MANOEL D'ARRIAGA
CANTOS
SAGRADOS
Logotio do editor
LISBOA
MANOEL GOMES, Editor
LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS
70--RUA GARRETT (CHIADO)--72
1899
DEDICATORIA
Ás almas piedosas e cultas em cuja convivencia
encontrei conforto, fortalesa e fé na bondade e na virtude,
e
Ás proximas gerações futuras, a quem compete a integração do destino
humano segundo o novo Ideal de Justiça
offerece e consagra estes Cantos
O SEU AUCTOR.
AO PUBLICO
A exemplo do lavrador que nas tardes melancolicas do outomno, antes que
chegue o inverno, recolhe os fructos das suas pequenas herdades, nós,
n'este periodo calmoso da existencia em que entrámos, e primeiro que a
morte nos venha trazer, com a paz da sepultura, a melhor compensação dos
nossos longos soffrimentos, deliberámos recolher e seleccionar as poesias
que escrevemos no longo periodo de trinta e dois annos, que decorre desde
1867 até hoje e que, com rarissimas excepções, devidas quasi sempre a
inconfidencias e curiosidades d'amigos, são todas ainda hoje ineditas.
Reunimol-as em quatro volumes, o primeiro dos quaes, o dos Cantos, é o
que damos hoje á publicidade.
O segundo com o nome de Irradiações, é dividido em quatro
livros--Devaneios--Imagens d'um mundo extincto--Nas Alturas--No
Lar.
O terceiro contém poesias dispersas, ensaios e fragmentos.
O quarto, um poema heroico glorificando os triumphos da Humanidade no
concerto do Universo, e onde, sob uma fórma dramatica, reatámos as
tradições gloriosas de Portugal no periodo de Renascença á futura
solução do problema humano, sob um novo ideal de justiça.
Foi este poema, a que démos o titulo de Synthese Suprema, escripto nos
tres ultimos annos que se seguiram ao nosso affastamento da politica
militante, quando abandonámos de todo o parlamento, onde a nossa voz
ficou por completo isolada e perdida...
Compozémol-o ante a ameaça constante da morte que as nossas doenças,
então aggravadas, nos punham todos os dias diante dos olhos, sem
esperanças de o levarmos ao seu termo; e foi feito a pedaços nas poucas
horas d'ocio que nos restavam dos nossos deveres profissionaes.
A poesia aos nossos olhos nunca foi um mero recreio de espirito.
Como todas as bellas artes, tende a exercer uma funcção social, hoje
tanto mais necessaria quanto é frouxa, ou quasi nulla, a que a Religião,
e a moral d'ella nascida, exerceram outr'ora nas multidões incultas, que
á falta d'um ideal filho dos tempos, que as ajude na solução do seus
tenebrosos e multiplos problemas: ou se tornam indifferentes ou
scepticas e vivem como espiritos revoltados contra todo o existente!...
A muitos parecerá contradictorio que, tendo nós combatido em toda a
nossa vida, ha mais d'um quarto seculo, o obscurantismo, os absusos e os
crimes commettidos á sombra das religiões positivas, sobre tudo da
religião dogmatica, nos aventuremos, sobre as ruinas do velho mundo e á
entrada dum novo cyclo historico, a soltar cantos d'uma tão ardente fé
religiosa!...
A resposta encontral'a-ha o leitor na nota elucidativa á poesia O que
eu vi, que adiante publicamos, e nas immediatas.
Se errámos ou não, os factos é que o hão-de decidir d'aqui mais a algum
tempo.
Só aqui diremos que para se unirem pelo Amor e pela Justiça as duas
metades da humanidade, de que depende a integração do destino humano, o
homem e a mulher, que as crenças religiosas e as demonstrações
scientificas trazem tão profundamente divorciados na vida do lar e no
foro interno; para levarmos ao povo a communhão do novo credo e
levantarmos-lhe o coração e a alma muito acima das meras questões de
interesses materiaes em que o trazem envolvido: é preciso procurar um
ideal fóra das contingencias humanas, preparar com elle as almas para os
actos fundamentaes d'abnegação e d'altruismo que reclama o problema
social, o que só se pode alcançar á sombra de religiosidade que está no
fundo da nossa natureza, mudando apenas de objectivo e de processo.
