Os tres quartos, depois das seis, batiam no relogio sempre adeantado da
Egreja de S. Christovão, em Oliveira, quando
André Cavalleiro e Gonçalo,
descendo da rua Velha, penetraram no Terreiro da Louça
(agora
Largo do
Conselheiro Costa Barroso).
Todos os Domingos, tocando n'um coreto que o Conselheiro, quando
Presidente da Camara, mandára construir sobre o velho
Pelourinho
demolido,
a
charanga do Regimento ou a philarmonica
Lealdade
tornavam
aquelle Largo o centro mais sociavel da quieta e caseira cidade. N'essa
tarde, porém, como começára no
Convento de Santa Brigida o bazar
patrocinado pelo Bispo, as senhoras rareavam nos bancos de pedra e nas
cadeiras do Asylo espalhadas por sob as acacias. As Louzadas faltavam
no
seu pouso reservado, superiormente escolhido para espiarem todo o
Terreiro, as casas que o cerram do lado de S. Christovão e
do lado das
Trinas, a rua Velha e a rua das Vellas, a barraca da limonada, e
até
outro retiro pudicamente disfarçado por uma
canniçada de heras. E o
unico rancho conhecido, D. Maria Mendonça, a Baroneza das
Marges, as
duas Alboins, conversavam com as costas para o Terreiro, junto da grade
de ferro que o limita sobre a antiga muralha—d'onde se dominam campos,
a cêrca do Seminario Novo, todo o pinhal da Estevinha e as
voltas
lustrosas da ribeira de Crêde.
Mas entre os cavalheiros que trilhavam vagarosamente a alêa
do Largo
denominada o «Picadeiro», gosando a
Marcha
do
Propheta, o espanto
reviveu (apezar de todos conhecerem a
reconciliação famosa do Governo
Civil) quando os dous amigos appareceram, ambos de chapéos
de palha,
ambos de polainas altas, ao passo solemne das duas egoas—a de
Gonçalo
airosa e baia de cauda curta á ingleza, a do Cavalleiro
pesada e preta,
de pescoço arqueado, a cauda farta rojando as lages. Mello
Alboim, o
Barão das Marges, o Dr. Delegado, pararam n'uma fila
pasmada, a que se
juntou um dos Villa-Velhas, depois o morgado Pestana, depois o gordo
major Ribas com a farda desabotoada, rebolando e galhofando sobre
«aquella amigação...» O
tabellião Guedes, o Guedes
pôpa,
derrubou a
cadeira no alvoroço com que se ergueu, indignado mas
respeitoso,
descobrindo a calva n'uma cortesia immensa em que o chapeu branco lhe
tremia. E o velho Cerqueira, o advogado, que sahia do retiro
encanniçado
d'hera e se abotoava, embasbacou, com os oculos na ponta do nariz
alçado, os dedos esquecidos nos botões das
calças.
No emtanto os dous amigos, gravemente, seguiam pela correnteza de casas
que o palacete de D. Arminda Villegas domina, com o pesado
brazão dos
Villegas na cimalha, as suas dez nobres varandas de ferro opulentadas
por cortinas de damasco amarello. Na varanda d'esquina, o
Barrôlo e José
Mendonça fumavam, sentados em mochos de palhinha. E ao
sentir as patas
lentas das egoas, ao avistar tão inesperadamente o
cunhado—o bom
Barrôlo quasi se despenhou da varanda:
—Oh Gonçalo! Oh Gonçalo!... Vaes lá
para casa?
E nem esperou uma certeza, berrou de novo, bracejando:
—Nós já vamos! Jantámos cá
esta tarde... A Gracinha está lá em cima,
com a tia Arminda. Vamos já tambem! É um momento!
O Cavalleiro acenou risonhamente ao capitão
Mendonça. Já Barrôlo
mergulhára com enthusiasmo para dentro dos damascos
amarellos. E os dois
amigos, deixando pelo Terreiro aquelle sulco de espanto, penetraram na
rua das Vellas onde um Policia se perfilou com a mão no
bonet—o que foi
agradavel ao Fidalgo da Torre.
O Cavalleiro acompanhou Gonçalo ao Largo d'El-Rei. Deante do
Palacete um
homem de boina vermelha remoía no seu realejo o
côro nupcial da
Lucia,
espiando as janellas desertas. O Joaquim da Porta correu do pateo a
segurar a egoa do Fidalgo. Com um mudo sorriso o tocador estendera a
boina. E depois de lhe atirar um punhado de cobre—Gonçalo
hesitou,
murmurou emfim, com embaraço e corando:
—Não queres entrar e descançar,
André?...
—Não, obrigado... Então
ámanhã ás duas, no Governo Civil, com
o
Barrôlo, para combinarmos sobre os votos da Murtosa... Adeus,
minha
flôr! Démos um bello passeio e espantamos os povos!
E S. Ex.
a, envolvendo o Palacete n'um demorado
olhar, desceu pela rua
das Tecedeiras.
No seu quarto (sempre preparado, com a cama feita) Gonçalo
acabava de se
lavar, de se escovar, quando Barrôlo se precipitou pelo
corredor,
esbofado, soffrego—e atraz d'elle Gracinha, offegante tambem,
desapertando nervosamente as fitas escarlates do chapeu. Desde a tarde
em que Barrôlo «presenceára com os olhos
bem acordados!» a palestra de
Gonçalo e de André na varanda do Governo
Civil—fervera n'elle e em
Gracinha uma impaciencia desesperada por penetrar os motivos, a
encoberta historia d'aquella reconciliação
surprehendente. Depois a fuga
de Gonçalo na caleche para a Torre, sem parar nos Cunhaes; a
repentina
jornada do Cavalleiro a Lisboa; o silencio que sobre aquelle caso se
abatera mais pesado que uma tampa de ferro—quasi os aterrou. Gracinha
á
noite, no Oratorio, murmurava atravez das resas
distrahidas:—«Oh, minha
rica Nossa Senhora, que será?»—Barrôlo
não ousára correr á Torre; mas
até sonhava com a varanda do Governo Civil, que lhe
apparecia enorme,
crescendo, atravancando Oliveira, roçando já as
janellas dos Cunhaes
d'onde elle a repellia com o cabo d'uma vassoura... E eis agora
Gonçalo
e André que entram na cidade a cavallo, muito serenamente,
ambos de
chapeus de palha, como companheiros constantes recolhendo d'um passeio!
Logo á porta do quarto, Barrôlo atirou os
braços, rompeu aos brados:
—Então que tem sido tudo isto?... Não se falla
n'outra coisa!... Tu com
o André!
