Quem te verá sem que
estremeça,
Torre de Santa Ireneia,
Assim tão negra e callada
Por noites de lua cheia...
E lançou então uma quadra nova, que
trabalhára n'essa semana com amor
sobre uma erudita nota do bom Padre Sueiro. Era a gloria magnifica de
Paio Ramires, Mestre do Templo—a quem o Papa Innocencio, e a Rainha
Branca de Castella, e todos os Principes da Christandade supplicam que
se arme, e corra em dura pressa, e liberte S. Luiz Rei de
França,
captivo nas terras de Egypto...
Que só em Paio Ramires
Põe agora o mundo a
esperança...
Que junte os seus Cavalleiros
E que salve o Rei de França!
E por este avô e tal façanha até
Gonçalo se interessou—acompanhando o
canto, n'um tremulo esganiçado, de braço erguido:
Ai, que junte os seus cavalleiros
E que salve o Rei de
França!...
Ao rolar mais forte do côro Titó descerrou as
palpebras, arrancou do
canapé o corpansil immenso—e declarou que marchava para
Villa Clara:
—Estou derreado! Sempre em jornada e sem dormir, desde hontem
ás quatro
da manhã que larguei de Cidadelhe... Caramba, dava agora,
como aquelle
rei grego, um crusado por um burro!
Então Gonçalo, animado pelo cognac, tambem se
ergueu com uma resolução
quasi alegre:
—Oh Titó, antes de sahires anda cá dentro que
quero fallar comtigo a
respeito d'um caso!
Agarrára um dos candieiros, penetrou na sala de jantar onde
errava o
cheiro de magnolias morrendo n'um vaso. E ahi, sem
preparação, com os
olhos bem decididos, bem cravados no Titó—que o seguira
arrastadamente,
ainda se espreguiçava:
—Oh Titó, ouve lá e sê franco. Tu ias
muito á
Feitosa... Que te
parece aquella D. Anna?
Titó, que despertára como ao rebentar d'um
morteiro, considerou Gonçalo
com assombro:
—Ora essa! Mas a que proposito?...
Gonçalo atalhou, na pressa de colher rapidamente uma certeza:
—Olha! Eu para ti não tenho segredos. N'estas ultimas
semanas houveram
ahi umas conversas, uns encontros... Emfim, para resumir, se d'aqui a
tempos eu pensasse
em casar com a D. Anna, creio que ella, por seu
lado,
não recusava. Tu ias á
Feitosa.
Tu sabes... Que
tal rapariga é ella?
Titó crusára os braços violentamente:
—Pois tu vaes casar com a D. Anna?
—Homem, não vou casar. Não sigo esta noite para
a Egreja. Por ora quero
só informações... E de quem as posso
ter, mais francas e mais seguras,
do que de ti, que és meu amigo e que a conheces?
Titó não descrusára os
braços—levantando para o Fidalgo da Torre a face
honesta e sevéra:
—Pois tu pensas em casar com a D. Anna, tu, Gonçalo Mendes
Ramires?...
Gonçalo atirou um gesto de impaciencia e fartura:
—Oh! se me vens com a fidalguia e com o Paio Ramires...
O Titó quasi berrou, na sua indignação:
—Qual fidalguia! É que um homem de bem, como tu,
não pensa em casar com
uma creatura como ella!... Fidalguia?... Sim! Mas fidalguia d'alma e de
coração!
Gonçalo emmudeceu, trespassado. Depois, com uma serenidade a
que se
forçára, argumentou, deduzio:
—Bem! tu então sabes outras cousas... Eu por
mim sei que
ella é bonita
e rica: sei tambem que é séria, por que nunca
sobre ella se rosnou nem
aqui nem em Lisboa: são qualidades para se casar com uma
mulher... Tu
agora affianças que se não pode casar com ella.
Portanto sabes outras
cousas... Dize.
Foi então o Titó que emmudeceu, immovel deante do
Fidalgo como se o laço
d'uma corda o colhesse e o travasse. Por fim, soprando, com um
esforço
enorme:
—Tu não me chamaste para eu depôr como
testemunha... Em principio, sem
explicações, perguntas se podes casar com essa
mulher. E eu, sem
explicações, em principio, declaro que
não... Que diabo queres mais?
Gonçalo exclamou, revoltado:
—Que quero? Pelo amor de Deus, Titó!... Suppõe
tu que estou doidamente
apaixonado pela D. Anna, ou que tenho um interesse immenso em casar com
ella... Que não estou, nem tenho: mas suppõe!
N'esse caso não se desvia
um amigo d'um acto em que elle está tão
fundamente empenhado, sem lhe
apresentar uma razão, uma prova...
Assim apertado Titó baixou a cabeça, que
coçou com desespero. Depois
acobardadamente, para escapar, adiou a contenda:
—Olha, Gonçalo, eu estou muito estafado. Tu não
vaes a esta hora
para a
Egreja: e ella menos, que o outro marido ainda não arrefeceu
na cova.
Então ámanhã conversamos.
Atirou duas passadas enormes, empurrou a porta da varanda, berrando
pelo
Videirinha:
—São que horas, Videira! Toca a abalar, que não
dormi desde Cidadelhe.
