Como para acolher Gonçalo mais dignamente, o
portão grande, sempre
cerrado, offerecia uma entrada triumphal com os dous pesados batentes
escancarados. Elle atirou a egoa para o meio do pateo, bradando:
—Oh Joaquim! Oh Manoel! Eh lá! um de vossês!
O Joaquim surdiu da cavallariça, de mangas
arregaçadas, com uma esponja
na mão.
—Oh Joaquim, depressa! Apparelha o Rocilho, corre a um sitio na estrada
de Ramilde, a que chamam a Grainha... Tive agora lá uma
grande desordem!
Creio que dei cabo de dous homens... Ficaram n'uma poça de
sangue! Não
digas que vaes da Torre, que te podem atacar! Mas sabe o que succedeu,
se estão mortos... Depressa, depressa!
O Joaquim, estonteado, remergulhou na cavallariça escura. E
de cima
d'uma das varandas do corredor, partiram
exclamações assombradas:
—Oh Gonçalo, o que foi?! santo Deus! o que foi?!
Era o Barrôlo. Sem desmontar, sem surpresa ante a
apparição do Barrôlo,
Gonçalo atirou logo para a varanda a historia da bulha,
tumultuosamente.
Um malandro que o insultára... Depois outro, que desfechou a
caçadeira... E ambos derribados sob as patas da egoa, n'uma
poça de
sangue...
O Barrôlo despegou da varanda—e n'outro relance, investia
pelo pateo,
com os curtos braços a boiar, enfiado. Mas então?
mas então?... E
Gonçalo, desmontando, tremulo agora do cançasso e
da emoção, esmiuçou
mais lances... Na estrada de Ramilde! Um valentão que o
injuriou! A esse
rasgára a bôca, decepára a orelha...
Depois o outro, um rapasola,
desfecha uma carabina... Elle corre, tão vivamente o colhe
com uma
cutilada que o estira, para cima d'uma pedra, como morto...
—Uma cutilada?
—Com este chicote, Barrôlo! Arma terrivel!... Bem dizia o
Titó!...
Estou perdido se não levo este chicote.
Esgaseado, Barrôlo remirava o chicote. Sim, com effeito ainda
manchado
de sangue.—Então Gonçalo attentou no chicote, no
sangue... Sangue de
gente! sangue fresco, que elle arrancára!... E por entre o
seu orgulho,
uma piedade passou que o empallideceu:
—Que desgraça, vejam que desgraça!
Esquadrinhou vivamente o fato, as botas, no horror de nodoas de sangue,
que o salpicassem. Sim, santo Deus! sangue na polaina!... E
immediatamente anciou por se despir, se lavar,—galgou a escada, com o
Barrôlo que enxugava o suor, balbuciava:—«Ora uma
d'essas! E de
repente! Assim na estrada!...» Mas no corredor, subindo n'uma
carreira
da cosinha, appareceu Gracinha, pallida, com a Rosa atraz, que
enterrava
os dedos entre o lenço e o cabello n'um pavor mudo.
—Que foi, Gonçalo? Jesus, que foi?!
Então, encontrando Gracinha junto d'elle, na Torre, n'esse
momento
magnifico do seu orgulho, depois de tão rijo perigo vencido,
Gonçalo
esqueceu o André, o Mirante, as sombrias
humilhações, e no abraço em que
a colheu, nos fortes beijos que atirou
á
face querida, todo
o seu amuo
se fundio em ternura. Com ella ainda chegada ao
coração, suspirou de
leve, como uma creança cançada. Depois apertando
as duas pobres mãos
tremulas, com um lento, enternecido sorriso, em quanto os olhos se lhe
humedeciam de confusa emoção, de confusa alegria:
—Pois foi o diabo, filha! Uma desordem horrivel, eu que sou
tão pacato!
imagina tu...
E pelo corredor recomeçou para Gracinha, que arfava, e para
a Rosa,
estarrecida, a historia do encontro, e o sujo ultrage, o tiro que
falhára e os malandros lacerados a chicote, e o velho
marchando como um
captivo, a gemer pela estrada de Ramilde. Apertando o peito, n'um
desmaio, Gracinha murmurou:
—Ai, Gonçalo! E se um dos homens estivesse morto!
O Barrôlo, mais vermelho que uma pionia, berrou logo que taes
malandros
mereciam ricamente a morte! E mesmo feridos, ainda necessitavam castigo
tremendo d'Africa! O Gouveia! era necessario mandar a Villa-Clara,
avisar o Gouveia!... Mas largas passadas ávidas abalaram o
soalho—e foi
o Bento, que se ergueu deante de Gonçalo, bracejando n'uma
ancia:
—Então, Snr. Doutor?... Diz que uma grande desordem!...
E á porta do escriptorio, onde todos pararam, novamente
attentos, a
historia recomeçou, especialmente para o Bento, que a bebia,
n'um lento
riso de gosto, crescendo, inchando, com os olhinhos humidos a reluzir,
como se tambem triumphasse. Por fim, triumphou, com estrondo:
—Foi o chicote, Snr. Doutor! O que serviu ao Snr. Doutor, foi o chicote
que eu lhe dei!
Era verdade. E Gonçalo, commovido, abraçou o
velho aio, que n'uma
excitação, gritava para a Rosa, para Gracinha,
para o Barrôlo:
—O Snr. Doutor deu cabo d'elles!... Aquelle chicote mata um homem!...
Os malvados estão mortos!... E foi o chicote! Foi o chicote
que eu dei
ao Snr. Doutor!
