Durante o jantar, misturando copiosamente o Verde e o
Alvaralhão,
Gonçalo não cessou de ruminar a ousadia do Casco.
Pela vez primeira, na
historia de Santa Ireneia, um lavrador d'aquellas aldêas,
crescidas á
sombra da Casa illustre, por tantos seculos senhora em monte e valle,
ultrajava um Ramires! E brutamente, alçando o cajado, deante
dos muros
da quinta historica!... Contava seu pae que, em vida do
bisavô Ignacio,
ainda desde Ramilde até Corinde os homens dobravam o joelho
nos caminhos
quando passava o Senhor da Torre. E agora levantavam a foice!... E
porque? Por que elle não se desfalcára
submissamente das suas rendas em
proveito d'um façanhudo!—Em tempos do avô
Tructesindo, villão de tal
attentado assaria, como porco
montez,
n'uma ruidosa fogueira, deante das
barbacans da Honra. Ainda em dias do bisavô Ignacio
apodreceria n'uma
masmorra. E o Casco não podia escapar sem castigo. A
impunidade só lhe
incharia a audacia: e assomado, rancoroso, n'outro encontro, sem mais
fallas, desfechava a caçadeira. Oh! não lhe
desejava um mal duravel,
coitado, com dois filhos pequeninos—um que mamava. Mas que o
arrastassem á Administração, algemado,
entre dois cabos de policia—e
que na triste saleta, d'onde se avistam as grades da cadeia, apanhasse
uma reprehensão tremenda do Gouveia, do Gouveia muito secco,
muito
esticado na sobrecasaca negra... Assim se devia resguardar, por meios
tortuosos—pois que não era deputado, e que, com o seu
talento, o seu
nome, essa espantosa linhagem d'avós que
edificára o Reino, carecia o
prestigio d'um Sanches Lucena, o precioso prestigio que suspende no ar
os varapáus atrevidos!
Apenas findou o café, mandou pelo Bento avisar os dous
moços da horta, o
Ricardo e o outro de queixo de cavallo, que o esperassem no pateo,
armados. Porque na Torre ainda sobrevivia uma «Sala
d'armas»—cacifro
tenebroso, junto ao Archivo, onde se amontoavam peças
aboladas
d'armaduras, um lorigão de malha, um broquel mourisco,
alabardas,
espadões, polvarinhos, bacamartes de 1820, e entre esta
poeirenta
ferralhagem negra tres espingardas limpas
com
que os moços
da quinta, na
romaria de S. Gonçalo, atiravam descargas em louvor do Santo.
Depois, elle, encafuou o revólver na algibeira, desenterrou
do armario
do corredor um velho bengalão de cabo de chumbo
entrançado, agarrou um
apito. E assim precavido, aquecido pelo Verde e pelo
Alvaralhão, com os
dous creados de caçadeira ao hombro, importantes e tesos,
partiu para
Villa-Clara, procurar o Snr. Administrador do Concelho. A noite
envolvia
os campos em socego e frescura. A lua nova, que alimpára o
tempo, roçava
a crista dos outeiros de Valverde como a roda lustrosa d'um carro de
ouro. No silencio os rijos sapatões pregueados dos dous
jornaleiros
resoavam em cadencia. E Gonçalo adiante, de charuto
flammante, gosava
aquella marcha, em que de novo um Ramires trilhava os caminhos de Santa
Ireneia com homens da sua mercê e solarengos armados.
Ao começo da villa, porém, recolheu discretamente
a escolta na taverna
da Serena: e elle cortou para o Mercado da Herva, para a Tabacaria do
Simões, onde o Gouveia, áquella hora, antes da
partida da Assembléa,
costumava pousar, comprar uma caixa de phosphoros, considerar
pensativamente na vidraça as cautelas da Loteria. Mas n'essa
noite o
Snr. Administrador faltára ao Simões costumado.
Largou então para a
Assembléa: e logo em baixo,
no
bilhar, um sujeito calvo, que
contemplava
as carambolas solitarias do marcador, espapado na bancada, de collete
desabotoado, mascando um palito—informou o Fidalgo da
doença do amigo
Gouveia:
—Cousa leve, inflammação de garganta... V. Ex.
a
de certo o encontra em
casa. Não arreda do quarto desde Domingo.
Outro cavalheiro porém, que remexia o seu café
á esquina d'uma mesa
atulhada de garrafas de licôr, affiançou que o
Snr. Administrador já
espairecera n'essa tarde. Ainda pelas cinco horas elle o
encontrára na
Amoreira, com o pescoço atabafado n'uma manta de
lã.
Gonçalo, impaciente, abalou para a Calçadinha. E
atravessava o Largo do
Chafariz quando descortinou o desejado Gouveia, á porta
muito alumiada
da loja de pannos do Ramos, conversando com um homemzarrão
de forte
barba retinta e de guarda-pó alvadio.
E foi o Gouveia, que, de dedo espetado, investiu para
Gonçalo:
—Então, já sabe?
—O quê?
—Pois não sabe, homem?... O Sanches Lucena!
—O quê?
—Morreu!
O fidalgo embasbacou para o Administrador, depois
para o outro
cavalheiro, que repuxava na mão enorme, com um
esforço inchado, uma luva
preta apertada e curta.
—Santo Deus!... Quando?
—Esta madrugada. De repente. «Angina pectoris,»
não sei quê no
coração... De repente, na cama.
E ambos se consideraram, em silencio, no espanto renovado d'aquella
morte que impressionava Villa-Clara. Por fim Gonçalo:
—E eu ainda ha bocado, na Torre, a fallar d'elle! E, coitado, como
sempre, com pouca admiração...
—E eu! exclamou o Gouveia. Eu, que ainda hontem lhe escrevi!... E uma
carta comprida, por causa d'um empenho do Manoel Duarte... Foi o
cadaver
que recebeu a carta.
—Boa piada! rosnou o sujeito obeso, que se debatia ferrenhamente contra
a luva. O cadaver recebeu a carta... Boa piada!
O Fidalgo torcia o bigode, pensativo:
—Ora, ora... E que edade tinha elle?
O Gouveia sempre o imaginára um completo velho, de setenta
invernos.
Pois não! apenas sessenta, em Dezembro. Mas consumido,
arrasado. Casára
tarde, com fêmea forte...
—E ahi temos a bella D. Anna, viuva aos vinte
e
oito annos, sem filhos,
naturalmente herdeira, com o seu mealheiro de duzentos contos... Talvez
mais!
