O relogio de charão, no corredor, rouquejou as nove horas. E
só então
Gonçalo percebeu a densa chuva que alagava a quinta, e a que
elle,
embebido na sua gloria, passeando pela livraria n'um luminoso rolo de
imaginações, não sentira o rumor sobre
a pedra da varanda, nem sobre a
folhagem dos limoeiros.
Para se calmar, occupar a noite encerrada, deliberou trabalhar na
Novella. E realmente agora convinha
que
terminasse essa
Torre
de D.
Ramires antes do afan da Eleição—para
que em
Janeiro, ao abrir das
Côrtes, surgisse na Politica com o seu velho nome aureolado
pela
Erudição e pela Arte. Envergou o
roupão de flanella. E á banca, com o
costumado bule de chá inspirador, repassou lentamente o
começo do
Capitulo II—que o não contentava.
Era no castello de Santa Ireneia, n'aquelle dia de Agosto em que
Lourenço Ramires cahira no valle de Canta-Pedra, mal ferido
e captivo do
Bastardo de Bayão. Pelo Almocadem dos peões, que,
com o braço varado por
uma chuçada, voltára em desesperada carreira ao
Castello, já Tructezindo
Ramires conhecia o desventuroso desfecho da lide.—E n'este lance o tio
Duarte, no seu poemeto do
Bardo,
com um lyrismo molle, mostrava o
enorme
Rico-Homem gemendo derramadamente atravez da sala-d'armas, na saudade
d'esse filho, flôr dos Cavalleiros de Riba-Cavado, derrubado,
amarrado
n'umas andas, á mercê da gente de
Bayão...
Lagrimas irrepresas lhe rebentam,
Arfa o arnez c'o soluçar
ardente!...
Ora, levado no harmonioso sulco do tio Duarte, tambem elle, nas linhas
primeiras do Capitulo, esboçára o velho abatido
sobre um escanho, com
lagrimas
relusentes
sobre as barbas brancas, as duras mãos
descahidas
como as de languida Dona—em quanto que nas lages, batendo a cauda, os
seus dois lebreus o contemplam n'uma sympathia anciada e quasi humana.
Mas, agora, este choroso desalento não lhe parecia coherente
com a alma
tão indomavelmente violenta do avô Tructezindo. O
tio Duarte, da casa
das Balsas, não era um Ramires, não sentia
hereditariamente a fortaleza
da raça:—e, romantico plangente de 1848,
inundára logo de prantos
romanticos a face ferrea de um lidador do seculo XII, d'um companheiro
de Sancho I! Elle porém devia restabelecer os espiritos do
Senhor de
Santa Ireneia dentro da realidade epica. E, riscando logo esse
descorado
e falso começo de Capitulo, retomou o lance mais
vigorosamente, enchendo
todo o castello de Santa-Ireneia d'uma irada e rija alarma. Na sua
lealdade sublime e simples Tructezindo não cuida do
filho—adia a
desforra do amargo ultraje. E o seu esforço todo se commette
a apressar
os aprestos da mesnada, para correr elle sobre Montemor, e levar
ás
Senhoras Infantas os soccorros de que as privára a embuscada
de
Canta-Pedra! Mas quando o impetuoso Rico-Homem com o Adail, na
sala-d'armas, regia a ordem da arrancada—eis que os esculcas, abrigados
do calor d'Agosto nos miradouros, enxergam ao longe, para
além do
arvoredo da Ribeira, coriscos d'armas, uma cavalgada
subindo para
Santa-Ireneia. O Villico, o gordo e azafamado Ordonho, galga arquejando
aos eirados da torre albarrã—e reconhece o
pendão de Lopo de Bayão, o
seu toque de trompas á mourisca, arrastado e triste no
silencio dos
campos. Então arqueia as cabelludas mãos na
bôca, atira o alarido:
—Armas, armas! que é gente de Bayão!...
Besteiros, ás quadrellas!
Homens em chusma ás lavadiças da carcova!
E Gonçalo, coçando a testa com a rama da penna,
rebuscava ainda outros
veridicos brados, de bravo som Affonsino—quando a porta da livraria
abriu cautellosamente, atravez d'aquelle perro rangido que o
desesperava. Era o Bento, em mangas de camisa:
—O Snr. Dr. não poderia descer cá baixo
á cozinha?
Gonçalo embasbacou para o Bento, pestanejando, sem
comprehender:
—Á cozinha?...
—É que está lá a mulher do Casco a
levantar uma celeuma. Parece que lhe
prenderam o homem esta tarde... Appareceu ahi por baixo de agoa, com os
pequenos, até um de mama. Quer por força fallar
com o Snr. Dr. E não se
calla, lavada em lagrimas, de joelhos com os filhos, que é
mesmo uma
Ignez de Castro!
Gonçalo murmurou—«que massada!» E que
contrariedade! A
mulher, n'uma
agonia, entre gritos, arrastando os filhos supplicantes até
ao portão da
Torre! E elle, nas vesperas da sua Eleição,
apparecendo a todas as
freguezias enternecidas como um fidalgo deshumano!...—Atirou a penna
furiosamente:
—Que massada! Dize á creatura que me deixe, que se
não afflija... O
Snr. Aministrador ámanhã manda soltar o Casco. Eu
mesmo vou a
Villa-Clara, antes d'almoço, para pedir. Que se
não afflija, que não
aterre os pequenos... Corre, dize, homem!
Mas o Bento não despegava da porta:
—Pois a Rosa e eu já lhe dissemos... Mas a mulherzinha
não acredita,
quer pedir ao Snr. Dr.! Veio por baixo d'agoa. Até um dos
pequenitos
está bem doentinho, ainda não fez
senão tremer...
Então Gonçalo, sensibilisado, atirou á
meza um murro que tresmalhou as
tiras da Novella:
—Ora se uma cousa d'estas se atura! Um homem que me quiz matar! E
agora, por cima, é sobre mim que desabam as lagrimas, e as
scenas, e a
creança doente! Não se pode viver n'esta terra!
Um dia vendo casa e
quinta, emigro para Moçambique, para o Transvaal, para onde
não haja
massadas... Bem, dize á mulher que já
desço.
O Bento approvou, com effusão:
—Pois se o Snr. Dr. lhe não custa... E como
é
para dar uma boa nova...
Sempre consola a pobre mulherzinha!...
—Lá vou, homem, lá vou! Não me masses
tambem... Impossivel trabalhar
n'esta casa! Outra noite perdida!
