V.



Pelos que se não dispõem como devem para receber o SS. Sacramento.


P. N. A. M. G. P.



VI.



Pelos Sacerdotes que Celebram sem pureza de consciencia. P. N. A. M. G. P.



OFFERECIMENTO DA ESTAÇÃO.



Acceitae meu amorosissimo e divino Senhor Sacramentado, estes humildes obsequios e desejos da minha alma; seja o vosso excessivo amor o que dê a tudo aquella efficacia de que preciza para se conseguir o precioso fim das minhas deprecações, e da vossa benefica vontade que é a salvação dos homens, e o viver com elles em eterna gloria por toda a eternidade.


Rogo-vos, meu Deus e Senhor, por todos os peccadores para que venham ao caminho da penitencia e nunca delle se affastem. Rogo-vos pelo augmento e pela paz da vossa Santa Igreja Catholica Apostolica Romana, por todos os seus Pastores que a governam pela união e fidelidade dos Principes da terra pelo allivio das almas que estão no purgatorio, pela perseverança dos justos, por todas as necessidades espirituaes e temporaes d'este reino e de todos os seus habitantes. Rogo-vos Senhor emfim que do alto do vosso Throno lanceis a vossa benção a todos os filhos da vossa Igreja. Amen.




EXERCICIO PARA ANTES E DEPOIS DA CONFISSÃO E COMMUNHÃO.



ORAÇÃO

Para antes da Confissão.



Clementissimo Senhor meu Jesu Christo, aqui vem já contrito a vossos Divinos pés este peccador ingrato, este filho prodigo, e arrependido. Desejára, Senhor, confessar minhas culpas penetrado da mais perfeita contrição, e lavar as manchas da minha alma com o vosso Sangue preciosissimo; mas como de mim nada posso em ordem á minha salvação, a quem heide recorrer, meu bom Jesus, senão a vós, que sois o meu singular refugio, e a minha unica esperança? Quem me póde valer, senão vós, que sois um Deus de infinita misericordia, e piedade para com os miseraveis peccadores? Quem se hade compadecer de mim, senão vós, que sois Pae de infinita bondade, e amor para com todos os vossos filhos? Concedei-me pois efficazes auxilios da vossa graça, para conseguir os fructos do Santo Sacramento da Penitencia, que eu vou receber. Dai-me, Senhor, uma intima compunção, e humildade, como déstes ao Publicano: dai-me lagrimas de verdadeiro arrependimento, como déstes a S. Pedro: dai-me um ternissimo amor da vossa Divina Magestade, como déstes a Santa Magdalena, para que, imitando eu estes grandes exemplares da penitencia, seja minha alma justificada pela vossa graça cá na terra, e algum dia glorificada pela vista da vossa Divina face lá no Ceo. Amen.


Eu vos rogo, que escutando
De crimes o pregão,
Se enterneça, e se condoa
Vosso meigo coração.

Que os golpes, que sobre mim
Descarregar doloroso,
Subão ao Ceo, fação ecco
No vosso peito amoroso.

Que os propositos amantes,
De nunca mais vos fugir,
Desse braço vingador
A espada fação cahir.

E que no feliz momento,
Em que me achar perdoado,
Solteis os braços da Cruz,
Eu fique nelles cerrado.

As negras vestes da culpa
Despi-me, Senhor, rasgai;
E as galas da virtude
Sobre minh'alma lançai.

Tendo a veste nupcial,
Possa... Que grande ventura!
Ter lugar, ter aposento
Comvosco, em gloria futura.


ORAÇÃO.

Para depois da Confissão.



Amantissimo Senhor Jesus, e Deus meu, tenho recebido o Santo Sacramento da Penitencia, como meio, que vós ordenastes para remissão de todos os nossos peccados. Por tanto vos rogo, meu amabilissimo Redemptor, pelos vossos infinitos merecimentos, pelo preciosissimo Sangue, que por mim derramastes, me concedais um geral perdão de todas as minhas culpas, e imprimais na minha alma os maravilhosos effeitos deste Santo Sacramento. Não sejão, Senhor, os meus peccados mais poderosos para condemnar-me, do que os vossos Sacramentos, e vossa graça para salvar-me. Acceitai pois benigno esta minha sincera, e dolorosa confissão; e se nella commetti alguns defeitos por falta de dor, ou de inteireza, ou por qualquer outra circunstancia, com que a devia fazer, eu vos rogo, que tudo suppra em bem da minha alma a vossa infinita misericordia, e piedade. Amen.