—Boa maquia! roncou de novo o oupado homem que enfiára a
luva, e agora
gemia, com as veias tumidas, para lhe apertar o colchete.
Aquelle cavalheiro constrangia o Fidalgo—ancioso por desafogar com o
Gouveia sobre «a vacatura politica,» assim
inesperadamente aberta, no
circulo de Villa-Clara, pela brusca desapparição
do Chefe tradicional. E
não se conteve, puchou o Administrador pelo botão
da sobrecasaca para a
sombra favoravel da parede:
—Oh! Gouveia! então agora, hein?... Temos
eleição supplementar... Quem
virá pelo circulo?
E o Administrador, muito simplesmente, sem se resguardar do
homemzarrão
de guarda-pó, que, emfim enluvado, accendera o charuto, se
acercava com
familiaridade—deduziu os factos:
—Agora, meu amigo, com o tio do Cavalleiro ministro da
Justiça e o José
Ernesto ministro do Reino, vae deputado pelo circulo quem o
André
Cavalleiro mandar. É claro... O Sanches Lucena manteve
sempre o seu
logar em S. Bento por uma indicação natural do
partido. Era aqui o
primeiro homem, o grande homem dos Historicos... Bem! Hoje, para
decidir
o Governo, como falta a indicação natural
do
partido, que resta? O
desejo pessoal do Cavalleiro. Você sabe como o Cavalleiro
é
regionalista. Pelo circulo pois, logicamente, sahe quem se apresente ao
Cavalleiro como um bom continuador do Lucena, pela influencia e pela
estabilidade territorial... N'outro circulo ainda se podia encaixar
á
pressa um deputado fabricado em Lisboa, nas Secretarias. Aqui
não! O
deputado tem de ser local e Cavalleirista. E o proprio Cavalleiro,
acredite você, está a esta hora
embaraçado.
O gordalhufo murmurou com importancia, atravez do immenso charuto que
mamava:
—Amanhã já estou com elle, já sei...
Mas o Administrador emmudecera, coçava o queixo, cravando em
Gonçalo os
olhos espertos, que rebrilhavam, como se uma ditosa idéa,
quasi uma
inspiração, o illuminasse. E de repente, para o
outro, que cofiava a
barba retinta:
—Pois, meu caro senhor, até além
d'ámanha. Ficamos entendidos. Eu
remetto o cestinho dos queijos directamente ao Snr. Conselheiro.
Tomou o braço de Gonçalo, que apertou com
impaciencia. E sem attender
mais ao homemzarrão, que saudava rasgadamente, arrastou o
Fidalgo para a
Calçadinha silenciosa:
—Oh, Gonçalo, ouça lá...
Vossê agora tinha
uma
occasião soberba!
Você,
se quizesse, dentro de poucos dias, estava deputado por Villa-Clara!
O Fidalgo da Torre estacára—como se uma estrella de repente
se
despenhasse na rua mal allumiada.
—Ora escute! exclamou o Administrador, largando o braço de
Gonçalo,
para desenrolar mais livremente a sua idéa. Você
não tem compromissos
serios com os Regeneradores. Você deixou Coimbra ha um anno,
tenta agora
a vida publica, nunca fez acto definitivo de partidario. Lá
uma ou outra
correspondencia para os jornaes, historias!...
—Mas...
—Escute, homem! Você quer entrar na Politica? Quer.
Então, pelos
Historicos ou pelos Regeneradores, pouco importa. Ambos são
constitucionaes, ambos são christãos... A
questão é entrar, é furar. Ora
você, agora, inesperadamente, encontra uma porta aberta. O
que o póde
embaraçar? As suas inimisades particulares com o Cavalleiro?
Tolices!
Atirou um gesto, largo e secco, como se varresse essas puerilidades:
—Tolices! Entre vocês não ha morte d'homem. Nem
vocês, no fundo, são
inimigos. O Cavalleiro é rapaz de talento, rapaz de gosto...
Não vejo
outro, aqui no districto, com quem você tenha mais
conformidade de
espirito, de educação, de maneiras, de
tradições... N'uma terra pequena,
mais dia menos
dia,
fatalmente, se impunha a
reconciliação. Então seja
agora, quando a reconciliação o leva
ás Camaras!... E repito. Pelo
circulo de Villa-Clara sahe deputado quem o Cavalleiro mandar!
O Fidalgo da Torre respirou, com esforço, na
emoção que o suffocava. E
depois d'um silencio em que tirára o chapéo,
abanára com elle,
pensativamente, a face descahida:
—Mas o Cavalleiro, como você disse, é todo local
todo regional... Não
quererá impôr senão um homem como o
Lucena, com fortuna, com
influencia...
O outro parou, alargou os braços:
—E então, você?... Que diabo! Você tem
aqui propriedade. Tem a Torre,
tem Treixedo. Sua irmã hoje é rica, mais rica que
o Lucena. E depois o
nome, a familia... Vocês, os Ramires, estão
estabelecidos, com solar em
Santa Ireneia, ha mais de duzentos annos.
O fidalgo da Torre ergueu com viveza a cabeça:
—Duzentos?... Ha mil, ha quasi mil!
—Ora ahi tem! Ha mil annos. Uma casa anterior á monarchia.
Pelo menos
coeva! Você é portanto mais fidalgo que o Rei! E
então, isso não é uma
situação muito superior á do Lucena?
Sem contar a intelligencia... Oh!
diabo!
—Que foi?
—A garganta... Uma picadita na garganta. Ainda não estou
consolidado.
E decidiu logo recolher, gargarejar, porque o Dr. Macedo prohibira as
noitadas festivas. Mas Gonçalo acompanhava até
á porta o amigo Gouveia.
E, conchegando o abafo de lã, o Administrador resumiu a sua
idéa:
—Pelo circulo de Villa-Clara, Gonçalinho, sahe quem o
Cavalleiro
mandar. Ora o Cavalleiro, creia você, tem immenso empenho de
o eleger,
de o lançar na Politica. Se você portanto estender
a mão ao Cavaleiro, o
circulo é seu. O Cavalleiro tem o maior, o maiorissimo
empenho,
Gonçalinho!
—Isso é que eu não sei, João
Gouveia...
—Sei eu!
E em confidencia, na solidão da Calçadinha,
João Gouveia revelou ao
Fidalgo que o Cavalleiro anciava pela occasião de reatar a
velha
fraternidade com o seu velho Gonçalo! Ainda na semana
passada o
Cavalleiro lhe affirmára (palavras
textuaes):—«Entre os rapazes d'esta
geração nenhum com mais seguro e mais largo
futuro na Politica que o
Gonçalo. Tem tudo! grande nome, grande talento, a
seducção, a
eloquencia... Tem tudo! E eu, que conservo pelo Gonçalo todo
o carinho
antigo, gostava ardentemente, ardentissimamente, de o levar
ás Camaras.»
