Que farás tu, mais velho
dos
Ramires?
Se ao pendão leonez juntas o
teu
Trahes o preito que deves ao rei vivo!
Mas se as Infantas deixas indefezas
Trahes a jura que déstes ao
rei morto!...
Esta duvida, porém, não angustiára a
alma d'esse Tructesindo rude e leal que o Fidalgo da Torre rijamente
modelava. N'essa noite, apenas recebera pelo irmão do
Alcaide d'Aveyras, disfarçado em
beguino, um afflicto recado da senhora D. Sancha—ordenava a seu filho
Lourenço
que, ao primeiro arreból, com quinze lanças,
cincoenta
homens de pé da sua mercê e quarenta besteiros,
corresse sobre Monte-mór. Elle no
emtanto daria alarido—e em dous dias entraria a campo com os parentes
de solar, um troço mais rijo de cavalleiros acontiados e de
frecheiros,
para se juntar a seu primo, o
Souzão,
que na
vanguarda dos
leonezes descia d'Alva-do-Douro.
Depois logo de madrugada o pendão dos Ramires, o
Açor negro em campo escarlate, se plantára deante
das barreiras gateadas: e ao
lado, no chão, amarrado á haste por uma tira de
couro,
reluzia o velho emblema senhorial, o sonoro e fundo
caldeirão polido. Por todo o
Castello se apressavam os serviçaes, despendurando as
cervilheiras,
arrastando com fragor pelas lages os pesados saios de malhas de ferro.
Nos pateos os armeiros aguçavam ascumas, amaciavam a dureza
das grevas e
coxotes com camadas d'estopa. Já o adail, na ucharia,
arrolára as rações de vianda para os
dous quentes dias da arrancada. E por todas as cercanias de Santa
Ireneia, na doçura da tarde, os atambores mouriscos,
abafados no arvoredo, tararam! tararam! ou mais vivos nos
cabeços,
ratatam! ratatam! convocavam os cavalleiros de soldo e a peonagem da
mesnada dos Ramires.
No emtanto o irmão do Alcaide, sempre disfarçado
em beguino, de volta ao castello d'Aveyras com a boa nova de prestes
soccorros, transpunha ligeiramente a levadiça da carcova...
E aqui, para alegrar
tão sombrias vesperas de guerra, o tio Duarte, no seu
Poemeto, engastára
uma sorte galante:
Á moça, que na
fonte enchia a bilha,
O frade rouba um beijo e diz Amen!
Mas Gonçalo hesitava em desmanchar com um beijo de clerigo a
pompa d'aquella formosa sortida d'armas... E mordia pensativamente a
rama da penna—quando a porta da livraria rangeu.
—O correio...
Era o Bento com os Jornaes e duas cartas. O Fidalgo apenas abriu uma,
lacrada com o enorme sinete d'armas do Barrôlo—repellindo a
outra em que reconhecera a lettra detestada do seu alfaiate de Lisboa.
E immediatamente, com uma palmada na mesa:
—Oh diabo! quantos do mez, hoje? quatorze, hein?
O Bento esperava com a mão no fecho da porta.
—É que não tardam os annos da mana
Graça! De todo esqueci, esqueço sempre. E sem ter
um presentinho engraçado... Que secca,
hein?
Mas na véspera o Manoel Duarte, na Assembléa,
á mesa do voltarete, annunciára uma fuga a Lisboa
por tres dias, para tratar do
emprego do sobrinho nas Obras Publicas. Pois corria a Villa-Clara pedir
ao snr. Manoel Duarte que lhe comprasse em Lisboa um bonito
guarda-solinho de sêda branca com rendas...
—O snr. Manoel Duarte tem gosto; tem muito
gosto!
E então o
Joaquim que não selle a egoa; já não
vou ao
Sanches Lucena. Oh, senhores, quando pagarei eu esta infame visita? Ha
tres mezes!... Emfim, por dous dias mais a bella D. Anna não
envelhece; e o velho Lucena tambem
não morre.
E o Fidalgo da Torre, que decidira arriscar o beijo
folgazão, retomou a penna, arredondou o seu final com
elegante harmonia:
«A moça, furiosa, gritou:
Fu!
Fu!
villão! E o beguino, assobiando,
aligeirou as sandalias pelo corrego, na sombra das altas faias,
emquanto que por todo o fresco valle, até Santa Maria de
Craquêde, os atambores mouriscos, tararam! ratamtam!
convocavam á mesnada dos
Ramires, na doçura da tarde...»
III
Durante a longa semana, nas horas da calma, o Fidalgo da Torre
trabalhou com afferro e proveito. E n'essa manhã, depois de
repicar a
sineta no corredor, duas vezes o Bento empurrára a porta da
livraria,
avisando o snr. Doutor «que o almocinho, assim á
espera,
certamente se estragava.» Mas de sobre a tira
d'almaço Gonçalo rosnava
«já vou!»—sem despegar a penna, que
corria como quilha leve em agua mansa, na pressa amorosa de terminar,
antes do almoço, o seu Capitulo I.
Ah! e que canceira lhe custára, durante esses dias, esse
copioso Capitulo, tão difficil, com o immenso Castello de
Santa
Ireneia a erguer; e toda uma edade esfumada da Historia de Portugal a
condensar em contornos robustos; e a mesnada dos Ramires a apetrechar,
sem que faltasse uma ração nos
alforges,
ou uma garruncha
nos caixotes, sobre o dorso das mulas! Mas felizmente, na vespera,
já movera para
fóra do Castello o troço de Lourenço
Ramires, em soccorro
de Monte-mór, com um vistoso coriscar de capellos e
lanças em torno ao
pendão tendido.
E agora, n'esse remate do Capitulo, era noite, e o sino de recolher
tangera, e a almenára luzira na Torre albarran, e
Tructesindo Ramires descera á sala terrea da
Alcaçova para
ceiar—quando fóra, deante da carcova, com tres toques
fortes annunciando filho-d'algo, uma bozina apressada soou. E, sem que
o villico tomasse permissão do
Senhor, o alçapão da levadiça rangeu
nas
correntes de ferro, rebombou cavamente nos apoios de pedra. Quem assim
chegava em dura pressa era Mendo Paes, amigo de Affonso II e mordomo da
sua Curia, casado com a filha mais velha de Tructesindo, D.
Theresa—aquella que, pelo ondeante e alvo pescoço, pelo
pisar mais leve que um vôo, os
Ramires chamavam a
Garça Real. O
Senhor de Santa Ireneia correra ao patim para
acolher, n'um abraço, o genro amado—«membrudo
cavalleiro, com
os cabellos ruivos, a alvissima pelle da raça germanica dos
visigodos...» E, de mãos enlaçadas,
ambos penetraram n'essa sala de abobada,
allumiada por tochas que toscos anneis de ferro seguravam, chumbados
aos muros.
Ao meio pousava a massiça meza de carvalho,
rodeada de
escanhos até ao topo, onde se erguia, deante d'um aspero
mantel de linho coberto de pratos de estanho e de picheis luzidios, a
cadeira senhorial com o
Açor grossamente lavrado nas altas espaldas, e d'ellas
suspensa, pelo cinturão tauxeado de prata, a espada de
Tructesindo. Por
traz negrejava a funda lareira apagada, toda entulhada de ramos de
pinheiro, com a prateleira guarnecida de conchas, entre bocaes de
sanguesugas, sob dois molhos de palmas trazidas da Palestina por
Gutierres Ramires, o
d'Ultramar. Rente a um
esteio da
chaminé, um
falcão, ainda emplumado, dormitava na sua alcondora: e ao
lado, sobre as lages, n'uma camada de juncos, dois alões
enormes dormiam tambem, com o focinho nas
patas, as orelhas rojando. Toros de castanheiro sustentavam a um canto
um pipo de vinho. Entre duas frestas engradadas de ferro, um monge, com
a face sumida no capuz, sentado na borda de uma arca, lia, á
claridade do candil que por cima fumegava, um pergaminho desenrolado...
Assim
Gonçalo adornára a soturna sala Affonsina com
alfaias tiradas do Tio
Duarte, de Walter Scott, de narrativas do
Panorama.
Mas que
esforço!... E mesmo, depois de collocar sobre os joelhos do
monge um folio impresso em Moguncia por Ulrick Zell,
desmanchára toda essa linha
tão erudita, ao recordar, com um murro na mesa, que ainda a
Imprensa
se
não
inventára em tempos de seu avô Tructesindo, e que
ao monge lettrado apenas
competia «um pergaminho de amarellada escripta...»
E caminhando nos ladrilhos sonoros, desde a lareira até ao
arco da porta cerrado por uma cortina de couro, Tructesindo, com a
branca barba espalhada sobre os braços cruzados, escutava
Mendo Paes,
que, na confiança de parente e amigo, jornadeára
sem
homens da sua mercê, cingindo apenas por cima do brial de
lã cinzenta uma espada
curta e um punhal sarraceno. Açodado e coberto de
pó correra
Mendo Paes desde Coimbra para supplicar ao sogro, em nome do Rei e dos
preitos jurados, que se não bandeasse com os de
Leão e com as
senhoras Infantas. E já desenrolára ante o velho
todos os fundamentos invocados
contra ellas pelos doutos Notarios da Curia—as
resoluções do
Concilio de Toledo! a bulla do Apostolo de Roma, Alexandre! o velho
fóro dos
Visigodos!... De resto, que injuria fizera ás senhoras
Infantas seu real
irmão para assim chamarem hostes Leonezas a terras de
Portugal? Nenhuma! Nem regedoria nem renda dos castellos e villas da
doação de D.
Sancho lhes negava o senhor D. Affonso. O Rei de Portugal só
queria que nenhum
palmo de chão portuguez, baldio ou murado, jazesse
fóra de seu senhorio
real. Escasso e avido El-Rei D. Affonso?... Mas não
entregára
elle á senhora D. Sancha
oito
mil
morabitinos d'oiro? E a gratidão da irmã
fôra o Leonez passando a raia e logo cahidos os castellos
formosos d'Ulgoso, de Contrasta, d'Urros e de Lanhosello! O mais velho
da casa dos Souzas,
Gonçalo Mendes, não se encontrára ao
lado dos cavalleiros
da Cruz na jornada das Navas, mas lá andava em recado das
Infantas, como moiro,
talando terra portugueza desde Aguiar até Miranda! E
já pelos
cerros d'Além-Douro apparecera o pendão renegado
das treze arruellas—e por
traz, farejando, a alcateia dos Castros! Carregada ameaça, e
de armas
christãs, opprimindo o Reino—quando ainda Moabitas e
Agarenos corriam
á redea solta pelos campos do Sul!... E o honrado Senhor de
Santa Ireneia, que tão rijamente ajudára a fazer
o Reino,
não o deveria decerto desfazer arrancando d'elle os
pedaços melhores para monges e para
donas rebeldes!—Assim, com arremessados passos, exclamára
Mendo
Paes, tão acalorado do esforço e da
emoção, que
duas vezes encheu de vinho uma conca de pau e d'um trago a despejou.
Depois, limpando a bocca
ás costas da mão tremula:
—Ide por certo a Monte-mór, senhor Tructesindo Ramires! Mas
em recado de paz e boa avença, persuadir vossa senhora D.
Sancha e as
senhoras Infantas que voltem honradamente a quem hoje contam por seu
pae e seu Rei!
O enorme senhor de Santa Ireneia parára, pousando no genro
os olhos duros, sob a ruga das sobrancelhas, hirsutas e brancas como
sarças em manhã de geada:
—Irei a Monte-mór, Mendo Paes, mas levar o meu sangue e o
dos meus para que justiça logre quem justiça tem.
Então Mendo Paes, amargurado, ante a heroica teima:
—Maior dó, maior dó! Será bom sangue
de Ricos-homens vertido por más desfórras...
Senhor Tructesindo Ramires, sabei que em
Canta-Pedra vos espera Lopo de Baião, o Bastardo, para vos
tolher a passagem
com cem lanças!
Tructesindo ergueu a vasta face—com um riso tão soberbo e
claro que os alões rosnaram torvamente, e, acordando, o
falcão
esticou a aza lenta:
—Boa nova e de boa esperança! E, dizei, senhor
Mordomo-mór da Curia, tão de
feição e certa assim m'a
trazeis para me intimidar?
—Para vos intimidar?... Nem o Senhor Archanjo S. Miguel vos
intimidaria descendo do céo com toda a sua hoste e a sua
espada de lume!
De sobra o sei, senhor Tructesindo Ramires. Mas casei na vossa casa. E
já que n'esta lide não sereis por mim bem
ajudado, quero, ao menos,
que sejaes bem avisado.
O velho Tructesindo bateu as palmas para chamar os sergentes:
—Bem, bem, a cear, pois! Á ceia, Frei Munio!... E
vós, Mendo Paes, deixai receios.
—Se deixo! Não vos póde vir damno que me anceie
de cem lanças, de duzentas, que vos surjam a caminho.
E, emquanto o monge enrolava o seu pergaminho, se acercava da
mesa—Mendo Paes ajuntou com tristeza, desafivelando vagarosamente o
cinturão da espada:
—Só um cuidado me pesa. E é que, n'esta jornada,
senhor meu sogro, ides ficar de mal com o Reino e com o Rei.
—Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino e com o Rei, mas de bem com
a honra e commigo!
Este grito de fidelidade, tão altivo, não resoava
no poemeto do tio Duarte. E quando o achou, com inesperada
inspiração, o Fidalgo da Torre, atirando a penna,
esfregou as mãos, exclamou, enlevado:
—Caramba! Aqui ha talento!
Rematou logo o Capitulo. Estava esfalfado, á banca do
trabalho desde as nove horas, a reviver intensamente, e em jejum, as
energias magnificas dos seus fortes avós! Numerou as
tiras—fechou na gaveta
á chave o volume do
Bardo.
Depois
á janella, com o
collete
desabotoado, ainda lançou o brado genial
n'um grave e rouco tom,
como o
lançaria Tructesindo:—...«de mal com o Reino e
com o Rei, mas de bem
com a honra e commigo!...» E sentia n'elle realmente toda a
alma de um
Ramires, como elles eram no seculo XII, de sublime lealdade, mais
presos á
sua palavra que um santo ao seu voto, e alegremente desbaratando, para
a manter, bens, contentamento e vida!
O Bento, que espalhára outro repique desesperado, escancarou
a porta da livraria:
—É o Pereira... Está lá em baixo no
pateo o Pereira que quer fallar ao Sr. Doutor.
Gonçalo Mendes franziu a testa, com impaciencia, assim
repuxado d'aquellas alturas onde respirava os nobres espiritos da sua
raça:
—Que massada!... O Pereira... Que Pereira?
—O Pereira; o Manoel Pereira, da Riosa; o Pereira Brazileiro.
Era um lavrador, com casal na Riosa, chamado
Brazileiro
por ter herdado vinte contos de um tio, regatão no
Pará.
Comprára então terras, trazia arrendada a
Cortiga,
a fallada propriedade
dos condes de Monte-Agra, envergava aos domingos uma sobrecasaca de
panno fino, e dispunha de sessenta votos na Freguezia.
—Ah! Dize ao Pereira que suba, que conversamos emquanto
almóço... E põe outro talher.
A sala de jantar da Torre, que abria por trez portas
envidraçadas para uma funda varanda alpendrada, conservava,
do tempo do avô
Damião, (o traductor de Valerius Flaccus) dous formosos
pannos d'Arraz representando a
Expedição
dos
Argonautas.