Gracinha, arfando, tão vermelha como as fitas do chapeu,
só balbuciava:
—E nem vens, nem escreves... Nós com tanto cuidado...
E mesmo rente da porta aberta, sem se sentarem, o Fidalgo aclarou o
«Mysterio», com a toalha ainda nas mãos:
—Uma cousa muito inesperada, mas muito natural. O Sanches Lucena
morreu, como vocês sabem. Ficou vago o circulo de
Villa-Clara. É um
circulo por onde só póde sahir um homem da terra,
com propriedade, com
influencia. O governo immediatamente me mandou perguntar, pelo
telegrapho, se eu me desejava propôr... Ora eu, no fundo,
estou de bem
com os Historicos, sou amigo do José Ernesto... Estimava
entrar na
Camara... Acceitei.
O Barrôlo esmagou a coxa com uma palmada triumphal:
—Então era certo, caramba!
O Fidalgo continuava, enxugando interminavelmente as mãos:
—Acceitei, está claro, com condições;
e muito fortes. Mas acceitei...
N'este caso, como vocês sabem, convem que o candidato se
entenda com o
Governador Civil. Eu, ao principio, não queria renovar
relações. Instado
porém, muito instado de Lisboa, e por
considerações superiores de
Politica, consenti n'esse sacrificio. Nas difficuldades em que se
encontra o paiz todos devem fazer sacrificios. Eu fiz esse... O
André,
de resto, foi muito amavel, muito affectuoso. De sorte que estamos
outra
vez amigos. Amigos politicos: mas muito bem, muito lealmente... Almocei
hoje com elle em Corinde, viemos juntos pelos Freixos. Uma tarde
linda!... Emfim renasceu a antiga harmonia. E a
eleição está segura.
—Venham de lá esses ossos! berrou o Barrôlo,
transportado.
Gracinha terminára por se sentar á borda do
leito, com o chapeu no
regaço, enlevada para o irmão, n'um silencioso
enternecimento em que os
seus doces olhos se humedeciam e riam. O Fidalgo, que se desprendera do
abraço do Barrôlo, dobrava a toalha com um vagar
distrahido:
—A eleição está segura, mas
precisamos trabalhar. Tu, Barrôlo, tens de
conversar tambem com o Cavalleiro. Já combinei.
Ámanhã no Governo Civil,
ás duas
horas. É necessario que vocês
se entendam por causa dos votos da
Murtosa...
—Prompto, menino! o que vocês quizerem! Votos, dinheiro...
E Gonçalo, borrifando vagamente o jaquetão com
agua de Colonia que
pingava no soalho:
—Desde o momento em que eu me reconciliei com o André, tudo
acabou. Tu,
Barrôlo, immediatamente te reconcilias tambem...
Barrôlo quasi pulou, no seu deslumbramento:
—Pois está claro! E ainda bem, que eu gosto immensamente do
Cavalleiro!
Até sempre teimava com Gracinha... «Oh senhores,
esta tolice, por causa
da Politica!...»
—Bem! concluiu o Fidalgo. A Politica nos separou, a Politica nos
reune... É o que se chama a inconstancia dos Tempos e dos
Imperios.
E agarrou Gracinha pelos hombros, com um beijo brincalhão,
estalado em
cada face:
—A tia Arminda? Boa, da escaldadella? Já voltou
ás façanhas de
Leandro
o Bello?
Gracinha resplandecia, com o lento sorriso que se não
desfizera, a
envolvia toda em claridade e doçura:
—A tia Arminda está melhor, já anda. Perguntou
por ti... Mas, oh
Gonçalo, tu de certo queres jantar!
—Não, almocei tremendamente em Corinde...
Vocês,
como jantaram á hora
antiga da tia Arminda, ceiam, hein? Então logo ceio... Agora
apenas uma
chavena de chá, muito forte!
Gracinha correu, no alvoroço de servir o heroe querido. E
pela escada,
descendo com Barrôlo que o contemplava, o Fidalgo da Torre
lamentou os
seus sacrificios:
—É verdade, menino, é uma massada... Mas que
diabo! todos devemos
concorrer para tirar o paiz do atoleiro!
Barrôlo, maravilhado, murmurava:
—E sem dizeres nada... Assim á capucha! Assim á
capucha!...
—E agora outra cousa, Barrôlo. Ámanhã,
no Governo Civil, deves convidar
o André a jantar...
—Com certeza! gritou o Barrôlo. Jantar d'estrondo?
-—Não, homem! Jantar muito quieto, muito intimo. Unicamente
o André e o
João Gouveia. Telegraphas ao João Gouveia. Tambem
pódes convidar os
Mendonças... Mas jantar muito discreto, só para
conversarmos, para
firmar a reconciliação d'um modo mais sociavel,
mais elegante.
Ao outro dia, no Governo Civil, Barrôlo e o Cavalleiro
apertaram as mãos
com tanta singelleza, como se ambos, ainda na vespera, andassem jogando
o bilhar e caturrando no club da rua das Pêgas.
De resto
conversaram
summariamente sobre a Eleição. Apenas o
Cavalleiro alludira com
indolencia aos votos de Murtosa—o bom Barrôlo quasi se
engasgou, na
ancia de os offerecer:
—E o que vocês quizerem... Votos, dinheiro, o que
vocês quizerem!...
Vocês digam! Eu vou para a Murtosa, e é comezaina,
e pipa de vinho
aberta, e a freguezia inteira a votar no meio de foguetorio...
O Cavalleiro, rindo, amansou aquelle fervor faustoso:
—Não, meu caro Barrôlo, não!
Nós preparamos uma eleição muito
sobria,
muito socegada. Villa Clara elege Gonçalo Mendes Ramires
deputado,
naturalmente, como o seu melhor homem. Não ha combate, o
Julinho é uma
sombra. Portanto...
O Barrôlo persistia, radiante, gingando:
—Perdão, André, perdão! Lá
isso vinhaça, e vivorio, e foguetorio, e
festança magna...
Mas Gonçalo, embaraçado, ancioso por suster a
garrulice do Barrôlo, as
palmadas carinhosas com que elle se atufava na intimidade do
Cavalleiro,
apontou para a mesa de S. Ex.
a:
—Tu tens que fazer, André. Vejo ahi uma papelada
pavorosa... Não
roubemos mais tempo ao chefe illustre do Districto! Ao trabalho!
Trabalhar, meu irmão, que o
trabalho
É André,
é virtude, é valor!...
