno a relva crescia, mais silvestre e florida com os derradeiros
malmequeres e botões d'ouro que o sol d'Agosto
poupára. Um aromasinho
fino, d'algum jasmineiro emmaranhado na hera, errava, adocicava a
serena
tarde. E na rama d'um alamo, defronte do portão da Capella,
duas vezes
um melro cantára. Gonçalo sacudiu todo o banco
cuidadosamente, com o
lenço. E sentado na ponta, junto de D. Maria, louvou tambem
a frescura,
o recolhimento d'aquelle cantinho de Craquêde... E elle que
nunca se
aproveitára de refugio tão santo, e quasi seu,
nem mesmo para um almoço
bucolico! Pois agora certamente voltaria fumar um charuto, revolver
ideias de paz sob a paz das carvalheiras, na visinhança dos
vovós
mortos... Depois, com uma curiosidade:
—É verdade, prima! E o subterraneo?
Oh! não existia subterraneo!... Sim, existia—mas entulhado,
sem
sepulturas, sem antiguidades. E o sachristão logo lhes
affiançára que
«não valia a pena sujarem as saias...»
—É verdade, oh Annica, déste alguma cousa ao
sachristão?
—Oh filha, dei cinco tostões... Não sei se foi
bastante.
Gonçalo assegurou que se pagára sumptuosamente
ao
sachristão. E, se
prevesse tamanha generosidade da Snr.
a D. Anna,
agarrava elle um
mólho
de chaves, até enfiava uma opa preta, para mostrar—e para
embolsar...
—Pois é o que devia ter feito! exclamou D. Maria, com um
corisco nos
espertos olhos. E decerto se lhe davam os cinco tostões!
Porque sempre
sería mais instructivo que o homemsinho, que mascava,
não sabia nada!...
Semelhante morcão! E eu com tanta curiosidade por aquelle
tumulo aberto,
com a tampa rachada... O môno só soube resmungar
que «eram historias
muito antigas lá do Fidalgo da Torre...»
Gonçalo ria:
—Pois essa historia por acaso sei eu, prima Maria! Sei agora pelo
Fado
dos Ramires, o fado do Videirinha...
D. Maria Mendonça levantou as compridas mãos aos
céos, revoltada com
aquella indifferença pelas tradições
heroicas da Casa. Conhecer sómente
os seus Annaes desde que elles andavam repicados n'um fado!... O primo
Gonçalo não se envergonhava?
—Mas por quê, prima, porquê? O fado do Videirinha
está fundado em
documentos authenticos que o Padre Sueiro estudou. Todo o recheio
historico foi fornecido pelo Padre Sueiro. O Videirinha só
poz as rimas.
Além d'isso antigamente, prima, a
Historia
era perpetuada em
verso e
cantada ao som da lyra... Em fim quer saber esse caso do tumulo aberto,
segundo as quadras do Videirinha? Eu sempre conto! Mas só
para a Snr.
a
D. Anna, que não soffre d'esses escrupulos...
—Não! acudiu D. Maria. Se o Videirinha tem essa auctoridade
historica
então conte tambem para mim, que sou da Casa!
Gonçalo, por gracejo, tossio, passou o lenço
pelos beiços:
—Pois eis o caso! N'esse tumulo habitava, naturalmente morto, um dos
meus avós... Não me lembro o nome, Gutierres ou
Lopo. Creio que
Gutierres... Emfim, lá jazia quando foi da batalha das Navas
de
Tolosa... A prima Maria conhece a batalha das Navas, os cinco reis
mouros, etc... Como o tal Gutierres soube da batalha não
contam os
versos do Videirinha. Mas, apenas lá dentro lhe cheirou a
carnificina,
arromba o tumulo, sahe por este pateo como um desesperado, desenterra o
seu cavallo que fôra enterrado no adro onde agora crescem
estes
carvalhos, monta n'elle todo armado, e, Cavalleiro morto sobre cavallo
morto, larga a galope através da Hespanha, chega
ás Navas, arranca a
espada, e destroça os mouros... Que lhe parece, Snr.
a
D.
Anna?
Dedicára a historia a D. Anna, procurando nos
seus bellos
olhos a
attenção e o interesse. E ella, que a furto,
através do decôro
melancolico a que se esforçava,
adoçára o sorriso, attrahida e levada,
murmurou apenas:—«Tem graça!»—D.
Maria, porém, quasi esvoaçou sobre o
banco de pedra, n'um extasis:—«Lindo! Lindo! Que poesia!...
Oh! uma
lenda de todo o appetite!»—E, para que Gonçalo
desenrolasse ainda a
graça do seu dizer, outras maravilhas da sua Chronica:
—Conte, primo, conte... E voltou para Craquêde esse tio
Ramires?
—Quem, prima, o Gutierres?... Ou fosse elle tolo! Apenas se apanhou
livre da massada da sepultura não appareceu mais em Santa
Maria de
Craquêde. O tumulo vasio, como está, e elle por
Hespanha n'uma pandega
heroica!... Imagine! um defunto que por milagre se safa do seu jazigo,
d'aquella postura eterna, tão apertada, tão
esticada!...
Subitamente emmudeceu, lembrando o Sanches Lucena, tambem esticado no
seu caixote de chumbo, sob o seu vistoso jazigo d'Oliveira...—D. Anna
baixára a face, mais sumida no véo, esfuracando a
herva com a ponta da
sombrinha. E a esperta D. Maria, para desfazer a sombra impertinente
que
de novo os roçára, rompeu n'outra curiosidade,
que ainda se encadeava na
nobreza dos Ramires:
—É verdade! Sempre me esquece de lhe perguntar.