Ah! meu Deus, e quem soubera
Devidas graças render
Por tão singulares dons,
Que acabo de receber!

Boca ingrata, que até agora
Blasfemaste o Senhor,
Manda ás nuvens os teus brados,
Publica seu grande amor.

Peito rebelde, e aleivoso,
Que dominou o peccado,
D'hoje em diante sómente
Serás a Deus consagrado.

Permittí, que a vossa graça
No meu coração lançada,
Delle não torne a sahir,
Fique dentro em mim fechada.

Que faça contínua guerra
Ás minhas crueis paixões,
Que sempre combata, e vença
Perversas inclinações.

Que os meus desvelos só queira
Em vós constante empregar,
E sobre as vossas pisadas,
Té á morte caminhar.



ACTOS

Que se devem fazer antes da Communhão com muita pausa, e fervor
.



I.

ACTO DE FÉ.



Ah, meu amantissimo Salvador, que excesso de amor, que abatimentos da vossa Divina Magestade praticastes, para vos unirdes a mim nesse adoravel Sacramento! Sim, vós, sendo Deus, vos fizestes homem; sendo immenso, vos fisestes menino; sendo Senhor, vos fizestes servo: descestes do seio do Eterno Pae ao ventre de uma Virgem; do Ceo a um Presepio; do Throno da Gloria a um patibulo de justiçados, e esta manhã sahis desse Sacrario para virdes habitar dentro do meu peito.


Eis-alli, ó alma minha, o teu amante Jesus, que ardendo naquelle mesmo amor, com o qual te amou na Cruz, morrendo por ti, está naquelle Divino Sacramento esperando que tu o venhas a receber, e desde alli está observando os teus pensamentos, o teu amor, os teus desejos, as tuas pretenções, e as offertas, que vás a apresentar-lhe.


Eia pois, alma minha, aparelha-te para receberes a Jesus; e primeiramente dize-lhe com fé: É possivel, meu amado Redemptor, que daqui a poucos instantes haveis de vir a mim! Um Deus infinito a um peccador tão máo, como eu sou! Ó Deus escondido, desconhecido da maior parte dos homens, eu vos creio, vos confesso, e vos adoro no SS. Sacramento por meu Senhor, e Salvador. E por confessar, e defender esta verdade, voluntariamente daria a propria vida. Vós vindes para me enriquecer das vossas graças, e para unir-vos todo a mim. Ah! e quanta deve ser, Senhor, a minha confiança, sabendo que vindes por motivos tão amorosos!



II.

ACTO DE CONFIANÇA.



Alma minha, dilata o teu coração. O teu Jesus póde fazer-te todo o bem: elle te ama excessivamente, espera pois grandes favores deste teu amante Senhor, que movido do seu grande amor, vem a consolar-te. Sim, meu amado Jesus, eu confio na vossa bondade, que entrando vós hoje no meu peito, accendereis no meu pobre coração a suave chamma do vosso amor puro, e um efficaz desejo de executar em tudo a vossa santissima vontade.



III.

ACTO DE AMOR.



Ah, Deus meu, Deus meu, verdadeiro, e unico amante da minha alma! e que mais podeis fazer, Senhor, para serdes de mim amado? Não vos bastou o morrerdes por mim; quizestes instituir esse grande Sacramento, para vos dardes todo a mim, e unirdes o vosso coração ao meu coração, ao coração de uma creatura tão má, e tão ingrata, como eu sou. Oh amor immenso! Amor incomprehensivel! Amor infinito! Um Deus quer dar-se a mim!


Alma minha, tu o crês? E que fazes? Que dizes? Ó Deus, ó Deus, ó amor infinito, unico objecto digno de todos os amores: eu vos amo com todo meu coração, amo-vos sobre todas as cousas, amo-vos mais que a mim mesmo, mais que a minha propria vida. Oh! se eu pudesse fazer que todas as creaturas vos amassem quanto vós mereceis! Ah! quem me dera amar-vos com aquelle amor, com que vos amão os Serafins; com aquelle amor, com que vos ama minha Mãe, e Senhora, Maria Santissima! Affectos terrenos, sahi do meu coração. Mãe do amor formoso, Maria Santissima, ajudai-me a amar aquelle Deus, que tanto desejais ver amado.