Agarrára o chapeu, acenando ao cunhado. Então
Barrôlo, com as bochechas
a estalar de gosto, balbuciou o convite que firmaria a
reconciliação
d'um modo sociavel e elegante:
—Cavalleiro, para conversarmos melhor, se você nos quizer
dar o gosto
de vir jantar... Quinta feira, ás seis e meia...
Nós, quando cá está o
Gonçalo, jantámos sempre mais tarde.
O Cavalleiro, que corára, agradeceu com discreta ceremonia:
—É para mim um immenso prazer, uma immensa honra...
E á porta da antesala onde os acompanhára,
segurando o pesado reposteiro
de baeta escarlate com as Armas Reaes bordadas—supplicou ao
Barrôlo que
pozesse os seus respeitos aos pés da snr.
a
D.
Graça...
Barrôlo, descendo a larga escadaria de pedra, limpava a
testa, o
pescoço, humedecidos pela emoção. E no
páteo desabafou:
—Muito sympathico este André! Rapaz franco, de quem sempre
gostei...
Realmente estava morto que acabassem estas historias... E mesmo
lá para
os Cunhaes, para a companhia, para o cavaco, que bella
acquisição!
Quinta feira de manhã depois do almoço, no
terraço do jardim onde
tomavam café, Gonçalo recommendou ao
Barrôlo que «para accentuar mais
completamente a intimidade simples do jantar não pozesse
casaca...»
—E tu, Gracinha, vestido afogado. Mas vestidinho claro, alegre...
Gracinha sorriu, indecisamente, continuando a folhear um
Almanach
de
Lembranças estendida n'uma cadeira de verga, com
um gatinho
branco no
regaço.
Depois do alvoroço e pasmo de Domingo, ella apparentava
agora um
desinteresse silencioso pela reconciliação que
ainda abalava Oliveira,
pela Eleição, pelo jantar. Mas n'esses dias
não socegára—tão impaciente
e sensivel que o bom Barrôlo incessantemente lhe aconselhava
o grande
remedio da Mamã contra os nervos,
«flôres d'alecrim, cosidas em vinho
branco.»
Gonçalo percebia claramente a
perturbação em que a lançava aquella
entrada triumphal de André, do antigo André, na
sua casa de casada, nos
Cunhaes. E para se tranquillisar evocava (como na estrada do cemiterio
em Villa-Clara) a seriedade de Gracinha, o seu rigido e puro pensar, a
altivez da sua almasinha heroica. N'essa manhã mesmo,
todo
no fresco e
soffrego cuidado da sua Eleição, só
receava que Gracinha, por embaraço
ou cautella, acolhesse seccamente o Cavalleiro, o esfriasse no seu
renovado fervor pela casa de Ramires, no seu patrocinato Politico. E
insistiu, gracejando:
—Ouviste, Gracinha? Um vestido branco. Um vestidinho alegre, que sorria
aos hospedes...
Ella murmurou, mergulhada no seu
Almanach:
—Sim, realmente, com este calor...
Mas Barrôlo bateu uma palmada na côxa. Que pena!
que pena não ter em
Oliveira, «para o brinde de
reconciliação», um famoso vinho do
Porto, da
garrafeira da Mamã, preciosissimo, velhissimo, do tempo de
D. João II...
—D. João II? rosnou Gonçalo. Está
estragado!
Barrôlo hesitou:
—D. João II ou D. João VI... Um d'esses Reis.
Emfim um vinho unico, do
seculo passado! Só restam á mamã oito
ou dez garrafas... E hoje, era dia
para uma, hein?
O Fidalgo deu um sorvo lento ao café:
—O André, antigamente, tambem gostava muito d'ovos
queimados...
Bruscamente Gracinha fechou o
Almanach—e, com
uma fuga e um silencio
que emmudeceram Gonçalo, sacudiu do collo o gato dorminhoco,
atravessou
o
terraço, desappareceu entre os teixos altos do jardim.
Mas á tarde, quando o Fidalgo occupou o seu logar na mesa
oval, junto da
prima Maria Mendonça—logo notou, entre duas compoteiras,
uma travessa
d'ovos queimados. Apesar de jantar tão intimo serviam, com a
louça da
China, os famosos talheres dourados da baixella do tio Melchior. E duas
jarras de Saxe transbordavam de cravos brancos e amarellos,
côres
heraldicas dos Ramires.
D. Maria, que não encontrára o querido primo
desde os annos de Gracinha,
murmurou com um sorriso, uma grave cortezia, n'aquelle cerimonioso
silencio em que se desdobravam os guardanapos:
—Ainda lhe não dei os parabens, primo Gonçalo...
Elle acudiu, mechendo nervosamente nos copos:
—Chut! prima, chut! Hoje aqui, já está decidido,
não se allude sequer a
Politica... Está muito calor para Politica.
Ella suspirou de leve, como desfallecida: Ai, o calor... Que horrivel
calor! Desde que entrára nos Cunhaes com aquelle vestido
preto que «era
o seu pallio rico»—ainda não cessára
de invejar a frescura do vestido
branco de Gracinha...
—Que bem que lhe fica! Está hoje linda!
Era um vestido liso de crepon branco, que
aclarava,
remoçava
a sua graça
quasi virginal. E nunca realmente tanto prendera, assim clara e fina,
com os verdes olhos refulgindo como esmeraldas lavadas, uma
ondulação
mais lustrosa nos pesados cabellos, um macio rubor transparente, todo
um
fresco brilho de flôr regada, de flôr revivida,
apesar do acanhamento
que lhe immobilisava os dedos ao erguer a colhér de prata
dourada. E ao
lado, superiormente robusto e largo, com o peitilho arqueado como uma
couraça e cravejado de duas saphiras, uma rosa branca
desabrochada na
lapella, André Cavalleiro, que recusára a sopa
(oh, no verão nunca comia
sopa!) dominava a mesa, levemente commovido tambem, passando sobre o
reluzente bigode um lenço tão perfumado que
afogava o perfume dos
cravos. Mas foi elle que encadeou a animação com
risonhos queixumes
sobre o calor—o escandaloso calor d'Oliveira... Ah! que Purgatorio
abrasado—depois dos seus dois dias de Paraiso, na frescura deliciosa de
Cintra!
D. Maria Mendonça adoçou os espertos olhos para o
Snr. Governador
Civil.—E então Cintra? Animada? Muitos ranchos á
tarde, em Setiaes?
Encontrára a Condessa de Chellas—a prima Chellas?...