O primo
ainda tem
muitos parentes em França... Talvez tambem não
saiba?
Sim! Gonçalo, casualmente, conhecia essa historia dos seus
parentes de
França—apezar de que o Videirinha os não
cantára no Fado!
—Então conte! Mas que seja historia alegre!
Oh, não era prodigiosamente divertida! Um avô
Ramires, Garcia Ramires,
acompanhára nas suas famosas jornadas o Infante D. Pedro, o
filho
d'El-Rei D. João I... A Prima Maria sabia—o Infante D.
Pedro, o que
correu as Sete Partidas do mundo... Pois o Infante D. Pedro e os seus
fidalgos, de volta da Palestina, pousaram um anno inteiro na Flandres,
com o Duque de Borgonha. Até se celebraram então
festas maravilhosas,
com um banquete que durou sete dias, e que anda nos compendios da
Historia de França. Onde ha danças ha amores. A
avô Ramires sobejava
imaginação e arrojo... Fôra elle que
deante de Jerusalem, no Valle de
Josaphat, lembrára que se erguesse um
signal
para que o
Infante e os
seus companheiros de romagem se reconhecessem no grande Dia de Juizo.
Depois, naturalmente, bello mocetão, de barba negra e
cerrada á
Portugueza... Emfim casára com uma irmã do Duque
de Clèves, uma tremenda
Senhora, sobrinha do Duque de Borgonha e Brabante. Mais tarde,
através
d'essas ligações, uma avó Ramires,
já viuva, casou tambem em França
com
o conde de Tancarville. Esses Tancarvilles, Gran-Mestres de
França,
possuiam o mais formidavel castello da Europa, e...
D. Maria bateu as palmas, rindo:
—Bravo! lindamente! Sim, senhor!... Então o primo que se
gaba de não
saber nada de fidalguias... Olhe como conhece pelo miudo a historia
d'esses grandes casamentos! Hein, Annica?... É uma Chronica
viva!
Gonçalo vergou os hombros, confessou que se
occupára de toda essa
heraldica historia por um motivo bem rasteiro—por miseria!...
—Por miseria?
—Sim, prima Maria, por penúria de moeda, de cobres...
—Conte! conte! Olhe, a Annica está anciosa...
—Quer saber, Snr.
a D. Anna?... Pois foi em
Coimbra, no meu segundo
anno de Coimbra. Os companheiros e eu chegamos a não juntar
entre todos
um vintem. Nem para cigarros! Nem para o sagrado decilitro de
carrascão
e as tres azeitonas do dever... Um d'elles então, rapaz
muito engraçado,
de Melgaço, surdiu com a idéa estupenda de que eu
escrevesse aos meus
parentes de França, a esses Clèves, a esses
Tancarvilles, senhores de
certo immensamente ricos, e sollicitasse, com desembaraço,
um
emprestimosinho de trezentos francos.
D. Anna não conteve um riso, sinceramente divertido:
—Ai! tem muita graça!
—Mas não teve resultado, minha senhora... Já
não existem Clèves, nem
Tancarvilles! Todas essas grandes familias feudaes findaram, se
fundiram
n'outras casas, até na Casa de França. E o meu
padre Sueiro, apezar de
todo o seu saber genealogico, nunca conseguiu descobrir quem as
representava com bastante affinidade para me emprestar, a mim parente
pobre de Portugal, esses trezentos francos.
Aquella penuria de Gonçalo, de tamanho fidalgo, quasi
enternecera D.
Anna:
—Ora estarem assim sem vintem! Quem soubesse... Mas tem
graça! Essas
historias de Coimbra teem sempre muita graça. O D.
João de Pedrosa, em
Lisboa, tambem contava muitas...
D. Maria Mendonça, porém, através
d'essa facecia d'estudantes,
descortinára outra prova inesperada da grandeza dos Ramires.
E
immediatamente a estendeu deante de D. Anna com habilidade:
—Ora vejam!... Todas essas grandes casas de França,
tão ricas, tão
poderosas, acabaram, desappareceram. E cá no nosso
Portugalsinho ainda
dura a casa de Ramires!
Gonçalo acudiu:
—Acaba agora, prima!... Não olhe para mim assim espantada.
Acaba
agora... Pois se eu não caso!
Então D. Maria recuou o magro peito—como se esse casamento
do primo
dependesse de doces influencias, que convinha se trocassem bem
chegadamente, sem Marias Mendonças de permeio no estreito
banco com
grandes mangas bufantes tolhendo as correntes de effluvio. E sorria,
quasi languidamente:
—Ora não casa... Mas por quê, primo, por
quê?
—Por que não tenho geito, prima. O casamento é
uma arte muito delicada
que necessita vocação, genio especial. As Fadas
não me concederam esse
genio. E se me dedicasse a semelhante obra, ai de mim! com certeza a
estragava.
D. Anna, como se outra idéa a occupasse, puxára
lentamente do cinto o
relogio preso por uma fita de cabello. E D. Maria insistia, recusava os
motivos do Fidalgo:
—São tolices. O primo que gosta tanto de
creanças...
—Gosto, gosto muito de creancas, até de creancinhas de
mama. As
creanças são os unicos seres divinos que a nossa
pobre humanidade
conhece. Os outros anjos, os d'azas, nunca apparecem. Os santos, depois
de santos, ficam na Bemaventurança a
preguiçar,
ninguem mais os enxerga.
