Quando Gonçalo á tarde, enterrado na poltrona
á varanda, releu este
Capitulo de sangue e furor sobre que se esfalfára durante a
semana,
pensou «que o lance impressionaria.»
Sentiu então o appetite de recolher sem demora os louvores
merecidos—e
de mostrar a Gracinha e ao Padre Sueiro os tres Capitulos completos
antes de remetter o manuscripto para os
Annaes.
E
mesmo lhe
convinha—porque a erudição archeologica do Padre
Sueiro forneceria
talvez algum traço novo, bem Affonsino, que mais avivasse
aquella
resurreição da Honra de Santa-Ireneia e dos seus
senhores formidaveis.
Immediatamente resolveu partir de manhã para Oliveira com o
seu
trabalho—que, depois de esmiuçado pelo Padre Sueiro,
confiaria ao
procurador de D. Arminda Viegas para elle o copiar n'aquella sua
formosa
lettra, tão celebrada em todo o
Districto,
e apenas egualada
(nas
maiusculas) pela do Escrivão da Camara Ecclesiastica.
Sacudia já da poeira uma antiga pasta de marroquim para
transportar a
Obra amada—quando o Bento empurrou a porta, ajoujado com uma cesta de
vime que uma toalha de rendas cobria.
—Um presente.
—Um presente... De quem?
—Da
Feitosa, das senhoras.
—Bravo!
—E com uma carta, que vem pregada na toalha.
Com que curiosidade Gonçalo despedaçou o
sobrescripto! Mas, apezar de
lacrado com um pomposo sello d'Armas, apenas continha linhas a lapis
n'um bilhete de visita da prima Maria
Mendonça:—«Hontem ao jantar
contei quanto o primo Gonçalo gosta de pêcegos
sobretudo aboborados em
vinho, e a Annica toma por isso a liberdade de lhe mandar esse cestinho
de pêcegos da
Feitosa, que como sabe
são
fallados em todo o
Portugal... Mil saudades.»—Gonçalo imaginou logo
no fundo da cesta,
debaixo dos pêcegos, docemente escondida, uma cartinha da D.
Anna!
—Bem! São pêcegos... Deixa ahi sobre uma
cadeira...
—Era melhor que os levasse já para a copa, Snr. Dr., para
os arrumar na
prateleira...
—Deixa sobre a cadeira!
Apenas o Bento cerrára a porta, estendeu no chão
a toalha, entornou
cuidadosamente por cima os pêcegos formosos que perfumavam a
livraria.
No fundo da cesta encontrou apenas folhas de parra. Levemente
desconsolado, cheirou um pêcego. Depois considerou que os
pêcegos,
arranjados por ella, com parra que ella apanhára na latada,
sob toalha
que ella escolhera no armario, formavam na sua mudez cheirosa um
recadinho sentimental. Ainda agachado na esteira, comeu o
pêcego:—e
recollocou os outros na cesta para os levar a Gracinha.
Mas, ao outro dia, ás duas horas, já com a
parelha do Torto engatada á
caleche, já com as luvas calçadas para a jornada
d'Oliveira, recebeu uma
inesperada visita—a visita do Snr. Visconde de Rio-Manso.
Descalçando
as luvas o Fidalgo pensava:—«O Rio-Manso! Que me
quererá esse
casmurro?»—Na sala, pousado á beira do
canapé de velludo verde e
esfregando os joelhos, o Visconde contou que de volta de Villa Clara e
deante do portão da Torre vencera o seu teimoso acanhamento
para
apresentar os seus respeitos ao Snr. Gonçalo Ramires. E
não só para esse
gostoso dever—mas tambem (como
soubera
que S. Ex.
a
se propunha
Deputado pelo Circulo) para lhe offerecer na freguezia de Canta-Pedra o
seu prestimo e os seus votos...
Gonçalo, risonho e pasmado, saudava, torcia
embaraçadamente o bigode. E
o Visconde de Rio-Manso não estranhava aquelle pasmo por que
de certo o
Snr. Gonçalo Ramires o conhecêra sempre como
ferrenho Regenerador... Mas
então! Elle pertencia á
geração, agora bem rareada, que antepunha aos
deveres da Politica os deveres da gratidão:—e
além da sympathia que lhe
merecia o Snr. Gonçalo Ramires (pelo que constava em todo o
Districto do
seu talento, da sua affabilidade, da sua caridade) tambem conservava
para com S. Ex.
a uma divida de
gratidão, ainda aberta,
não por
indifferença, mas por timidez...
—V. Ex.
a não adivinha, Snr.
Gonçalo Mendes
Ramires?... Não se lembra?
—Não, realmente, Snr. Visconde, não me...
Pois uma tarde o Snr. Gonçalo Mendes Ramires passava a
cavallo pela
quinta da
Varandinha, quando a sua neta,
brincando no
terraço (aquelle
terraço gradeado d'onde se curva uma magnolia), deixou
escapar uma péla
para a estrada. O Snr. Gonçalo Mendes Ramires, rindo, apeou
immediatamente, apanhou a péla, e, para a restituir
á menina debruçada
da grade, abeirou
a egoa do muro depois de montar—e com que ligeiresa e
garbo!...
—V. Ex.
a não se lembrava?
—Sim, sim, agora...
Pois no ladrilho do terraço, rente da grade, pousava um
jarro cheio de
cravos. O Snr. Gonçalo Mendes, depois de gracejar com a
menina (que,
louvado Deus, não era acanhada!) pediu um cravo, que ella
escolheu—e
que lhe deu, toda séria, como uma senhora. E elle, que
observára da
janella do seu quarto, pensava:—«Ora ahi está!
Este Fidalgo da Torre,
um tão grande Fidalgo, que amavel!»—Oh S. Ex.
a
não tinha que rir e
corar... A gentileza fôra grande—e a elle, avô,
parecêra immensa! Mas
não ficára sómente na péla
apanhada...
—O Snr. Gonçalo Mendes Ramires não se recorda?...
—Sim, Snr. Visconde, com effeito, agora...
Pois, logo no outro dia, o Snr. Gonçalo Mendes Ramires
mandára da Torre
um precioso cesto de rosas, com o seu bilhete, e n'uma linha este
gracejo:—«Em agradecimento d'um cravo, rosas á
Snr.
a D. Rosa.»
Gonçalo quasi pulou na cadeira, divertido:
—Sim, sim, Snr. Visconde, perfeitamente!.. Agora me recordo!
Pois desde essa tarde elle sempre almejára por uma
opportunidade de
mostrar ao Snr. Gonçalo Mendes Ramires o seu reconhecimento,
a sua
sympathia. Mas que! era timido, vivia muito retirado... N'essa
manhã
porém, em Villa Clara, soubera pelo Gouveia que S. Ex.
a
se
apresentava
deputado pelo Circulo. Apezar de ser eleição
tão segura, já pela
influencia do Snr. Ramires, já pela influencia do Governo,
logo
pensára—«Bem, ahi está a
occasião!» E, agora offerecia a S. Ex.
a,
na
freguezia de Canta-Pedra, o seu prestimo e os seus votos.