Sim, na Pena, na sua visita á Rainha, Cavalleiro
conversára durante um
momento com a Snr.
a Condessa de Chellas...
—Ah! e a Rainha?...
—Oh, sempre encantadora...
A Snr.
a Condessa de Chellas, essa, um pouco
magra. Mas tão
amavel, tão
intelligente, tão verdadeiramente
grande
dame—não é verdade? E, como
se inclinára para Gracinha, com uma doçura
infinita no simples mover da
cabeça—ella, perturbada, mais vermelha, balbuciou que
não conhecia a
Condessa de Chellas...—D. Maria Mendonça accusou logo a
inercia dos
primos Barrôlos, sempre encafurnados nos Cunhaes, sem nunca
se
aventurarem a Lisboa no inverno, para conviver, para conhecer os
parentes...
—E a culpa é do primo José, que detesta Lisboa...
Oh não! Barrôlo não detestava Lisboa!
Se podesse acarretar para Lisboa
as suas commodidades, o seu quarto, a sua cocheira, a boa agua do
pomar,
a rica varanda sobre o jardim—até se regalava!
—Mas entalado n'aquelles quartinhos do Bragança... E depois
a má
comida, o barulho... A Gracinha em Lisboa nunca dorme... E a massada
das
manhãs?... Não ha nada que fazer em Lisboa, de
manhã!
O Cavalleiro sorria para o Barrôlo, como enlevado
na sua
graça e razão.
Depois confessou que elle, apesar de habitar tambem (mercê do
Estado!)
um palacete confortavel, e gozar tambem uma agua excellente, a
finissima
agua do Poço de S. Domingos, lamentava que os deveres de
Politica, a
disciplina de Partido o amarrassem a Oliveira. E toda a sua
esperança
era a queda do Ministerio, para se libertar, passar tres mezes divinos
em Italia...
Do outro lado de Gracinha, João Gouveia (sempre acanhado e
mudo deante
de senhoras) exclamou, n'um impulso d'amisade, de
convicção:
—Pois, Andrésinho, vae perdendo a esperança! O
S. Fulgencio não arreia!
Ainda cá te apanhamos uns tres ou quatro annos!
E insistiu, debruçado sobre Gracinha, n'um
esforço d'amabilidade que o
esbraseava:
—O S. Fulgencio não arreia. Ainda cá temos o
nosso André mais tres ou
quatro annos.
André protestava, com um requebro, as espessas pestanas
quasi cerradas:
—Oh meu João! não me queiras mal, não
me queiras mal!...
E teimava. Ah, com certeza! ainda que desertasse o seu partido (e que
importa em hoste poderosa uma lança ferrugenta?) esses mezes
d'Italia no
inverno já os sonhára, já os
preparava...—E a
Snr.
a
D. Graça
não
permittia que elle a servisse d'um pouco de vinho branco?
Barrôlo estendeu o braço, com effusão:
—Oh Cavalleiro! eu tenho empenho em que você prove esse
vinho com
cuidado... É da minha propriedade do Corvello...
Faço muito gosto
n'elle. Mas prove com attenção!
S. Ex.
a provou com
devoção, como se commungasse.
E com uma cortezia
compenetrada para Barrôlo que reluzia de gosto:
—Uma delicia! uma verdadeira delicia!
—Hein? Não é verdade? Eu, para mim, prefiro este
vinho do Corvello a
todos os vinhos francezes, os mais finos... Até alli o nosso
amigo Padre
Sueiro, que é um Santo, o aprecia!
Silencioso, esbatido por traz d'uma das altas jarras de cravos, Padre
Sueiro corou, sorriu:
—Com muita agua, infelizmente, Snr. José
Barrôlo... O gosto pede, mas o
rheumatismo não consente.
Pois José Mendonça, que não temia
rheumatismos, atacava sempre
bravamente aquelle bemdito Corvello...
—Que lhe parece a você, João Gouveia?
Oh! João Gouveia já o conhecia, louvado Deus! E
certamente nunca
encontrára em Portugal, como
vinho
branco, nenhum comparavel
pela
frescura, pelo aroma, pela seiva...
—E cá lhe vou atiçando com fervor,
Barrôlo amigo! Esta bella garrafa de
crystal vae de vencida!
Barrôlo exultava. O seu desgosto era que Gonçalo
nunca honrasse «aquelle
nectar.»—Não! Gonçalo não
tolerava vinhos brancos...
—E então hoje estou com uma d'estas sêdes que
só me satisfaz vinho
verde, assim um pouco espumante, e com gelo... Que este de Vidainhos
tambem é do Barrôlo. Oh, eu não
desprezo os vinhos da familia... Este
Vidainhos sinceramente o considero sublime.
Então Cavalleiro desejou provar esse sublime vinho verde da
quinta de
Vidainhos, em Amarante. O escudeiro, a um aceno enthusiasmado do
Barrôlo, apresentou a Sua Ex.
a um copo
esguio, especial para
aquelle
vinho que espumava. Mas o Cavalleiro, acariciando o fresco copo sem o
erguer, repisou a idéa de ferias, de viagens, como
accentuando o seu
cançasso e fastio d'Oliveira.—E sabia a Snr.
a
D.
Graça para onde elle
seguiria, depois da Italia, n'esse Inverno, se por caridade de Deus o
Ministerio cahisse?... Para a Asia Menor.
—E era uma viagem para que eu, com certesa, tentava o nosso
Gonçalo...
Tão facil, agora, com os
caminhos
de ferro!... De Veneza a
Constantinopla um mero passeio. Depois, de Constantinopla a Smyrna, um
dia, dous dias, n'um vapor excellente. E d'ahi n'uma bôa
caravana, por
Tripoli, pela antiga Sidonia, penetravamos em Galiléa...
Galiléa! Hein
Gonçalo? Que belleza!
Padre Sueiro, suspendendo o garfo, lembrou timidamente—que em
Galiléa o
Snr. Gonçalo Ramires pisaria terra que outr'ora, por pouco,
pertencera á
sua Casa:
—Um dos antepassados de V. Ex.
a, Gutierres
Ramires, companheiro de
Tancredo na primeira Cruzada, recuzou o ducado de Galiléa e
de
Além-Jordão...
—Fez pessimamente! gritou Gonçalo, rindo. Oh, esse
avô Gutierres andou
pessimamente! Por que não existia agora, n'este mundo,
disparate mais
divertido do que eu Duque de Galiléa! O Snr.
Gonçalo Mendes Ramires,
Duque de Galiléa e d'Além-Jordão!...