Qualquer que seja porém, a opinião em contrario de nossos
competidores, e que acatamos, é d'esperar que attendam a que, n'uma obra
d'arte, não se deve perder de vista a sinceridade do seu auctor, o fim
que se propõe servir e o meio que emprega para o alcançar.
Sob este triplice ponto de vista, em que sempre nos mantivemos, talvez
possamos contar com a benevolencia dos nossos contrarios.
Ainda uma palavra sobre as razões porque só agora, no fim da nossa
carreira, nos aventuramos a publicar estes trabalhos.
Dentre muitos outros, o motivo predominante encontral-o-ha o leitor no
respeito quasi religioso que sempre tivemos pela publicidade, por este
momento sagrado em que entregamos aos outros as nossas ideias, as nossas
opiniões, os nossos sentimentos!
Accaso terão direito a sel-o?! Irá n'elles alguma cousa que seja menos
verdadeira, menos justa, menos bella?!
E, quando tal se dê, o que pensarão de nós os que vierem a
julgar-nos?!...
Transmittindo a estranhos, sob as fórmas divinas da arte, o que havia de
melhor no nosso mundo interior, e que merecera a sancção da nossa
consciencia, não iremos susceptibilisar ou offender, apesar d'isso, o
que os outros teem de mais sagrado no coração e amam mais de que tudo?!
Não seremos nós uns illudidos que vamos com a nossa illusão concorrer
para os enganos dos outros?!
Todas estas perguntas accudiam ao nosso espirito quando nos incitavam a
imprimir estes Cantos e esperámos sempre que um mais maduro exame os
auctorisasse a sahir do recatado asylo da nossa consciencia, a ir correr
mundo e a suscitar por ventura a animadversão ou a sympathia dos
leitores!...
Que o publico encontre n'elles a grata companhia que nos fizeram tão
largos annos, é o melhor premio, se algum elles merecem, a que pode
aspirar o auctor d'estas linhas.
Lisboa, 15 de março de 1899.
Manoel d'Arriaga.
LIVRO PRIMEIRO
DEUS E A ALMA
I
O QUE EU VI
Sahi um dia a contemplar o mundo,
Por vêr quanto ha de bello e quanto brilha
Na multipla e gloriosa maravilha,
Que anda suspensa em o azul profundo!
Vi montes, vales, arvores e flôres,
Limpidas aguas, múrmuras torrentes,
Do grande mar as musicas plangentes,
Dos céus sem fim os trémulos fulgôres!
Trouxe os olhos tão ricos de belleza,
O coração tão cheio de harmonia,
De quanto havia em terra, mar e céos,
Que interpretando a sós a Natureza:
Dentro de mim esplendido fulgia,
N'um circulo de luz, teu nome, oh Deus!
II
MUNDO INTERIOR
Materia ou Força, Lei ou Divindade
Quem quer que seja que dirige o mundo,
Esparze em tudo o espirito fecundo
Do Summo Bem--Belleza, Amôr, Verdade.
Á luz d'esta Santissima Trindade,
Cercado d'esplendor, clamo e jucundo,
Sorri-me em volta o universo; ao fundo,
Por synthese Suprema, a Humanidade!
Dos homens rujam temporaes medonhos...
Que em mim, no meu labôr, do Bem sedento,
Meus dias correm limpidos, risonhos!
Estrellas que brilhaes no firmamento!
É menos bella a vossa luz que os sonhos
Que gera na minha alma o Pensamento!
III
TRISTEZA
Como isto cá por fóra é tudo alegre!
Quão bello o sol! que esplendida harmonia
A terra, o mar e os céos!
Porem dentro de mim que mundo á parte!
Que embate de paixões! Que noite funebre!
Que magoas, Santo Deus!
Ai! se as manchas que o sol no rosto esconde
Tem sobre o mundo alguem onde projectem
A triste escuridão,
Minha alma é como o espelho onde ellas caem,
Tão profunda é a mágoa que me lavra
Aqui no coração!
E eu via ha pouco o azul d'um céo sem macula!
E o sol d'esta alma fulgurante e limpido
Banha-me todo em luz!
Porém, franqueza humana! eu proprio o obrigo
A alumiar-me com a luz da frouxa lampada
D'um templo de Jesus!...
Senhor! Senhor! que um teu olhar me alegre!