Mas Gonçalo reclamava agua quente para se lavar da poeira,
do suor, do
sangue... E o Bento correu, berrando ainda pelo corredor! depois pelas
escadas da cosinha—«que fôra o chicote! o chicote,
que elle déra ao
Snr. Doutor!» Gonçalo entrára no
quarto, acompanhado pelo Barrôlo. E
pousou o chapeu sobre o marmore da commoda, com um immenso
ah
consolado! Era o consolo immenso de se encontrar, depois de
tão violenta
manhã, entre as doces cousas costumadas, pisando o seu velho
tapete
azul, roçando o leito de pau preto em que nascera,
respirando pelas
vidraças abertas, onde as ramagens familiares
das faias
s'empurravam na
aragem para o saudar. Com que gosto se acercou do espelho de columnas
douradas, se mirou e se remirou, como a um Gonçalo novo e
tão melhorado,
que nos hombros reconhecia mais largueza, e até no bigode um
arquear
mais crespo.
E foi ao arredar do espelho, topando com o Barrôlo, que
subitamente
despertou n'uma curiosidade immensa:
—Mas, oh Barrôlo, como é que vos encontro esta
manhã na Torre?
Resolução da vespera, ao chá.
Gonçalo não apparecia, não escrevia...
Gracinha a matutar, inquieta. Elle tambem espantado d'aquelle
sumiço
depois do cesto dos pêcegos. De modo que ao chá,
pensando tambem que a
parelha necessitava uma trotada, lembrára a
Gracinha:—«Vamos nós amanhã
á Torre? no phaeton?»
—Além disso precisava fallar comtigo, Gonçalo...
Tenho andado
aborrecido.
O Fidalgo juntou duas almofadas no divan, onde se enterrou:
—Como aborrecido?... Aborrecido por que?...
Barrôlo, com as mãos nos bolsos da rabona de
flanella, que lhe cingia as
ancas gordas, considerou as flôres do tapete,
melancolicamente:
—É uma grande secca! A gente não póde
confiar em ninguem... Nem ter
familiaridades!...
N'um lampejo Gonçalo imaginou o Cavalleiro e Gracinha
mostrando
estouvadamente nos Cunhaes, como outr'ora entre os arvoredos da Torre,
o
sentimento que os dominava. E presentiu um desabafo, alguma queixa
triste do pobre Barrôlo, amargurado por suspeitas, talvez por
intimidades que espreitára. Mas a
emoção suprema da sua batalha, sumira
para uma sombra inferior os cuidados que, ainda na vespera, o
opprimiam:
todas as difficuldades da vida lhe appareciam agora, de repente,
n'aquelle frescor da sua coragem nova, tão faceis d'abater
como os
desafios dos valentões; e não se assustou com as
confidencias do
cunhado, bem seguro d'impôr áquella alma submissa
de bacôco a confiança
e a quietação. Até sorriu, com
indolencia:
—Então, Barrolinho? Succedeu alguma peripecia?
—Recebi uma carta.
—Ah!
Gravemente Barrôlo desabotoou o jaquetão, puxou do
bolso interior uma
larga carteira, de couro verde e lustroso, com monogramma d'ouro. E foi
a carteira que elle mostrou a Gonçalo, com
satisfação.
—Bonita, hein? Presente do André, coitado...
Creio que
até a mandou vir
de Paris. O monogramma tem muito chic.
Gonçalo esperava, espantado. Emfim o bom Barrôlo
tirou da carteira uma
carta—já amarrotada, depois alisada. Era, n'um papel
pautado, uma
lettra miudinha que o Fidalgo apenas relanceou, declarando logo com
segurança:
—É das Louzadas.
E leu, vagarosamente, serenamente, com o cotovello enterrado na
almofada: «Ex.
mo Snr. José
Barrôlo.—V. Ex.
a apesar de todos os
seus
amigos o alcunharem de
Zé bacôco,
mostrou agora
muita espertesa,
chamando de novo para a sua intimidade e de sua digna esposa o gentil
André Cavalleiro, nosso Governador Civil. Com effeito a
esposa de V.
Ex.
a, a linda Gracinha, que n'estes ultimos
tempos andava
tão murcha e
até desbotada (o que a todos nos inquietava) immediatamente
reflorio, e
ganhou côres, desde que possue a valiosa companhia da
primeira
auctoridade do districto. Portou-se pois V. Ex.
a
como marido zeloso, e
desejoso da felicidade e boa saude de sua interessante esposa. Nem
parece rasgo d'aquelle que toda a Oliveira considera como o seu mais
illustre pateta! Os nossos sinceros parabens!»
Gonçalo guardou muito socegadamente na algibeira
aquella
carta que, dias
antes, o lançaria em infinita amargura e furia:
—É das Louzadas... E tu déste importancia a
semelhante babuseira?
O Barrôlo repontou, com as bochechas abrazadas:
—Se te parece! Sempre embirrei com bilhetinhos anonymos... E depois
essa insolencia a respeito dos amigos me chamarem
Bacôco...
Grande
infamia, hein? Tu acreditas?... Eu não acredito! mas
lança sizania entre
mim e os rapazes... Nem voltei ao Club... Bacôco!
Porquê? Por que eu sou
simples, sempre franco, disposto a arranchar... Não! se os
rapazes no
Club me chamam bacôco pelas costas, caramba, mostram
ingratidão! Mas eu
não acredito! Rebolou pelo quarto, desconsoladamente, as
mãos cruzadas
sobre as gordas nadegas. Depois, estacando deante do divan, d'onde
Gonçalo o considerava, com piedade:
—Em quanto ao resto da carta é tão estupido,
tão atrapalhado que ao
principio nem comprehendi. Agora percebo... Querem dizer que a Gracinha
e o Cavalleiro teem namoro... É o que me parece que querem
dizer! Ora vê
tu que disparate! Até a intimidade do Cavalleiro
é mentira. O pobre
rapaz, desde que lá jantou, só appareceu tres ou
quatro vezes, á
noite,
para a manilha, com o Mendonça... E agora abalou para Lisboa.