Gonçalo murmurou, enternecido:
—Realmente, Snr. Visconde, nada me podia sensibilisar mais do que uma
offerta tão espontanea, tão...
—Sou eu que me sensibiliso por V. Ex.
a
acceitar. E agora
não fallemos
mais n'esse meu pobre prestimo e n'esses meus pobres votos... Pois V.
Ex.
a tem aqui uma veneravel vivenda.
E como o Visconde alludia ao desejo, já n'elle antigo, de
admirar de
perto a famosa torre, mais velha que Portugal—ambos desceram ao pomar.
O Visconde, com o guarda-sol ao hombro, pasmou em silencio para a
torre;
reconheceu (apezar de liberal) o prestigio que resulta d'uma
tão alta
linhagem como a dos Ramires; e gabou sinceramente o laranjal. Depois,
sabendo que o Pereira da Riosa arrendára a
quinta, invejou
ao Snr.
Ramires tão cuidadoso e honrado rendeiro...—Deante do
portão, o
char-à-bancs do Visconde esperava,
atrelado de duas mulas
lustrosas e
nedias. Gonçalo admirou as mulas. E, abrindo a portinhola,
supplicou ao
Snr. Visconde que beijasse por elle a mãosinha da Snr.
a
D.
Rosa.
Commovido, o Visconde confessou uma ousadia, uma
esperança—e era que S.
Ex.
a um dia, á sua escolha, parasse
em Canta-Pedra,
jantasse na quinta,
para conhecer mais intimamente a menina da péla e do cravo...
—Mas com immensa honra!... E desde já me proponho a ensinar
á Snr.
a D.
Rosa, se ella o não sabe, o jogo da péla
á antiga portugueza.
O Snr. Visconde saudou, banhado de gosto e riso, com a mão
sobre o
coração.
Gonçalo, trepando as escadas, murmurava:—«Oh
senhores, que sympathico
homem! E que generoso homem, que paga rosas com votos! Ora vejam como
ás
vezes, por uma pequenina attenção, se ganha um
amigo! Com certeza, para
a semana vou a Canta-Pedra jantar!... Homem encantador!»
E foi n'um ditoso estado d'alma que accommodou na caleche a pasta de
marroquim com o manuscripto, o cesto sentimental dos pêcegos
da D.
Anna—e accendeu um charuto, e saltou á almofada, e tomou as
redeas para
lançar, n'um trote alegre até Oliveira, a parelha
branca do Russo.
No largo d'El-Rey, antes d'apear, perguntou logo ao Joaquim da Porta
noticias dos senhores. Os senhores todos muito bem, graças a
Deus... O
Snr. José Barrôlo partira de manhã a
cavallo para a quinta do Snr. Barão
das Marges, só recolhia á noite...
—E o Snr. Padre Sueiro?
—O Snr. Padre Sueiro, creio que está para casa da Snr.
a
D.
Arminda...
—E a Snr.
a D. Graça?
—A Snr.
a D. Graça desceu ha um
bocadinho grande para o
Mirante, de
chapeu... Naturalmente ia á Egreja das Monicas.
—Bem. Leva esse cesto de pêcegos e dize ao Joaquim da Copa
que o ponha
na mesa, assim mesmo no cesto, com as folhas... E que me subam ao
quarto
agoa quente.
O relogio de parede, na sala de espera, gemia
preguiçosamente as cinco
horas. O palacete repousava n'um claro silencio. E depois da poeira e
dos solavancos da estrada, pareceu mais doce a Gonçalo a
frescura do seu
quarto com as quatro janellas abertas sobre o jardim regado e sobre a
cerca das Monicas. Cuidadosamente, guardou logo n'uma gaveta da commoda
a pasta preciosa de marroquim. Uma creada de olhos repolhudos
entrára
com o jarrão d'agua quente:—e o Fidalgo, como sempre,
chasqueou a
moça
sobre os lindos sargentos de Cavallaria, cujo quartel tentador dominava
o lavadouro da quinta, e retinha as raparigas da casa ensaboando todo o
dia com paixão. Depois ainda se demorou, mudando o fato
empoeirado,
assobiando vagamente, encostado á varanda sobre a callada
rua das
Tecedeiras. O sino das Monicas lançou um lindo repique... E
Gonçalo,
enfastiado da sua solidão, decidiu descer pelo
terraço do jardim, e
surprehender Gracinha nas suas devoções, na
Egrejinha.
Em baixo, no corredor, crusou o Joaquim da Copa:
—Então o Snr. Barrôlo hoje não janta?
—O Snr. Barrôlo foi jantar com o Snr. Barão das
Marges, na quinta...
São os annos da menina. Naturalmente só recolhe
á noite.
Gonçalo, no jardim, ainda tardou por entre os alegretes,
compondo para o
casaco um ramo de flôres ligeiras. Depois rodeou a estufa,
sorrindo da
porta com que o Barrôlo a enriquecera, uma porta
envidraçada, arqueada
em ferradura, com um monogramma de côres rutilantes: e metteu
pela rua
que conduzia ao repuxo, coberta de silencio e penumbra pela rama
enlaçada dos seus altos loureiros. Adiante, circumdado de
bancos de
pedra, d'arvores de aroma e flôr, cantava dormentemente o
fino repuxo
n'um tanque redondo, de borda larga, onde
s'espaçavam
grossos vasos de
louça branca com o brazão ramalhudo dos
Sás. Certamente na véspera ou de
manhã se lavára o tanque, por que na agoa muito
transparente, sobre as
lages muito claras, nadavam com redobrada vivacidade, em lampejos
rosados, os peixes que Gonçalo assustou mergulhando e
agitando a
bengala. E d'aquella borda do tanque já elle avistava ao
fundo de outra
rua, debruada de dhalias abertas, o Mirante—uma
construcção do seculo
XVIII, simulando um Templosinho grego, côr de rosa desbotada,
com um
gordo Cupido sobre a cupula, e janellinhas de rocalha entre o meio
relevo das columnas canelladas por onde trepavam jasmineiros.
Gonçalo arrancou, como costumava, folhas d'um ramo de
lucia-lima, para
esmagar e perfumar as mãos: e continuou para o Mirante,
vagarosamente,
por entre as dhalias apinhadas. Na allea, novamente ensaibrada, os
sapatos finos de verniz que calçára pousavam sem
rumor no saibro molle.