Que lave o pavimento de meu peito
De muita ideia vã,
Que o mal é como a noite, e o sol apaga-a
E transforma-a na prata, ouro e purpura
Das nuvens da manhã!
Oh! tu tristeza, irmã dos desgraçados,
Que lanças no meu peito os ais plangentes
D'esses gemidos teus!
Desprende da minha alma as azas negras,
E deixa entrar alegre a luz do dia,
A luz vinda dos céos!
E vós, filhos do sol, tribus innumeras
Da familia de Deus, plantas e flôres
Insectos e animaes,
Que engolfados nos gozos do Universo,
N'esse concerto immenso de harmonias,
Nos céos a Deus louvaes:
Ah! venho-vos tomar por meus mentores,
Pois vale bem mais a luz do vosso instincto,
Que a luz d'esta razão,
Se eu não sei como vós viver contente,
Trazer o azul dos céos na consciencia,
E a paz no coração!
Lisboa
Na tapada d'Ajuda,
1869
IV
PRESENTIMENTOS
Eu bem sei que devia
Causar-te muito dó,
Em noite tão sombria
Vêres-me aqui tão só!...
Nem sei que sol m'alegra!
A sós com a minha cruz,
Sou como a nuvem negra
Que encerra muita luz!...
Como arvore sombria
Vergada sobre um val,
Assim vivo hoje em dia
Á sombra do Ideal...
Que eu tenho muita fome
De Justiça e d'Amor,
E aqui não ha quem tome
A serio a minha dôr...
O mundo vê e passa,
Como sempre passou,
Sorrindo da desgraça
Dos tristes como eu sou...
E este sonho dourado
D'amôr, que a gente vê,
Não póde estar guardado
N'esses homens sem fé!...
Ah! não! já não m'illudo
Foi isso o que suppuz;
Mas vi mudar-se em tudo
Em sombra a minha luz...
E os sonhos que já tive
Tão bellos, afinal,
São hoje um céo que vive
Sobre este lamaçal!...
Um céo que vejo, ao longe,
Exposto aos olhos meus,
Co'a mágoa com que um monge
Veria outr'ora a Deus!...
E onde ha maior castigo,
Mais dura provação,
Que ter por inimigo
O homem nosso irmão,
Aquelle a quem nós démos,
Com toda a candidez,
Os sonhos que hoje vêmos
Desfeitos a seus pés?!...
Ah! suppõe-me o desgosto,
De eu vêr desparecer
A cópia do meu rosto
Aos pés d'uma mulher,
E isto em desacato
Do meu mais santo amor:
E ahi tens um retrato
Da minha immensa dôr,
Quando vejo desfeito
Por gente ingrata e má
Um sonho do meu peito,
E muitos vi eu já!...
Por isso eu n'esta vida,
Apoz tanta illusão,
E tanta flôr perdida,
Tanta corôa no chão...
Ai! sinto com o anceio,
Que é proprio do infeliz,
Um mal n'este meu seio
Lançar muita raiz!...
Espero vêr a morte,
Eu proprio a invoquei,
Levar-me d'esta sorte
Para onde?! É que eu não sei!...
Como eu não sei dizer-te,
E isto que me consol',
Como é que se converte
Em vida a luz do sol!...
Como nasce a ventura
Do homem que morreu,
Dormir na sepultura
Para acordar no céo!...
Aqui tudo é mysterio!...
Mas visto que assim é,
Onde ha melhor criterio
Que á luz da nossa fé?
E eu creio firmemente
Que o martyr de Jesus,
Não fica só pendente
Dos braços d'uma cruz...
Que o homem que prosegue
A luz d'um Ideal;
Embora a turba o pregue
Na sua cruz fatal...
O céo é bem profundo,
O fundo nem tu vês,
E ha n'elle muito mundo,
Para onde irá talvez!...
A vida continúa,
E a alma, emquanto a mim,
Avança e não recúa
Por esses sóes sem fim!
Do sol se um raio ardente
No mar vier cahir,
Em nuvem transparente
Nós vêmol-o subir!
Não ha suster-lhe o rumo
Que o leva para os céos,
E assim é que eu presumo
Voarmos nós a Deus!...
O ponto é merecel-o,
Que Deus é justo e pae,
E eu sei com que desvelo
A si os bons attrae!