Então o Fidalgo pulou, de surpresa.
—O quê! o Cavalleiro foi para Lisboa?
—Pois partiu ha tres dias!
—Com demora?
—Com demora, com grande demora... Só volta no meado
d'outubro para a
Eleição.
—Ah!
Mas o Bento rompeu pelo quarto, com o jarro d'agua quente, duas toalhas
de rendas, ainda n'uma excitação que o azafamava.
Deante do espelho,
lentamente Barrôlo reabotoava o jaquetão:
—Bem, até logo, Gonçalinho. Eu desço
á cavallariça, visitar a parelha.
Não imaginas! desde Oliveira, sem descanso, uma trotada
explendida. E
nem um pello suado! Tu guardas a carta?
—Guardo, para estudar a lettra.
Apenas Barrôlo cerrára a porta—o Fidalgo
recomeçou com o Bento a
deliciosa historia da briga, revivendo as surprezas e os rasgos,
simulando os arremessos da egoa, arrebatando o chicote para representar
as cutiladas silvantes, que arrancavam febra e sangue... E de repente,
em ceroulas:
—Oh Bento, traze o meu chapeu... Estou desconfiado que a bala
roçou
pelo chapeu.
Ambos remiraram, esquadrinharam o chapeu. O
Bento,
no seu encarecimento
da façanha, achava a copa amolgada—até
chamuscada.
—A bala passou de raspão, Snr. Doutor!
O Fidalgo negou, com a modestia grave d'um forte:
—Não! Nem de raspão!... Quando o malandro
desfechou já o braço lhe
tremia... Devemos agradecer a Deus, Bento. Mas eu realmente
não corri
grande perigo!
Depois de vestido, Gonçalo, passeando no quarto, releu a
carta. Sim,
certamente das Lousadas. Mas agora essa maledicencia, soprada com
tão
sordida maldade sobre as pobres bochechas do Barrôlo,
não causava
damno—antes servia, quasi beneficamente, como a braza d'um ferro, para
sarar um damno. O pobre Barrôlo apenas se
impressionára com a revelação
da sua bacoquice, essa ingrata alcunha posta pelos rapazes amigos, em
galhofas ingratas do Club e debaixo dos Arcos. A outra
insinuação
terrivel, Gracinha reverdecendo ao calor amoroso do Cavalleiro, essa
mal
a comprehendera, escassamente a attendera n'um desdem distrahido e
candido. Mas a carta que assim silvava por sobre o bom
Barrôlo como
flecha errada—acertava em Gracinha, feriria Gracinha no seu orgulho, no
seu impressional pudor, mostrando á pobre tonta como o seu
nome e mesmo
o seu coração, já arrastavam
enxovalhadamente,
pela
rasteira mexeriquice
das Lousadas!... Certesa tão humilhadora não
apagaria um sentimento—que
se não apagava com humilhações mais
intimas, tanto mais dolorosas. Mas
estimularia a sua reserva e o seu desconfiado recato:—e agora que
André
se afastára para Lisboa, operaria n'ella, surdamente,
solitariamente,
sem que a presença tentadora lhe desmanchasse a influencia
socegadora e
salutar. Assim o torpe papel aproveitava a Gracinha como um aviso
temeroso pregado na parede. E rancorosamente preparada pelas duas
femeas
para desencadear nos Cunhaes escandalo e dôr—talvez
restabelecesse, na
ameaçada casa, quietação e
gravidade.—Gonçalo esfregou as mãos
pensando—que em tão ditosa manhã talvez
até esse mal redundasse em bem!
—Oh Bento, onde está a Snr.
a D.
Graça?
—A menina subiu agora ha pouco para o seu quarto, Snr. Doutor.
Era o seu quarto de solteira, claro e fresco sobre o pomar, onde ainda
se conservava o seu leito de linda madeira embutida, um toucador
illustre que pertencera á Rainha D. Maria Francisca de
Saboya, e o
sophá, as cadeiras de casimira clara em que Gracinha
bordára, n'um
arrastado labor d'annos, o Açor negro dos Ramires. E sempre
que voltava
á Torre Gracinha gostava de reviver no seu quarto, as horas
de solteira,
remexendo as gavetas,
folheando
velhos romances inglezes na
estantesinha
envidraçada, ou simplesmente da varanda contemplando a
querida quinta
estendida até aos outeiros de Valverde, a verde quinta,
tão misturada á
sua vida que cada arvore lhe susurrava, cada recanto de verdura era
como
um recanto do seu pensamento.
Gonçalo subiu—bateu á porta cerrada com o antigo
aviso:—«Licença para
o mano!» Ella correu da varanda, onde regava nos seus antigos
vasos
vidrados plantas sempre renovadas e cuidadas pela Rosa com carinho. E
desabafando logo do pensamento que a enchia:
—Oh Gonçalo! mas que felicidade nós virmos
á Torre, justamente hoje,
que te succedeu cousa tamanha!
—É verdade, Gracinha, grande sorte! E não me
admirei nada de te vêr...
Era como se ainda vivesses na Torre e te encontrasse no corredor...
Quem
estranhei foi o Barrôlo! E no primeiro momento depois de
desmontar,
pensava assim, vagamente: «mas que diabo faz aqui o
Barrôlo? como diabo
se acha aqui o Barrôlo?...» Curioso, hein? Foi
talvez que, depois da
desordem, me senti remoçado, com um sangue novo, e me
julguei no tempo
em que desejavamos uma guerra em Portugal, e nós cercados na
Torre, sob
o nosso pendão, o
nosso terço
atirando
bombardas aos hespanhoes...