Era simplesmente de rebentar!
Cavalleiro protestou, com sympathia:
—Ora essa! Por que?
—Não acredite! acudiu, com os olhos coruscantes, D. Maria
Mendonça. O
primo Gonçalo, com todas estas graças, no fundo,
é muitissimo
aristocrata... Mas terrivelmente aristocrata!
O Fidalgo da Torre pousou o copo de Vidainhos, depois d'um trago
saboreado e fundo:
—Aristocrata... Está claro que sou aristocrata. Sentiria
com effeito
certo desgosto em ter nascido, como uma herva, d'outras hervas vagas.
Gósto de saber que nasci de meu pae Vicente, que nasceu de
seu pae
Damião, que nasceu de seu pae Ignacio, e assim sempre
até não sei que
Rei Suevo...
—Recesvinto! informou respeitosamente Padre Sueiro.
—Pois até esse Recesvinto. O peor é que o sangue
de todos esses paes
não differe realmente do sangue dos paes do Joaquim da
Porta. E que
depois do Recesvinto, para traz, até Adão,
não tenho mais paes!
E, emquanto todos riam, D. Maria Mendonça,
debruçada para elle, por traz
do leque largamente aberto, murmurou:
—O Primo está com esses deprezos... Pois eu sei d'uma
senhora que tem a
maior admiração pela casa de Ramires e pelo seu
representante.
Gonçalo enchia de novo o copo, com amor, attento
á espuma:
—Bravo! Mas «convém distinguir», como
diz o Manoel Duarte. Por quem tem
ella a verdadeira admiração, por mim ou pelo
Suevo, pelo Recesvinto?
—Por ambos.
—Diabo!
Depois, pousando a garrafa, mais sério:
—Quem é?
Oh! ella não podia confessar. Não era ainda
bastante velha para andar
com recadinhos de sentimento. Mas Gonçalo dispensava o
nome—só desejava
as qualidades... Nova? Bonita?
—Bonita? exclamou D. Maria. É uma das mulheres mais
formosas de
Portugal!
Espantado, Gonçalo lançou o nome:
—A D. Anna Lucena!
—Por quê?
—Por que mulher assim tão formosa, e vivendo n'estes
sitios, e tão
conhecida da prima que lhe faz confidencias, só a D. Anna.
D. Maria, ageitando as duas rosas que lhe alegravam o corpete de
sêda
preta, sorria:
—Talvez seja, talvez seja...
—Pois estou immensamente lisongeado. Mas ainda distingo, como o Manoel
Duarte. Se, da parte d'ella, essa sympathia toda é para o
bom fim, não!
Não, santo Deus, não!... Mas se é para
o mau fim, então, prima,
cumprirei honradamente o meu dever dentro das minhas
forças...
D. Maria escondeu a face no leque, escandalisada. Depois, espreitando,
com os agudos olhos a faiscar:
—Oh primo, mas o bom fim é que convinha,
por que a cousa
é a mesma e
são duzentos contos a mais!
Gonçalo gritou d'admiração:
—Oh! esta prima Maria! Não ha em toda a Europa ninguem mais
esperto!
Todos curiosamente anciaram por saber a nova graça da Snr.
a
D. Maria.
Mas Gonçalo deteve as curiosidades:
—Não se póde contar. É casamento.
Então José Mendonça recordou a
novidade picante que desde a vespera
remexia Oliveira:
—Por casamento!... Que me dizem ao casamento da D. Rosa Alcoforado?
Barrôlo, depois o Gouveia, até Gracinha, todos o
proclamaram «um
horror.» Aquella perfeita rapariga, de pelle tão
côr de rosa, de cabello
tão côr d'ouro, amarrada ao Teixeira de Carredes,
um patriarcha
carregado de netos... Que desastre!
Pois ao Cavalleiro o casamento não parecia assim
«desastrado.» O
Teixeira de Carredes, além de muito fino, de muito
intelligente, era um
velho verdejante, quasi sem rugas—até bonito com aquelle
contraste do
bigode escuro e da grenha riçada e branca. E na Snr.
a
D.
Rosa, com
todas as rosas da sua pelle e todo o ouro dos seus cabellos, dominava
«um não sei quê» de
amollentado e de sorvado... Depois
pouco
esperta. E
pouco cuidadosa—sempre mal penteada, sempre mal pregada...
—Emfim, V. Ex.
as perdoem... Mas quem faz um
casamento muito
desenxabido é o pobre Teixeira de Carredes.
D. Maria Mendonça considerava o Governador Civil com um
espanto amavel:
—Pois se o Snr. Cavalleiro não admira a Rosinha Alcoforado,
não sei
então que rapariga admire dentro do seu Districto...
Elle, logo, com galante rasgo:
—Mas, além de V. Ex.
as,
não admiro ninguem!
Realmente eu governo, em
Portugal, o Districto mais daprovido de belleza...
Todos protestaram. E a Maria Marges? E a pequena Reriz, da Riosa? E a
Mellosinho Alboim, com aquelles olhos?... Mas o Cavalleiro
não
consentia, a todas demolia com um sarcasmo leve, ou pela pelle sem
frescura, ou pelo pisar desairoso, ou pelo provincianismo de gosto e
modos, sempre pela carencia das bellezas e graças que
ornavam
Gracinha—lançando assim disfarçadamente, aos
pés de Gracinha, um rôlo
de senhoras vencidas e amarfanhadas. Ella percebera a subtil
adulação,
os seus olhos allumiaram com um fulgor mais enternecido o rubor que a
afogueava. Desejou repartir incenso
tão
accumulado—lembrou
timidamente
outra belleza de que se orgulhava o Districto:
—A filha do Visconde de Rio-Manso, a Rosinha Rio-Manso... É
linda!
O Cavalleiro triumphou com facilidade:
—Mas tem doze annos, minha senhora! Nem é rosinha,
é botãosinho de
rosa!...
Quasi humildemente, Gracinha recordou a Luiza Moreira, filha d'um
lojista, muito admirada aos domingos na missa da Sé e no
Terreiro da
Louça:
—É uma bella rapariga... Sobretudo a figura...
Cavalleiro triumphou ainda, com requebrada segurança:
—Sim, mas os dentes tortos, Snr.
a D.
Graça! Os dentes
acavallados! V.
Ex.
a nunca reparou... Oh! uma bôca
muito desagradavel! E,
além dos
dentes, o irmão, o Evaristo, com aquella cara mais chata que
a alma, e a
caspa, e a porcaria, e o jacobinismo... Não ha mulher bonita
com irmão
tão feio!