Enfiou violentamente para o quarto, atirando as portas—com a ideia de
metter na algibeira do roupão duas notas de dez
tostões que consolariam
os pequenos. Mas, deante da gaveta, recuou, vexado. Que brutalidade,
compensar com dinheiro creancinhas—a quem elle arrancára o
pae,
algemado, para o trancar n'uma enxovia! Agarrou simplesmente n'uma
boceta de alperces seccos—dos famosos alperces do Convento de
Santa-Brigida de Oliveira, que na vespera lhe mandára
Gracinha. E,
cerrando lentamente o quarto, já se arrependia da sua
severidade, tão
estouvada, que assim desmanchava a quietação de
um casal. Depois no
corredor, ante a chuva clamorosa que dos telhados se despenhava nas
lages do pateo, ainda mais doridamente se impressionou, com a imagem da
pobre mulher, tresloucada pela negra estrada, puxando os filhinhos
encharcados, moídos, contra a tormenta solta. E ao penetrar
no corredor
da cozinha—tremia como um culpado.
Atravez da porta envidraçada sentiu logo a Rosa e o Bento
consolando a
mulher, com palradora confiança, quasi risonhos. Mas os
«ais» d'ella, os
ruidosos
lamentos
pelo «seu rico homem», resoavam,
mais agudos, como a
rebater e a abafar toda a consolação. E apenas
Gonçalo empurrou
timidamente a porta—quasi acuou no espanto e medo d'aquella
afflicção
estridente que se arremessava para elle e para a sua misericordia! De
rojos nas lages, torcendo as magras mãos sobre a
cabeça, toda de negro,
parecendo mais negra e dolorosa contra a vermelhidão do
lençol estendido
que seccava ao lume forte da lareira—a creatura estalára
n'um tumulto
de supplicas e gritos:
—Ai, meu rico Senhor, tenha compaixão! Ai, que me prenderam
o meu
homem, que m'o vão mandar para a Africa degredado! Jesus,
meus filhinhos
da minha alma que ficam sem pae! Ai, pelas suas almas, meu senhor, e
por
toda a sua felicidade!... Eu sei que elle teve culpa! Aquillo foi
perdição que lhe deu! Mas tenha piedade d'estas
creancinhas! Ai, o meu
pobre homem que está a ferros! Ai, meu rico Senhor, por quem
é!
Com as palpebras humedecidas, agarrando desesperadamente, a boceta
d'alperces, Gonçalo balbuciava, atravez da
emoção que o estrangulára:
—Oh mulher, socegue, já o vão soltar! Socegue!
Já dei ordem! Já o vão
soltar!
E d'um lado a Rosa, debruçada sobre a escura creatura que
gemia,
recomeçava docemente:—«Pois
foi o que lhe
dissemos, tia Maria! Logo
pela manhã, o vão soltar!»—E do outro
o Bento, batendo na coxa, com
impaciencia:—«Oh mulher, acabe com esse escarceu! Pois se o
Snr. Dr.
prometteu! Logo pela manhã o vão
soltar!»
Mas ella não se calmava, com o lenço da
cabeça desmanchado, uma trança
desprendida, soluçando e clamando atravez dos
soluços:
—Ai que eu morro, se o não vejo solto! Ai
perdão, meu rico Senhor da
minha alma!...
Então Gonçalo, que aquelle infindavel e obtuso
queixume torturava, como
um ferro cravado e recravado, bateu o chinello nas lages, berrou:
—Escute, mulher! E olhe para mim! Mas de pé, de
pé!... E olhe bem, olhe
direita!
Hirtamente erguida, atirando as mãos para as costas como a
escapar
d'algemas que tambem a ameaçassem—ella arregalou para o
Fidalgo os
olhos espavoridos, fundos olhos pretos, de fundas olheiras tristes, que
lhe enchiam a face rechupada e morena.
—Bem, perfeitamente! exclamava Gonçalo. E agora diga! Acha
que tenho
bojo de lhe mentir, quando vocemecê está n'essa
afflicção? Pois então
socegue, acabe com os gritos, que, sob minha palavra,
ámanhã cedo, o seu
homem está solto!
E a Rosa e o Bento, ambos triumphando:
—Pois que lhe dizia a gente, creatura de Deus?
Se
o Snr. Dr. tinha
promettido... Ámanhã lá tem o homem!
Lentamente ella limpava as lagrimas, já silenciosas,
á ponta do avental
negro. Mas, ainda desconfiada, com os tenebrosos olhos mais
arregalados,
devorando Gonçalo. E o Fidalgo mandava com certeza a ordem,
cedinho, de
madrugada?...—Foi o Bento que a convenceu, com violencia:
—Oh mulher, vossê até parece atrevida! Ora essa!
Pois duvida da palavra
do Snr. Dr.?
Ella soltou o avental, baixou a cabeça, suspirou
simplesmente:
—Ai, então muito obrigada, seja pela felicidade de todos...
E agora a curiosidade de Gonçalo procurava os pequenos que
ella
acarretára desde os Bravaes atravez da chuva cerrada. A
pequenina de
mama dormia com beatitude sobre a tampa de uma arca, onde a boa Rosa a
aconchegára entre mantas e fronhas. Mas o pequeno, de sete
annos,
encolhido n'uma cadeira deante do lume, rente ao lençol que
seccava,
seccando tambem, com a carinha afogueada de febre, tossia
despedaçadamente, n'um cabecear de somno e
cançasso, a arquejar, a gemer
contra a tosse que o esfalfava. Gonçalo pousou a boceta de
alperces na
arca, palpou a mão com que elle, sem cessar, raspava pela
abertura da
camisa encardida o peito ainda mais encardido.
—Mas esta creanca tem febre!... E vossê, com uma noite
d'estas, traz o
pequeno assim desde os Bravaes, mulher?
Da cadeirinha baixa, onde se sentára prostrada, ella
murmurou, sem
erguer a magra face, torcendo a ponta do avental:
—Ai! era para que elles tambem pedissem, que estavam sem pae,
coitadinhos!
—Vocemecê é doida, mulher! E pretende talvez
voltar para os Bravaes,
debaixo d'agoa, com as creanças?
Ella suspirou:
—Ai! volto, volto... Não posso deixar sózinha a
mãe do meu homem, que
tem oitenta annos e está entrevada.
Então o Fidalgo cruzou descorçoadamente os
braços—no embaraço d'aquella
aventura, em que, por culpa da sua ferocidade, se arriscavam duas
creanças. Mas a Rosa entendia que a pequenina, a de mama,
não soffreria
com a caminhada, bem achegadinha ao collo da mãe, debaixo de
uma manta
grossa. Agora o outro, com a tosse, com a febre...
—Esse fica cá! exclamou logo Gonçalo, decidido.
Como se chama elle?
Manoel... Bem! O Manoel fica cá. E vá
descançada, que a Sr.
a Rosa toma
cuidado.
Precisa
uma boa gemada, depois um bom suadoiro. Um d'estes
dias
lá lhe apparece nos Bravaes, curado e mais gordo...