—Palavras textuaes, meu amigo!... Ainda ha seis ou sete dias, em
Oliveira, depois do jantar, a tomarmos ambos café no quintal.
A face de Gonçalo ardia na sombra, devorando as
revelações do
Administrador. Depois, com lentidão, como descobrindo
candidamente todos
os recantos da sua alma:
—Eu, na realidade, tambem conservo a antiga sympathia pelo Cavalleiro.
E certas questões intimas adeus!... Envelheceram, caducaram,
tão
obsoletas hoje como os aggravos dos Horacios e dos Curiacios... Como
você lembrou ha pouco, com razão, nunca se ergueu
entre nós morte de
homem. Que diabo! Eu fui educado com o Cavalleiro, eramos como
irmãos...
E acredite você, Gouveia! Sempre que o vejo, sinto um
appetite doido,
mas doido, de correr para elle, de lhe gritar: «Oh!
André! nuvens
passadas não voltam, atira para cá esses
ossos!» Creia você, não o
faço
por timidez... É timidez... Oh! não,
lá por mim, estou prompto á
reconciliação, todo o
coração m'a pede! Mas elle?... Porque, emfim,
Gouveia, eu, nas minhas Correspondencias para a
Gazeta do
Porto, tenho
sido feroz com o Cavalleiro!
João Gouveia parou, de bengala ao hombro, considerando o
fidalgo com um
sorriso divertido:
—Nas Correspondencias? Que lhe tem você dito nas
Correspondencias? Que
o Snr. Governador
Civil
é um despota, e um D. Juan?... Meu
caro amigo,
todo o homem gosta que, por opposição politica,
lhe chamem despota e D.
Juan. Você imagina que elle se affligiu? Ficou simplesmente
babádo!
O fidalgo murmurou, inquieto:
—Sim! Mas as allusões á bigodeira, á
guedelha...
—Oh! Gonçalinho! Bellos cabellos annellados, bellos bigodes
torcidos,
não são defeitos de que um macho se envergonhe...
Pelo contrario! Todas
as mulheres admiram. Você pensa que ridicularisou o
Cavalleiro? Não!
annunciou simplesmente ás madamas e meninas, que
lêem a
Gazeta do
Porto, a existencia d'um mocetão esplendido que
é Governador Civil
d'Oliveira.
E parando de novo (por que defronte, na esquina, luziam as duas
janellas
abertas da sua casa), o Administrador estendeu o dedo firme para um
conselho supremo:
—Gonçalo Mendes Ramires, você
ámanhã manda buscar a parelha do Torto,
salta para a sua caleche, corre á cidade, entra pelo Governo
Civil de
braços abertos, e grita sem outro
prologo:—«André, o que lá vae,
lá
vae, venham essas costellas! E como o circulo está vago,
venha tambem
esse circulo!»—E você, dentro de cinco ou seis
semanas, é o Snr.
Deputado
por
Villa-Clara, com todos os sinos a repicar... Quer tomar
chá?
—Não, obrigado.
—Bem, então viva! Tipoia ámanhã e
Governo Civil. Está claro, é
necessario arranjar um pretexto...
O fidalgo acudiu, com alvoroço:
—Eu tenho um pretexto! Não!... Quero dizer, tenho
necessidade real,
absoluta, de fallar com o Cavalleiro ou com o Secretario Geral.
É uma
questão de caseiro... Até por causa d'essa
infeliz trapalhada o
procurava eu hoje a você, Gouveia!
E aldravou a aventura do Casco, com traços mais pesados que
a
ennegreciam. Durante semanas, afferradamente, esse fatal Casco o
torturára para lhe arrendar a Torre. Mas elle
tratára com o Pereira, o
Pereira Brazileiro, por uma renda explendidamente superior á
que o Casco
offerecia a gemer. Desde então o Casco rugia,
ameaçava, por todas as
tabernas da Freguezia. E, n'essa tarde, surde d'uma azinhaga, rompe
para
elle, de varapau erguido! Mercê de Deus, lá se
defendera, lá sacudira o
bruto, com a bengala. Mas agora, sobre o seu socego, sobre a sua vida,
pairava a affronta d'aquelle cajado. E, se o assalto se renovasse, elle
varava o Casco com uma bala, como um bicho montez... Urgia pois que o
amigo Gouveia chamasse o homem, o reprehendesse
rijamente, o entaipasse
mesmo por algumas horas na cadeia...
O Administrador, que escutára palpando a garganta, atalhou
logo, com a
mão espalmada:
—Governo Civil, caro amigo, Governo Civil! Esses casos de
prisão
preventiva pertencem ao Governo Civil. Reprehensão
não basta, com tal
féra!... Só cadeia, um dia de cadeia, a meia
ração... O Governo Civil
que me mande um officio ou telegramma. Você realmente corre
perigo. Nem
um instante a perder!... Amanhã tipoia e Governo Civil.
Mesmo por amor
da Ordem Publica!
E Gonçalo, compenetrado, com os hombros vergados, cedeu ante
esta
soberana razão da Ordem Publica:
—Bem, João Gouveia, bem!... Com effeito é uma
questão de Ordem Publica.
Vou ámanhã ao Governo Civil.
—Perfeitamente, concluiu o Administrador puxando o cordão
da campainha.
Dê recados meus ao Cavalleiro. E só lhe digo que
havemos de arranjar uma
votação tremenda, e foguetorio, e vivas, e ceia
magna no Gago... Você
não quer tomar chá, não?
Então, boas noites... E olhe! D'aqui a dous
annos, quando você fôr ministro, Gonçalo
Mendes Ramires, recorde esta
nossa conversa, á noite, na Calçadinha de
Villa-Clara!
Gonçalo seguiu pensativamente por defronte do Correio;
torneou a branca
escadaria da Egreja de S. Bento; metteu, alheado e sem reparar, pela
estrada plantada de acacias que conduz ao Cemiterio. E, n'aquelle alto
da Villa, d'onde, ao desembocar da Calçadinha, se abrange a
largueza
rica dos campos desde Valverde a Craquêde—sentiu que tambem
na sua
vida, apertada e solitaria como a Calçadinha, se
alargára um arejado
espaço cheio d'interessante bulicio e de abundancia. Era o
muro, em que
sempre se imaginára irreparavelmente cerrado, que de repente
rachava.