Mendonça estendera o braço, com outra curiosidade
que occupava Oliveira:
—E por Evaristo!... Elle sempre funda o novo jornal republicano, o
Rebate?
O Snr. Governador Civil encolheu os hombros com uma ignorancia superior
e risonha. Mas João Gouveia, vermelho e luzidio depois da
sua garrafa de
Corvello e da sua garrafa de Douro, affiançou
que o
Rebate
apparecia
em Novembro. Até elle conhecia o patriota que esportulava a
«massa.» E a
campanha do
Rebate começava com cinco
artigos esmagadores
sobre a
Tomada da Bastilha.
O espanto de Gonçalo era como o Republicanismo
alastrára em
Portugal—até na velhota, na devota Oliveira...
—Quando eu andava em preparatorios existiam simplesmente dois
republicanos em Oliveira, o velho Salema, lente de Rhetorica, e eu.
Agora ha partido, ha comité, ha dous jornaes... E ha mesmo o
Barão das
Marges com a
Voz Publica na mão,
debaixo da Arcada...
Mendonça não receava a Republica, gracejava:
—Ainda vem longe, muito longe... Ainda nos dá tempo de
comermos estes
bellos ovos queimados.
—Deliciosos, murmurou o Cavalleiro.
—Sim, concordou Gonçalo, ainda temos tempo para os ovos...
Mas que
rebente uma revolução em Hespanha, ou que morra o
Reisinho na sua
menoridade, que naturalmente morre...
—Credo! Coitadinho! Pobre mãe! murmurou Gracinha
sensibilisada.
Immediatamente o Cavalleiro a tranquillisou. Porquê, morrer o
Reisinho
d'Hespanha? Os republicanos espalhavam boatos sombrios sobre os males
da
excellente creança. Mas elle conhecia a
realidade—assegurava
á
Snr.
a
D. Graça que, felizmente para a Hespanha, ainda reinaria um
Affonso XIII
e mesmo um Affonso XIV. Em quanto aos nossos republicanos, esses... Meu
Deus! mera questão de guarda municipal! Portugal, nas suas
massas
profundas, permanecia monarchico, de raiz. Apenas ao de cima, na
burguezia e nas escolas, fluctuava uma escuma ligeira, e bastante suja,
que se limpava facilmente com um sabre...
—V. Ex.
a, Snr.
a D.
Graça, que é uma dona de
casa perfeita, conhece
esta operação que se faz á panella do
caldo... Escumar a panella. É com
uma colher. Aqui é com um sabre. Pois assim, com toda a
simplicidade, se
clarifica Portugal. E foi isto que ainda ultimamente eu declarei a
El-rei.
Alteára a cabeça—o seu peitilho resplandecia,
mais largo, como couraça
bastante rija para defender toda a Monarchia. E, no compenetrado
silencio que se alargou, duas rolhas de Champagne estalaram, por traz
do
biombo, na copa.
Apenas o escudeiro, apressado, enchêra as taças—o
Fidalgo da Torre com
uma gravidade que o sorriso adoçava:
—André, á tua saude. Não é
ao Governador Civil, é ao amigo!
Todos os copos se ergueram n'um susuro acariciador. João
Gouveia agitou
o seu, com especial
effusão,
gritando:—«Andrésinho, meu velho!» S.
Ex.
a apenas tocou de leve no calice de Gracinha.
Padre Sueiro murmurou
as «graças.» E Barrôlo,
atirando o guardanapo:
—Café aqui ou na sala?... Na sala estamos mais frescos.
Na sala grande, a sala dos velludos vermelhos, o lustre rebrilhava
solitariamente; pelas tres janellas abertas penetrava a serenidade da
noite quente, o recolhido silencio d'Oliveira; e em baixo, no Largo,
alguns sujeitos, mesmo duas senhoras de manta de lã branca
pela cabeça,
pasmavam para aquella claridade de festa que jorrava dos Cunhaes. O
Cavalleiro e Gonçalo accenderam os charutos na varanda,
respirando a
frescura escassa. E o Cavalleiro, com beatitude:
—Pois sempre te digo, Gonçalinho, que se janta sublimemente
em casa de
teu cunhado!...
Gonçalo desejou que, no domingo, elle jantasse na Torre.
Ainda restavam
umas garrafas de Madeira do tempo do avô Damião—a
que se daria, com
soccorro do Gouveia e do Titó, um assalto heroico.
O Cavalleiro prometteu, já deliciado—tomando da pesada
bandeja de
prata, que derreava o escudeiro, a sua chavena de café, sem
assucar.
—E tu, com effeito, Gonçalo, agora não deves
arredar da Torre. O teu
papel é todo de presença na localidade. O Fidalgo
da Torre está no meio
das
suas terras,
por onde vae ser eleito para as Côrtes.
É o teu
papel...
O Barrôlo com um riso enlevado, surdiu entre os dous amigos
que enlaçou
ternamente pela cinta:
—E nós cá ficamos, ambos a trabalhar, o
Cavalleiro e eu!...
Mas D. Maria, do canapé onde se enterrára,
reclamou o primo Gonçalo
«para negocios.» Junto d'uma console,
João Gouveia e Padre Sueiro,
remexendo o seu café, concordavam na necessidade d'um
Governo forte. E
Gracinha, com o primo Mendonça, revolvia as musicas sobre a
tampa do
piano, procurando o
Fado dos Ramires.
Mendonça tocava com
corredio
brilho, composera valsas, um hymno ao Coronel Trancoso, o heroe de
Machumba—e mesmo o primeiro acto d'uma opera,
A Pegureira.
E como
não
descortinavam o
Fado com as quadras do
Videirinha—foi justamente uma
das suas valsas, a
Perola, d'uma cadencia amorosa
e
cançada lembrando
a valsa do Fausto, que elle atacou, sem largar o charuto.
Então André Cavalleiro, que
repenetrára vagarosamente na sala, repuxou o
collete, afagou o bigode, e avançando para Gracinha, com um
modo meio
grave, meio folgazão:
—Se V. Ex.
a me quer dar a grande honra?...
Offerecia, abria os braços. E Gracinha, toda escarlate,
cedeu, levada
logo nos largos passos deslisados que o Cavalleiro lançou
sobre o
tapete. Barrôlo e João Gouveia correram a afastar
as poltronas,
clareando um espaço, onde a valsa se desenrolou com o suave
sulco branco
do vestido de Gracinha. Pequenina e leve, toda ella se perdia, como se
fundia, na força mascula do Cavalleiro, que a arrebatava em
giros
lentos, com a face pendida, respirando os seus cabellos magnificos.