Videirinha, que preparava com esmero um grog frio, esvasiou
atabalhoadamente o copo, recolheu o violão precioso. E
Gonçalo não os
deteve, esfregando silenciosamente as mãos, amuado com
aquella recusa do
Titó tão desamiga e teimosa. Como sombras
atravessaram uma sala onde
dormia, esquecida desde os Ramires do seculo XVIII, uma espineta de
charão. No patamar da escada que conduzia á
portinha verde, Gonçalo,
para os allumiar, erguera um castiçal. Titó
accendeu um cigarro á vela.
A sua mão cabelluda tremia.
—Então, entendido... Appareço
ámanhã, Gonçalo.
—Quando quizeres, Titó.
E no secco assentimento do Fidalgo transparecia tanto despeito—que
Titó
hesitou nos estreitos degraus que atulhava. Por fim desceu pesadamente.
Videirinha, já na estrada, considerava o ceu, a luminosa
serenidade:
—Que linda noite, snr. Doutor!
—Linda, Videirinha... E obrigado. Vossê hoje tocou
divinamente!
Gonçalo entrára na sala dos retratos,
pousára apenas o castiçal—quando,
por baixo da varanda aberta, o vozeirão do Titó
retumbou:
—Oh Gonçalo, desce cá abaixo.
O Fidalgo rolou pelos degraus com soffreguidão. Para
além dos alamos, no
luar da estrada, Videirinha afinava o violão. E apenas a
face do Fidalgo
surdio na claridade da porta o Titó, que esperava com o
chapéo para a
nuca, desabafou:
—Oh Gonçalo, tu ficaste amuado... É tolice! E
entre nós não quero
sombras. Então lá vae! Tu não podes
casar com essa mulher por que ella
teve um amante. Não sei se antes ou depois d'esse teve
outro. Não ha
creatura mais manhosa, nem mais disfarçada. Não
me venhas agora com
perguntas. Mas fica certo que ella teve um amante. Sou eu que t'o
affirmo: e tu sabes que eu nunca minto!
Bruscamente metteu á estrada, com os possantes hombros
vergados. Gonçalo
não se movera de sobre os degraus de pedra, deante dos mudos
alamos,
como elle immoveis. Uma palavra passára, irreparavel, no
macio silencio
da noite e da lua—e eis o alto sonho que elle construira sobre a D.
Anna e a sua belleza e os seus duzentos contos despenhado no lodo!
Lentamente subio, repenetrou
na
sala. Por cima da chamma alta da vela,
n'um painel fusco, uma face acordára, uma secca, amarellada
face, de
altivos bigodes negros, que se inclinava, attenta como reparando. E
longe, Videirinha espalhava pelos campos adormecidos os ingenuos versos
celebrando a gloria tamanha da Casa illustre:
Que só em Paio Ramires
Põe agora o mundo
esperança...
Que junte os seus cavalleiros
E que salve o Rei de
França!...
X
Até noite alta Gonçalo, passeando pelo quarto,
remoeu a amarga certeza
de que sempre, atravez de toda a sua vida (quasi desde o collegio de S.
Fiel!), não cessára de padecer
humilhações. E todas lhe resultavam de
intentos muito simples, tão seguros para qualquer homem como
o vôo para
qualquer ave—só para elle constantemente rematados por
dôr, vergonha ou
perda! Á entrada da vida escolhe com enthusiasmo um
confidente, um
irmão, que traz para a quieta intimidade da Torre—e logo
esse homem se
apodéra ligeiramente do coração de
Gracinha e ultrajosamente a abandona!
Depois concebe o desejo tão corrente de penetrar na Vida
Politica—e
logo o Acaso o fórça a que se renda e se acolha
á influencia d'esse
mesmo homem, agora Auctoridade poderosa, por elle durante todos esses
annos de despeito tão detestada e chasqueada! Depois abre ao
amigo,
agora restabelecido na sua convivencia,
a
porta dos Cunhaes, confiado
na
seriedade, no rigido orgulho da irmã—e logo a
irmã s'abandona ao antigo
enganador, sem lucta, na primeira tarde em que se encontra com elle na
sombra favoravel d'um caramanchão! Agora pensa em casar com
uma mulher
que lhe offerecia com uma grande belleza uma grande fortuna—e
immediatamente um companheiro de Villa-Clara passa e
segreda:—«A mulher
que escolheste, Gonçalinho, é uma marafona cheia
d'amantes!» De certo
essa mulher não a amava com um amor nobre e forte! Mas
decidira
accommodar nos formosos braços d'ella, muito
confortavelmente, a sua
sorte insegura—e eis que logo desaba, com esmagadora pontualidade, a
humilhação costumada. Realmente o Destino malhava
sobre elle com rancor
desmedido!
—E por quê? murmurava Gonçalo, despindo
melancolicamente o casaco. Em
vida tão curta, tanta decepção...
Porquê? Pobre de mim!
Cahio no vasto leito como n'uma sepultura—enterrou a face no
travesseiro com um suspiro, um enternecido suspiro de piedade por
aquella sua sorte tão contrariada, tão sem
soccorro. E recordava o
presumpçoso verso do Videirinha, ainda n'essa noite
proclamado ao
violão:
Velha casa de Ramires
Honra e flor de Portugal!
Como a flor murchára! Que mesquinha honra! E que contraste o
do
derradeiro Gonçalo, encolhido no seu buraco de Santa
Ireneia, com esses
grandes avós Ramires cantados pelo Videirinha—todos elles,
se Historia
e Lenda não mentiam, de vidas tão triumphaes e
sonoras! Não! nem sequer
d'elles herdára a qualidade por todos herdada atravez dos
tempos—a
valentia facil. Seu pae ainda fora o bom Ramires destemido—que na
fallada desordem da romaria da Riosa avançava com um
guardasol contra
tres clavinas engatilhadas. Mas elle... Alli, no segredo do quarto
apagado, bem o podia livremente gemer—elle nascera com a
falha,
a
falha de peor desdouro, essa irremediavel fraqueza da carne que,
irremediavelmente, deante de um perigo, uma ameaça, uma
sombra, o
forçava a recuar, a fugir... A fugir d'um Casco. A fugir
d'um malandro
de suissas louras que, n'uma estrada e depois n'uma venda o insulta sem
motivo, para meramente ostentar pimponice e arreganho. Ah vergonhosa
carne, tão espantadiça!
E a Alma... N'essa calada treva do quarto bem o podia reconhecer
tambem,
gemendo. A mesma fraqueza lhe tolhia a Alma! Era essa fraqueza que o
abandonava a qualquer influencia, logo por ella levado como folha secca
por qualquer sopro. Por que a prima Maria uma tarde adoça os
espertos
olhos
e lhe
aconselha por traz do leque que se interesse pela D.
Anna—logo elle, fumegando d'esperança, ergue sobre o
dinheiro e a
belleza de D. Anna uma presumpçosa torre de ventura e luxo.
E a Eleição?
essa desgraçada Eleição? Quem o
empurrára para a Eleição, e para a
reconciliação indecente com o Cavalleiro, e para
os desgostos d'ahi
manados? O Gouveia, só com leves argucias, murmuradas por
cima do
cache-nez desde a loja do Ramos até á esquina do
Correio! Mas que! mesmo
dentro da sua Torre era governado pelo Bento, que superiormente lhe
impunha gostos, dietas, passeios, e opiniões e
gravatas!—Homem de tal
natureza, por mais bem dotado na Intelligencia, é massa
inerte a que o
Mundo constantemente imprime fórmas varias e contrarias. O
João Gouveia
fizera d'elle um candidato servil. O Manuel Duarte poderia fazer d'elle
um beberrão immundo. O Bento facilmente o levaria a atar ao
pescoço, em
vez d'uma gravata de seda, uma colleira de couro! Que miseria! E
todavia
o Homem só vale pela Vontade—só no exercicio da
Vontade reside o goso
da Vida. Por que se a Vontade bem exercida encontra em torno
submissão—então é a delicia do
dominio sereno: se encontra em torno
resistencia—então é a delicia maior da lucta
interessante. Só não sahe
goso forte e viril da inercia que se deixa arrastar mudamente, n'um
silencio e macieza
de
cera... Mas elle, elle, descendendo de tantos
varões famosos pelo Querer—não conservaria,
escondida algures no seu
Ser, dormente e quente como uma braza sob cinza, uma parcella d'essa
energia hereditaria?... Talvez! nunca porém n'esse
pêco e encafuado
viver de Santa Ireneia a fagulha despertaria, resaltaria em chamma
intensa e util. Não! pobre d'elle! Mesmo nos movimentos da
Alma onde
todo o homem realisa a liberdade pura—elle soffreria sempre a
oppressão
da Sorte inimiga!
Com outro suspiro mais se enterrou, s'escondeu sob a roupa.
Não
adormecia, a noite findava—já o relogio de
charão, no corredor, batera
cavamente as quatro horas. E então, atravez das palpebras
cerradas, no
confuso cançasso de tantas tristezas revolvidas,
Gonçalo percebeu,
atravez da treva do quarto, destacando pallidamente da treva, faces
lentas que passavam...
Eram faces muito antigas, com desusadas barbas ancestraes, com
cicatrizes de ferozes ferros, umas ainda flammejando como no fragor de
uma batalha, outras sorrindo magestosamente como na pompa d'uma
gala—todas dilatadas pelo uso soberbo de mandar e vencer. E
Gonçalo,
espreitando por sobre a borda do lençol, reconhecia n'essas
faces as
veridicas feições de velhos Ramires, ou
já assim comtempladas em
denegridos retratos, ou por elle assim
concebidas,
como concebera as de
Tructesindo, em concordancia com a rijeza e explendor dos seus feitos.
Vagarosas, mais vivas, ellas cresciam d'entre a sombra que latejava
espessa e como povoada. E agora os corpos emergiam tambem,
robustissimos
corpos cobertos de saios de malha ferrugenta, apertados por arnezes
d'aço lampejante, embuçados em fuscos mantos de
revoltas prégas,
cingidos por faustosos gibões de brocado onde scintillavam
as pedrarias
de collares e cintos;—e armados todos, com as armas todas da Historia,
desde e clava gôda de raiz de roble errissada de puas,
até ao espadim de
sarau enlaçarotado de seda e ouro.