Ella ria, lembrada dessas imaginações heroicas. E
com o vestido entalado
entre os joelhos recomeçou a lenta rega dos seus vasos—em
quanto
Gonçalo, encostado á varanda, considerando a
Torre, retomado pela ideia
d'uma concordancia mais intima, que desde essa manhã se
estabelecera
entre elle e aquelle heroico resto da Honra de Santa Ireneia, como se a
sua força, tanto tempo quebrada, se soldasse emfim
firmemente á força
secular da sua raça.
—Oh Gonçalo! tu deves estar muito cançado!
Depois d'essa verdadeira
batalha...
—Não, cançado não... Mas com fome.
Com fome, e com uma sêde explendida!
Ella pousou logo o regador, sacudindo as mãos alegremente:
—Pois o almoço não tarda!... Já andei
a trabalhar na cosinha, com a
Rosa, n'uma pescada á hespanhola... É uma receita
nova do Barão das
Marges.
—Então insonsa, como elle.
—Não! até picante: foi o Snr. Vigario Geral que
lh'a ensinou.
E como, deante do toucador da Rainha Maria Francisca, ella arranjava
á
pressa os ganchos do cabello, para aproveitar a solidão
favoravel,
apressou com um esforço, a confidencia que o commovia:
—E em Oliveira? Lá por Oliveira!
—Em Oliveira, nada... Muito calor!
Gonçalo, movendo os dedos lentos pela moldura do espelho,
fino
entrelaçamento de açucenas e louros, murmurou:
—Eu sei apenas das Lousadas, das tuas amigas Lousadas. Continuam em
plena actividade...
Gracinha negou candidamente:
—As Lousadas? Não! Nem teem apparecido.
—Mas teem tecido!
E como os verdes olhos de Gracinha se alargaram, sem comprehender,
Gonçalo arrancou vivamente da algibeira a carta que
guardára, que agora
lhe pesava, como uma chapa de ferro:
—Olha, Gracinha! Mais vale desabafarmos! Ahi tens o que ellas ha dias
escreveram a teu marido...
N'um relance, Gracinha devorou as linhas terriveis. E com ondas de
sangue nas faces, apertando as mãos n'uma
afflicção, um desespero, em
que o papel amarfanhou:
—Oh Gonçalo! pois...
Gonçalo accudio:
—Não! o Barrôlo não se importou!
Até se rio! E eu tambem, quando elle
me entregou esse papelucho... E a prova que ambos o consideramos uma
mexeriquice insensata, é que eu t'o mostro tão
francamente.
Ella esmagava a carta nas mãos juntas e tremulas,
pallida
agora e
emmudecida pelo espanto, retendo grandes lagrimas que rebrilhavam. E
Gonçalo commovido, com gravidade, com ternura:
—Mas tu, Gracinha, sabes o que são terras pequenas. Sobre
tudo
Oliveira! Precisas muito cuidado, muita reserva... Ai de mim! De mim
vem
a culpa. Reatei relações que nunca se deviam
reatar... Bem me tenho
arrependido! E acredita! por causa d'essa
situação tão falsa e tão
perigosa, que eu creei, levianamente, por ambição
tola, passei aqui na
Torre dias amargurados... Até nem m'atrevia voltar a
Oliveira. Hoje, não
sei porquê, depois d'esta aventura, parece que tudo se
esbateu,
s'afundou para uma grande sombra... Emfim já não
me arde tão em braza no
coração... Por isso desabafo assim, serenamente.
Ella desatou n'um solto, doloroso choro em que a sua fraca alma se
desfazia. Com redobrada ternura Gonçalo abraçou
os pobres hombros
vergados que os soluços espedaçavam. E foi com
ella toda refugiada no
seu peito, que ainda a aconselhou, docemente:
—Gracinha, o passado morreu, e todos precisamos, para honra de todos,
que continue morto. Pelo menos que por fóra, em cada gesto
teu, pareça
bem morto! Sou eu que t'o peço, pelo nosso nome!...
D'entre os braços do irmão, ella gemeu com
infinita humildade:
—Mas elle até foi embora!... Nem quiz estar mais em
Oliveira!
Gonçalo acariciou a acabrunhada cabeça que de
novo se escondera contra o
seu peito, contra elle se apertava, como procurando a fresca
misericordiosa que dentro sentia brotar:
—Bem sei. E isso me mostra que tens sido forte... Mas precisas muita
reserva, muita vigilancia, Gracinha!... E agora socega. Não
fallemos
mais, nunca mais, n'este incidente... Por que foi apenas um
incidente.
E que eu provoquei, ai de mim, por leviandade, por illusão.
Passou, está
esquecido! Socega, descança. E quando desceres traze os
olhos bem
seccos.
Lentamente a desprendera dos braços, onde ella se arraigava
como ao
abrigo mais certo e á consolação mais
desejada. E sahia, engasgado pela
emoção, recalcando tambem as lagrimas... Um
gemido timido, supplicante,
ainda o reteve.
—Gonçalo! mas tu pensas...
Elle voltou, de novo a abraçou, a beijou na testa lentamente:
—Eu penso que tu, agora bem avisada, bem aconselhada, vaes mostrar
muita dignidade, muita firmeza.
Rapidamente abalou, cerrou a porta. E na escada estreita, escassamente
allumiada por uma
claraboia
baça, limpava as palpebras,
quando esbarrou
com o Barrôlo, que procurava Gracinha, para apressar o
almoço.
—A Gracinha já desce! atabalhoou o Fidalgo. Está
a lavar as mãos! Já
desce!... Mas antes do almoço vamos á
cavallariça. Devemos uma visita á
egoa, a essa querida egoa que me salvou!
—É verdade, caramba! concordou logo Barrôlo
revirando nos degraus, com
enthusiasmo. Precisamos visitar a egoa... Grande, briosa, hein! Mas
aposto que ficou mais suada que as minhas... Imagina! uma trotada
d'aquellas, desde Oliveira, e nem um pello molhado! Grandes egoas!
Tambem, o que eu as ólho, o que as trato!
Na cavallariça, ambos affagaram a egoa. Barrôlo
lembrou que se
mimoseasse com uma ração larga de cenoura.
Depois—para que Gracinha,
com vagar se calmasse,—o Fidalgo arrastou o Barrôlo ao pomar
e á
horta...
—Tu não vens á Torre ha perto de seis mezes,
Barrolinho! Precisas vêr,
admirar progressos. Anda agora por aqui a mão forte do
Pereira da
Riosa...
—Imagino! grande homem, o Pereira! Mas eu tenho uma fome,
Gonçalinho!
—Tambem eu!
Uma hora batia quando entraram na varanda onde a mesa esperava, florida
e em festa—e Gracinha, á beira do divan, percorria
pensativamente a
velha
Gazeta do Porto. Apesar de muito banhados,
os seus bellos olhos
conservavam um ardor: e para o justificar, e o seu modo abatido, logo
se
lastimou, córando, d'uma enxaqueca. Eram as
emoções, o perigo de
Gonçalo...
—Tambem eu tenho dôr de cabeça! declarou o
Barrôlo, rondando a mesa.
Mas a minha vem da fome... Oh filhos, é que estou desde as
sete da manhã
com uma chavena de café e um ovo quente!
Gonçalo repicou a campainha. Mas quem rompeu pela porta
envidraçada,
esbaforido, escancarando a bocca n'um riso immenso, foi o Joaquim, o
moço da cavallariça que voltava da Grainha.
Gonçalo atirou os braços, soffrego:
—Então?! então?!
—Pois lá estive, meu Fidalgo! exclamou o Joaquim com o
peito a estalar
d'importancia. E vae por lá um povoleu, todos já
sabem! Uma rapariga dos
Bravaes espreitou tudo, de dentro do quinteiro... Depois correu,
badalou... Mas o velho, o tal Domingues que mora na casa, e o filho,
abalaram ambos. E o rapaz, ao que dizem, pouco ferido. Se cahio, sem
sentidos, foi com o susto. O Ernesto de
Nacejas,
esse sim, santo nome
de
Deus, apanhou. Lá o levaram em braços para casa
d'um compadre alli ao
pé, na Arribada. Parece que fica sem orelha, e que fica sem
bocca!...
Pois por todos aquelles sitios era o ai-jesus das moças!...
E logo lá o
carregam para o Hospital de Villa Clara, que na casa do Compadre
não
pode sarar. Um povoleu, e todos dão a rasão ao
Fidalgo. O tal Domingues
era malandro. E o Ernesto, esse ninguem o podia enxergar! Mas todos lhe
tinham medo... O Fidalgo fez uma limpeza!
Gonçalo resplandecia. Ah! Ainda bem! que não
passára damno mais forte,
que belleza perdida do D. Juan de Nacejas!
—E então o povo por lá, a fallar, a olhar para o
sitio?
—Pois o povo não se arreda! E a mostrar o sangue, no
chão, e as pedras
por onde se atirou a egoa do Fidalgo... E agora até contam
que foi uma
espera, e que desfecharam tres tiros ao Fidalgo, e que depois adiante
no
pinhal ainda saltaram tres homens mascarados que o Fidalgo
escangalhou...
—Eis a lenda que se forma! declarou Gonçalo.
O Bento apparecera com uma larga travessa fumegante. O Fidalgo affagou
risonhamente o hombro do Joaquim. E em baixo a Rosa que abrisse, para o
almoço da familia, duas garrafas de vinho do
Porto, velho.
Depois com a
mão nas costas da cadeira murmurou gravemente:—Pensemos um
momento em
Deus, que me tirou hoje d'um grande perigo!
Barrôlo pendeu a cabeça, reverente. Gracinha,
atravez d'um leve suspiro,
pensou uma leve oração. E desdobravam os
guardanapos; Gonçalo acclamava
a travessa de pescada á hespanhola—quando o pequeno da
Crispola
empurrou ainda a porta envidraçada «com um
telegramma, que viera da
Villa!» Uma inquietação deteve os
garfos. A manhã correra com tantas
agitações e espantos! Mas já um
sorriso de gosto, de triumpho, se
espalhára na fina face de Gonçalo:
—Não é nada... É do Castanheiro, por
causa dos capitulos do Romance que
eu lhe mandei... Coitado! Bom rapaz!
E, recostado na cadeira, recitou vagarosamente o telegramma, que os
seus
olhos affagavam:—«Capitulos romance recebidos. Leitura feita
amigos.
Enthusiasmo! Verdadeira obra prima! Abraço!...»
Barrôlo, com a bocca cheia, bateu as palmas. E
Gonçalo, sem reparar na
travessa da pescada que Bento lhe apresentava, mas enchendo o copo de
vinho verde, com uma vaga tremura, um sorriso ditoso que não
se
dissipava:
—Emfim, boa manhã... Grande manhã!
Gonçalo, apesar das insistencias de Gracinha e do
Barrôlo, não os
acompanhou para Oliveira—no desejo de acabar, durante essa semana, o
derradeiro Capitulo da Novella, e depois cerrar o preguiçoso
giro de
visitas aos influentes Eleitoraes do Circulo. Assim rematava a Obra
d'Arte e a obra de Politica,—e cumpria, Deus louvado, a tarefa d'esse
verão fecundo!
Logo n'essa noite retomou o manuscripto da Novella—e na margem larga
lançou a data, uma nota:—«
Hoje, na
freguesia da
Grainha, tive uma
briga terrivel com dous homens que me assaltaram a pau e tiro, e que
castiguei severamente...» Depois, com facilidade
atacou o
lance de
tanto sabor medieval, em que Tructesindo Ramires, correndo no rasto do
Bastardo, penetrava, ao espalhado e fumarento clarão dos
archotes, no
arraial de D. Pedro de Castro.
Com grave amisade acolhia o velho homem de guerra aquelle seu primo de
Portugal, que lhe trouxera a sua forte mesnada, de Santa Ireneia,
quando
os Castros combateram um grande poder de Mouros em Enxarez de
Sandornin.
Depois, na vasta tenda, reluzente d'armas, tapizada de pelles de
leão e
d'urso, Tructesindo contava, ainda a arfar de dôr represa, a
morte de
seu filho Lourenço, ferido na lide de Canta-Pedra, acabado
á punhalada
pelo Bastardo de
Bayão,
deante das muralhas de Santa
Ireneia, com o sol
no ceu alto a olhar a traição! Indignado, o velho
Castro esmurraçou a
mesa, onde um rosario d'ouro se misturava a grossas peças de
xadrez;
jurou pela vida de Christo, que, em sessenta annos d'armas e surpresas
nunca soubera de feito mais vil! E agarrando a mão do senhor
de Santa
Ireneia, ardentemente lhe offereceu, para a empreza da santa
vingança, a
sua hoste inteira—tresentas e trinta lanças, vasta e rija
peonagem.
—Por Santa Maria! Formosa arrancada! bradou Mendo de Briteiros com as
vermelhas barbas a flammejar de gosto.
Mas D. Garcia Viegas, o
Sabedor, entendia que
para colherem o Bastardo
vivo, como convinha a uma vingança vagarosa e bem gosada,
mais utilmente
serviria uma calada e curta fila de cavalleiros, com alguns homens de
pé...
—Porquê, D. Garcia?
—Porque o Bastardo, depois de se aligeirar, junto da Ribeira, da
pionada e carriagem correra, com a mira em Coimbra, para se acolher
á
força da Hoste Real. N'essa noite, com o seu esfalfado bando
de lanças,
pernoitára certamente no solar de Landim. E com o luzir da
alva, para
encurtar, certamente retomava a galopada pelo velho caminho de
Miradães,
que trepa e foge atravez das lombas do Caramulo.
Ora elle, Garcia
Viegas, conhecia para deante do
Poço da Esquecida,
certo
passo, onde
poucos cavalleiros, e alguns bésteiros, bem postados por
entre o bravio,
apanhariam Lopo de Bayão como lobo em fojo...
Tructesindo, incerto e pensativo, mettia os dedos lentos pelos fios da
barba. O velho Castro duvidava, preferindo que se pozessse batalha ao
Bastardo em campo bem liso onde se avantajassem tantas
lanças já
aprestadas, que depois correriam em alegre levada a assolar as terras
de
Bayão. Então Garcia Viegas rogou aos seus primos
d'Hespanha e de
Portugal que sahissem ao terreiro, deante da tenda, com fartura de
tochas para bem se allumiarem. E ahi, no meio dos cavalleiros curiosos,
á claridade dos lumes inclinados, D. Garcia vergou o joelho,
riscou
sobre a terra, com a ponta d'uma adaga, o roteiro da
sua
caçada para
lhe comprovar a belleza... D'além castello Landim, largaria
com a alva o
Bastardo. Por aqui, quando a lua nascesse, abalariam elles, com vinte
cavalleiros dos Ramires e dos Castros, para que lidadores d'ambas as
mesnadas gosassem a lide. Além, se postariam, alapados no
mattagal,
besteiros e peões de frecha. Por traz, d'este lado, para
entaipar o
Bastardo, o senhor D. Pedro de Castro, se com tão gostosa
ajuda elle
honrasse o Senhor de Santa Ireneia. Adiante, acolá, para
colher pela
gorja
o
villão, o Snr. D. Tructesindo que era o pae e Deus
mandava fosse
o vingador. E alli, na estreitura o derrubariam e o sangrariam como um
porco—e como o sangue era vil, a um tiro de bésta
encontrariam agua
farta para lavar as mãos, a agoa do
pégo
das
Bichas!...
—Famosa traça! murmurou Tructesindo convencido.
E D. Pedro de Castro bradou atirando um faiscante olhar aos Cavalleiros
d'Hespanha:
—Vida de Christo, que se meu tio-avô Gutierres tivera por
Coudel aqui o
snr. D. Garcia, não lhe escapavam os de Lara quando levaram
o Rei
Menino, na grande carreira, para Santo Estevam de Gurivaz!... Entendido
pois, primo e amigo! E a cavallo, para a monteria, mal reponte a lua!
E recolheram as tendas—que já nas fogueiras lourejavam os
cabritos da
ceia, e os uchões acarretavam, d'entre os carros da sarga,
os pesados
odres de vinho de Tordesillas.
Com a ceia no arraial (grave e sem ruido, por que um luto velava o
coração dos hospedes) Gonçalo
terminou, n'essa noute, o seu capitulo IV,
lançando á margem outra nota:—«Meia
noite... Dia cheio. Batalhei,
trabalhei.—». Depois no seu quarto, em quanto se despia,
traçou todo o
alvoroto da briga curta em que o Bastardo como lobo em fojo quedaria
captivo,
á mercê vingadora dos de Santa Ireneia...
Mas de manhã, antes
d'almoço, ao abancar com gosto para o trabalho—recebeu dous
telegrammas, que o desviaram deliciosamente da correria contra o
Bastardo de Bayão.
Eram dois telegrammas d'Oliveira, um do Barão das Marges,
outro do
capitão Mendonça—ambos com parabens ao Fidalgo
«por assim escapar de
tão terrivel espera, destroçando os
valentões de Nacejas.» O Barão das
Marges accrescentava:—«
Bravissimo! É
d'heroe!»
Gonçalo, enternecido, mostrou os telegrammas ao Bento. A
nova da sua
façanha, pois, já se espalhára,
impressionára Oliveira,
—Foi o Snr. José Barrôlo que contou! acudiu o
Bento. E o Snr. Dr. verá!
o Snr. Dr. verá... Até no Porto se vão
assombrar!
Ao bater meio dia, rompeu pelo corredor, com estrondo, o immenso
Titó,
acompanhado pelo João Gouveia que chegára na
vespera á tarde da Costa,
soubera da aventura na Assembleia, corria á Torre, como
amigo para o
abraço, antes de comparecer, como Auctoridade, para o auto.
Então
Gonçalo, ainda nos braços do Gouveia, pediu
generosamente, «que se não
procedesse contra os bandidos...» O Administrador recusou,
decidido e
secco, proclamando o principio da Ordem, e necessidade d'um escarmento
rijo, para que
Portugal não recuasse aos tempos barbaros do
João Brandão
de Midões. Elle e Titó almoçaram na
torre:—e Titó, á sobremesa, lembrou
galhofeiramente a conveniencia d'um brinde, e bramou elle o brinde,
comparando Gonçalo ao elefante, «sempre bom, que
tanto aguenta, e de
repente, zás, esmaga o mundo!»
Depois João Gouveia accendendo um grande charuto reclamou a
representação veridica da desordem, com os pulos,
os gritos, para elle
se compenetrar como auctoridade. Então atravez da varanda,
reviveu a
historia heroica, simulando com o chicote sobre o divan (que terminou
por esgaçar) os golpes que arremessára imitando
os tombos meio
desmaiados do valentão de Nacejas, quando já o
sangue o alagava. O
Administrador e o Titó visitaram na cavallariça a
egoa historica; e no
pateo, Gonçalo ainda lhes mostrou as duas polainas de couro
seccando ao
sol, lavadas do sangue que as salpicára.
Deante do portão João Gouveia bateu gravemente no
hombro do Fidalgo:
—Gonçalo, vossê deve apparecer esta noite na
Assembleia...
Appareceu—e foi acolhido como o vencedor d'uma batalha illustre. No
bilhar, por proposta do velho Ribas, flammejou um grande punche-—e o
Commendador Barros, afogueado, teimava que no domingo
se celebrasse em
S. Francisco um Te-Deum de graças, de que elle costearia as
despezas,
com orgulho, caramba! Á sahida, acompanhado pelo
Titó, pelo Gouveia,
pelo Manoel Duarte, por outros socios, encontraram o Videirinha—que
não
pertencia á Assembleia, mas rondava, esperando o Fidalgo
para lhe lançar
duas trovas do
Fado, improvisadas n'essa tarde,
em que o exaltava
acima dos outros Ramires, da Historia e da Lenda!
O rancho quedou no chafariz. O violão gemeu, com amor. E o
cantar do
Videirinha, elevado da alma, varou a muda ramagem das olaias:
Os Ramires d'outras eras
Venciam com grandes lanças,
Este vence com um chicote,
Vêde que estranhas
mudanças!
É que os Ramires famosos,
Da passada
geração,
Tinham a força nas armas
E este a tem no
coração!
A tão requebrado conceito—os amigos romperam em vivas a
Gonçalo, á Casa
de Ramires. E o Fidalgo recolhendo á Torre, commovido,
pensava:
—É curioso! Esta gente toda parece gostar de mim!...
Mas que emoção quando, de manhã cedo,
o Bento o acordou com um
telegramma de Lisboa!
Era
do Cavalleiro—que «soubera pelos
jornaes
attentado, lhe mandava enthusiastico abraço pela felicidade
e pela
valentia!» Gonçalo berrou, sentado na cama:
—Caramba! então os jornaes em Lisboa já fallam,
Bento! o caso anda
celebrado!
Certamente celebrado!—por que durante o delicioso dia, o
moço do
Telegrapho, esbaforido sobre a perna manca, não cessou
d'empurrar o
portão da Torre, com outros telegrammas, todos de Lisboa, da
Condessa de
Chellas; de Duarte Lourençal; dos Marquezes de
Cója
felicitando; da
tia Louredo com «parabens ao destemido sobrinho»;
da marqueza
d'Esposende «esperando que o caro primo tivesse agradecido a
Deus!»... E
o ultimo do Castanheiro, com
exclamações:—
Magnifico! Digno de
Tructesindo!—Gonçalo, pela livraria, erguia os
braços, estonteado:
—Santo nome de Deus! mas que terão dito os jornaes?
E, por entre os Telegrammas, accudiam os cavalheiros dos arredores, os
influentes,—o Dr. Alexandrino, aterrado, antevendo um regresso ao
Cabralismo; o velho Pacheco Valladares de Sá, que
não se espantára do
seu nobre primo, por que sangue de Ramires, como sangue de
Sás, sempre
ferve; o padre Vicente da Finta, que com os seus parabens, offereceu um
cestinho de cachos do seu famoso moscatel
tinto;
e por fim o Visconde
de
Rio-Manso, que agarrado a Gonçalo, soluçou, no
enternecimento quasi
ufano de que a briga assim rompesse, na estrada, quando «o
querido
amigo, o amigo da sua Rosa» se encaminhava para a
Varandinha. Gonçalo,
afogueado, banhado de riso, abraçava, recontava
pacientemente a façanha,
acompanhava até ao portão aquelles cavalheiros,
que ao montar as egoas,
ao entrar nas caleches, sorriam para a velha Torre, escura e rigida, na
doce claridade da tarde de Setembro, como saudando, depois do heroe, o
secular fundamento do seu heroismo.