E, para concebermos uma ideia das cousas do céo,
só temos realmente as
creancinhas... Sim, com effeito, prima, gosto muito de
creanças. Mas
tambem gosto de flôres, e não sou jardineiro, nem
tenho geito para a
jardinagem.
E D. Maria com uma faisca no olhar promettedor:
—Socegue, que ainda vem a aprender!
Depois, para D. Anna que se esquecera na
contemplação do relogio:
—Achas que vão sendo horas? Então, se queres,
entramos na Capella... Oh
primo, veja se está aberta.
Gonçalo correu, empurrou a porta da Capella. Depois
acompanhou as duas
senhoras pela pequenina nave soalhada, entre delgados pilares
recobertos
de uma cal aspera e crua—que recamava tambem as paredes lisas, apenas
guarnecidas, na sua rigida nudez, por lithographias de Santos dentro de
caixilhos de pinho. Deante do altar as senhoras ajoelharam—a prima
Maria enterrando a face nas mãos juntas como n'um vaso de
Piedade.
Gonçalo dobrou o joelho de leve, engrolou uma Ave-Maria.
Depois voltou para o adro, accendeu um cigarro. E, pisando lentamente a
relva, considerava quanto a viuvez melhorára D. Anna. Sob o
negrume do
luto, como n'uma penumbra que esfuma a grosseira deselegancia
das
cousas, todos os seus defeitos se fundiam—os defeitos que tanto o
horripilavam na tarde da Bica Santa, o rolar gordo da voz, o peito
empinado, a ostentação de burgueza ricassa
pinguemente repimpada na
vida. Até já nem dizia—«o
cavalheiro!» E alli, no adro melancolico de
Craquêde, certamente parecia interessante e desejavel.
As senhoras desciam os dois degraus da Capella. Um melro
esvoaçou na
ramagem dos alamos. E Gonçalo encontrou o lampejo dos olhos
serios de D.
Anna que o procuravam.
—Peço perdão de não lhes ter
offerecido agua benta á sahida, mas a
concha está secca...
—Jesus, primo, que Egreja tão feia!
D. Anna arriscou, com timidez:
—Depois das ruinas e dos tumulos, até parece pouco
religiosa.
A observação impressionou Gonçalo,
como muito fina. E junto d'ella,
demorando os passos com agrado, sentia, esparzido pelos seus
movimentos,
pelo roçar do vestido, um aroma tambem fino, que
não era o da horrenda
agua de Colonia da botica do Pires. Em silencio, sob a ramagem das
carvalhas, caminharam para a caleche, onde o cocheiro se
aprumára, bem
estilado, tirando o chapeu. Gonçalo notou que elle
rapára o bigode. E a
parelha reluzia, atrelada com esmero.
—E
então, prima Maria, ainda se demora pelos nossos sitios?
—Sim, primo, mais uns quinze dias... A Annica é
tão amavel, quiz que eu
trouxesse os pequenos. O que elles se têm divertido na
quinta, não
imagina!
D. Anna murmurou, sempre séria:
—São muito engraçados, fazem muita companhia...
Eu tambem gosto muito
de creanças.
—Ai, a Annica adora creanças! accudiu D. Maria com fervor.
O que ella
atura os pequenos! Até joga com elles o mafarrico.
Perto da caleche, Gonçalo pensou que outra volta pelo adro,
mais lenta,
com a D. Anna e o seu fino aroma, seria doce, n'aquelle socego da tarde
que findava, tingida de tão lindas côres de rosa
sobre os pinheiraes
escurecidos. Mas já o trintanario se acercava segurando a
sua egoa. E D.
Maria, depois de admirar e acariciar a egoa, chamou o primo
discretamente—para saber a distancia da
Feitosa
a Treixedo, a outra
quinta historica dos Ramires.
—A Treixedo, prima?... Cinco legoas fartas, com maus caminhos.
E immediatamente se arrependeu, antevendo um passeio, um novo encontro:
—Mas na estrada ultimamente andaram obras. E é muito bonito
sitio, n'um
alto, com um resto
de
muralhas... Treixedo era um castello enorme... Na
quinta ha uma lagôa entre arvoredo antigo... Oh! sitio
delicioso para um
pic-nic!
D. Maria hesitou:
—É um pouco longe, veremos, talvez.
E como D. Anna esperava em silencio—Gonçalo abriu a
portinhola, tomou
ao trintanario as rédeas da egoa. D. Maria
Mendonça, no seu
contentamento por tão proveitosa tarde, sacudiu ardentemente
a mão do
primo jurando «que ia apaixonada por
Craquêde!» D. Anna mal roçou os
dedos de Gonçalo, acanhada e córando.
Sózinho, com a rédea da egoa enfiada no
braço, Gonçalo sorria. Na
verdade, n'essa tarde, D. Anna não lhe
desagradára. Outros modos, outra
singeleza grave, outra doçura na sua possante belleza de
Venus rural...
E aquella observação sobre a Capella,
«pouco religiosa» depois das
ruinas seculares do claustro, era uma observação
fina. Quem sabe? Talvez
sob carne tão sensual se escondesse uma natureza delicada.
Talvez a
influencia d'outro homem, que não o estupidissimo Sanches,
desenvolvesse
na filha explendida do carniceiro qualidades de muito encanto... Oh,
evidentemente, a observação sobre os tumulos e a
sua religiosidade
emanando da Lenda e da Historia—era fina.