Da borda do canapé, com os finos olhos a fusilar, D. Maria
Mendonça
pasmava:
—Mas que bem que valsa, que bem que valsa o Snr. Governador Civil!...
Ao lado Gonçalo torcia nervosamente o bigode, na surpreza
d'aquella
familiaridade, assim renovada pelo Cavalleiro com tão serena
confiança,
por Gracinha com tanto abandono... Elles torneavam,
enlaçados. Dos
labios do Cavalleiro escorregava um sorriso, um murmurio. Gracinha
arfava, os seus sapatos de verniz reluziam sob a saia que se enrolava
nas calças do Cavalleiro. E Barrôlo, em extasi,
quando elles o roçavam,
atirava palmas carinhosas, bradava:
—Bravo! Bravo! Lindamente!... Bravissimo!
VII
Gonçalo recolhia para o almoço depois d'um
passeio no pomar percorrendo
a
Gazeta do Porto, quando avistou no banco de
pedra, rente
á porta da
cosinha, onde a Rosa mudava o painço na gaiola do seu
canario, o Casco,
o José Casco dos Bravaes, que esperava, pensativo e abatido,
com o
chapeu sobre os joelhos. Vivamente, para se esquivar, remergulhou no
jornal. Mas percebeu a esgalgada magreza do homem, que surdia da sombra
da latada, avançava na claridade faiscante do pateo,
hesitando, como
assustada... E, animado pela visinhança da Rosa, parou,
forçando um
sorriso—em quanto o Casco enrolava nas mãos tremulas a aba
dura do
chapeu, balbuciava:
—Se o Fidalgo me fizesse a esmola de uma palavra...
—Ah! é vossê, Casco! Homem, não o
conheci... E então?
Dobrou o jornal, tranquillisado—gozando mesmo a submissão
d'aquelle
valente que tanto o apavorára, erguido e negro como um
pinheiro, na
solidão do pinheiral. E o Casco, engasgado, repuchava,
esticava o
pescoço de dentro dos grossos collarinhos
bordados—até que atirou toda
a alma n'uma supplica soluçada, retendo as lagrimas que
marejavam:
—Ai, meu Fidalgo, perdôe por quem é!
Perdôe, que eu nem lhe sei pedir
perdão!...
Gonçalo atalhou o homem, com generosidade e
doçura. Elle bem o avisára!
Nada se emenda, a gritar, com o pau alçado...
—E olhe, Casco! Quando vossê me sahiu ao pinhal eu levava um
revólver
na algibeira... Trago sempre um revólver. Desde que uma
noite em
Coimbra, no Choupal, dous bebados me assaltaram, ando sempre
á cautella
com o revólver... Pense você agora que
desgraça se tiro o revólver, se
desfecho!... Que desgraça, hein?... Felizmente, n'um
relance, pensei que
me perdia, que o matava, e fugi. Foi por isso que fugi, para
não
desfechar o revólver... Emfim tudo passou. E eu
não sou homem de
rancores, já esqueci. Comtanto que vossê, agora
socegado e no seu juizo,
esqueça tambem.
O Casco amassava as abas do chapeu, com a cabeça
derrubada.
E sem a
erguer, sem ousar, rouco dos soluços que o entalavam:
—Pois agora é que eu me lembro, meu Fidalgo! Agora
é que me ralo por
aquella doidice! Agora! depois do que o Fidalgo fez pela mulher e pelo
pequeno!...
Gonçalo sorriu, encolheu os hombros:
—Que tolice, Casco!... Pois a sua mulher apparece ahi n'uma noite
d'agua... E o pequenito doente, coitadito, com febre... Como vae elle,
o
Manelsinho?
O Casco murmurou do fundo da sua humildade:
—Louvado seja Deus, meu senhor, muito sãosinho, muito
rijinho.
—Ainda bem... Ponha o chapeu. Ponha o chapeu, homem! E adeus!...
Vossê
não tem que agradecer, Casco... E olhe! Traga cá
um dia o pequeno. Eu
gostei do pequeno. É espertinho.
Mas o Casco não se arredava, pregado ás lages.
Por fim, n'um soluço que
rebentou:
—É que eu não sei como hei-de dizer, meu
Fidalgo... Lá o dia de cadeia,
acabou! Tenho genio, fiz a asneira, com o corpo a paguei. E pouco
paguei, graças ao Fidalgo... Mas depois quando sahi, quando
soube que a
mulher viera de noite á Torre, e que o Fidalgo
até a embrulhára n'uma
capa, e que não deixára sahir o pequeno...
Estacou, afogado pela emoção. E como
Gonçalo,
tambem
commovido, lhe
batia risonhamente no hombro, «para acabar, não se
fallar mais n'essas
bagatellas...»—o Casco rompeu, n'uma grande voz dolorosa e
quebrada:
—Mas é que o Fidalgo não sabe o que é
para mim aquelle pequeno!...
Desde que Deus m'o mandou tem sido uma paixão cá
por dentro que até
parece mentira!... Olhe que na noite que passei na cadeia da villa
não
dormi... E Deus me perdôe, não pensei na mulher,
nem na pobre da velha,
nem na pouquita terra que amanho, tudo ao desamparo. Toda a noite se
foi
a gemer:—«ai o meu querido filhinho! ai o meu querido
filhinho!...»
Depois quando a mulher, logo pela estrada, me diz que o Fidalgo
ficára
com elle na Torre, e o deitára na melhor cama, e
mandára recado ao
medico... E depois quando soube pelo snr. Bento que o Fidalgo de noite
subia a vêr se elle estava bem coberto, e lhe entalava a
roupa,
coitadinho...
E arrebatadamente, n'um choro solto, gritando:—«Ai meu
Fidalgo! meu
Fidalgo!...»—o Casco agarrou as mãos de
Gonçalo, que beijava,
rebeijava, alagava de grossas lagrimas.
—Então, Casco! Que tolice!... Deixe homem!
Pallido, Gonçalo saccudia aquella gratidão
furiosa—até que ambos se
encararam, o Fidalgo com as pestanas molhadas e tremulas, o lavrador
dos
Bravaes
soluçando,
n'uma confusão. E foi elle por
fim que, recalcando um
derradeiro soluço, se recobrou, desafogou da idéa
que o trouxera, que de
certo fundamente o trabalhára, e que agora lhe enrijava a
face e o gesto
n'uma determinação que nunca vergaria:
—Meu Fidalgo, eu não sei fallar, não sei
dizer... Mas se d'hoje em
deante, seja para que fôr, o Fidalgo necessitar da vida d'um
homem, tem
aqui a minha!