E o Fidalgo, galgando as escadas para a livraria, de novo murmurava,
estonteado:
—Que terão dito os jornaes de Lisboa?
Nem dormiu, na anciedade de os devorar. Quando o Bento, em
alvoroço,
rompeu pelo quarto com o correio—Gonçalo saltou, arrojou o
lençol, como
se abafasse. E logo no
Seculo, soffregamente
percorrido, encontrou o
telegramma d'Oliveira, contando o assalto! os tiros disparados! a
immensa coragem do Fidalgo da Torre, que com um simples chicote... O
Bento quasi arrebatou o
Seculo das
mãos tremulas do
Fidalgo, para
correr á cosinha, bramar á Rosa a noticia
gloriosa!
De tarde, Gonçalo correu a Villa-Clara, á
Assembleia, para devorar os
outros jornaes de Lisboa,
os
do Porto. Todos contavam, todos
celebravam!
A
Gazeta do Porto, attribuindo o attentado a
Politica, ultrajava
furiosamente o Governo. O
Liberal Portuense,
porém,
relacionava «com
certas vinganças dos republicanos d'Oliveira, o pavoroso
attentado que
quasi causára a morte d'um dos maiores fidalgos de Portugal
e d'Hespanha
e d'um dos mais pujantes talentos da nova
geração!» Os jornaes de
Lisboa, glorificavam sobre tudo «a coragem explendida do Snr.
Gonçalo
Ramires.» E o mais ardente era a
Manhã,
n'um
verboso artigo (de certo
escripto pelo Castanheiro), recordando as heroicas
tradições da Casa
illustre, esboçando as bellezas do Castello de Santa Ireneia
e
terminando por affirmar que «agora, se esperava com redobrada
anciedade
a apparição da novella de Gonçalo
Ramires, fundada sobre um feito de seu
avô Tructesindo no seculo XII, e promettida para o primeiro
numero dos
Annaes de Litteratura e de Historia,
a nova Revista
do nosso querido
amigo Lucio Castanheiro, esse benemerito restaurador da Consciencia
heroica de Portugal!»—As mãos de
Gonçalo, ao desdobrar os jornaes,
tremiam. E o João Gouveia, tambem soffrego, devorando tambem
os artigos,
por sobre o hombro do Fidalgo, murmurava, impressionado:
—Vossê, Gonçalinho, vae ter uma
votação tremenda!
Depois n'essa noute, recolhendo á Torre, Gonçalo
encontrou uma carta que
o perturbou. Era de Maria de Mendonça, n'um papel perfumado,
com o mesmo
perfume que tão docemente espalhava D. Anna, pelo adro de
Santa Maria de
Craquêde:—«Só esta manhã
soubemos o grande perigo que passou, e ficamos
ambas muito commovidas. Mas ao mesmo tempo eu (e
não
só eu) muito
vaidosa da magnifica coragem do primo. É d'um verdadeiro
Ramires! Eu não
vou ahi abraçal-o (com risco de me comprometter e
fazer
invejas) por
que um dos meus pequenos, o Neco, anda muito constipado. Felizmente
não
é cousa de cuidado... Mas aqui todos, até os
pequenos, anciamos por vêr
o heroe, e não creio que houvesse nada d'extraordinario, nem
d'um lado
nem
d'outro, em que o primo por aqui apparecesse
além
d'amanhã (quinta
feira) pelas tres horas. Davamos um passeio na quinta, e até
se
merendava, á boa e velha moda dos nossos avós.
Está dito? Muitos
comprimentos,
muitos, da Annica, e o primo
creia-me,
etc.»—Gonçalo
sorriu, pensativamente, considerando a carta, recebendo o aroma. Nunca
a
prima Maria lhe empurrára, tão claramente, a D.
Anna para os braços... E
como D. Anna se deixava empurrar, prompta, e d'olhos cerrados... Ah, se
fosse somente para a alcova! Mas ai! era tambem para a Egreja. E de
novo
sentia aquelle vozeirão do
Titó,
nos degraus da
portinha verde com a lua
cheia por cima dos olmos negros: «Essa creatura teve um
amante, e tu
sabes que eu nunca minto?»
Então tomou lentamente a penna, respondeu a D. Maria
Mendonça:—«Querida
prima—Fiquei muito enternecido com o seu cuidado, e os seus
enthusiasmos. Não exaggeremos! Eu não fiz mais
que correr a chicote uns
valentões que me assaltaram a tiro. É
façanha facil para quem tenha,
como eu, um chicote excellente. Emquanto á visita
á
Feitosa, que me
seria tão agradavel, não a posso realisar com
fundo pezar meu, nem na
quinta-feira, nem mesmo por todo este mez... Ando occupadissimo com o
meu livro, a minha Eleição, a minha
mudança para Lisboa. A era dos
cuidados sérios soou severamente para mim,—cerrando a doce
era dos
passeios e dos sonhos. Peço que apresente á
Snr.
a D. Anna os meus
profundos respeitos. E com muitas amisades para si, e bons desejos pelo
restabelecimento d'esse querido Neco, espero me creia sempre seu
dedicado e grato primo, etc.»
Fechou vagarosamente a carta. E batendo o seu sinete d'armas sobre o
lacre verde, pensava:
—Assim aquelle maroto do Titó me rouba dusentos contos!...