E então tambem o tomou a curiosidade de visitar esse
claustro onde não
entrára desde pequeno—quando ainda a Torre conservava as
suas
carruagens montadas e a romantica Miss Rhodes escolhia sempre o passeio
de Craquêde para as tardes pensativas d'outomno. Puxou a
egoa, transpoz
o portal, atravessou o espaço descoberto que fôra
a nave—atulhado de
caliça, de cacos, de pedras despegadas da abobada e afogadas
nas hervas
bravas. E pela brecha d'um muro a que ainda se amparava um
pedaço
d'altar—penetrou na silenciosa crasta Affonsina. Só d'ella
restam duas
arcadas em angulo, atarracadas sobre rudes pilares, lageadas de
poderosas lages poidas que n'essa manhã o
sachristão cuidadosamente
varrera. E contra o muro, onde rijas nervuras desenham outros arcos,
avultam os sete immensos tumulos dos antiquissimos Ramires, denegridos,
lisos, sem um lavor, como toscas arcas de granito, alguns pesadamente
encravados no lagedo, outros pousando sobre bolas que os seculos
lascaram. Gonçalo seguia um carreiro de tijolo, rente aos
arcos,
recordando quando elle outr'ora e Gracinha pulavam ruidosamente por
sobre essas campas, em quanto no pateo do claustro, entre as pilastras
tombadas e a verdura das ruinas, a boa Miss Rhodes agachada procurava
florinhas silvestres. Na abobada, sobre o
mais
vasto tumulo,
lá
negrejava chumbada a espada, a famosa espada, com a sua corrente de
ferro pendendo do punho, a folha roida pela ferrugem das longas idades.
Sobre outro lá ardia a lampada, a estranha lampada mourisca,
que não se
apagára desde a tarde remota em que algum monge, com uma
tocha de
sahimento, silenciosamente a accendera... Quando se accendera ella, a
eterna lampada? Que Ramires jazeriam n'esses cofres de granito, a que o
tempo raspára as inscripções e as
datas, para que n'ellas toda a
Historia se sumisse, e mais escuramente se volvessem em leve
pó sem nome
aquelles homens de orgulho e de força?... Depois na ponta do
claustro
era o tumulo aberto, e ao lado, derrubada em dous pedaços, a
tampa que o
esqueleto de Lopo Ramires arrombára para correr
ás Navas de Tolosa e
bater os cinco Reis mouros. Gonçalo espreitou para dentro,
curiosamente.
A um canto da funda arca alvejava um montão d'ossos, limpos
e bem
arrumados! Esquecera o velho Lopo, na sua pressa heroica, esses poucos
ossos, já despegados do seu esqueleto?... O crepusculo
cerrára, e com
elle uma melancolica sombra que se adensava sob as abobadas da crasta,
cobria de tristeza morta aquella jazida de mortos. Então
Gonçalo sentiu
a desolada solidão que o envolvia, o separava da vida, alli
desgarrado,
e sem soccorro
entre
a poeira e a alma errante dos seus avós
temerosos!
E de repente estremeceu, no arripiado mêdo de que outra tampa
estalasse
com fragor e atravez da fenda surdissem lividos dedos sem carne!
Repuxou
desesperadamente a egoa pelo muro desmantelado, nas ruinas da nave
pulou
para o selim, e varou n'um trote o portal, galgou o adro com
ancia—só
socegou ao avistar, ao fim do pinhal, a cancella do Caminho de Ferro
aberta, e uma velha que a passava tangendo o seu burro carregado
d'herva.
VIII
Ao fim da semana Gonçalo, que desde a visita a Santa Maria
de Craquêde
arrastava o remorso incommodo da sua preguiça, do
tão longo abandono da
Novella—recebeu de manhã, ao sahir do banho, uma carta do
Castanheiro.
Era curta:—e declarava ao amigo Gonçalo que, se em meado de
Outubro não
chegassem a Lisboa tres Capitulos do original, elle, com pezar seu e da
Arte, publicaria no primeiro numero dos
Annaes,
em vez da
Torre
de D.
Ramires, um drama do Nuno Carreira n'um acto, intitulado
Em
Casa do
Temerario... «Apezar de drama e de phantasia
(accrescentava)
convem á
indole erudita dos
Annaes
por que este
Temerario
é Carlos
o Temerario,
e a acção toda, fortemente tecida, se passa no
Castello de Peronne, onde
se encontram nada menos que Luiz XI de França, e o nosso
pobre
Affonso
V, e Pero da Covilhan que o acompanhava, e outros figurões
de rija
estatura historica. Imagine!... Está claro, o
chic
supremo
seria
Tructezindo Mendes Ramires contado pelo nosso
Gonçalo
Mendes Ramires!
Mas, pelo que vejo, esse
chic supremo
está impedido por
uma indolencia
suprema.
Sunt Lacrymae Revistarum!»
Gonçalo atirou a carta, gritou pelo Bento:
—Leva para a livraria chá verde, forte, com torradas. Hoje
só almoço
tarde, ás duas... Talvez nem almoce!
E, enfiando o roupão de trabalho, decidiu amarrar
á banca, como um
captivo ao remo, até que rematasse esse difficil Capitulo
III, onde
resaltava o barbaro e sublime rasgo do avô Tructezindo.
Não, que diabo!
não lhe convinha perder a apparição da
Novella em tão proveitoso
momento, nas vesperas da sua chegada a Lisboa, quando para a influencia
Politica e para o prestigio social necessitava d'esse brilho que,
segundo o velho Vigny, «uma penna de aço
accrescenta a um elmo dourado
de Fidalgo...» Felizmente, n'essa luminosa manhã
em que as agoas da
horta fartamente cantavam, elle sentia tambem a veia borbulhando,
contente em se soltar e correr. Depois da visita á crasta de
Craquêde a
sua imaginação concebia menos ennevoadamente os
seus avós Affonsinos:—e
como que os palpava emfim no seu viver e pensar
desde que
contemplára os
grandes tumulos onde se desfaziam as suas grandes ossadas.