E assim, n'um silencio de sombra indolente, se acercou do Mirante—e
d'uma das janellinhas que, mal cerrada, conservava corrida por dentro a
persiana de taboinhas verdes. Rente d'essa janella era a escada de
pedra, que, do elevado e comprido terraço sobre que se
estendia o
jardim, communicava com a encovada rua das Tecedeiras, quasi em frente
á
Capella
das
Monicas. E Gonçalo, sem pressa, descia—quando,
atravez da
persiana rala, sentiu dentro do Mirante um susurro, um cochichar
perturbado. Sorrindo, pensou que alguma das creadas da casa se
refugiára
n'esse Templosinho de Amor com um dos sargentos terriveis de
Cavallaria... Mas, não! impossivel! Pois se, momentos antes,
Gracinha
roçára aquella janella e pisára
aquella escada, no seu caminho para as
Monicas! E então outra idéa o varou como uma
espada—e tão dolorosa que
recuou com terror da beira do Mirante d'onde ella perversamente o
assaltára. Já porém uma desesperada
curiosidade a agarrára, o
empurrava—e collou a face á persiana com a cautella d'um
espião. O
Mirante recahira em silencio—Gonçalo temia que o trahissem
as pancadas
do seu coração... Santo Deus! De novo o murmurio
recomeçára, mais
apressado, mais turbado. Alguem supplicava,
balbuciava:—«Não, não, que
loucura!»—Alguem urgia, impaciente e
ardente:—«Sim, meu amor! sim, meu
amor!» E a ambos os reconheceu—tão claramente
como se a persiana se
erguesse e por ella entrasse toda a vasta claridade do jardim. Era
Gracinha! Era o Cavalleiro!
Colhido por uma immensa vergonha, no atarantado pavor de que o
surprehendessem junto do Mirante e da torpeza escondida—enfiou pela rua
das
dhalias,
encolhido, com os sapatos leves no saibro molle, costeou o
repuxo por sob a ramaria dos arbustos, remergulhou na
escuridão dos
loureiros, deslisou surrateiramente por traz da estufa—penetrou no
socego do Palacete. Mas o murmurio do Mirante ainda o envolvia, mais
desfallecido, mais rendido—«Não, não,
que loucura!... Sim, sim, meu
amor!...»
Abalou atravez das salas desertas como uma sombra acossada; escorregou
abafadamente pela escadaria de pedra, varou o portão n'uma
carreira,
espreitando, com medo do Joaquim da Porta. No Largo parou, deante da
grade do relogio do sol. Mas o susuro do Mirante errava por todo o
Largo
como um vento enroscado, raspando as lages, batendo as barbas dos
Santos
sobre o portal da Egreja de S. Matheus, redemoinhando nos telhados
musgosos da Cordoaria...—«Não, não,
que loucura! Sim, sim! meu amor!»
Então Gonçalo sentiu a anciedade desesperada
d'escapar para longe, para
immensamente longe do Largo, do Palacete, da cidade, de toda aquella
vergonha que o trespassava. Mas uma carruagem?... Pensou na alquilaria
do Maciel, a mais retirada, para além das ultimas casas, na
estrada do
Seminario. E cosido com os muros baixos d'essas ruas pobres, correu,
mandou engatar uma caleche fechada.
Emquanto esperava á porta, n'um banco, passou pela estrada
uma lenta
carroça com moveis, panellas
de
cosinha, um grande
colxão onde se
alastrava uma nodoa. Bruscamente Gonçalo recordou o divan
que guarnecia
o Mirante. Era enorme, de mogno, todo coberto de riscadinho, com mollas
lassas que rangiam. E de repente o murmurio recomeçou,
cresceu, rolando
com fragor de trovão por sobre os casebres visinhos, por
sobre a cerca
do Seminario, por sobre Oliveira espantada:—«Não,
não, que loucura!
Sim, sim, meu amor!»
Com um salto, Gonçalo gritou para dentro, para a
cavallariça escura:
—Então, que inferno! não acaba, essa carroagem?
—Já a largar, meu Fidalgo.
No relogio da Piedade sete horas batiam—quando elle se atirou para a
caleche, e fechou as
stores pêrras, e
se enterrou no fundo,
bem
sumido, esmagado, com a sensação que o Mundo
tremera, e as mais fortes
almas se abatiam, e a sua Torre, velha como o Reino, rachava, mostrando
dentro um montão ignorado de lixo e de saias sujas.
IX
Á porta da cosinha, saccudindo um sobrescripto já
amarrotado, Gonçalo
ralhava com a Rosa cosinheira:
—Oh Rosa! pois tanto lhe recommendei que não escrevesse
á mana
Graça?... Que teimosa! Então não
arranjavamos a pequena, sem essas
lamurias para Oliveira? Graças a Deus, a Torre é
larga bastante para
mais uma creancinha!
É que morrera a Crispola—a desgraçada viuva,
visinha da Torre, que com
um rancho miudo de dous pequenos, tres raparigas, definhava no catre
desde a Paschoa. E agora Gonçalo, que mantivera o casebre em
fartura,
andava accommodando as pobres creanças—já por
cuidado d'elle muito
aceadamente vestidas de luto. A rapariga mais velha (tambem Crispola),
sempre encafuada na cosinha da Torre, passava
regularmente
a
«ajudanta
da Rosa», com soldada. Um dos rapazes, de doze annos,
espigado e
esperto, tambem Gonçalo o empregava na Torre como andarilho,
para os
recados, com fardeta de botões amarellos. O outro, molle e
ranhoso, mas
com o geito e o amor de carpinteirar, já Gonçalo,
sob o patrocinio da
tia Louredo, o collocára em Lisboa, na Officina de S.
José. D'uma das
outras raparigas se encarregava a mãe de Manoel Duarte,
amoravel senhora
que habitava uma quinta formosa junto a Treixedo, e adorava
Gonçalo de
quem se considerava «
vassalla».
Mas para a mais
novinha e a mais
fraquinha não se arranjava amparo solido. A Rosa
lembrára então—«que
certamente a Snr.
a D. Maria da Graça
recolheria a
creaturinha...»
Gonçalo rosnára com seccura:—«Oh! por
uma côdea mais de pão não se
necessita encommodar a
cidade d'Oliveira!»
Rosa,
porém, enlevada na
obra, desejando para pequerrucha tão franzina e loira o
agasalho d'uma
senhora, escrevera a Gracinha, pela esmerada lettra do Bento, uma
verbosa carta com o pedido, e toda a historia lamentosa da Crispola, e
louvores devotos á caridade do Snr. Doutor. E era a resposta
de
Gracinha, demorada mas enternecida, com a
recommendação «de lhe mandarem
logo a pobre creança»—que impacientava o Fidalgo.
Por que, desde a tarde abominavel do Mirante,
estranhamente
se
apoderára
d'elle uma repugnancia quasi pudica em communicar com os Cunhaes! Era
como se esse Mirante e a torpeza abrigada dentro das suas paredes
côr de
rosa empestassem o jardim, o palacete, o Largo d'El-Rei, toda a cidade
d'Oliveira, e elle agora, por aceio moral, recuasse ante essa
região
empestada onde o seu coração e o seu orgulho
suffocavam... Logo depois
da sua fuga recebera do bom Barrôlo uma carta
espantada:—«Que têlha foi
essa? Porque não esperaste? Eu, quando voltei á
noite da quinta do
Marges, até fiquei com cuidado. E não imaginas
como a Gracinha anda
nervosa! Soubemos da partida, por acaso, por um cocheiro do Maciel.