IV.

ACTO DE HUMILDADE.

És tu, alma minha, que vás a receber o sagrado Corpo de Jesu Christo? E és tu digna de tão alto fervor? Ah! Deus meu! Quem sou eu, e quem sois vós? Eu bem sei, e confesso, que vós sois um Deus de Magestade infinita, e inconprehensivel, e quem eu sou, vós o sabeis, Senhor.


E é possivel, meu Jesus, que vós, pureza infinita, desejeis entrar em uma alma tão impura como a minha, e que tantas vezes tem sido manchada com o lodo vil dos meus enormes peccados! Ah! Senhor, á vista da vossa infinita Magestade, e da minha grande miseria, eu me envergonho de apparecer diante de vós. O temor, e o respeito me querem separar de vós, mas, se me retiro de vós, aonde irei? A quem hei de recorrer? E que será de mim? Não, Senhor, eu não quero ausentar-me de vós, antes desejo cada vez mais avizinhar-me a vós. Venho pois, ó meu amavel Salvador, venho a receber-vos esta manhã humilhado, e confuso pelos meus peccados; mas todo confiado na vossa piedade, e no amor, que vós me tendes.



V.

ACTO DE CONTRIÇÃO.



Quanto me peza, ó Deus da minha alma, de vos não ter amado, todo o tempo da minha vida! antes, em lugar de vos amar, por satisfazer os meus depravados appetites, tantas vezes offendi, e desgostei a vossa infinita bondade. Eu vos voltei muitas vezes as costas: eu desprezei a vossa graça, e amizade. Ah! quanto me peza, Senhor! Quem me dera que se partira o meu coração de dôr! Aborreço mais que tudo, as offensas, que vos tenho feito, assim graves, como leves. Eu espero que vós já me tenhais perdoado; mas, se ainda me não tendes perdoado, perdoai-me antes que eu agora vos receba: lavai com o vosso Sangue esta alma, em que quereis vir habitar daqui a poucos instantes.



VI.

ACTO DE DESEJO.



Eia pois, alma minha, é chegada a hora feliz, na qual o teu Jesus ha de entrar no teu pobre coração. Eis aqui o Rei do Ceo, o teu Redemptor, e Deus, que já vem a ti. Dispõe-te a recebê-lo com amor. Chama por elle com efficaz desejo. Vinde, ó Jesus meu, vinde á minha alma, que muito vos deseja. Primeiro que vos deis a mim, Senhor, quero eu dar-me todo a vós. Eu vos entrego o meu miseravel coração; acceitai-o, e vinde depressa tomar posse delle.


Vinde, meu Deus, depressa, e não tardeis, unico, e infinito bem meu, meu thesouro, minha vida, meu paraiso, meu amor, meu tudo: eu quizera receber-vos com aquelle amor, com que vos recebem as almas mais santas; com aquelle amor, com que vos recebia Maria Santissima.


Virgem Soberana, e Mãe minha, eu me avizinho já a receber o vosso Filho. Dai-me, Senhora, esta manhã o vosso Jesus, como o déstes ao Santo Velho Simeão: eu das vossas purissimas mãos o quero receber: dizei-lhe que eu sou vosso servo, e devoto, porque assim olhará elle para mim com olhos mais amorosos. Assistí-me, valei-me.




ORAÇÃO.

Para antes da Communhão.

Dulcissimo, e amantissimo Senhor Jesus, a quem agora desejo receber, vós sabeis minha enfermidade, as necessidades que padeço, em quantos males, e vicios tenho cahido, e quantas vezes fui opprimido, tentado, e enxovalhado: em vós tenho toda a consolação, allivio, e remedio. Fallo com quem tudo sabe, e conhece todos os meus interiores, e só me póde perfeitamente consolar, e ajudar. Vós sabeis o bem de que mais necessito, e quanto sou falto de virtudes para dignamente vos receber. Purificai pois minha alma das manchas de minhas culpas, fazei-a digna morada vossa: communicai-lhe vossas graças especiaes, enchei-a de vossos soberanos dons abrasai-a nos incendios do vosso Divino amor; para que depois de vos receber dignamente cá na terra, chegue tambem a gozar-vos eternamente la no Ceo. Amen.