Na Livraria retomou com appetite, depois de lhes sacudir a poeira, as
tiras da Novella sobre que emperrára, n'aquelle atarantado
lance de
susto e alarme—quando o Villico, o velho Ordonho, reconhecia o
pendão
do Bastardo surgindo á borda da Ribeira do Coice entre o
coriscar de
lanças empinadas, passando a antiga ponte de madeira, e, um
momento
sumido na verdura dos alamos, de novo avançando, alto e
tendido, até ao
rude Cruzeiro de pedra de Gonçalo Ramires o
Cortador...
O
gordo
Ordonho então, atirando o brado de—«Prestes,
prestes! que é gente de
Bayão!»—descambava pelo escalão da
muralha como um fardo que rola.
No emtanto Tructezindo Ramires, no empenho d'aprestar a sua mesnada e
abalar sobre Montemór, regera já com o Adail a
ordem da arrancada,
mandando que as buzinas soassem mal o sol batesse na margella do
Poço
grande. E agora, na sala alta da Alcaçova, conversava com o
seu primo de
Riba-Cavado e costumado camarada d'armas, D. Garcia Viegas—ambos
sentados nos poiaes de pedra d'uma funda janella, onde uma bilha d'agoa
com o seu pucaro refrescava entre vasos de manjaricão. D.
Garcia Viegas
era um velho esgalgado e agil, d'escuro carão
rapado, com
uns miudos
olhos coruscantes—que merecêra a alcunha de
Sabedor
pela
viveza e
succulencia do seu dizer, as suas infinitas manhas de guerra, e a
prenda
de fallar latim mais doutamente que um Clerigo da Curia. Convocado por
Tructezindo, como os outros parentes de solar, para engrossar a mesnada
dos Ramires em serviço das infantas, corrêra logo
a Santa Ireneia
fielmente com o seu pequeno poder de dez
lanças—começando por saquear
no caminho a herdade de Palha-Cã, dos de Severosa, que
andavam com
pendão alto na Hoste Real contra as Donas opprimidas.
Tão rijamente se
apressára que, desde a madrugada, apenas comêra
sobre a sella, em
Palha-Cã, duas rodelas dos chouriços roubados. E
com a sêde da afogueada
correria, ainda na emoção de tão
amarga nova, a derrota de Lourenço
Ramires seu afilhado, novamente enchia d'agoa o pucaro de barro—quando
pela porta da sala de armas, que tres cabeças de javali
dominavam,
rompeu o velho Ordonho esbaforido:
—Snr. Tructezindo! Snr. Tructezindo Ramires! o Bastardo de
Bayão passou
a Ribeira, vem sobre nós com grande troço de
lanças!
O velho Rico-Homem saltou do poial. E arremessando a mão
cabelluda,
cerrada com sanha, como se já pela gorja empolgasse o
Bastardo:
—Pelo Sangue de Christo! em boa hora vem que nos poupa caminho! Hein,
Garcia Viegas? A cavallo e sobre elle...?
Mas, rente aos tropegos calcanhares de Ordonho, correra um Coudel de
Besteiros, que gritou dos humbraes, saccudindo o capello de couro:
—Senhor! Senhor! A gente de Bayão parou ao Cruzeiro! E um
cavalleiro
moço, com um ramo verde, está deante das
barbacans, como trazendo
mensagem...
Tructesindo bateu o sapato de ferro sobre as lages, indignado com tal
embaixada mandada por tal villão...—Mas Garcia Viegas, que
d'um sorvo
enxugára o pucaro, recordou serenamente e lealmente os
preceitos:
—Tende, tende, primo e amigo! Que, por uso e lei d'aquem e
d'além
serras, sempre mensageiro com ramo se deve escutar...
—Seja pois! bradou Tructesindo. Ide vós fóra
ás barreiras com duas
lanças, Ordonho, e sabei do recado!
O Villico rebolou pela denegrida escada de caracol até ao
patim da
Alcaçova. Dous accostados, de lança ao hombro,
recolhendo d'alguma
rolda, conversavam com o armeiro, que sarapintára de
amarello e
escarlate cabos d'ascumas novas e as enfileirava contra o muro para
seccarem.
—Por ordem do Senhor! gritou Ordonho. Lança direita, e
commigo ás
barbacans, a receber mensagem!...
Ladeado pelos dous homens que se aprumaram, atravessou as barreiras; e
pelo postigo da barbacan, que uma quadrilha de besteiros guardava,
sahiu
ao terreiro da Honra, largueza de terra calcada, sem relva ou arvore,
onde se erguiam ainda as traves carcomidas d'uma antiga forca, e se
amontoavam agora, para os concertos da Alcaçova, ripas de
madeira, e
grossas cantarias lavradas. Depois, sem arredar do humbral, empinando o
ventre entre os dous accostados, bradou ao moço Cavalleiro,
que esperava
sob o rijo sol, sacudindo os moscardos com o seu ramo d'amoreira:
—Dizei de que gente sois! e a que vindes! e que credencia trazeis!...
E como arqueára logo a mão inquieta sobre a
orelha—o Cavalleiro,
serenamente, entalando o ramo entre o coxote e o
arção, arqueou tambem
os dous guantes relusentes d'escamas na abertura do casco, bradou:
—Cavalleiro do solar de Bayão!... Credencia não
trago que não trago
embaixada... Mas o Snr. D. Lopo ficou além ao Cruzeiro, e
deseja que o
nobre senhor da Honra, o Snr. Tructezindo Ramires, o escute do eirado
da
barbacan...