Mas quando eu vejo a lua,
Não sei que ideia má
N'esta alma me insinua
A luz que n'ella ha!...
Emquanto em torno d'ella,
Ao norte, ao leste, ao sul,
Refulge tanta estrella
Pela amplidão do azul,
Tu vêl-a solitaria,
Em paz cruzando o céo,
Como urna funeraria
D'um mundo que morreu!.
Ali já não ha vida!...
Ali não ha calor!...
N'aquella luz, vertida
Em lagrimas de dôr,
Ha só tristeza e lucto,
E confrange-se e doe
O coração, se escuto
Mulher, porque isso foi!...
Ah, tenho medo
Que o Supremo Juiz
Nos julgue assim tão cedo!...
Não sei que voz m'o diz...
Não sei... mas, se contemplo
Os crimes que ahi vão,
Mulher, aquelle exemplo
Conturba o coração!...
E assim só n'outra parte
Verão os olhos meus
Os sonhos que reparte
Commigo a mão de Deus!...
O mundo onde abre o cardo
E o lyrio ao mesmo sol;
Onde ama o leopardo
A par do rouxinol;
Que tem de andar na sombra
Para viver na luz;
E, o que inda mais m'assombra,
Onde ha Nero e Jesus:
Por mais bello e risonho
Que seja, ainda assim
Não vale qualquer sonho,
Que trago dentro em mim!...
Isto é um fraco esboço
D'uma outra vida e crê,
Que sinto-a, mas não posso
Dizer-te onde ella é!...
Se a Vida em nós começa,
Por esses sóes d'além,
Sobre a nossa cabeça.
Trabalha-se tambem!...
Mulher! mulher! quem sabe
Se é isto o que m'attrae
Aos céos, pois, tanto cabe
A Deus, que é justo e pae...
Lisboa, 1870.
V
CONSCIENCIA
Para um homem que aspira
Ao ideal da Belleza,
Não ha maior tristeza,
Magua maior não ha,
Que vêr escurecer-se-lhe
O ceu da noite escura
D'alguma ideia impura,
D'alguma paixão má!
Paixão que muitas vezes
A luz da nossa Ideia
Accende, inflama, atêa,
E depois nos attrae
Com tanto magnetismo,
Com tal encantamento,
Que o homem n'um momento
Vacilla, cega e cae!...
Cae, sim, do seio esplendido
Do mundo onde vivia
Na mais doce harmonia
Em paz co'os dias seus,
Para apagada a febre
Do seu fugaz delirio,
Achar-se co'o martyrio
De te perder oh! Deus!
Sem Ti, meu pae, que assombro!
Que noite tão completa!
Que acerba dôr me inquieta
Meu fragil coração!...
Voltar a vêr a alma
D'esperanças povoada,
E achal'a transformada
Em lugubre soidão!
Senhor! se desabassem
Á tua vóz as bellas
E limpidas estrellas
Dos ceus que não teem fim,
Eu creio que assombrado
Do horrendo cataclysmo,
O Sol, d'além do abysmo,
Seria egual a mim!
Eu lembraria a aguia,
Que a prole ainda implume
Deixando sobre o cume
De monte erguido ao ceu,
A fosse achar de subito
Na rocha alcantilada,
No ninho, fulminada
D'um raio que desceu!
Egual seria o quadro
Da minha consciencia,
Ao ver a tua ausencia
Fazer-se em mim, Senhor!
Que em volta do teu astro
Minha alma de poeta
É pallido planeta
Buscando o teu amor!
E eu sem ti nem vivo!...
Tu és, oh, doce esperança,
O seio onde descança
Meu ser e afinal
Não sei até dizer-te
O quanto soffreria,
Se vira extincto um dia
Em mim, teu Ideal!
Oh não mil vezes antes
Em carcere ermo e escuro,
Achar-me de futuro
A sós c'a minha dôr;
Extincta a luz dos olhos,
E as bellezas do mundo,
E o ceu azul profundo
Com todo o seu fulgor!
Tu crê que nem demandam
Os mundos inferiores
Fócos de luz maiores,
Por esse infindo azul,
Como eu o eterno centro
Das leis da natureza,
Do Amor, e da Belleza,
Que são meu norte e sul!