Eis a fenda facilitadora! Para além reluziam todas as bellas
realidades
que desde Coimbra appetecera! Mas...—Mas no atravessar da fenda fragosa
de certo se rasgaria a sua dignidade ou se rasgaria o seu orgulho. Que
fazer?...
Sim! seguramente! Estendendo os braços ao animal do
Cavalleiro
conquistava a sua Eleição. O circulo, infeudado
aos Historicos, elegeria
submissamente o Deputado que o chefe Historico ordenasse com indolente
aceno. Mas essa reconciliação importava a entrada
triumphal do
Cavalleiro na quieta casa do Barrôlo... Elle vendia pois o
socego da
irmã por uma cadeira em S. Bento! Não!
não podia por amor de
Gracinha!—E Gonçalo suspirou, com ruidoso suspiro, no
luminoso silencio
da estrada.
Agora porém, durante tres, quatro annos, os Regeneradores
não
trepavam
ao Governo. E elle, alli, atravez d'esses annos, no buraco rural,
jogando voltaretes somnolentos na Assembléa da Villa,
fumando cigarros
calaceiros nas varandas dos Cunhaes, sem carreira, parado e mudo na
vida, a ganhar musgo, como a sua caduca, inutil Torre! Caramba! era
faltar cobardemente a deveres muito santos para comsigo e para com o
seu
nome!... Em breve os seus camaradas de Coimbra penetrariam nos altos
Empregos, nas ricas Companhias; muitos nas Camaras por vacaturas
abençoadas como a do Sanches; um ou outro mesmo, mais audaz
ou servil,
no Ministerio. Só elle, com talentos superiores, um tal
brilho
historico, jazeria esquecido e resmungando como um côxo n'uma
estrada
quando passa a romaria. E por quê? Pelo receio pueril de
pôr a bigodeira
atrevida do Cavalleiro muito perto dos fracos labios de Gracinha... E
por fim esse receio constituia uma injuria, uma nojenta injuria,
á
seriedade da irmã. Porque Portugal não se honrava
com mulher mais
rigidamente seria, de mais grave e puro pensar! Aquelle corpinho
ligeiro, que o vento levava, continha uma alma heroica. O
Cavalleiro?...
Podia sua exc.
a sacudir a guedelha com
graça fatal, jorrar
dos olhos
pestanudos a languidez ás ondas—que Gracinha permaneceria
tão
inaccessivel e solida na sua virtude como se fosse insexual e de
marmore.
Oh,
realmente, por Gracinha, elle abriria ao Cavalleiro todas
as portas dos Cunhaes—mesmo a porta do quarto d'ella, e bem larga, com
uma solidão bem preparada!... E depois não se
cuidava de uma donzella,
nem d'uma viuva. Na casa do Largo d'El-Rei governava, mercê
de Deus,
marido brioso, marido rijo. A esse, só a esse, competia
escolher as
intimidades do seu lar—e n'elle manter quietação
e recato. Não! esse
receio de uma imaginavel fragilidade de Gracinha, da sua honrada,
altiva
Gracinha—esse receio, perverso e louco, certamente o devia varrer, com
o coração desafogado e sorrindo.—E, na clara
solidão da estrada,
Gonçalo Mendes Ramires atirou um gesto decidido e terminante
que varria.
Restava porém a sua propria
humilhação. Desde annos, ruidosamente,
conversando e escrevendo, em Coimbra, em Villa-Clara, em Oliveira, na
Gazeta do Porto—elle demolira o
Cavalleiro! E
subiria agora, de
espinhaço vergado, as escadarias do Governo Civil,
murmurando o
seu—
peccavi, mea culpa, mea maxima culpa?... Que
escandalo na
cidade!—«O Fidalgo da Torre lá precisou e
lá veio...» Era o
transbordante triumpho do Cavalleiro. O unico homem que no Districto se
conservava erguido, pelejando, trovejando as verdades—desarmava,
emmudecia, e encolhidamente se enfileirava no sequito louvaminheiro de
Sua Exc.
a! Bem duro!... Mas,
que diabo, havia
superiormente o interesse
do paiz!—E, tão admiravel lhe appareceu esta
razão, que a bradou com
ardôr na mudez da estrada:—«Ha o
paiz!...»
Sim, o paiz! Quantas reformas a proclamar, a realisar! Em Coimbra, no
quinto anno, já se occupára da
Instrucção Publica—d'uma
remodelação do
Ensino, todo industrial, todo colonial, sem latim, sem ociosas
bellas-lettras, creando um povo formigueiro de Productores e
d'Exploradores... E os camaradas, nos sonhos ondeantes de Futuro,
quando
repartiam os Ministerios, concordavam sempre:—«O
Gonçalo para a
Instrucção Publica!» Por essas ideas
poderosas, pelo saber accumulado,
todo elle se devia á Nação—como
outr'ora, pela força, os grandes
Ramires armados. E pela Nação cumpria que o seu
orgulho de homem cedesse
ante a sua tarefa de cidadão...
Depois, quem sabe? Entre o Cavalleiro e elle afogadamente se enroscava
todo um passado de camaradagem, apenas entorpecido—que talvez revivesse
n'esse encontro, os enlaçasse logo n'um abraço
penetrante, onde os
antigos aggravos se sumiriam como um pó sacudido... Mas para
que
imaginar, remoer? Uma necessidade se sobrepunha, inilludivel—a de
comparecer logo de manhã em Oliveira, no Governo Civil,
requerendo a
suppressão do Casco. D'essa pressa dependia o seu socego de
vida
e
d'intelligencia. Nunca elle lograria trabalhar na Novella, trilhar
folgadamente a estrada de Villa-Clara, sabendo que em torno o outro,
pelas quélhas e sombras, rondava com a espingarda. E para
não regressar
aos costumes bravios dos seus avós, circulando atravez do
Concelho entre
as carabinas dos creados, necessitava o Casco domado, immobilisado. Era
pois inadiavel correr ao Governo Civil, para bem da Ordem. E depois,
quando elle se encontrasse no gabinete do Cavalleiro, deante da mesa do
Cavalleiro—a Providencia decidiria...—«A Providencia
decidirá!»
E ancorado n'esta resolução, o Fidalgo da Torre
parou, olhou. Levado
pela quente rajada de pensamentos, chegára á
grade do cemiterio da Villa
que o luar branqueava como um lençol estendido. Ao fundo da
alameda que
o divide, clara na claridade triste, o escarnado Christo chagado e
livido, sobre a sua alta cruz negra, pendia, mais dolorido e livido no
silencio e na solidão, com uma tristissima lampada aos
pés esmorecendo.
