Em Villa-Clara, ás dez horas, sentado n'um dos bancos de
pedra do Chafariz, sob as olaias, o Titó esperava com o
amigo
João Gouveia—que era o Administrador do Concelho da Villa.
Ambos se abanavam
com os chapeus, em silencio, gozando a frescura e o sussurro da agua
lenta na sombra. E a «meia» batia no relogio da
Camara,
quando Gonçalo, que se retardára na
Assembléa n'um voltarete
enremissado, appareceu annunciando uma fome terrivel, «a fome
historica dos Ramires»,
e apressando a marcha para o Gago—sem mesmo consentir que o
Titó descesse
á tabacaria do Brito, a buscar uma garrafa de aguardente de
canna da Madeira, velha e «da ponta fina...»
—Não ha tempo! Ao Gago! Ao Gago!... Senão devoro
um de Vocês, com esta
furiosa fome Ramirica!
Mas, logo ao subirem a Calçadinha, parou elle cruzando os
braços, interpellando divertidamente o Sr. Aministrador do
Concelho pelo estupendo feito do
seu Governo...
Então o
seu Governo,
os
seus amigos Historicos, o
seu
honradissimo S.
Fulgencio—nomeavam, para Governador Civil de Monforte, o Antonio
Moreno! O Antonio Moreno,
tão justamente chamado em Coimbra Antoninha Morena!
Não,
realmente, era a derradeira degradação a que
podia rolar um paiz!
Depois d'esta, para harmonia perfeita dos serviços,
só outra
nomeação, e urgente—a da Joanna Salgadeira,
Procuradora Geral da Corôa!
E o João Gouveia, um homem pequeno, muito escuro, muito
secco, de bigode mais duro que piassaba,
esticado
n'uma sobrecasaca curta, com o chapeu de coco atirado para a orelha,
não discordava. Empregado
imparcial, servindo os Historicos como servira os Regeneradores, sempre
acolhia com imparcial ironia as nomeações de
bachareis novos,
Historicos ou Regeneradores, para os gordos logares Administrativos.
Mas, n'este caso, sinceramente, quasi vomitára, rapazes!
Governador Civil, e
de Monforte, o Antonio Moreno, que elle tantas vezes
encontrára no
quarto, em Coimbra, vestido de mulher, de roupão aberto, e a
carinha
bonita coberta de pó de arroz!...—E, travando do
braço do
Fidalgo, recordava a noite em que o José Gorjão,
muito bebedo, de cartola e
com um revólver, exigia furiosamente que o padre Justino,
tambem bebedo, o casasse com o Antoninho deante d'um nicho da Senhora
da Boa Morte! Mas o
Titó, que esperava, floreando o bengalão,
declarou áquelles
senhores que se o tempo sobejava para arrastarem assim na rua, a
conversar de Politica e d'indecencias—então voltava elle ao
Brito, buscar a
aguardentesinha... Immediatamente o Fidalgo da Torre, sempre
brincalhão,
sacudiu o braço do Administrador, e galgou pela
Calçadinha, aos corcovos, com
as mãos fortemente juntas, como colhendo uma redea, contendo
um cavallo que se desboca.
E na sala alta do Gago, ao cimo da escada esguia e ingreme que subia da
taberna, a um canto
da
comprida mesa allumiada por dois candieiros de petroleo, a ceia foi
muito alegre, muito saboreada. Gonçalo,
que se declarava miraculosamente curado pelo passeio até aos
Bravaes e pelas emoções do voltarete em que
ganhára
desenove tostões ao Manoel Duarte—começou por
uma pratada d'ovos com
chouriço, devorou metade da tainha, devastou o seu
«frango de doente», clareou
o prato da salada de pepino, findou por um montão de
ladrilhos de marmellada: e
atravez d'este nobre trabalho, sem que a fina brancura da sua pelle se
afogueasse, esvasiou uma caneca vidrada de Alvaralhão,
porque logo ao primeiro trago, e com desgosto do Titó,
amaldiçoára o vinho novo do Abbade. Á
sobremesa appareceu o Videirinha, «o
Videirinha do violão», tocador afamado de Villa
Clara, ajudante da Pharmacia, e poeta com versos de amor e de
patriotismo já impressos no
Independente
d'Oliveira. Jantára n'essa tarde, com o
violão,
em casa do commendador Barros, que celebrava o anniversario da sua
commenda: e só
acceitou um copo d'Alvaralhão, em que esmagou um ladrilho de
marmellada
«para adocicar a goella». Depois, á meia
noite,
Gonçalo obrigou o Gago a espertar o lume, ferver um
café «muito forte, um
café terrivel, Gago amigo! um café capaz de abrir
talento no Sr. Commendador
Barros!» Era essa a hora divina do violão e do
«fadinho». E já o Videirinha
recuára
para a sombra da sala, pigarreando, affinando os bordões,
pousado com melancolia á borda d'um banco alto.
—A
Soledad, Videirinha! pediu o bom
Titó, pensativo,
enrolando um grosso cigarro.
Videirinha gemeu deliciosamente a
Soledad:
Quando fôres ao cemiterio
Ai Soledad, Soledad!...
Depois, apenas elle findou, acclamado, e emquanto acertava as
cravelhas, o Fidalgo da Torre e João Gouveia, com os
cotovellos na
mesa, os charutos fumegando, conversaram sobre essa venda de
Lourenço
Marques aos Inglezes, preparada surrateiramente (conforme clamavam,
arripiados de horror, os jornaes da Opposição)
pelo Governo do
S. Fulgencio. E Gonçalo tambem se arripiava! Não
com a
alienação da Colonia—mas com a impudencia do S.