O Villico saudou—recolheu pela poterna abobadada da torre albarran,
murmurando para os dous accostados:
—O Bastardo vem a tratar o resgate do Snr. Lourenço
Ramires...
Ambos rosnaram:
—Feio feito.
Mas, quando Ordonho offegante se apressava para a Alcaçova,
encontrou no
pateo Tructezindo Ramires—que, na irada impaciencia d'aquellas delongas
do Bastardo, descera, todo armado. Sobre o comprido brial de
lã
verde-negra, que recobria a vestidura de malha, as suas barbas
rebrilhavam, mais brancas, atadas n'um grosso nó como a
cauda d'um
corcel. Do cinturão tauxeado de prata pendia a um lado o
punhal recurvo,
a bozina de marfim—ao outro uma espada gôda, de folha larga,
com alto
punho dourado onde scintillava uma pedra rara trazida outr'ora da
Palestina por Gutierres Ramires, o
d'Ultramar. Um
sergente conduzia
sobre uma almofada de couro os seus guantes, o seu capello redondo, de
vizeira gradada, como usára El-Rei D. Sancho: outro
carregava o immenso
broquel, da fórma d'um coração,
revestido de couro escarlate, com o Açôr
negro rudemente pintado, esgalhando as garras furiosas. E o Alferes,
Affonso Gomes, seguia com o guião enrolado na funda de lona.
Com o velho Rico-Homem descêra D. Garcia Viegas, e os outros
parentes do
Solar—o decrepito Ramiro Ramires, um veterano da tomada de Santarem,
torcido pelos rheumatismos como a raiz de um roble, e arrimando os
passos tremulos, não a um bastão, mas a um
chusso; o formoso Leonel, o
mais moço dos Samoras de Cendufe, o que matára os
dois ursos nos brejos
de Cachamúz e que tão bem trovava; Mendo de
Briteiros, o das barbas
vermelhas, grande queimador de bruxas, lêdo arranjador de
folgares e
danças; e o agigantado Senhor dos Paços de
Avellim, todo coberto, como
um peixe fabuloso, de escamas que reluziam. Como o sol se acercava da
margella do Poço grande, marcando a hora da arrancada sobre
Monte-mór—já, dos fundos alpendres que escondiam
os campos do tavolado,
os cavallariços puxavam os ginetes de guerra, com as suas
altas sellas
pregueadas de prata, as ancas e os peitos resguardados por coberturas
de
couro franjado que rojavam nas lagens. Por todo o Castello se
espalhára
que o Bastardo, depois da lide fatal aos Ramires, correra de
Canta-Pedra, ameaçava a Honra:—e debruçados dos
passadiços que ligavam
a muralha aos contrafortes da Alcaçova, ou mettidos por
entre os
engenhos d'arremesso que atulhavam as corredoiras, os moços
da ucharia,
os servos das hortas, os villões acolhidos para dentro das
barbacans,
espreitavam o
Senhor
de Santa Ireneia e aquelles Cavalleiros fortes,
com
anciedade, tremendo do assalto dos de Bayão e d'essas
horrendas bolas de
ferro, cheias de fogo, que agora as mesnadas Christãs
arrojavam tão
destramente como as hordas Sarracenas.—No emtanto com a sua gorra
esmagada contra o peito, Ordonho, arfando, apresentava a Tructesindo o
recado do Bastardo:
—É cavalleiro moço, não traz
credencia... O Snr. Bastardo espera ao
Cruzeiro... E pede que o attendaes da quadrella das barbacans...
—Que se acerque pois! gritou o velho. E com quantos queira dos
villões
que o seguem!
Mas Garcia Viegas, o
Sabedor, sempre avisado, com
a sua esperta
mansidão:
—Tende, primo e amigo, tende! Não subaes vós
á tranqueira antes que eu
me assegure se Bayão nos vem com arteirice ou falsura.
E entregando a sua pesada lança de faia a um donzel, enfiou
pela escada
soturna da Torre albarran. Em cima no eirado, sussurrando um
chuta!
chuta! á fila de besteiros que guarnecia as
ameias, attenta
e com a
bésta encurvada—penetrou no miradouro, espiou pela
setteira. O arauto
de Bayão galopára para o Cruzeiro, que uma selva
movediça de lanças
rodeava coriscando. E curto recado lançou—porque logo, no
seu fouveiro
acobertado por uma rêde
de
malha acairellada d'ouro, Lopo de
Bayão
despegou do denso troço de cavalleiros, com a viseira
erguida, sem lança
ou ascuma de monte, e ociosas sobre o arção da
sella mourisca as mãos
onde se enrodilhavam as bridas de couro escarlate. Depois, a um toque
arrastado de buzina, avançou para as barbacans da Honra,
vagarosamente,
como se acompanhasse um sahimento. Não movera o seu
pendão amarello e
negro. Apenas seis infanções o escoltavam, tambem
sem lança ou broquel,
com sobrevestes de panno rôxo sobre os saios de malha. Atraz
quatro
alentados besteiros carregavam aos hombros umas andas, toscamente
armadas com troncos de arvores, onde um homem jazia estirado, como
morto, coberto, contra o calor e os moscardos, por leves folhagens de
acacia. E um monge seguia n'uma mula branca, segurando misturadamente
com as rédeas um crucifixo de ferro, sobre que pendia a orla
do seu
capuz e uma ponta de barba negra.