Gonçalo estendeu a mão ao lavrador, muito
simplesmente—como um Ramires
d'outr'ora recebendo a preitezia d'um vassallo:
—Obrigado, José Casco.
—Entendido, meu Fidalgo, e que Deus nosso Senhor o
abençôe!
Gonçalo, perturbado, galgou pela escadinha da
varanda—emquanto o Casco
atravessava o páteo vagarosamente, com a cabeça
bem erguida, como homem
que devêra e que pagára.
E em cima, na livraria, Gonçalo pensava com
espanto:—«Ahi está como
n'este mundo sentimental se ganham dedicações
gratuitamente!...» Por que
emfim! quem não impediria que uma criancinha com febre
affrontasse de
noite uma estrada negra, sob a chuva e o vendaval? Quem a
não deitaria,
não lhe adoçaria um grog, não lhe
entalaria os cobertores para a
conservar bem abafada? E por esse grog e por essa cama—corre o pae,
tremendo e chorando,
a
offerecer a sua vida! Ah! como era facil ser
Rei—e ser Rei popular!
E esta certeza mais o animava a obedecer ás
recommendacões do
Cavalleiro—a começar immediatamente as suas visitas aos
Influentes
eleitoraes, essas aduladoras visitas que assegurariam á
Eleição uma
unanimidade arrogante. Logo ao fim do almoço, mesmo sobre a
toalha,
arredando os pratos, copiou a lista d'esses Magnates—por um rascunho
annotado que lhe fornecera o João Gouveia. Era o Dr.
Alexandrino; o
velho Gramilde, de Ramilde; o Padre José Vicente, da Finta;
outros
menores:—e o Gouveia marcára com uma cruz, como o mais
poderoso e mais
difficil, o Visconde de Rio-Manso, que dispunha da immensa freguezia de
Canta-Pedra. Gonçalo conhecia esses senhores, homens de
propriedade e de
dinheiro (com todos outr'ora o papá andára
endividado)—mas nunca
encontrára o Visconde de Rio-Manso, um velho brazileiro,
dono da quinta
da
Varandinha, onde vivia solitariamente com uma
neta de onze annos,
essa linda Rosinha que chamavam «o botão de
Rosa», a herdeira mais rica
de toda a Provincia. E logo n'essa tarde, em Villa-Clara, reclamou ao
João Gouveia uma carta d'apresentação
para o Rio-Manso:
O Administrador hesitou:
—Vossê não precisa carta... Que diabo!
Vossê
é
o Fidalgo da Torre!
Chega, entra, conversa... Além d'isso na
Eleição passada o Rio-Manso
ajudou os Regeneradores; de modo que estamos um pouco sêccos.
O
Rio-Manso é um casmurro... Mas com effeito,
Gonçalinho, convem começar
essa caça á popularidade!
N'essa noite, na Assembleia, o Fidalgo, encetando a
«caça á
popularidade», acceitou um convite do Commendador
Romão Barros (do
massador, do burlesco Barros) para o brodio faustoso com que elle
celebrava, na sua quinta da
Roqueira, a festa de
S. Romão.
E essa
semana inteira, depois outra, as gastou assim por Villa-Clara, amimando
eleitores—a ponto de comprar horrendas camisas de chita na loja do
Ramos, de encommendar um sacco de café na mercearia do
Tello, de
offerecer o braço no largo do Chafariz á nojenta
mulher do bebedissimo
Marques Rosendo, e de frequentar, de chapeu para a nuca, o bilhar da
rua
das Pretas. João Gouveia não approvava estes
excessos—aconselhando
antes «boas visitas, com todo o
chic,
aos influentes
sérios.» Mas
Gonçalo bocejava, adiava, na insuperavel preguiça
de affrontar a
maledicencia rabujenta do velho Gramilde ou a solemnidade forense do
Dr.
Alexandrino.
Agosto findava:—e por vezes, na livraria, Gonçalo,
coçando
desconsoladamente a cabeça, considerava as brancas tiras
d'almaço, o
Capitulo III da
Torre
de D. Ramires encalhado...
Mas quê!
não podia,
com aquelle calor, com o afan da Eleição,
remergulhar nas eras
Affonsinas!
Quando refrescavam as tardes lentas montava, alongava o passeio pelas
freguezias, não se descuidando das
recommendações do
Cavalleiro—enchendo sempre o bolso de rebuçados d'avenca
para atirar ás
creanças. Mas, n'uma carta ao querido André,
já confessára que «a sua
popularidade não crescia, não
enfunava...»—«Não! positivamente, velho
amigo, não tenho o dom! Sei apenas palestrar familiarmente
com os
homens, comprimentar pelo seu nome as velhas ás soleiras das
portas,
gracejar com a pequenada, e se encontro uma boeirinha de saiasita rota
dar cinco tostões á boeirinha para uma saiasita
nova... Ora todas estas
cousas tão naturaes sempre as fiz naturalmente, desde rapaz,
sem que me
conquistassem influencia sensivel... Necessito portanto que essa
querida
Authoridade m'empurre com o seu braço possante e
destro...»
Todavia já uma tarde, encontrando junto da Torre o velho
Cosme de
Nacejas, e depois, n'um domingo, crusando ás
Ave-Marias
na
Bica-Santa
o Adrião Pinto do logar da Levada, ambos lavradores
considerados e
remexedores d'eleições—lhes pedira os votos,
desprendidamente e rindo.
E quasi se assombrára da promptidão, do fervor,
com que ambos se
offereceram.—«Para
o Fidalgo? Pois isso está
entendido! Ainda que se
votasse contra o Governo, que é pae!»—E em
Villa-Clara, com o Gouveia,
Gonçalo deduzia d'estas offertas tão acaloradas
«a intelligencia
politica da gente do campo»:
—Está claro que não é pelos meus
lindos olhos! Mas sabem que eu sou
homem para fallar, para luctar pelos interesses da terra... O Sanches
Lucena não passava d'um Conselheiro muito rico e muito mudo!
Esta gente
quer deputado que grite, que lide, que imponha... Votam por mim por que
sou uma intelligencia.
E o Gouveia volvia, contemplando pensativamente o Fidalgo:
—Homem! quem sabe? Vossê nunca experimentou,
Gonçalo Mendes Ramires.
Talvez seja realmente pelos seus lindos olhos!