Fulgencio! Que aquelle careca obeso, filho sacrilego d'um frade que
depois se fizera mercieiro em Cabecelhos, trocasse a libras, para se
manter mais dois annos no Poder, um pedaço
de Portugal, torrão augusto, trilhado heroicamente pelos
Gamas, os
Athaydes, os Castros, os seus proprios avós—era para elle
uma
abominação que justificava todas as violencias,
mesmo uma revolta, e a casa de
Bragança enterrada
no
lodo
do Tejo! Trincando, sem parar, amendoas torradas,
João Gouveia observou:
—Sejamos justos, Gonçalo Mendes! Olhe que os
Regeneradores...
O Fidalgo sorrio superiormente. Ah! se os Regeneradores realisassem
essa grandiosa operação—bem! Esses,
primeiramente,
nunca commetteriam a indecencia de vender a Inglezes terra de
Portuguezes! Negociariam com Francezes, com Italianos, povos latinos,
raças fraternas...
E depois os bons milhões soantes seriam applicados ao
fomento do Paiz,
com saber, com probidade, com experiencia. Mas esse horrendo careca do
S. Fulgencio!...—E no seu furor, engasgado, gritou por genebra, por
que realmente aquelle cognac do Gago era uma peçonha torpe!
O Titó encolheu os hombros, resignado:
—Não me deixaste ir buscar a aguardentesinha, agora
aguenta... E a genebra é ainda mais peçonhenta.
Nem para os
negros d'esse Lourenço Marques que tu queres vender...
Portuguezes indecentes, a vender Portugal! Até o Sr.
Administrador do Concelho devia prohibir
estas conversas...
Mas o Sr. Administrador do Concelho affirmou que as consentia, e
rasgadamente... Por que tambem elle, como Governo, venderia
Lourenço Marques, e Moçambique, e toda a Costa
Oriental! E
ás
talhadas!
Em leilão! Alli, toda a Africa, posta em praça,
apregoada no Terreiro do Paço! E sabiam os amigos
porquê? Pelo
são principio de forte
administração—(estendia o braço, meio
alçado do banco, como n'um Parlamento)... Pelo
são principio de que todo o proprietario
de terras distantes, que não póde valorisar por
falta de
dinheiro ou gente, as deve vender para concertar o seu telhado,
estrumar a sua horta, povoar o seu curral, fomentar todo o bom
torrão que pisa com os
pés... Ora a Portugal restava toda uma riquissima provincia
a amanhar, a regar, a lavrar, a semear—o Alemtejo!
O Titó lançou o vozeirão, desdenhando
o Alemtéjo como uma pellicula de terra de má
qualidade, que, fóra umas legoas de
campos em torno de Beja e de Serpa, por um grão
só dava dois, e, apenas
esgaravetada, logo mostrava o granito...
—O mano João tem lá uma herdade immensa,
immensissima, que rende trezentos mil réis!
O Administrador, que advogára em Mertola, protestou,
encristado. O Alemtejo! Provincia abandonada, sim! Abandonada
miseravelmente, desde seculos, pela imbecilidade dos governos... Mas
riquissima, fertilissima!
—Pois então os Arabes... E qual Arabes! Ainda ha dias o
Freitas Galvão me contava...
Mas Gonçalo Mendes, que cuspira tambem a
genebra com uma
carantonha, acudiu, n'um resumo varredor, condemnando todo o Alemtejo
como uma desgraçada illusão!
Estirado por sobre a mesa, o Administrador gritava:
—Você já esteve no Alemtejo?
—Tambem nunca estive na China, e...
—Então não falle! Só a vinha
espantosa que plantou o João Maria...
—Quê! Umas cem pipas de zurrapa! Mas, n'outros sitios,
legoas e legoas sem...
—Um celleiro!
—Uma charneca!
E atravez do tumulto o Videirinha, repenicando com solitario ardor,
levado na torrente d'ais do «fado» da Ariosa,
soluçava contra uns olhos negros, donos do seu
coração:
Ai! que dos teus negros olhos
Me vem hoje a
perdição...
O petroleo dos candieiros findava: e o Gago, reclamado para trazer
castiçaes, surdio em mangas de camisa, detraz d'uma cortina
de chita, com a sua esperta humildade banhada em riso, lembrando a suas
Excellencias que passava da uma horasinha da noite... O Administrador,
que detestava noitadas,
nocivas
á sua garganta (de amygdalas
loucamente inflammaveis), puxou o relogio com terror. E rapidamente
reabotoado na sobrecasa, de chapéo côco mais
tombado
á banda, apressou o lento Titó, por que ambos
moravam no alto da Villa—elle defronte do Correio, o outro na viella
das Therezas, n'uma casa onde outr'ora
habitára e apparecera apunhalado o antigo carrasco do Porto.
O Titó porém não se aviava. Com o
bengalão debaixo do braço, ainda chamou o Gago ao
fundo sombrio da sala estreita, para cochichar sobre o embrulhado
negocio d'uma compra de espingarda, soberba espingarda Winchester,
empenhada ao Gago pelo filho do tabellião Guedes
d'Oliveira. E, quando desceu a escadaria, encontrou á porta
da taberna,
no estendido luar que orlava a rua adormecida, o Fidalgo da Torre e o
João Gouveia bruscamente engalfinhados na costumada contenda
sobre o Governador Civil de Oliveira—o André Cavalleiro!