Louças da India e do Japão, desirmanadas e
preciosas, recheiavam um immenso armario de mogno. E sobre o marmore
dos aparadores rebrilhavam os restos, ainda ricos, das pratas famosas
dos Ramires que o Bento constantemente areava e polia com amor. Mas
Gonçalo, sobretudo de verão, sempre
almoçava e jantava na varanda luminosa e fresca, bem
esteirada, revestida até
meio-muro por finos azulejos do seculo XVIII, e offerecendo a um canto,
para as preguiças do charuto, um profundo canapé
de
palhinha com almofadas de damasco.
Quando lá entrou, com os jornaes da manhã que
não abrira, o Pereira esperava, encostado a um grosso
guarda-sol de panninho escarlate, considerando pensativamente a quinta
que, d'alli, se abrangia
até aos álamos da ribeira do Coice e aos outeiros
suaves de
Valverde. Era um velho esgalgado e rijo, todo ossos, com um
carão moreno, de
olhos miudinhos e azulados, e uma barbicha rala, já branca,
entre
dous enormes collarinhos presos por botões de ouro. Homem de
propriedade,
acostumado á Cidade
e
ao trato das Auctoridades, estendeu largamente a
mão ao Fidalgo da Torre, e acceitou, sem
embaraço, a cadeira que
elle lhe empurrára para a mesa—onde dominavam, com os seus
ricos
lavores duas altas enfusas de crystal antigo, uma cheia
d'açucenas e a
outra de vinho verde.
—Então, que bom vento o traz pela Torre, Pereira amigo?
Não o vejo desde Abril!
—É verdade, meu Fidalgo, desde o sabbado em que cahiu a
grande trovoada, na vespera da eleição! confirmou
o
Pereira affagando o cabo do guarda-sol que conservára entre
os joelhos.
Gonçalo, n'uma esfaimada pressa do almoço,
repicou a campainha de prata. Depois rindo:
—E os seus votos, Pereira amigo, segundo o costume, lá
foram para o eterno Sanches Lucena, direitinhos, como os rios
vão para o
mar!
O Pereira tambem riu, com um riso agradado que lhe descobria os
máos dentes. Pois o circulo era uma propriedade do Sr.
Sanches Lucena! Cavalheiro de fortuna, homem de bem, conhecedor,
serviçal...
E então, quando lhe calhava como em Abril o apoio do
Governo, nem Nosso Senhor Jesus Christo que voltasse á terra
e se propuzesse por
Villa-Clara desalojava o patrão da
Feitosa!
O Bento, vagaroso, de jaqueta de lustrina preta sobre o avental
resplandecente, entrava com um
prato
d'ovos estrellados, quando o Fidalgo, que desdobrára o
guardanapo, o amarrotou,
arremessou com nojo:
—Este guardanapo já serviu! Eu estou farto de gritar.
Não me importa guardanapo rôto, ou com passagens,
ou com remendos... Mas
branquinho, fresquinho cada manhã, a cheirar a alfazema!
E reparando no Pereira, que discretamente arredava a cadeira:
—O quê! Você não almoça,
Pereira?...
Não, agradecia muito ao Fidalgo, mas n'essa tarde comia as
sopas com o genro nos Bravaes, que era festa pelos annos do netinho.
—Bravo! Parabens, Pereira amigo! Dê lá um beijo
meu ao netinho... Mas então ao menos um copo de vinho verde.
—Entre as comidas, meu Fidalgo, nem agua nem vinho.
Gonçalo farejára, arredára os ovos. E
reclamou o «jantar da familia», sempre muito farto
e saboroso na Torre, e começando por
essas pesadas sopas de pão, presunto e legumes, que elle
desde
creança adorava e chamava as
palanganas.
Depois, barrando de
manteiga uma bolacha:
—Pois francamente, Pereira, esse seu Sanches Lucena não faz
honra ao circulo! Homem excellente, decerto, respeitavel,
obsequiador... Mas mudo, Pereira! Inteiramente mudo!
O lavrador
roçou vagarosamente pelas ventas cabelludas o
lenço vermelho,enrolado em bóla:
—Sabe as cousas, pensa com acêrto...
—Sim! mas pensamento e acêrto não lhe sahem de
dentro do craneo! Depois está muito velho, Pereira! Que
edade terá elle?
Sessenta?
—Sessenta e cinco. Mas de gente muito rija, meu Fidalgo. O
avô durou até aos cem annos. E ainda o conheci na
loja...
—Como, na loja?
Então o Pereira, enrolando mais o lenço,
estranhou que o Fidalgo não soubesse a historia do Sanches
Lucena. Pois o avô, o Manoel
Sanches, era um linheiro do Porto, da rua das Hortas. E casado tambem
com uma
moça muito vistosa, muito farfalhuda...
—Bem! atalhou o Fidalgo. Isso é honroso para o Sanches
Lucena. Gente que engordou, que trepou... E eu concordo, Pereira, o
circulo deve mandar a Lisboa um homem como o Sanches Lucena, que tenha
n'elle terra, raizes, interesses, nome... Mas é preciso que
seja tambem
homem com talento, com arrojo. Um deputado, que, nas grandes
questões,
nas crises, se erga, transporte a Camara!... E depois, Pereira amigo,
em Politica quem mais grita mais arranja. Olhe a estrada da Riosa!
Ainda em papel, a lapis vermelho... E, se o Sanches Lucena fosse homem
de
berrar em S.
Bento, já o Pereira trazia por lá os seus carros
a chiar.
O Pereira abanou a cabeça, com tristeza:
—Ahi talvez o Fidalgo acerte... Para essa estradinha da Riosa sempre
faltou quem gritasse. Ahi talvez o Fidalgo acerte!
Mas o Fidalgo emmudecera, embebido na cheirosa sopa, dentro d'uma
caçoila nova, com raminhos de hortelã. E
então o Pereira, acercando mais a cadeira, cruzou no rebordo
da mesa as mãos, que meio
seculo de trabalho na terra tornára negras e duras como
raizes—e
declarou que se atrevera a incommodar o Fidalgo, áquellas
horas do
almocinho, porque n'essa semana começava um córte
de madeiras para
os lados de Sandim, e desejava, antes que surdissem outros arranjos,
conversar com S. Ex.
a sobre o arrendamento da
Torre...
Gonçalo reteve a colhér, num pasmo risonho:
—Você queria arrendar a Torre, Pereira?
—Queria conversar com V. Ex.
a. Como o Relho
está
despedido...
—Mas eu já tratei com o Casco, o José Casco dos
Bravaes! Ficamos meio apalavrados, ha dias... Ha mais de uma semana.
O Pereira coçou arrastadamente a barba rala. Pois era pena,
grande pena... Elle só no sabbado s'inteirára da
desavença com o Relho. E, se o
Fidalgo
não resalvava o segredo, por quanto
ficára o arrendamento?
—Não resalvo, não, homem! Novecentos e cincoenta
mil réis.
O Pereira tirou da algibeira do collete a caixa de tartaruga, e sorveu
detidamente uma pitada, com o carão pendido para a esteira.
Pois maior pena, mesmo para o Fidalgo. Emfim! depois de palavra
trocada... Mas era pena, porque elle gostava da propriedade;
já pelo S.
João pensára em abeirar o Fidalgo; e, apezar dos
tempos correrem escassos,
não andaria longe de offerecer um conto e cincoenta, mesmo
um conto cento e cincoenta!
Gonçalo esqueceu a sopa, n'uma emoção
que lhe afogueou a face fina, ante um tal accrescimo de renda—e a
excellencia de tal rendeiro, homem abastado, com metal no banco, e o
mais fino amanhador de terras de todas as cercanias!
—Isso é sério, oh Pereira?
O velho lavrador pousou a caixa de rapé sobre a toalha, com
decisão:
—Meu Fidalgo, eu não era homem que entrasse na Torre para
caçoar com V. Ex.
a! Proposta a valer,
escriptura a fazer...
Mas se o arrendamento está tratado...
Recolheu a caixa, apoiava a mão larga na meza para se
erguer, quando Gonçalo acudiu, nervoso, empurrando o prato:
—Escute, homem!...
Eu, não contei por miudo o caso do
Casco. Você comprehende, sabe como essas cousas passam... O
Casco veiu, conversamos; eu pedi novecentos e cincoenta mil reis e
porco pelo Natal. Primeiramente concordou, que sim; logo adiante
emendou, que
não... Voltou com o compadre; depois, com a mulher e o
compadre, e o afilhado, e o cão! Depois só. Andou
ahi pela quinta, a
medir, a cheirar a terra; acho até que a provou. Aquellas
rabulices do Casco!... Por
fim, uma tarde, lá gemeu, lá acceitou os
novecentos e
cincoenta mil reis, sem porco. Cedi do porco. Aperto de mão,
copo de vinho. Ficou de
apparecer para combinar, tratar da escriptura. Não o avistei
mais, ha
quasi duas semanas! Naturalmente já virou, já se
arrependeu... Para resumir, não tenho com o Casco contracto
firme. Foi uma conversa em que apenas estabelecemos, como base, a renda
de novecentos e cincoenta. E eu, que detesto cousas vagas,
já andava pensando em encontrar melhor
homem!
Mas o Pereira coçava o queixo, desconfiado. Elle, em
negocios, gostava de lisura. Sempre se entendêra bem com o
Casco. Nem por um
condado se atravessaria nos arranjos do Casco, homem violento,
assomado. De modo que desejava as cousas claras, para não
surdir desgosto
rijo. Não se lavrára escriptura, bem! Mas
ficára, ou
não, palavra dada entre o Fidalgo e o Casco?
Gonçalo Mendes Ramires, que findára
apressadamente a sopa e enchia um copo de vinho verde para se calmar,
fitou o lavrador, quasi severamente:
—Homem, essa pergunta!... Pois se eu tivesse confirmado ao Casco
decisivamente a palavra de Gonçalo Ramires, estava agora
aqui a tratar, ou sequer a conversar comsigo, Pereira, sobre o
arrendamento da Torre?
O Pereira baixou a cabeça. Tambem era verdade!... Pois,
n'esse caso, elle abria a sua tenção, claramente.
E, como
conhecia a propriedade, e apurára o seu calculo—offerecia
ao Fidalgo um conto cento e
cincoenta mil réis, sem porco. Mas não dava para
a familia
nem leite, nem hortaliça, nem fructa. O Fidalgo, homem
só, pouco
se aproveitava. A Torre, porém, casa antiga, enxameava de
gentes e
d'adherentes. Todos apanhavam, todos abusavam... Emfim, esse era o seu
principio. E de resto, para a meza do Fidalgo e mesmo dos creados,
bastava o pomar e a horta de regalo... Que horta e pomar necessitavam
trato mais geitoso: mas elle, por amor do Fidalgo, e gosto seu, por
lá passaria
e tudo luziria... Emquanto ás outras
condições, acceitava as do antigo arrendamento. E
escriptura assignada para a outra semana, no sabbado... Estava feito?
Gonçalo, depois de um momento em que pestanejou
nervosa e
tremulamente, estendeu a mão aberta ao Pereira:
—Toque! Agora sim! Agora fica palavra dada!
—E nosso Senhor lhe ponha virtude, concluiu o Pereira, firmado no
immenso guarda-sol para se erguer. Então no sabbado, em
Oliveira, para a escriptura... Assigna V. Ex.
a
ou o Sr. padre Soeiro?
Mas o fidalgo calculava:
—Não, homem, não póde ser! No
sabbado, com effeito, estou em Oliveira, mas são os annos da
mana Maria da Graça...
O Pereira destapou de novo os maus dentes, n'um riso de estima:
—Ah! e como vae a snr.
a D. Maria da
Graça? Ha que edades a
não vejo! Desde o anno passado, na procissão de
Passos, em Oliveira...
Muito boa senhora! Muito dada! E o Sr. José
Barrôlo? Pessoa
excellente tambem, a valer, o Sr. José Barrôlo...
E que terra a d'elle,
a
Ribeirinha! A melhor propriedade d'estas vinte
leguas em redor. Linda propriedade! A do André Cavalleiro
que lhe está pegada, a
Biscaia, não se lhe
compára—é como cardo ao pé de couve.
O Fidalgo da Torre descascava um pecego, sorrindo:
—Do André Cavalleiro nada presta, Pereira! Nem terra, nem
alma!
O lavrador pareceu surprehendido. Elle imaginava que o Fidalgo e o
Cavalleiro continuavam chegados e amigos... Não em Politica!
Mas particularmente, como cavalheiros...
—O que? Eu e o Cavalleiro? Nem como cavalheiro nem como politico. Que
elle nem é cavalheiro nem politico. É apenas
cavallo, e resabiado.
O Pereira ficou silencioso, com os olhos na toalha. Depois, resumindo:
—Então está entendido, no sabbado, na cidade. E,
se não faz transtorno ao Fidalgo, passamos pelo
tabellião Guedes, e fica o feito
arrumado. O Fidalgo, naturalmente, vae para a casa da senhora sua
mana...
—Sempre. Appareça você ás trez horas.
Lá conversamos com o padre Soeiro.
—Tambem ha que edades não encontro o Sr. padre Soeiro!
—Oh! esse ingrato, agora, raramente apparece na Torre. Sempre em
Oliveira, com a mana Graça, que é a menina dos
seus encantos... Então nem um calice de vinho do Porto,
Pereira?... Bem, até
sabbado. Não esqueça o beijinho para o neto.
—Cá me vae no coração, meu Fidalgo...
Ora essa! Pois consentia eu que V. Ex.
a se
levantasse? Sei perfeitamente a escada, e ainda passo pela cozinha para
debicar com a tia Rosa. Já desde o tempo do
paesinho de V. Ex.
a, que Deus haja,
conheço bem a
Torre!...
E sempre
m'esperancei de trazer n'esta quinta uma lavoura a meu gosto, de
consolar!
Durante o café, esquecido dos jornaes, Gonçalo
gozou a excellencia d'aquelle negocio. Duzentos mil réis
mais de renda. E a
Torre tratada pelo Pereira, com aquelle amor da terra e saber de lavra
que transformára o chavascal do Monte-Agra n'uma maravilha
de
seára, vinha e horta!... Além d'isso, homem
abastado, capaz de um
adeantamento. E eis ahi mais uma evidencia do valor da Torre, esse
affinco do Pereira em a arrendar, elle tão apertado,
tão seguro... Quasi
se arrependia de lhe não ter arrancado um conto e duzentos.
Emfim, a
manhã fôra fecunda! E, realmente, nenhum accordo
firmado o collava ao Casco. Entre elles apenas
s'esboçára uma conversa, sobre um arrendamento
possivel da Torre, a debater depois miudamente, n'uma base nova de
novecentos e cincoenta mil reis... E que insensatez se elle, por
escrupuloso respeito d'essa conversa esboçada, recusasse o
Pereira, retivesse o Casco,
lavrador de rotina—dos que raspam a terra para comer, e a deixam cada
anno deperecendo, mais cançada e chupada!...
—Bento, traze charutos! E o Joaquim que tenha a egua sellada das cinco
para as cinco e meia. Sempre vou á
Feitosa...
Hoje
é o dia!
Accendeu um charuto, voltou á livraria. E, immediatamente
releu o final
magnifico: «De mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a
honra e commigo!»—Ah! como alli gritava a alma inteira do
velho
portuguez, no seu amor religioso da palavra e da honra! E, com a tira
d'almasso entre os dedos, junto da varanda, considerou um momento a
Torre, as poeirentas frestas engradadas de ferro, as resistentes
ameias, ainda inteiras, onde agora adejava um bando de pombas...
Quantas manhãs,
ás frescas horas d'alva, o velho Tructesindo se
encostára áquellas
ameias, então novas e brancas! Toda a terra em redor,
semeada ou bravia, decerto pertencia ao poderoso Rico-Homem. E o
Pereira, n'esse tempo colono ou servo,
só abordava o seu Senhor de joelhos e tremendo! Mas
não lhe
pagava um conto cento e cincoenta mil réis de sonora moeda
do Reino. Tambem,
que diabo, o vôvô Tructesindo não
precisava...