Sem temor, erguido sobre o travesseiro, Gonçalo
não duvidava da
realidade maravilhosa! Sim! eram os seus avós Ramires, os
seus
formidaveis avós historicos, que, das suas tumbas dispersas
corriam, se
juntavam na velha casa de Santa Ireneia nove vezes secular—e formavam
em torno do seu leito, do leito em que elle nascera, como a Assembleia
magestosa da sua raça resurgida. E até mesmo
reconhecia alguns dos mais
esforçados, que agora, com o repassar constante do Poemeto
do tio Duarte
e o Videirinha gemendo fielmente o seu «fado», lhe
andavam sempre na
imaginação...
Aquelle além, com o brial branco a que a cruz
vermelha
enchia o
peitoral, era certamente Gutierres Ramires o
d'Ultramar,
como quando
corria da sua tenda para a escalada de Jerusalem. No outro,
tão velho e
formoso, que estendia o braço, elle adivinhava Egas Ramires,
negando
acolhida no seu puro solar a El-Rei D. Fernando e á adultera
Leonor!
Esse, de crespa barba ruiva, que cantava sacudindo o pendão
real de
Castella, quem, senão Diogo Ramires,
o Trovador,
ainda na
alegria da
radiosa manhã d'Aljubarrota? Deante da incerta claridade do
espelho
tremiam as fôfas plumas escarlates do morrião de
Paio Ramires, que
s'armava para salvar S. Luiz Rei de França. Levemente
balançado, como
pelas ondas humildes d'um mar vencido, Ruy Ramires sorria ás
naus
inglezas que ante a prôa da sua Capitanea submissamente
amainavam por
Portugal. E, encostado ao poste do leito, Paulo Ramires, pagem do
Guião
d'El-Rey nos campos fataes de Alcacer, sem elmo, rota a
couraça,
inclinava para elle a sua face de donzel, com a doçura grave
d'um avó
enternecido...
Então, por aquella ternura attenta do mais poetico dos
Ramires, Gonçalo
sentio que a sua Ascendencia toda o amava—e da escuridão
das tumbas
dispersas accudira para o velar e soccorrer na sua fraqueza. Com um
longo gemido, arrojando a roupa, desafogou, dolorosamente contou aos
seus avós resurgidos a arrenegada Sorte que o combatia e que
sobre a sua
vida, sem descanço, amontoava tristeza, vergonha e perda! E
eis que
subitamente um ferro faiscou na treva, com um abafado
brado:—«Neto,
doce neto, toma a minha lança nunca partida!...» E
logo o punho d'uma
clara espada lhe roçou o peito, com outra grave voz que o
animava:—«Neto, doce neto, toma espada pura que lidou em
Ourique!...» E
depois uma acha de coriscante gume bateu no travesseiro, offertada com
altiva certeza:—«Que não derribará
essa acha, que derribou as portas
d'Arzilla?...»
Como sombras levadas n'um vento transcendente todos os avós
formidaveis
perpassavam—e arrebatadamente lhe estendiam as suas armas, rijas e
provadas armas, todas, atravez de toda a Historia, ennobrecidas nas
arrancadas contra a Moirama, nos trabalhados cercos de Castellos e
Villas, nas batalhas formosas com o Castelhano soberbo... Era, em torno
do leito, um heroico reluzir e retinir de ferros. E todos soberbamente
gritavam:—«Oh neto, toma as nossas armas e vence a Sorte
inimiga!...»
Mas Gonçalo, espalhando os olhos tristes pelas sombras
ondeantes,
volveu:—«Oh Avós, de que me servem as vossas
armas—se me falta a vossa
alma?...»
Acordou, muito cedo, com a enredada lembrança d'um pesadello
em que
fallára a mortos:—e, sem a preguiça, que sempre
o amollecia nos
colchões, enfiou um roupão, escancarou as
vidraças. Que formosa
manhã!
uma manhã dos fins de Septembro, macia, lustrosa e fina; nem
uma nuvem
lhe desmanchava o vasto, o immaculado azul; e o sol já
pousava nos
arvoredos, nos outeiros distantes, com uma doçura outomnal.
Mas, apesar
de lhe respirar allentamente o brilho e a pureza, Gonçalo
permaneceu
toldado de sombras, das sombras da véspera, retardadas no
seu espirito
opprimido, como nevoas em valle muito fundo. E foi ainda com um
suspiro,
arrastando tristonhamente as chinellas, que puxou o cordão
da campainha.
O Bento não tardou com a infusa da agoa quente para a barba.
E
acostumado ao alegre acordar do Fidalgo tanto estranhou aquelle
silencioso e enrugado mover pelo quarto, que desejou saber se o Snr.
Doutor passára mal a noite...
—Pessimamente!
Bento declarou logo, com vivacidade e
reprovação—que certamente fizera
mal ao Snr. Doutor tanto cognac de moscatel. Cognac muito adocicado,
muito excitante... Bom para o Snr. D. Antonio, homemzarrão
pesado. Mas o
Snr. Doutor, assim nervoso, nunca devia tocar n'aquelle cognac. Ou
então, meio calice escasso.
Gonçalo ergueu a cabeça, na surpreza de encontrar
logo ao começo do seu
dia e tão flagrante, aquelle dominio que todos sobre elle se
arrogavam—e de que tanto se lastimava, atravez de toda a amarga noite!
Eis ahi o Bento mandando—marcando a sua ração de
cognac! E justamente o
Bento insistia:
—O Snr. Doutor bebeu mais de tres calices. Assim não
convém... Eu
tambem tive culpa em não tirar a garrafa...
Então, perante despotismo tão declarado, o
Fidalgo da Torre teve uma
brusca revolta:
—Homem, não dês tantas leis. Bebo o cognac que
preciso e que quero!
Ao mesmo tempo, com a ponta dos dedos, experimentava a agua na infusa:
—Esta agua está morna! exclamou logo. Já me
tenho fartado de dizer!
Para a barba, preciso sempre agua a ferver.
O Bento, gravemente, mergulhou tambem o dedo na agua:
—Pois esta agua está quasi a ferver... Nem para a barba se
necessita
agua mais quente.
Gonçalo encarou o Bento com furor. O que! mais
objecções, mais leis!
—Pois vá immediatamente buscar outra agua! Quando eu
peço agua quente,
pretendo que venha em cachão. Irra! tanta
sentença!... Eu não quero
moral, quero obediencia!
O Bento considerou Gonçalo atravez d'um espanto que lhe
inchára a face.
Depois, lentamente, com magoada dignidade, empurrou a porta, levando
a
infusa. E já Gonçalo se arrependia da sua
violencia. Coitado, não era
culpa do Bento se a vida lhe andava a elle tão estragada e
sacudida!
Depois, em casa tão antiga, não destoava a
tradição dos antigos aios. E
o Bento com perfeito rigor lhes reproduzia a rabugice e a lealdade! Mas
ascendencia, e livre fallar bem lhe cabiam—bem os merecia por
tão
longa, tão provada dedicação...
O Bento, ainda vermelho e inchado, voltava com a infusa fumegante. E
Gonçalo logo docemente, para o adoçar:
—Dia muito bonito, hein, Bento?
O velho rosnou, ainda amuado:
—Muito bonito.
Gonçalo ensaboava a face, rapidamente, na impaciencia de
reatar com o
Bento, de lhe restabelecer a supremacia amoravel. E por fim mais doce,
quasi humilde:
—Pois se achas o dia assim bonito, dou um passeio a cavallo antes
d'almoço. Que te parece? Talvez me faça bem aos
nervos... Com effeito,
aquelle cognac não me convém... Então,
Bento, faze o favor, grita ahi ao
Joaquim que me tenha a egoa prompta immediatamente. Com certeza me
acalma, uma galopada... E no banho agora a agua bem esperta, bem
quente.
Tambem me acalma a agua quente. Por isso necessito sempre agua bem
quente, a ferver.
Mas
tu, com essas tuas velhas idéas...
Pois todos os
medicos o declaram. Para a saude agua quente, bem quente, a sessenta
graus!
E depois do rapido banho, em quanto se vestia, abriu mais familiarmente
ao velho aio a intimidade das suas tristezas:
—Ah! Bento, Bento, o que eu verdadeiramente precisava para me calmar,
não era um passeio, era uma jornada... Trago a alma muito
carregada,
homem! Depois estou farto d'esta eterna Villa-Clara, da eterna
Oliveira.
Muito mexerico, muita deslealdade. Precisava terra grande,
distracção
grande.
O Bento, já reconciliado, enternecido, lembrou que o Snr.
Doutor
brevemente, em Lisboa, encontraria uma linda
distracção, nas Côrtes.
—Eu sei lá se vou ás Côrtes, homem!
Não sei nada, tudo falha... Qual
Lisboa!... O que eu necessito é uma viagem immensa,
á Hungria, á Russia,
a terras onde haja aventuras.
O Bento sorriu superiormente d'aquella
imaginação. E apresentando ao
Fidalgo o jaquetão de velvetina cinzenta:
—Com effeito, na Russia parece que não faltam aventuras.
Anda tudo a
chicote, diz o
Seculo... Mas aventuras, Snr.
Doutor, até a
gente as
encontra na estrada... Olhe! o paesinho de V. Ex.
a,
que Deus haja, foi
lá em baixo deante do portão que
teve a bulha com
o Dr. Avelino da
Riosa, e que lhe atirou a chicotada, e que levou com o punhal no
braço...
Gonçalo calçava as luvas d'anta, mirando o
espelho:
—Pobre papá, coitado, tambem teve pouca sorte... E por
chicote, ó
Bento, dá cá aquelle chicote de cavallo marinho
que tu hontem areaste.
Parece que é uma boa arma.
Ao sahir o portão, o Fidalgo da Torre metteu a egoa, sem
destino, n'um
passo indolente, pela estrada costumada dos Bravaes. Mas no Casal Novo,
onde dous pequenos jogavam á bola debaixo das carvalheiras,
pensou em
visitar o Visconde de Rio-Manso. Certamente lhe concertaria os nervos a
companhia de tão sereno e generoso velho. E, se elle o
convidasse a
almoçar, gastaria os seus cuidados visitando essa fallada
quinta da
Varandinha e cortejando «o
botão de
Rosa».
Gonçalo recordava apenas confusamente que o
terraço da
Varandinha
dominava uma estrada plantada de choupos, algures, entre o logar da
Cerda e a espalhada aldêa de Canta-Pedra, E tomou o caminho
velho que
desce das carvalheiras do Casal Novo,
e
penetra no valle, entre o
cabeço
d'Avellan e as ruinas do Mosteiro de Ribadaes, no solo historico onde
Lopo de Bayão derrotára a mesnada de
Lourenço Ramires... Ora enterrada
entre vallados, ora entre toscos muros de pedra solta, a vereda seguia
sem belleza, e cansativa: mas as madresilvas nas sebes, por entre as
amoras maduras, rescendiam: o fresco silencio recebia mais frescura e
graça dos fremitos d'aza que o roçavam; e tanto
era o radiante azul nos
ceus serenos que um pouco do seu rebrilho e serenidade s'instillava
n'alma. Gonçalo, mais desannuviado, não se
apressava: na Egreja dos
Bravaes, quando elle passára ao Casal Novo, batiam apenas as
nove horas:
e depois de costear um lameiro d'herva magra parou a accender
pachorrentamente um charuto, rente da velha ponte de pedra que galga o
riacho das Donas. Quasi secca pela estiagem, a agoa escura mal corria,
sob as folhas largas dos nenufares, por entre os juncaes que a
atulhavam. Adiante, á orla d'um hervaçal, no
abrigo d'uma moita
d'alamos, relusiam as pedras d'um lavadouro. Na outra margem, dentro
d'um velho bote encalhado, um rapazito, uma rapariguinha conversavam
profundamente, com dous molhos d'alfazema esquecidos nos
regaços.
Gonçalo sorriu do idyllio—depois teve uma surpreza
descobrindo, no
cunhal da ponte, rudemente entalhado, o seu Brazão-d'Armas,
um Açor
enorme, que alargava as garras ferozes. Talvez aquellas terras outr'ora
pertencessem á Casa:—ou algum dos seus avós
beneficos construira a
ponte, sobre torrente então mais funda, para
segurança dos homens e dos
gados. Quem sabe se o avô Tructesindo, em memoria piedosa de
Lourenço
Ramires, vencido e captivo nas margens d'aquella Ribeira!
O caminho, para além da ponte, alteava entre campos
ceifados. As mêdas
lourejavam, pesadas e cheias, por aquelle anno de fartura. Ao longe,
dos
telhados baixos d'um logarejo, vagarosos fumos subiam, logo desfeitos
no
radiante ceu. E lentamente, como aquelles fumos distantes, Gonçalo
sentia que todas as suas melancolias lhe escapavam da alma, se perdiam
tambem no azul lustroso... Uma revoada de perdizes ergueu o
vôo d'entre
o restolho. Gonçalo galopou sobre ellas, gritando, sacudindo
o seu forte
chicote de cavallo-marinho, que zenia como uma fina lamina.
Em breve o caminho torceu, costeando um souto de sobreiros, depois
cavado entre silvados com largos pedregulhos aflorando na poeira;—e ao
fundo o sol faiscava sobre a cal fresca d'uma parede. Era uma casa
terrea, com porta baixa entre duas janellas envidraçadas,
remendos novos
no telhado e um quinteiro que uma escura e immensa figueira
assombreava.
N'uma esquina
pegava um muro baixo de pedra solta, continuado por uma
sebe, onde adiante uma velha cancella abria para a sombra d'uma ramada.
Defronte, no vasto terreiro que se alargava, jaziam cantarias, uma
pilha
de traves; passava uma estrada, lisa e cuidada, que pareceu a
Gonçalo a
de Ramilde. Para além, até a um distante
pinheiral, desciam chãs e
lameiros.
Sentado n'um banco, junto da porta, com uma espingarda encostada ao
muro, um rapaz grosso, de barrete de lã verde, acariciava
pensativamente
o focinho d'um perdigueiro. Gonçalo parou:
—Tem a bondade... Sabe por acaso qual é o bom caminho para
a quinta do
Snr. Visconde de Rio-Manso, a
Varandinha?
O rapasote ergueu a face morena, de buço leve, remechendo
vagamente no
carapuço.
—Para a quinta do Rio-Manso... Siga pela estrada até
á pedreira, depois
á esquerda a seguir, sempre rente da varzea...
Mas n'esse instante assomava á porta um latagão
de suissas louras em
mangas de camisa, a cinta enfaixada em seda. E Gonçalo, com
um
sobresalto, reconheceu logo o caçador que o
injuriára na estrada de
Nacejas, o assobiára na venda do Pintainho. O homem
relanceou
superiormente o Fidalgo. Depois,
com
a mão encostada
á humbreira,
chasqueou o rapasote:
—Oh Manoel, que estás tu ahi a ensinar o caminho, homem!
Este caminho
por aqui não é para asnos!
Gonçalo sentiu a pallidez que o cobriu—e todo o sangue no
coração, n'um
tumulto confuso, que era de medo e de raiva. Um novo ultrage, do mesmo
homem, sem provocação! Apertou os joelhos no
sellim para galopar. E a
tremer, n'um esforço que o engasgava:
—Vossê é muito atrevido! É
já pela terceira vez! Eu não sou homem para
levantar desordens n'uma estrada... Mas fique certo que o
conheço, e que
não escapa sem lição.
Immediatamente, o outro agarrou a um cajado curto e saltou á
estrada,
affrontando a egoa, com as suissas erguidas, um riso de immenso desafio:
—Então cá estou! Venha agora a
lição... E para diante é que
Vossê já
não passa, seu Ramires de merd...
Uma nevoa turvou os olhos esgaseados do Fidalgo. E de repente, n'um
inconsciente arranque, como levado por uma furiosa rajada de orgulho e
força, que se desencadeava do fundo do seu ser, gritou,
atirou a fina
egoa n'um galão terrivel! E nem comprehendeu! O cajado
sarilhára! A egoa
empinava,
n'uma
cabeçada furiosa! E Gonçalo
entreviu a mão do homem,
escura, immensa, que empolgava a camba do freio.
Então, erguido nos estribos, por sobre a immensa
mão, despediu uma
vergastada do chicote silvante de cavallo-marinho, colhendo o
latagão na
face, de lado, n'um golpe tão vivo da aresta aguda que a
orelha pendeu,
despegada, n'um borbutar de sangue. Com um berro o homem recuou,
cambaleando. Gonçalo galgou sobre elle, n'outro arremesso,
com outra
fulgurante chicotada, que o apanhou pela bôca, lhe rasgou a
bôca,
decerto lhe espedaçou dentes, o atirou, urrando, para o
chão. As patas
da egoa machucavam as grossas coxas estendidas,—e,
debruçado, Gonçalo
ainda vergastou, cortou desesperadamente face, pescoço,
até que o corpo
jazeu molle e como morto, com jorros de sangue escuro ensopando a
camisa.
Um tiro atroou o terreiro! E Gonçalo, com um salto no selim,
avistou o
rapasote moreno ainda com a espingarda erguida, a fumegar, mas
já
hesitando aterrado.
—Ah, cão!
Lançou a egoa, com o chicote alto:—o rapaz, espavorido,
corria
lentamente através do terreiro, para saltar o vallado,
escapar para as
varzeas ceifadas!
—Ah cão, ah cão! berrava Gonçalo.
Estonteado,
o
rapaz tropeçára n'uma
viga solta. Mas já se endireitava, largava, quando o Fidalgo
o alcançou
com uma cutilada do chicote no pescoço, logo alagado de
sangue.
Estendendo as mãos incertas, ainda cambaleou, abateu,
estalou contra a
aresta d'um pilar, a cabeça mais sangue jorrou.
Então Gonçalo, a
arquejar, deteve a egoa. Ambos os homens jaziam immoveis! Santo Deus!
Mortos? D'ambos corria o sangue sobre a terra secca. O Fidalgo da Torre
sentia uma alegria brutal. Mas um grito espantado soou do lado do
quinteiro.
—Ai que mataram o meu rapaz!
Era um velho que corria da cancella, n'uma carreira agachada, rente com
a sebe, para a porta da casa. Tão certeiramente o Fidalgo
arremessou a
egoa, para o deter—que o velho esbarrou contra o peitoril que arfava
coberto de suor e d'espuma. E ante o inquieto animal escarvando, e
Gonçalo alçado nos estribos, com a face
chammejante, o chicote a
descer—o velho, n'um terror, desabou sobre os joelhos, gritou
anciadamente:
—Ai, não me faça mal, meu Fidalgo, por alma de
seu pae Ramires.
Gonçalo ainda o manteve assim um momento, supplicante, a
tremer, sob o
justiceiro faiscar dos seus olhos:—e gosava soberbamente aquellas
callosas mãos que se erguiam para a sua misericordia,
invocavam o nome
de Ramires, de novo temido, repossuido do seu prestigio heroico.
Depois,
recuando a egoa:
—Esse malandro do rapazola desfechou a caçadeira!...
Vossê tambem não
tem boa cara! Que ia vossê correndo para casa? Buscar outra
espingarda?
O velho alargou desesperadamente os braços, offerecia o
peito, em
testemunho da sua verdade:
—Oh meu Fidalgo, não tenho em casa nem um cajado!... Assim
Deus me
ajude e me salve o rapaz!
Mas Gonçalo desconfiava. Quando descesse agora pela estrada
de Ramilde,
bem poderia o velho correr ao casebre, agarrar outra
caçadeira,
desfechar traiçoeiramente. E então com a presteza
d'espirito que a lucta
afiára concebeu contra qualquer emboscada, um ardil seguro.
E até n'um
relance sorrio recordando «traças de
guerra», de D. Garcia Viegas, o
Sabedor.
—Marche lá deante de mim, sempre a direito, pela estrada!
O velho tardou, sem se erguer, aterrado. E batia com as grossas
mãos nas
coxas, n'uma ancia que o engasgava:
—Oh meu Fidalgo, oh meu fidalgo! mas deixar assim o rapaz sem
acordo?...
—O rapaz está só atordoado, já se
mecheu... E o outro malandro
tambem... Marche vossê!
E ao irresistivel mando de Gonçalo, o velho, depois de
sacudir
demoradamente as joalheiras, começou a avançar
pela estrada, vergado
deante da egoa, como um captivo, com os longos braços a
bambolear,
rosnando, n'um rouco assombro:—Ai como ellas se armam! Ai Santo nome de
Deus, que desgraça! A espaços estacava,
esgaseando para Gonçalo um olhar
torvo onde negrejava medo e odio... Mas logo o commando forte o
empurrava: «Marche!...» E marchava. Adiante, onde
se erguia um cruseiro
em memoria do Abbade Paguim, assassinado, Gonçalo reconheceu
um largo
atalho para a estrada dos Bravaes que chamavam o
Caminho da
Moleira. E
para ahi enfiou o velho, que no pavor d'aquella asinhaga solitaria,
pensando que Gonçalo o afastava de caminhos trilhados para o
matar
commodamente, rompeu a gemer. «Ai que isto é o fim
da minha vida! Ai
Nossa Senhora, que é o fim da minha vida!» E
não cessou de gemer,
emmaranhando os passos tropegos, até que desembocaram na
estrada alta
entre taludes escarpados, revestidos de giesta brava. Então
de repente,
com outro terror, o homem bruscamente revirou, atirando as
mãos ao
barrete:
—Oh meu senhor, o Fidalgo não me leva preso?...
—Marche! Corra! Que agora a egoa trota!
A egoa trotou—o velho correu, desengonçado, arquejando como
um folle de
forja. Uma milha galgada, Gonçalo parou, farto do captivo,
da lenta
marcha. De resto antes que o homem agora corresse a casa, e agarrasse
uma arma, e virasse para o alcançar, se desforrar—entraria
elle, n'um
galope solto, o portão da Torre! Então bradou,
com o sobr'olho duro:
—Alto! Agora pode voltar para traz... Mas, antes: Como se chama aquelle
seu logar?
—A Grainha, meu fidalgo.
—E vossê como se chama, e o rapaz?
O velho com a boca aberta, esperou, hesitou:
—Eu sou João, o meu rapaz Manoel... Manoel Domingues, meu
Fidalgo.
—Vossê naturalmente mente. E o outro malandro, de suissas
louras?
D'um folego, o velho gritou:
—Esse é o Ernesto de Nacejas, o valentão de
Nacejas, que chamam o
Caça-abraços, e que tanto me
desencaminhou o
rapaz...
—Bem! Pois diga lá a esses dous marotos que me atacaram a
pau e a tiro,
que não ficam quites sómente com a sova, e que
agora têm de se entender
com a Justiça... Ella lá irá! Largue!
Do meio da estrada, Gonçalo ainda vigiou o velho
que
abalára, forçando
as passadas derreadas, limpando o suor que lhe pingava. Depois, pela
conhecida estrada, galopou para a Torre.
E ia levado, galopando n'uma alegria tão fumegante, que o
lançava em
sonho e devaneio. Era como a sensação sublime de
galopar pelas alturas,
n'um corcel de lenda, crescido magnificamente, roçando as
nuvens
lustrosas... E por baixo, nas cidades, os homens reconheciam n'elle um
verdadeiro Ramires, dos antigos na Historia, dos que derrubavam torres,
dos que mudavam a configuração dos Reinos,—e
erguiam esse maravilhado
murmurio que é o sulco dos fortes passando! Com
razão! com razão! Que
ainda de manhã, ao sahir da Torre, não ousaria
marchar para um rapazola
decidido que brandisse um varapau... E depois, de repente, na
solidão
d'aquella casa terrea, quando o bruto das suissas louras lhe atira a
suja injuria—eis um
não sei quê
que se
desprende dentro do seu ser, e
transborda, e lhe enche cada veia de sangue ardido e lhe enrija cada
nervo de força destra, e lhe espalha na pelle o desprezo e a
dôr, e lhe
repassa fundamente a alma de fortaleza indomavel... E agora alli
voltava, como um varão novo, soberbamente virilisado,
liberto emfim da
sombra que tão dolorosamente assombreára a sua
vida, a sombra molle e
torpe do seu mêdo! Por que sentia que, agora se todos os
valentões
de
Nacejas o affrontassem n'um rijo erguer de cajados—esse
não sei quê,
lá dentro, no seu ser, de novo se soltaria, e o
arremessaria, com cada
veia inchada, cada nervo retesado, para o delicioso fragor da briga!
Emfim era
um homem! Quando em Villa Clara o
Manuel Duarte, o
Titó com
o peito alto, contassem façanhas, já elle
não enrolaria encolhidamente o
cigarro—encolhido, mudo não sómente pela
ausencia desconsoladora das
valentias, mas sobretudo pela humilhante
recordação das fraquezas. E
galopava, galopava apertando furiosamente o cabo do chicote, como para
investidas mais bellas. Para além dos Bravaes, mais galopou,
ao avistar
a Torre. E singularmente lhe pareceu, de repente, que a sua Torre,
agora
mais sua, e que uma affinidade nova fundada em
gloria e
força, o
tornava mais senhor da sua Torre!