Era sempre a mesma briga, pessoal, furiosa e vaga. Gonçalo
clamando que não alludissem deante d'elle, pelas cinco
chagas de Christo,
a esse bandido, esse Snr. Cavalleiro e sobretudo Cavallo,
mandão
burlesco que desorganizava o Districto! E João Gouveia muito
teso, muito
secco, com o côco mais cahido na orelha, assegurando a
inteligencia
superior do amigo Cavalleiro, que estabelecera limpeza e
ordem, como Hercules, nas
cavallariças d'Oliveira! O Fidalgo rugia. E Videirinha, com
o violão resguardado atraz das costas, supplicava aos amigos
que recolhessem
á taberna, para não alvorotar a rua...
—Tanto mais que defronte, coitada, a sogra do Dr. Venancio
está desde hontem com a pontada!
—Pois então, berrou Gonçalo, não
venham com disparates que revoltam! Dizer você, Gouveia, que
Oliveira nunca teve Governador Civil
como o Cavalleiro!... Não é por meu pae! O
papá já lá vae ha trez annos,
infelizmente. E concordo que não fosse boa auctoridade. Era
frouxo, andava doente... Mas depois tivemos o Visconde de Freixomil.
Tivemos o Bernardino. Você serviu com elles. Eram dois
homens!... Mas
este cavallo d'este Cavalleiro! A primeira
condição para a
auctoridade superior d'um Districto é não ser
burlesca. E o Cavalleiro
é d'entremez! Aquella guedelha de trovador, e a horrenda
bigodeira negra, e o olho languinhento a pingar namoro, e o papo
empinado, e o
pó-pó-poh! É
d'entremez! E estupido, d'uma estupidez fundamental, que lhe
começa nas patas, vem subindo, vem crescendo. Oh senhores,
que animal!... Sem contar que é malandro.
Teso na sombra do immenso Titó, como uma estaca junto d'uma
torre, o Administrador mordia o charuto. Depois, de dedo espetado, com
uma serenidade cortante:
—Você
acabou?... Pois, Gonçalinho, agora escute!
Em todo o districto d'Oliveira, note bem, em todo elle! não
ha ninguem,
absolutamente ninguem, que de longe, muito de longe, se compare ao
Cavalleiro em intelligencia, caracter, maneiras, saber, e finura
politica!
O Fidalgo da Torre emmudeceu, varado. Por fim sacudindo o
braço, n'um desabrido, arrogante desprezo:
—Isso são as opiniões d'um subalterno!
—E isso são as expressões d'um malcreado! uivou
o outro, crescendo todo, com os olhinhos esbugalhados a fuzilar.
Immediatamente entre os dois, mais grosso que um barrote,
avançou o braço do Titó, estendendo
uma sombra na
calçada:
—Olá! Oh rapazes! Que desconchavo é este?
Vocês estão borrachos?... Pois tu,
Gonçalo...
Mas já Gonçalo, n'um d'esses seus impulsos
generosos e amoraveis que tão finamente seduziam, se
humilhava, confessava a sua brutalidade, sensibilisado:
—Perdoe você, João Gouveia! Sei perfeitamente que
você defende o Cavalleiro por amizade, não por
dependencia... Mas que quer,
homem? Quando me fallam n'esse Cavallo... Não sei,
é por
contagio da besta, orneio, atiro coice!
O Gouveia, sem rancor, logo reconciliado (porque admirava
carinhosamente o Fidalgo da Torre), deu um puxão forte
á
sobrecasaca e apenas observou «que o Gonçalinho
era uma flôr, mas
picava...» Depois, aproveitando a
emoção submissa de Gonçalo,
recomeçou a glorificação do
Cavalleiro, mais sobria. Reconhecia certas fraquezas. Sim, com effeito,
aquelle modo impertigado... Mas que coração!—E o
Gonçalinho devia considerar...
O Fidalgo, de novo revoltado, recuou, espalmando as mãos:
—Escute você, oh João Gouveia! Por que
é que você lá em cima, á
ceia, não comeu a salada de pepino? Estava divina,
até
o Videirinha a appeteceu! Eu repeti, acabei a travessa... Por que foi?
Por que
você tem horror physiologico, horror visceral ao pepino. A
sua natureza e o pepino são incompativeis. Não ha
raciocinios,
não ha subtilezas, que o persuadam a admittir lá
dentro o pepino. Você
não duvida que elle seja excellente, desde que tanta gente
de bem o adora: mas você
não póde... Pois eu estou para o Cavalleiro como
você para o pepino.
Não posso! Não ha molhos, nem razões,
que m'o disfarcem. Para mim
é ascoroso. Não vae! Vomito!... E agora
ouça...
Então Titó, que bocejava, interveio,
já farto:
—Bem! Parece-me que apanhamos a nossa dóse
de Cavalleiro, e
valente! Somos todos muito boas pessoas e só nos resta
debandar. Eu
tive senhora, tive tainha... Estou derreado. E não tarda a
madrugada, que
vergonha!
O Administrador pulou. Oh Diabo! E elle, ás nove horas da
manhã, com commissão de recenseamento!... Para
esmagar bem o
amúo, cingiu Gonçalo n'um rijo abraço.