Vá socegada!
De novo a mulher suspirou, no cançasso immenso que a
invadira, a
amollecia. E sem resistir, no seu longo e abatido habito de
submissão:
—Pois sim senhor, se o Fidalgo manda, está muito bem...
O Bento, entreabrindo a porta do pateo, annunciava uma
«aberta», o
negrume a levantar. Gonçalo immediatamente apressou a volta
aos Bravaes:
—E não tenha medo, mulher. Vae um moço da quinta
com uma lanterna, e um
guarda chuva para abrigar a pequena... Escute! Vocemecê
até podia levar
uma capa de borracha!... Oh Bento, corre, desce a minha capa de
borracha. A nova, a que comprei em Lisboa...
E quando o Bento trouxe o «impermeavel» de longa
romeira, o lançou por
sobre os hombros da mulher, que o estofo rico intimidava, com o seu
ruge-ruge de seda—foi na cozinha uma divertida risada. O pranto
passára, como a chuva. Agora era uma visita amoravel,
findando n'um
arranjo alegre d'agasalhos. A Rosa apertava as mãos, banhada
de gosto:
—Assim é que vocemecê fica uma bonita Madama,
hein!... Se fosse
de dia,
olhe que se juntava gente!
A mulher sorria emfim, descoradamente, sem interesse:
—Ai! nem sei que pareço... Que avantesma!
Atravez do pateo, onde as acacias gottejavam docemente,
Gonçalo
acompanhou o rancho até á porta do pomar,
gritando ainda—«Agasalhem bem
a pequena!»—quando já a lanterna do
moço se fundia na humida espessura
da noite acalmada. Depois, na cozinha, batendo contra as lages as solas
dos chinellos molhados, apalpou novamente o Manoelsinho, que adormecera
n'um somno rouquejado, torcido sobre as costas da cadeira.
—Tem pouca febre... Mas precisa um suadoiro forte. E, antes de o
cobrirem bem, um leite quente, quasi a ferver, com cognac... O que elle
precisava tambem era esfregado a côco... Que porcaria de
gente! Emfim
fica para mais tarde, quando se curar... E agora, oh Rosa, mande acima
alguma cousa para eu cear, cousa solida, que não jantei, e o
sarau foi
tremendo!
Na livraria, depois de mudar os chinellos, descançar,
Gonçalo escreveu
ao Gouveia uma carta reclamando com commovida urgencia a liberdade do
Casco. E accrescentava:—«É o primeiro pedido que
lhe faz o deputado por
Villa-Clara (comprimente!),
porque
acabo de receber telegramma do nosso
André, annunciando que «
tudo feito,
ministro
concorda, etc.» De sorte
que precisamos communicar! Queira pois vossa mercê vir jantar
ámanhã a
esta sua Torre, á sombra do Titó e com
acompanhamento de Videirinha.
Estes dous benemeritos são indispensaveis para que haja
appetite e
harmonia. E rogo, Gouveia amigo, que os avise do festim, para me evitar
a remessa de circulares eloquentes...»
Lacrada a carta, retomou languidamente o manuscripto da Novella. E,
trincando a rama da penna, ainda procurou vozes, de bom sabor medieval,
para aquelle lance em que o Villico e as roldas enxergavam a cavalgada
do Bastardo, pela encosta da Ribeira, com refulgidos d'armas, sob o
rijo
sol d'Agosto...
Mas a sua imaginação, desde a carta escripta ao
Gouveia pelo «Deputado
de Villa-Clara» escapava desassocegadamente da velha Honra de
Santa
Ireneia—esvoaçava teimosamente para os lados de Lisboa, da
Lisboa do S.
Fulgencio. E o eirado da torre albarran, onde o gordo Ordonho gritava
esbaforido—incessantemente se desfazia como nevoa molle, para sobre
elle surgir, appetitoso e mais interessante, um quarto do Hotel
Bragança
com varanda sobre o Tejo... Foi um allivio quando o Bento o apressou
para a ceia. E á mesa espalhou livremente a
imaginação
por
Lisboa, pelos
corredores de S. Carlos, por sob as arvores da Avenida, atravez dos
antiquados palacios dos seus parentes em S. Vicente e na
Graça, atravez
das salas mais modernas de cultos e alegres amigos—parando
ás vezes
deante de visões que considerava com um riso deleitado e
mudo. Alugaria
aos mezes, certamente, uma carruagem da Companhia. E para as
sessões de
S. Bento sempre luvas côr de perola, uma flor no peito. Por
commodidade
levava o Bento, bem apurado, com casaca nova...
O Bento entrou com a garrafa do cognac n'uma salva. Dera a carta ao
Joaquim da Horta com a recommendação de correr
logo ás seis horas a casa
do Snr. Administrador, de se demorar na Villa por deante da Cadeia
até
soltarem o Casco.
—E já deitamos o pequeno no quarto verde. Fica perto de
mim, que tenho
o somno leve, se elle berrar... Mas já dorme regaladamente.
—Está socegado, hein? acudiu Goncalo, sorvendo á
pressa o calice de
cognac. Vamos vêr esse cavalheiro!
E tomou um castiçal, subiu ao quarto verde com o Bento,
sorrindo,
abafando os passos pela estreita escada. No corredor, junto da poria,
n'um desbotado camapé de damasco verde, a Rosa
dobrára carinhosamente a
roupa trapalhona do pequeno, o collete esgaçado, as
calças enormes, só
com um
botão.
Dentro o leito de pau preto, vasto leito de
ceremonia,
atravancava a parede forrada d'um velho papel avelludado de ramagens
verdes. Ao lado dos dous postes torneados, á cabeceira,
pendiam dous
paineis, retratos de antigos Ramires, um Bispo obeso folheando um
folio,
um formoso Cavalleiro de Malta, de barba ruiva, appoiado á
espada, com
um laçarote de rendas sobre a couraça polida. E
nos altos colchões o
Manoelzinho resonava, sem tosse, quieto, abafado pela grossura dos
cobertores, humedecido por um suor fresco e sereno.
Gonçalo, caminhando sempre de leve, repuxou cuidadosamente a
dobra do
lençol. Desconfiado das janellas decrepitas, experimentou
que não
entrasse traiçoeiro ar pelas gretas. Mandou pelo Bento
buscar uma
lamparina, que arranjou sobre o lavatorio, com a luz esbatida por traz
d'uma vazilha. Ainda attentamente relanceou os olhos lentos pelo
quarto,
para se assegurar do socego, do silencio, da penumbra, do conforto. E
sahiu, sempre na ponta dos pés, sorrindo, deixando o filho
do Casco
velado pelos dous nobres Ramires—o Bispo com o seu Tratado, o
Cavalleiro de Malta com a sua pura espada.