Em torno eram cyprestes, sombras de cyprestes, brancuras de lapides, as
cruzes rasteiras das campas pobres, uma paz morta pesando sobre os
mortos: e no alto a lua amarella e parada. Então o Fidalgo
sentiu um
arripiado mêdo do Christo, das lousas, dos defuntos, da lua,
da solidão.
E despedio n'uma carreira até avistar as casas
da
Calçadinha, por onde
descambou como uma pedra solta. Quando se deteve no Largo do Chafariz,
um môcho piava na torre da Camara, melancolisando o repouso
de
Villa-Clara apagada e adormecida. Mais impressionado,
Gonçalo correu á
taberna da Serena, recolheu os creados que esperavam jogando a bisca
lambida. E com elles atravessou de novo a Villa até
á cocheira do
Torto—para recommendar que lhe mandassem á Torre,
ás nove horas da
manhã, a parelha russa.
Atravez do postigo, que se abrira com cautella no portão
chapeado, a
mulher do Torto gemeu, indecisa:
—Ai, meu Deus, não sei se poderá... Elle
ás nove tem um serviço... Pois
não faria mais conta ao Fidalgo ahi pela volta das onze?
—Ás nove! berrou Gonçalo.
Desejava apear cêdo ao portão do Governo Civil
para evitar a curiosidade
d'aquelles cavalheiros de Oliveira—que, depois do meio dia, se juntavam
na Praça, vadiando por debaixo da Arcada.
Mas ás nove e meia Gonçalo, que até ao
luzir da madrugada se agitára
pelo quarto n'um tumulto d'esperanças e receios—ainda se
barbeava, em
camisa, deante do vasto espelho de coluninas douradas. Depois
aproveitou
a caleche para deixar na
Feitosa os seus bilhetes
de pezames
á bella
viuva, á D. Anna. Ao meio dia, esfaimado, almoçou
na Vendinha emquanto a
parelha resfolgava. E batia a meia depois das duas quando emfim se
apeou
em Oliveira deante do portão do antigo convento de S.
Domingos, ao fundo
da Praça, onde seu pae, quando Chefe do Districto,
installára
faustosamente as repartições do Governo Civil.
Áquella hora, já na frescura e sombra da Arcada
que orla um lado da
Praça (outr'ora
Praça da Prataria,
hoje
Praça da Liberdade) os
cavalheiros d'Oliveira mais desoccupados, os
«rapazes», preguiçavam, em
cadeiras de verga, á porta da Tabacaria Elegante e da loja
do Leão.
Gonçalo, cautelosamente, baixára as cortinas
verdes da caleche. Mas no
pateo do Governo Civil, ainda guarnecido de bancos monumentaes do tempo
dos frades, esbarrou com o primo José Mendonça,
que descia a escadaria,
fardado. Foi um assombro para o alegre capitão,
moço esvelto, de bigode
curto, picado levemente de bexigas.
—Tu por aqui, Gonçalinho! E de chapeu alto! Caramba, deve
ser coisa
gorda!
O Fidalgo da Torre confessou, corajosamente. Chegava n'esse instante de
Santa Ireneia para fallar ao André Cavalleiro...
—Está elle cá, esse illustre senhor?
O outro recuou, quasi aterrado:
—Ao Cavalleiro?! É ao Cavalleiro que vens fallar?!...
Santissima
Virgem! Então desabou Troia!
Gonçalo gracejou, corando. Não! não se
passára desgraça epica como a de
Troia... De resto podia revelar ao amigo Mendonça o caso que
o arrastava
á presença augusta de Sua Exc.
a
o Snr.
Governador Civil. Era um homem
dos Bravaes, um Casco, que, furioso por não conseguir o
arrendamento da
Torre, o ameaçára, rondava agora a estrada de
Villa-Clara de noite, á
espreita, com uma espingarda. E elle, não ousando
«fazer alta e boa
justiça» pelas mãos dos seus creados,
como os Ramires feudaes—reclamava
modestamente da Auctoridade Superior uma ordem para que o Gouveia
mantivesse dentro da legalidade e dos Mandamentos de Deus o
façanhudo
dos Bravaes...
—Só isto, uma pequenina questão de paz
publica... E então o grande
homem está lá em cima? Bem, até logo,
Zézinho... A prima, de saude? Eu
naturalmente janto nos Cunhaes. Apparece!
Mas o capitão não despegava do degrau de pedra,
abrindo pachorrentamente
a cigarreira de couro:
—E que me dizes tu á novidade? O pobre Sanches Lucena?...
Sim, Gonçalo soubera na Assembleia. Um ataque,
hein?—Mendonça accendeu,
chupou o cigarro:
—De repente, com um aneurisma, a ler o
Noticias!...
Pois ainda ha
tres dias a Maricas e eu jantamos na
Feitosa.
Até eu
toquei a duas
mãos, com a D. Anna, o quarteto do Rigoleto. E elle bem,
conversando,
tomando a sua aguardentesinha de canna...
Gonçalo esboçou um gesto de piedade e tristeza:
—Coitado... Tambem ha semanas o encontrei na Bica-Santa. Bom homem, bem
educado... E ahi temos agora a bella D. Anna vaga.
—E o circulo!
—Oh, o circulo! murmurou o Fidalgo da Torre com risonho desdem. A mim
antes me convinha a viuva. É Venus com duzentos contos!
Infelizmente tem
uma voz medonha...
O primo Mendonça accudiu, com interesse, uma
convicção dedicada:
—Não! não! na intimidade, perde aquelle tom
empapado... Não imaginas!
até um timbre natural, agradavel... E depois, menino, que
corpo! que
pelle!
—Deve ficar explendida agora com o luto! concluiu Gonçalo.
Bem,
adeusinho! Apparece nos Cunhaes... Eu corro ao Cavalleiro para que Sua
Exc.
a me salve com o seu braço forte!
Sacudiu a mão do Mendonça, galgou a escadaria de
pedra.
Mas o capitão, que mettera para a travessa de S. Domingos,
desconfiou
d'aquella historia d'ameaças,
d'espingardas...
«Qual! Aqui anda
Politica!» E quando, passada uma hora lenta, repenetrou na
Praça e
avistou a caleche da Torre ainda encalhada á porta do
Governo
Civil—correu á Arcada, desabafou logo com os dois
Villa-Velhas, ambos
pensativamente encostados aos dois humbraes da Tabacaria Elegante:
—Vocês sabem quem está no Governo Civil?... O
Gonçalo Ramires!... Com o
Cavalleiro!
Todos em roda se mexeram, como acordando, nas gastas cadeiras de
verga—onde os estendera somnolentamente o silencio e a ociosidade da
arrastada tarde de verão. E o Mendonça, excitado,
contou que desde as
duas horas e meia Gonçalo Mendes Ramires, «em
carne e osso», se
conservava fechado com o Cavalleiro, no Governo Civil, n'uma
conferencia
magna! O espanto e a curiosidade foram tão ardentes que
todos se
ergueram, se arremessaram para fóra dos Arcos, a espiar a
bojuda varanda
do convento, sobre o portão—que era a do gabinete de Sua
Excellencia.
Precisamente, n'esse momento, José Barrôlo, a
cavallo, de calça branca,
de rosa branca na quinzena d'alpaca, dobrava a esquina da rua das
Vendas. E o interesse todo d'aquelles cavalheiros se precipitou para
elle, na esperança d'uma revelação:
—Oh Barrôlo!
—Oh Barrolinho, chega cá!
—Depressa, homem, que é caso rijo!
Barrôlo, ladeando, abeirou da Arcada: e os amigos
immediatamente lhe
atiraram a nova formidavel, apertados em volta da egoa. O
Gonçalo e o
Cavalleiro cochichando secretamente toda a manhã! A caleche
da Torre á
espera, com a parelha adormecida! E já começavam
a repicar os sinos da
Sé!
Barrôlo, n'um pulo, desmontou. E emquanto um garoto lhe
passeava a
egoa—estacou entre os amigos, com o chicote detraz das costas, pasmando
tambem para a varanda de pedra do Governo Civil.
—Pois eu não sei nada! O Gonçalo a mim
não me disse nada! affirmava
elle, assombrado. Tambem já ha dias não vem
á cidade... Mas não me disse
nada! E da ultima vez que cá esteve, nos annos da
Graça, ainda
destemperou contra o Cavalleiro!
A todos o caso parecia «d'estrondo!» E subitamente
um silencio esmagou a
Arcada, trespassada d'emoção. Na varanda, entre
as vidraças abertas
vagarosamente, apparecera o Cavalleiro com o Fidalgo da Torre,
conversando, risonhos, de charutos accesos. Os largos olhos do
Cavalleiro pousaram logo, com malicia, sobre os
«rapazes» apinhados em
pasmo á borda dos Arcos. Mas foi um lampejar de
visão. S. Ex.
a
remergulhára no gabinete—o Fidalgo tambem, depois de se
debruçar da
varanda, espreitar
a
caleche da Torre. Entre os amigos rompeu um clamor:
—Viva! Reconciliação!
—Acabou a guerra das Rosas!
—E as correspondencias da
Gazeta do Porto?...
—É que houve peripecia tremenda!
—Temos o Gonçalinho administrador d'Oliveira!
—Upa, Ex.
mo Snr., upa!
Mas de novo emmudeceram. O Cavalleiro e o Fidalgo reappareciam, n'uma
enfronhada conversa, que os deteve um momento esquecidos, na evidencia
da varanda escancarada. Depois o Cavalleiro, com uma familiaridade
carinhosa, bateu nas costas do Gonçalo—como se publicasse a
sua
reconciliação diante da Praça
maravilhada. E outra vez se sumiram,
n'esse passear conversado e intimo, que os trazia da sombra do gabinete
para a claridade da janella, roçando as mangas, misturando o
fumo leve
dos charutos. Em baixo o bando crescia, mais excitado.
Passára o Mello
Alboim, o Barão das Marges, o Dr. Delegado: e, chamados com
ancia, cada
um correra, devorára esgazeadamente a novidade,
embasbacára para o velho
balcão de pedra que o sol dourava. Os grossos ponteiros do
relogio do
Governo Civil já se acercavam das quatro horas. Os dous
Villa-Velhas,
outros «rapazes», estafados, retrocederam
ás cadeiras de verga da
Tabacaria. O Dr. Delegado,
que
jantava ás quatro e soffria
do estomago,
despegou desconsoladamente dos Arcos, supplicando ao Pestana seu
visinho
«que apparecesse ao café, para contar o
resto...» Mello Alboim, esse,
enfiára para casa, defronte do Governo Civil, na esquina do
Largo: e da
janella, disfarçado por traz da mulher e da cunhada, ambas
de chambres
brancos e de papelotes, sondava o gabinete de S. Ex.
a
com um binoculo.
Por fim bateram, com estendida pancada, as quatro horas.
Então o Barão
das Marges, na sua impaciencia borbulhante, decidiu subir ao Governo
Civil, «para farejar!...»
Mas n'esse momento André Cavalleiro assomava de novo
á varanda—sózinho,
com as mãos enterradas no jaquetão de flanella
azul. E quasi
immediatamente a caleche da Torre largou da porta do Governo Civil,
atravessou a Praça, com os stores verdes meio corridos,
descobrindo
apenas, áquelles cavalheiros avidos, as calças
claras do Fidalgo.
—Vae para os Cunhaes!
Lá o apanhava pois o Barrôlo! E todos apressaram o
bom Barrôlo a que
montasse, recolhesse, para ouvir do cunhado os motivos e os lances
d'aquella paz historica! O Barão das Marges até
lhe segurou o estribo.
Barrôlo, alvoroçadamente, trotou para o Largo
d'El-Rei.
Mas Gonçalo Mendes Ramires, sem parar nos Cunhaes, seguia
para a
Vendinha, onde decidira jantar, dando um descanço
á parelha esfalfada. E
logo depois das ultimas casas da cidade subiu as stores, respirou
deliciosamente, com o chapeo sobre os joelhos, a luminosa frescura da
tarde—mais fresca e de uma claridade mais consoladora que todas as
tardes da sua vida... Voltava d'Oliveira vencedor! Furára
emfim atravez
da fenda, atravez do muro! E sem que a sua honra ou o seu orgulho se
esgaçassem nas asperezas estreitas da fenda!...
Abençoado Gouveia,
esperto Gouveia! E abençoada a esperta conversa, na vespera,
pela
calçadinha de Villa-Clara!...
