IV
O palacete dos Barrôlos em Oliveira (conhecido desde o
começo do seculo pela Casa dos Cunhaes)
erguia a sua fidalga
fachada de doze varandas no Largo d'El-Rei, entre uma solitaria viella
que conduz ao Quartel e a rua das Tecedeiras, velha rua mal empedrada,
ladeirenta, opprimida pelo comprido terraço do jardim, e
pelo muro fronteiro da antiga
cerca das Monicas. E n'essa manhã, justamente quando
Gonçalo, na caleche da Torre puxada pela parelha do Torto,
desembocava no Largo d'El-Rei, subia pela Tecedeiras, dobrando a
esquina dos Cunhaes, n'um cavallo negro de fartas clinas, que feria as
lages com soberba e garbo, o Governador Civil, o André
Cavalleiro, de collete branco e chapeu de palha. N'um
relance, do fundo da caleche, o Fidalgo ainda o surprehendeu levantando
os pestanudos olhos negros
para as varandas de ferro do palacete. E pulou, com um murro no joelho,
rugindo surdamente—«que
biltre!» Ao apear no portão (um portão
baixo, como esmagado pelo
immenso escudo de armas dos Sás) tão suffocada
indignação o impellia que não reparou
nas effusões do porteiro, o velho Joaquim da Porta, e
esqueceu dentro da caleche os presentes para Gracinha, a caixa com o
guardasolinho e um cesto de flores da Torre coberto de papel de
sêda. Depois em cima, na
sala d'espera, onde José Barrôlo correra, ao
sentir nas
lages do Largo silencioso o estrepito do calhambeque, desabafou logo,
arrebatadamente, atirando o guarda pó para uma cadeira de
couro:
—Oh senhores! Que eu não possa vir á cidade sem
encontrar de cara este animal do Cavalleiro! E sempre no Largo,
defronte da casa! É
sorte!... Esse bigodeira não achará outro logar
para onde
vá caracolar com a pileca?
José Barrôlo, um moço gordo, de cabello
ruivo e crespo, com um buço claro n'uma face mais redonda e
córada que uma bella
maçã, accudiu, ingenuamente:
—Pileca?!... Oh, menino, tem agora um cavallo lindo! Um cavallo lindo,
que comprou ao Marges!
—Pois bem! É um burro feio em cima d'um cavallo bonito. Que
fiquem ambos na cavallariça. Ou que vão ambos
pastar
para as Devezas!
O Barrôlo escancarou a bôca larga e fresca, de
soberbos dentes, n'um lento pasmo. E de repente, com uma patada no
soalho, vergado pela cinta, rompeu n'uma risada que o suffocava, lhe
inchava as veias:
—Essa é d'arromba! Não, essa é para
contar no Club... Um burro feio em cima d'um cavallo bonito! E ambos a
pastarem!... Tu vens hoje rico, menino! Olha que essa! Ambos a
pastarem, com os focinhos na herva, o Governador civil e o cavallo...
É d'arromba!
Rebolava pela sala, com palmadas radiantes sobre a coxa obesa. E
Gonçalo, adoçado por aquella
ovação que celebrava a sua facecia:
—Bem. Dá cá esses ossos, ou antes esses untos. E
como vae a familia? A Gracinha?... Oh! viva a linda flôr!
Era ella, com a sua ligeiresa airosa e menineira, os magnificos
cabellos soltos sobre um penteador de rendas, correndo
alvoroçada
para o irmão, que a envolveu n'um abraço e em
dous beijos sonoros. E
immediatamente, recuando, a declarou mais bonita, mais gorda:
—Positivamente estás mais gorda, até mais
alta... É sobrinho?... Não? nada, por ora?
Gracinha córou, com aquelle seu languido sorriso que mais
lhe humedecia e lhe enternecia a doçura dos olhos
esverdeados.
—Se ella
não quer, ella não quer! gritava o
José Barrôlo, gingando, com as mãos
enterradas nos bolsos do jaquetão que lhe
desenhava as ancas roliças. A culpa não
é cá
do patrão... Mas ella não se decide!
O fidalgo da Torre reprehendeu a irmã:
—Pois é necessário um menino. Eu por mim
não caso, não tenho geito: e lá se
vão d'esta feita Barrôlos e
Ramires! A extincção dos Barrôlos
é uma limpeza. Mas, acabados os Ramires, acaba Portugal.
Portanto, Snr.a D. Graça Ramires,
depressa, em nome da
nação, um morgado! Um morgado muito gordo, que eu
pretendo que se chame Tructesindo!
Barrôlo protestou, aterrado:
—O que? Turtesinho? Não! para tal sorte não o
fabríco eu!
Mas Gracinha deteve aquelles gracejos picantes, desejosa de saber da
Torre, e do Bento, e da Rosa cosinheira, e da horta, e dos
pavões... Conversando, penetraram na outra sala, guarnecida
de contadores da India, de pesados cadeirões dourados de
damasco azul, com
tres varandas sobre o Largo d'El-Rei. Barrôlo enrolou um
cigarro, reclamou
a historia do Relho, da grande desordem. Tambem elle
arranjára uma
«pega» com o rendeiro da Ribeirinha,
por causa d'um
córte de pinhal.
Essa do Relho porém fôra tremenda...
E Gonçalo, enterrado ao canto do fundo camapé
azul, desabotoando preguiçosamente o jaquetão de
chaviote claro:
—Não! foi muito simples. Já ha mezes esse Relho
andava bebedo, sem despegar... Uma noite berrou, ameaçou a
Rosa, agarrou n'uma
espingarda. Eu desci, e n'um instante a Torre ficou
desembaraçada de
Relhos e de barulhos.
—Mas veio o Regedor, com cabos! accudio o Barrôlo.
Gonçalo saccudiu os hombros, impaciente:
—Veio o regedor? Veio depois, para legalisar! Já o homem
abalára, corrido. E como resultado arrendei a Torre ao
Pereira, ao Pereira da Riosa...