Como o servo, que procura
As correntes sequioso,
Assim corro eu hoje a vós,
Meu Jesus, Pae amoroso.

A Fé me dirige, e guia
Ao Augusto Sacramento,
Aonde a minh'alma encontra
O conforto, e o alimento.

Se vos não vêem os meus olhos,
O meu coração vos vê,
E desmente os meus sentidos
A minh'alma, que em vós crê.

E sois vós, meu Deus, o mesmo
Que á terra humilde baixais?
E em certa circumferencia
Vossa grandeza acanhais?

Perdeis por amor de mim
O Poder, e a Magestade?
Onde está a vossa gloria?
Onde a vossa immensidade?

Tamanho amor, e clemencia?
Nem eu sei avaliar,
E menos ainda posso
Com meus excessos pagar.

ORAÇÃO.

Para depois da Communhão.



Ó Clementissimo Jesus da minha alma, com toda a humildade rogo á vossa Divina Clemencia, que este SS. Sacramento de vosso Corpo, e Sangue, que indignamente recebi, seja purgação de todos os meus peccados, esforço da minha fraqueza, defensa contra todos os perigos do mundo, alvará de perdão, firmeza de graça, memoria da vossa Paixão, alento da minha fadiga, e viatico da minha peregrinação; que andando, me guie, errando, me encaminhe; tornando, me receba, tropeçando, me sustente; cahindo, me levante; e perseverando, me faça entrar na vossa Gloria. Amen.



ACÇÃO DE GRAÇAS.

Para depois da Communhão.



Eu espero, Senhor, que desse Santo Sacramento me haveis de deitar vossa santa benção, que me haveis de encher de bens espirituaes, e corporaes, que me haveis de remediar neste trabalho, e necessidade, que vos apresento, que me haveis de fazer humilde, e conceder as mais virtudes, que desejo. Amen.


Espero que de vós me hade vir todo o meu bem, que me haveis de cumprir todos os meus desejos; e sendo encaminhado ao vosso santo serviço, como não esperarei eu em quem tanto me amou, que morreu por mim, na Cruz, só a fim de me salvar? Eu já desde agora firmemente protesto de todo o meu coração, com vossa graça, e auxilios, Senhor, de emendar a minha vida, e de perdê-la mil vezes antes do que offender-vos uma só. Dai firmeza a este meu proposito, luz ao meu entendimento, lembrança á minha vontade, para que me peze de tantos peccados, me castigue, me afflija, para que faça penitencia delles, e soffra todas as injurias do meu proximo por vosso amor santissimo. Em vós, senhor, confio de não ser confundido eternamente, e assim o permita a vossa infinita misericordia. Amen.




ACTOS.

Para depois da Communhão.



I.

ACTO DE FÉ.



Já o meu Deus veio a visitar-me, o meu Salvador a habitar na minha alma. Já o meu Jesus está dentro de mim. Oh bondade infinita! Oh misericordia infinita! Oh amor infinito! Um Deus veio unir-se comigo, e a fazer-se todo meu! Alma minha agora que estás tão unida com Jesus, que fazes? Que lhe dizes? Não fallas com o teu Deus, que está dentro de ti? Eia pois, aviva outra vez a tua fé, considera que os anjos estão á roda de ti adorando o seu Deus, que está dentro do teu peito. Adora tu agora tambem dentro de ti o teu Senhor, recolhe-te em ti mesma, e lança fóra de ti todos os outros pensamentos: une todos os teus affectos ao teu Deus, e dize-lhe:



II.

ACTO DE HUMILDADE.



Ah, meu Jesus, meu amado, meu bem infinito, meu tudo! Onde estais, Senhor? Dentro do meu coração? De um coração tão ingrato, tão cheio de amor proprio, e de appetites desordenados? Quizera dizer-vos com S. Paulo: Sahi, Senhor, auzentai-vos de mim, porque sou muito indigno de hospedar um Deus de infinita Magestade. Ide habitar naquellas almas puras, que vos servem com tanto amor. Mas que digo, meu Redemptor? Não vos separeis de mim; porque se vós me deixais, fico perdido. Eu me uno a vós, vida minha: muito louco fui, Senhor, quando me apartei de vós por amor das creaturas; porém protesto agora na vossa presença, que não quero jámais separar-me de vós: o meu desejo é viver, e morrer unido a vós.