Da setteira, mesmo sem descortinar por entre a camada de ramagens a
face
do homem estendido nas andas, o
Sabedor adivinhou
Lourenço
Ramires, o
doce afilhado que tanto amára, que tão bem
ensinára a terçar lanças e a
treinar falcões. E cerrando os punhos, gritando
surdamente—«Bem
prestos! bésteiros, bem prestos!»—desceu a escura
escadaria, tão
arremessado pela colera e pela magoa que
o
seu elmo cavamente bateu
contra o arco da porta, onde o esperava Tructesindo com os Cavalleiros
parentes.
—Senhor primo! bradou. Vosso filho Lourenço está
deante das barreiras
da Honra deitado sobre umas andas!
Com um rosnar d'espanto, um atropelo dos sapatos de ferro sobre as
lages
sonoras, todos seguiram pela poterna da albarran o Rico
Homem—até ao
escadão de madeira que se empurrava contra a quadrella das
barbacans. E,
quando o enorme velho surdio no eirado, um silencio pesou,
tão ancioso,
que se sentia para além do vergel o chiar triste e lento da
nora e o
latir dos mastins.
No terreiro, em frente á cancella gateada, o Bastardo
esperava, immovel
sobre o seu ginete, com a formosa face bem levantada, a face de
Claro-sol, onde as barbas anelladas, cahindo nas
solhas do arnez,
rebrilhavam como ouro novo. Vergando o capello d'ouropel, saudou
Tructesindo com gravidade e preito. Depois alçou a
mão, que descalçára
do guante. E n'um considerado e sereno fallar:
—Senhor Tructesindo Ramires, n'estas andas vos trago vosso filho
Lourenço, que em lide leal, no valle de Canta-Pedra, colhi
prisioneiro e
me pertence pelo foro dos Ricos-Homens d'Hespanha. E de Canta-Pedra
caminhei com elle para vos pedir que
entre
nós findem estes
homizios e
estas feias brigas que malbaratam sangue de bons
Christãos... Senhor
Tructesindo Ramires, como vós venho de Reis. De D. Affonso
de Portugal
recebi a pranchada de Cavalleiro. Toda a nobre raça de
Bayão se honra em
mim... Consenti em me dar a mão de vossa filha D. Violante,
que eu quero
e que me quer, e mandae erguer a levadiça para que
Lourenço ferido entre
no seu solar e eu vos beije a mão de pae.
Das andas, que estremeceram sobre os hombros dos besteiros, um
desesperado brado partio:
—Não, meu pae!
E hirto na borda do eirado, sem descrusar os braços, o velho
Tructesindo
retomou o brado—que por todo o terreiro da Honra rolou, mais arrogante
e mais cavo:
—Meu filho, antes de mim, te respondeu, villão!
Como se uma pontoada de lança lhe topasse o peito, o
Bastardo vacillou
na alta sella: e, colhido pelo repuxão das
rédeas, o seu fouveiro recuou
alteando a testeira dourada. Mas, a um novo arremesso, repulou contra a
cancella. E Lopo de Bayão erguido sobre os estribos, gritava
com ancia,
com furor:
—Snr. Tructesindo Ramires, não me tenteis!...
—Arreda, villão e filho de villôa,
arreda!—clamou soberbamente o
velho, sem desprender os braços de sobre o levantado peito,
na sua rija
immobilidade
e
teima, como se todo o corpo e alma fossem de rijo ferro.
Então o Bastardo, arrojando o guante contra o muro da
barbacan, rugio,
chammejante e rouco:
—Pois pelo sangue de Christo e pela alma de todos os meus te juro, que
se me não dás n'este instante essa mulher que eu
quero e que me quer,
sem filho ficas, que por minhas mãos, deante de ti e nem que
todo o Céo
accuda, lhe acabo o resto da vida!
Já na mão lhe lampejava um punhal. Mas n'um
impeto de sublime orgulho,
um impeto sobrehumano, em que cresceu como outra escura torre entre as
torres da Honra, Tructesindo arrancára a espada:
—Com esta, covarde! com esta! Para que seja puro, não vil
como o teu, o
ferro que atravessar o coração de meu filho!
Furiosamente, com as duas possantes mãos, arremessou a
espada, que
rodopiou silvando e faiscando, se cravou no duro chão, onde
tremia,
ainda faiscava, como se uma colera heroica tambem a animasse. E no
mesmo
relance, com um urro, um salto do ginete, o Bastardo,
debruçado do
arção, enterrára o punhal na garganta
de Lourenço—em golpe tão cravado
que o esguicho do sangue lhe salpicou a clara face, as barbas d'ouro.
Depois foi uma bruta abalada. Os quatro besteiros sacudiram para o
chão
as andas, o corpo morto enrodilhado nos ramos—e atiraram pelo terreiro,
como lebres em clareira, atraz do monge que se agachava agarrado
ás
crinas da mula. N'uma curta desfilada o Bastardo, os seis cavalleiros,
gritando o alarme, mergulharam no arraial que estacára ao
Cruzeiro. Um
tumulto remoinhou em torno ao devoto pilar. E em rodilhado tropel a
mesnada desenfreou para a Ribeira, varou a velha ponte, logo ennublada
em pó e sumida para além do arvoredo, n'um
fugidio coriscar de
capellinas e de lanças apinhadas.
Uma alta grita, no emtanto, atroára as muralhas de Santa
Ireneia!
Virotes, flechas, balas de fundas assobiavam, despedidas no mesmo
furioso repente, sobre o bando de Bayão:—mas apenas um dos
besteiros
que carregára as andas tombou, estrebuchando, com uma flecha
na ilharga.