Contou esse negocio excellente, tratado na varanda, ao
almoço, entre dous copos de vinho verde. Barrôlo
admirou a renda—gabou o
rendeiro. Assim Gonçalo descortinasse outro Pereira para a
quinta de
Treixedo, terra tão generosa, tão mal amanhada!
Á borda do camapé, coberta pelos bellos cabellos
que lavára n'essa manhã e que cheiravam a
alecrim, Gracinha comtemplava o irmão com
ternura:
—E do estomago, andas melhor? Continuam as ceias com o Titó?
—Oh! esse animal! exclamou Gonçalo. Ha dias prometteu
jantar na Torre, até a Rosa assou um cabrito no espeto,
magnifico... Depois
falhou: creio
que teve uma orgia infame, com bichas de rabear. Elle vem esta semana a
Oliveira... E é verdade! vocês sabiam da
intimidade do Titó com o Sanches Lucena?
Historiou então, com exagero alegre, o encontro da
Bica-Santa, o horror que lhe causára a bella D. Anna, a
descoberta inesperada
d'essa familiaridade do Titó na Feitosa.
Barrôlo recordou que uma tarde, antes do S. João,
avistára o Titó, deante do portão da Feitosa,
a passear
pela trela um
cãosinho branco de regaço...
—Mas o que eu não comprehendo, menino, é esse
teu «horror» pela D. Anna... Caramba! Mulher
soberba! Um quebrado de quadris, uns
olhões, um peitoril...
—Calle essa bôca impura, devasso! gritou Gonçalo.
Pois aqui ao lado da sua mulher, que é a flôr das
Graças,
ousa louvar semelhante peça de carne!
Gracinha rindo, sem ciumes, comprehendia «a
admiração do José.»
Realmente, a Anna Lucena, que vistosa, que bella!...
—Sim, concedeu Gonçalo, bella como uma bella egoa... Mas
aquella voz gorda, papuda... E a luneta, os modos... E «o
cavalheiro
póde fumar, o cavalheiro está
enganado...» Oh! senhores,
pavorosa!
Barrôlo gingava, deante do sophá, com as
mãos nos bolsos da rabona:
—Uvas verdes, Snr.
D. Gonçalo, uvas verdes!
O Fidalgo dardejou sobre o cunhado uns olhos ferozes:
—Nem que ella se me offerecesse, de joelhos, em camisa, com os
duzentos contos do Sanches n'uma salva d'ouro!
Sorrindo, vermelha como uma pionia, com um «oh»
escandalisado, Gracinha bateu no hombro de Gonçalo—que
puxou por ella,
galhofeiramente:
—Venha lá essa bochecha, e outra beijoca, para purificar!
Com effeito, só pensar na D. Anna arrasta a gente
ás imagens
brutaes... Dizias então do estomago... Sim, filha,
combalido. E ha dias mais pesado, desde o tal cabrito no espeto e da
companhia beberrona do Manoel Duarte. Tu tens
cá agua de Vidago?... Então,
Barrôlinho, sê
angelico. Manda trazer já uma garrafinha bem fresca. E olha!
pergunta se subiram um
açafate e uma caixa de papelão que eu deixei na
caleche? Que ponham no meu
quarto. E não desembrulhes, que é surpreza...
Escuta! Que
me levem agua bem quente. Preciso mudar toda a roupa... Estava uma
poeirada por esse caminho!
E quando o Barrôlo abalou, a rebolar e a assobiar,
Gonçalo, esfregando as mãos:
—Pois vocês ambos estão explendidos! E na
harmonia que convem. Tu positivamente mais fórte, mais cheia. Até
pensei
que fosse sobrinho. E o Barrôlo mais delgado, mais leve...
—Oh, agora o José passeia, monta a cavallo, já
não adormece tanto depois de jantar...
—E a outra familia? A tia Arminda, o rancho Mendonça?
Bem?... Padre Sueiro, que é feito d'esse santo?
—Teve um ataquesito de rheumatismo, muito ligeiro. Agora bom, sempre
no Paço do Bispo, na Bibliotheca... Parece que se entretem a
fazer um livro sobre os Bispos.
—Bem sei, a Historia da Sé d'Oliveira... Pois eu tambem
tenho trabalhado muito, Gracinha! Ando a escrever um Romance.
—Ah!
—Um Romance pequeno, uma Novella, para os Annaes de
Litteratura e de Historia, uma Revista que fundou um rapaz
meu amigo, o
Castanheiro...
É sobre um facto historico da nossa gente... Sobre um
avô
nosso, muito antigo, Tructesindo.
—Tem graça, que fez elle?
—Horrores. Mas é pittoresco... E depois o Paço
de Santa Ireneia, no século XII, em todo o seu explendor!
Emfim uma bella
reconstrucção do velho Portugal e sobre tudo dos
velhos Ramires. Has-de gostar...
Não ha amores, tudo guerras. Apenas, muito remotamente, uma
das nossas antepassadas, uma D.
Menda, que eu nem sei se realmente existiu. Tem seu chic, hein?... E tu
comprehendes, como eu desejo tentar a Politica, preciso primeiramente
apparecer, espalhar o meu nome...
Gracinha sorria docemente para o irmão, no costumado enlevo:
—E agora tens alguma idéa? A tia Arminda lá
continua sempre com a teima que devias entrar na Diplomacia. Ainda ha
dias... «Ai, o
Gonçalinho, assim galante, e com aquelle nome, só
n'uma grande
embaixada!»
Gonçalo despegára lentamente do vasto
camapé, reabotoando o jaquetão claro:
—Com effeito ando com uma idéa, ha dias... Talvez me viesse
d'um romance inglez, muito interessante, e que te recommendo, sobre as
antigas Minas de Ophir, King Salomon's Mines...
Ando com
idéas de ir para a Africa.
—Oh Gonçalo, credo! Para a Africa?
O escudeiro entrára com duas garrafas de agua de Vidago,
ambas desarrolhadas, n'uma salva. Precipitadamente, para aproveitar o
«piquesinho», Gonçalo encheu um copo
enorme de crystal lavrado. Ah! que delicia d'agua!—E como o
Barrôlo voltava, annunciando que
cumprira as ordens de S. Ex.a:
—Bem! então logo conversamos ao almoço,
Gracinha! Agora lavar, mudar de roupa, que não paro com
estas infames comichões...