Maria Santissima, Serafins, almas que amais a Deus com puro amor, communicai-me os vossos affectos, para que eu faça a companhia, que devo ao meu amado Senhor.



III.

ACTO DE AGRADECIMENTO.



Meu Deus, e Senhor, eu vos dou graças da mercê, que me haveis feito esta manhã, de virdes habitar na minha alma, mas quizera dar-vos um agradecimento digno de vós e do grande favor, que me tendes feito. Porem que agradecimento póde dar-vos uma creatura tão miseravel, como eu sou? Se o mancebo Tobias não achava em si possibilidade para agradecer dignamente ao Anjo S. Rafael os beneficios temporaes, que lhe tinha feito, como vos poderei eu, Senhor, agradecer, não os beneficios temporaes, mas o do vosso Corpo, e Sangue Sacramentado, que agora me déstes em alimento?


Ah, Senhor! Acceitai ao menos os ferverosos desejos, que tenho de vos ser agradecido. E vós, Mãe, e Senhora, Maria Santissima, Santos meus advogados, Anjo da minha guarda, almas, que viveis abrazadas no amor de Deus, vinde ver, e admirar o excessivo favor, que o Senhor agora me fez; e dai-lhe por mim as graças.


Mil graças vos dou, Senhor,
E vos rendo adorações
Por tão pasmosas finezas,
Por tantas consolações.

A vossa Mão liberal
Dei-me, meu Deus, a beijar;
Mas que arrojo!... aos vossos pés
Eu só me devo lançar.

A face, Senhor, por terra
Eu ponho com humildade,
Só assim devo adorar
A soberana Divindade.

Ao vosso Nome Bemdito,
Por tão distinctos favores,
Eu mando já, meu Jesus,
Agradecidos clamores.

Eu vos prometto, eu vos juro
De nunca mais vos deixar,
E que os meus ternos desvelos
Só em vós hei de empregar.

Embora prepare o mundo
Para me prender novos laços,
A todos, Senhor, a todos
Quero fazer em padaços.


IV.

ACTO DE OFFERECIMENTO.



Ah! Senhor, já que vós vos dignastes de visitardes hoje a pobre casa de minha alma, eu vola offereço com toda a minha liberdade, e vontade. Vós vos tendes dado todo a mim, e eu me quero dar todo a vós; sim, sejão vossos os meus sentidos, para que me sirvão só para vos agradar: sejão vossas as minhas potencias, de tal sorte que a memoria me não sirva mais que para lembrar-me de vosso amor: o entendimento só me sirva para cuidar de vós, e a vontade só se empregue em vos amar. Tambem vos consagro, e sacrifico, meu dulcissimo Salvador, esta manhã tudo quanto tenho; os meus pensamentos, os meus affectos, os meus desejos, os meus gostos, as minhas inclinações, a minha liberdade; em fim nas vossas mãos entrego o meu corpo, e a minha alma.


Acceitai, ó Magestade infinita, o sacrificio, que vos faz de si mesmo o peccador mais ingrato, que tem havido sobre a terra, mas que agora se offerece, e entrega todo a vós. Fazei, Senhor, de mim tudo quanto vos agradar. Vinde, ó fogo consumidor, ó amor Divino, e destruí em mim tudo que não agrada aos vossos purissimos olhos: fazer que de hoje em diante eu seja todo vosso, e viva sómente para seguir, e obedecer, não só aos vossos preceitos, e conselhos, mas ainda aos vossos santos desejos, e ao vosso maior gosto.


Ó Maria Santissima, apresentai com as vossas purissimas mãos á SS. Trindade esta minha offerta, e alcançai-me que a acceite, e me communique a graça de ser-lhe fiel até á morte.



V.

ACTO DE PETIÇÃO.



Alma minha, que fazes? Não percas este tempo precioso, em que pódes receber todas as graças que pedires. Não vês ao Eterno Pae, que está amorosamente olhando, e vendo dentro de ti o seu amado Filho, o objecto em que mais se compraz o seu amor? Ah! Lança fóra de ti todos os pensamentos mundanos, aviva a tua fé, dilata o teu coração, pede quanto quizeres.


Não sentes ao mesmo Juiz, que te diz: Alma, dize o que queres de mim. Eu vim para te enriquecer, e para te contentar: pede com confiança, e alcançarás quanto pedires.


Ah, meu dulcissimo Salvador! Já que viestes á minha alma para me communicardes as vossas graças, e desejais que eu vo-las peça, eu não busco, Senhor, os bens da terra, não as riquezas, não as honras, não os contentamentos do mundo: o que humildemente vos peço agora é uma grande dôr dos meus peccados; uma luz, que me faça conhecer á validade deste mundo, e o merecimento, que vós tendes para ser infinitamente amado. Trocai este meu coração em tudo conforme à vossa santissima vontade; um coração, que não busque mais que o vosso agrado, que não aspire mais que ao vosso santo amor. Eu não mereço isto, mas vós o mereceis, ó meu amado Jesus. Eu vo-lo peço pelos vossos merecimentos, e da vossa purissima Mãe e pelo amor que tendes a vosso Eterno Pae.


Aqui poderá pedir qualquer outra graça particular para si, e para o proximo
.
Não se esqueça dos peccadores, e das almas do Purgatorio, e rogue tambem por mim
.




RELIGIOSOS PROTESTOS

I.



Eu o mais miseravel e maior de todos os peccadores, com o mais profundo respeito e submissão, humildemente prostrado ante o Throno de vossa Divina Magestade, e na vossa adoravel e respeitavel presença, protesto que creio firmemente tudo quanto crê e ensina a Santa Madre Igreja Catholica Apostolica Romana, unica e verdadeira Igreja, fóra da qual não ha salvação, pois só esta foi instituida por Vós, verdadeiro Deus, e verdadeiro Homem, Verbo Divino feito carne para redempção dos homens, Redemptor e Salvador nosso, Supremo Juiz que nos haveis de julgar, unigenito do Eterno Pae consubstancial com elle mesmo, e com Elle e com o Espirito Santo o mesmo e Unico Deus. N'esta Fé, cujos mysterios todos e cada um dos seus artigos aqui hei por explicitamente confessados, e na qual por misericordia Vossa, Senhor, tenho vivido desde o meu baptismo, protesto querer constante e inviolavelmente persistir, e apezar de tudo permanecer até ao ultimo instante da minha vida. Protesto vencer e desprezar, mediante a Vossa Graça todas as tentações com que o inimigo commum do genero humano me possa accommetter contra qualquer dos Dogmas ou verdades reveladas ensinadas pela Santa Madre Igreja, para o que imploro a Vossa Divina Graça, só com a qual poderei triumphar do mesmo inimigo; e se por desgraça minha, acontecer, que alienado dos sentidos, eu diga, pense ou faça alguma cousa que seja, ou pareça ser contraria, ou menos conforme a estes meus protestos, desde já para sempre tudo isso retracto, desdigo, revogo, desprezo, e declaro que nada d'isso é minha vontade, e que só é a renuncia, resistencia, combate, e vencimento de tudo quanto for opposto ou menos conforme á Vossa Divina Fé.



II.



Protesto na vossa adoravel presença, Senhor, que desejo render-vos infinitas graças, por me haverdes tirado do nada, creado para Vós e á Vossa imagem e semelhança, especialmente por me haverdes feito Christão, chamando-me ao santo baptismo, e por elle ao seio da santa Igreja, concedendo-me o preciosissimo dom da Fé com as mais virtudes infusas, e adoptando-me por vosso filho e herdeiro do Ceu, isto só a impulsos do vosso amor e Misericordia, dignando-vos escolher-me entre milhares e preferir-me a um sem numero d'almas, que por vossa terrivel e adoravel Justiça foram deixadas na massa da perdição. Ah! que graças podem ser bastantes para tão especial e gratuita predilecção!


E que direi eu da particular providencia com a qual desde os meus primeiros annos, desde o principio da minha existencia no mundo, tendes vigiado sobre mim como o mais desvelado e amante Pae, fazendo sensivel por modos tão notaveis, particulares, e até extraordinarios um cuidado paternal o mais solicito e extremoso! Que direi da pasmosa paciencia com que tendes soffrido minhas enormes ingratidões e offensas, com que me tendes esperado, com que, como a porfia comigo, quanto mais vos tenho offendido, com quanto mais profusão, vós me tendes accumulado de graças, de dons e de beneficios! Bemdito sejais, Senhor, por toda a Eternidade. Oh! se todos os meus membros se convertessem em lingoas, nem ainda assim, bastariam para assaz vos louvar e engrandecer! Gloria, honra e louvor vos deem por mim todas as creaturas. Fazei Senhor, por vossa infinita Misericordia, que até ao ultimo instante da minha vida eu permaneça n'estes sentimentos de gratidão, que os renove com maior fervor na hora da minha morte, e que vá louvar-vos e bemdizer-vos por toda a Eternidade.



III.



Posto que os meus peccados tenham sido sem numero e mui graves e enormes, protesto que nem por isso ó meu Deus, desconfio da Vossa Divina Misericordia a respeito do perdão d'elles e da minha salvação, antes pelo contrario muito confio que toda a Trindade Santissima pelos infinitos merecimentos da Vossa Paixão e Morte, se ha de compadecer de mim, perdoar-me e salvar-me; mas para que esta esperança não seja da minha parte temeraria, protesto e desejo de todo o coração animala com a pratica das boas obras e exato cumprimento dos meus deveres, para o que repito e renovo aqui, e proponho renovar e repetir na hora da minha morte as promessas do meu baptismo, renunciar satanaz, ás suas pompas, e obras, promettendo de conformar a minha vida com a minha fé, e de vos amar, servir, obedecer em quanto viver, e vos rogo e supplico o mais efficazmente possivel me concedaes a graça da preserverança e me assistaes com o vosso poderoso auxilio agora e sempre, porem especialmente na hora da minha morte.



IV.

Já que até aqui tenho sido tão ingrato duro, e rebelde para comvosco, meu amorosissimo Redemptor, que não só vos não tenho amado como devo, antes offendido, e negado o por tantos e tão rigorosos titulos, devido tributo d'amor; já que sendo Vós o centro do meu coração, e devendo o meu coração ser todo para Vós, eu desgraçadamente em logar de vos amar com todo o meu coração, é talvez a Vós a quem menos tenho amado: agora protesto, e desejo anciosamente d'aqui em diante, até ao ultimo momento da minha existencia, amar-vos sobre todas as cousas, com todo o meu entendimento, com todo o meu coração, com toda a minha alma, e com todas as minhas forças e só a vós amar, e ser o vosso amor o unico dominante e soberano do meu coração.


Por amor de Vós, ó meu Deus, eu protesto tambem d'aqui em diante amar ao meu proximo como a mim mesmo. Por amor de Vós perdôo do coração a todos os meus inimigos, a todos quantos me teem offendido, ou querem offender, ou teem feito, ou desejam por qualquer modo ou maneira fazer mal: perdoae-lhes Senhor, não os castigueis: retribui-lhes antes em bens e graças, o mal que me houverem feito ou desejado fazer.


Por amor de Vós eu humildemente peço perdão a todos que eu tiver offendido e escandalisado por palavras, obras, máus exemplos, ou por simples descuidos e omissões: desejo dar todos, e a cada um, a devida satisfação e reparação, e muito vos supplico. Vos digneis fazer-me conhecer o que a este respeito devo praticar para allivio da minha consciencia, promettendo eu tudo promptamente executar antes que chegue a hora da minha morte.



V.



Não é possivel, ó meu Deus, bem amar-vos sem ter um grande pezar de vos não ter amado, por isso, muito e muito me pêza de vos não ter amado, e de vos haver tanto offendido: protesto nunca mais offender-vos; proponho emendar-me. Abomino e detesto tudo quanto é peccado; declaro e protesto que desde agora até ao ultimo instante da minha vida não quero mais desagradar-vos, não quero consentir em pensamento algum contra a vossa divina Lei: antes tormentos, antes infamia, antes total perda de bens e de saude, antes morte do que um só peccado e offensa do meu Senhor. Quem dera a meus olhos lagrimas perennes e inconsolaveis, para chorar de dia e de noute os meus peccados! Oh! se o coração se me partira de dor e contrição de os haver commetido! Se eu morresse de excesso de pezar e arrependimento de ter peccado! Só Vós ó meu Jesus, me podeis conceder tão especiaes graças; eu as desejo sinceramente no meu coração, eu vol-as supplico humilde e anciosamente. Mas que! um tão grande peccador ainda ousa pretender ser ouvido e attendido? Uma creatura tão ingrata e rebelde, ainda se atreve a supplicar graças, e graças tão especiaes? Sim, ouso e supplico porque a Vossa Bondade, Amor e Misericordia para com os peccadores não tem limites. Oh! se tambem houvera remedio para não ter peccado! Custasse elle o que custasse; custasse o sangue das veias, custasse a propria vida, todo o Sangue, mil vidas eu dera de boa vontade para Vos não ter offendido uma só vez. Senhor, Misericordia! Não entreis em juizo de rigor com o Vosso servo. Quem ó meu Deus apparecerá justificado na vossa presença! Continuae Senhor, a ostentar como até agora tão liberalmente tendes ostentado n'este miseravel peccador, as Vossas Misericordias Eterno Pae, fixae vossos amorosos olhos sobre a face do vosso divino filho, meu Senhor Jesu Christo, compadecei-vos de mim e perdoae-me. Esquecei-vos para sempre dos meus crimes, admitti-me á vossa Graça e amizade, e não permittaes que eu torne a perder joia tão preciosa e inestimavel. Não me deixeis jamais cahir em tentação. Fazei com a vossa poderosa Graça, que sempre, mas especialmente no transe da morte, eu possa vencer e sahir triumphante de todas as tentações e do tentador. Graça e Misericordia Senhor, digo eu agora, Graça e Misericordia desejo eu dizer na hora da minha morte.



VI.



Protesto, que eu desejo com a maior efficacia que me é possivel, receber, na proximidade da minha morte todos os Santos Sacramentos proprios dos enfermos que se acham n'aquelle perigo, e desde já, e com o maior empenho os peço. Peço o Santo Sacramento da Penitencia, e a vós, Senhor, todas as graças necessarias e convenientes para fazer então uma boa e perfeita confissão. Peço a Santissima Eucharistia por viatico, e a vós, Senhor, me concedaes os affectos mais devotos de que o meu coração é capaz, ajudado com a vossa Graça, para receber com o devido fructo o vosso Corpo, Sangue, Alma, e Divindade tão real e perfeitamente como estaes no Ceu, bem que occulto aos nossos olhos debaixo das especies sacramentaes. Peço-vos mui humildemente, ó meu amado Jesus, não permittaes que eu então fique privado da consolação de receber este preciosissimo penhor da futura immortalidade. Desejo que a devoção e fervor d'esta minha ultima communhão repare a tibieza e indignidade de todas quantas communhões tenho feito em todo o decurso da minha vida. E se por qualquer incidente eu não poder conseguir esta felecidade, desde já eu declaro e protesto, que em tal caso a minha vontade e os meus mais vehementes desejos são, de, ao menos commungar espiritualmente, e receber em desejos no meu coração o vosso Corpo Sacramentado, render-vos todos os meus affectos como se effectivamente vos recebesse, e desde já tambem rogo-vos digneis acceitar benignamente estes meus sinceros desejos, e derramar em minha alma, então mais que nunca necessitada, os vossos divinos dons e graças. Peço igualmente desde já o Santo Sacramento da Extrema-Unção, e a vós, meu Senhor Jesu Christo, a disposição necessaria para o receber, com fructo; e no caso de não o poder receber que nem por isso fique privado dos seus effeitos espirituaes e tão saudaveis, dignando-vos vós, Senhor, misericordiosamente liberalisar-mos para conforto da minha alma em tão arriscado transe, a fim de resistir corajosamente, e vencer o inimigo. Peço em fim todas as orações, assistencias, e soccorros espirituaes da Igreja, destinados para aquelle passo; a applicação da Indulgencia plenaria; e benção Papal do Santo Padre Benedicto XIV, e toda e qualquer benção e absolvição que possa ter logar então receber; a lição dos psalmos penitenciaes, o officio d'agonia, e todas as mais orações respectivas do ritual Romano, as quaes todas desejo, e me proponho repetir e acompanhar conforme o estado da enfermidade m'o permittir, se não poder com a bocca, com o coração, em espirito contrito, humilde e religioso, e desejo exhalar o meu ultimo suspiro tendo invocado muitas vezes antes com fé e devoção, e repetindo então eu mesmo com a maior ternura e fervor o vosso Santissimo e dulcissimo nome, e o de vossa querida Mãe minha Senhora, pois é assim que eu quero, proponho, e ardentissimamente desejo finalisar a vida, e entregar a minha alma nas vossas mãos.