Pela cancella das barreiras já Cavalleiros e donzeis d'armas
se
empurravam desesperadamente para recolher o corpo de
Lourenço Ramires. E
Garcia Viegas, os outros parentes, galgaram ao eirado da barbacan,
d'onde Tructesindo se não arredára, rigido e
mudo, fitando as andas e
seu filho estatelado com ellas sobre o terreiro da sua Honra. Quando,
ao
rumor, elle pesadamente se voltou—todos emmudeceram ante a serenidade
da sua face,
mais
branca que as brancas barbas, d'uma morta brancura de
lapide, com os olhos resequidos e côr de braza, a latejar, a
refulgir,
como os dous buracos d'um forno. Com a mesma sinistra serenidade, tocou
no hombro do velho Ramiro, que tremia arrimado ao seu chusso. E n'uma
vagarosa e vasta voz:
—Amigo! cuida tu do corpo de meu filho, que a alma ainda hoje, por
Deus! lh'a vou eu socegar!...
Afastou aquelles senhores emmudecidos d'assombro e
d'emoção—e baixou
pela gasta escada de madeira, que rangia sob o peso do enorme
Rico-Homem
carregado de ira e dôr.
N'esse momento, entre besteiros e serviçaes que se
atropellavam—o corpo
de Lourenço Ramires transpunha o portello das barbacans,
segurado pelo
formoso Leonel e por Mendo de Briteiros, ambos affogueados de lagrimas
e
rouquejando ameaças furiosas contra a raça de
Bayão. Atraz o tropego
Ordonho gemia, abraçado á espada de Tructesindo,
que apanhára no chão do
Terreiro e que beijava como para a consolar. Á borda do
fosso uma
aveleira espalhava a sombra leve n'um bronco taboão pregado
sobre
toros—d'onde, aos domingos, com o adanel dos besteiros,
Lourenço
dirigia os jogos de bésta e frecha, distribuindo fartamente
as
recompensas de bolos de mel e de vinho em picheis. Sobre essas taboas o
estiraram—recuando todos depois, em quanto
aterradamente
se benziam. Um
cavalleiro de Briteiros, temendo por aquella alma desamparada e sem
confissão, correra á capella da
Alcaçova procurar Frei Muncio. Outros,
rodeando toda a muralha até ao Baluarte-Velho, gritavam, com
desesperados acenos, para o torreão escalavrado, onde, como
um môcho,
habitava o Physico. Mas o certeiro punhal do Bastardo
acabára o denodado
Lourenço, flor e regra de cavalleiros por toda a terra de
Riba-Cavado...
E que lastimoso e desfeito—com suja terra na face, a garganta empastada
de sangue negro, as malhas do saio rotas sobre os hombros e embebidas
nas carnes retalhadas, e nua, sem grêva, toda inchada e
rôxa, a perna
ferida em Canta-Pedra, onde mais sangue e lama se empastavam!
Tructesindo descia, lento e rigido. E as seccas brazas dos seus olhos
mais se incendiam, em quanto, atravez do dorido silencio, se acercava
do
corpo de seu filho. Deante do banco ajoelhou, agarrou a arrefecida
mão
que pendia; e, junto á face manchada de sangue e terra,
segredou, de
alma para alma, n'um abafado murmurio, que não era de
despedida mas
d'alguma suprema promessa, e que findou n'um beijo demorado sobre a
testa, onde uma restea de sol rebrilhou, dardejada d'entre as folhas da
aveleira. Depois erguido n'um arrebate, atirando o braço
como para
n'elle recolher toda a força da sua raça, gritou:
—E agora, senhores, a cavallo, e vingança brava!
Já pelos páteos, em torno da Alcaçova,
corria um precipitado fragor
d'armas. Aos asperos commandos dos almocadens as filas de besteiros,
d'archeiros, de fundibularios, rolavam dos adarves dos muros para
cerrar
as quadrilhas. Rapidamente, os cavallariços da carga
amarravam sobre o
dorso das mulas os caixotes do almazem, os alforges da trebalha. Pelas
portas baixas da cosinha, peões e sergentes, antes de
largar, bebiam á
pressa uma conca de cerveja. E no campo das barreiras os cavalleiros,
chapeados de ferro, carregadamente se içavam, com a ajuda
dos donzeis,
para as altas sellas dos ginetes—logo ladeados pelos seus
infanções e
acostados, que aprumavam a lança sobre o coxote assobiando
aos lebreus.
Emfim o Alferes, Affonso Gomes, saccou da funda e desfraldou o
pendão
n'um embalanço largo em que as azas do Açor
negrejaram, abertas, como
soltando o vôo enfurecido. O grito agudo do Adail
resoára por toda a
cerca—
ala! ala! De cima de um marco de pedra,
junto ao postigo do
barbacan, Frei Muncio estendia as magras mãos ainda
tremulas, abençoava
a hoste. Então Tructesindo, sobre o seu murzello, recebeu do
velho
Ordonho a espada, de que tão terrivelmente se
apartára. E estendendo a
reluzente folha para as torres da sua Honra como para um altar, bradou:
—Muros de Santa Ireneia, não vos torne eu a vêr,
se em tres dias, de
sol a sol, ainda restar sangue maldito nas veias do traidor de
Bayão!
E, escancaradas as barreiras, a cavalgada tropeou em torno ao
pendão
solto,—em quanto, na torre d'Almenara, sob o parado explendor da
sésta
d'Agosto, o sino grande começava a tanger a finados.