Sim, de certo, fôra custoso aquelle mudo momento em que se
sentára
seccamente, hirtamente, á borda da poltrona, junto da pesada
meza
administrativa de S. Ex.
a. Mas mantivera muita
dignidade e muita
simplicidade...—«Sou forçado (dissera) a
dirigir-me ao Governador
Civil, á Auctoridade, por um motivo de ordem
publica...» E a primeira
avença partira logo do Cavalleiro, que torcia a bigodeira,
pallido:—«
Sinto profundamente que não seja ao homem, ao velho amigo,
que Gonçalo
Mendes Ramires se dirija...» Elle ainda se
conservára retrahido,
resistente, murmurando com uma frieza triste:—«As culpas
não são
decerto minhas...» E então o Cavalleiro, depois de
um silencio em que
lhe tremera o beiço:—«Ao cabo de tantos annos,
Gonçalo, seria mais
caridoso não alludir a culpas, lembrar somente a antiga
amizade, que,
pelo menos em mim, se conservou a mesma, leal e
séria.» A esta
sensibilisada invocação, elle volvera, com
doçura, com indulgencia:—«Se
o meu antigo amigo André recorda a nossa antiga amizade, eu
não posso
negar que em mim tambem ella nunca inteiramente se apagou...»
Ambos
balbuciaram ainda alguns confusos lamentos sobre os desaccordos da
vida.
E quasi insensivelmente se trataram por
tu! Elle
contou ao Cavalleiro
a torpe ousadia do Casco. E o Cavalleiro, indignado como amigo, mais
como Auctoridade, telegraphára logo ao Gouveia um mandado
forte para
inutilisar o valentão dos Bravaes... Depois conversaram da
morte do
Sanches Lucena, que impressionava o Districto. Ambos louvaram a belleza
da viuva, os seus duzentos contos. O Cavalleiro recordou a
manhã, na
Feitosa, em que entrando pela porta pequena do
jardim, a
surprehendera, dentro d'um caramanchão de rosas, a apertar a
liga. Uma
perna divina! Ambos se recusaram, rindo, a casar com a D. Anna, apezar
dos duzentos contos e da divina perna...—Já entre elles se
restabelecera a antiga familiaridade de Coimbra. Era «tu
Gonçalo, tu
André, oh menino, oh filho!»
E fôra André, naturalmente, que alludira
á desapparição
do Deputado do
Governo, á surpreza do circulo vago... Elle
então, com indifferença,
estirado na poltrona, rufando com os dedos na borda da mesa,
murmurára:
—Sim, com effeito... Vocês agora devem estar
embaraçados, assim de
repente...
Mais nada! apenas estas indolentes palavras, murmuradas
através do rufo.
E o Cavalleiro, logo, sem preparação,
apressadamente, empenhadamente,
lhe offerecera o Circulo!—Pousára os olhos n'elle com
lentidão, como
para o penetrar, o escutar... Depois, insinuante e grave:
—Se tu quizesses, Gonçalo, não estavamos
embaraçados...
Elle ainda exclamára, com surpreza e riso:
—Como, se eu quizesse?
E o André, sempre com os olhos n'elle cravados, os largos
olhos
lustrosos, tão persuasivos:
—Se tu quizesses servir o Paiz, ser deputado por Villa-Clara,
já não
estavamos embaraçados, Gonçalo!
Se tu quisesses... E perante esta insistencia que
rogava,
tão sincera
e commovida, em nome do Paiz, elle consentira, vergára os
hombros:
—Se te posso ser util, e ao Paiz, estou ás vossas ordens.
E eis a fenda transposta, a aspera fenda, sem rasgão
no seu
orgulho ou
na sua dignidade! Depois conversaram desafogadamente, passeando pelo
gabinete, desde a estante carregada de papeis até
á varanda—que André
abrira, por causa d'um cheiro persistente de petroleo entornado na
vespera. André tencionava partir n'essa noite para
Lisboa—para
conferenciar com o Governo, depois d'aquella inesperada
desapparição do
Lucena. E, agora em Lisboa, imporia o querido Gonçalo como o
unico
Deputado, depois do Sanches de Lucena, seguro e substancial—pelo nome,
pelo talento, pela influencia, pela lealdade. E eis a
eleição
consummada! De resto (declarára o Cavalleiro, rindo) aquelle
Circulo de
Villa-Clara constituia uma propriedade sua—tão sua como
Corinde.
Livremente, poderia eleger o servente da
Repartição que era gago e
bebado. Prestava pois um serviço esplendido ao Governo,
á Nação,
apresentando um môço de tão alta origem
e de tão fina intelligencia...
Depois accrescentára:
—Não tens a pensar mais na eleição.
Vaes para a Torre. Não contas a
ninguem, a não ser ao Gouveia. Esperas lá, muito
quietinho, telegramma
meu de Lisboa. E, recebido elle, estás Deputado por
Villa-Clara,
annuncias a teu cunhado, aos amigos... Depois, no domingo, vens
almoçar
comigo a Corinde, ás onze.
Então ambos se apertaram n'um abraço que fundiu
de novo, e para
sempre,
as duas almas apartadas. Depois, ao cimo da escadaria de pedra onde o
acompanhára, André, repenetrando timidamente no
Passado, murmurou com um
riso pensativo:—«Que tens tu feito ultimamente, n'essa
querida Torre?»
E, ao saber da Novella para os
Annaes,
suspirou com
saudade dos tempos
de Imaginação e d'Arte em Coimbra, quando elle
amorosamente lapidava o
primeiro canto d'um poema heroico, o
Fronteiro de Ceuta.
Emfim outro
abraço—e alli voltava deputado por Villa-Clara.
Todos esses campos, esses povoados que avistava da portinhola da
caleche, era elle que os representava em Côrtes, elle,
Gonçalo Mendes
Ramires... E superiormente os representaria, mercê de Deus!
Porque já as
idéas o invadiam, viçosas e ferteis. Na Vendinha,
emquanto esperava que
lhe frigissem um chouriço com ovos e duas postas de savel,
meditou, para
a Resposta ao Discurso da Corôa, um esboço sombrio
e áspero da nossa
Administração na Africa. E lançaria
então um brado á Nação, que
a
despertasse, lhe arrastasse as energias para essa Africa portentosa,
onde cumpria, como gloria suprema e suprema riqueza, edificar de costa
a
costa um Portugal maior!... A noite cerrára, ainda outras
idéas o
revolviam, vastas e vagas—quando o
trote
esfalfado da parelha estacou
no portão da Torre.
Ao outro dia (terça feira) ás dez horas, o Bento
entrou no quarto do
Fidalgo com um telegramma, que chegara á Villa de madrugada.
Gonçalo
pensou com um deslumbrado pulo do
coração:—«É do
Governo!»—Era do
Pinheiro, gritando pela Novella. Gonçalo amarrotou o
telegramma. A
Novella! Como poderia labutar na Novella, agora, todo na impaciencia e
no esforço da sua Eleição?... Nem
almoçou socegadamente—retendo,
atravez dos pratos que arredava, um desejo desesperado de
«contar ao
Bento.» E, sorvido o café n'um sorvo impaciente,
atirou para
Villa-Clara, a desafogar com o Gouveia. O pobre administrador jazia de
novo no camapé de palhinha, com papas na garganta. E toda a
tarde, na
estreita sala forrada de papel verde-gaio, Gonçalo exaltou
os talentos
do André, «homem de governo e de idéas,
Gouveia!»—celebrou o Ministerio
Historico, «o unico capaz de salvar esta choldra,
Gouveia!»-—desenrolou
vistosos Projectos de Lei que meditava sobre a Africa, «a
nossa
esperança magnifica, Gouveia!»—Emquanto o
Gouveia, estirado, só rompia
a mudez e a immobilidade, para murmurar chôchamente,
apalpando o calor
das papas:
—E a quem deve vossê tudo isso, Gonçalinho?...
Cá ao meco!»
Na quarta-feira, ao accordar, tarde, o seu pensamento saltou logo
soffregamente para o André Cavalleiro, que a essa hora, em
Lisboa,
almoçava no Hotel Central (sempre, desde rapaz,
André se conservára fiel
ao Hotel Central). E todo o dia, fumando cigarros insaciavelmente
atravez do silencio da casa e da quinta, seguiu o Cavalleiro nos seus
giros de Chefe de Districto, pela Baixa, pela Arcada, pelos
Ministerios... Naturalmente jantaria com o tio Reis Gomes, Ministro da
Justiça. Outro convidado certamente seria o José
Ernesto, Ministro do
Reino, condiscipulo do Cavalleiro, seu confidente politico... N'essa
noite, pois, tudo se decidia!
—Ámanhã, pelas dez horas, tenho cá
telegramma do André.
Nenhuma noticia chegou á Torre:—e o Fidalgo passou a lenta
quinta feira
á janella, vigiando a estrada poeirenta por onde surdiria o
moço do
telegrapho, um rapaz gordo que elle conhecia pelo bonné
d'oleado e pela
perna manca. Á noitinha, intoleravelmente inquieto, mandou
um moço a
Villa-Clara. Talvez o telegramma arrastasse, esquecido, pela mesa
d'aquella «besta do Nunes do Telegrapho!»
Não havia telegramma para o
Fidalgo. Então ficou certo de surgirem em Lisboa
difficuldades! E toda a
noite, sem socego, n'uma indignação que rolava e
crescia, imaginou o
Cavalleiro cedendo mollemente a outras exigencias do
Ministro—acceitando com servilismo para Villa-Clara a candidatura
d'algum imbecil da Arcada, d'algum chulo escrevinhador do Partido!
Pela manhã injuriou o Bento por lhe trazer tão
tarde os jornaes e o chá:
—E não ha telegramma, nem carta?
—Não ha nada.
Bem, fôra trahido! Pois nunca, nunca, aquelle infame
Cavalleiro
transporia a porta dos Cunhaes! De resto, que lhe importava a burlesca
Eleição? Mercê de Deus que lhe sobravam
outros meios de provar
soberbamente o seu valor—e bem superiores a uma ensebada cadeira em S.
Bento! Que miseria, na verdade, curvar o seu espirito e o seu nome ao
rasteiro serviço do S. Fulgencio, o obeso e horrendo careca!
E resolveu
logo regressar aos cimos puros da Arte, occupar altivamente todo o dia
no nobre e elegante trabalho da sua Novella.
Depois de almoço ainda abancou, com esforço,
remexeu nervosamente as
tiras de papel. E de repente agarrou o chapéo, abalou para
Villa-Clara,
para o telegrapho. O Nunes não recebera nada para sua
exc.
a!—Correu,
coberto de suor e pó, á
Administração do Concelho. O snr. Aministrador
partira
para
Oliveira!... Positivamente vencera outra
combinação—eis a
sua confiança burlada! E recolheu á Torre,
decidido a tomar um desforço
tremendo do Cavalleiro por tanta injuria amontoada sobre o seu nome,
sobre a sua dignidade! Toda a abafada e enevoada Sexta-feira a consumio
amargamente meditando esta vingança, que queria bem publica
e bem
sangrenta. A mais saborosa, mais simples, seria rasgar a bigodeira do
infame com chicotadas, na escadaria da Sé, um domingo,
á sahida da
missa! Ao escurecer, depois do jantar que mal debicára,
n'aquelle
despeito e humilhação que o pungiam, envergou o
casaco para voltar a
Villa-Clara. Não entraria no Telegrapho—já com
vergonha do Nunes. Mas
gastaria a noite na Assembléa, jogando o bilhar, tomando um
alegre chá,
lendo risonhamente os Jornaes Regeneradores, para que todos recordassem
a sua indifferença—se por acaso, mais tarde, conhecessem a
trama em que
resvalára.
Desceu ao páteo, onde as arvores adensavam a sombra do
crepusculo
carregado de fuscas nuvens. E abria o portão, quando
esbarrou com um
rapaz que s'esbaforia sobre a perna manca e
gritava:—«É um telegramma!»
Com que voracidade lh'o arrancou das mãos! Correu
á cozinha, ralhou
desabridamente á Rosa pela falta da luz tardia! E, com um
phosphoro a
arder nos dedos, devorou, n'um lampejo,
as
linhas
bemditas:—«
Ministro
acceita, tudo arranjado...» O resto era o
Cavalleiro
lembrando que no
domingo o esperava em Corinde, ás onze, para
almoçarem e conversarem...
Gonçalo Mendes Ramires deu cinco tostões ao
moço do telegrapho—galgou
as escadas. Na livraria, á claridade mais segura do
candieiro, releu o
telegramma delicioso.
Ministro acceita, tudo arranjado!...
Na sua
transbordante gratidão pelo Cavalleiro, ideou logo um jantar
soberbo,
offerecido nos Cunhaes pelo Barrôlo, cimentando para sempre a
reconciliação das duas Casas. E recommendaria a
Gracinha que, para mais
honrar a doce festa, se decotasse, pozesse o seu collar magnifico de
brilhantes, a derradeira joia historica dos Ramires.
—Aquelle André! que flôr, que rapaz!