Já
hoje comemos os pêcegos, mas não
comprehendemos!...»—Gonçalo respondeu
seccamente n'um bilhete:—«Negocios». Depois
recordou que deixára na
gaveta do seu quarto o manuscripto da Novella: e mandou um
moço da
quinta, de madrugada, com um recado quasi secreto ao Padre Sueiro,
«para
que entregasse a pasta ao portador, bem embrulhada, sem contar aos
senhores...» Entre a Torre e os Cunhaes só
desejava separação e
silencio.
E nos encerrados dias que passou na Torre (sem se arriscar a
Villa-Clara, no terror de que a vergonha do seu nome já
andasse rosnada
pelo estanco do Simões ou pelo armazem do Ramos)
não cessou de vibrar
n'uma colera espalhada que a todos
varava...
Colera contra a
irmã que,
calcando pudor, altivez de raça, receio dos escarneos
d'Oliveira, tão
facil e estouvadamente como se calcam as flôres desbotadas
d'um tapete,
correra ao Mirante, ao macho da bigodeira, apenas elle lhe
acenára com o
lenço almiscarado! Colera contra o Barrôlo, o
bochechudo bacôco, que
empregava os seus bacôcos dias celebrando o Cavalleiro,
arrastando o
Cavalleiro para o Largo d'El-Rei, escolhendo na adega os vinhos mais
finos para que o Cavalleiro aquecesse o sangue, ageitando as almofadas
de todos os camapés para que o Cavalleiro saboreasse
estiradamente o seu
charuto e a graça presente de Gracinha! Emfim colera contra
si, que,
pela baixa cubiça de uma cadeira em S. Bento, abatera a
unica muralha
segura entre a irmã e o homem da marrafa lusente—que era a
sua
inimizade, aquella escarpada inimizade, sempre, desde Coimbra,
tão
rijamente reforçada e recaiada!... Ah! todos tres
horrendamente
culpados!
Depois uma tarde, enfastiado da solidão, ousou um passeio
por
Villa-Clara. E reconheceu que na Assembleia, no estanco do
Simões, na
loja do Ramos, os amores de Gracinha eram certamente tão
ignorados como
se passassem nas profundidades da Tartaria. Immediatamente a sua alma
doce, agora socegada, se abandonou á doçura de
tecer desculpas subtis
para todos os culpados d'aquella queda
triste...
Gracinha, coitada, sem
filhos, com tão mollengo e ensosso marido, alheia a todos os
interesses
da intelligencia, indolente mesmo para uma costura ou
bordado—cedêra,
que mulher não cederia? á credula e primitiva
paixão que lhe brotára na
alma, n'ella se enraizára, lhe déra as suas
unicas alegrias do mundo e
(influencia ainda mais poderosa!) lhe arrancára as suas
unicas lagrimas!
O Barrôlo, coitado, era o Bacôco—e como o
«pilriteiro» da cantiga,
incapaz de mais nobres fructos, só produzia os
«pilritos» da sua
Bacoquice. E elle, coitado d'elle, pobre, ignorado, irresistivelmente
se
rendera á fatal Lei d'Accrescentamento, que o
levára, como a todos leva
na ancia de fama e fortuna, a furar precipitadamente pela porta casual
que se abre, sem reparar na estrumeira que atravanca os humbraes... Ah
realmente todos bem pouco culpados deante de Deus que nos creou
tão
variaveis, tão frageis, tão dependentes de
forças por nós ainda menos
governadas do que o Vento ou do que o Sol!
Não, irremissivelmente culpado,—só o outro, o
malandro da grenha
ondeada! Esse, em toda a sua conducta com Gracinha, desde estudante,
mostrára sempre um egoismo atrevido, só punivel
como puniam os antigos
Ramires, com a morte depois dos tormentos, e a carcassa posta aos
corvos. Em quanto lhe agradou, na ociosidade dos longos estios, um
namoro
bocolico
sob os arvoredos da Torre—namorára. Quando
considerou
que uma mulher e filhos lhe atravancariam a vida ligeira—trahira. Logo
que a antiga bem amada pertenceu a outro
homem—recomeçára o cerco
languido para colher, sem os encargos da paternidade, as
emoções do
sentimento. E apenas esse marido lhe entreabre a sua
porta—não se
demora, fende brutamente sobre a preza! Ah como o avô
Tructesindo
trataria villão de tal villania! Certamente o assava n'uma
rugidora
fogueira deante das barbacans—ou, nas masmoras da Alcaçova,
lhe entupia
as guellas falsas com bom chumbo derretido...
Pois elle, neto de Tructesindo, nem sequer podia, quando encontrasse o
Cavalleiro nas ruas d'Oliveira, carregar o chapeu sobre a testa e
passar! A menor diminuição n'essa intimidade
tão desastradamente
reatada—seria como a revelação da torpeza ainda
abafada nas paredes do
Mirante! Toda Oliveira cochicharia, riria.—«Olha o Fidalgo
da Torre!
Mette o Cavalleiro nos Cunhaes com a irmã, e logo, passadas
semanas,
rompe de novo com o Cavalleiro! Houve escandalo, e
gordo!»—Que delicia
para as Lousadas! Não, ao contrario! agora devia ostentar
pelo
Cavalleiro uma fraternidade tão larga e tão
ruidosa—que, pela sua
largueza e o seu ruido, inteiramente tapasse e abafasse o sujo enredo
que por
traz
latejava. Fingimento torturante—e imposto pela honra do
nome! O sujo enredo bem guardado entre os mais densos arvoredos do
jardim, na mais cerrada penumbra do Mirante!—e por fóra, ao
sol, nas
praças d'Oliveira elle sempre com o braço
carinhosamente enlaçado no
braço do Cavalleiro!
Os dias rolavam—e no espirito de Gonçalo não se
estabelecia serenidade.
E sobretudo o amargurava sentir que era forçado a essa
intimidade
vistosa com o Cavalleiro—tanto pelo cuidado do seu nome, como pela
conveniencia da sua Eleição. Toda a sua altivez
por vezes se
revoltava:—«Que me importa a Eleição!
Que valor tem uma encardida
cadeira em S. Bento?...» Mas logo a secca Realidade o
emmudecia. A
Eleição era a unica fenda por onde elle lograria
escapar do seu buraco
rural; e, se rompesse com o Cavalleiro, esse villão, vezeiro
a
villanias, immediatamente, com o appoio da horda intrigante de Lisboa,
improvisaria outro Candidato por Villa-Clara...
Desgraçadamente elle era
um d'esses seres vergados que
dependem. E a
triste dependencia d'onde
provinha? Da pobreza—d'essa escassa renda de duas quintas,
abastança
para um simples, mas pobreza para elle, com a sua
educação, os seus
gostos, os seus deveres de fidalguia, o seu espirito de sociabilidade.
E estes pensamentos lenta e capciosamente o
empurraram
a outro
pensamento—á D. Anna Lucena, aos seus duzentos contos...
Até que uma
manhã encarou corajosamente uma possibilidade
perturbadora:—casar com a
D. Anna!—Por que não? Ella claramente lhe
mostrára inclinação, quasi
consentimento... Por que não casaria com a D. Anna?
Sim! o pae carniceiro, o irmão assassino... Mas tambem elle,
entre
tantos avós até aos Suevos ferozes, descortinaria
algum avô carniceiro;
e a occupação dos Ramires, atravez dos seculos
heroicos, consistira
realmente em assassinar. De resto o carniceiro e o assassino, ambos
mortos, sombras remotas, pertenciam a uma Lenda que se apagava. D.
Anna,
pelo casamento, subira da Populaça para a Burguesia. Elle
não a
encontrava no talho do pae, nem no velhacouto do irmão—mas
na quinta da
Feitosa, já Rica-Dona, com procurador,
com
capellão, com lacaios, como
uma antiga Ramires. Ah! sinceramente, toda a
hesitação era pueril—desde
que esses duzentos contos, de dinheiro muito limpo, de bom dinheiro
rural, os trazia com o seu corpo, mulher tão formosa e
séria. Com esse
puro ouro, e o seu nome, e o seu talento, não necessitaria
para dominar
na Politica a refalsada mão do Cavalleiro... E depois que
vida nobre e
completa! A sua velha Torre restituida ao esplendor sobrio d'outras
eras; uma lavoura de luxo no historico torrão de Treixedo;
as
viagens
fecundas ás terras que educam!... E a mulher que fornecia
estes regalos
não lhes amargava o goso, como em tantos casamentos ricos,
com a sua
fealdade, os seus agudos ossos, ou a sua pelle relentada...
Não! Depois
do brilho social do dia não o esperava na alcova um
mostrengo—mas
Venus.
E assim, lentamente trabalhado por estas
tentações, mandou uma tarde um
bilhete á prima Maria, á
Feitosa,
pedindo—«para se encontrarem, sós,
n'algum passeio dos arredores, por que desejava ter com ella uma
conversasinha séria e
intima...» Mas tres
immensos dias se
arrastaram—e não appareceu a almejada carta da
Feitosa.
Gonçalo
concluiu que a prima Maria, tão esperta, farejando a
natureza da
conversasinha e sem uma certeza para o alegrar,
retardava, se
recusava. Atravessou então uma desolada semana, remoendo a
melancolia
d'uma vida que sentia ôca e toda feita d'incertezas. O
orgulho, um pudor
complicado, não lhe consentiam voltar a Oliveira, ao quarto
d'onde
implacavelmente avistaria, por sobre o arvoredo, a cupula do Mirante
com
o seu gordo Cupido:—e quasi o arrepiava a idéa de beijar a
irmã na face
que o outro babujára! Sobre a Eleição
descera um silencio de abobada—e
outra repugnancia, mais acerba, lhe vedava escrever ao Cavalleiro.
João
Gouveia gozava as suas férias na Costa, de sapatos brancos,
apanhando
conchinhas
na
praia. E Villa-Clara não se tolerava n'esse
meado ardente
de Septembro—com o Titó no Alemtejo onde o
levára uma doença do velho
Morgado de Cidadelhe, o Manoel Duarte na quinta da mãe
dirigindo as
vindimas, e a Assembleia deserta e adormecida sob o innumeravel susurro
das moscas...
Para se occupar e atulhar as horas, mais que por dever ou gosto d'Arte,
retomou a sua Novella. Mas sem fervor, sem veia agil. Agora era a
sanhuda arrancada de Tructesindo e dos seus cavalleiros, correndo sobre
o Bastardo de Bayão. Lance difficultoso—reclamando fragor,
um
rebrilhante colorido Medieval. E elle tão molle e
tão apagado!...
Felizmente, no seu Poemeto, o Tio Duarte recheára esse
violento trecho
de bem apinceladas paisagens, d'interessantes rasgos de guerra.
Logo na Ribeira do Coice, Tructesindo encontrava cortada a machado a
decrepita ponte, cujos rotos barrotes e taboões carcomidos
entulhavam no
fundo a corrente escassa. Na sua fuga o Bastardo acautelladamente a
desmantelára para deter a cavalgada vingadora.
Então a pesada hoste de
Santa Ireneia avançou pela esguia ourela, ladeando os
renques de choupos
em demanda do vau do Espigal... Mas que tardança! Quando as
derradeiras
mulas de carga
choutaram na terra d'além-ribeira
já a tarde se adoçava,
e nas poças d'agua, entre as poldras, o brilho esmorecia,
umas ainda
d'ouro pallido, outras apenas rosadas. Immediatamente Dom Garcia
Viegas,
o
Sabedor, aconselhou que a mesnada se
dividisse:—a peonagem e a
carga avançando para Montemor, esgueirada e callada, para
esquivar
recontros; os senhores de lança e os besteiros de cavallo
arrancando em
dura carreira para colher o Bastardo. Todos louvaram o ardil do
Sabedor: e a cavalgada, aligeirada das filas
tardas
de archeiros e
fundibularios, largou, soltas as rédeas, atravez de terras
ermas, depois
por entre barrocaes, até aos
Tres-Caminhos,
desolada chan
onde se
ergue solitariamente aquelle carvalho velhissimo que outr'ora, antes
d'exorcisado por S. Froalengo, abrigava no sabbado mais negro de
Janeiro, ao clarão d'archotes enxofrados, a Grande Ronda de
todas as
bruchas de Portugal. Junto do carvalho Tructesindo sopeou a arrancada:
e, alçado nos estribos, farejava as tres sendas que se
trifurcam e se
encovam entre asperos, lobregos cerros de bravio e de tojo.
Passára ahi
o Bastardo malvado?... Ah! por certo passára e toda a sua
maldade—porque no respaldo d'uma fraga, junto a tres cabras magras
retouçando o matto, jazia, com os braços abertos,
um pobre pastorinho
morto, varado por uma frecha! Para que o
triste
cabreiro não
soprasse
novas da gente de Bayão—uma bruta setta lhe
atravessára o peito
escarnado de fome, mal coberto de trapos. Mas por qual das sendas se
embrenhára o malvado? Na terra solta, raspada pelo vento
suão que rolava
d'entre-montes, não appareciam pegadas revoltas de tropel
fugindo. E, em
tal solidão, nem choça ou palhoça
d'onde villão ou velha alapada
espreitassem a levada do bando... Então, ao mando do Alferes
Affonso
Gomes, tres almogavres despediram pelos tres caminhos á
descoberta—em
quanto os Cavalleiros, sem desmontar, desafivelavam os
morriões para
limpar nas faces barbudas o suor que os alagava, ou abeiravam os
ginetes
d'um sumido fio d'agua que á orla da chan se arrastava entre
ralo
caniçal. Tructesindo não se arredou de sob a
ramada do carvalho de S.
Froalengo, immovel sobre o murzello immovel, todo cerrado no ferro da
sua negra armadura, as mãos juntas sobre a sella e o elmo
pesadamente
inclinado como em magua e oração. E ao lado, com
as colleiras errissadas
de prégos, as sangrentas linguas penduradas, arquejavam,
estirados, os
seus dous mastins.
Já no emtanto a espera se alongava, inquieta,
enfadonha—quando o
almogavre que mettera pela senda de Nascente reappareceu n'um rolo de
poeira, atirando logo o alarde de longe, com a ascuma
alta. A hora
escassa de carreira avistára num cabeço uma hoste
acampada, em arraial
seguro, rodeado d'estaca e valla!...
—Que pendão?
—As treze arruellas.
—Deus louvado! gritou Tructesindo, que estremeceu como acordando.
É D.
Pedro de Castro,
o Castellão, que
entrou com os Leonezes e
vem pelas
senhoras Infantas!
Por esse caminho pois não se atrevera o Bastardo!... Mas
já pela senda
de Poente recolhia outro almogavre contando que entre-cerros, n'um
pinhal, topára um bando de bufarinheiros genovezes,
retardados desde
alva, por que um d'elles esmorecera com mal de febres. E
então?...—Então, pela borda do pinheiral apenas
passára em todo o dia
(no jurar dos genovezes) uma companhia de truões voltando da
feira de
Grajelos. Só restava pois o trilho do meio, pedregoso e
esbarrancado
como o leito enxuto d'uma torrente. E por elle, a um brado de
Tructesindo, tropeou a cavalgada. Mas já o crepusculo
tristissimo
descia—e sempre o caminho se estirava, agreste, soturno, infindavel,
entre os cerros de urze e rocha, sem uma cabana, um muro, uma sebe,
rasto de rez ou homem. Ao longe, mais ao longe, emfim, enchergaram a
campina arida, coberta de solidão e penumbra, dilatada
na
sua mudez até
a um ceu remoto, onde já se apagava uma derradeira tira de
poente côr de
cobre e côr de sangue. Então Tructesindo deteve a
abalada, rente
d'espinheiros que se torciam nas lufadas mais rijas do suão:
—Por Deus, senhores, que corremos em pressa vã e sem
esperança!... Que
pensaes, Garcia Viegas?
Todo o bando se apinhára: e uma fumarada subia dos ginetes
arquejantes
sob as coberturas de malha. O
Sabedor estendeu o
braço:
—Senhores! O Bastardo, antes de nós, galgou d'escapada essa
campina
além, e metteu a Valle-Murtinho para pernoitar na Honra de
Agredel, que
é bem afortalezada e parenta de Bayão...
—E nós, pois, D. Garcia?
—Nós, senhores e amigos, só nos resta tambem
pernoitar. Voltemos aos
Tres-Caminhos. E de lá, em boa
avença, ao
arraial do Snr. D. Pedro de
Castro, a pedir agasalho... A par de tamanho senhor encontraremos mais
fartamente que nos nossos alforges o que todos, christãos e
brutos,
vamos necessitando, cevada, um naco de vianda, e de vinhos tres golpes
rijos...
Todos bradaram com alvoroço:—«Bem
traçado! bem traçado!...»—E de novo,
pelo barranco pedregoso, a cavalgada trotou pezadamente para os
Tres-Caminhos—onde já dous corvos se
encarniçavam sobre o corpo do
pastorinho morto.
Em breve, ao cabo do caminho do Nascente, no cabeço alto,
alvejaram as
tendas do arraial, ao clarão das fogueiras que por todo elle
fumegavam.
O Adail de Santa Ireneia arrancou da bosina tres sons lentos
annunciando
Filho-d'Algo. Logo de dentro da estacada outras businas soaram, claras
e
acolhedoras. Então o Adail galopou até ao
vallado, a annunciar ás
atalaias postadas nas barreiras, entre luzentes fogos d'almenara, a
mesnada amiga dos Ramires. Tructesindo parára no corrego
escuro, que o
pinheiral cerrado mais escurecia movendo e gemendo no vento. Dous
cavalleiros, de sobreveste negra e capuz, logo correram pelo pendor do
outeiro—bradando que o Snr. D. Pedro de Castro esperava o nobre senhor
de Santa Ireneia e muito se prazia para todo seu regalo e
serviço!
Silenciosamente Tructesindo desmontou; e com D. Garcia Viegas, e Leonel
de Çamora e Mendo de Briteiros e outros parentes de solar,
todos sem
lança ou broquel, descalçados os guantes,
galgaram o cabeço até á
estacada, cujas cancellas se escancararam, mostrando na claridade
incerta dos fogareus sombrios magotes de peões—onde, por
entre os
bassinetes de ferro, surdiam toucas amarellas de mancebas e gorros
enguisalhados de jograes. Apenas o velho assomou aos barrotes dous
infanções, sacudindo a espada, bradaram:
—Honra! honra! aos Ricos-Homens de Portugal!
As trompas misturavam o clangor rispido aos rufos lassos dos tambores.
E
por entre a turba, que calladamente recuára em alas lentas,
avançou,
precedido por quatro cavalleiros que erguiam archotes accesos, o velho
D. Pedro de Castro,
o Castellão, o
homem das longas
guerras e dos
vastos senhorios. Um corselete d'anta com lavores de prata cinjia o seu
peito já curvado, como consumido por tamanhas fadigas de
pelejar e
tamanhas cubiças de reinar. Sem elmo, sem armas, appoiava a
mão
cabelluda de rijas veias a um bastão de marfim. E os olhos
encovados
faiscavam, com affavel curiosidade, na requeimada magreza da face, de
nariz mais recurvo que o bico d'um falcão, repuxada a um
lado por um
fundo gilvaz que se sumia na barba crespa, aguda e quasi branca.
Deante do senhor de Santa Ireneia alargou vagarosamente os
braços. E com
um grave riso que mais lhe recurvou, sobre a barba espetada, o nariz de
rapina:
—Viva Deus! Grande é a noite que vos traz, primo e amigo!
Que não a
esperava eu de tanta honra, nem sequer de tanto gosto!...
Ao rematar este
duro Capitulo, depois de tres manhãs de
trabalho,
Gonçalo arrojou a penna com um suspiro de
cansaço. Ah! já lhe entrava a
fartura d'essa interminavel Novella, desenrolada como um novello
solto—sem que elle lhe podesse encurtar os fios, tão
cerradamente os
emmaranhára no seu denso Poema o Tio Duarte que elle seguia
gemendo! E
depois nem o consolava a certeza de construir obra forte. Esses
Tructesindos, esses Bastardos, esses Castros, esses
Sabedores,
eram
realmente varões Affonsinos, de solida substancia
historica?... Talvez
apenas oucos titeres, mal engonçados em erradas armaduras,
povoando
inveridicos arraiaes e castellos, sem um gesto ou dizer que datassem
das
velhas edades!
E ao outro dia não reuniu em todo o seu ser coragem para
retomar aquella
sofrega correria dos de Santa Ireneia sobre o bando
escapadiço de Bayão.
De resto já remettera tres Capitulos da
Novella—já calmára as ancias do
Castanheiro. Mas a ociosidade mais lhe pesou n'essa semana, arrastada
pelos canapés ou por entre os buxos do jardim, fumando e
tristemente
sentindo que a Vida lhe fugia em fumo. Para o enervar accrescia um
aborrecimento de dinheiro—uma lettra de seiscentos mil
réis, do
derradeiro anno de Coimbra, sempre reformada, sempre
avolumada, e que
agora o emprestador, um certo Leite, d'Oliveira, reclamava com dureza.