Recolhendo do Tanque-Velho, do fundo da quinta, onde passára
a calma,
depois do almoço, na frescura do arvoredo, entre susurros de
agoas
correntes, a folhear um volume do
Panorama—Gonçalo
encontrou sobre a
mesa da livraria, com o correio de Oliveira, uma carta que o
surprehendeu, enorme, em papel almaço, fechada por uma
obreia. E dentro
a assignatura, desenhada a tinta azul, era um
coração chammejante.
N'um relance devorou as linhas, pautadas a lapis, d'uma lettra gorda,
arredondada com esmero:—«Caro e Ex.
mo
Snr.
Gonçalo Ramires. O
galante Governador civil do Districto, o nosso atiradiço
André
Cavalleiro, passeiava agora coastantemente por deante dos Cunhaes,
olhando com ternura para as janellas e para o honrado brazão
dos
Barrôlos. Como não era natural que andasse a
estudar a architetura do
Palacete (que nada tem de notavel), concluiu a gente seria que o digno
Chefe do Districto esperava que V. Ex.
a
apparecesse a alguma das
janellas do Largo, ou das que deitam para a rua das Tecedeiras, ou
sobretudo
no mirante do Jardim, para reatar com
V. Ex.
a a antiga e
quebrada amizade. Por isso muito acertadamente procedeu V. Ex.
a
em
correr pessoalmente ao Governo Civil, e propor a
reconciliação, e abrir
os braços generosos
ao
velho amigo, evitando assim que a
primeira
Auctoridade do Districto continuasse a esbanjar um tempo precioso
n'aquelles passeios, de olhos pregados no Palacete dos fidalguissimos
Barrôlos. Enviamos portanto a V. Ex.
a
os nossos sinceros
parabens por
esse acertado passo que deve calmar as impaciencias do fogoso
Cavalleiro
e redondar em beneficio dos serviços publicos!»
Revirando o papel nas mãos, Gonçalo pensou:
—É das Louzadas!
Ainda estudou a lettra, as expressões, descortinando que
redundar fora
escripto com um O,
architectura sem C. E rasgou
furiosamente a grossa
folha, rosnando no silencio da livraria:
—Aquellas bebadas!
Sim, era d'ellas, das odiosas Louzadas! E essa origem mais o
aterrava—porque maledicencia, lançada por tão
ardentes espalhadoras de
maledicencias, já certamente penetrára em todas
as casas d'Oliveira,
mesmo na Cadeia, mesmo no'Hospital! E agora a cidade divertida,
lambendo
o escandalo, relacionava perfidamente os rodeios do André
pelos Cunhaes
com essa sua visita ao Governo Civil que assombrára a
Arcada. Na ideia
pois d'Oliveira, e sob a inspiração das
Louzadas—fôra elle, elle,
Gonçalo Mendes Ramires, que arrancára o
Cavalleiro á sua Repartição, o
conduzira serviçalmente ao Largo d'El-Rei, lhe
escancarára
as portas do
Palacete até ahi rondadas e miradas sem proveito, e com
sereno descaro
alcovitára os amores da irmã! Se taes
desavergonhadas não mereciam que
lhes arregaçassem as sujas saias no meio da
Praça, em manhã de Missa, e
lhes fustigassem as nadegas melladas, furiosamente, até que
o sangue
ensopasse as lages!...
E, para maior damno, as apparencias todas se combinavam contra elle,
traidoramente! Essa insistencia de André, cocando Gracinha,
estrondeando
a calçada em torno do Palacete, crescera, impressionava,
justamente
agora, n'este Agosto, nas vesperas d'essa sua
apparição á janella do
Governo Civil, que Oliveira commentava como um misterio historico. Que
inopportunamente morrera o animal do Sanches de Lucena! Mezes antes,
nem
mesmo a malicia das Louzadas ligaria a sua
reconciliação com André a um
cêrco amoroso que não
começára, ou não andava tão
murmurado. Tres ou
quatro mezes depois, André, sem esperança ante o
Palacete inaccessivel,
certamente findaria os seus giros pelo Largo, de rosa ao peito! Mas
não!
infelizmente quando esse André, com maior estrepito, ronda a
porta
almejada—é que elle acode, e abraça o rondador,
e lhe facilita a porta!
E assim a maledicencia das Louzadas encontrava uma base, a que todos na
cidade podiam palpar a substancia, e a solidez, e sobre ella se erigia
como Verdade Publica! Infames Louzadas!
Mas agora? O que? manter rigidamente as suas
relações com o Cavalleiro
dentro da Politica, evitando escorregadias intimidades que o tornassem
logo nos Cunhaes, como outr'ora na Torre, o conviva desejado? Como
poderia? Desde que elle se reconciliava com André, logo e
tão
naturalmente como a sombra segue a inclinação do
ramo, se reconciliava
tambem o Barrôlo, seu cunhado e sua sombra... Mas como
impôr ao Barrôlo
que a sua renovada familiaridade com o Cavalleiro se realisasse
unicamente dentro da Politica como dentro d'um Lazareto?—«Eu
sou outra
vez o velho amigo do André, tu, Barrôlo,
tambem—mas nunca o convides
para a tua mesa, nem lhe abras a tua
porta!»—Imposição desconcertada,
de dura impertinencia—e que, na pequena Oliveira, logo os faceis
encontros, a simplicidade hospitaleira do Barrôlo, quebrariam
como um
barbante poido... E depois que grotesca attitude a sua, hirto deante do
portão do Palacete, como um Archanjo S. Miguel, de bengala
de fogo na
mão, para sustar a intrusão de Satanaz, Chefe do
Districto! Mas tambem
que toda a cidade largasse a cochichar pelos cantos o nome de Gracinha
embrulhado ao nome de André, com o nome d'elle,
Gonçalo, emmaranhado
atravez como o fio favoravel que os atára—era horrivel.
E na impaciencia d'esta difficuldade, de malhas
tão asperas,
que tanto o
feriam, terminou por esmurrar a meza, revoltado:
—Irra, que massada! São tudo massadas, n'estas terras
pequenas e
coscovilheiras...
Em Lisboa quem se importaria que o Snr. Governador civil passeasse n'um
certo Largo—e que certo Fidalgo da Torre se reconciliasse com o Snr.
Governador Civil?... Pois acabou! Romperia soberbamente para diante,
como se habitasse Lisboa, desafogado de mexericos e de malignos
olhinhos
a cocar. Era Gonçalo Mendes Ramires, da casa de Ramires! Mil
annos de
nome e de solar! Dominava bem acima de Oliveira, de todas as suas
Louzadas. E não só pelo nome, louvado Deus, mas
pelo espirito... O André
era seu amigo, entrava em casa de sua irmã—e Oliveira que
estoirasse!
E nem consentiu que a suja carta das Louzadas desmanchasse a quieta
manhã de trabalho para que se preparára desde o
almoço, relendo trechos
do Poemeto do Tio Duarte, folheando artigos do
Panorama
sobre as
guerras de muralhas no seculo XII. Com um esforço
d'attenção erudita
abancou, mergulhou a penna no tinteiro de latão que servira
a trez
gerações de Ramires. E emquanto repassava as
tiras trabalhadas, nunca o
Castello de Santa Ireneia lhe parecera tão heroico, de
tão soberana
estatura, sobre tamanha collina d'Historia, sobranceando o Reino,
que
em
torno d'elle se alargava, se cobria de villas e messes, pelo
esforço dos
seus castellões!
Temerosa, com effeito, se erguia a antiga Honra de Santa Ireneia,
n'essa
Affonsina manhã d'Agosto e rijo sol, em que o
pendão do Bastardo
surgira, entre fulgidos d'armas, para além dos arvoredos da
Ribeira! Já
por todas as ameias se apinhavam os besteiros, espiando, encurvadas as
béstas. Das torres e adarves subia o fumo grosso do breu,
fervendo nas
cubas, para despejar sobre os homens de Bayão que tentassem
a escalada.
O Adail corria pelas quadrellas, relembrando as traças de
defeza,
revistando os feixes de virotões, os pedregulhos
d'arremesso. E no
immenso terreiro, por entre os alpendres colmados, surdiam velhos
solarengos, servos do forno, servos da abegoaria, que se benziam com
terror, puchavam pelo saião d'algum apressado homem de
rolda, para
saberem da hoste que avançava. No emtanto a cavalgada
passára a Ribeira
sobre a rude ponte de pau—já, por entre os alamos,
serenamente se
acercava do Cruzeiro de granito, outr'ora erguido nos confins da Honra
por Gonçalo Ramires, o
Cortador. E, no
socego da
manhã abrazada, mais
fundamente resoaram as buzinas do Bastardo, e o seu toque lento e
triste
á mourisca...
Mas quando Gonçalo, enlevado no trabalho, tentava
reproduzir, com termos
bem sonoros,
avidamente
rebuscados no
Diccionario de
Synonimos, o toar
arrastado das buzinas de Bayão—sentiu realmente, do lado da
Torre, um
gemer de sons graves que crescia atravez dos limoeiros. Deteve a
penna—e eis que o
Fado dos Ramires s'eleva
offertadamente da horta,
em serenada, para a varanda florida de madresilva:
Ora, quem te vê solitaria,
Torre de Santa Ireneia...
O Videirinha!—Correu alvoroçadamente á janella.
Um chapeu côco tremulou
entre os ramos, um brado estrugio, acclamador:
—Viva o deputado por Villa-Clara! Viva o illustre deputado
Gonçalo
Ramires!
No violão rompera triumphalmente o Hymno da Carta.
Videirinha, alçado na
biqueira das botas gaspeadas de verniz, gritava—«Viva a
illustre casa
de Ramires!» E por baixo do chapeu côco, sacudido
com delirio, João
Gouveia, sem poupar a garganta, urrava—«Viva o illustre
deputado por
Villa-Clara! Viva!»
Magestosamente, Gonçalo, alagado de riso, estendeu da
varanda o braço
eloquente:
—Obrigado, meus queridos concidadãos! Obrigado!... A honra
que me
fazeis, vindo assim, n'esse
formoso
grupo, o chefe glorioso da
Administração, o inspirado Pharmaceutico, o...
Mas reparou... E o Titó?
—O Titó não veio?... Oh João Gouveia,
você não avisou o Titó?
Repondo sobre a orelha o chapeu côco, o Administrador, que
arvorára uma
gravata de setim escarlate, declarou o Titó «um
animal»:
—Estava combinado virmos todos trez. Até elle devia trazer
uma duzia de
foguetes, para estalar aqui com o Hymno... A reunião era ao
pé da
Ponte... Mas o animal não appareceu. Em todo o caso ficou
avisado,
avisadissimo... E se não vier, é traidor.
—Bem, subam vocês! gritou Gonçalo. Eu n'um
instante me visto. E, para
aguçar o appetite, proponho um vermouth, depois uma volta
pela quinta
até ao pinhal!...
Immediatamente Videirinha, têso, empinando o
violão, metteu pela rua
larga da horta, recoberta de parreira; e atraz João Gouveia
atirava os
passos em cadencia nobre, alçando o guarda-sol como um
pendão. Quando
Gonçalo entrou no quarto, berrando pelo Bento e por agoa
quente—o
Fado
dos Ramires soava, em trinados heroicos, atravez do feijoal,
por sob a
janella aberta onde seccava o lençol do banho. E eram as
quadras
preferidas do Fidalgo, as quadras em que o grande avô Ruy
Ramires,
sulcando os mares
de
Mascate n'uma urca, encontra trez fortes naus
inglezas, e, do alto do seu castello de prôa, vestido de
gran-vermelha,
com a mão no cinto d'anta tauxeado d'ouro e pedras,
soberbamente as
intima a que se rendam...
Todo alegre, e a mão no
cinto.
Junto da Signa Real,
Gritando ás
naus—«Amainae
Por El-Rei de Portugal!...»
Gonçalo abotoava á pressa os suspensorios,
retomára o canto
glorificador—
Todo alegre, a mão no cinto...
Junto da
Signa
Real...—E, atravez do esforço
esganiçado,
pensava que com tal linha
d'avós, bem podia desprezar Oliveira e as suas Louzadas
horrendas. Mas o
trovão lento de Titó retumbou no corredor:
—Então esse deputado de Villa-Clara?... Já
está a vestir a farda?
Gonçalo correu á porta do quarto, radiante:
—Entra, Titó! Os deputados já não
usam farda, homem! Mas se a tivesse,
c'os diabos, ia hoje farda, e espadim e chapeu armado, para honrar
hospedes tão illustres!
O outro avançára vagarosamente, com as
mãos nas algibeiras da rabona de
velludo côr d'azeitona, o
vasto
chapeu braguez atirado para a
nuca,
desafogando a honesta face barbuda, vermelha de saude e sol:
—Eu, por farda, queria dizer libré... Libré de
lacaio.
—Ora essa!?
E o outro mais retumbante:
—Pois o que vaes tu ser, homem, senão um sujeito
ás ordens do S.
Fulgencio,
do horrendo careca? Não lhe
serves o
chá, quando elle te
mandar; mas, quando elle te mandar votar, votas! Alli, direitinho,
ás
ordens! «Oh Ramires, vote lá!» E
Ramires, zás, vota... É de escudeiro,
homem, é de escudeiro de libré...
Gonçalo sacudiu os hombros, impaciente:
—Tu és uma creatura das selvas, lacustre, quasi
prehistorica... Não
entendes nada das realidades sociaes!... Na sociedade não ha
principios
absolutos!...
Mas o Titó, imperturbavel:
—E esse Cavalleiro? Tambem já é rapaz de
talento? Tambem já governa bem
o Districto?
Então Gonçalo protestou, picado, com uma roseta
forte na face. E quando
negára elle ao André talento ou geito de
governar? Nunca! Só rira,
gracejando, da sua pompa, da bigodeira lustrosa... E de resto, o
serviço
do Paiz exigia que por vezes se alliassem homens que nem partilhavam os
mesmos gostos, nem procuravam os mesmos interesses!
—E emfim o Snr. Antonio Villalobos vem hoje um moralista muito
terrivel, um Catão com quem se não pode
jantar!... Ora foi sempre o
costume dos Philosophos muito rispidos fugir da sala do banquete onde
triumpha o devasso, e protestar comendo na cosinha!
Titó, serenamente, virou as costas magestosas.
—Onde vaes, ó Titó?
—Para a cosinha!
E, como Gonçalo ria, Titó, junto da porta,
girando como uma torre que
gira, encarou o seu amigo:
—Sério, sério, Gonçalo!
Eleição, reconciliação,
submissão, e tu em
Lisboa ás cortezias ao S. Fulgencio, e em Oliveira de
braço dado com o
André, tudo isso me parece que destoa... Mas emfim se a Rosa
hoje se
apurou, não alludamos mais a cousas tristes!
E Gonçalo bracejava, de novo protestava—quando o
violão resoou no
corredor, com as patadas bem marchadas do Gouveia, e o
Fado
recomeçou,
mais meigo, mais glorificador:
—Velha casa de Ramires,
Honra e flor de Portugal!
VI
A casa do Cavalleiro em Corinde era uma
edificação dos fins do seculo
XVIII, sem elegancia e sem arte, pintada d'amarello, lisa e vasta, com
quatorze janellas de frente, quasi ao meio d'uma quinta chã,
toda de
terras lavradas. Mas uma avenida de castanheiros conduzia, com alinhada
nobreza, ao pateo da frente, ornado por dois tanques de marmore. Os
jardins conservavam a abundancia esplendida de rosas que os
tornára
famosos—e lhes merecera em tempos do avô de
André, o Desembargador
Martinho, uma visita da Snr.
a D. Maria II. E
dentro todas as salas
reluziam d'asseio e ordem, pelos cuidados da velha governanta, uma
parenta pobre do Cavalleiro, a Snr.
a D. Jesuina
Rollim.
Quando Gonçalo, que viera da Torre na egoa, atravessou a
ante-sala,
ainda reconheceu um dos paineis da parede, fumarento combate de
galiões,
que
elle uma
tarde rasgára jogando o espadão com
André. Sob esse painel,
á borda do canapé de palhinha, esperava
melancolicamente um amanuense do
Governo Civil, com a sua pasta vermelha sobre os joelhos. E d'uma porta
remota, ao fundo do corredor, André, avisado pelo creado, o
fiel
Matheus, gritou alegremente:
—Oh Gonçalo, entra para cá, para o quarto! Sahi
da tina... Ainda estou
em ceroulas!
E em ceroulas o abraçou, n'um generoso abraço de
parabens. Depois, em
quanto se vestia, por entre as cadeiras atravancadas com o recheio das
malas—gravatas, peugas de sêda, garrafas de
perfumes—conversaram do
calor, da jornada enfadonha, de Lisboa despovoada...
—Um horror! exclamava o Cavalleiro aquecendo um ferro de frisar
á
lampada d'alcool. Todas as ruas da Baixa em obras, cobertas de
caliça,
de poeirada. O Central enfestado de mosquitos. Muito mulato. Uma Tunis,
Lisboa!... Mas emfim, lá combatemos bravamente o bom combate!
Gonçalo sorria, do canto do divan onde se
accommodára, entre uma pilha
de camisas de côr e outra de ceroulas com monogramma
flammante:
—E então, Andrésinho, tudo arranjado, hein?
O Cavalleiro, deante do toucador, frisava com enlevado esmero as pontas
grossas do bigode. E só depois
de
o ensopar em brilhantina,
d'acamar as
ondas da cabelleira rebelde, de se mirar, de se requebrar, assegurou a
Gonçalo, já inquieto, que a
eleição ficára solida...
—Mas imagina tu! Quando appareci em Lisboa, no Ministerio do Reino,
encontrei o circulo promettido ao Pitta, ao Theotonio Pitta, o grande
homem da
Verdade...
O Fidalgo pulou, despenhando a ruma de camisas:
—E então?...
E então elle mostrára muito asperamente ao
José Ernesto a inconveniencia
de dispôr do Circulo como d'um charuto, sem o consultar, a
elle,
Governador Civil—e dono do circulo... E como o José Ernesto
se
arrebitava, alludia á conveniencia superior do Governo, elle
logo,
estendendo o dedo firme:—«Pois Zésinho,
flôr, ou trago o Ramires por
Villa-Clara, ou me demitto, e arde Troia!...» Espantos,
escarceus,
berreiros—mas o José Ernesto cedêra, e tudo
findou jantando ambos em
Algés com o tio Reis Gomes, onde á noite, ao
«bluff», as senhoras lhe
arrancaram quatorze mil reis.
—Em resumo, Gonçalinho, precisamos conservar os olhos
attentos. O José
Ernesto é rapaz leal, meu velho amigo. E depois conhece o
meu genio...
Mas ha os compromissos, as pressões... E agora a novidade
pittoresca.
Sabes quem se propõe contra ti, pelos Regeneradores?...
Adivinha... O
Julinho!
—Que Julinho?... O Julio das photographias?
—O Julio das photographias.
—Diabo!
O Cavalleiro encolheu os hombros, com piedade:
—Arranja dez votos á porta da quinta, tira o retrato a
todos os
taverneiros do circulo em mangas de camisa, e continua a ser o
Julinho... Não! só Lisboa me inquieta, a canalha
politica de Lisboa!
Gonçalo torcia o bigode, desconsolado:
—Imaginei tudo mais solido, mais inabalavel... Assim com todas essas
intrigas, ainda surde trapalhada... Ainda lá não
vou!
O Cavalleiro, ao espelho, esticava o fraque—que
experimentára abotoado,
depois repuxadamente aberto sobre o collete de fustão
côr de azeitona
onde, no trespasse largo, tufava a gravata de sedinha clara, prendida
por uma saphira. Por fim, encharcando o lenço com essencia
de fêno:
—Nós estamos bem alliados, bem consagrados, não
é verdade? Então, meu
caro Gonçalo, socega, e almocemos regaladamente!... Creio
que este
fraque do nosso Amieiro assenta com certa graça, hein?