Quando os saccos rareavam nas arcas, e os acostados rosnavam por
tardança de soldo, o leal
Rico-Homem, para se prover, tinha as tulhas e as adégas dos
Concelhos mal
defendidos—ou então, n'uma volta de estrada, o
ovençal voltando
de recolher as rendas reaes, o bufarinheiro genovez com os machos
ajoujados de trouxas. Por baixo da Torre (como lhe contára o
papá) ainda
negrejava a masmorra feudal, meio atulhada, mas com restos de correntes
chumbadas aos pilares, e na abobada a argola d'onde
pendia
a polé, e no
lagedo os buracos em que se escorava o potro. E, n'essa surda e humida
cova, ovençal, bufarinheiro, clerigos e mesmo burguezes de
fôro uivavam sob o açoite ou no torniquete,
até largarem agonizando
o derradeiro morabitino. Ah! a ramantica Torre, cantada tão
meigamente ao
luar pelo Videirinha, quantos tormentos abafára!...
E de repente, com um berro, Gonçalo agarrou de sobre a mesa
um volume de Walter Scott, que atirou sem piedade, como uma pedra,
contra o tronco de uma faia. É que descortinára o
gato da Rosa
cozinheira, trepado, d'unhas fincadas n'um ramo, arqueando a espinha,
para assaltar um ninho de melros.
Quando n'essa tarde o Fidalgo da Torre, airoso no seu fato novo de
montar, polainas de couro polido, luvas de camurça branca,
parou a egua ao portão da
Feitosa—um
velho todo
esfarrapado, com
longos cabellos cahidos pelos hombros e immensas barbas espalhadas pelo
peito, immediatamente se ergueu do banco de pedra onde comia rodellas
de chouriço, bebendo d'uma cabaça, para o avisar
que
o Sr. Sanches Lucena e a Sr.
a D. Anna andavam
por fóra, de
carruagem.
Gonçalo pediu ao velho que puchasse o ferro da sineta. E
entregando um cartão
ao
moço, que entreabrira a rica grade dourada, com um
S
e um
L
entrelaçados, sob uma corôa de conde:
—O Sr. Sanches Lucena, bem?
O Sr. Conselheiro, agora, um pouquinho melhor...
—O que? Esteve doente?
—Pois o Sr. Conselheiro, aqui ha tres ou quatro semanas, andou muito
agoniado...
—Oh! Sinto muito... Diga ao Sr. Conselheiro que sinto muitissimo!
Chamou o velho que repicára a sineta para o recompensar com
um tostão. E, interessado por aquellas barbaças e
melenas de mendigo de
Melodrama:
—Vocemecê pede esmola por estes sitios?
O homem ergueu para elle os olhos sujos, avermelhados da poeira e do
sol, mas risonhos, quasi contentes:
—Tambem me chego pela Torre, meu Fidalgo. E, graças a Deus,
lá me fazem muito bem.
—Então quando lá voltar diga ao Bento...
Você conhece o Bento?
Se conhecia! E a Snr.
a Rosa...
—Pois diga ao Bento que lhe dê umas calças,
homem! Você assim, com essas calças,
não anda decente.
O velho riu, n'um riso lento e desdentado, mirando
com gosto os sordidos
farrapos que lhe trapejavam nas canellas, mais denegridas e seccas que
galhos de inverno:
—Rôtinhas, rôtinhas... Mas o Sr. dr. Julio diz que
me ficam assim bem. O Sr. dr. Julio, quando lá passo, sempre
me tira o retrato
na machina. Ainda na semana passada... Até com uns
pedaços de
grilhões dependurados do pulso, e uma espada erguida na
mão... Parece que para
mostrar ao Governo.
Gonçalo, rindo, picou a egua. Pensava agora em alongar por
Valverde: depois recolheria por Villa-Clara, e tentaria o
Gouvêa a
partilhar na Torre um cabrito assado no espeto de cerejeira, para que
elle na vespera, na Assembléa, convidára o Manoel
Duarte
e o Titó. Mas ao atravessar a «Cruz das
Almas», onde a estrada de
Corinde, tão linda, com as suas filas d'alamos, crusa a
ladeira de Valverde, parou—notando ao fundo, para o lado de Corinde,
como o confuso esbarro d'uma carrada de lenha, e uma carriola
d'açougue, e uma mulher de
lenço escarlate bracejando sobre a albarda d'um burro, e
dous lavradores de enxada
ás costas. E, de repente, todo o encalhe se despegou—a
mulher trotando no seu burrinho, logo sumida n'uma volta de arvoredo; a
carriola solavancando n'um rolo leve de poeira; o carro
avançando
para a «Cruz das Almas» a
chiar
tardamente; os cavadores descendo para uma
chã atravez das leiras de feno... Na estrada só
restou, como
desamparado, um homem de jaqueta ao hombro, que se arrastava
penosamente, coxeando. Gonçalo trotou, com curiosidade:
—Que foi?... Vocemecê que tem?
O homem, com a perna encolhida, levantou para Gonçalo uma
face arrepanhada, quasi desmaiada, que reluzia sob as camarinhas de
suor:
—Nosso Senhor lhe dê muito boas tardes, meu Fidalgo! Ora o
que hade ser? Desgraças d'esta vida!
E, gemendo, contou a sua historia.—Desde mezes padecia d'uma chaga
n'um tornozello, que não seccára, nem com
emplastos,
nem com pó de murtinhos, nem com benzeduras... E agora
andava arriba, na fazenda do Sr. dr. Julio, a concertar um socalco,
para ajudar um compadre tambem doente com maleitas—e, zás,
desaba um pedregulho, que tópa
na ferida, leva a carne, lasca o osso, o deixa n'aquella lastima!...
Até
rasgára a fralda para ensopar o sangue e amarrar por cima o
lenço.
—Mas assim não póde andar, homem! D'onde
é vocemecê?
—De Corinde, meu Fidalgo. Manoel Sôlha, do logar da Finta.
Até lá, sempre me hei-de arrastar.
—E então, d'essa gente toda, que ahi estava ha bocado,
ninguem o poude ajudar?... Uma carriola, dous latagões...
Uma rija guinada, no teimoso esforço de firmar a perna,
arrancou um grito ao Sôlha. Mas sorriu, arquejando... Que
queria o
Fidalgo? Cada um, n'este mundo, tem a sua pressa... Emfim, a rapariga
do burro
promettêra passar pela Finta, para avisar. E talvez um dos
seus rapazes apparecesse na estrada com uma eguasita que elle
comprára pela
Paschoa—e que, por desgraça, tambem mancava!...
Immediatamente, com um salto leve, o Fidalgo da Torre desmontou:
—Bem! Então, egua por egua, já
vocemecê tem aqui esta...
O Sôlha embasbacou para Gonçalo:
—Ora essa! Santo nome de Deus!... Pois eu havia de ir a cavallo, e V.
Ex.
a a pé?
Gonçalo ria:
—Homem, com essas discussões de «eu a
pé» e «você a
cavallo», e «faz favôr» e
«não
senhor», é que perdemos um tempo precioso. Monte,
esteja quieto, e trote para a Finta!
O outro recuava para a valleta da estrada, sacudindo a
cabeça, esgazeado, como no espanto de um sacrilegio:
—Isso é que não, meu senhor, isso é
que não! Antes eu acabasse aqui á mingoa, com a
chaga em bolor!
Gonçalo bateu o pé, com auctoridade:
—Monte, que mando
eu! Vocemecê é um lavrador de
enxada, eu sou um Doutor formado em Coimbra, sou eu que sei, sou eu que
mando!
E o Sôlha, logo submisso ante aquella força
deslumbrante do Saber superior, agarrou em silencio a crina da egua,
enfiou respeitosamente o estribo, ajudado pelo Fidalgo, que, sem tirar
as luvas brancas, lhe amparava o pé entrapado e manchado de
sangue.
Depois, quando elle repousou no sellim com um
ah!
consolado:
—Então que tal?
O homem só murmurava o nome de Nosso Senhor, na
gratidão e no assombro d'aquella caridade:
—Mas isto é a volta do mundo... Eu aqui, na egua do
Fidalgo! E o Fidalgo, o Sr. Gonçalo Ramires, da Torre, a
pé
pela estrada!
Gonçalo gracejou. E, para entreter a caminhada, perguntou
pela quinta do Dr. Julio, que agora se arrojára a obras e
plantações de vinha. Depois, como o Manoel
Sôlha conhecia o Pereira Brasileiro (que
pensára em arrendar as terras do Dr. Julio), conversaram
sobre esse esperto homem, sobre as grandezas da
Cortiga.
Já sem
embaraço,
direito no sellim, no gosto d'aquella intimidade com o Fidalgo da
Torre, o Sôlha
esquecia a chaga, a dôr que adormentára. E
á
estribeira do Sôlha, attento e sorrindo, o Fidalgo estugava o
passo na poeira branca.
Assim se avizinhavam da
Bica-Santa, um dos sitios
decantados d'aquellas cercanias formosas. Ahi a estrada, cortada na
encosta d'um monte, alarga e fórma um arejado
terraço, d'onde
se abrange todo o valle de Corinde, tão rico em casaes, em
arvoredos, em
seáras, em aguas. No pendor do monte, coberto de carvalhos e
de fragas musgosas,
bróta a fonte nomeada, que já em tempos d'El-Rei
D. João
V curava males d'entranhas—e que uma devota senhora de Corinde, D.
Rosa Miranda Carneiro, mandou encanar desde o alto até a um
tanque de
marmore, onde agora corre beneficamente, por uma bica de bronze, sob a
imagem e patrocinio de Santa Rosa de Lima. De cada lado do tanque se
encurvam dous compridos bancos de pedra, que a espalhada ramaria das
carvalheiras tolda de sombra e frescura. É um suave retiro
onde se
apanham violetas, se comem merendas, e senhoras dos arredores se sentam
em rancho, nas tardinhas de domingo, escutando os melros, gozando a
povoada, luminosa e verdejante largueza do valle.
Antes porém de desembocar na
Bica-Santa,
e perto do logar
do Serdal, a estrada de Corinde quebra n'uma volta:—e, ahi, de
repente, a egua pulou, n'um reparo, que obrigou o Fidalgo da Torre,
desconfiado da pericia do Sôlha, a deitar a mão
á
caimba do freio. Fôra o encontro inesperado d'uma
carruagem—uma caleche
forrada d'azul, com a parelha coberta de rêdes brancas contra
a môsca, e na
almofada, têzo, um cocheiro de bigode, farda de golla
escarlate e chapéo de
tópe amarello. E Gonçalo mantinha ainda a egua
pelo freio, como arrieiro
serviçal em trilho perigoso—quando avistou, sentado n'um
dos bancos de pedra, junto da Bica, com um chale-manta por cima dos
joelhos, o velho Sanches Lucena. Ao lado o trintanario, agachado,
esfregava com um
mólho d'herva a botina que a bella D. Anna lhe estendia,
apanhando o vestido de linho crú, apoiando a outra
mão, sem luva, na cinta
vergada e fina.
A desconcertada apparição do Fidalgo da Torre,
puxando pela rédea a sua egua onde se escarranchava
regaladamente um cavador em mangas de camisa, alvorotou aquelle
repousado e dormente recanto da
Bica.
Sanches Lucena esbugalhava os olhos, esbugalhava os oculos, n'um
arremesso de curiosidade que o levantára, com o
pescoço
esticado, o chale-manta escorregado para a relva. D. Anna recolheu
bruscamente a botina, logo empertigada, na gravidade condigna da
senhora da
Feitosa,
retomando como uma insignia o cabo d'ouro da luneta d'ouro, suspensa
por um
cordão
d'ouro. E até o trintanario ria pasmadamente para o
Sôlha.
Mas já, com o seu desembaraço elegante,
Gonçalo,
n'um
relance, saudára D. Anna, apertava com fervor a
mão espantada do Sanches
Lucena, e, alegremente se congratulava por aquelle encontro ditoso!
Pois vinha justamente da
Feitosa! E ahi soubera
com
desgosto, por um
moço da quinta decerto exagerado, que o Sr. Conselheiro nas
ultimas semanas andára doente... E, então como
estava? como
estava?—Oh! a physionomia era excellente!
—Pois não é verdade, Sr.
a
D. Anna? O aspecto
é excellente!
Com um leve requebro da cabeça, um fofo ondear do
mólho de plumas brancas sobre o chapéo de palha
vermelha, ella volveu n'uma
voz rolada, lenta e gorda, que arripiou Gonçalo:
—O Sanches agora, graças a Deus, desfructa melhor saude...
—Um pouco melhor, sim, com effeito, muito agradecido a V. Ex.
a,
Sr. Gonçalo Ramires! murmurou o descarnado e corcovado
homem,
repuxando para os joelhos o chale-manta.
E, com os oculos a luzir, cravados em Gonçalo, na
curiosidade que o abrazava, quasi lhe rosára a face afilada,
mais amarella que
um cirio:
—Mas, com perdão de V. Ex.
a! como
é que V.
Ex.
a anda por aqui, pela estrada de Corinde,
n'este estado, a pé, trazendo
á rédea um lavrador de enxada?...
Rindo, sobretudo para D. Anna, cujos olhos formosamente negros, d'uma
funda refulgencia liquida, tambem esperavam, serios e reservados,
Gonçalo contou o desastre do bom homem, que
encontrára no caminho gemendo, arrastando a perna
escalavrada...
—De sorte que lhe offereci a minha egua... E até, se V.
Ex.
a me permitte, minha senhora, é
necessario que eu combine com
elle o resto da jornada...
Rapidamente, voltou ao Sôlha, que, de novo acanhado ante os
senhores da
Feitosa, com o chapeu na
mão, encolhido
sobre o sellim,
como attenuando a sua grandeza, logo se desestribou para desmontar. Mas
já Gonçalo lhe ordenava que trotasse para a
Finta—e lhe
mandasse a egua por um dos seus rapazes, alli á Bica-Santa,
onde elle se
demorava com o Snr. Conselheiro. E quando o Sôlha largou,
saudando
desabaladamente, torcido, como impellido a seu pezar pelos acenos
risonhos com que o Fidalgo o despedia, o assombro do Sanches Lucena
recomeçou:
—Ora uma cousa d'estas! Eu tudo esperaria, tudo, menos o Sr.
Gonçalo Mendes Ramires a trazer á
rédea, pela estrada de
Corinde, um cavador d'enxada! É a
repetição do Bom
Samaritano... Mas para melhor!
Gonçalo gracejou, sentado no banco, junto de Sanches
Lucena.—Oh! o Bom Samaritano não merecera
uma pagina tão
amavel no
Evangelho sómente por offerecer o burro a um Levita doente:
decerto mostrára
virtudes mais bellas...—E sorrindo para D. Anna, que, do outro lado de
Sanches Lucena, espalhava a luneta, com lentidão magestosa,
pelas
arvores e pela Fonte que tão bem conhecia:
—Ha dous annos, minha senhora, que eu não tenho a honra...
Mas Sanches Lucena despediu um grito:
—Oh! Sr. Gonçalo Ramires! V. Ex.
a
traz sangue na
mão!
O Fidalgo reparou, espantado. Sobre a luva de camurça branca
resaltavam duas manchas arroxeadas:
—Não é sangue meu! foi naturalmente quando o
Sôlha montou, e eu lhe segurei o pé escalavrado...
Arrancou a luva, que arremessou para as hervas bravas, por traz do
banco de pedra. E continuando o sorriso:
—Com effeito, não tenho a honra de encontrar a V. Ex.
a,
minha senhora, desde o baile do barão das Marges, em
Oliveira, o famoso
baile de Entrudo... Ha mais de dois annos, era eu estudante. E ainda me
recordo que V. Ex.
a estava vestida
esplendidamente de
Catharina da Russia...
E, emquanto a envolvia no sorrir dos olhos finos e meigos,
pensava:—«Formosa creatura! mas ordinaria!
e que
voz!...» D. Anna tambem se recordava do baile dos Marges:
—O cavalheiro, porém, está equivocado. Eu
não fui de Russa, fui de Imperatriz...
—Sim, d'Imperatriz da Russia, de Grande Catharina... E com um gosto!
com um luxo!
Sanches Lucena voltou vagarosamente para Gonçalo os oculos
d'ouro, apontou um dedo alongado e livido:
—Pois tambem eu me lembro que sua mana, e minha senhora, a Sr.
a
D. Graça, trazia um trage de lavradeira de Vianna... Foi uma
luzidissima festa; nem admira; o nosso Marges é sempre
primoroso... E
desde essa noite não tornei a encontrar a mana de V. Ex.
a
em
intimidade. Apenas de longe, na missa...
De resto pouco residia agora em Oliveira, apesar de conservar a casa
montada, creadagem e cocheira—porque, ou culpa do ar ou culpa da agua,
não se dava bem na Cidade.
Gonçalo acalorou mais o seu interesse:
—Mas então, realmente, V. Ex.
a o que
tem tido?
Sanches Lucena sorriu, com amargura. Os medicos, em Lisboa,
não se entendiam. Uns attribuiam ao estomago—outros
attribuiam ao
coração. Portanto, aqui ou alli, viscera
essencial atacada. E soffria
crises—más crises... Emfim, com a graça de
Deus, e regimen, e leite,
e
descanço, ainda esperava arrastar uns annos.
—Oh! com certeza! exclamou Gonçalo alegremente. E V. Ex.
a
não pensa que a estada em Lisboa, e as Camaras, e a
Politica, a terrivel Politica, o fatiguem, o agitem?...
Não, pelo contrario, Sanches Lucena passava toleravelmente
em Lisboa. Melhor mesmo que na
Feitosa! Depois,
gostava
d'aquella
distracção das Camaras. E como conservava amigos
na Capital, uma roda escolhida, uma roda fina...
—Um d'esses nossos excellentes amigos, V. Ex.
a
decerto conhece. Elle
é parente de V. Ex.
a... O D.
João da
Pedrosa.
Gonçalo, alheio ao homem, mesmo ao nome, murmurou
polidamente:
—Sim, o D. João, decerto...
E Sanches Lucena, passando pelas suissas brancas a mão
magrissima, quasi transparente, onde reluzia um enorme annel d'armas de
saphira:
—E não sómente o D. João... Outro dos
nossos amigos é egualmente parente de V. Ex.
a,
e chegado. Muitas vezes
temos fallado de V. Ex.
a, e da sua casa. Que
elle pertence tambem á primeira
nobreza... É o Arronches Manrique.
—Cavalheiro muito dado, muito divertido! accrescentou D. Anna, com uma
convicção que lhe
alteou
o peito, a que o corpete
justo marcava a força viçosa e a
perfeição.
A Gonçalo tambem nunca chegára esse nome
sonóro. Mas não hesitou:
—Sim, perfeitamente, o Manrique... De resto, eu tenho tantos parentes
em Lisboa, e vou tão pouco a Lisboa!... E V. Ex.
a,
Sr.
a D.
Anna...
Mas o Sanches Lucena insistia, deliciado n'aquella conversa de
parentescos fidalgos:
—V. Ex.
a, naturalmente, tem em Lisboa toda a
sua parentella historica. Assim eu creio que V. Ex.
a
é primo do
Duque de
Lourençal... O Duarte Lourençal! Elle
não usa o titulo, por Miguelismo,
ou antes por habito: mas emfim é o legitimo Duque de
Lourençal.
É quem representa a casa de Lourençal.
Gonçalo, sorrindo attentamente, desabotoára o
fraque, procurava a sua velha charuteira de couro.
—Sim, com effeito, o Duarte... Somos primos. Diz elle que somos
primos. E eu acredito. Entendo tão pouco d'arvores de
costado!... De
facto as casas em Portugal andam muito cruzadas; todos somos parentes,
não só pelo lado d'Adão, mas pelos
Godos... E V. Ex.
a,
Sr.
a D.
Anna, prefere a estada em Lisboa?
Mas, reparando que escolhera um charuto, distrahidamente o
trincára:
—Oh! perdão minha senhora... Ia fumar sem saber se V.
Ex.
a...
Ella saudou, descendo as longas pestanas:
—O cavalheiro póde fumar; o Sanches não fuma,
mas eu até aprecio o cheiro.
Gonçalo agradeceu, enjoado com aquella voz redonda e gorda,
aquelles horrendos «
cavalheiro, o cavalheiro!...»
Mas
pensava:—«que linda pelle! que bella creatura!...»
E Sanches Lucena, inexoravel,
estendera o dedo agudo:
—Pois eu conheço muito, não o Sr. D. Duarte
Lourençal, não tenho essa subida honra por ora,
mas seu irmão, o Sr. D. Philippe.
Cavalheiro estimabilissimo, como V. Ex.
a decerto
sabe... E
depois, que talento... Que talento, no cornetim!
—Ah!
—O quê! V. Ex.
a não ouviu
seu primo, o Sr. D.
Philippe Lourençal, tocar cornetim?
E até a bella D. Anna se animou, com um sorriso languido dos
beiços cheios, mais vermelhos que cerejas maduras sobre o
fresco rebrilho dos dentes pequeninos:
—Oh! tóca ricamente! O Sanches gosta muito de musica; eu
tambem... Mas, como V. Ex.
a comprehende, qui na
aldéa, com a falta de
recursos...
Gonçalo, arremessando o phosphoro, exclamára
logo, n'um sincero interesse:
—Então, queria que V. Ex.
a ouvisse
um amigo meu, que
é verdadeiramente sublime no violão, o
Videirinha!...
Sanches Lucena estranhou o nome, a sua vulgaridade. E o Fidalgo,
singelamente:
—É um rapaz muito meu amigo, de Villa-Clara... O
José Videira, ajudante da Pharmacia...
Os oculos de Sanches Lucena cresceram de puro espanto:
—Ajudante da Pharmacia e amigo do Sr. Gonçalo Mendes
Ramires!
Sim, desde estudante, dos exames do Lyceu. Até o Videirinha
passava as ferias na Torre, com a mãe, antiga costureira da
casa.
Tão bom rapaz, tão simples... E na realidade, no
violão, um
genio!
—Agora tem elle uma cantiga admiravel que chamou o
Fado dos
Ramires. A musica é com effeito um fado de
Coimbra, um fado
conhecido. Mas os versos são d'elle, umas quadras
engraçadas sobre
cousas da minha Casa, lendas, patranhas... Pois ficou sublime! Ainda ha
dias na Torre, comigo e com o Titó...
E a este nome, familiar e menineiro, Sanches Lucena mostrou outro
reparo:
—O Titó?
O Fidalgo ria:
—É uma velha alcunha d'amizade que nós damos ao
Antonio Villalobos.
Então Sanches Lucena atirou ambos os braços, como
se alguem muito querido apparecesse na estrada:
—O Antonio
Villalobos! Mas esse é um dos nossos fieis e
bons amigos! Cavalheiro estimabilissimo! Quasi todas as semanas nos faz
o favor de apparecer pela
Feitosa...
E agora era o Fidalgo que pasmava ante essa intimidade a que nunca o
Titó alludira, quando no Gago, na Torre, na
Assembléa, se berrava, politicando, o nome do Sanches Lucena!
—Ah V. Ex.
a conhece...
Mas D. Anna, que se erguera bruscamente do banco, e,
debruçada, recolhia a luva e a sombrinha—lembrou ao marido
o estriar lento da tarde, a neblina subindo sempre áquella
hora do valle aquecido:
—Sabes que nunca te faz bem... E tambem não faz bem
á parelha, assim parada, ha tanto tempo.
Immediatamente Sanches Lucena, receioso, puxára da algibeira
um espesso lenço de sêda branca para abafar o
pescoço. E, receioso tambem pela parelha, logo se arrancou
pesadamente do banco de pedra, com um aceno cançado ao
trintanario para apanhar o chale, avisar o
cocheiro. Mas
ainda atravessou, vergado e arrimado á bengala, para o
parapeito que resguarda a estrada sobre o despenhado pendor do monte,
dominando o valle. E confessava a Gonçalo que aquelle era,
nos arredores
da
Feitosa, o seu passeio preferido.
Não
só pela
belleza do sitio,
já
cantado pelo «nosso mavioso Cunha Torres»;—mas
porque do terraço da Bica, sem esforço, sentado
no banco, avistava n'uma largueza
terras suas:
—Olhe V. Ex.
a... Para além d'aquelle
souto, até
á chã e ao comoro onde está a casota
amarella e por traz o pinhal, tudo
é meu... O pinhal ainda é meu...
Acolá, do renque d'álamos
para deante, depois do lameiro, é tambem meu... Alli, do
lado da ermida, pertence ao Monte-Agra... Mas, mais para lá,
passado o azinhal, pelo monte acima,
é tudo meu!
O livido dedo, o braço escanifrado na manga de casimira
preta, cresciam por sobre o valle.—Além os pastos...
Adeante os centeios...
Depois o bravio...—Tudo d'elle! E, por traz da magra figura
alquebrada, de chapéo enterrado na nuca, o abafo de seda
subido
até ás pallidas orelhas quasi despegadas, D.
Anna, esvelta, clara e sã como um
marmore, com um sorriso esquecido nos labios gulosos, o formoso peito
mais cheio, acompanhava a enumeração copiosa,
affincava a
luneta sobre os pastos, e os pinhaes, e os centeios, sentindo
já—tudo d'ella!
—E agora acolá, detraz do olival, concluiu Sanches Lucena
com respeito, é sitio seu, Sr. Gonçalo Mendes
Ramires...
—Meu?...
—De V. Ex.
a, quero dizer, ligado á
casa de V. Ex.
a. Pois
não reconhece?... Além, por traz do
moinho, passa a estrada de
Santa Maria de Craquêde. São os tumulos dos seus
antepassados... Passeio que eu tambem ás vezes
faço, e com gosto. Ainda ha um
mez visitamos detidamente as ruinas. E acredite que fiquei
impressionado! Aquelle bocado de claustro tão antigo, os
grandes esquifes de pedra, a espada
chumbada á abobada por cima do tumulo do meio...
É de commover! E achei
muito bonito, muito filial, da parte de V. Ex.
a,
o ter
sempre aquela lampada de bronze accêsa de noite e de dia...
Gonçalo engrolou um murmurio risonho—porque não
se recordava da espada, nunca recommendára a lampada. Mas
Sanches Lucena, agora,
supplicava um precioso favor ao snr. Gonçalo Mendes Ramires.
E era que S.
Ex.
a lhe concedesse a honra de o conduzir na
carruagem á Torre...
Alvoroçadamente Gonçalo recusou. Nem podia!
combinára com o homem
da perna dorida esperar alli, na Bica, pela sua egoa.
—Mas fica aqui o meu trintanario, que leva a egoa de V. Ex.
a
á Torre.
—Não, não, se V. Ex.
a me
permitte, eu espero...
Depois metto pelo atalho da Crassa, porque tenho ás oito
horas na Torre,
á minha espera para jantar, o Titó.
D. Anna, do meio da estrada, apressou logo o marido sacudidamente, com
a ameaça renovada da
friagem,
do relento... Mas, junto da
caleche, Sanches Lucena ainda emperrou para affirmar a
Gonçalo, com a
descarnada mão sobre o encovado peito, que aquella tarde lhe
ficava celebre...
—Porque vi uma cousa que poucas vezes se terá visto: o
maior fidalgo de Portugal, a pé pela estrada de Corinde,
levando á
rédea no seu proprio cavallo um cavador de enxada!
Ajudado por Gonçalo, trepou emfim pesadamente ao estribo. D.
Anna já se enterrára nas almofadas,
alçando entre as
mãos, como uma insignia, o cabo rebrilhante da luneta
d'ouro. O trintanario tambem se entezou, cruzou os braços: e
a caleche apparatosa, com as manchas
brancas das rêdes dos cavallos, mergulhou no silencio e na
penumbra da
estrada, sob a espalhada ramaria das faias.
«Que massada!» exclamou Gonçalo. E
não se consolava de tarde tão linda assim
desperdiçada... Intoleravel, esse Sanches Lucena, com
o Snr. D. Fulano e o Snr. D. Sicrano, e a sua gula de
«róda
fina», e «tudo d'elle» por collina e
valle! A mulher, explendida péça de
carne, como filha de carniceiro,—mas sem migalha de graça
ou alma. E que voz,
Jesus, que voz! Gente pedante e sabuja...—E agora só
desejava
recuperar a sua egoa, galopar para a Torre, e desabafar com o
Titó, familiar
da
Feitosa! o seu ásco por toda
aquella
Sancharia.
A egoa não tardou, a tróte largo, montada pelo
filho do Sôlha, que, ao avistar o Fidalgo, saltou
á estrada, de chapeu na
mão, encouchado e encarnado, balbuciando que o pae
chegára bem, pedia a Nosso
Senhor lhe pagasse a caridade...
—Bem, bem! Recados a teu pae. Que estimo as melhoras. Lá
mandarei saber.
N'um pulo montára—galopava pelo facil atalho da Crassa.
Mas, deante do portão da Torre, encontrou um moço
do Gago, com
um bilhete do Titó, annunciando que não podia
jantar na Torre porque partia
n'essa semana para Oliveira!
—Que disparate! Para Oliveira tambem eu parto; mas janto hoje!
Até combinavamos, o levava na carruagem... Elle que ficou a
fazer, o Snr. D. Antonio?
O rapaz coçou pensativamente a cabeça:
—O Snr. D. Antonio passou lá por casa para eu trazer o
bilhete ao Fidalgo... Depois, creio que tem festa, porque entrou
defronte no tio Cosme fogueteiro, a comprar bichas de rabear...
Aquellas inesperadas bichas de rabear causaram logo ao Fidalgo uma
immensa inveja:
—E onde é a festa, sabes?
—Eu não sei, meu Fidalgo... Mas parece que é
cousa rija, porque o Snr. João Gouvêa encommendou
lá ao
patrão dous grandes pratos de bolos de bacalhau.
Bolos de bacalhau! Gonçalo sentio como a amargura de uma
traição:
—Oh! que animaes!
E de repente ideou uma vingança alegre:
—Pois se vires hoje o Snr. D. Antonio ou o Snr. João
Gouvêa não te esqueças de lhes dizer
que sinto muito... Que eu tambem
cá tinha á noite na Torre uma festa. E havia
senhoras. Vinha a Snr.
a
D. Anna Lucena... Não te esqueças, hein?
Gonçalo galgou as escadas rindo da sua
invenção. Mas, n'essa noite, ás nove
horas, depois do arrastado e atochado jantar com o Manoel Duarte,
entrou na sala grande dos retratos, apenas allumiada pelo
lampeão dourado do corredor, para buscar uma caixa de
charutos. E casualmente, atravez da janella aberta, reparou n'um homem
que, em baixo, rente da sombra dos alamos, rondava, espreitava... Mais
attento, imaginou reconhecer os poderosos hombros, o andar bovino do
Titó. Mas
não, com certesa! o homem trasia jaqueta e
carapuço de lã.
Curioso, abafando os passos, ainda se abeirou da varanda. O vulto
porém descera
da estrada, logo sumido sob as arvores d'uma quelha que contorna o
Casal do Miranda, e desemboca adiante, na Portella, junto das primeiras
casas de Villa-Clara.