Oh Pae! se n'algum dia,
Eu vir, n'uma miragem,
Alguma falsa imagem
Do Bem prender-me aqui:
Desvenda a tua face,
E mostra-me o teu seio,
Que, mesmo embora em meio
Do abysmo, irei a ti!
Irei, tão instinctivo,
Tão amoroso e firme,
Eu sinto a attrair-me
A ti o teu poder,
Que eu vejo em ti o Norte,
Para onde se encaminha
A pura essencia minha,
Que sente, pensa e quer!
Irei vencendo, indomito,
Innumeros attrictos,
E escolhos infinitos,
E infindos escarceus,
Como essa vaga enorme
Do mar que não recua,
Seguindo sempre a lua
Que vê passar nos ceus!
Irei bem como a Terra
Seguindo eternamente
O rumo do oriente
A demandar a luz;
Bem como Jesus Christo
O rumo solitario
Da senda do calvario
Á busca d'uma cruz!
Irei cá d'este mundo
Onde tu me cedeste
A dadiva celeste
Da Rasão e do Amor:
Raios vitaes que mudam
Em luz a nossa essencia,
E a luz em Consciencia,
E esta em ti, Senhor!
Lisboa, 1869.
VI
REVELLAÇÃO
O LAGO
Scismava um dia na cruel sentença
Com que a Egreja fulmina a raça humana,
Deixando impura a fonte d'onde emana
O sangue que me anima, e a alma que pensa:
E ao passarem no ceu do meu destino
As nuvens da tristeza e da saudade,
Revellou-me o Senhor alta verdade,
Junto ás margens d'um lago crystalino!
Isto foi pelo mez do abrir das flôres,
Quando a vida celebra os seus noivados,
E o mundo, sob os verdes cortinados,
Parece um doce thalamo d'amores!
Estava um dia esplendido! a animal-o
Eu via o seio azul do ceu mais lindo
Curvar-se sobre mim, ethereo, infindo
E tepido: era um gosto enamoral-o!
Como fecho da abobada infinita,
O Sol nos ceus, riquissimo objecto,
Com barras d'ouro irradiava o tecto
Do vasto pavilhão que o mundo habita!
Côres variadas, fórmas differentes,
N'um conjuncto de graças sem egual,
Debuxavam-se ali ao natural
Sobre o crystal das ondas transparentes!
Alvas manchas d'insectos pequeninos,
Envolvendo-se em giros caprichosos,
Como tríbus de povos venturosos,
Fruiam junto ao lago os seus destinos!
Pelas balsas cantava a toutinegra,
E as rolas modulavam doces côros,
No ar passavam fremitos sonoros
Co'as vibrações da Luz que o mundo alegra!
No lago, a planta, a flôr, o ceu, a terra,
Como notas d'uma unica harmonia,
Revellaram-me á plena luz do dia,
Enlevos que o prazer da vida encerra!...
E eu via tudo, e extatico scismava:
Se por ventura a colera divina,
Segundo a Egreja ao mundo inteiro o ensina,
Do gremio dos felizes me affastava!...
E não podendo crer, embora obscuro
Vêr-me qual sou, que esta alma de poeta,
De tanto sonho explendido replecta,
Atollada estivesse em lôdo impuro...
Ai! quando a Deus pergunto se prendeu
N'um pó que é vil o espirito divino,
Olho o espelho do lago crystalino
E não encontro o lago: encontro o ceu!
O mesmo que era em cima azul, immenso,
E a lampada brilhante que o alumia,
Lá no fundo do abysmo aos pés os via,
De sorte que em dois ceus era suspenso!
E quanto se ostentava em torno ao lago,
Os muros de verdura, a flôr mimosa,
O deslisar da nuvem vaporosa,
E a voltear do insecto incerto e vago:
Outro tanto animava, ao longe, e ao perto,
Aquella região d'azul vestida,
Onde a minha alma, em extasi embebida,
Contemplava na Terra um ceu aberto!
E emquanto extasiado a sós fitava,
Nas bellezas do lago transparente,
Aqui uma flôr, além, para o poente,
A nuvemsinha branca que passava,...
Eis senão quando, uma ave, porque visse
Insectos junto da agua socegada,
Desceu subtil, aerea e delicada,
E ao perpassar roçou-lhe a superficie,...
O ponto ferido, em ondas borbulhando,
Desabrochou em curvas graciosas,
Como as folhas concentricas das rosas,
Ou lusidias cobras imitando!
E emquanto o impulso em torno se propaga
Em circulos risonhos: n'um momento,
Toda a cupula azul do firmamento
Oscilla, treme e cae, e o Sol se apaga,
E a arvore, e a flôr, e quanto junto á margem,
Em doce paz, seu rosto reflectia
No crystalino espelho, por magia
Da lei do amor, a doce lei da imagem!...
Fere-me então bem intima tristeza,
Ao vêr aos pés, em sordido tumulto,
Um lymbo verde e escuro onde occulto
Estava um ceu tão rico de belleza!...
Lembrei-me então da minha vida insana,
De quanto sonho lindo anda desfeito
Nos intimos arcanos do meu peito,
Co'o tropel das paixões da vida humana!...
E as lagrimas cahiram-me uma a uma
Sobre esses bens que a Terra e os ceus inspiram,
E ao contacto das coisas se extinguiram
Como aereos balões feitos d'espuma!
N'isto o Senhor, que tudo vê e ampara,
Converte-me de novo o charco immundo
N'um ceu azul infindo, e n'elle um mundo
Formoso como os bens que imaginara!...
Scismei então por longo espaço e digo,
Que aos olhos meus por Deus fôra patente:
Que a alma humana póde, ingenua e crente,
Vivendo em paz, um ceu trazer comsigo!
Ah muito embora a dôr seu peito opprima,
O espirito, que abrange o mundo inteiro,
Póde vêr, quanto justo e verdadeiro,
Nos seios d'alma os ceus que estão por cima!
Maxima grande, maxima tamanha,
Tão repassada d'intima poesia,
Porventura d'egual sabedoria
Á predica de Christo na montanha,
Ah! sê, por entre as sombras da desdita,
A ponte aerea, o arco d'alliança,
Que, em vez da excommunhão que a Egreja lança,
A Deus eleva a Humanidade afflicta!
Coimbra
Quinta de Santa Cruz
1871.
VII
MISSA PONTIFICAL
UM EVANGELHO
Sahi uma manhã mal vinha o sol rompendo,
E fui-me religioso a ouvir a missa ao campo,
Á vasta cathedral do mundo, aonde aprendo
Da Vida as sacras leis, que em letras d'ouro estampo.
Sentei-me sob um bosque estenso e solitario,
Que, em paz e sombra involto, á quietação me envida;
O accaso conduzira-me a um vasto santuario,
Onde ia celebrar-se a communhão da Vida!
Debaixo do docel da mûrmura floresta,
Se um culto universal é justo a Deus se vote:
Estava o templo augusto armado todo em festa,
Faltando unicamente agora o sacerdote!
O mundo em derredor aguardo-o co'anciedade...
E eil'o que chega, emfim, das bandas do oriente,
Surgindo como um Deus no azul da immensidade,
N'um carro triumphal, de raios resplendente!
Ao vel'o perpassou nas arvores sagradas
Um sopro mysterioso, o espirito do vento,
Que deixa-nos ouvir, em musicas toadas,
Psalmos que vão morrer no azul do firmamento!...
Nos multiplos florões das trémulas janellas,
Nos ramos mais subtis que a luz dos ceus colora,
Com magico fulgor scintillam, como estrellas,
Os limpidos crystaes das lagrimas d'aurora!
Nas naves, que sustêm a abbobada elevada,
Penetra triumphante a luz, suprema artifice!
Interprete de Deus, celebra a sua entrada
Com pompas, do Universo o maximo pontifice!
Assim que o sol sahio das brumas do horisonte,
Um deluvio de luz encheu o vale e o monte!
A pedra, o musgo, o insecto, a flôr, os arvoredos,
Trocaram entre si mil intimos segredos!...
Os passaros gentis, aladas creaturas,
Soltaram festivaes Hossana nas alturas!...
O sol triumphador, do mundo a vida accorda,
E esplendido festeja o eterno sursum corda!...
Estava em plena festa a Terra, mãe querida!...
E eu, em face d'ella, a contemplar-lhe a Vida!...
Então a Luz, qual flôr, subtil e sorridente,
Me disse a mim que sou seu terno confidente:
Poeta! vês o mundo alegre e harmonioso;...
Em intimo convivio unido o sol á terra,
E a terra e o sol aos céus!... No enlace auspicioso,
Permutam entre si os bens que a Vida encerra!...
A vida é sim um Bem; por isso é dada a todos!...
A todos por egual, a infindas creaturas,...
Que, em multiplo labor, e por differentes modos,
Procuram-no attingir na terra, e nas alturas!...
Áquelle que transpõe as portas da existencia
Um vinculo d'amor protege-o logo, e fica
Ao mundo inteiro preso, em mutua dependencia,
Ah desde a larva obscura ao sol que a vivifica!..
Qualquer que seja o nome, ou chama-lhe Verdade,
Belleza, Amor, Justiça: é tudo a mesma cousa!...
É quem fecunda e rege os soes na immensidade;
Quem dá ao universo a paz em que repousa!...
Por isto o mundo inteiro é todo uma harmonia!...
E sente a reanimal'o uma alma alegre e sã!
E vens de longe aqui, sedento de poesia,
A namorar-me a mim, que sou a tua irmã!
Do Sol baixei aqui a ler-te os evangelhos
Eternos de Verdade, e a missa vae findar!
Meu crente e meu poeta! é a hora: de joelhos,
Em nome do Senhor, te quero abençoar!
Á sua voz curvando a fronte: em fé immerso,
Senti entrar-me n'alma a alma do universo!...
Irmã, gemea de minha, a luminosa flôr,
Encerra-se afinal n'esta palavra==Amor==!
Quinta da Beselga
1885.
VIII
AVÉ CREATOR!
Desprende pelo espaço as azas d'ouro,
Águia de Deus, no mundo extraviada!...
Pela patria celeste, a tua amada,
Vae em busca de Deus,
Cantando um hymno em honra do seu nome,
Que meu querer e instincto insaciavel
Te guiarão, qual bussola admiravel,
Pelos infindos ceus!
Senhor! venho invocar teu nome augusto,
Em face d'estes vastos horisontes!...
Que em torno a mim o rio, a arvore, os montes,
Fallando-me de Ti,
Lançam-me n'alma um teu olhar divino,
E, com elle, um occeano de luz pura,
Que me trasborda em ondas de ventura
O que eu t'offereço aqui!
Não sob o tecto do sombrio templo,
Que a fé christã do povo erguera outr'ora
Como um tumulo, onde o homem commemora
A tua morte, oh Pae!...
Mas sob o tecto azul do Templo Eterno,
Perante o sol que passa dando a vida
Em teu nome, que esta oração sentida
Buscar teu throno vae!
Pois é--me triste a mim que as cousas brutas,
Ellas, sem alma, em gratidão me vençam:
E a Terra, emquanto o Sol lhe envia a bençam
Da sua eterna luz,
Converte-a em flôres, canticos e fructos,
E, n'um concerto alegre e harmonioso,
Tributa ao Sol um culto tão piedoso,
Que o peito meu seduz!
Tu vel'a, quando o Sol lhe affasta os raios
Do seu formoso olhar durante o inverno,
A amante debulhar-se em pranto eterno,
Das gallas se despir;
Em valle e monte as folhas, com tristeza,
Dos troncos com os ventos desprendendo-se,
E o mar, co'os ceus em lucta contorcendo-se,
Raivoso aos ceus bramir!...
Mas quando o Sol de novo a aquece e anima:
Oh que effluvios d'amôr então contemplo!...
Traz o amante a alleluia ao escuro templo,
E as trevas dão fulgôr;
Espalma a folha o ramo resequido,
E, ao som do mar que canta de mansinho,
Da terra brota a flôr, da haste o ninho,
Do ninho surge o amor!
Seja assim o meu peito! Que a minha alma,
Buscando o foco eterno e resplendente
Do Sol dos soes, o Ser Omnipotente:
Me eleve o coração
A trasbordar torrentes de harmonias,
Que entoem pela voz das creaturas:
Santo! Santo! tres vezes nas alturas,
Ao Deus da creacão!
Pois eu que sou o espirito das cousas,
O verbo inspirador, a alma, a vida;
Sinto em meu peito a gratidão devida
Á tua mão que attrae
Em giro eterno os mundos do Universo;
E eu vendo orar ao Sol a flôr n'o matto,
Não hei de só ficar injusto e ingrato
Para comtigo, oh Pae!
Seja pois o meu canto a voz do interprete,
Que moldando nas formas da palavra
A vida universal que em tudo lavra
Co'o sopro animador:
Eu possa vêr a Terra envolta em canticos,
Sobre as azas de luz da alma humana,
Remontar-se ás origens d'onde emana,
As tuas mãos, Senhor!
Quinta da Beselga
1871.
IX
SURSUM CORDA!
Oh Sol, alma do mundo! esplendido portento
D'um mar feito da luz! vulcão, cuja fornalha,
Por entre um fogo eterno, expande o movimento
Da machina febril do mundo que trabalha!
E tu, Astro do amor, que, em noite silenciosa,
Qual perola engastada em fulgidos brilhantes,
Derramas tua luz serena e voluptuosa
Nos seios virginaes das timidas amantes:
C'o os vossos esplendores,
Pela amplidão dos ceus,
Cantae altos louvores
Ao espirito de Deus!
E tu, mar rugidor! austero cenobita,
Que em vastas solidões gemendo os teus pesares,
Levantas o teu canto á abbobada infinita,
Juntando a vóz piedosa aos céllicos cantares!
E vós, filhas do ermo, alegres, crystalinas
Fontes que derivaes das fendas dos rochedos,
Ás flôres murmurando, em musicas divinas,
De amor e de ventura uns intimos segredos:
Mudae as harmonias
Da vossa eterna vóz
Em ternas homilias
Ao pae de todos nós!
Arvores que fluctuaes nos cimos das montanhas,
Altivas demandando o azul do firmamento;
Que encheis as solidões de musicas estranhas,
Se passa sobre vós o espirito do vento!
Lyrios, que abrindo o seio ao osculo amoroso
Da luz que envia o sol da abbobada azulada,
Mandaes-lhe o vosso olor no ether luminoso,
Como o habito subtil d'uma alma enamorada:
A musica e o perfume
Que desprendeis, votae
A quem em si resume
O mundo inteiro e é Pae!
Oh rabidos leões! lá quando em vossas festas,
Altivos como os reis, indomitos senhores,
Debaixo do docel das mûrmuras florestas,
Rugis como um trovão os fervidos amores!
E vós, corças gentis e timidos cordeiros,
Que em vossos corações e almas bem formadas,
Ao sangue preferis a lympha dos ribeiros,
E á carne em podridão as hervas perfumadas:
Louvae a quem fizera,
Co'o mesmo engenho e amor,
As fauces d'uma fera,
E o calice d'uma flôr!
Arvores, flôres, mar, e estrellas, e animaes,
E todos vós que entraes no giro da existência;
Que haveis nas regiões das cousas immortaes,
Por synthese suprema, a luz da consciencia:
Unindo-vos a mim, como eu á Humanidade,
Louvemos todos nós n'uma oração sentida,
Em côro festival que attinja a immensidade,
O eterno Sol dos Soes, o sabio Author da Vida!
Cantemos, creaturas!
Pela amplidão dos ceus,
Hossana nas alturas
Ao espirito de Deus!
Carvalhaes, 1886.
X
AOS CATHOLICOS
Todos vós que sois sinceros crentes,
Que oraes a Deus no intimo do peito,
Oh mysticos christãos;
Embora tenha crenças differentes
D'aquellas que seguis, eu vos respeito,
E julgo como irmãos!
Eu amo a Deus; depois a Humanidade;
Depois os bons, e d'estes o primeiro,
É Christo, o Redemptor!
Não sendo egual em tudo á Divindade,
É, como justo e homem verdadeiro,
Meu mestre e meu mentor!
Embora por fanatico me tomem
Impios e atheus, se os ha, eu lhes confesso,
Que o Martyr da Paixão
Parece-me tão grande como homem,
Que até sinto vertigens quando messo
Seu terno coração!...
Oh meu Jesus! nas luctas pela vida,
Por onde tanto naufrago fallece
No meio da viagem:
Minha alma soffredora e dolorida,
Cahiria tambem se não tivesse
A tua doce imagem!...
Eu que creio que o facho da sciencia
Nos ha de revellar, ao fim de tudo,
Que em nós se concilia
Rasão e Fé, Justiça e Consciencia:
Ah quero-te Jesus! por meu escudo,
Por meu amparo e guia!
Na Sé de Lisboa
na quarta feira de trevas
1888.