O
seu alfaiate de Lisboa tambem o importunava com uma conta pavorosa,
atulhando duas laudas. Mas sobretudo o desolava a solidão da
Torre.
Todos os alegres amigos dispersos pela beira-mar ou nas quintas. A
Eleição encalhada como uma barca no lodo. A
irmã de certo com o
outro
no Mirante. Até a prima Maria desattendendo ingratamente o
seu timido
pedido d'uma «conversasinha.» E elle no seu quente
casarão, sem energia,
immobilisado n'uma inercia crescente, como se cordas o travassem, cada
dia mais apertadas—e d'homem se volvesse em fardo.
Uma tarde no seu quarto, vagaroso e sombrio, sem mesmo parolar com o
Bento, acabava de se vestir para montar a cavallo, espairecer n'um
galope pelos caminhos de Valverde—quando o pequeno da Crispola
(já
estabelecido na Torre como pagem, de fardeta de botões
amarellos) bateu
esbaforidamente á porta.—Era uma senhora que
parára ao portão, dentro
d'uma carruagem, pedia ao Fidalgo para descer...
—Não disse o nome?
—Não, senhor. É uma senhora magra, puxada a dous
cavallos, com redes...
A prima Maria! Com que alvoroço correu, agarrando no cabide
do corredor
um velho chapeu de
palha!
E em baixo foi como se contemplasse a Deusa
da
Fortuna na sua roda ligeira.
—Oh prima Maria, que surpreza!... Que felicidade!
Debruçada da portinhola da carruagem (a caleche azul da
Feitosa), D.
Maria Mendonça, com um chapeu novo enramalhetado de lilazes,
desculpou
atrapalhadamente e rindo o seu silencio. Recebera a carta do primo
muito
atrasada... Sempre o fatal carteiro, tropego e bebedo... Depois uns
dias
muito atarefados em Oliveira com a Annica, que preparava para o inverno
a casa da rua das Vellas.
—E finalmente, como devia uma visita em Villa-Clara á pobre
Venancia
Rios, que tem estado doente, achei mais simples e mais completo parar
na
Torre... E então?
Gonçalo sorria, embaraçado:
—Então, nada de grave, mas... É que desejava
conversar comsigo... Por
que não entra?
Abrira a portinhola. Ella preferia passear na estrada. E ambos
s'encaminharam para o velho banco de pedra que os alamos abrigavam em
frente ao portão da Torre. Gonçalo sacudiu com o
lenço a ponta do banco.
—Pois, prima Maria, eu desejava conversar... Mas é
difficil, tão
difficil!... Talvez o melhor seja atacar a questão
brutalmente.
—Ataque.
—Então lá vae!... A prima acha que eu perco o
meu tempo se me dedicar á
sua amiga D. Anna?
Pousada de leve á borda do banco, enrolando attentamente a
seda preta do
guardasolinho, Maria Mendonça tardou, murmurou:
—Não, acho que o primo não perde o seu tempo...
—Ah! acha?
Ella considerava Gonçalo, gozando a sua
perturbação e anciedade.
—Jesus, prima!... Diga alguma cousa mais!
—Mas que quer que lhe diga mais? Já lhe declarei em
Oliveira. Ainda sou
muito nova para andar com recadinhos de sentimento. Mas acho que a
Annica é bonita, é rica, é viuva...
Gonçalo arrancou do banco, erguendo os braços, em
desolação. E, como D.
Maria tambem se erguera, ambos seguiram pela tira de relva que orla os
alamos. Elle quasi gemia, desconsolado:
—Ora bonita, viuva, rica... Para conhecer esses grandes segredos
não a
incommodava eu, prima!... Que diabo! seja boa rapariga, seja franca! A
prima sabe, de certo já ambas conversaram... Seja franca.
Ella tem por
mim alguma sympathia?
D. Maria parou, murmurou, riscando com a ponta do guardasolinho o
trilho
amarellado da relva:
—Pois está claro que tem...
—Bravo! Então, se d'aqui a um tempo, passados estes
primeiros mezes de
luto, eu me declarasse, me...
Ella dardejou a Gonçalo os espertos olhos:
—Santo Deus, como o primo por ahi vae, a galope... Então
é uma paixão?
Gonçalo tirou o seu velho chapeu de palha, passou lentamente
os dedos
pelos cabellos. E n'um immenso e triste desabafo:
—Olhe, prima! É sobretudo a necessidade de me accommodar na
vida! Pois
não lhe parece?
—Tanto me parece que lhe indiquei o bom poizo... E agora adeus, passa
das cinco horas. Não me quero demorar por causa dos creados.
Gonçalo protestou, supplicou:
—Mais um bocadinho!... É tão cedo! Só
outra cousa, com franqueza. Ella
é boa rapariga?
D. Maria voltára, ao cabo do renque d'alamos, recolhendo
á caleche:
—Uma pontinha de genio, para animar a existencia. Mas muito boa
rapariga... E uma dona de casa admiravel! O primo não
imagina como anda
a
Feitosa. A ordem, o acceio, a regularidade, a
disciplina... Ella
olha por tudo, até pela adega, até pela cocheira!
Gonçalo esfregou radiantemente as mãos:
—Pois se d'aqui a um anno se realisar o grande
acontecimento
hei de
gritar por toda a parte que foi a prima Maria que salvou a casa de
Ramires!
—Por isso eu trabalho, para servir o brazão e o nome!
exclamou ella,
saltando ligeiramente para a caleche, como se fugisse, arremessada
aquella clara confissão.
O trintanario trepára á almofada. E em quanto os
cavallos folgados
largavam, aos corcovos, D. Maria ainda gritou:
—Sabe quem encontrei em Villa Clara? O Titó!
—O Titó?...
—Chegou do Alemtejo, vem jantar comsigo. Eu não o trouxe na
carruagem
por decencia, para o não comprometter...
E a caleche rolou—entre os risos e os doces acenos com que ambos se
afagavam, n'aquella nova concordancia mais calorosa d'uma
conspiração
sentimental.
Gonçalo largou logo alegremente para Villa-Clara, ao
encontro do Titó. E
já o alvoroçava a idéa de colher do
Titó, intimo da
Feitosa,
informações sobre a D. Anna, o seu genio, os seus
modos. A prima Maria,
por amor dos Ramires (sobretudo, coitada, para proveito dos
Mendonças!),
idealisava a noiva. Mas o Titó, o homem mais veridico do
Reino, amando a
Verdade com a antiga devoção de Epaminondas,
apresentaria D. Anna sem um
enfeite nem um desenfeite.
E
o Titó... Ah! sob o seu
vozeirão troante, a
sua indolencia bovina, o Titó possuia um espirito muito
attento, muito
penetrante.
Logo á Portella os dous amigos s'encontraram. E, apesar de
separação tão
curta, o abraço foi estrondoso.
—Oh sô Gonçalão!...
—Oh Titósinho querido! tens feito cá uma falta
enorme!... E teu irmão?
O mano melhor, mas arrasado. Muito cartapacio e muito fêmea
para velho
de sessenta annos. E elle lá o
avisára:—«Mano João, mano
João! olhe que
assim sempre agarrado aos papeis velhos e ás cachopas novas,
o mano
rebenta!»
—E por cá? Essa eleição?
—A eleição agora para outubro, nos
começos d'outubro... De resto,
semsaboria universal. Gouveia na Costa, Manoel Duarte na vindima... Eu
seccadote, murchote, sem veia, até sem appetite.
—Olha que eu venho jantar e convidei o Videirinha.
—Bem sei, já me disse a prima Maria, que parou um bocado na
Torre...
Ella está na
Feitosa com a D. Anna.
Durante um momento repisou sobre a intimidade da prima Maria na
Feitosa, com a tentação de
desabafar, logo alli
na estrada, sobre o
inesperado
romance
que desabrochára. Mas não
ousou! Era um angustiado
acanhamento, como a vergonha de cubiçar assim todos os
restos do pobre
Lucena—o Circulo e a viuva.
Então, conversando do Alemtejo e do mano João
(que contára muitas
antigualhas massadoras sobre a genealogia dos Ramires), desceram da
Portella á Torre, com tenção de
estirar o passeio até aos Bravaes. Mas,
na Torre, Gonçalo desejou avisar a Rosa dos dous convivas
inesperados,
senhores de tão poderoso garfo. Entraram pela porta do pomar
onde um fio
lento d'agoa s'atardava nos regueiros. Aos brados galhofeiros do
Fidalgo
a Rosa accudio, limpando as mãos ao avental. O que! dous
convidados!
Mesmo quatro, e mais valentes, que graças a Deus nosso
Senhor o
jantarinho sobrava! Ainda de tarde comprára a uma mulher da
Costa um
cesto de sardinhas, graudas e gordas que regalavam!... O
Titó reclamou
logo uma fritada tremenda de sardinha e ovos. E os dois amigos
atravessavam o pateo—quando Gonçalo reparou no Bento,
escarranchado no
banco da latada, deante d'uma tigella, e areando com enthusiasmo um
castão de prata lavrada, que emergia de dentro d'uma toalha
enrolada
como d'uma bainha.
—Que castão é esse, Bento? assim embrulhado?
O Bento lentamente saccou da toalha torcida
um
chicote, escuro e
comprido, com tres arestas afiadas como as d'um florete.
—Nem o Snr. Dr. sabia! Estava no sotão. Agora de tarde
andava lá a
escarafunchar por causa d'uma ninhada de gatos, e detraz d'um bahu dou
com umas esporas de prateleira e com este arrôcho...
Gonçalo estudou o macisso castão de prata,
sacudio a fina vara que
zinia:
—Explendido chicote... Oh Titó, hein?... Afiado como um
cutello. E
antigo, muito antigo, com as minhas armas... De que diabo é
feito?
baleia?
—De cavallo-marinho... Uma arma terrivel. Mata um homem... O mano
João
tem um, mas com castão de metal... Mata um homem!
—Bem, rematou Gonçalo. Limpa e põe no meu
quarto, Bento! Passa a ser o
meu chicote de guerra!
Á porta do pomar ainda encontraram o Pereira da Riosa, de
quinzena de
cutim deitada aos hombros. Em breve, no dia de S. Miguel, o Pereira
tomava emfim a lavra da Torre. E Gonçalo gracejou, mostrando
ao Titó o
lavrador famoso. Eis o homem! eis o grande homem que se preparava a
tornar a Torre uma fallada maravilha de ceára, vinha e
horta! O Pereira
coçava a barba rala:
—E tambem a enterrar bom dinheiro! Emfim um gosto sempre valeu mais que
um vintem! E o Fidalgo, como patrão, merece terra em que os
olhos se
esqueçam de regalados!...
—Oh, Snr. Pereira! rebombou o Titó. Então
não se esqueça de cuidar dos
melões. É uma vergonha! Nunca na Torre se comeu
um bom melão!
—Pois para o anno, assim Deus nos conserve, já V. Ex.
a
comerá na Torre
um bom melão!
Gonçalo abraçou ainda o esperto lavrador—e
apressou para a estrada,
decidido a desenrolar toda a confidencia ao Titó, na
solidão favoravel
do arvoredo dos Bravaes. Mas, apenas recomeçaram a
caminhada, o mesmo
enleio o travou—quasi temendo agora as
informações do Titó, homem
tão
sevéro, de Moral tão escarpada. E todo o demorado
giro pelos Bravaes o
findaram sem que Gonçalo desafogasse. O crepusculo descera,
molle e
quente, quando recolheram—conversando sobre a pesca do savel no
Guadiana.
Defronte do portão da Torre Videirinha esperava, dedilhando
o violão na
penumbra dos alamos. Como a noite se conservava abafada, sem uma
aragem,
jantaram na varanda, com dous candieiros accesos. Logo ao desdobrar o
guardanapo o Titó, vermelho e espraiado sobre a cadeira,
declarou «que
graças ao Senhor da Saude, a sede era boa!» Elle e
Gonçalo praticaram as
usadas façanhas de garfo e de copo. Quando o Bento servio o
café uma
immensa e lustrosa lua nova surgia, ao fundo da quinta escura, por traz
dos outeiros de Valverde. Gonçalo, enterrado n'uma cadeira
de vime,
accendeu
o
charuto com beatitude. Todos os tedios e incertezas d'essas
semanas se despegavam da sua alma como cinza apagada, brevemente
varrida. E foi sentindo menos a doçura da noite, que um
sabor melhor á
vida desanuviada, que exclamou:
—Pois, senhores, agora, está uma delicia!...
Videirinha, depois d'um curto cigarro, retomára o
violão. Atravez da
quinta, pedaços de muros caiados, algum trilho de rua mais
descoberto, a
agua do Tanque-Grande, rebrilhavam ao luar que resvalava dos cerros; e
a
quietação do arvoredo, da claridade, da noite,
penetravam n'alma com
adormecedora caricia. Titó e Gonçalo saboreavam o
famoso cognac de
Moscatel, preciosa antigualha da Torre, silenciosamente enlevados no
Videirinha—que recuára para o fundo da varanda, se
envolvera em sombra.
Nunca o bom cantador ferira as cordas com
inspiração mais enternecida.
Até os campos, o ceu inclinado, a lua cheia sobre as
collinas, escutavam
os queixumes do
fado da Ariosa. E no escuro, sob
a varanda, o pigarro
da Rosa, os passos abafados dos creados, algum sumido riso de rapariga,
o bater das orelhas d'um perdigueiro—eram como a presença
d'um povo
suavemente attrahido pelo descante formoso.
Assim a noite se alongou, a lua subio com solitario
fulgor.
Titó, pesado
do brodio, adormecêra. E como sempre, para findar, Videirinha
atacou
ardentemente o
Fado dos Ramires: