Como para acolher Gonçalo mais dignamente, o portão grande, sempre cerrado, offerecia uma entrada triumphal com os dous pesados batentes escancarados. Elle atirou a egoa para o meio do pateo, bradando:

—Oh Joaquim! Oh Manoel! Eh lá! um de vossês!

O Joaquim surdiu da cavallariça, de mangas arregaçadas, com uma esponja na mão.

—Oh Joaquim, depressa! Apparelha o Rocilho, corre a um sitio na estrada de Ramilde, a que chamam a Grainha... Tive agora lá uma grande desordem! Creio que dei cabo de dous homens... Ficaram n'uma poça de sangue! Não digas que vaes da Torre, que te podem atacar! Mas sabe o que succedeu, se estão mortos... Depressa, depressa!

O Joaquim, estonteado, remergulhou na cavallariça escura. E de cima d'uma das varandas do corredor, partiram exclamações assombradas:

—Oh Gonçalo, o que foi?! santo Deus! o que foi?!

Era o Barrôlo. Sem desmontar, sem surpresa ante a apparição do Barrôlo, Gonçalo atirou logo para a varanda a historia da bulha, tumultuosamente. Um malandro que o insultára... Depois outro, que desfechou a caçadeira... E ambos derribados sob as patas da egoa, n'uma poça de sangue...

O Barrôlo despegou da varanda—e n'outro relance, investia pelo pateo, com os curtos braços a boiar, enfiado. Mas então? mas então?... E Gonçalo, desmontando, tremulo agora do cançasso e da emoção, esmiuçou mais lances... Na estrada de Ramilde! Um valentão que o injuriou! A esse rasgára a bôca, decepára a orelha... Depois o outro, um rapasola, desfecha uma carabina... Elle corre, tão vivamente o colhe com uma cutilada que o estira, para cima d'uma pedra, como morto...

—Uma cutilada?

—Com este chicote, Barrôlo! Arma terrivel!... Bem dizia o Titó!... Estou perdido se não levo este chicote.

Esgaseado, Barrôlo remirava o chicote. Sim, com effeito ainda manchado de sangue.—Então Gonçalo attentou no chicote, no sangue... Sangue de gente! sangue fresco, que elle arrancára!... E por entre o seu orgulho, uma piedade passou que o empallideceu:

—Que desgraça, vejam que desgraça!

Esquadrinhou vivamente o fato, as botas, no horror de nodoas de sangue, que o salpicassem. Sim, santo Deus! sangue na polaina!... E immediatamente anciou por se despir, se lavar,—galgou a escada, com o Barrôlo que enxugava o suor, balbuciava:—«Ora uma d'essas! E de repente! Assim na estrada!...» Mas no corredor, subindo n'uma carreira da cosinha, appareceu Gracinha, pallida, com a Rosa atraz, que enterrava os dedos entre o lenço e o cabello n'um pavor mudo.

—Que foi, Gonçalo? Jesus, que foi?!

Então, encontrando Gracinha junto d'elle, na Torre, n'esse momento magnifico do seu orgulho, depois de tão rijo perigo vencido, Gonçalo esqueceu o André, o Mirante, as sombrias humilhações, e no abraço em que a colheu, nos fortes beijos que atirou á face querida, todo o seu amuo se fundio em ternura. Com ella ainda chegada ao coração, suspirou de leve, como uma creança cançada. Depois apertando as duas pobres mãos tremulas, com um lento, enternecido sorriso, em quanto os olhos se lhe humedeciam de confusa emoção, de confusa alegria:

—Pois foi o diabo, filha! Uma desordem horrivel, eu que sou tão pacato! imagina tu...

E pelo corredor recomeçou para Gracinha, que arfava, e para a Rosa, estarrecida, a historia do encontro, e o sujo ultrage, o tiro que falhára e os malandros lacerados a chicote, e o velho marchando como um captivo, a gemer pela estrada de Ramilde. Apertando o peito, n'um desmaio, Gracinha murmurou:

—Ai, Gonçalo! E se um dos homens estivesse morto!

O Barrôlo, mais vermelho que uma pionia, berrou logo que taes malandros mereciam ricamente a morte! E mesmo feridos, ainda necessitavam castigo tremendo d'Africa! O Gouveia! era necessario mandar a Villa-Clara, avisar o Gouveia!... Mas largas passadas ávidas abalaram o soalho—e foi o Bento, que se ergueu deante de Gonçalo, bracejando n'uma ancia:

—Então, Snr. Doutor?... Diz que uma grande desordem!...

E á porta do escriptorio, onde todos pararam, novamente attentos, a historia recomeçou, especialmente para o Bento, que a bebia, n'um lento riso de gosto, crescendo, inchando, com os olhinhos humidos a reluzir, como se tambem triumphasse. Por fim, triumphou, com estrondo:

—Foi o chicote, Snr. Doutor! O que serviu ao Snr. Doutor, foi o chicote que eu lhe dei!

Era verdade. E Gonçalo, commovido, abraçou o velho aio, que n'uma excitação, gritava para a Rosa, para Gracinha, para o Barrôlo:

—O Snr. Doutor deu cabo d'elles!... Aquelle chicote mata um homem!... Os malvados estão mortos!... E foi o chicote! Foi o chicote que eu dei ao Snr. Doutor!

Mas Gonçalo reclamava agua quente para se lavar da poeira, do suor, do sangue... E o Bento correu, berrando ainda pelo corredor! depois pelas escadas da cosinha—«que fôra o chicote! o chicote, que elle déra ao Snr. Doutor!» Gonçalo entrára no quarto, acompanhado pelo Barrôlo. E pousou o chapeu sobre o marmore da commoda, com um immenso ah consolado! Era o consolo immenso de se encontrar, depois de tão violenta manhã, entre as doces cousas costumadas, pisando o seu velho tapete azul, roçando o leito de pau preto em que nascera, respirando pelas vidraças abertas, onde as ramagens familiares das faias s'empurravam na aragem para o saudar. Com que gosto se acercou do espelho de columnas douradas, se mirou e se remirou, como a um Gonçalo novo e tão melhorado, que nos hombros reconhecia mais largueza, e até no bigode um arquear mais crespo.

E foi ao arredar do espelho, topando com o Barrôlo, que subitamente despertou n'uma curiosidade immensa:

—Mas, oh Barrôlo, como é que vos encontro esta manhã na Torre?

Resolução da vespera, ao chá. Gonçalo não apparecia, não escrevia... Gracinha a matutar, inquieta. Elle tambem espantado d'aquelle sumiço depois do cesto dos pêcegos. De modo que ao chá, pensando tambem que a parelha necessitava uma trotada, lembrára a Gracinha:—«Vamos nós amanhã á Torre? no phaeton?»

—Além disso precisava fallar comtigo, Gonçalo... Tenho andado aborrecido.

O Fidalgo juntou duas almofadas no divan, onde se enterrou:

—Como aborrecido?... Aborrecido por que?...

Barrôlo, com as mãos nos bolsos da rabona de flanella, que lhe cingia as ancas gordas, considerou as flôres do tapete, melancolicamente:

—É uma grande secca! A gente não póde confiar em ninguem... Nem ter familiaridades!...

N'um lampejo Gonçalo imaginou o Cavalleiro e Gracinha mostrando estouvadamente nos Cunhaes, como outr'ora entre os arvoredos da Torre, o sentimento que os dominava. E presentiu um desabafo, alguma queixa triste do pobre Barrôlo, amargurado por suspeitas, talvez por intimidades que espreitára. Mas a emoção suprema da sua batalha, sumira para uma sombra inferior os cuidados que, ainda na vespera, o opprimiam: todas as difficuldades da vida lhe appareciam agora, de repente, n'aquelle frescor da sua coragem nova, tão faceis d'abater como os desafios dos valentões; e não se assustou com as confidencias do cunhado, bem seguro d'impôr áquella alma submissa de bacôco a confiança e a quietação. Até sorriu, com indolencia:

—Então, Barrolinho? Succedeu alguma peripecia?

—Recebi uma carta.

—Ah!

Gravemente Barrôlo desabotoou o jaquetão, puxou do bolso interior uma larga carteira, de couro verde e lustroso, com monogramma d'ouro. E foi a carteira que elle mostrou a Gonçalo, com satisfação.

—Bonita, hein? Presente do André, coitado... Creio que até a mandou vir de Paris. O monogramma tem muito chic.

Gonçalo esperava, espantado. Emfim o bom Barrôlo tirou da carteira uma carta—já amarrotada, depois alisada. Era, n'um papel pautado, uma lettra miudinha que o Fidalgo apenas relanceou, declarando logo com segurança:

—É das Louzadas.

E leu, vagarosamente, serenamente, com o cotovello enterrado na almofada: «Ex.mo Snr. José Barrôlo.—V. Ex.a apesar de todos os seus amigos o alcunharem de Zé bacôco, mostrou agora muita espertesa, chamando de novo para a sua intimidade e de sua digna esposa o gentil André Cavalleiro, nosso Governador Civil. Com effeito a esposa de V. Ex.a, a linda Gracinha, que n'estes ultimos tempos andava tão murcha e até desbotada (o que a todos nos inquietava) immediatamente reflorio, e ganhou côres, desde que possue a valiosa companhia da primeira auctoridade do districto. Portou-se pois V. Ex.a como marido zeloso, e desejoso da felicidade e boa saude de sua interessante esposa. Nem parece rasgo d'aquelle que toda a Oliveira considera como o seu mais illustre pateta! Os nossos sinceros parabens!»

Gonçalo guardou muito socegadamente na algibeira aquella carta que, dias antes, o lançaria em infinita amargura e furia:

—É das Louzadas... E tu déste importancia a semelhante babuseira?

O Barrôlo repontou, com as bochechas abrazadas:

—Se te parece! Sempre embirrei com bilhetinhos anonymos... E depois essa insolencia a respeito dos amigos me chamarem Bacôco... Grande infamia, hein? Tu acreditas?... Eu não acredito! mas lança sizania entre mim e os rapazes... Nem voltei ao Club... Bacôco! Porquê? Por que eu sou simples, sempre franco, disposto a arranchar... Não! se os rapazes no Club me chamam bacôco pelas costas, caramba, mostram ingratidão! Mas eu não acredito! Rebolou pelo quarto, desconsoladamente, as mãos cruzadas sobre as gordas nadegas. Depois, estacando deante do divan, d'onde Gonçalo o considerava, com piedade:

—Em quanto ao resto da carta é tão estupido, tão atrapalhado que ao principio nem comprehendi. Agora percebo... Querem dizer que a Gracinha e o Cavalleiro teem namoro... É o que me parece que querem dizer! Ora vê tu que disparate! Até a intimidade do Cavalleiro é mentira. O pobre rapaz, desde que lá jantou, só appareceu tres ou quatro vezes, á noite, para a manilha, com o Mendonça... E agora abalou para Lisboa.

Então o Fidalgo pulou, de surpresa.

—O quê! o Cavalleiro foi para Lisboa?

—Pois partiu ha tres dias!

—Com demora?

—Com demora, com grande demora... Só volta no meado d'outubro para a Eleição.

—Ah!

Mas o Bento rompeu pelo quarto, com o jarro d'agua quente, duas toalhas de rendas, ainda n'uma excitação que o azafamava. Deante do espelho, lentamente Barrôlo reabotoava o jaquetão:

—Bem, até logo, Gonçalinho. Eu desço á cavallariça, visitar a parelha. Não imaginas! desde Oliveira, sem descanso, uma trotada explendida. E nem um pello suado! Tu guardas a carta?

—Guardo, para estudar a lettra.

Apenas Barrôlo cerrára a porta—o Fidalgo recomeçou com o Bento a deliciosa historia da briga, revivendo as surprezas e os rasgos, simulando os arremessos da egoa, arrebatando o chicote para representar as cutiladas silvantes, que arrancavam febra e sangue... E de repente, em ceroulas:

—Oh Bento, traze o meu chapeu... Estou desconfiado que a bala roçou pelo chapeu.

Ambos remiraram, esquadrinharam o chapeu. O Bento, no seu encarecimento da façanha, achava a copa amolgada—até chamuscada.

—A bala passou de raspão, Snr. Doutor!

O Fidalgo negou, com a modestia grave d'um forte:

—Não! Nem de raspão!... Quando o malandro desfechou já o braço lhe tremia... Devemos agradecer a Deus, Bento. Mas eu realmente não corri grande perigo!

Depois de vestido, Gonçalo, passeando no quarto, releu a carta. Sim, certamente das Lousadas. Mas agora essa maledicencia, soprada com tão sordida maldade sobre as pobres bochechas do Barrôlo, não causava damno—antes servia, quasi beneficamente, como a braza d'um ferro, para sarar um damno. O pobre Barrôlo apenas se impressionára com a revelação da sua bacoquice, essa ingrata alcunha posta pelos rapazes amigos, em galhofas ingratas do Club e debaixo dos Arcos. A outra insinuação terrivel, Gracinha reverdecendo ao calor amoroso do Cavalleiro, essa mal a comprehendera, escassamente a attendera n'um desdem distrahido e candido. Mas a carta que assim silvava por sobre o bom Barrôlo como flecha errada—acertava em Gracinha, feriria Gracinha no seu orgulho, no seu impressional pudor, mostrando á pobre tonta como o seu nome e mesmo o seu coração, já arrastavam enxovalhadamente, pela rasteira mexeriquice das Lousadas!... Certesa tão humilhadora não apagaria um sentimento—que se não apagava com humilhações mais intimas, tanto mais dolorosas. Mas estimularia a sua reserva e o seu desconfiado recato:—e agora que André se afastára para Lisboa, operaria n'ella, surdamente, solitariamente, sem que a presença tentadora lhe desmanchasse a influencia socegadora e salutar. Assim o torpe papel aproveitava a Gracinha como um aviso temeroso pregado na parede. E rancorosamente preparada pelas duas femeas para desencadear nos Cunhaes escandalo e dôr—talvez restabelecesse, na ameaçada casa, quietação e gravidade.—Gonçalo esfregou as mãos pensando—que em tão ditosa manhã talvez até esse mal redundasse em bem!

—Oh Bento, onde está a Snr.a D. Graça?

—A menina subiu agora ha pouco para o seu quarto, Snr. Doutor.

Era o seu quarto de solteira, claro e fresco sobre o pomar, onde ainda se conservava o seu leito de linda madeira embutida, um toucador illustre que pertencera á Rainha D. Maria Francisca de Saboya, e o sophá, as cadeiras de casimira clara em que Gracinha bordára, n'um arrastado labor d'annos, o Açor negro dos Ramires. E sempre que voltava á Torre Gracinha gostava de reviver no seu quarto, as horas de solteira, remexendo as gavetas, folheando velhos romances inglezes na estantesinha envidraçada, ou simplesmente da varanda contemplando a querida quinta estendida até aos outeiros de Valverde, a verde quinta, tão misturada á sua vida que cada arvore lhe susurrava, cada recanto de verdura era como um recanto do seu pensamento.

Gonçalo subiu—bateu á porta cerrada com o antigo aviso:—«Licença para o mano!» Ella correu da varanda, onde regava nos seus antigos vasos vidrados plantas sempre renovadas e cuidadas pela Rosa com carinho. E desabafando logo do pensamento que a enchia:

—Oh Gonçalo! mas que felicidade nós virmos á Torre, justamente hoje, que te succedeu cousa tamanha!

—É verdade, Gracinha, grande sorte! E não me admirei nada de te vêr... Era como se ainda vivesses na Torre e te encontrasse no corredor... Quem estranhei foi o Barrôlo! E no primeiro momento depois de desmontar, pensava assim, vagamente: «mas que diabo faz aqui o Barrôlo? como diabo se acha aqui o Barrôlo?...» Curioso, hein? Foi talvez que, depois da desordem, me senti remoçado, com um sangue novo, e me julguei no tempo em que desejavamos uma guerra em Portugal, e nós cercados na Torre, sob o nosso pendão, o nosso terço atirando bombardas aos hespanhoes...

Ella ria, lembrada dessas imaginações heroicas. E com o vestido entalado entre os joelhos recomeçou a lenta rega dos seus vasos—em quanto Gonçalo, encostado á varanda, considerando a Torre, retomado pela ideia d'uma concordancia mais intima, que desde essa manhã se estabelecera entre elle e aquelle heroico resto da Honra de Santa Ireneia, como se a sua força, tanto tempo quebrada, se soldasse emfim firmemente á força secular da sua raça.

—Oh Gonçalo! tu deves estar muito cançado! Depois d'essa verdadeira batalha...

—Não, cançado não... Mas com fome. Com fome, e com uma sêde explendida!

Ella pousou logo o regador, sacudindo as mãos alegremente:

—Pois o almoço não tarda!... Já andei a trabalhar na cosinha, com a Rosa, n'uma pescada á hespanhola... É uma receita nova do Barão das Marges.

—Então insonsa, como elle.

—Não! até picante: foi o Snr. Vigario Geral que lh'a ensinou.

E como, deante do toucador da Rainha Maria Francisca, ella arranjava á pressa os ganchos do cabello, para aproveitar a solidão favoravel, apressou com um esforço, a confidencia que o commovia:

—E em Oliveira? Lá por Oliveira!

—Em Oliveira, nada... Muito calor!

Gonçalo, movendo os dedos lentos pela moldura do espelho, fino entrelaçamento de açucenas e louros, murmurou:

—Eu sei apenas das Lousadas, das tuas amigas Lousadas. Continuam em plena actividade...

Gracinha negou candidamente:

—As Lousadas? Não! Nem teem apparecido.

—Mas teem tecido!

E como os verdes olhos de Gracinha se alargaram, sem comprehender, Gonçalo arrancou vivamente da algibeira a carta que guardára, que agora lhe pesava, como uma chapa de ferro:

—Olha, Gracinha! Mais vale desabafarmos! Ahi tens o que ellas ha dias escreveram a teu marido...

N'um relance, Gracinha devorou as linhas terriveis. E com ondas de sangue nas faces, apertando as mãos n'uma afflicção, um desespero, em que o papel amarfanhou:

—Oh Gonçalo! pois...

Gonçalo accudio:

—Não! o Barrôlo não se importou! Até se rio! E eu tambem, quando elle me entregou esse papelucho... E a prova que ambos o consideramos uma mexeriquice insensata, é que eu t'o mostro tão francamente.

Ella esmagava a carta nas mãos juntas e tremulas, pallida agora e emmudecida pelo espanto, retendo grandes lagrimas que rebrilhavam. E Gonçalo commovido, com gravidade, com ternura:

—Mas tu, Gracinha, sabes o que são terras pequenas. Sobre tudo Oliveira! Precisas muito cuidado, muita reserva... Ai de mim! De mim vem a culpa. Reatei relações que nunca se deviam reatar... Bem me tenho arrependido! E acredita! por causa d'essa situação tão falsa e tão perigosa, que eu creei, levianamente, por ambição tola, passei aqui na Torre dias amargurados... Até nem m'atrevia voltar a Oliveira. Hoje, não sei porquê, depois d'esta aventura, parece que tudo se esbateu, s'afundou para uma grande sombra... Emfim já não me arde tão em braza no coração... Por isso desabafo assim, serenamente.

Ella desatou n'um solto, doloroso choro em que a sua fraca alma se desfazia. Com redobrada ternura Gonçalo abraçou os pobres hombros vergados que os soluços espedaçavam. E foi com ella toda refugiada no seu peito, que ainda a aconselhou, docemente:

—Gracinha, o passado morreu, e todos precisamos, para honra de todos, que continue morto. Pelo menos que por fóra, em cada gesto teu, pareça bem morto! Sou eu que t'o peço, pelo nosso nome!...

D'entre os braços do irmão, ella gemeu com infinita humildade:

—Mas elle até foi embora!... Nem quiz estar mais em Oliveira!

Gonçalo acariciou a acabrunhada cabeça que de novo se escondera contra o seu peito, contra elle se apertava, como procurando a fresca misericordiosa que dentro sentia brotar:

—Bem sei. E isso me mostra que tens sido forte... Mas precisas muita reserva, muita vigilancia, Gracinha!... E agora socega. Não fallemos mais, nunca mais, n'este incidente... Por que foi apenas um incidente. E que eu provoquei, ai de mim, por leviandade, por illusão. Passou, está esquecido! Socega, descança. E quando desceres traze os olhos bem seccos.

Lentamente a desprendera dos braços, onde ella se arraigava como ao abrigo mais certo e á consolação mais desejada. E sahia, engasgado pela emoção, recalcando tambem as lagrimas... Um gemido timido, supplicante, ainda o reteve.

—Gonçalo! mas tu pensas...

Elle voltou, de novo a abraçou, a beijou na testa lentamente:

—Eu penso que tu, agora bem avisada, bem aconselhada, vaes mostrar muita dignidade, muita firmeza.

Rapidamente abalou, cerrou a porta. E na escada estreita, escassamente allumiada por uma claraboia baça, limpava as palpebras, quando esbarrou com o Barrôlo, que procurava Gracinha, para apressar o almoço.

—A Gracinha já desce! atabalhoou o Fidalgo. Está a lavar as mãos! Já desce!... Mas antes do almoço vamos á cavallariça. Devemos uma visita á egoa, a essa querida egoa que me salvou!

—É verdade, caramba! concordou logo Barrôlo revirando nos degraus, com enthusiasmo. Precisamos visitar a egoa... Grande, briosa, hein! Mas aposto que ficou mais suada que as minhas... Imagina! uma trotada d'aquellas, desde Oliveira, e nem um pello molhado! Grandes egoas! Tambem, o que eu as ólho, o que as trato!

Na cavallariça, ambos affagaram a egoa. Barrôlo lembrou que se mimoseasse com uma ração larga de cenoura. Depois—para que Gracinha, com vagar se calmasse,—o Fidalgo arrastou o Barrôlo ao pomar e á horta...

—Tu não vens á Torre ha perto de seis mezes, Barrolinho! Precisas vêr, admirar progressos. Anda agora por aqui a mão forte do Pereira da Riosa...

—Imagino! grande homem, o Pereira! Mas eu tenho uma fome, Gonçalinho!

—Tambem eu!

Uma hora batia quando entraram na varanda onde a mesa esperava, florida e em festa—e Gracinha, á beira do divan, percorria pensativamente a velha Gazeta do Porto. Apesar de muito banhados, os seus bellos olhos conservavam um ardor: e para o justificar, e o seu modo abatido, logo se lastimou, córando, d'uma enxaqueca. Eram as emoções, o perigo de Gonçalo...

—Tambem eu tenho dôr de cabeça! declarou o Barrôlo, rondando a mesa. Mas a minha vem da fome... Oh filhos, é que estou desde as sete da manhã com uma chavena de café e um ovo quente!

Gonçalo repicou a campainha. Mas quem rompeu pela porta envidraçada, esbaforido, escancarando a bocca n'um riso immenso, foi o Joaquim, o moço da cavallariça que voltava da Grainha.

Gonçalo atirou os braços, soffrego:

—Então?! então?!

—Pois lá estive, meu Fidalgo! exclamou o Joaquim com o peito a estalar d'importancia. E vae por lá um povoleu, todos já sabem! Uma rapariga dos Bravaes espreitou tudo, de dentro do quinteiro... Depois correu, badalou... Mas o velho, o tal Domingues que mora na casa, e o filho, abalaram ambos. E o rapaz, ao que dizem, pouco ferido. Se cahio, sem sentidos, foi com o susto. O Ernesto de Nacejas, esse sim, santo nome de Deus, apanhou. Lá o levaram em braços para casa d'um compadre alli ao pé, na Arribada. Parece que fica sem orelha, e que fica sem bocca!... Pois por todos aquelles sitios era o ai-jesus das moças!... E logo lá o carregam para o Hospital de Villa Clara, que na casa do Compadre não pode sarar. Um povoleu, e todos dão a rasão ao Fidalgo. O tal Domingues era malandro. E o Ernesto, esse ninguem o podia enxergar! Mas todos lhe tinham medo... O Fidalgo fez uma limpeza!

Gonçalo resplandecia. Ah! Ainda bem! que não passára damno mais forte, que belleza perdida do D. Juan de Nacejas!

—E então o povo por lá, a fallar, a olhar para o sitio?

—Pois o povo não se arreda! E a mostrar o sangue, no chão, e as pedras por onde se atirou a egoa do Fidalgo... E agora até contam que foi uma espera, e que desfecharam tres tiros ao Fidalgo, e que depois adiante no pinhal ainda saltaram tres homens mascarados que o Fidalgo escangalhou...

—Eis a lenda que se forma! declarou Gonçalo.

O Bento apparecera com uma larga travessa fumegante. O Fidalgo affagou risonhamente o hombro do Joaquim. E em baixo a Rosa que abrisse, para o almoço da familia, duas garrafas de vinho do Porto, velho. Depois com a mão nas costas da cadeira murmurou gravemente:—Pensemos um momento em Deus, que me tirou hoje d'um grande perigo!

Barrôlo pendeu a cabeça, reverente. Gracinha, atravez d'um leve suspiro, pensou uma leve oração. E desdobravam os guardanapos; Gonçalo acclamava a travessa de pescada á hespanhola—quando o pequeno da Crispola empurrou ainda a porta envidraçada «com um telegramma, que viera da Villa!» Uma inquietação deteve os garfos. A manhã correra com tantas agitações e espantos! Mas já um sorriso de gosto, de triumpho, se espalhára na fina face de Gonçalo:

—Não é nada... É do Castanheiro, por causa dos capitulos do Romance que eu lhe mandei... Coitado! Bom rapaz!

E, recostado na cadeira, recitou vagarosamente o telegramma, que os seus olhos affagavam:—«Capitulos romance recebidos. Leitura feita amigos. Enthusiasmo! Verdadeira obra prima! Abraço!...»

Barrôlo, com a bocca cheia, bateu as palmas. E Gonçalo, sem reparar na travessa da pescada que Bento lhe apresentava, mas enchendo o copo de vinho verde, com uma vaga tremura, um sorriso ditoso que não se dissipava:

—Emfim, boa manhã... Grande manhã!

Gonçalo, apesar das insistencias de Gracinha e do Barrôlo, não os acompanhou para Oliveira—no desejo de acabar, durante essa semana, o derradeiro Capitulo da Novella, e depois cerrar o preguiçoso giro de visitas aos influentes Eleitoraes do Circulo. Assim rematava a Obra d'Arte e a obra de Politica,—e cumpria, Deus louvado, a tarefa d'esse verão fecundo!

Logo n'essa noite retomou o manuscripto da Novella—e na margem larga lançou a data, uma nota:—«Hoje, na freguesia da Grainha, tive uma briga terrivel com dous homens que me assaltaram a pau e tiro, e que castiguei severamente...» Depois, com facilidade atacou o lance de tanto sabor medieval, em que Tructesindo Ramires, correndo no rasto do Bastardo, penetrava, ao espalhado e fumarento clarão dos archotes, no arraial de D. Pedro de Castro.

Com grave amisade acolhia o velho homem de guerra aquelle seu primo de Portugal, que lhe trouxera a sua forte mesnada, de Santa Ireneia, quando os Castros combateram um grande poder de Mouros em Enxarez de Sandornin. Depois, na vasta tenda, reluzente d'armas, tapizada de pelles de leão e d'urso, Tructesindo contava, ainda a arfar de dôr represa, a morte de seu filho Lourenço, ferido na lide de Canta-Pedra, acabado á punhalada pelo Bastardo de Bayão, deante das muralhas de Santa Ireneia, com o sol no ceu alto a olhar a traição! Indignado, o velho Castro esmurraçou a mesa, onde um rosario d'ouro se misturava a grossas peças de xadrez; jurou pela vida de Christo, que, em sessenta annos d'armas e surpresas nunca soubera de feito mais vil! E agarrando a mão do senhor de Santa Ireneia, ardentemente lhe offereceu, para a empreza da santa vingança, a sua hoste inteira—tresentas e trinta lanças, vasta e rija peonagem.

—Por Santa Maria! Formosa arrancada! bradou Mendo de Briteiros com as vermelhas barbas a flammejar de gosto.

Mas D. Garcia Viegas, o Sabedor, entendia que para colherem o Bastardo vivo, como convinha a uma vingança vagarosa e bem gosada, mais utilmente serviria uma calada e curta fila de cavalleiros, com alguns homens de pé...

—Porquê, D. Garcia?

—Porque o Bastardo, depois de se aligeirar, junto da Ribeira, da pionada e carriagem correra, com a mira em Coimbra, para se acolher á força da Hoste Real. N'essa noite, com o seu esfalfado bando de lanças, pernoitára certamente no solar de Landim. E com o luzir da alva, para encurtar, certamente retomava a galopada pelo velho caminho de Miradães, que trepa e foge atravez das lombas do Caramulo. Ora elle, Garcia Viegas, conhecia para deante do Poço da Esquecida, certo passo, onde poucos cavalleiros, e alguns bésteiros, bem postados por entre o bravio, apanhariam Lopo de Bayão como lobo em fojo...

Tructesindo, incerto e pensativo, mettia os dedos lentos pelos fios da barba. O velho Castro duvidava, preferindo que se pozessse batalha ao Bastardo em campo bem liso onde se avantajassem tantas lanças já aprestadas, que depois correriam em alegre levada a assolar as terras de Bayão. Então Garcia Viegas rogou aos seus primos d'Hespanha e de Portugal que sahissem ao terreiro, deante da tenda, com fartura de tochas para bem se allumiarem. E ahi, no meio dos cavalleiros curiosos, á claridade dos lumes inclinados, D. Garcia vergou o joelho, riscou sobre a terra, com a ponta d'uma adaga, o roteiro da sua caçada para lhe comprovar a belleza... D'além castello Landim, largaria com a alva o Bastardo. Por aqui, quando a lua nascesse, abalariam elles, com vinte cavalleiros dos Ramires e dos Castros, para que lidadores d'ambas as mesnadas gosassem a lide. Além, se postariam, alapados no mattagal, besteiros e peões de frecha. Por traz, d'este lado, para entaipar o Bastardo, o senhor D. Pedro de Castro, se com tão gostosa ajuda elle honrasse o Senhor de Santa Ireneia. Adiante, acolá, para colher pela gorja o villão, o Snr. D. Tructesindo que era o pae e Deus mandava fosse o vingador. E alli, na estreitura o derrubariam e o sangrariam como um porco—e como o sangue era vil, a um tiro de bésta encontrariam agua farta para lavar as mãos, a agoa do pégo das Bichas!...

—Famosa traça! murmurou Tructesindo convencido.

E D. Pedro de Castro bradou atirando um faiscante olhar aos Cavalleiros d'Hespanha:

—Vida de Christo, que se meu tio-avô Gutierres tivera por Coudel aqui o snr. D. Garcia, não lhe escapavam os de Lara quando levaram o Rei Menino, na grande carreira, para Santo Estevam de Gurivaz!... Entendido pois, primo e amigo! E a cavallo, para a monteria, mal reponte a lua!

E recolheram as tendas—que já nas fogueiras lourejavam os cabritos da ceia, e os uchões acarretavam, d'entre os carros da sarga, os pesados odres de vinho de Tordesillas.

Com a ceia no arraial (grave e sem ruido, por que um luto velava o coração dos hospedes) Gonçalo terminou, n'essa noute, o seu capitulo IV, lançando á margem outra nota:—«Meia noite... Dia cheio. Batalhei, trabalhei.—». Depois no seu quarto, em quanto se despia, traçou todo o alvoroto da briga curta em que o Bastardo como lobo em fojo quedaria captivo, á mercê vingadora dos de Santa Ireneia... Mas de manhã, antes d'almoço, ao abancar com gosto para o trabalho—recebeu dous telegrammas, que o desviaram deliciosamente da correria contra o Bastardo de Bayão.

Eram dois telegrammas d'Oliveira, um do Barão das Marges, outro do capitão Mendonça—ambos com parabens ao Fidalgo «por assim escapar de tão terrivel espera, destroçando os valentões de Nacejas.» O Barão das Marges accrescentava:—«Bravissimo! É d'heroe!»

Gonçalo, enternecido, mostrou os telegrammas ao Bento. A nova da sua façanha, pois, já se espalhára, impressionára Oliveira,

—Foi o Snr. José Barrôlo que contou! acudiu o Bento. E o Snr. Dr. verá! o Snr. Dr. verá... Até no Porto se vão assombrar!

Ao bater meio dia, rompeu pelo corredor, com estrondo, o immenso Titó, acompanhado pelo João Gouveia que chegára na vespera á tarde da Costa, soubera da aventura na Assembleia, corria á Torre, como amigo para o abraço, antes de comparecer, como Auctoridade, para o auto. Então Gonçalo, ainda nos braços do Gouveia, pediu generosamente, «que se não procedesse contra os bandidos...» O Administrador recusou, decidido e secco, proclamando o principio da Ordem, e necessidade d'um escarmento rijo, para que Portugal não recuasse aos tempos barbaros do João Brandão de Midões. Elle e Titó almoçaram na torre:—e Titó, á sobremesa, lembrou galhofeiramente a conveniencia d'um brinde, e bramou elle o brinde, comparando Gonçalo ao elefante, «sempre bom, que tanto aguenta, e de repente, zás, esmaga o mundo!»

Depois João Gouveia accendendo um grande charuto reclamou a representação veridica da desordem, com os pulos, os gritos, para elle se compenetrar como auctoridade. Então atravez da varanda, reviveu a historia heroica, simulando com o chicote sobre o divan (que terminou por esgaçar) os golpes que arremessára imitando os tombos meio desmaiados do valentão de Nacejas, quando já o sangue o alagava. O Administrador e o Titó visitaram na cavallariça a egoa historica; e no pateo, Gonçalo ainda lhes mostrou as duas polainas de couro seccando ao sol, lavadas do sangue que as salpicára.

Deante do portão João Gouveia bateu gravemente no hombro do Fidalgo:

—Gonçalo, vossê deve apparecer esta noite na Assembleia...

Appareceu—e foi acolhido como o vencedor d'uma batalha illustre. No bilhar, por proposta do velho Ribas, flammejou um grande punche-—e o Commendador Barros, afogueado, teimava que no domingo se celebrasse em S. Francisco um Te-Deum de graças, de que elle costearia as despezas, com orgulho, caramba! Á sahida, acompanhado pelo Titó, pelo Gouveia, pelo Manoel Duarte, por outros socios, encontraram o Videirinha—que não pertencia á Assembleia, mas rondava, esperando o Fidalgo para lhe lançar duas trovas do Fado, improvisadas n'essa tarde, em que o exaltava acima dos outros Ramires, da Historia e da Lenda!

O rancho quedou no chafariz. O violão gemeu, com amor. E o cantar do Videirinha, elevado da alma, varou a muda ramagem das olaias:

Os Ramires d'outras eras
Venciam com grandes lanças,
Este vence com um chicote,
Vêde que estranhas mudanças!

É que os Ramires famosos,
Da passada geração,
Tinham a força nas armas
E este a tem no coração!

A tão requebrado conceito—os amigos romperam em vivas a Gonçalo, á Casa de Ramires. E o Fidalgo recolhendo á Torre, commovido, pensava:

—É curioso! Esta gente toda parece gostar de mim!...

Mas que emoção quando, de manhã cedo, o Bento o acordou com um telegramma de Lisboa! Era do Cavalleiro—que «soubera pelos jornaes attentado, lhe mandava enthusiastico abraço pela felicidade e pela valentia!» Gonçalo berrou, sentado na cama:

—Caramba! então os jornaes em Lisboa já fallam, Bento! o caso anda celebrado!

Certamente celebrado!—por que durante o delicioso dia, o moço do Telegrapho, esbaforido sobre a perna manca, não cessou d'empurrar o portão da Torre, com outros telegrammas, todos de Lisboa, da Condessa de Chellas; de Duarte Lourençal; dos Marquezes de Cója felicitando; da tia Louredo com «parabens ao destemido sobrinho»; da marqueza d'Esposende «esperando que o caro primo tivesse agradecido a Deus!»... E o ultimo do Castanheiro, com exclamações:—Magnifico! Digno de Tructesindo!—Gonçalo, pela livraria, erguia os braços, estonteado:

—Santo nome de Deus! mas que terão dito os jornaes?

E, por entre os Telegrammas, accudiam os cavalheiros dos arredores, os influentes,—o Dr. Alexandrino, aterrado, antevendo um regresso ao Cabralismo; o velho Pacheco Valladares de Sá, que não se espantára do seu nobre primo, por que sangue de Ramires, como sangue de Sás, sempre ferve; o padre Vicente da Finta, que com os seus parabens, offereceu um cestinho de cachos do seu famoso moscatel tinto; e por fim o Visconde de Rio-Manso, que agarrado a Gonçalo, soluçou, no enternecimento quasi ufano de que a briga assim rompesse, na estrada, quando «o querido amigo, o amigo da sua Rosa» se encaminhava para a Varandinha. Gonçalo, afogueado, banhado de riso, abraçava, recontava pacientemente a façanha, acompanhava até ao portão aquelles cavalheiros, que ao montar as egoas, ao entrar nas caleches, sorriam para a velha Torre, escura e rigida, na doce claridade da tarde de Setembro, como saudando, depois do heroe, o secular fundamento do seu heroismo.

E o Fidalgo, galgando as escadas para a livraria, de novo murmurava, estonteado:

—Que terão dito os jornaes de Lisboa?

Nem dormiu, na anciedade de os devorar. Quando o Bento, em alvoroço, rompeu pelo quarto com o correio—Gonçalo saltou, arrojou o lençol, como se abafasse. E logo no Seculo, soffregamente percorrido, encontrou o telegramma d'Oliveira, contando o assalto! os tiros disparados! a immensa coragem do Fidalgo da Torre, que com um simples chicote... O Bento quasi arrebatou o Seculo das mãos tremulas do Fidalgo, para correr á cosinha, bramar á Rosa a noticia gloriosa!

De tarde, Gonçalo correu a Villa-Clara, á Assembleia, para devorar os outros jornaes de Lisboa, os do Porto. Todos contavam, todos celebravam! A Gazeta do Porto, attribuindo o attentado a Politica, ultrajava furiosamente o Governo. O Liberal Portuense, porém, relacionava «com certas vinganças dos republicanos d'Oliveira, o pavoroso attentado que quasi causára a morte d'um dos maiores fidalgos de Portugal e d'Hespanha e d'um dos mais pujantes talentos da nova geração!» Os jornaes de Lisboa, glorificavam sobre tudo «a coragem explendida do Snr. Gonçalo Ramires.» E o mais ardente era a Manhã, n'um verboso artigo (de certo escripto pelo Castanheiro), recordando as heroicas tradições da Casa illustre, esboçando as bellezas do Castello de Santa Ireneia e terminando por affirmar que «agora, se esperava com redobrada anciedade a apparição da novella de Gonçalo Ramires, fundada sobre um feito de seu avô Tructesindo no seculo XII, e promettida para o primeiro numero dos Annaes de Litteratura e de Historia, a nova Revista do nosso querido amigo Lucio Castanheiro, esse benemerito restaurador da Consciencia heroica de Portugal!»—As mãos de Gonçalo, ao desdobrar os jornaes, tremiam. E o João Gouveia, tambem soffrego, devorando tambem os artigos, por sobre o hombro do Fidalgo, murmurava, impressionado:

—Vossê, Gonçalinho, vae ter uma votação tremenda!

Depois n'essa noute, recolhendo á Torre, Gonçalo encontrou uma carta que o perturbou. Era de Maria de Mendonça, n'um papel perfumado, com o mesmo perfume que tão docemente espalhava D. Anna, pelo adro de Santa Maria de Craquêde:—«Só esta manhã soubemos o grande perigo que passou, e ficamos ambas muito commovidas. Mas ao mesmo tempo eu (e não só eu) muito vaidosa da magnifica coragem do primo. É d'um verdadeiro Ramires! Eu não vou ahi abraçal-o (com risco de me comprometter e fazer invejas) por que um dos meus pequenos, o Neco, anda muito constipado. Felizmente não é cousa de cuidado... Mas aqui todos, até os pequenos, anciamos por vêr o heroe, e não creio que houvesse nada d'extraordinario, nem d'um lado nem d'outro, em que o primo por aqui apparecesse além d'amanhã (quinta feira) pelas tres horas. Davamos um passeio na quinta, e até se merendava, á boa e velha moda dos nossos avós. Está dito? Muitos comprimentos, muitos, da Annica, e o primo creia-me, etc.»—Gonçalo sorriu, pensativamente, considerando a carta, recebendo o aroma. Nunca a prima Maria lhe empurrára, tão claramente, a D. Anna para os braços... E como D. Anna se deixava empurrar, prompta, e d'olhos cerrados... Ah, se fosse somente para a alcova! Mas ai! era tambem para a Egreja. E de novo sentia aquelle vozeirão do Titó, nos degraus da portinha verde com a lua cheia por cima dos olmos negros: «Essa creatura teve um amante, e tu sabes que eu nunca minto?»

Então tomou lentamente a penna, respondeu a D. Maria Mendonça:—«Querida prima—Fiquei muito enternecido com o seu cuidado, e os seus enthusiasmos. Não exaggeremos! Eu não fiz mais que correr a chicote uns valentões que me assaltaram a tiro. É façanha facil para quem tenha, como eu, um chicote excellente. Emquanto á visita á Feitosa, que me seria tão agradavel, não a posso realisar com fundo pezar meu, nem na quinta-feira, nem mesmo por todo este mez... Ando occupadissimo com o meu livro, a minha Eleição, a minha mudança para Lisboa. A era dos cuidados sérios soou severamente para mim,—cerrando a doce era dos passeios e dos sonhos. Peço que apresente á Snr.a D. Anna os meus profundos respeitos. E com muitas amisades para si, e bons desejos pelo restabelecimento d'esse querido Neco, espero me creia sempre seu dedicado e grato primo, etc.»

Fechou vagarosamente a carta. E batendo o seu sinete d'armas sobre o lacre verde, pensava:

—Assim aquelle maroto do Titó me rouba dusentos contos!...