Barrôlo acompanhou o cunhado ao quarto, um dos mais
espaçosos e alegres do Palacete, forrado de cretones
côr de canario com uma
varanda para o jardim, e duas janellas de peitoril sobre a rua das
Tecedeiras e os velhos arvoredos do convento das Monicas.
Gonçalo impaciente
despiu logo
o casaco, saccudiu para longe o collete:
—Pois tu estás explendido, Barrôlo! Deves ter
perdido tres ou quatro kilos. São naturalmente os kilos que
Gracinha ganhou...
Vocês, se assim se equilibram, ficam perfeitos.
Deante do espelho Barrôlo acariciava a cinta, com um risinho
deleitado:
—Realmente, parece que adelgacei... Até sinto nas
calças...
Gonçalo abrira o gavetão da rica commoda de
ferragens douradas, onde conservava sempre roupa (até duas
casacas), para evitar o
transporte de malas entre os Cunhaes e a Torre. E ria, aconselhava o
bom
Barrôlo a «adelgaçar» sem
descanço,
para belleza da futura raça Barrolica—quando em baixo, na
silenciosa rua das Tecedeiras as patas de um cavallo de luxo feriram as
lages em cadencia lenta.
Logo desconfiado, Gonçalo correu á janella, ainda
com a camisa que desdobrava. E era elle! Era o
André
Cavalleiro, que descia
ladeando, sopeando a rédea, para escarvar com garbo e fragor
a rampa
mal empedrada. Gonçalo virou para o Barrôlo a face
chammejante de furôr:
—Isto é uma provocação! Se este
descarado d'este Cavalleiro passa outra vez na maldita pileca, por
debaixo das janellas, apanha com um balde d'agua suja!...
Barrôlo, inquieto, espreitou:
—Naturalmente vae para casa das Louzadas... Anda agora muito intimo
das Louzadas... Sempre por aqui o vejo... E é para as
Louzadas.
—Que seja para o inferno! Pois, em toda a cidade, não ha
outro caminho para casa das Louzadas? Duas vezes em meia hora! Grande
insolente! Tem uma chapada d'agua de sabão, pela grenha e
pela bigodeira,
tão certo como eu ser Ramires, filho de meu pae Ramires!
Barrôlo beliscava a pelle do pescoço, constrangido
ante aquelles rancores ruidosos que desmanchavam o seu socego.
Já, por
imposição de Gonçalo, rompera
desconsoladamente com o Cavalleiro. E agora
antevia sempre uma bulha, um escandalo que o indisporia com os amigos
do Cavalleiro, lhe vedaria o Club e as doçuras da Arcada,
lhe
tornaria Oliveira mais enfadonha que a sua quinta da Ribeirinha
ou da Murtosa, solidões detestadas.
Não se conteve,
arriscou o costumado reparo:
—Ó
Gonçalinho, olha que tambem todo esse
espalhafato só por causa da Politica...
Gonçalo quasi quebrou o jarro, na furia com que o pousou
sobre o marmore do lavatorio:
—Politica! Ahi vens tu com a Politica! Por Politica não se
atira agua suja aos Governadores Civis. Que elle não
é
Politico, é só malandro! Além d'isso...
Mas terminou por encolher os hombros, emmudecer, diante do pobre
bacôco de bochechas pasmadas, que, n'aquellas rondas do
Cavalleiro pelos Cunhaes, só notava o «lindo
cavallo» ou
«o caminho mais curto para as Louzadas!...»
—Bem! resumiu. Agora larga, que me quero vestir... Do bigodeira me
encarrego eu.
—Então, até logo... Mas se elle passar nada
d'asneiras, hein?
—Só justiça, aos baldes!
E bateu com a porta nas costas resignadas do bom Barrôlo,
que, pelo corredor, suspirando, lamentava o assomado genio do
Gonçalinho, as coleras desproporcionadas em que o
lançava «a
Politica.»
Em quanto se ensaboava com vehemencia, depois se vestia n'uma pressa
irada, Gonçalo ruminou aquelle intoleravel escandalo.
Fatalmente, apenas se apeava em Oliveira, encontrava o homem da grande
guedelha, caracolando por sob as janellas do palacete, na pileca de grandes
clinas! E o que o desolava era perceber no
coração de Gracinha, pobre
coração meigo e sem fortaleza, uma teimosa raiz
de ternura pelo Cavalleiro, bem enterrada, ainda vivaz, facil de
reflorir... E nenhum outro sentimento forte que a defendesse, n'aquella
ociosidade d'Oliveira—nem superioridade do marido, nem encanto d'um
filho no seu berço. Só a amparava o orgulho,
certo respeito
religioso pelo nome de Ramires, o medo da pequena terra espreitadeira e
mexeriqueira. A sua salvação seria o abandono da
cidade, o encerrado
retiro n'uma das quintas do Barrôlo, a Ribeirinha,
sobretudo a Murtosa,
com a linda matta, os musgosos muros de convento, a aldêa em
redor para
ella se occupar como castellã benefica. Mas quê!
Nunca o
Barrôlo, consentiria em perder o seu voltarete no Club, e a
cavaqueira da tabacaria
«Elegante», e as chalaças do Major Ribas!
Afogueado pelo calor, pela emoção,
Gonçalo abriu a varanda. Em baixo, no curto
terraço ladrilhado, orlado de vasos de
louça, precedendo o jardim, Gracinha, ainda soltos os
cabellos por cima do penteador, conversava com outra senhora, muito
alta, muito magra, de chapeu marujo enfeitado de papoulas, que segurava
entre os braços um repolhudo
mólho de rosas.
Era a «prima» Maria Mendonça, mulher de
José Mendonça, condiscipulo do Barrôlo
em Amarante, agora capitão do Regimento de
Cavallaria estacionado em Oliveira. Filha d'um certo D. Antonio, senhor
(hoje Visconde) dos Paços de Severim, devorada pela
preoccupação de parentescos fidalgos, de origens
fidalgas, ligava sempre surrateiramente o vago solar de Severim a todas
as casas nobres de Portugal—sobre tudo, mais gulosamente, á
grande casa de Ramires: e, desde que o
regimento se aquartellára em Oliveira, tratára
logo Gracinha
por «tu» e Gonçalo por
«primo», com a intimidade especial, que convem a
sangues superiores. Todavia mantinha amisades muito seguidas e activas
com brazileiras ricas d'Oliveira—até com a viuva Pinho,
dona da loja de pannos,
que (segundo se murmurava) lhe fornecia os dous filhos ainda pequenos
de
calções e de jalecas. Tambem convivia
intimamente, já na cidade,
já na Feitosa, com D. Anna Lucena.
Gonçalo gostava da sua graça, da
sua agudeza, da vivacidade maliciosa que a agitava n'uma linda
crepitação de galho, ardendo com alegria. E
quando, ao rumor da janella perra, ella levantou os olhos lusidios e
espertos, foi em ambos uma surpresa carinhosa:
—Oh prima Maria! Que felicidade, logo que chego e que abro a janella...
—E para mim, primo Gonçalo, que o não via desde
a sua volta de Lisboa!... Pois está mais lindo, assim de
bigode...
—Dizem que estou lindissimo, absolutamente irresistivel!
Até aconselho á prima Maria que se não
approxime muito de mim,
para se não incendiar.
Ella deixou pender desoladamente nos braços o seu pesado
molho de rosas:
—Ai Jesus, então estou perdida, que ainda agora prometti
á prima Graça jantar cá esta tarde!...
Oh Gracinha, por quem
és, põe um biombo entre os dois!
Gonçalo gritou, pendurado da varanda, já
deliciado com os chistes da prima Maria:
—Não! enfio eu um abat-jour pela
cabeça para
attenuar o meu brilho!... E o maridinho, os pequenos? Como vae o nobre
rancho?
—Vivendo, com algum pão e muita graça de Deus...
Então até logo, primo Gonçalo! E seja
misericordioso!
E ainda elle ria, encantado—já a prima Maria depois de
cochichar e d'estalar dois beijos apressados na face de Gracinha,
desapparecêra pela porta envidraçada da sala com a
sua elegancia esgalgada.
Gracinha, lentamente, subiu os tres degraus de marmore do jardim. Da
varanda, Gonçalo ainda avistou atravez da ramaria leve,
entre as
sebes de buxo, o penteador branco, os fartos cabellos cabidos, relusindo no sol como uma
cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas,
desappareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.
Mas Gonçalo não se arredou d'entre as janellas,
limando vagamente as unhas, espreitando pelas cortinas, n'uma
desconfiança, quasi
n'um terror que o Cavalleiro de novo surgisse na pileca—agora que
Gracinha se embrenhára para os lados d'esse commodo Mirante,
construcção do seculo XVIII, imitando um
Templosinho do Amor, que rematava o longo
terraço do jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a
calçada
permanecia silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do
Palacete e do Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da
espionagem—certo que a irmã não se mostraria ao
Cavalleiro na
varandinha do Mirante, assim com os cabellos em desalinho, por cima
d'um penteador.
E cerrava a porta, quando se encontrou deante dos braços do
Padre Sueiro, que o prenderam pela cinta com affago e respeito.
—Oh! meu ingratissimo Padre Sueiro! exclamava Gonçalo,
batendo ternamente nas gordas costas do Capellão.
Então
que feia acção foi esta? Mais de um mez sem
apparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre Sueiro
já não ha Gonçalinho, ha só
Gracinha...
Enternecido, quasi com uma lagrima a bailar nos
mansos olhos miudos, que mais negrejavam entre a frescura rozea da face
roliça e a
cabecinha branca como algodão—Padre Sueiro sorria, fechando
as
mãos sobre o peito
da batina d'alpaca, d'onde surdia a ponta de um lenço de
quadrados vermelhos. E não lhe escasseára
certamente o
desejo d'ir á Torre. Mas aquelle trabalhinho na Bibliotheca
do Paço do Bispo...
Depois o seu rheumatismosito... Emfim a Sr.a D.
Graça sempre esperando
S. Ex.a, um dia, outro dia...
—Bem, bem! acudiu alegremente Gonçalo, comtanto que o
coração não se esquecesse da Torre...
—Ah! esse! murmurou Padre Sueiro com commovida gravidade.
E pelo corredor de paredes azues, adornadas com gravuras coloridas das
batalhas de Napoleão, Gonçalo resumiu as
novidades da Torre:
—Como o Padre Sueiro sabe, rebentou aquelle escandalo do Relho... E
ainda bem, porque conclui um negocio explendido. Imagine! Arrendei ha
dias a quinta ao Pereira Brazileiro, ao Pereira da Riosa, por um conto
cento e cincoenta mil réis...
O capellão suspendeu a pitada, que colhera n'uma caixa de
prata dourada, pasmado para o Fidalgo:
—Ora ahi está como as cousas se inventam! Pois por
cá constou que V. Ex.a
tratára com o José
Casco, o José
Casco dos Bravaes. Até no Domingo, ao almoço, a
Sr.a D.
Graça...
—Sim, interrompeu
o Fidalgo com uma fugidia côr na face
fina. Effectivamente o Casco veio á Torre,
conversámos.
Primeiramente quiz, depois não quiz. Aquellas cousas do
Casco! Einfim, uma
massada... Não ficou nada decidido. E quando o Pereira, uma
bella manhã, me
appareceu com a proposta, eu, inteiramente desligado, acceitei, e com
que alvoroço!... Imagine! Um augmento soberbo de renda, o
Pereira como rendeiro... O Padre Sueiro conhece bem o Pereira...
—Homem entendido, concordou o Capellão coçando
embaraçadamente o queixo. Não ha duvida. E homem
de bem... Depois
não havendo palavra dada ao Cas...
-—Pois o Pereira para a semana vem á cidade, atalhou
apressadamente Gonçalo. O Padre Sueiro previne o
tabellião
Guedes, e assignamos essa bella escriptura. São as
condições
costumadas. Creio que ha uma reserva a respeito da hortaliça
e do porco... Emfim o Padre Sueiro
deve receber carta do Pereira.
E immediatamente, descendo a escada, passando o lenço
perfumado pelo bigode, gracejou com o capellão sobre o
famoso Fado
dos
Ramires em que elle collaborava com o Videirinha. Oh! Padre
Sueiro fornecera lendas sublimes! Mas aquella de Santa
Aldonça, realmente,
fôra ataviada com exageração... Quatro
Reis a levarem a Santa aos
hombros!
—São
Reis de mais, Padre Sueiro!
O bom capellão protestou, logo interessado e serio, no amor
d'aquella obra que glorificava a Casa:
—Ora essa! Com perdão de V. Ex.a...
Perfeitissimamente
exacto. Lá o conta o Padre Guedes do Amaral, nas suas Damas
da
Côrte do
Ceu, livro precioso, livro rarissimo, que o Sr.
José Barrôlo
tem na Livraria. Não especifica os Reis, mas diz quatro...
«Aos hombros de quatro
Reis e com acompanhamento de muitos Condes.» Mas o nosso
José
Videira declarou que não podia metter os Condes por causa da
rima.
O Fidalgo ria, dependurando n'um cabide, ao fundo da escada, o chapeu
de palha com que descêra:
—Por causa da rima, pobres Condes... Mas o fado está lindo.
Eu trago uma copia para a Gracinha cantar ao piano... E agora outra
cousa, Padre Sueiro. O que se conta por ahi do Governador Civil, d'esse
Sr.
André Cavalleiro?...
O capellão encolheu os hombros, desdobrando cautelosamente o
seu vasto lenço de quadrados vermelhos:
—Eu, como V. Ex.a sabe, não entendo
de Politica. Depois
tambem não frequento os cafés, os sitios onde se
questiona Politica...
Mas parece que gostam.
No corredor um escudeiro gordo, de opulentas suissas
ruivas, que
Gonçalo não conhecia, badalou a sineta do
almoço.
Gonçalo reparou, avisou o homem que a Snr.a
D. Maria da Graça
andava para o fundo do
jardim...
—Entrou agora, Snr. D. Gonçalo! accudiu o escudeiro. E
até manda perguntar se V. Ex.a deseja
para o
almoço vinho verde de
Amarante, de Vidainhos.
Sim, com certeza, vinho de Vidainhos. Depois
sorrindo:
—Oh Padre Sueiro, previna este escudeiro novo que eu não
tenho Dom. Sou simplesmente Gonçalo,
graças a Deus!
O capellão murmurou que todavia, em documentos da Primeira
Dynastia, appareciam Ramires com Dom. E, como
Gonçalo parara deante
do reposteiro corrido da sala, logo o bom velho se curvou, com as suas
escrupulosas, reverentes ceremonias, para o Fidalgo passar.
—Então, Padre Sueiro, por quem é!
Mas elle, com apegado respeito:
—Depois de V. Ex.a, meu senhor...
Gonçalo afastou o reposteiro, empurrou docemente o
capellão:
—Padre Sueiro, já nos documentos da Primeira Dynastia se
estabeleceu que os Santos nunca andam atraz dos Peccadores!
—V. Ex.a manda, e sempre com que
graça!
Depois dos annos de Gracinha, uma tarde, pelas tres horas,
Gonçalo, recolhendo com Padre Sueiro d'uma visita
á Bibliotheca do
Paço do Bispo, sentiu logo da antecamara o
vozeirão do Titó, que
rolava na sala azul em trovão lento. Franziu vivamente o
reposteiro—e sacudiu o
punho para o immenso homem que enchia um dos cadeirões
dourados,
estirando por sobre as flôres do tapete umas botas novas de
grossas tachas
reluzentes:
—Oh infame!... Então n'outro dia assim me larga, sem
escrupulo, depois de eu lhe preparar um cabrito estupendo, assado n'um
espeto de cerejeira? E para quê?... Para uma orgia reles, com
bolinhos
de bacalhau e bichinhas de rabear!
Titó não desmanchou a sua conchegada beatitude:
—Impossibilissimo. De tarde encontrei o João Gouveia no
Chafariz. E só então nos lembrámos de
que eram os annos da D.
Casimira. Dia sagrado!
Aquellas ceias de Villa-Clara, as tresnoutadas
«pandegas» com violão, impressionavam
sempre Barrôlo, que as appetecia. E com o olho
aguçado, do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente
pacotes de tabaco dentro de uma terrina do Japão:
—Quem é a D. Casimira? Vocês em Villa-Clara
descobrem uns typos... Conta lá!
—Um monstro!
declarou Gonçalo. Uma matronaça
bojuda como uma pipa, com um pêllo nojento no
queixo. Vive ao pé do
Cemiterio, n'um cacifro que tresanda a petroleo, onde este senhor e as
auctoridades vão
jogar o quino, e derriçar com umas serigaitas de cazabeque
vermelho
e de farripas... Nem se póde decentemente contar deante do
Snr.
Padre Sueiro!
O capellão, que sem rumor se esbatera n'uma sombra discreta,
entre os franjados setins d'uma cortina e um pesado contador da India,
moveu os hombros n'um consentimento risonho, como acostumado a todas as
fealdades do Peccado. E, com pachorra, o Titó emendava o
esboço burlesco do Fidalgo:
—A D. Casimira é gorda, mas muito aceada. Até me
pediu para eu lhe comprar hoje, na cidade, uma bacia nova d'assento. A
casa
não cheira a petroleo e fica por traz do convento de Santa
Theresa. As serigaitas
são simplesmente as sobrinhas, duas raparigas alegres que
gostam de rir e de troçar... E o Snr. Padre Sueiro podia,
sem medo...
—Bem, bem! atalhou Gonçalo. Gente deliciosa! Deixemos a D.
Casimira, que tem bacia nova para os seus semicupios... Vamos
á outra
infamia do Sr. Antonio Villalobos!
Mas Barrôlo insistia, curioso:
—Não, não, conta lá,
Titó... Noite d'annos, patuscada rija, hein?
—Ceia pacata,
contou o Titó com a seriedade que lhe merecia
a festa das suas amigas. A D. Casimira tinha uma bella frangalhada com
ervilhas. O João Gouveia trouxe do Gago uma travessa de
bôlos
de bacalhau que calharam... Depois, fogo de vistas na horta. O
Videirinha tocou, as pequenas cantaram... Não se passou mal.
Gonçalo esperava—irresistivelmente interessado pela ceia
das Casimiras:
—Acabou, hein?... Agora a outra infamia, mais grave! Então
o Snr. Antonio Villalobos é intimo do Sanches Lucena,
frequenta
todas as semanas a Feitosa, toma chá e
torradas
com a bella D.
Anna, e esconde tenebrosamente dos seus amigos estes privilegios
gloriosos?...
—Sem contar, gritou o Barrôlo deliciosamente divertido, que
lhe passeia á trela os cãesinhos felpudos!
—Sem contar que lhe passeia á trela os cãesinhos
felpudos! echoou cavamente Gonçalo. Responda, meu illustre
amigo!
O Titó remecheu o vasto corpo dentro do cadeirão,
recolheu as botas de tachas luzentes, afagou lentamente a face barbuda,
que uma
vermelhidão aquecêra. E depois de encarar
Gonçalo,
intensamente, com um esforço de sagacidade que mais o
afogueou:
—Tu já
alguma vez, por curiosidade, me perguntaste se eu
conhecia o Sanches Lucena? Nunca me perguntaste...
O Fidalgo protestou. Não! Mas constantemente na Assembleia,
no Gago, na
Torre, elles berravam, em questões de Politica, o nome do
Sanches Lucena! Nada mais natural, até mais prudente, do que
alludir
o Snr. Titó á sua intimidade illustre! Ao menos
para evitar que elle, ou
os amigos, deante do Snr. Titó que comia as torradas da Feitosa,
tratassem o Sanches Lucena como um trapo!
O Titó despegou do cadeirão. E afundando as
mãos nos bolsos da quinzena d'alpaca, sacudindo
desinteressadamente os hombros:
—Cada um tem sobre o Sanches a sua opinião... Eu apenas o
conheço ha quatro ou cinco mezes, mas acho que é
serio, que sabe as
cousas... Agora, lá nas Camaras...
Gonçalo, indignado, bradava que se não discutiam
os meritos do Snr. Sanches Lucena—mas os segredos do Snr.
Titó Villalobos! E o
escudeiro novo, avançando as suissas ruivas por uma fenda do
reposteiro, annunciou que o Snr. Administrador de Villa-Clara procurava
Suas Ex.as...
Barrôlo largou logo a terrina de tabaco:
—O Snr. João Gouveia! Que entre! Bravo! temos cá
toda a rapaziada de Villa-Clara!
E Titó, da janella onde se refugiara, lançou o
vozeirão, mais troante, abafando a importuna conversa do
Sanches e da Feitosa:
—Viemos ambos! Por signal n'uma traquitana infame... Até se
nos desferrou uma das pilecas e tivemos de parar na Vendinha.
Não se perdeu tempo, que ha agora lá um vinhinho
branco que é
d'aqui da ponta fina!...
Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente Barrôlo e
Gonçalo a passarem na Vendinha, para provar a pinga celeste.
—Até aqui o Snr. Padre Sueiro lhe atiçava uma
caneca valente, apesar do Peccado!
Mas João Gouveia entrou, encalmado, empoeirado, com um vinco
vermelho na testa, do chapeu e do calor—e abotoado na sobrecasaca
preta, de
calças pretas, de luvas pretas. Sem folego, apertou
silenciosamente pela sala as mãos amigas que o acolhiam. E
desabou sobre o
camapé, implorando ao amigo Barrôlo a caridade
d'uma bebidinha fresca!
—Estive para entrar no café Monaco. Mas reflecti que n'esta
grandiosa casa dos Barrôlos as bebidas são de mais
confiança.
—Ainda bem! Você que quer? Orchata? Sangria? Limonada?
—Sangria.
E, limpando o pescoço e a testa, amaldiçoou o
indecente calor d'Oliveira:
—Mas ha gente que
gosta! Lá o meu chefe, o Snr. Governador
Civil, escolhe sempre a hora do calor para passear a cavallo. Ainda
hoje... Na repartição até ao meio dia;
depois,
cavallo á porta; e larga até á estrada
de Ramilde, que é uma Africa... Não sei
como lhe não fervem os miolos!
—Oh! acudiu Gonçalo, é muito simples. Se elle os
não tem!
O administrador saudou gravemente:
—Já cá faltava com a sua ferroadasinha o Snr.
Gonçalo Mendes Ramires! Não comecemos,
não comecemos... Este seu cunhado,
Barrôlo, é bicho indomesticavel! Sempre reponta!
O bom Barrôlo gaguejou, constrangido, que
Gonçalinho em Politica não dispensava a piada...
—Pois olhe! declarou o administrador, sacudindo o dedo para
Gonçalo. Esse Snr. André Cavalleiro, que
não tem miolos,
ainda esta manhã na Repartição gabou
com immensa sympathia os miolos
do Snr. Gonçalo Mendes Ramires!...
E Gonçalo, muito serio:
—Tambem não faltava mais nada! Para esse Governador Civil
ser perfeitamente absurdo só lhe restava que me considerasse
um
asno!
—Perdão! gritou o Administrador, que se erguera,
desabotoando logo a sobrecasaca, para commodidade da contenda.
Barrôlo acudio, afflicto, carregando nos hombros do
Gouveia—para o socegar e o repôr no camapé:
—Não, meninos, não! Politica, não! E
então essa massada do Cavalleiro... Vamos ao que importa.
Você janta comnosco,
João Gouveia?
—Não, obrigado. Já prometti jantar com o
Cavalleiro. Temos lá o Ignacio Vilhena. Vae lêr um
artigo que escreveu para o Boletim
de
Guimarães sobre umas fôrmas de fabricar
ossos de martyres, descobertas
nas obras do convento de S. Bento. Estou com curiosidade... E a Snr.a
D.
Graça, bem? Quem eu não avistava havia mezes era
o Snr. Padre
Sueiro. Nunca apparece agora pela Torre!... Mas sempre rijo, sempre
viçoso. Oh, Snr. Padre Sueiro, qual é o seu
segredo para toda essa meninice?
Do seu canto, o capellão sorriu timidamente. O segredo?
Poupar a Vida—não a consumindo nem com
ambições nem com decepções.
Ora para elle, louvado Deus, a vida corria muito simples e muito
pequenina. E fóra o seu rheumatismo...
Depois, córando d'acanhamento, atravez das
sentenças evangelicas que lhe escapavam:
—Mas mesmo o rheumatismo não é mal perdido.
Deus, que o manda, sabe porque o manda... Soffrer edifica. Por que
enfim o que nós
soffremos nos leva a pensar no que os outros soffrem...
—Pois olhe, volveu
com alegre incredulidade o Administrador, eu,
quando tenho os meus ataques de garganta, não penso na
garganta dos
outros! Penso só na minha que me dá bastante
cuidado. E
agora a vou regalar n'aquella bella sangria...
O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de prata, carregada de copos
de sangria onde boiavam rodellinhas de limão. E todos se
tentaram, todos beberam, até Padre Sueiro, para mostrar ao
Snr. Antonio
Villalobos que não desdenhava o vinho, dadiva amavel de
Deus—pois como
ensina Tibulo com verdade, apezar de gentilico, vinus facit
dites animos,
mollia corda dat, enrija a alma e adoça o
coração.
João Gouveia, depois d'um suspiro consolado, pousou na
bandeja o copo que esvasiára d'um trago e interpellou
Gonçalo:
—Vamos a saber! Então n'outro dia que historia phantastica
foi essa d'uma festa na Torre, com senhoras, com a D. Anna Lucena?...
Eu
não acreditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me deu
o recado. Depois...
Mas d'entre as cortinas da janella, onde acabava a sangria,
Titó novamente rebombou, interpellando tambem o Fidalgo:
—Oh sô Gonçalo! E o que me contou ha pouco o
Barrôlo?... Que andavas com idéas de abalar para a
Africa?
Ao espanto de João Gouveia quasi se misturou terror. Para a
Africa?... O quê? Com um emprego para a Africa?...
—Não! plantar côcos! plantar cacau! plantar
café! exclamava o Barrôlo, com divertidas palmadas
na côxa.
Pois Titó approvava a idéa! Tambem elle, se
arranjasse um capital, dez ou quinze contos, tentava a Africa, a
traficar com o preto... E tambem se fôsse mais pequeno, mais
secco. Que homens do seu
corpanzil, necessitando muita comezaina e muita vinhaça,
não
aguentam a Africa, rebentam!
—O Gonçalo sim! É chupado, é rijo;
não carrega na agua-ardente; está na conta para
Africanista... E sempre te digo! Carreira bem mais decente que essa
outra por que tens mania, de deputado! Para que? Para palmilhar na
Arcada, para bajular Conselheiros.
Barrôlo concordou, com alarido. Tambem não
comprehendia a teima de Gonçalo em ser deputado! Que
massada! Eram logo as intrigas,
e as desandas nos jornaes, e os enxovalhos. E sobretudo aturar os
eleitores.
—Eu, nem que me nomeassem depois Governador Civil, com um titulo e uma
gran-cruz a tiracollo, como o Freixomil!
Gonçalo escutára, n'um silencio risonho e
superior, enrolando laboriosamente um cigarro com o tabaco do
Barrôlo:
—Vocês não comprehendem... Vocês
não conhecem a organisação de
Portugal. Perguntem ahi ao Gouveia... Portugal é uma
fazenda, uma bella fazenda, possuida por uma parceria. Como
vocês sabem ha
parcerias commerciaes e parcerias ruraes. Esta de Lisboa é
uma
parceria politica, que governa a herdade chamada
Portugal...
Nós os
Portuguezes pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis
milhões
que trabalham na fazenda, ou vivem n'ella a olhar, como o
Barrôlo, e que
pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a parceria,
que recebem e que governam. Ora eu, por gosto, por necessidade, por
habito de familia, desejo mandar na fazenda. Mas, para entrar na parceria
politica, o cidadão portuguez precisa uma
habilitação—ser deputado. Exactamente como,
quando pretende entrar na Magistratura, necessita uma
habilitação—ser bacharel. Por isso procuro
começar como deputado para acabar como parceiro e
governar... Não é verdade,
João Gouveia?
O Administrador voltára á bandeja das sangrias,
de que saboreava outro copo, agora lentamente, aos goles:
—Sim, com effeito, essa é a carreira... Candidato,
Deputado,
Politico, Conselheiro, Ministro, Mandarim. É a carreira... E
melhor
que a d'Africa. Por fim na Arcada, em Lisboa, tambem cresce cacau e ha
mais sombra!
Barrôlo no emtanto abraçára o hombro
possante do Titó, com quem mergulhou no vão da
janella, n'uma confraternidade d'ideias,
gracejando:
—Pois eu, sem ser dos taes parceiros, tambem
mando nos bocados de Portugal que mais me interessam por que me
pertencem!... E sempre queria
vêr que esse S. Fulgencio, ou o Braz Victorino, ou
lá os politicos do Terreiro do Paço, se mettessem
a dispôr nas minhas
terras, na Ribeirinha ou na Murtosa...
Era a tiro!
Encostado á vidraça, Titó
coçava a barba, impressionado:
—Pois sim, Barrôlo! Mas você na Ribeirinha
e na
Murtosa tem de pagar as
contribuições que elles mandarem. E
n'esses concelhos tem d'aguentar as auctoridades que elles nomearem. E
goza para
lá d'estradas se elles lh'as fizerem. E vende o carro de
pão e a pipa de
vinho com mais ou menos proveito, segundo as leis que elles votarem...
E assim tudo. O Gonçalo não deixa de acertar.
É o diabo! Quem manda é quem lucra... Olhe! o
maroto do meu senhorio em Villa-Clara, agora para o S. Miguel, augmenta
a renda da casa em que eu moro, um cochicho que ninguem quer, por que
mataram lá o carrasco, que ainda lá
apparece... E o Cavalleiro, esse, como parceiro,
vive de
graça n'este
bello palacio de S. Domingos, com cocheira, com jardim, com horta...
Barrôlo atirou um chut, de
mão espalmada,
abafando o vozeirão do Titó, com medo que as
regalias do Cavalleiro, assim proclamadas, renovassem as furias de
Gonçalo. Mas o Fidalgo não percebera,
attento ao João Gouveia, que, enterrado no camapé
depois da sangria, novamente
contava o seu assombro, ao encontrar no chafariz, em Villa-Clara, o
rapasola do Gago com o recado da grande festa na Torre:
—E cheguei a desconfiar que realmente você désse
festa, quando bateram as nove, depois as nove e meia, e o
Titó sem chegar para a
ceia da D. Casimira!... Bem, pensei, tambem recebeu recado e abalou
para a Torre! Por fim, apenas elle appareceu, de carapuço e
de jaqueta,
percebi que fôra troça do Snr. D.
Gonçalo...
Então o Fidalgo pasmou com uma inesperada, estranha suspeita:
—De carapuço e jaqueta? O Titó andava n'essa
noite de carapuço e de jaqueta?...
Mas bruscamente Barrôlo, da funda janella, lançou
para dentro, para a sala, um brado de pavor:
—Oh! rapazes! Santo Deus! Ahi veem as Louzadas!
João Gouveia saltou do camapé, como n'um perigo,
reabotoando arrebatadamente a sobrecasaca; Gonçalo,
atarantado, esbarrou
com o Titó e o Barrôlo que recuavam, no terror de
serem apercebidos
atravez dos vidros largos; até Padre Sueiro, prudente,
abandonou o seu
recanto onde corria os oculos pela Gazeta do Porto.
E todos,
d'entre a fenda das cortinas, como soldados na fresta de uma cidadella,
espreitavam o Largo, que o sol das quatro horas dourava por sobre os
telhados musgosos da Cordoaria. Do lado da rua das Pêgas, as
duas Louzadas, muito
esgalgadas, muito sacudidas, ambas com manteletes curtos de seda preta
e vidrilhos, ambas com guardasoes de xadresinbo desbotado,
avançavam,
estirando pelo largo empedrado duas sombras agudas.
As duas manas Louzadas! Seccas, escuras e garrulas como cigarras, desde
longos annos, em Oliveira, eram ellas as esquadrinhadoras de todas as
vidas, as espalhadoras de todas as maledicencias, as tecedeiras de
todas as intrigas. E na desditosa Cidade não existia nodoa,
pécha, bule rachado, coração dorido,
algibeira arrasada,
janella entreaberta, poeira a um canto, vulto a uma esquina, chapeu
estreado na missa, bolo encommendado nas Mathildes, que os seus quatro
olhinhos furantes d'azeviche sujo não descortinassem—e que
a sua solta
lingoa, entre os dentes ralos, não commentasse com malicia
estridente!
D'ellas surdiam
todas as cartas anonymas que infestavam o Districto: as pessoas devotas
consideravam como penitencias essas visitas em que ellas durante horas
galravam, abanando os braços escanifrados: e sempre por onde
ellas passassem ficava latejando um sulco de desconfiança e
receio. Mas quem ousaria rechaçar as duas manas Louzadas?
Eram filhas do
decrepito e venerando General Louzada; eram parentas do Bispo; eram
poderosas na poderosa confraria do Senhor dos Passos da Penha. E depois
d'uma castidade tão rigida, tão antiga e
tão
resequida, e por ellas tão espaventosamente alardeada—que o
Marcolino do Independente
as
alcunhára de Duas Mil Virgens.
—Não veem para cá! trovejou o Titó,
com immenso allivio.
Com effeito no meio do Largo, rente á grade que circumda o
antigo Relogio-de-Sol, as duas manas paradas, erguiam o bico escuro,
farejando e espiando a Egrejinha de S. Matheus onde o sino
lançára um repique de baptisado.
—Oh, c'os diabos, que é para cá!
As Louzadas, decididas, investiam contra o portão dos
Cunhaes! Então foi um panico! As gordas pernas do
Barrôlo, fugindo, abalaram,
quasi derrubaram sobre os contadores, os potes bojudos da India.
Gonçalo bradava que se escondessem no pomar. Desconcertado, o Gouveia
rebuscava com desespero o seu chapeu côco. Só o
Titó, que as abominava e a quem ellas chamavam o Polyphemo,
retirou com
serenidade, abrigando o Padre Sueiro sob o seu braço forte.
E já o bando
espavorido se arremessára sobre o reposteiro—quando
Gracinha appareceu, com um fresco vestido de sedinha côr de
morango, sorrindo, pasmada, para o tropel que
rolava:
—Que foi? Que foi?...
Um clamor abafado envolveu a dôce senhora ameaçada:
—As Louzadas!
—Oh!
Fugidiamente o Titó e João Gouveia apertaram a
mão que ella lhes abandonou, esmorecida. A sineta do
portão
tilintára, temerosa! E a fila acavallada, onde Padre Sueiro
rebolava a reboque, enfiou para a livraria que o Barrôlo
aferrolhou, gritando ainda a Gracinha, com uma
inspiração:
—Esconde as sangrias!
Pobre Gracinha! Atarantada, sem tempo de chamar o escudeiro, carregou
ella para uma banqueta do corredor, n'um esforço
desesperado, a pesada salva—com que as Louzadas, se a descortinassem,
edificariam por sobre a cidade, e mais alta que a Torre de S. Matheus,
uma historia pavorosa de «vinhaça e
bebedeira». Depois,
offegando, relanceou no espelho
o penteado. E direita como n'uma arena, com a temeridade simples e
risonha dos antigos Ramires, esperou a arremettida das manas terriveis.