E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz
com o Videirinha (que n'estas noites festivas de Villa Clara o
acompanhava sempre pela estrada até ao portão da
Torre),
João Gouveia ainda se voltou, pendurado do braço
do Titó no meio da
Calçadinha, para lhe lembrar um preceito moral «de
não sei que
philosopho»:
—«Não vale a pena estragar boa ceia por causa de
má politica...» Creio que é
d'Aristoteles!
E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava
para um solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre
abafados harpejos:
—Não vale a pena, Sr. Doutor... Realmente não
vale a pena, por que em Politica hoje é branco,
ámanhã
é negro, e depois, zás, tudo é nada!
O fidalgo encolhera os hombros. A Politica! Como se elle pensasse na
Auctoridade, no Sr. Governador civil d'Oliveira—quando injuriava o Sr.
André Cavalleiro, de Corinde! Não! o que
detestava era o
homem—o
falso homem d'olho langoroso! Por que entre elles existia um d'esses
fundos aggravos que outr'ora, no tempo dos Tructesindos, armavam um
contra o outro, em dura arrancada de lanças, dois bandos
senhoriaes...—E pela estrada, com a lua no alto dos oiteiros de
Valverde, em quanto no
violão do Videirinha tremia o choro lento do fado do
Vimioso,
Gonçalo Mendes recordava, aos pedaços, aquella
historia que tanto enchera a
sua alma desoccupada. Ramires e Cavalleiros eram familias vizinhas, uma
com a velha torre em Santa Ireneia, mais velha que o Reino—a outra com
quinta bem tratada e rendosa em Corinde. E quando elle, rapaz de
dezoito annos, enfiava enfastiadamente os preparatorios do Lyceu,
André
Cavalleiro, então estudante do Terceiro-Anno, já
o tratava
como um amigo serio. Durante as férias, como a
mãe lhe dera um
cavallo, apparecia todas as tardes na Torre; e muitas vezes, sob os
arvoredos da quinta ou passeando pelos arredores de Bravaes e Valverde,
lhe confiava, como a um espirito maduro, as suas
ambições politicas, as suas
idéas de vida que desejava grave e toda votada ao Estado.
Gracinha Ramires desabrochava na
flôr dos
seus dezeseis annos; e mesmo em Oliveira lhe chamavam a
«flôr da Torre».
Ainda então vivia a governante ingleza de Gracinha, a boa
Miss Rhodes—que, como todos na Torre, admirava com enthusiasmo
André
Cavalleiro pela sua amabilidade, a sua ondeada cabelleira romantica, a
doçura quebrada dos seus olhos largos, a maneira ardente de
recitar Victor Hugo e João de Deus. E, com essa fraqueza que
lhe
amollecia a alma e os principios perante a soberania do Amor,
favorecera demoradas conversas de André com Maria da
Graça sob as
olaias do Mirante e mesmo cartinhas trocadas ao escurecer por sobre o
muro baixo da
Mãe d'Agua. Todos os domingos o Cavalleiro jantava na
Torre:—e o velho procurador Rebello já
preparára, com esforço e
resmungando, um conto de reis para o enxoval da
«menina». O pae de Gonçalo,
Governador Civil de Oliveira, sempre atarefado, enredado em Politica e
em dividas, amanhecendo
só na Torre aos Domingos, approvava esta
collocação de
Gracinha, que, meiga e romanesca, sem mãe que a velasse,
creava na sua vida,
já difficil, um tropeço e um cuidado. Sem
representar como elle uma familia
de immensa Chronica, anterior ao Reino, do mais rico sangue de Reis
godos,
André Cavalleiro era um moço bem nascido, filho
de general, neto de desembargador, com brasão legitimo na
sua casa
apalaçada de Corinde, e terras fartas em redor, de boa
semeadura, limpas de hypothecas... Depois, sobrinho de Reis Gomes, um
dos Chefes Historicos, já
filiado no Partido Historico (desde o Segundo Anno da Universidade), a
sua carreira
andava marcada com segurança e brilho na Politica e na
Administração. E emfim Maria da Graça
amava enlevadamente aquelles reluzentes
bigodes, os hombros fortes de Hercules bem educado, o porte ufano que
lhe encouraçava o peitilho e que impressionava. Ella, em
contraste, era pequenina e fragil, com uns olhos timidos e esverdeados
que o sorriso humedecia e enlanguescia, uma transparente pelle de
porcellana fina, e cabellos magnificos, mais lustrosos e negros que a
cauda d'um corcel de guerra, que lhe rolavam até aos
pés, em que se
podia embrulhar toda, assim macia e pequenina. Quando desciam ambos as
alamedas da quinta, miss Rhodes (que o pae, professor de Litteratura
Grega em Manchester, recheára de Mithologia) pensava sempre
em «Marte
cheio de força amando Psyché cheia de
graça.» E mesmo os
criados da Torre se maravilhavam do «lindo par!»
Só a Snr.
a D. Joaquina
Cavalleiro, a mãe de André, senhora obesa e
rabugenta, detestava aquella terna assiduidade do filho na Torre, sem
motivo pesado, só por «desconfiar da
pinta da menina e desejar nóra mais comesinha...»
Felizmente, quando
André Cavalleiro se matriculava no Quinto Anno, a
desagradavel matrona morreu d'uma anasarca. O pae de Gonçalo
recebeu a chave do
caixão: Gracinha tomou luto: e Gonçalo,
companheiro de casa do Cavalleiro na rua de
S. João, em Coimbra, enrolou um fumo na manga
da batina. Logo em Santa
Ireneia se pensou que o explendido André, libertado da
pêca
opposição da mamã, pediria a
«Flôr da Torre» depois do Acto
de Formatura. Mas, findo esse desejado Acto, Cavalleiro abalou para
Lisboa—por que se preparavam Eleições em
Outubro, e elle recebera do tio Reis
Gomes, então Ministro da Justiça, a promessa de
«ser deputado»
por Bragança.