—Magnifico! affirmou Gonçalo.
—Bem. Então agora descemos ao jardim, para tu
reveres os
velhos poisos
e te florires com uma rosa de Corinde.
E logo no corredor, ornado de jarrões da India, de arcas de
charão,
enlaçando o braço de Gonçalo, do seu
recuperado Gonçalo:
—Pois, meu filho, aqui pisamos ambos de novo os nobres soalhos de
Corinde, como ha cinco annos... E nada mudou, nem um creado, nem uma
cortina! Agora, um d'estes dias, preciso visitar a Torre.
Gonçalo accudiu ingenuamente:
—Oh! a Torre está muito mudada... Muito mudada!
E um embaraçado silencio pesou—como se entre elles surgisse
a imagem
entristecida da antiga quinta, no tempo dos amores e das
esperanças,
quando André e Gracinha procuravam as ultimas violetas
d'Abril, sob o
sorriso tutelar de Miss Rhodes, rente aos humidos muros da
Mãe d'Agoa.
Ainda em silencio desceram a escada de caracol—por onde ambos outr'ora
se despenhavam cavalgando o corrimão. E em baixo, n'uma sala
abobadada,
rodeada de bancos de madeira com as armas dos Cavalleiros nas espaldas,
André quedou deante da porta envidraçada do
jardim, ondeou um gesto
desconsolado e languido:
—Eu tambem, agora, pouco appareço em Corinde. E,
comprehendes bem que
não me reteem em Oliveira os cuidados da
Administração... Mas este
casarão
arrefeceu, alargou, desde a morte da
mamã. Ando aqui como
perdido. E acredita, quando cá me demoro, são uns
passeios tristonhos
por esses jardins, pela Rua Grande... Ainda te lembras da Rua
Grande?...
Vou envelhecendo muito solitariamente, meu Gonçalo!
Gonçalo murmurou, por concordancia, sympathia renovada:
—Eu tambem m'aborreço na Torre...
—Mas tens outro genio!... E eu realmente sou um elegiaco.
Correu, com um esforço, o fecho perro da porta
envidraçada. E limpando
os dedos ao lenço perfumado:
—Eu creio que Corinde, agora, só me encantava com grandes
cerros
escalvados, grandes rochedos agrestes... Ás vezes,
cá dentro d'alma,
necessito o ermo de S. Bruno...
Gonçalo sorria d'aquelle appetite ascetico, murmurado com
preciosidade,
atravez da bigodeira torcida a ferro, resplandecente de brilhantina. E
no terraço, junto á balaustrada de pedra enramada
d'hera, galhofou,
louvando o areado alinho, o relusente viço do jardim:
—Com effeito, para um discipulo de S. Bruno, que escandalo, todo este
asseio! Mas para um peccador como eu, que delicia!... O jardim da Torre
anda um chavascal.
—A prima Jesuina gosta de flôres. Tu não conheces
a prima Jesuina? Uma
velha parenta da mamã, que governa agora a casa. Coitada! e
com um
escrupulo, com um amor... Se não fosse a santa creatura, os
porcos
fossavam nos canteiros... Meu filho, onde não ha saia,
não ha ordem!
Desceram a escadaria redonda, por entre os vasos de louça
azul que
trasbordavam de geranios, de secias, de canas da India.
Gonçalo recordou
a vespera de S. João em que rolára por aquelles
degraus, n'um trambulhão
tremendo, com os braços carregados de foguetes. E
lentamente, atravez do
jardim, evocavam memorias da camaradagem antiga. Lá se
conservava o
trapezio, dos tempos em que ambos cultivavam a religião
heroica da
força, da gymnastica, do banho frio... N'aquelle banco, sob
a magnolia,
lera uma tarde André o primeiro canto do seu Poema, o
Fronteiro
d'Arzilla. E o alvo? O alvo onde se exerciam á
pistola,
para os futuros
duellos, inevitaveis na campanha que ambos meditavam contra o velho
Syndicato Constitucional?...—Oh! toda essa parte do muro, que pegava
com o lavadoiro, fôra derrubada depois da morte da
mamã, para alargar a
estufa...
—De resto o alvo era inutil! accrescentou o Cavalleiro. Eu logo por
esse tempo entrei tambem no
Syndicato...
E agora entras tu, pela porta
que eu te abro!
Então Gonçalo, que colhêra e esmagava
entre os dedos, para lhe sorver o
perfume, folhas de lucia-lima—acudiu com uma franqueza, que aquelle
desenterrar de recordações tornava mais
penetrante e sentida:
—E eu desejo entrar, e ardentemente, bem sabes. Mas tu
afianças a
eleição, com segurança? Não
surgirá difficuldade, Andrésinho?... Esse
Pitta é um habil!
O Cavalleiro murmurou apenas, mergulhando os dedos nas cavas do collete:
—Da habilidade dos Pittas se ri a força dos Cavalleiros...
Por trez degraus de tijolo baixaram ao outro jardim, desafogado de
arvoredo e sombra, onde desabrochava desde Maio, com explendor, o
tão
celebrado bosque de roseiras, orgulho da quinta de Corinde, que
deleitára uma Rainha. Aquelle facil desdem pelo Pitta
confirmava a
segurança da Eleição.
Gonçalo, caminhando respeitosamente como n'um
Museu, regou de louvores deslumbrados as rosas do Cavalleiro:
—Uma belleza, André, uma maravilha! Tens aqui rosas
sublimes...
Aquellas repolhudas, além, que luxo! E estas amarellas?
deliciosas!...
Olha este encanto!
o
ruborsinho a surdir, a raiar, do fundo das petalas
brancas... Oh, que escarlate! Oh, que divino escarlate!
O Cavalleiro cruzára os braços, com gracejadora
melancolia:
—Pois vê tu! Tal é a minha solidão
social e sentimental que, com todas
estas rosas abertas, não tenho a quem mandar um ramo!...
Estou reduzido
a florir as Louzadas!
Um escarlate, mais vivo do que as rosas que gabava, cobriu as faces do
Fidalgo:
—As Louzadas! Oh que desavergonhadas!
André atirou ao seu amigo os lustrosos olhos, n'um inquieto
reparo de
curiosidade:
—Por quê?... Desavergonhadas, por quê?
—Por quê? Por que o são! Pela sua natureza, e
pela vontade de Deus!...
São desavergonhadas como estas rosas são
vermelhas.
E o Cavalleiro, tranquillisado:
—Ah, genericamente... Com effeito têm immensa
peçonha. Por isso eu as
cubro de rosas. E em Oliveira, todas as semanas, meu filho, tomo com
ellas um chá respeitoso!
—Pois não as amansas, rosnou o Fidalgo.
Mas o Matheus apparecêra nos degraus de tijolo com o
guardanapo na mão,
a calva rebrilhando ao sol. Era o almoço. O Cavalleiro
colheu para
Gonçalo
uma
«rosa triumphal»—e para si
um «botão innocente...» E,
enflorados, subiam para o terraço entre o brilho e o perfume
de outras
roseiras—quando o Cavalleiro parou com uma ideia:
—A que horas vaes tu para Oliveira, Gonçalinho?
O Fidalgo hesitou. Para Oliveira?... Não tencionava
apparecer em
Oliveira, toda essa semana...
—Por quê? É urgente que vá a Oliveira?
—Pois certamente, filho! Ámanhã mesmo precisamos
conversar com o
Barrôlo, combinarmos, por causa dos votos da Murtosa!... Meu
querido
Gonçalo, não podemos adormecer. Não
é pelo Julio, é pelo Pitta!
—Bem! bem! acudio logo Gonçalo, assustado. Parto para
Oliveira.
—Por que então, continuava André, vamos ambos
logo, a cavallo. É um
bonito passeio pelos Freixos, sempre com sombra... Tens talvez de
mandar
á Torre, por causa de roupa...
Não! Gonçalo, para evitar a importunidade de
malas, conservava nos
Cunhaes um bragal inteiro, desde a chinella até á
casaca. E entrava em
Oliveira como o Philosopho Bias em Athenas—com uma simples bengala e
paciencia infinita...
—Delicioso! declarou André. Fazemos então logo a
nossa entrada official
em Oliveira. É o começo da campanha.
O Fidalgo torcia o bigode, consternado, pensando nos risinhos perversos
das Louzadas, de toda a cidade, perante uma entrada tão
apparatosamente
fraternal. E, quando o Cavalleiro recommendou ao Matheus que mandasse
apromptar o
Rossilho e a egoa do Fidalgo para as
quatro horas e meia,
Gonçalo exagerou o seu receio do calor, da poeira. Antes
partissem ás
sete, pela fresca! (Assim esperava penetrar em Oliveira
desapercebidamente, esbatido no crepusculo). Mas André
protestou:
—Não, é uma secca, chegamos á noite.
Precisamos entrar com solemnidade,
á hora da musica no Terreiro... Ás cinco, hein?
E Gonçalo, vergando os hombros sob a Fatalidade:
—Pois sim, ás cinco.
Na sala de jantar, esteirada, com denegridos paineis de
flôres e fructas
sobre um papel vermelho imitando damasco, André occupou a
veneranda
cadeira de braços do avô Martinho. O brilho das
pratas, a frescura das
rosas n'uma floreira de Saxe, revelavam os desvelos da prima
Jesuina—que, com dôr d'entranhas n'essa manhã,
não se vestira, almoçava
no quarto... Gonçalo louvou aquella elegante ordem,
tão rara n'uma casa
de solteirão, lamentando a falta de uma prima Jesuina na
Torre... E
André sorria deliciadamente, desdobrando o guardanapo,
com a
esperança
que Gonçalo contasse aos Barrôlos o confortavel
luxo de Corinde. Depois,
picando com o garfo uma azeitona:
—Pois é verdade, meu querido Gonçalo,
lá estive n'essa grande Capital,
depois um dia em Cintra...
O Matheus entre-abriu a porta para recordar a S. Ex.
a
o amanuense do
Governo Civil, que esperava.
—Pois que espere! gritou S. Ex.
a.
Gonçalo lembrou que talvez o digno homem se impacientasse,
com fome...
—Pois que almoce! gritou S. Ex.
a.
Aquelle secco desprezo de André pelo pobre empregado,
esquecido no banco
d'entrada, com a sua pasta sobre os joelhos—constrangia o Fidalgo. E
espetando tambem uma azeitona:
—Dizias então, Cintra...
—Semsabor, resumiu André. Poeirada horrenda,
femeaço mediocre... E já
me esquecia. Sabes quem lá encontrei, na estrada de
Collares? O
Castanheiro, o nosso Castanheiro, o dos
Annaes,
de chapéo
alto. Ergueu
logo os braços ao céo, desolado:—«E
então esse Gonçalo Mendes Ramires
não me manda o romance?» Parece que o primeiro
numero da Revista sae em
Dezembro, e elle precisa o original em começos d'Outubro...
Lá me
supplicou que te saccudisse, que te recordasse a gloria dos Ramires. E
tu
devias acabar
a Novella... Até convem que, antes
d'entrares na
Camara, appareça um trabalho teu, um trabalho serio,
d'erudição forte,
bem portuguez...
—Pois convem! concordou vivamente Gonçalo. E á
Novella só falta o
Capitulo quarto. Mas esse justamente demanda mais
preparação, mais
pesquizas... Para o acabar precisava o espirito bem socegado, a certeza
d'esta infernal eleição... Não
é o animal do Julio que me inquieta. Mas
a canalha intrigante de Lisboa... Que te parece?
Cavalleiro riu, estendendo de novo o garfo para as azeitonas:
—Que me parece, Gonçalinho? Que estás como uma
creança pequena,
afflicta, com medo que te não chegue o prato de arroz doce.
Socega,
menino, apanhas o teu arroz doce!... Mas com effeito, encontrei o
José
Ernesto muito teimoso. Já existiam compromissos antigos com
o Pitta.
A
Verdade tem sido furiosamente ministerial... E esse Pitta,
agora quando
souber que lhe tapei Villa-Clara, arde em furor contra mim. O que me
é
soberanamente indifferente; colerasinhas ou piadinhas do Pitta
não me
tiram o appetite... Mas o José Ernesto admira o Pitta,
necessita do
Pitta, está empenhado em pagar ao Pitta com um circulo...
Ainda no
ultimo dia me disse na Secretaria, até lhe achei
graça:—«Eu vejo que os
deputados por
Villa-Clara morrem; ora se, por esse bom costume, o teu
Ramires morrer em breve, então entra o Pitta.»
Gonçalo recuou a cadeira:
—Se eu morrer!... Que animal!
—Oh, se morreres para o Circulo! atalhou o Cavalleiro rindo. Por
exemplo, se nos zangassemos, se ámanhã entre
nós surgisse uma
dissidencia... Emfim o impossivel!
O Matheus entrava com a terrina de caldo de gallinha, que rescendia.
—A elle! exclamou André. E não se falle mais de
Circulos, nem de
Pittas, nem de Julios, nem da negregada Politica!... Conta antes o
enredo da tua Novella... Historica, hein?... Meia-idade? D.
João V?...
Eu, se tentasse agora um Romance, escolhia uma epocha deliciosa,
Portugal sob os Philippes...