E todo esse verão o passou na Capital; depois em Cintra,
onde o negro langor dos seus olhos humidos amollecia
corações;
depois n'uma jornada quasi triumphal a Bragança com foguetes
e «vivas
ao sobrinho do Sr. conselheiro Reis Gomes!» Em Outubro
Bragança
«confiou ao dr. André Cavalleiro (como escreveu o
Echo
de Traz-os-Montes)
o direito de a representar em Côrtes com os seus brilhantes
conhecimentos
litterarios e a sua formosissima presença de
orador...» Recolheu
então a Corinde; mas nas suas visitas á Torre,
onde o pae de Gonçalo
convalescia d'uma febre gastrica que exacerbára a sua antiga
diabetes,
André já não arrastava sofregamente
Gracinha, como outr'ora, para as silenciosas sombras da quinta,
permanecendo de preferencia na sala azul, a conversar sobre Politica
com Vicente Ramires, que se não movia da poltrona,
embrulhado n'uma manta. E Gracinha, nas suas cartas para Coimbra a
Gonçalo, já se carpia de não correrem
tão doces nem
tão intimas
as
visitas do André á Torre, «occupado,
como andava sempre agora, a estudar para
deputado...»
Depois do Natal o Cavalleiro voltou para Lisboa, para a abertura das
Côrtes, muito apetrechado, com o seu creado Matheus, uma
linda egua que comprára em Villa Clara ao Manoel Duarte, e
dous caixotes de
livros. E a boa Miss Rhodes sustentava que Marte, como convinha a um
heróe, só reclamaria Psyché depois
d'um nobre feito, uma estreia nas
Camaras, «n'um discurso lindo, todo
flôres...»
Quando Gonçalo, nas férias de Paschoa,
appareçeu na Torre, encontrou Gracinha inquieta e
descorada. As
cartas do seu André, que se estreára «e
n'um discurso lindo, todo flôres...», eram cada
semana mais curtas, mais
calmas. E a ultima (que ella lhe mostrou em segredo), datada da Camara,
contava em tres linhas mal rabiscadas «que tivera muito que
trabalhar em
commissões, que o tempo se pozera lindo, que n'essa noite
era o baile dos condes de Villaverde, e que elle continuava com muitas
saudades o seu fiel André...» Gonçalo
Mendes Ramires, logo
n'essa tarde, desabafou com o pae, que definhava na sua poltrona:
—Eu acho que o André se está portando muito mal
com a Gracinha... O papá não lhe parece?
Vicente Ramires apenas moveu, n'um gesto de vencida tristeza, a
mão descarnada d'onde a cada momento lhe escorregava o annel
d'armas.
Por fim em Maio a sessão das Camaras terminou—essa
sessão que tanto interessára Gracinha, anciosa
«que elles
accabassem de discutir e tivessem férias.» E quasi
immediatamente ella em
Santa Ireneia, Gonçalo em Coimbra, souberam pelos jornaes
que «o talentoso deputado
André Cavalleiro partira para Italia e França
n'uma longa viagem
de recreio e d'estudo.» E nem uma carta á sua
escolhida, quasi
sua noiva!... Era um ultraje, um bruto ultraje, que outr'ora, no seculo
XII,
lançaria todos os Ramires, com homens de cavallo e peonagem,
sobre o solar dos Cavalleiros, para deixar cada trave denegrida pela
chamma, cada servo pendurado d'uma corda de canave. Agora Vicente
Ramires, apagado e mortal, murmurou simplesmente: «Que
traste!» Elle
em Coimbra, rugindo, jurou esbofetear um dia o infame! A boa Miss
Rhodes, para se consolar, desembrulhou a sua velha harpa, encheu Santa
Ireneia de magoados harpejos. E tudo findou nas lagrimas que Gracinha,
durante semanas,
tão desconsolada da vida que nem se penteava, escondeu sob
as olaias do Mirante.
E, ainda depois d'esses annos, a esta lembrança das lagrimas
da irmã, um rancor invadiu Gonçalo,
tão redivivo que atirou
para o lado, para sobre as sebes da valla, uma bengallada, como se
fossem ás costas
do Cavalleiro!—Caminhavam então junto á
ponte da
Portella, onde os campos se alargam, e da estrada se avista
Villa-Clara, que a lua branqueava toda, desde o convento de Santa
Thereza, rente ao Chafariz,
até ao muro novo do cemiterio, no alto, com os seus finos
cyprestes. Para o fundo do valle, clara tambem no luar, era a egrejinha
de Craquêde,
Santa Maria de Craquêde, resto do antigo Mosteiro em que
ainda jaziam, nos
seus rudes tumulos de granito, as grandes ossadas dos Ramires
Affonsinos. Sob o arco, docemente, o riacho lento, arrastando entre os
seixos, sussurrava na sombra. E Videirinha, enlevado n'aquelle silencio
e suavidade saudosa, cantava, n'um gemer surdo de bordões:
Baldadas são tuas queixas,
Escusados são teus ais,
Que é como se eu morto
fôra.
E não me verás
nunca mais!...
E Gonçalo retomára as suas
recordações, repassava tristezas que depois
cahiram sobre a Torre. Vicente Ramires morrera n'uma tarde d'Agosto,
sem soffrimento, estendido na sua poltrona á varanda, com os
olhos cravados na velha Torre, murmurando para o padre
Soeiro:—«Quantos
Ramires verá ella ainda, n'esta casa, e á sua
sombra?...» Todas
essas ferias as consumiu Gonçalo no escuro cartorio,
desajudado
(por
que o
procurador, o bom Rebello, tambem Deus o chamára),
revolvendo papeis,
apurando o estado da casa—reduzida aos dois contos e trezentos mil
reis que rendiam os foros de Craquêde, a herdade de Praga, e
as duas
quintas historicas, Treixedo e Santa Ireneia. Quando regressou a
Coimbra deixou Gracinha em Oliveira, em casa de uma prima, D. Arminda
Nunes Viegas, senhora muito abastada, muito bondosa, que habitava no
Terreiro da
Louça um immenso casarão cheio de retratos
d'avoengos e de arvores
de costado, onde ella, vestida de velludo preto, pousada n'um
camapé de
damasco, entre aias que fiavam, perpetuamente relia os seus Livros de
Cavallaria, o
Amadis,
Leandro o Bello,
Tristão
e
Brancaflôr, as
Chronicas do Imperador
Clarimundo... Foi ahi que José
Barrôlo
(senhor d'uma das mais ricas casas d'Amarante) encontrou Gracinha
Ramires, e a amou com uma paixão profunda, quasi
religiosa—estranha n'aquelle
moço indolente, gorducho, de bochechas coradas como uma
maçã, e
tão escasso d'espirito que os amigos lhe chamavam
«o José
Bacôco». O bom Barrolo residira sempre em Amarante
com a mãe, não conhecia o
trahido romance da «Flôr da Torre»—que
nunca se espalhára para
além dos cerrados arvoredos da quinta. E, sob o enternecido
e romanesco patrocinio de D. Arminda, noivado e casamento docemente se
apressaram, em tres mezes,
depois
d'uma carta de Barrôlo a Gonçalo Mendes Ramires
jurando—«que a affeição pura que
sentia pela prima Graça, pelas suas virtudes e outras
qualidades respeitaveis, era tão grande que nem achava no
Diccionario
termos para a explicar...» Houve uma bôda luxuosa:
e os noivos
(por desejo de Gracinha, para se não affastar da querida
Torre), depois
d'uma jornada filial a Amarante, «armaram o seu
ninho» em
Oliveira, á esquina do largo d'El-Rei e da rua das
Tecedeiras, n'um palacete que o Bacôco
herdára, com largas terras, do seu tio Melchior,
Deão da
Sé. Dois annos correram, mansos e sem historia. E
Gonçalo Mendes Ramires passava
justamente em Oliveira as suas ultimas férias de Paschoa
quando
André Cavalleiro, nomeado Governador Civil do Districto,
tomou posse, estrondosamente, com foguetes, philarmonicas, o Governo
civil e o Paço do Bispo
illuminados, as armas dos Cavalleiros em transparentes no
café da Arcada
e na Recebedoria!... Barrôlo conhecia o Cavalleiro quasi
intimamente, admirava o seu talento, a sua elegancia, o seu brilho
Politico. Mas Gonçalo Mendes Ramires, que dominava
soberanamente o bom
Bacôco, logo o intimou a não visitar o Sr.
Governador Civil, a
não o saudar sequer na rua, e a partilhar, por dever
d'alliança, os rancores que
existiam entre Cavalleiros e Ramires! José Barrôlo
cedeu,
submisso, espantado, sem comprehender.
Depois
uma noite, no quarto, enfiando as chinellas, contou a Gracinha
«a exquisitice de Gonçalo»:
—E sem motivo, sem offensa, só por causa da Politica!...
Ora, vê tu! Um bello rapaz como o Cavalleiro! Podiamos fazer
um ranchinho
tão agradavel!...
Outro sereno anno passou... E n'essa primavera, em Oliveira, onde se
demorára para a festa dos annos de Barrôlo, eis
que Gonçalo suspeita, fareja, descobre uma incomparavel
infamia! O impertigado homem da bigodeira negra, o Sr. André
Cavalleiro,
recomeçára com soberba impudencia a cortejar
Gracinha Ramires, de longe, mudamente, em olhadellas fundas, carregadas
de saudade e langor, procurando agora apanhar como amante aquella
grande fidalga, aquella Ramires, que desdenhára como esposa!
Tão levado ia Gonçalo pela branca estrada, no
rolo amargo d'estes pensamentos, que não reparou no
portão da Torre,
nem na portinha verde, á esquina da casa, sobre tres
degráos. E seguia,
rente do muro da horta, quando Videirinha, que estacára com
os dedos mudos nos
bordões do violão, o avisou, rindo:
—Oh, Sr. Doutor, então larga assim, a estas horas de
corrida para os Bravaes?
Gonçalo virou, bruscamente despertado, procurando na
algibeira, entre o dinheiro solto, a chavinha do trinco:
—Nem reparava... Que lindamente você tem tocado, Videirinha!
Com lua, depois de ceia, não ha companheiro mais poetico...
Realmente
você é o derradeiro trovador portuguez!
Para o ajudante de Pharmacia, filho d'um padeiro d'Oliveira, a
familiaridade d'aquelle tamanho Fidalgo, que lhe apertava a
mão na botica deante do Pires boticario e em Oliveira deante
das Auctoridades, constituia uma gloria, quasi uma
coroação, e
sempre nova, sempre deliciosa. Logo sensibilisado, feriu os
bordões rijamente:
—Então, para acabar, lá vae a grande trova, Sr.
Doutor!
Era a sua famosa cantiga, o
Fado dos Ramires,
rosario de heroicas Quadras celebrando as Lendas da Casa illustre—que
elle desde mezes apurava e completava, ajudado na terna tarefa pelo
saber do velho Padre Soeiro, capellão e archivista da Torre.
Gonçalo empurrou a portinha verde. No corredor espirrava uma
lamparina mortiça, já sem azeite, junto ao
castiçal de prata. E Videirinha, recuando ao meio da
estrada, com um «dlindlon»
ardente, fitára a Torre, que, por cima dos telhados da vasta
casa, mergulhava as ameias, o negro miradoiro,
no
luminoso silencio do ceu de verão. Depois para
ella e para a lua atirou as endeixas glorificadoras, na dolente melodia
d'um fado de Coimbra, rico em
ais:
Quem te v'rá sem que
estremeça,
Torre de Santa Ireneia,
Assim tão negra e callada,
Por noites de lua cheia...
Ai! Assim callada,
tão negra,
Torre de Santa
Ireneia!
Ainda suspendeu para agradecer ao Fidalgo, que o convidava a subir e
enxugar um calice de genebra salvadora. Mas retomou logo o descante,
ditoso em descantar, como sempre arrebatado pelo sabor dos seus versos,
pelo prestigio das Lendas, emquanto Gonçalo
desapparecia—com folgazãs desculpas ao Trovador
«por cerrar a portinha do
Castello...»
Ai! ahi estás, forte e
soberba,
Com uma historia em cada ameia,
Torre mais velha que o reino,
Torre de Santa Ireneia!...
E começára a quadra a Muncio Ramires,
Dente
de
Lobo, quando em cima uma sala, aberta á frescura
da noite, se allumiou—e o
Fidalgo da Torre,
com o charuto acceso, se debruçou da varanda para receber a
serenada. Mais ardente, quasi soluçante, vibrou o cantar do
Videirinha. Agora era a quadra de Gutierres Ramires, na Palestina,
sobre o monte das Oliveiras, á porta da sua tenda, deante
dos
Barões que o acclamavam com as espadas nuas, recusando o
Ducado de Galiléa e o senhorio
das Terras d'Além-Jordão.—Que não
podia, em
verdade, acceitar terra, mesmo Santa, mesmo de Galiléa...
Quem já tinha em Portugal
Terras de Santa Ireneia!
—Boa piada! murmurou Gonçalo.
Videirinha, enthusiasmado, entoou logo outra nova, trabalhada n'essa
semana—a do sahimento de Aldonça Ramires, Santa
Aldonça, trazida do mosteiro d'Arouca ao solar de Treixedo,
sobre o almadraque em que morrera, aos hombros de quatro Reis!
—Bravo! gritou o Fidalgo pendurado da varanda. Essa é
famosa, oh Videirinha! Mas ahi ha Reis de mais... Quatro Reis!
Enlevado, empinando o braço do violão, o ajudante
da Pharmacia lançou outra, já antiga—a d'aquelle
terrivel Lopo Ramires que,
morto, se erguera da sua campa no Mosteiro de Craquêde,
montára um
ginete
morto, e toda a noite galopára atravez da Hespanha para se
bater nas
Navas de Tolosa! Pigarreou—e, mais chorosamente, atacou a do
Descabeçado:
Lá passa a negra figura...
Mas Gonçalo, que abominava aquella lenda, a silenciosa
figura degolada, errando por noites de inverno entre as ameias da Torre
com a
cabeça nas mãos—despegou da varanda, deteve a
Chronica immensa:
—Toca a deitar, oh Videirinha, hein? Passa das tres horas,
é um horror. Olhe! O Titó e o Gouveia jantam
cá na Torre, no
Domingo. Appareça tambem, com o violão e cantiga
nova: mas menos sinistra...
Bona sera! Que linda noite!
Atirou o charuto, fechou a vidraça da sala—a
«sala velha,» toda revestida d'esses denegridos e
tristonhos retratos de Ramires que elle desde pequeno chamava as
carantonhas
dos vovós.
E,
atravessando o corredor, ainda sentia rolarem ao longe, no silencio dos
campos cobertos de luar, façanhas rimadas dos seus:
Ai! lá na grande batalha...
El-Rei Dom Sebastião...
O mais moço dos Ramires
Que era pagem do guião...
Despido, soprada a vella, depois de um rapido signal da cruz, o Fidalgo
da Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de Sombras,
começou para elle uma noite revôlta e pavorosa.
André
Cavalleiro e João Gouveia romperam pela parede, revestidos
de cótas de malha, montados
em horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho
máo, arremessavam contra o seu pobre estomago pontoadas de
lança,
que o faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau preto. Depois era,
na Calçadinha de Villa-Clara, o medonho Ramires morto, com a
ossada a ranger dentro da armadura, e El-rei Dom Affonso II,
arreganhando afiados dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente para
a batalha das Navas. Elle resistia, fincado nas lages, gritando pela
Rosa, por Gracinha, pelo Titó! Mas D. Affonso tão
rijo murro lhe despedia
aos rins, com o guante de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria
do Gago até
á Serra Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de
pendões e
d'armas. E immediatamente seu primo d'Hespanha, Gomes Ramires, Mestre
de Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe arrancava os
derradeiros
cabellos, entre a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os
prantos da tia Louredo trazida como um andor aos hombros de quatro
Reis!...—Por fim, moido, sem socêgo, já com a
madrugada clareando
nas fendas das janellas
e as
andorinhas
piando no beiral dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou um derradeiro
repellão aos lençoes, saltou ao
soalho, abrio a vidraça—e respirou deliciosamente o
silencio, a frescura, a verdura, o repouso da quinta. Mas que
sêde! uma sêde desesperada que lhe
encortiçava os labios! Recordou então o famoso
fruit
salt
que lhe
recommendára o Dr. Mattos,—arrebatou o frasco, correu
á sala de jantar, em
camisa. E, a arquejar, deitou duas fartas colheradas n'um copo d'agua
da Bica-Velha, que esvasiou d'um trago, na fervura picante.
—Ah! que consolo, que rico consolo!...
Voltou derreadamente á cama: e readormeceu logo, muito
longe, sobre as relvas profundas d'um prado d'Africa, debaixo de
coqueiros susurrantes, entre o apimentado aroma de radiosas flores que
brotavam atravez de pedregulhos d'oiro. D'essa perfeita beatitude o
arrancou o Bento, ao meio dia, inquieto com «aquelle tardar
do Sr.
Doutor.»
—É que passei uma noite horrenda, Bento! Pesadelos,
pavores, bulhas, esqueletos... Foram os malditos ovos com
chouriço; e o
pepino... Sobretudo o pepino! Uma idéa d'aquelle animal do
Titó... Depois, de madrugada, tomei o tal
fruit
salt, e estou
optimo, homem!... Estou optimissimo! Até me sinto capaz de
trabalhar. Leva para a
livraria uma chavena de chá verde, muito forte... Leva
tambem torradas.
E momentos depois, na livraria, com um roupão de flanella
sobre a camisa de dormir, sorvendo lentos goles de chá,
Gonçalo
relia junto da varanda essa derradeira linha da Novella, tão
rabiscada e molle, em
que «os largos raios da lua se estiravam pela larga sala
d'armas...»
De repente, n'uma rasgada impressão de claridade, entreviu
detalhes
expressivos para aquella noite de Castello e de verão—as
pontas das
lanças dos esculcas faiscando silenciosamente pelos adarves
da muralha, e o coaxar triste das rans nas bordas lodosas dos fossos...
—Bons traços!
Achegou de vagar a cadeira, consultou ainda no volume do
Bardo
o Poemeto do tio Duarte. E, desannuviado, sentindo as Imagens e os
Dizeres surgirem como bolhas d'uma agua represa que rebenta, atacou
esse lance do Capitulo I em que o velho Tructesindo Ramires, na sala
d'armas de Santa Ireneia, conversava com seu filho Lourenço
e seu primo
D. Garcia Viegas, o
Sabedor, de aprestos de
guerra...
Guerra! Porque? Acaso pelos cerros arraianos corriam, ligeiros entre o
arvoredo, almogavares mouros? Não! Mas
desgraçadamente,
«n'aquella terra já remida e christã,
em breve se crusariam, umas contra outras, nobre lanças
portuguezas!...»
Louvado Deus! a penna desemperrára! E, attento
ás
paginas marcadas n'um tomo da
Historia
d'Herculano, esboçou
com
segurança a Epocha da sua Novella—que abria entre as
discordias de Affonso II e de seus
irmãos por causa do testamento d'El-Rei seu pae, D. Sancho
I. N'esse
começo do Capitulo já os Infantes D. Pedro e D.
Fernando, esbulhados,
andavam por França e Leão. Já com
elles
abandonára o Reino o forte primo dos Ramires,
Gonçalo Mendes de Souza, chefe magnifico da casa
dos Souzas. E agora, encerradas nos castellos de Monte-Mór e
de Esgueira,
as senhoras Infantas, D. Thereza e D. Sancha, negavam a D. Affonso o
senhorio real sobre as villas, fortalezas, herdades e mosteiros, que
tão
copiosamente lhes doára El-Rei seu pae. Ora, antes de morrer
no
Alcaçar de Coimbra, o senhor D. Sancho supplicára
a Tructesindo Mendes Ramires,
seu collaço e Alferes-Mór, por elle armado
cavalleiro em
Lorvão, que sempre lhe servisse e defendesse a filha amada
entre todas, a infanta D. Sancha, senhora de Aveyras. Assim o
jurára o leal Rico-Homem junto
do leito onde, nos braços do Bispo de Coimbra e do Prior do
Hospital
sustentando a candeia, agonisava, vestido de burel como um penitente, o
vencedor de Silves... Mas eis que rompe a féra contenda
entre Affonso II, asperamente cioso da sua auctoridade de Rei—e as
Infantas, orgulhosas, impellidas á resistencia pelos freires
do Templo e pelos
Prelados a quem
D. Sancho
legára tão vastos pedaços do
Reino! Immediatamente Alemquer e os arredores d'outros castellos
são devastados pela hoste
real que recolhia das Navas de Tolosa. Então D. Sancha e D.
Thereza
appellam para El-rei de Leão, que entra com seu filho D.
Fernando por
terras de Portugal a soccorrer as «Donas
opprimidas.»—E
n'este lance o tio Duarte, no seu
Castello de Santa Ireneia,
interpellava com soberbo garbo o Alferes-Mór de Sancho I: